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UM FILME ORIGINAL NETFLIX
Acreditas no Inferno?
Aquele lugar de que os padres tanto falam.
Um abismo escuro e cruel para onde vão as almas condenadas.
Um lugar habitado por demónios horríveis que castigam e torturam os condenados.
O Inferno,
onde toda a esperança se perde à entrada.
As entidades do Inferno seduzem facilmente os pecadores,
com tentações que satisfazem os seus desejos
em troca das suas almas mortais.
Poucos conseguiram escapar a este pacto horrível.
Esta história, como tantas outras,
começa com um homem de carne e osso.
Um homem que superou esse pacto terrível.
Um homem tão maléfico e cruel,
que até o próprio Diabo o temeria.
Um ferreiro.
1835. PRIMEIRA GUERRA CARLISTA. ARABA, PAÍS BASCO
Soldado. Chega aqui.
Então?
Senhor, parece que estes carlistas
tentavam transportar algo para o norte.
Senhor. Veja.
Sem isto, o Zumalacárregui terá dificuldade em entrar em Bilbau.
Chega, Padre.
Não temos o dia todo.
Pelotão de fuzilamento!
Atenção!
Preparar!
Apontar!
Fogo!
Entrega isto ao major. É urgente.
Demónio.
OITO ANOS DEPOIS
Vê estas preciosidades.
Faustino, isso é lixo.
Santi, não te iludas.
Olha para isto. É uma relíquia.
São elos da corrente que o lendário Teodosio de Goñi carregou como penitência
quando testemunhou a morte do Dragão de Aralar
às mãos de São Miguel.
Se morderes isto,
aliviarás a tua dor de cabeça, Santi.
São só 30 reais.
Vende isso ao padre. Vai comprá-lo de certeza.
Bom dia.
Bom dia, senhor. Deseja beber algo?
Não, obrigado. Tem um quarto disponível?
Sim, com uma cama muito confortável. Dez reais por noite.
Muito bem.
Vou prepará-lo imediatamente.
Entretanto, não quer beber nada?
Tenho um Patxaran excelente. É o melhor do distrito.
E o Txakoli é muito bom.
Não bebo, obrigado.
Posso saber o que o traz à nossa aldeia?
Chamo-me Alfredo Ortiz.
Trabalho para o governo provinciano. Venho investigar um assunto.
Uma investigação? Sobre o quê?
Procuro uma oficina de ferreiro.
Só temos uma oficina de ferreiro e está em ruínas.
Preciso de falar com o proprietário, um tal de Francisco.
O Patxi? O ferreiro?
Nem pense nisso! Esse homem é louco.
É um animal. É tão perigoso e violento que lhe chamam O Martelo.
As pessoas daqui evitam aquele lugar. É um antro de sarilhos.
Só preciso de ir fazer uma busca.
Há lá algo de valor?
Lamento, mas isso é confidencial.
Veio sozinho? Talvez possamos ajudá-lo.
Vim antecipadamente para dar início à investigação.
A Polícia chegará dentro de alguns dias.
É suficientemente mau que nos aumentem os impostos.
Não precisamos que tragam mais miséria.
A oficina do ferreiro está em ruínas.
Não encontrará nada de valor.
Durante a guerra, derreteram tudo para fazer armas,
desde as panelas ao sino da igreja.
Esta é uma aldeia pobre.
E esse quarto?
Sim.
Benito!
Lava essa cara sonolenta e acompanha este senhor ao seu quatro.
Estou a ir.
Tapa o destilador com um cobertor.
Acompanhe-me, senhor.
Já agora, como chego à oficina do ferreiro?
Siga pelo caminho à esquerda, quando chegar ao lavadouro.
Depois, siga junto ao rio pela floresta. Mas tenha cuidado.
Aquilo é a casa do Diabo.
SAI DAQUI
Soube que hoje chegou à nossa aldeia um oficial do governo.
Fui muito ingénuo por pensar que estaria presente na missa.
É evidente o desprezo deste novo governo pela Igreja.
O Diabo está entre nós, caminha pelas nossas terras
sob a forma de ideias liberais imundas,
que afastam as pessoas de bem das palavras do Senhor.
Passaram três anos desde o fim da guerra.
Há três anos que fornicadores burgueses e avarentos
governam o país.
- O que é isso? - Nada.
Dá-me isso.
Alteraram as nossas fronteiras
e, agora, os comerciantes podem atravessar o mar livremente,
sem pagar taxas alfandegárias.
Destruíram as nossas tradições
e as nossas leis.
O que se segue?
Oremos.
Oremos a Nosso Senhor Jesus Cristo.
Recorremos a Ti, Senhor.
Benito, sabes onde está a Usue?
Porque haveria de saber? Ela deve andar por aí.
Mas tu andas sempre atrás dela.
O que queres dizer?
Tem maneiras.
Jesus, Maria e José, onde andará essa criança?
Passemos à Eucaristia. Vamos beber o sangue do Senhor.
Por amor de Deus, Blanca. Onde puseste o vinho da missa?
Ali.
Não gosto.
Não sejas insolente, Matilde. Porta-te como uma menina.
Se a tua mãe fosse viva, dava-te uma palmada.
Estás a chorar outra vez?
Jesus, Maria e José!
Não chores, não estava a falar a sério.
Toma, um presente.
Era da tua mãe, sabias?
E tu, Sr. Napoleão, consola a tua mulher, por amor de Deus.
Vamos beber o sangue do Senhor.
Que nojo.
Olá. Vieste ter connosco.
Recebeste o nosso convite.
Senta-te connosco.
Vamos continuar a missa.
Sim! Em cheio na cabeça.
O que fizeste, sua besta?
Cala-te, asquerosa. Salvei-te a vida. Ela ia morder-te.
Não, idiota! Ela era minha amiga!
Idiota és tu. Estás metida em sarilhos por teres faltado à missa.
Ir à missa é uma estupidez. É bom para idiotas como tu.
Assim, vais para o Inferno, como a tua mãe.
O quê? Vais começar a chorar?
A enforcada está a arder!
Cala-te!
Matilde!
Por favor, Usue, ajuda-me.
Não!
Aqui tens a tua boneca.
- Inclina a cabeça para trás. - Eu sei.
Porque paraste?
É o ferreiro louco.
Dizem que rapta crianças,
lhes abre a barriga e lhes come as entranhas.
O meu avô disse que ele matou a mulher.
Mete medo.
A mim não me assusta. Parece um vagabundo.
Faz pouco barulho.
- Aposto que consigo acertar-lhe. - Benito, não.
O galo cantar a esta hora é mau presságio.
Benito! Chega aqui.
O que aconteceu ao teu nariz?
Estávamos a brincar junto à oficina do ferreiro e a Us...
... e escorreguei.
Só Deus sabe o que estavam a fazer.
Porque estavam naquele lugar?
Já vos disse para não se aproximarem de lá.
- Fomos à procura da Usue. - E onde está ela?
Não sei. Ela ficou lá.
- O que faço com aquela miúda? - Perderam-na?
Porque tenho de tomar conta daquela enfezada?
Vê como falas.
Aqui está ela.
Usue. Chega aqui.
Achas que isto é normal? Desaparecer e faltar à missa?
Isso é sangue?
O vinho da missa... Roubaste-o?
Sua pirralha desavergonhada. Vou ensinar-te...
Don Mateo. Eu trato dela.
Filha, vais parar ao Inferno.
Não me importo! O Inferno é mentira!
Usue, já chega.
Deixa-me em paz! Não és minha mãe! A minha mãe está morta!
Devias ser mais dura com ela.
Ela é da sua responsabilidade e não minha, lembre-se disso.
- Santi. - O que foi?
- Porque não estás atrás do balcão? - Só um minuto, querida.
Só um minuto?
É uma carta da altura da guerra... "Carga Carlista, uma arca cheia de ouro."
Ouro?
Será isso que o janota procura?
O tesouro de Zumalacárregui.
Um tesouro? Aqui na aldeia?
Se me dão licença, isso pertence-me.
Escute, o meu filho é um cabeça-dura. Tirou isso por curiosidade.
Devia fazer uma queixa-crime.
Não faça isso. E se...
... lhe arrendar o quarto por metade do preço?
A título gratuito. É nosso convidado. O que diz?
E se me ajudar a entrar na oficina do ferreiro ainda hoje
e esquecemos tudo?
Hoje? Não sei. Talvez mais tarde.
- Santi. - O que foi?
- Tens de trabalhar no bar. - Ana.
Eu tenho de cozinhar.
Não te preocupes, irmão.
Eu e os meus amigos tratamos disto e saldo a minha dívida para contigo.
- Não é má ideia. - Ana.
Por mim, tudo bem.
Acha que há ouro na oficina do ferreiro?
Seis quilos de ouro.
Doados pelo Czar da Rússia à causa carlista
para ajudar o Capitão Tomás Zumalacárregui a fazer um cerco a Bilbau.
Mas o ouro nunca chegou ao seu destino.
Como sabe tudo isso?
Circulavam boatos entre os soldados.
Achava que eram histórias para nos entreter.
Mas também diziam que havia lâmias nas margens do Bidasoa,
mulheres com pés de pato.
Cala-te. Já estamos fartos das tuas histórias.
Esta carta e os documentos de alistamento apontam na direção do ferreiro.
No seu lugar, não me aproximava daquele lugar.
Sabe como encontraram a mulher dele.
Ela suicidou-se por estar tão infeliz com ele.
O Martelo perdeu o juízo,
deixou de falar com as pessoas e começou a ser violento.
Deixou o Fermín coxo, o produtor de mel, apenas por lhe dirigir a palavra.
À noite, conseguimos ouvi-lo, ao longe,
a bater com o martelo na bigorna.
Por vezes, também se ouvem gritos terríveis que nos gelam o sangue.
Uns dizem que é o fantasma da mulher a gritar.
Outros dizem que é o Diabo,
que quer levar a alma do ferreiro.
Posso saber qual é a piada para me poder rir também?
Não é nada. Estávamos a comentar que estás muito elegante.
É a boina que o meu pai usou durante a guerra.
Entrem e investiguem o local até encontrarem algo suspeito.
Não vem connosco?
Só iria atrapalhar. Não sirvo para trabalho de campo.
Como queira.
Há uma corrente.
Agora já não se riem?
Como combinámos. Vamos.
Saiam daqui!
Escute, preste atenção...
Saiam daqui!
Estamos numa missão oficial. Somos representantes do governo.
Abra a porta. Isto é uma rusga.
Já disse para saírem daqui!
Por favor, abra a porta, senão entramos à força.
Abra a porta para o seu próprio bem.
Retroceda!
Miguel!
Sai daqui.
- Onde está o Lucas? E o janota? - Não sei. Foge!
Que boneca tão feia. Não tem cabeça.
A minha é bonita. O meu pai comprou-a para mim.
Posso pegar-lhe?
Não! Não deixes. Ela pode brincar com a sua boneca morta.
Não está morta.
Se não tem cabeça, não pode comer, por isso, irá morrer.
A minha mãe diz que a mãe dela se enforcou.
A tua mãe está no Inferno. Deixa-nos em paz.
Vai-te enforcar com uma corda!
Vai-te enforcar com uma corda!
Vai-te enforcar com uma corda, asquerosa.
Tu não estás morta.
Deixa isso aí e vai pôr lenha na fogueira.
Sim.
Usue, por vezes, sou severo contigo, eu sei.
Tenho de ser, para te manter no bom caminho.
Mas quero que saibas que podes contar sempre com a minha ajuda.
Quando alguém se enforca e morre, vai sempre para o Inferno?
O suicídio é um pecado mortal. Sabes disso.
O Inferno é o único lugar para onde essas pobres almas podem ir.
Mas se essa pessoa não for má, não há forma de a trazer de volta?
Há coisas que não têm solução, filha.
Mas?
Chega de disparates. Esquece isso.
Usue, aonde vais?
Mas para ti ainda há solução.
Não te preocupes, Matilde.
Encontrarei a tua cabeça e voltarás a estar viva.
Onde está a pá?
Está aí alguém?
Não faças barulho. Ajuda-me, por favor.
Tira-me daqui antes que ele volte.
Ele magoa-me.
É um monstro. Por favor, amiguinha, tira-me daqui.
As chaves. Estão no cinto dele. Tens de as ir buscar.
Como? Não vou conseguir...
Sim. Tu vais conseguir, amiguinha.
Não me deixes aqui. Isto é horrível.
Ele está de volta. Esconde-te.
Sim, esconde-te. Filho da puta.
Vamos.
Rápido. Antes que ele acorde...
Para. Deixa-me ser eu a fazê-lo.
Se deres mais um passo, arranco-lhe a cabeça.
Por Abraxas, isto não termina aqui, ferreiro.
A tua alma pertence-me. É minha.
Voltarei com o hospedeiro mais infernal e horrível que encontrar
para te arrancar a alma enquanto morres,
gritando num suplício insuportável.
Vou levar este petisco para a viagem.
O meu corno. Filho da mãe degenerado!
Vou abrir-te ao meio e comer-te as entranhas.
- Cuidado! - Nem sequer conseguiste entrar?
Aquele lugar é uma fortaleza.
É óbvio... ele tem o ouro.
Eu disse-vos para não irem lá.
Temos de o apanhar, em honra do Lucas. Olho por olho.
Não sejas estúpido. Também queres morrer?
Não vou voltar.
- Santi! - O que foi?
Onde está o Benito? Está a escurecer.
Não sei. Não vês que estou ocupado?
Devias preocupar-te mais com a tua família...
- Ana. - ... e menos com estes asnos.
Este asno é meu irmão.
- Olha. Ali está a peste. Chega aqui. - Benito!
Pede desculpa à tua mãe por a teres deixado preocupada.
Espera, Santi. Aconteceu algo à Usue.
Ele apanhou-a. O ferreiro apanhou-a.
Ele levou-a. E o Diabo também estava lá.
Tem calma, Benito.
O que estás a dizer? O ferreiro levou a Usue?
Sim, e parecia...
... que ela estava morta.
Fica com a tua mãe.
Pobre criança. Temos de a ajudar.
Aquele homem é um perigo.
Pelo poder em mim investido pelo governo,
autorizo-vos a tomar as medidas necessárias.
Aquele filho da mãe degenerado.
Vou até lá.
Ana, diz a todos os que conheces
para trazerem uma arma e virem ter ao caminho para a oficina.
- Tem cuidado. - Quem vem comigo?
Conta comigo. Mais alguém?
Um dia, virão à minha procura.
E atirarei a tua alma para um abismo horrível e escuro!
Vê só quem sentiu a tua falta.
Faz o que quiseres. Não me importo.
O tempo não passa para mim.
Mas tu, mais cedo ou mais tarde, morrerás
e acabarás por cumprir a tua parte no pacto que fizeste.
Agora, não há nenhum pacto.
Dei-te o que querias.
Chegaste a casa são e salvo para veres a tua mulher.
Mas não devia ter sido daquela forma!
Não tenho culpa que sejas um ogre e que a tua mulher tenha arranjado outro.
Podes fazer o que quiseres comigo, mas o pacto feito é inquebrável.
O Inferno nunca deixa pontas soltas.
Estás a ouvir? Não há pontas soltas!
O que estás a fazer aqui?
Sai daqui.
Espera. Senta-te.
Não tenhas medo. Senta-te.
Isto é teu?
Dá-me o teu lenço.
E o lenço?
Também é teu?
Era da minha mãe.
Filho de mil putas!
Não tenhas medo.
Ele está bem acorrentado.
Mas tiveste muita sorte.
É o Diabo?
É apenas um demónio.
E não consegue fugir?
Ele não pode voltar de mãos vazias.
És apenas um mensageiro, não és, Sartael?
Sim, e tenho uma mensagem para ti do Inferno.
A tua mulher manda cumprimentos!
Para onde estás a olhar, pequenita?
Mentiroso!
Espera. Afasta-te. Observa.
Não, os grãos-de-bico não.
Quantos grãos-de-bico estão aqui?
Não!
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito...
Ele está ofuscado. Não consegue evitá-lo. Tem de os contar.
Um, dois, três...
Não façam isso!
Um, dois, três...
Vamos fazer outra coisa.
Foi benzido.
Odeio-vos! Malditos humanos...
Porque tenho de suportar isto? Porquê?
Cala-te.
São um monte de almas choramingas e insuportáveis.
Odeio ter de vos castigar.
Mas tu és pior.
Não vês a tua culpa
e atormentas toda a gente!
Como fizeste com a tua mulher!
Sai daqui. Devem andar à tua procura.
Espera.
O que queres? Não te divertiste já o suficiente?
Lamento ter-te magoado.
Foi sem intenção.
Valha-me o bastardo de São Miguel! Tu, sua fedelha?
Achas que podes magoar-me?
Fui gerado nas chamas do Inferno.
Tenho problemas nas orelhas por causa desta humidade excessiva.
Vens do Inferno? A sério?
O que achas?
Viste a minha mãe? Ela chama-se Maite.
Há muitas almas no Inferno.
Como sabes que a tua mãe está no Inferno?
Ela era má para ti?
Nunca cheguei a conhecê-la.
Suicidou-se pouco depois de eu nascer.
Então, podes ter a certeza de que está a assar lá em baixo.
Não há forma de a tirar de lá?
Tirá-la de lá?
Do Inferno?
Pequenita, tu és muito engraçada.
Ninguém pode sair do Inferno.
Porquê?
Porque somos nós próprios que nos condenamos ao Inferno em vida.
Devias ver as filas de almas perdidas formadas pelo peso da culpa,
sem que ninguém as obrigue, e que esperam a entrada no Inferno.
E quando passam através dos portões,
não podem voltar atrás.
As coisas são como são e não podem ser mudadas.
O destino de cada um está traçado.
Ele está a mentir.
Ele está sempre a mentir.
Vamos.
Eu acompanho-te até à encruzilhada.
Ali estão eles!
Usue!
Patxi, liberta a menina.
Vem cá, Usue!
O que te fez aquele monstro?
Nada, eu estou ótima. Foi só uma queda.
Mataste o Lucas!
Foi um acidente.
Mentiroso! Mataste-o com as próprias mãos.
Eu vi!
Agarrem-no! É um assassino!
Não o deixem escapar!
Não!
Parem!
Mateo!
Patxi, não resistas.
Não tornes isto mais difícil.
Devíamos fazer uma busca à oficina.
Vamos investigar a tua casa.
A criança está a salvo. Fico feliz.
Podem voltar para casa e descansar.
Não pode ir sozinho fazer a busca à oficina.
Estou bem acompanhado.
Agradeço a vossa ajuda, mas deixem-me fazer o meu trabalho, por favor.
Esta é a nossa aldeia e vamos consigo, mesmo que discorde. Venham!
Cuidado! Há armadilhas!
Sei que a menina é filha da Maite, mas sempre tive uma dúvida.
Também é filha dele?
Não.
Foi há oito anos.
Tinha encomendado ao Patxi um sino novo.
Certa noite, apareceu à minha porta com o sino...
O que fizeste, Patxi?
... e com outra coisa.
Uma bebé recém-nascida, a Usue.
E depois, contou-me o que tinha acontecido.
Um mês antes, após dois anos na frente de batalha,
tinha desertado para voltar para a mulher.
Mas quando voltou, encontrou uma bebé que não era dele.
A Maite pensava que o Patxi tinha morrido na guerra
e encontrou consolo nos braços de outro homem,
um estrangeiro que a engravidou.
Movido por uma ira incontrolável,
o Patxi pegou na bebé para a atirar para a fogueira.
Mas o pai da menina apareceu e impediu-o.
O Patxi, furioso, assassinou-o.
A Maite tentou matar o Patxi, mas o ferreiro escapou à morte.
A Maite caiu no desespero e suicidou-se.
O Patxi não contou a ninguém.
Fechou-se na oficina e forjou o sino que eu lhe encomendara.
Trouxe-me a bebé
e ninguém soube nada dele durante meses.
Venham, é seguro!
Está fechado.
Por favor, esperem aqui um momento.
Pode ser perigoso. Tragam o prisioneiro.
Meu Deus!
O Diabo... És real?
Aproxima-te, velhote. Vou mostrar-te que sou real.
Santo Deus. Obrigado, Senhor.
Obrigado por esta dádiva.
És a prova viva da fé.
Vou levar-te ao Vaticano
para que todos vejam a cara do mal.
Serei a mão do Senhor!
Sim! Tira-me daqui
e irei aonde quiseres. Nomear-te-ão Papa!
Silêncio, Belzebu! As tuas blasfémias não funcionam comigo.
Não sou Belzebu, sua carcaça velha e estúpida.
Mas vejo claramente o valor da tua alma
e ela não vale um chavelho.
Tenho de lhe pedir que saia.
Tenho de interrogar o arguido.
Não seja ridículo. Este é um assunto da Igreja.
É um assunto do ministério.
Não saio daqui.
A força do Senhor está comigo.
Miguel! O que estás a fazer?
O que não tens coragem de fazer.
Volta para debaixo das saias da tua mulher.
O quê? Vais disparar contra mim?
Ouviste o que ele disse, velhote!
Porco!
Por favor, espere lá fora.
Santi! As chaves...
O que aconteceu?
O Diabo... está lá dentro.
Também o vi.
Credo!
O que fazemos?
Não confio neles.
E se eles o libertam? Não podemos permiti-lo.
Maldito janota... E aqueles idiotas!
Venham! Temos de entrar!
Venham!
Usue, ajuda-me.
Usue?
Ignorem-no e amarrem o ferreiro.
Descubram onde está o ouro.
Onde está o ouro?
Responde! Então?
O quê?
Cabrão!
Escuta, meu amigo, queres fazer um acordo?
Posso dizer-te onde está o ouro, mas tens de me libertar primeiro.
Que vergonha.
O quê?
Olha para ti, Sartael.
Como sabes o meu nome?
Pareces uma galinha, trancado nessa gaiola.
Alastor? És tu!
Pela cauda de Belfegor!
Encontraste-me, finalmente!
Vamos, tira-me daqui para poder terminar o meu trabalho.
Pequeno Sartael.
Alastor.
Não vim por tua causa.
Vim buscar a alma do ferreiro.
Mas solicitaram que averiguasse a tua situação
e que te informasse que foste despromovido por negligência.
Despromovido?
És uma vergonha para o Inferno.
Mostraste a tua verdadeira forma aos humanos.
Quebraste o protocolo,
intervieste fisicamente nas suas vidas
e deixaste que te capturassem.
Lá em baixo, andam ansiosos por saber o teu paradeiro.
E, como sabes,
o nosso ministério nunca deixa pontas soltas.
Dá-me um pouco mais de tempo para remediar a situação!
A decisão está tomada.
Fui despromovido para onde?
Para o Quinto Círculo.
A secção triste e reprimida, no caldeirão 203.
Não!
A secção triste, não! Por favor!
É óbvio que não tens jeito para tentar as almas.
Não podes fazer nada. Cada um tem o seu lugar.
Não se pode mudar isso. O destino de cada um está traçado.
Virão buscar-te, assim que eu entregar o relatório.
Arranja uma forma de me tirar daqui.
E ser implicado na tua incompetência?
Fica aí e aprende.
Observa aqueles dois,
fazem o que ordeno, de forma obediente e sem saberem quem sou de verdade.
Derrubem a porta! Incendeiem-na, se necessário.
Abram a porta! Vamos, cabrões!
Usue!
É o suficiente.
Então?
Nada.
É óbvio que é culpado.
Temos de o enforcar.
Mas ele ainda não disse onde estava o ouro.
Pagar-vos-ei de qualquer forma.
Não entendo. Não viemos à procura de ouro?
Façam o que mandei!
- Mas... - Disse-vos para o enforcarem!
Está bem.
Aqui está uma corda.
Não conseguimos derrubar a porta.
Pequenita!
Não te preocupes.
Queres ajudar o ferreiro?
Posso libertá-lo.
Sim.
E além disso, se me ajudares,
juro que vou procurar a tua mãe lá em baixo. Prometo.
Por favor!
Abana esse sino maldito.
Eu distraio-os enquanto vais buscá-lo.
Mas, depois, tens de me ajudar a escapar.
O que dizes, pequenita? Temos um acordo?
Ouça, Grandioso Senhor!
Tendes razão.
Este trabalho não é para mim.
Quem sou eu? Como posso querer comparar-me consigo?
Enforcador,
Grandioso Carrasco das penas do Monarca Infernal!
Ignorem-no. Executem o prisioneiro.
Mais grandioso do que Némesis!
És patético. As tuas palavras não mudarão o teu destino.
Vamos! Em frente!
De novo!
Tu! Estás aqui?
Abana o sino!
Com mais força!
Ele é um monstro!
Pequenita! Por favor! Tira-me daqui!
Fizemos um acordo!
Tens de sair daqui.
Despacha-te!
Depressa, pequenita, ajuda-me!
Rápido!
Não!
Não!
Lamento, pequenita, mas não tenciono voltar ao Inferno.
Saiam da frente! Ou como-vos a alma!
Não o deixem fugir!
Não! Outra vez, não!
Demónio!
Tu! Maldito o dia em que te recebi em minha casa!
Que o Diabo te leve para o Inferno para fazeres companhia à puta da tua mãe!
Também vens do Inferno, não vens?
Podes levar-me para lá, para junto da minha mãe?
Usue, afasta-te dele!
Tens a certeza de que é isso que queres?
Eu levo-te para junto da tua mãe.
Mas tens de me dar a tua alma.
Temos um acordo?
Não!
Usue! Minha pequena Usue!
Foi um demónio.
Levou-a para o Inferno.
Ganhaste! Leva-me para o Inferno.
O quê? Agora, queres ir?
Prefiro levar porrada destes idiotas do que te aturar lá em baixo.
O outro demónio levou a pequenita.
Que pena. Eu gostava dela.
Mas o problema não é meu.
Se não fosse ela, ainda estarias naquela jaula.
Estás em dívida para com ela.
Merda!
Está bem! Mas vais como meu prisioneiro.
Então, vamos lá.
Espera. Não podes ir com um sininho de mão ridículo.
Um sino.
O ouro carlista!
Esteve à frente dos nossos olhos este tempo todo.
Santi, ali está o ouro. É a nossa oportunidade.
Querem apanhar também?
Vai funcionar.
Consegues levá-lo?
Penso que sim.
Vamos.
Fá-lo.
Vai dar-me prazer fazer isto.
Onde estamos?
Adivinha.
Vamos, em frente!
Vamos! Bem-vindos!
Desculpem, perdoem-me!
Porque fiz aquilo?
Vamos! Entrem!
Mexam-se!
Bem-vindos ao Inferno!
Afasta-te!
Castiga-me!
Volta para a fila! Desgraça humana!
Sim, sou escumalha.
Faz o que eu mandar.
Sartael? És tu?
Orobas...
Onde estiveste todo este tempo?
Estás com um aspeto horrível.
Ouvi dizer que não irias voltar.
Não... Uma alma difícil.
Esse aí?
Não me parece muito ameaçador.
Tu! O que levas aí?
Fica onde estás!
Temos aqui uma alma a criar problemas.
Esconde-te atrás do Sartael!
Alastor!
Vou sair daqui!
Ferreiro!
Entra!
Vou entrar,
mas, primeiro, conta isto.
Um pote!
Cometeste um grande erro!
Conta-os, agora!
Um, dois, três, quatro,
cinco, seis, sete, oito,
nove, dez...
Não fechem os portões! Sou uma desgraça!
... vinte, vinte e um, vinte e dois, vinte e três, vinte e quatro...
Sartael, leva a menina daqui.
Eu fico.
És louco! Em breve, virão outros.
Vou procurar a tua mãe.
Sai daqui.
Vamos, antes que eu mude de ideias.
Usue! Senhor Jesus!
Obrigado, Senhor!
- Estás bem? - Sim.
Monte de campónios!
Esta criança é uma santa e foi expulsa do Inferno.
Não voltem a enviá-la para lá,
senão como-vos os polegares enquanto dormem.
Adeus!
Estás bem?
Obrigado, homem benevolente.
Não tens de quê, amigo.
Posso saber o que te aconteceu?
Não irias acreditar.
O caminho até à próxima aldeia é longo. E gosto de uma boa história.
Sei uma boa história.
Sou todo ouvidos.
Esta história, como muitas outras,
começa com um homem de carne e osso...
Deixem-me entrar!
Um homem tão maléfico e cruel,
que até o próprio Diabo o temeria.
Um ferreiro.
Talvez tenha sido assim, ou talvez não,
mas, seja como for, Vitória, Vitória, acabou-se a história.
BASEADO NO CONTO DE J.M. BARANDIARAN "PATXI ERREMENTARIA"
FIM
Legendas: Pedro Renato Marques
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