All language subtitles for Antonio Gramsci I Giorni del Carcere

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Original subtitles

"ANTONIO GRAMSCI: OS DIAS DO C�RCERE"

A audi�ncia est� aberta.

O Tribunal Especial para a Defesa do Estado...

chama o r�u Antonio Gramsci para responder...

pelos fatos de que � acusado...

instiga��o � guerra civil...

apologia do crime e incitamento � luta de classes.

Sou comunista.

Minha atividade pol�tica � conhecida.

H� anos tenho vivido com seis agentes da pol�cia...

que me vigiam.

N�o tive atividades clandestinas, n�o foi poss�vel.

Fui preso embora fosse deputado em exerc�cio.

Mas se ser comunista comporta responsabilidade...

eu a aceito.

Entre os escritos apreendidos se fala de guerra...

e de tomada do poder pelo proletariado.

O que significam estes escritos?

Todas as ditaduras de tipo militar...

acabam, cedo ou tarde, devastadas pela guerra.

Neste caso caber� ao proletariado...

tomar as r�deas do Pa�s e construir seu destino.

O Tribunal Especial para a Defesa do Estado...

condena...

Antonio Gramsci a 20 anos, 4 meses e 5 dias de reclus�o.

Condena Umberto Terracini a 22 anos, 9 meses...

Voc�s conduzir�o a It�lia � ru�na.

A n�s, comunistas, caber� salv�-la.

1... e 51.

57.

Fogo de Santo Ant�nio, n�o h� nada a fazer. Vejamos.

Periodontite expulsiva por dist�rbios glic�micos...

esgotamento nervoso...

Bem...

Ettolatteo e seis inje��es de Cerebrofosfan.

Foram generosos com voc�...

trazendo-o a Turi, para uma pris�o de doentes.

Preciso de cuidados m�dicos.

Sim, todos precisamos de cuidados.

J� perdi 12 dentes na pris�o.

E quer que o Estado lhe pague a dentadura?

Vamos ver.

O segundo molar esquerdo est� caindo.

Eu sou m�dico...

cirurgi�o especializado em doen�as digestivas...

e como m�dico sou obrigado a trat�-lo.

Mas, como fascista, por�m...

Cama n� 3.

Mas voc� � o Gramsci!

Gramsci? Que Gramsci? O Gramsci � um gigante.

- Voc�, assim... - Meu nome � Gramsci.

Ah! Ent�o � um chefe.

A anarquia come�a cortando a cabe�a de todos os chefes...

sen�o n�o h� liberdade, apenas sede de poder.

O que voc� acha?

Responda!

Bem, at� voc� � ambicioso.

N�o quer convencer o mundo a cortar a cabe�a de todos os chefes?

Usam os outros. Querem-nos servis.

Voc�, ao contr�rio, quer abrir os olhos das pessoas...

quer form�-las para que deem continuidade �s suas ideias.

Pensa segundo o interesse das massas, n�o �?

Claro!

Ent�o voc� tamb�m � chefe, ainda que n�o saiba disso.

Um chefe revolucion�rio n�o para lhe cortar a cabe�a.

Ou�a! Sem rodeios...

Na Uni�o Sovi�tica, h� centenas de anarquistas na pris�o.

Voc� sabe disso e aprova.

Quantos anarquistas voc�s eliminaram na URSS?

Sei que deve se defender o poder dos oper�rios e dos camponeses.

A ditadura do proletariado, n�o �?

Mas voc�s pisam muito mais na liberdade do que os burgueses.

A liberdade? Conquista-se e se defende.

Cortando a cabe�a de todos...

os tolos deste mundo.

Deixe-o falar! N�o sabe fazer outra coisa.

Espere, arrumo mais lugar.

- Desgra�ado. � um "tubo"? - Um "tubo"?

Sim, tuberculoso. Aqui dentro nos chamam de "tubos".

Ele faz isso sempre depois de comer.

...e de ter um bom parto, como � seu costume.

Disso tenho certeza.

N�o se abata, porque um dia nos reencontraremos...

e comeremos a polenta seca, e ficaremos juntos.

Querida T�nia, entre imediatamente com um recurso...

para que eu possa ser colocado numa cela sozinho.

Estou em uma cela com mais doentes do pulm�o.

O tribunal especial me condenou � reclus�o...

n�o � tuberculose.

Um par de meias, nozes e biscoitos.

Esta, para mim, foi uma grande alegria...

que fez explodir o meu cora��o.

A coisa mais importante, para mim...

� ficar isolado numa cela.

A vida em comunidade atinge meu sistema nervoso...

causando-me convuls�es.

- N�o escreveu nada? - N�o, senhor.

- Mas sabe escrever? - Sim, senhor, mas a quem?

Se aqueles que conhe�o est�o todos mortos?

V�o embora! V�o embora!

Quem acabou tem de entregar as canetas tamb�m!

O tempo est� chegando ao fim.

Al�m disso, ficando sozinho poderei conseguir papel e tinta...

para me dedicar a um trabalho que me interesse.

Entreguem! Entreguem! O tempo acabou. Vamos!

... sab�o, pasta de dentes, um pente e cigarros.

E mande umas palmilhas de feltro para poupar as meias.

Um abra�o carinhoso.

Acordem! Em p�!

Isso, j� sabia... D�i desde ontem � noite.

De p�, ou v�o perder a sa�da! De p�!

- Tenha cuidado com isso! - Mas que fedor!

� a palha dos colch�es mais o suor...

Sim, mais toda a merda do balde.

- Parece moribundo. - Esperemos que morra logo.

� melhor n�o t�-los. Tive dois na pris�o.

Quando morreu o segundo, disse chega.

Olha como treme, coitadinho.

Nem �gua ele quer.

Na pris�o n�o duram.

- N�o resistem. - N�o resistem mesmo.

- Mas por qu�? - Assim...

s�o feitos assim. Um belo dia est�o mortos.

Antonio Gramsci, pegue o colch�o e junte suas coisas...

vai ser transferido.

Para onde v�o te levar?

Pedi para ficar em uma cela sozinho.

Veja, morreu.

- Voc� � sardo, n�o �? - Sim, de Paulinangelo.

Eu sou de Ghilarza.

Eu sei.

O outro sapato.

Est� bem.

Venha at� aqui.

- O que �? - Um caracol do meu filho.

- Como? - Um caracol do filho.

Mostre.

� a esposa?

N�o.

- A cunhada. - Vai mostr�-lo quando voltar.

N�o. Fique com ele.

Mas... eu pensava...

Para t�-lo � preciso pedir uma autoriza��o especial.

- Mas eu sei como fazer... - Tania, n�o.

A ideia do processo me d� n�useas.

Para mim j� basta t�-lo visto.

N�o se preocupe, eu cuido disso.

Sim, sei. Voc� sempre pensa em tudo.

Com essa mentalidade da sociedade protetora dos animais.

Desculpe-me.

Tem not�cias deles?

Est�o bem, n�o?

Na �ltima carta que lhe escrevi, n�o talvez na pen�ltima...

mandei-lhe umas fotos.

H� quatro meses que a Giulia n�o escreve! Quatro meses!

E n�o diga que vai escrever. J� me disse muitas vezes.

- Ou�a, deveria procurar... - Eu escrevi.

Ainda que fosse sempre mais dif�cil.

Escrever assim...

� como atirar pedras no escuro e n�o gosto disso.

- Ou�a... - Eu preciso...

- A Giulia n�o � o escuro! - Mas n�o percebe...

que preciso sentir que estou falando com algu�m?

Com quem?

Com voc� � diferente, sabe...

Eu n�o consigo pensar em voc� distante da Giulia.

Voc�s s�o muito parecidas.

N�o deve dizer isso. A Giulia � muito mais bonita do que eu.

Foi sempre lind�ssima.

Voc� me ajuda muito...

E voc�...

Bem eu estou aqui para...

pela Giulia. Fa�o o que posso.

� como se a Giulia estivesse aqui. Fa�o isso para substitui-la.

N�o queria dizer isso, tomar o lugar dela.

De qualquer jeito...

te deram as fotos? S�o lindas. Est�o bem, viu?

As fotografias n�o chegam.

De Delio, n�o sei nada. O Giuliano nunca escreveu.

- Escreva voc�! - E vou escrever o qu�?

N�o posso falar de mim. Esconderam-lhes que estou preso.

Mas como dizer �s crian�as?

E se os meus filhos souberem antes por outros?

Quando eu era crian�a, eu ficava ofendido...

quando descobria uma mentira de minha m�e.

A Giulia vai escrever...

e voc� lhe dir� que tem que contar tudo �s crian�as.

O Delio ir� para a escola.

Vai ver, lhe escrever� todas as cartas que voc� quer.

E viveram todos felizes e contentes.

Os que est�o aqui h� 5, 10 anos, ou�o-os falar...

e tenho medo por mim.

N�o imagina como se pode ficar mesquinho aqui dentro.

Mas eu estou aqui, n�o?

Gosto muito de voc�, sabe disso.

SEREBRJANYJ BOR (MOSCOU), 1922

Sabe, quando crian�a, queria mudar o mundo.

Com a m�sica.

Eu estudava violino.

Violino.

Para que serve?

Para nada.

Aqui estou, Giulia Schucht, violinista sem futuro.

Precisa aprender a contar at� 10 mil...

antes de falar bobagens. Sabe que eu estou aqui.

Eu preciso de voc�.

- Voc� fala como se... - N�o! N�o como se.

Mas por que de modo t�o definitivo?

- Sem deixar espa�o para mais nada? - Espere.

Ou�a. Quero lhe contar uma hist�ria t�o pat�tica...

que se torna engra�ada.

Sobre um rapaz muito, muito pobre...

que sou eu.

Sabe, est� quase sempre doente...

n�o cresce como as outras crian�as...

e em certo momento...

come�a a pensar que os pais n�o gostem dele...

que o suportam.

Em casa sente-se um intruso.

Ent�o o que faz?

Se convence de que ningu�m pode am�-lo.

- De verdade? - N�o.

Decide que � preciso...

mostrar as unhas para se salvar...

talvez at� destruir tudo.

Por dentro, come�a a se rebelar contra os ricos.

Ele � bom. Na escola s� tira dez...

mas � pobre e n�o pode estudar...

enquanto o filho do prefeito ou...

do farmac�utico podem ir para a escola.

Mas como conseguiu estudar depois?

Ele tinha um irm�o mais velho que o ajudou.

� mesmo?

Depois vai para a universidade...

e se v� numa cidade cheia de ind�strias...

de oper�rios...

de lutas...

mas por dentro ele n�o mudou. Para as mo�as, faz teatro.

- Sim? - Sim, e n�o se sai mal.

� claro, o que lhe importa?

Pode engan�-las facilmente!

At� que...

At� que ele se pergunta...

se � poss�vel ligar-se �s pessoas...

aos outros, nunca tendo gostado de algu�m.

Se � poss�vel amar uma coletividade...

sem nunca ter amado de verdade.

Entende, Giulia?

Antonio!

Como est�?

- Ent�o, como est�? - O cora��o, a asma, a nefrite...

O partido...

o partido resiste...

eu nem tanto.

Francesco Lo Santo...

nascido em Cat�nia em 1870...

deputado do extinto partido comunista da It�lia.

Condenado a oito anos de pris�o...

por conspira��o contra os poderes do Estado.

Devido �s suas condi��es card�acas...

deve ter sido tratado duramente aqui nestes anos.

Precisamos recorrer.

Giovanni Usai, nascido em Cagliari em 1904...

marceneiro, um presidi�rio esperto e refinado...

consegue fingir t�o bem que engana o m�dico...

que controla as condi��es de sa�de.

Condenado pelo Tribunal Especial...

a 7 anos, 6 meses de reclus�o.

Mais a proibi��o perp�tua de trabalhar no servi�o p�blico.

N�s, sardos, somos mais perigosos do que os outros, n�o?

Angelo Locchi, nascido em Viterbo em 1909.

Oper�rio, condenado a seis anos de pris�o...

por propaganda subversiva e ofensa � Corte.

N�o aceitando o princ�pio de autoridade...

reage gritando e cantando m�sicas sediciosas.

Cuidado, por essa sauda��o, pode ficar dois meses na solit�ria.

Na pris�o de Bari, me encheram de pancada...

porque um desgra�ado queria que eu fizesse a sauda��o fascista.

Eu me recusei. Sou comunista.

Arrebentaram a minha cara!

N�s precisamos denunciar estes abusos!

Temos que fazer confus�o, camaradas!

Um protesto nosso, � s� isso que est�o esperando...

para nos privarem de livros e da possibilidade de estudar.

Estamos nas m�os deles, entende ou n�o?

Mas n�o � justo.

Temos que sair inteiros daqui.

Sem dobrar as costas.

Quer continuar trabalhando para o Partido?

Claro.

A pris�o nos proporciona a possibilidade de estarmos juntos.

Mil�o...

e agora Turi.

Conseguiram nos azucrinar...

Enrico Tussi, nascido em Brescia, em 1898. Jornalista.

Condenado a 13 anos...

pela refunda��o do Partido Comunista.

Irredutivelmente contr�rio ao regime e �s institui��es.

De car�ter perverso, capaz de praticar qualquer inf�mia.

Bem, somos muitos. Haver� trabalho a fazer.

T�m noticias do Partido?

Para os canalhas as coisas v�o mal, at� que enfim.

Houve greves.

As pessoas n�o aguentam mais.

- Est�o furiosas. - Como sabe disso?

Athos Visa, de Luca onde nasceu em 1890, mec�nico.

Condenado a nove anos e dez meses de pris�o...

por propaganda da teoria, dos programas...

e dos m�todos de a��o do Partido Comunista.

Subversivo perigoso...

fervoroso agitador da insana doutrina que professa.

- Ent�o, como sabe disso? - Soube nas transfer�ncias.

Temos que nos preparar.

Com licen�a.

Aqui est�o. Ser�o expostos em todas as celas...

depois da Concordata.

� uma ordem do Minist�rio.

- Perdoe-me pelo inc�modo. - N�o me incomoda.

Se eu estou aqui dentro, Ele tamb�m pode ficar.

Sim.

E voc� acolheu Cristo com...

com civilidade.

Portanto eu vim trazer...

o conforto que voc�...

Claro, em 20 anos, 4 meses e 5 dias...

precisarei de alguns momentos de conforto.

Ent�o entendeu o que eu queria dizer com conforto...

E ent�o por que leva tanto tempo...

para entregar os livros que chegam para mim?

- Mas... - Voc� n�o os inspeciona?

O diretor confiou-me essa tarefa... dif�cil.

Mas quanto voc� l�! Pacotes e pacotes...

Eu n�o estou acostumado.

Roubariam minhas horas de sono, sabe?

Quer algo mais?

N�o.

N�o...

A minha a��o para obter permiss�o para escrever...

tem cinco meses. Quanto tempo ainda terei que esperar?

Ah, aqui est�.

O que lhe dizia?

Da pris�o de San Vittore...

em setembro de 1927...

voc� enviou ao Minist�rio uma a��o para escrever...

- mas a permiss�o foi negada. - Como assim?

� um precedente. Pode ser levado em conta no processo.

Fui condenado � pris�o, n�o � paralisia do c�rebro.

Sente- se. Se dependesse de mim...

lhe daria todo o papel e toda a tinta que quer...

mas h� um regulamento.

Para o regulamento somos todos iguais, todos mesmo...

at� eu que sou o diretor.

Mas sim, caro Novelli.

- Excel�ncia... - Ah!

Nunca sair�o!

Ou se sair�o, ser� daqui a 30, 40 anos...

Ser�o uma coisa do passado e n�o far�o mais sentido.

E sempre poderemos apreender esses cadernos, n�o �?

Excel�ncia, mas ter sempre � disposi��o papel e...

Ou�a bem...

se um detido quiser se corresponder...

clandestinamente com o exterior...

o far� com caneta ou sem caneta.

Talvez at� com as unhas dos p�s.

Mas isso talvez o favore�a.

Hum... o favorece...

Eu diria que o dissuade.

Se fosse descoberto, o nosso Gramsci perderia muitos privil�gios.

E ele n�o � est�pido, sabe quais s�o os riscos.

A pris�o para doentes, a cela individual, os livros...

e agora tamb�m a permiss�o para escrever...

e de receber roupa e v�veres da fam�lia.

Da fam�lia...

Uma fam�lia de certo modo confusa...

com uma cunhada que age como sua esposa...

uma esposa que fica toda feliz na Uni�o Sovi�tica...

Mas, Sr. Musilli, por que n�o pede aos guardas...

que cuidem um pouco desta fonte?

Isso me aflige.

N�o � preciso muito...

e, no entanto, olhe isso.

Sinto a obriga��o de insistir.

Gramsci recebe muitas visitas da Schucht na pris�o.

� f�cil, nestes casos, receber um bilhete...

- Certo. - � s� estender a m�o.

Se Gramsci estendesse a m�o para a Schucht...

seria por um motivo bem diferente.

H� quantos anos ele n�o v� uma mulher?

Desde a sua pris�o, passaram quase tr�s anos.

E depois de tr�s anos fechado na pris�o...

voc� me entende, n�o?

Excel�ncia.

Deixemos o Gramsci escrever...

que acabar� como os outros caindo na masturba��o...

liter�ria, � claro.

Melhor, fa�am circular discretamente...

que o estamos tratando com regalias...

e que aqui ele n�o enfurece ningu�m.

Minha convic��o sempre foi neutraliz�-los e s�.

Eles t�m que pedir perd�o.

Ali�s, o que os camaradas v�o achar disso tudo?

- Do qu�, Excel�ncia? - Anote.

Recusar qualquer outro pedido para escrever.

Ah!

Sim, recusar qualquer outro pedido para escrever.

Para ele sim, para os outros n�o.

Escreva � vontade...

Pensei em muitos argumentos, muitos...

o que j� � sinal que n�o consigo me concentrar.

Sobre os intelectuais italianos se poderia fazer...

um livro extraordin�rio que ainda n�o existe.

Quanto mais se acham livres...

e a servi�o de seu hipot�tico g�nio...

mais desempenham o papel de empregados do poder...

antes a servi�o da Igreja, depois a servi�o das Cortes...

ligados a outros intelectuais por privil�gios econ�micos...

corporativos, de classe.

� uma reflex�o sobre o presente, mas servir� de futuro.

Querida Tania, agora que posso escrever...

gostaria de fazer alguma coisa para sempre...

como dizia Goethe.

� uma ideia que me persegue...

TURIM - 1920 agora que os anos mais importantes...

A OCUPA��O DAS F�BRICAS est�o sendo desperdi�ados.

Venha. Precisa dizer alguma coisa aos camaradas.

De acordo, todos no 15.

Se o Antonio se recusar a comer...

n�s tamb�m recusaremos.

E os anarquistas n�o comem, com ou sem o Antonio.

E assim, esses malditos fascistas ficam ferrados...

eles e a esmola da comida especial de 28 de outubro.

Eu vou receber a comida...

farei xixi nela e depois a devolverei.

Que o Benito a coma, a comida especial.

N�o se exalte!

O Antonio j� nos disse.

N�o vai nessa.

N�s insistimos: "os camaradas est�o dispostos a tudo".

E ele?

- N�o disse nada. - Claro.

V� por mim, ele � sardo.

N�o respondeu por que, para ele, o discurso est� fechado.

Eles nos mant�m encarcerados para nos dobrar...

at� fisicamente.

O que significa a greve de fome?

Que somos antifascistas?

Mas se j� estamos na pris�o por isso!

Deixemos para l� esses hero�smos in�teis.

Eu n�o estou nessa.

E nem voc�s devem estar!

Est�o chegando.

Levaram-no.

O Gennaro?

O Nannaro...

veio at� aqui de Paris!

H� 7 anos, n�o 8...

que os fascistas o surraram.

Era a mim que procuravam e voc� pagou por isso.

N�o quis mais saber de lutas pol�ticas...

N�o � permitido trocar sinais de entendimento...

entre o preso e o visitante. Vire-se para o outro lado.

Dez horas por dia, 9 liras por m�s...

e � noite chorava escondido porque me do�a tudo.

Mas voc� que trabalhava comigo...

era grande e robusto, me ajudava.

� o Centro que me manda.

Professor, � proibido.

- N�o me cause problemas. - Sim, sim.

Sente-se.

N�o te via h� sete anos...

Sem not�cias...

sem uma linha, sem cumprimentos...

N�o foi f�cil, sabe?

Pedi permiss�o h� cinco dias e aqui estou eu.

H� problemas em fam�lia.

Os tr�s expulsos, primeiro do Servi�o Politico...

depois do Comit� Central e agora do Partido.

Tresso dirigia a organiza��o...

Ravazzoli, o trabalho sindical...

- E Leonetti, a imprensa. - Leonetti?

Traidores do Partido da classe oper�ria...

� esse a motiva��o.

E, com eles, os outros tamb�m.

Foi o Palmiro que me encarregou de vir lhe dizer.

De lhe perguntar se concorda.

COLONIA - 1930 PALMIRO TOGLIATTI (Ercoli)

REUNI�O DO COMIT� CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DA IT�LIA

Contra eles h� somente a luta aberta... sem tr�guas.

A mobiliza��o de todas as for�as do Partido e da classe...

como merecem os traidores do Partido e da classe.

Nossa diretriz � simples: Mand�-los embora...

desmascar�-los como desagregadores...

e desprez�-los como traidores.

Essa � somente uma repeti��o de f�rmulas.

Traidores por qu�? O que significa?

Hoje, na It�lia amadurecem rapidamente...

os elementos de uma situa��o revolucion�ria.

As bases populares do fascismo se fragmentam.

S� um oportunista, ou pior, se recusaria a perceber...

que as perspectivas da revolta...

da insurrei��o armada, da guerra civil...

contra as classes dirigentes capitalistas est�o abertas.

Assim � f�cil.

� um jogo consigo mesmos com cartas marcadas...

talvez sem acreditar nisso. Mas quem pagar�, depois?

N�o � poss�vel controlar os camaradas.

Se a revolu��o estiver na ordem do dia...

v�o querer voltar para a It�lia a qualquer custo.

� s� uma quest�o de meses, de semanas!

A bandeira vermelha voltar� �s pra�as.

Assim escreveu o jornal do Partido.

Quantos erros de ortografia voc� cometia ao escrever!

Bem, console- se, sua filha Edmea...

me manda cartas com rasuras em cada linha.

Professor, tem um f�sforo?

Bem, na realidade, n�o � permitido...

Pegue, pegue mais, voc� tamb�m � sardo.

Sim, mas h� 12 anos que viajo pelo continente.

Eu tamb�m.

Turim, Paris, B�lgica...

Chegaram os piemonteses...

e n�s estamos fadados a viajar pelo mundo.

E pode agradecer se encontrar outro sardo.

- Obrigado. - Se sua filha escreve t�o mal...

a responsabilidade deve ser de algu�m, n�o?

Escreve, como todos escrevem em Moscou.

E o Comintern?

Diacho! Foi o Comintern que disse!

A crise econ�mica ser� catastr�fica.

O capitalismo est� para morrer...

sepultado pela ditadura do proletariado.

Os socialistas e os social-democratas...

para defender a burguesia...

se transformaram em social-fascistas.

Em suma, o Comintern escreve...

que s�o as prostitutas do fascismo.

A social-democracia...

representa a ala moderada do fascismo.

O fascismo � a organiza��o de combate da burguesia...

que se serve da ajuda ativa da social-democracia.

Fascismo e social-democracia n�o s�o inimigos, mas g�meos.

DIRIGENTE DA INTERNACIONAL COMUNISTA

As organiza��es socialistas...

s�o de verdade o que n�s chamamos de fascismo.

Benito Mussolini n�o come�ou com o fascismo puro...

mas com o socialismo.

Os socialistas italianos...

que ficam em Paris tomando sol no Caff� della Rotonda...

e esperam que os industriais os chamem para...

salvar a situa��o...

se esfor�am em dar todas as provas poss�veis...

de que se tornaram reacion�rios de verdade...

que est�o dispostos a tomar o poder...

a mant�-lo com armas...

e a fuzilar os oper�rios...

como faz o primo deles Mussolini.

Imagine, ap�s as decis�es da Internacional...

Deve ter havido um debate na Internacional...

alguns dos nossos devem ter dito algo...

Sim, sim, os tr�s... e os expulsaram.

Nino, n�o � mais assim.

L� em cima mudou tudo.

Bukharin foi eliminado da Internacional...

Trotsky foi expulso da Uni�o Sovi�tica.

Se voc� fizer oposi��o, estar� acabado.

Em suma, o Partido � pela virada.

Esqueci alguma coisa, vou lembrar...

Os Comit�s Regionais transferidos para a It�lia...

t�m que ter sedes fixas...

para acolher e dar trabalho aos camaradas do aparelho...

at� por per�odos longos.

Temos que preparar ambientes seguros e c�modos...

para reuni�es e conv�nios com camaradas e simpatizantes.

S�o necess�rios espa�os equipados para a imprensa...

armaz�ns para o material...

Falta s� a placa na porta...

e uma bandeira vermelha na varanda.

Quer se opor? Aqui da pris�o?

O que est� fazendo?

N�o estou de acordo com nada...

nem com as expuls�es, nem com a linha.

Mas tem no��o do que est� falando?

N�o se preocupe, foi muito claro.

- Mas o que devo lhes dizer? - O que quiser.

N�o entendo, mas por qu�?

Professor...

j� est� aqui 10 minutos al�m do tempo.

- Est� bem... - Sim.

Mande apenas umas linhas sobre a Edmea e o resto, t�?

Fique descansado.

N�o se esque�a de escrever. D� noticias.

Fique descansado, Nino.

O que querem de mim?

Sim �s expuls�es...

sim a uma pol�tica que faria sentido...

apenas diante de uma onda revolucion�ria em movimento.

Mas onde?

Quando?

Aceitar por disciplina...

Que disciplina?

A execu��o mec�nica de uma ordem...

e a acolhida passiva de uma instru��o...

n�o s�o disciplina...

s�o...

constri��o...

sujei��o...

rendi��o.

Se o poder que ordena a disciplina...

� democr�tico...

e n�o um arb�trio...

n�o uma imposi��o...

a disciplina � um consenso...

� um momento de liberdade.

Com L�nin era.

Moscou, 1924.

L�nin est� morto.

Ao lado de seus despojos...

est�o os mais altos dirigentes...

e os mais zelosos.

Mas o Comit� Central Bolchevique decide por maioria...

manter em segredo o testamento de L�nin...

e n�o lev�-lo em conta.

Ele cont�m a recomenda��o de afastar o St�lin...

da secretaria do Partido pela sua brutalidade.

No �ltimos ano de vida...

L�nin havia lutado desesperadamente...

contra a burocracia, que tinha em St�lin...

Secret�rio Geral, o maior apoio.

A maioria do Comit� Central Bolchevique...

n�o acolhe as indica��es de L�nin.

O Partido j� est� profundamente dividido.

Dois anos depois, em 1926, ficaria ainda mais dividido...

quando a oposi��o, unida a Trotsky...

denuncia perigos e contradi��es...

na pol�tica da maioria.

O campon�s rico pode alugar legalmente a terra.

Milh�es de prolet�rios agricultores...

trabalham, assim, para um patr�o.

Nos centros urbanos, os oper�rios a servi�o do capital privado...

s�o mais de um milh�o.

Nas estradas, nas lojas, o com�rcio privado especula...

aumenta seu volume de neg�cios.

Nas estruturas do Estado...

nos Comissariados do Povo...

na dire��o das novas f�bricas e, sobretudo, no Partido...

prolifera o burocrata.

Ele pretende e conquista seus primeiros privil�gios...

a autoridade, o bem estar, o prest�gio.

Contra o campon�s rico...

contra o burocrata...

a oposi��o chama � luta para um aumento do poder oper�rio.

Pede, sobretudo, que o aparelho ferreamente dirigido por St�lin...

seja reorganizado quanto aos seus privil�gios...

e colocado em condi��es de n�o impedir...

a vida democr�tica no Partido.

N�o! A minoria � anti-leninista...

n�o respeita a disciplina...

quer comprometer as rela��es entre campon�s e oper�rio...

quer destruir a alian�a deles.

Deixemos prosperar as propriedades agr�colas...

dos camponeses ricos. N�o representam um perigo.

Basta � demagogia oper�ria!

Trotsky nos joga na aventura...

quer for�ar os ritmos da industrializa��o socialista...

� custa do mujique.

Acusa dezenas de milhares de honestos servidores...

que trabalham no Partido e no Estado...

de se tornarem perigosos para a revolu��o.

Nega que poderemos construir totalmente...

o socialismo no nosso pa�s...

se a revolu��o n�o se estender a outras partes do mundo.

Mas a Uni�o Sovi�tica...

saber� construir o socialismo sozinha.

St�lin o assegura, o teoriza, o imp�e.

Os chefes da oposi��o s�o atacados...

n�o mais como camaradas em desacordo...

mas como c�mplices da ideologia burguesa...

instrumentos do inimigo de classe.

Nos jornais de todo o mundo...

saem not�cias, coment�rios.

O poder sovi�tico est� em crise.

O grupo dirigente da revolu��o se despeda�a.

S�o assim lan�adas as primeiras bases...

dos que ser�o definidos os anos de St�lin.

O Partido Comunista da It�lia...

ou melhor, o que dele ainda sobrevive...

desafiando o terror fascista...

observa os acontecimentos sovi�ticos...

com a respira��o suspensa.

ROMA - OUTUBRO 1926 Antonio Gramsci prop�e...

ao Escrit�rio Pol�tico do Partido Comunista...

da It�lia que intervenha.

Mas l� de cima nos poderiam responder...

Isso, deixam que os fascistas queimem suas casas...

s�o obrigados a se fechar em adegas como ratos...

e ainda t�m a pretens�o de nos dar conselhos...

a n�s!

� verdade, os fascistas est�o nos colocando algemas...

mas, justo por isso, o que pensamos adquire...

um significado mais profundo. Um peso maior.

Mas foram os russos que pediram ao Comintern...

que n�o discutisse as quest�es russas...

e n�o falar delas.

Dizem que � algo que diz respeito s� a eles.

O Comintern aceitou, e n�s?

N�s diremos aos camaradas russos...

que julgamos essencialmente justa...

a linha politica de St�lin e de sua maioria...

Era isso o que eu dizia!

Mas tudo isso n�o basta. N�o basta dizer...

"As oposi��es est�o erradas, vamos organiz�-las."

O problema � mais grave.

Hoje ocorre uma cis�o no grupo central leninista...

que dirigiu a revolu��o...

o Partido, a Internacional.

� a respeito disso que precisamos intervir...

antes que seja tarde demais.

MOSCOU - OUTUBRO DE 1926

N�o se podia escrever nada pior.

O seu Gramsci coloca todos no mesmo caldeir�o.

Repreendendo todos!

N�s, o Partido...

e um degenerado oportunista como o Trotsky...

e os seguidores dele.

Chama-os de mestres.

O seu Gramsci tem mesmo uns belos mestres.

Mas a carta cont�m criticas bem precisas � oposi��o.

- Que perdem todo o valor. - Mas...

"Achamos nosso dever chamar � ordem todos os camaradas...

do Partido Comunista Sovi�tico?"

Todos.

"Camaradas, hoje est�o destruindo a sua obra...

degradando e correndo o risco de anular...

a fun��o de comando que o Partido Comunista sovi�tico...

havia conquistado pelas m�os de L�nin?

"Esquecem que seus deveres de militantes russos...

possam e devam ser cumpridos...

s� no quadro do interesse do proletariado internacional."

Tem no��o?

Mas o documento tem que ser julgado no seu conjunto.

Camarada Togliatti, esta carta...

� toda a favor de Trotsky e da oposi��o.

Est�o afundando. N�s os combatemos.

O Partido os combateu.

E voc�s tentam salv�-los...

afastar deles a merecida derrota.

"Queremos ter certeza que a maioria do Comit� Central Russo...

n�o pretende ganhar muito dinheiro."

E, com essa frase de filisteu...

nos manda dizer que teme justo o contr�rio.

A Secretaria do Partido foi informada da exist�ncia dessa...

carta, da qual tomou conhecimento.

Ent�o, camarada Togliatti...

vamos considerar esta carta como n�o escrita, concorda?

Vamos tentar explicar que n�o agradou.

Car�ssimo Antonio...

h� um grave perigo no que escreve.

De agora em diante...

a unidade da velha guarda leninista...

n�o existir� mais...

e n�s temos de nos acostumar a manter a calma...

e manter tamb�m a dos camaradas da base.

Car�ssimo Palmiro...

todo o seu racioc�nio est� viciado de burocratismo...

A quest�o da unidade do Partido Russo...

e do n�cleo leninista...

� de import�ncia absoluta em �mbito internacional.

Do ponto de vista de massa...

� a quest�o mais importante neste per�odo hist�rico.

Ser�amos revolucion�rios bem piedosos e irrespons�veis...

se deix�ssemos passivamente os fatos ocorrerem...

justificando sua necessidade.

Car�ssimo Antonio...

quando se concorda com a linha...

do Comit� Central Russo...

� preciso se exprimir essa ades�o sem qualquer reserva.

N�o foi a unidade do seu grupo dirigente...

que deu ao Partido Sovi�tico...

a condu��o do movimento revolucion�rio.

Foi, em vez disso, a conquista do poder...

e a sua manuten��o.

Car�ssimo Palmiro...

nove anos ap�s a Revolu��o de Outubro...

n�o � a tomada de poder por parte dos bolcheviques...

que pode revolucionar as massas no ocidente...

mas apenas o fato pol�tico...

que o grupo dirigente bolchevique...

esteja unido e lute unitariamente.

Sua observa��o, portanto, � inerte e sem valor.

Tenho aqui a resposta do camarada Gramsci.

Ele confirma o que escreveu.

Pede que as cartas dele, ainda que rejeitadas, sejam arquivadas.

Sim, o camarada Gramsci pode ficar tranquilo.

Claro, vamos arquiv�-las.

Isso seria feito mesmo que n�o tivesse pedido.

Em 8 de novembro de 1926...

Antonio Gramsci � preso pela pol�cia fascista...

e enviado ao Tribunal Especial...

para a Defesa do Estado.

H� quatro anos...

a luta do Partido sovi�tico...

a luta do Partido sovi�tico para destruir a oposi��o...

com todos os meios.

Hoje a aventura do social-fascismo.

Abrir a discuss�o...

em toda a parte, a qualquer custo.

Mesmo aqui dentro...

na pris�o.

Superior.

Superior!

O balde.

Criticar o Comintern...

os m�todos de St�lin.

Criticar o Partido.

Quando o partido � repressivo...

funciona burocraticamente...

enrijece...

transforma-se numa cega massa de manobra.

Giulia...

as crian�as...

na Uni�o Sovi�tica.

Ser expulso e sepultado como um dossi� num arquivo...

sem o apoio dos camaradas... que ajuda a sobreviver.

E a�?

Mas quem paga por isso?

Hoje os comunistas chamam os camaradas � luta.

Chamam-nos para combater nas estradas...

armados.

Temos que passar � a��o geral revolucion�ria.

Revolu��o, revolu��o! Revolu��o prolet�ria!

Quantas vezes repetimos isso como uma f�rmula m�gica?

A revolu��o n�o est� atr�s da esquina nos esperando...

j� prontinha para a pegarmos e lev�-la conosco.

Mas os reformistas nos diziam essas coisas!

Sim, mas eles se esqueciam de dizer que na Europa...

as condi��es para uma revolu��o...

existem pelo menos h� 50 anos...

e que o objetivo � s� a conquista violenta do poder...

a ditadura do proletariado.

� isso mesmo que nos distingue deles...

a conquista violenta do poder, ditadura do proletariado.

Mas n�o chega repetir isso para ser revolucion�rios...

n�o chega gritar isso nos com�cios...

quando ainda pod�amos faz�-lo...

na taberna ou na pris�o!

Temos que recome�ar do in�cio!

Mas � o que estamos fazendo.

- Por isso estamos aqui. - Sim, � verdade.

Hoje estamos de cal�as curtas.

Nenhum protesto � legal...

greves, reuni�es...

n�o h� jornais, Partido, sindicatos...

Os fascistas venceram, por qu�?

E o que nos resta fazer?

Como poderemos sair desta situa��o?

Mas os camaradas lutam, at� arriscam a pele.

� verdade, arriscam a pele...

mas n�s estamos sempre menos dispostos...

a aceitar os golpes da verdade.

A verdade � revolucion�ria, t�o revolucion�ria...

que atinge e deixa marca, pior que um soco no olho.

Mas aqui tem gente que lutou contra o fascismo...

e que agora est� na pris�o!

A verdade ser� menos dura que o fascismo e a pris�o, n�o?

�s vezes � at� mais inc�moda.

Fascismo e pris�o nos s�o dados pelo inimigo de classe...

a verdade nos obriga a acertar as contas com n�s mesmos...

e pode chegar a ser intoler�vel.

- Para n�s comunistas, n�o. - Isso, para n�s, n�o.

- Deveria. - Mas como n�o �?

Agora est� exagerando.

Sabe-se l� por que, ele est� com a macaca hoje.

Se cutucarmos um pouco os camaradas...

desaparece o comunista e surge o tagarela.

Batemos a cabe�a contra uma realidade da qual n�o gostamos?

Medo n�o! Come�amos logo a pregar a revolu��o...

vomitando contra a burguesia, os oportunistas, os covardes.

Repetimos as inj�rias de sempre.

Violentas, mas in�cuas, que n�o ajudam a entender...

n�o explicam por que arrebentamos as cabe�as.

Mas afinal, Antonio...

a luta de classes � uma arma ou n�o?

Sim, se o levar � critica, ao conhecimento.

Concretamente, onde erramos?

A revolu��o com que sonhamos � noite...

a fazem os homens...

milh�es de homens, classes inteiras.

Mas como pode nascer hoje esta vontade coletiva...

aqui na It�lia?

N�o somente do oper�rio! H� tamb�m o campon�s!

7 milh�es de camponeses frente a 4 milh�es de oper�rios!

Como falar, hoje, ao campon�s?

Est� ligado � Igreja desde sempre...

fez a guerra que deixou meio milh�o de mortos.

Queria terra e as esquadras de choque aterrorizaram suas vilas.

A� chegamos n�s...

e lhe falamos de revolu��o prolet�ria...

de ditadura do proletariado. O que nos responderia?

Que o campon�s tem fome de terra!

Mas depois das experi�ncias de 10 anos atr�s...

se fechou em uma obstinada desconfian�a.

Pode faz�-lo entender que � justo se livrar do rei...

que o rei � um parasita...

mas como convenc�-lo a recome�ar logo...

para se livrar do rei e do patr�o?

E com a Igreja que o mant�m na coleira?

Para isso serve o acordo entre Vaticano e fascismo...

uma coleira no pesco�o.

E temos o pequeno burgu�s.

Em 1922, ele se ilude que far� a pr�pria revolu��o.

Mussolini o incita, martelando em sua cabe�a...

a ilus�o da superioridade em rela��o ao povo.

Como nos responderia ele, que de uniforme...

ou com o emprego do Estado...

se sente senhor, acredita ser instru�do?

Esconde as d�vidas, a roupa remendada...

e pobreza do dia-a-dia...

Mas tentemos falar com ele de revolu��o...

Seria pior que ser mordido por uma cobra.

Ele, burgu�s, com o diploma no bolso...

confundido com a ditadura dos que morrem de fome?

Talvez seja melhor se aliar com os carabineiros.

Antonio, a crise econ�mica est� levando � ruina...

a classe m�dia, artes�es, camponeses...

E acredita que essa gente pode ser convertida assim? De repente?

Milh�es de miraculados!

O socialismo n�o � o milagre de S�o Genaro.

Ou pretendemos conquistar o poder s� com as vanguardas?

Sem infantaria, deixando para tr�s milh�es de homens...

com o risco de perd�-los e reencontr�-los do outro lado?

Falamos sempre de L�nin...

dizemos lutar por um bloco oper�rio e campon�s...

mas esse bloco deve ser constru�do com paci�ncia...

dia ap�s dia...

sen�o o Partido continuar� quebrando a cabe�a!

H� quem jure que a queda do fascismo � quest�o de meses...

da ditadura de Mussolini, um salto ao poder prolet�rio.

Isso � um circo! � uma aventura!

Para quem vamos deixar os camponeses?

Mesmo os mais atrasados, da Sardenha, da Basilicata?

Como transformar seu mal estar em a��o revolucion�ria?

O sul � um paiol, mas sem lideran�a nunca explodir�!

- Antonio, a terra! - A terra, certo, a terra!

Amanh�, na sua terra, os camponeses...

organizam um protesto, voc� o que faria?

- Diria para dividirmos a terra. - Errado.

A primeira a coisa a fazer � chegar nos patr�es...

tirar-lhes as armas, armar os camponeses...

e depois dividir a terra...

sen�o seriam todos mortos, como fizeram os fascistas.

Mas n�o � f�cil!

Claro, n�o � f�cil convencer os camponeses...

a pegar em armas...

e n�o � f�cil com o pequeno burgu�s.

Ele n�o quer o socialismo hoje...

mas pode ser convencido a lutar...

pelas liberdades amea�adas pelo fascismo.

Liberdades concretas: Ocupa��o, trabalho...

p�o, aposentadoria decente.

Todos esses aliados t�m que ser conquistados com paci�ncia.

Pode parecer um trabalho pequeno...

pouco heroico, chato...

mas n�o chega a dizer "Somos seus guias revolucion�rios" para ser.

Temos que achar palavras de ordem novas...

Vamos parar de achar que somos pouco revolucion�rios!

Hoje, contra o fascismo, temos que lutar por uma Rep�blica...

por uma Assembleia Constituinte.

� a palavra de ordem dos antifascistas e burgueses!

- N�o percebeu? - Sim, � a mesma!

At� os outros partidos antifascistas...

afirmam querer a Constituinte.

Mas nunca ser�o capazes de lutar at� o fim pela democracia.

Desculpe, mas assim � voc� que combate a favor deles.

Indo atr�s de quatro burgueses que fingem conspirar contra os fascistas!

Fa�a isso e se tornar� um social-democrata.

Como se a Constitui��o fosse, para mim, a solu��o de tudo.

Mas para mim � s� um momento...

para falar �s massas, mesmo as mais distantes...

arranc�-las dos outros partidos...

- empurr�-las para o poder. - Sim! Mas como?

Submetendo a uma cr�tica feroz...

todos os projetos de reforma parcial e pac�fica dos outros.

Desmascarando-os.

Est� falando h� quatro dias...

e nunca lembrou a linha do Partido...

a Uni�o Sovi�tica, nunca, nem por engano.

Aceitar compromissos...

fazer acordos at� com organiza��es desmoralizadas...

Com todo o respeito, acho que est� baixando a cabe�a.

Amanh� vou lhe dizer.

Ou�a, eu e...

Bem, acho que se vai corromper...

naquela esp�cie de labirinto que � a democracia burguesa.

Mas quem lhe disse que Rep�blica e Constitui��o...

s�o, para mim, a solu��o do problema do Estado...

de forma diferente daquela da democracia oper�ria?

Ent�o acha que eu quero guardar no s�t�o...

a critica marxista do Estado?

Jog�-la l� entre as velharias...

a ca�rem depois na sacola de Benedetto Croce,

que mascarou o Estado parlamentar da burguesia...

em um princ�pio eterno, indestrut�vel?

Mas se at� n�s come�armos a pregar a Constituinte...

acabaremos por criar uma nova ilus�o...

justo para as massas.

N�o a criaremos, a destruiremos.

Enrico, � s� o in�cio...

o in�cio de uma luta revolucion�ria.

Todos os desejos, as rebeli�es...

a vontade de milh�es de indiv�duos...

que reformistas e democr�ticos nunca conseguir�o satisfazer...

n�s os empurraremos para essa Constituinte...

e depois a derrubaremos...

a deixaremos atr�s das costas...

vencida!

S� assim...

a alternativa revolucion�ria deixar� de ser...

um fantasma...

um sonho de b�bados ou de presos.

Mas ter� m�sculos e sangue para lutar...

p�s para caminhar...

m�os para pegar firmemente o poder.

Todos na mesma panela.

H� 10 anos, queriam a Constituinte:

Social-democratas, republicanos, padres...

ma�ons, a Associa��o dos Combatentes...

e por dois meses at� Mussolini.

Assim acabar�o n�o nos distinguindo mais...

justo agora que o capital est� de joelhos...

e a Uni�o Sovi�tica est� cada vez mais forte.

Como pode falar assim? Voc� e os outros...

n�o sabem o que s�o os camponeses...

nem os pequenos burgueses que se ligaram ao fascismo.

Como pode pensar que amanh�...

poderemos passar � ditadura do proletariado, assim?

- Deixe de bobagens. - N�o fique ouvindo.

Voc� est� se passando por papagaio?

Somos comunistas.

N�o temos nenhum Papa para defender.

E ent�o? Est�o procurando problemas?

� o que querem.

Foram condenados por atividade subversiva...

e, em vez de trabalhar, ficam s� falando.

E voc�? Sabe que � proibido.

Mas quem estava falando? Eu s� repetia os verbos em franc�s.

Eu estudava. N�o � proibido.

Saiam daqui! Por ali, v�o, v�o!

V� se danar, voc� e o maldito do Mussolini.

Babacas.

A ditadura do proletariado � um dom�nio de ferro...

contra a velha classe, buscando atingi-la mortalmente...

destruir-lhe os centros de poder...

anular-lhe toda a capacidade de resist�ncia.

Mas a classe oper�ria n�o pode dominar somente.

Para dobrar seu inimigo hist�rico, precisa de aliados...

e com estes a rela��o precisa ser diferente.

Hegemonia significa isso mesmo...

classe e Partido imp�em a sua for�a ao inimigo...

mas procuram consenso, ajuda, apoio...

em outras camadas sociais...

encorajando-os...

protegendo seus interesses...

orientando-os...

porque a classe oper�ria tem que se ocupar...

em vencer duradouramente...

em vencer para sempre.

Deve criar a pr�pria hist�ria...

edificar a pr�pria cidade.

- Ele pensa... - Fale baixo.

Ele pensa, mas estes...

de tanto que est�o presos t�m o c�rebro enferrujado.

Quem sabe se ainda s�o capazes de reagir?

De defender uma ideia revolucion�ria?

Ent�o, vou te dar um soco no nariz, como ele o chama.

Que bobagem � essa?

� um discurso que come�ou h� seis anos.

Eu trabalhava no jornal.

Lembro-me do que escrevia sobre a crise Matteotti...

e as rela��es dele no Comit� central...

...sen�o ficaremos aqui de noite. Venha outro!

Sempre os mesmos, hein?

Venha voc�. O que aconteceu contigo hoje?

N�o est� convencido. N�o s�o balelas!

Al�m disso, com algumas exce��es, concordo com ele.

� uma ratoeira e est� caindo nela.

Uma ratoeira? Qual ratoeira?

Ent�o... � um provocador.

Bem intencionado.

E os bolcheviques em 1917?

A R�ssia era um pa�s atrasado, n�o esque�a.

Aqui no ocidente temos de lidar...

com um desenvolvimento maior do capitalismo.

Ent�o as condi��es s�o mais favor�veis, mais maduras.

Mas os obst�culos s�o maiores...

as resist�ncias mais duras.

O burgu�s n�o criou somente o pr�prio estado repressivo...

mas uma sociedade civil.

Tem centros de consenso...

mecanismos de corrup��o, de persuas�o...

uma escola de classe refinada.

Pensem nos privil�gios corporativos...

�s aristocracias oper�rias.

O Estado n�o � mais que uma trincheira avan�ada.

Por tr�s dele h� todo um campo entrincheirado.

E quer fazer o qu�? Atac�-lo sozinho de baioneta?

Ou�a, Antonio, no ocidente, na It�lia...

a burguesia far� tudo o que est� dizendo...

mas se no momento certo n�o tivesse se refugiado

entre as pernas dos fascistas...

estaria perdida.

Quem estancou a revolu��o?

Os fascistas? A guarda real? Os carabineiros?

No momento certo eles tamb�m estavam l�.

Mas, antes, quem tinha se oposto a n�s?

TURIM - SETEMBRO DE 1920 OCUPA��O DAS F�BRICAS

Saiba que os caras do sindicato s�o criminosos...

dizem para ocuparmos as f�bricas...

sem preparar absolutamente nada...

nem um pouco de defesa, armas, muni��es...

E olhe que s�o pagos.

Pagos para nos representarem!

L�nin teria mandado fuzil�-los.

Bem, para come�ar, criem meios de defesa.

T�m tudo nas m�os. � preciso criar meios de defesa.

Defesa, defesa! Olhe l�, Antonio, olhe...

Para nos defendermos at� que temos bastantes armas...

Sim, se algu�m nos atacasse, conseguir�amos resistir...

mas a ideia � diferente.

Diga que est� pensando em outra coisa!

� claro e tenho que fazer e voc� tamb�m, ele e todos.

N�o estamos ocupando uma s� f�brica...

sen�o seria a engana��o sindical de sempre!

N�o, no sindicato nos dizem...

"Ocupem todas as f�bricas metal�rgicas na It�lia. 600."

Um milh�o de pessoas tomam 600 f�bricas.

Mas assim vamos atacar a propriedade privada...

n�o � brincadeira!

Assim, cria-se um problema de poder, mas daqueles...

Pior que as pend�ncias sindicais!

Ent�o voc� quer s� se defender?

N�o nos iludamos, o Partido n�o se mexe.

Mas eles, est�o fazendo o qu�?

Fotografias, que o jornal quer.

No lugar.

Mas � preciso se fazer entender, diacho!

- Prontos? - N�o pode ficar assim!

Ou se segue em frente e se toma o poder...

Prontos?

Ou o jogam para tr�s, mas de verdade.

Parados assim!

Parados! Parados!

A burguesia sente a tormenta...

e se levar novamente a melhor...

nos oferecer� uma bela pol�cia branca ou preta.

Tentar� com um golpe de Estado, uma ditadura de ferro.

Ent�o vamos, que o primeiro passo foi dado!

E o segundo quem far�, se o Partido n�o se mexe?

- N�s de Turim? Sozinhos? - N�o! N�o sozinhos!

Tomamos a iniciativa e o Partido e o Sindicato nos abandonam.

Com o traseiro em cima do muro, chicoteado pelo Patronato.

Mas � porque incomodamos o Partido e o sindicato.

"Grupo de extremistas...

irrespons�veis, aventureiros", foi o que disseram e escreveram.

Para n�s queriam uma Comiss�o de Inqu�rito, n�o se lembra?

Claro...

a burguesia persuadiu os socialistas...

- levou-os a trair. - N�o � t�o simples.

A hegemonia da classe burguesa...

naqueles anos funcionou, fez seu papel.

Circulava em toda parte...

nos sindicatos, no v�rtice do Partido...

no grupo parlamentar, paralisava, convencia.

Foi uma captura indolor. Por isso os social-democratas...

reivindicavam a honra de ter impedido uma explos�o revolucion�ria.

- E os socialistas? - N�o sabiam para onde ir...

paralisados at� a impot�ncia...

diante do labirinto que a burguesia construiu para se defender.

Impot�ncia cultural, politica, moral...

Repetiam: "A hora se aproxima"...

e adiavam. S� souberam adiar.

S� adiar, at� a marcha sobre Roma.

E os grandes jornais de opini�o...

o "Corriere della Sera"...

que defendia os algodoeiros e a liberdade.

E ainda o "La Stampa" de Agnelli, de Giolitti...

repleto de solu��es razo�veis, democr�ticas.

Todos estes bons burgueses jogavam � mesa das reformas...

faziam discursos comoventes...

"Chega de greves, trabalhem, vamos salvar o Estado."

Esse Estado que, em 1922, passou a vestir a camisa preta.

Nojentos! Deram-me 11 anos...

Porque ofendia a democracia! Eu!

Abram!

Depressa! Depressa!

Acham que v�o abrir?

Oh! V�o abrir, ou n�o?

- Droga! - Nojentos!

� in�til!

Malditos, canalhas!

Chove? � culpa dos comunistas!

Era comunista D'Annunzio, quando amotinava os oficiais generais...

contra o governo leg�timo?

Eram comunistas os incendi�rios do "Avanti"...

de Mil�o e de Roma?

Era comunista Cadorna, quando em 1917...

preparava a ditadura militar?

S�o comunistas os industriais...

especuladores que tomaram a riqueza nacional...

e a levaram para o exterior,

enquanto o governo nunca foi capaz...

de impedir o �xodo dos capitais?

Esta � a rea��o italiana...

que cada governo solicitou...

ajudou mais ou menos abertamente.

A delinqu�ncia reacion�ria nunca foi atingida pelos tribunais.

� um delito incendiar um jornal socialista? N�o.

Os culpados, conhecidos, confessos...

n�o foram nem detidos...

ali�s, puderam organizar outras empresas.

� um delito matar um membro da classe oper�ria? N�o.

Os assassinos...

os c�mplices dos assassinos...

os mandantes, nem sequer foram molestados.

E se alguns deles acabavam diante dos ju�zes...

logo havia, para eles, insufici�ncia de provas...

ou o adiamento do processo...

o Supremo Tribunal, que suspende as investiga��es...

ou as transfere para as sedes mais domesticadas.

E, assim, o povo italiano viveu anos em pleno terrorismo.

Porque o terrorismo goza da impunidade...

que o Estado lhe concede.

Mas a Direita precisa agradecer...

tamb�m aos grupos que deveriam ter guiado...

as massas de modo revolucion�rio...

e n�o o fizeram...

ali�s, fizeram justo o contr�rio.

Entendeu com que fios fin�ssimos...

amarraram Gulliver?

Os fascistas chegaram por �ltimo...

- Ele � bom, sabe falar. - Vai acabar encantado!

� preciso ir a fundo nas coisas...

para n�o se perder com todas aquelas frases!

O que diz sobre os fascistas � verdade.

Sobre esses � f�cil, mas e sobre os social-democratas?

No 1�. De maio passado, na Alemanha...

um ministro alem�o social-democrata...

mandou ou n�o atirar contra oper�rios...

deixando 19 mortos?

Tem raz�o, tamb�m na Alemanha h� o perigo dos fascistas.

Segundo ele, os comunistas deveriam se aliar aos social-democratas...

para se matarem melhor.

E, no entanto, est�o sozinhos fazendo frente a Hitler.

Eles v�o ver como isso vai acabar.

E ent�o vamos abrir os olhos.

Para exercitar o dom�nio...

a burguesia nem sempre precisa da coer��o...

da viol�ncia legal, do terrorismo de Estado...

como na It�lia, hoje.

Para prender milh�es de cabe�as...

usa armas mais sutis.

Persuadiu-nos durante s�culos...

e nos persuade todos os dias...

de que seus valores s�o absolutos.

Fam�lia, educa��o, rela��es de trabalho...

m�todos de luta pol�tica.

A ideologia burguesa tem uma resposta pronta para tudo...

e � uma resposta capaz de convencer...

de garantir o consenso, digamos, espont�neo...

justo dos que s�o explorados...

e que s�o tamb�m enganados nos sentimentos...

e nas ideias, a ponto de darem sustenta��o ao dom�nio...

de seus pr�prios inimigos.

A hegemonia da classe burguesa...

n�s a respiramos mecanicamente...

como o ar, ela se tornou senso comum...

na consci�ncia de milh�es de indiv�duos.

Al est� o porqu�, antes de conquistar o poder...

antes, e n�o depois, uma classe revolucion�ria...

tem que se tornar classe dirigente...

tem que exercer sua hegemonia...

para subtrair da classe burguesa...

todo um bloco de for�as sociais.

Como?

Arrancando aos poucos das massas...

mesmo das mais atrasadas...

velhas ideias, preconceitos, temores seculares.

A confian�a e rever�ncia para com os grupos dominantes...

o estado parlamentar acima das classes...

o princ�pio sagrado da propriedade privada.

� este o cimento usado pelo burgu�s...

para prender milh�es de cabe�as.

Mas esse processo, de que voc� fala de hegemonia...

quem o faz?

- Na pr�tica, quero dizer. - Hoje?

Todos os que est�o na dire��o das f�bricas...

nos bancos, na imprensa...

e agora tamb�m na r�dio...

Os cientistas, os padres...

para impor �s massas ideias e princ�pios...

que conv�m �s classes dirigentes.

Enfim, os intelectuais.

Os intelectuais, essa corja de vendidos.

Se tivesse esperado os intelectuais...

L�nin continuaria esperando.

Mas como se permite?

Os intelectuais devem ser servidos de luvas...

Eles t�m sempre uma "m�e sant�ssima" por tr�s.

S�o todos da mesma ra�a dos patr�es!

Mas onde vamos achar os intelectuais?

Est�o todos l� em volta das botas do Mussolini.

E n�s, para fazer a revolu��o, vamos esperar que eles parem de lamber?

Sem uma nova classe de intelectuais...

a situa��o hist�rica ficar� como est�...

e n�o encontrar� uma sa�da revolucion�ria.

O �tero bichado da velha sociedade continua resistindo.

Est� bem. Os intelectuais s�o necess�rios...

mas s� no curso da revolu��o poder�o estar conosco.

A revolu��o s�o os oper�rios e o Partido.

Mas quem ser�o esses intelectuais?

Onde acham que v�o encontr�-los?

Os intelectuais da classe oper�ria...

s�o os militantes...

as vanguardas...

o Partido como intelectual coletivo.

- Os intelectuais s�o voc�s. - N�s?

Claro, ter�o de ser. Intelectuais de novo tipo.

O oposto dos velhos intelectuais...

porque n�o t�m medo de sujar as m�os...

na vida pr�tica e suas lutas.

Bem, hoje o Partido n�o tem estes militantes...

e os poucos que tem, n�s, por exemplo...

ainda estamos distantes das capacidades necess�rias.

Voc� nos fala de tudo, caro Antonio...

de cultura, intelectuais, hegemonia, etc.

Mas o poder se conquista com armas.

Vamos esperar que eles se instalem?

N�o digo s� os fascistas, mas os patr�es!

Sen�o, daqui a cinquenta anos, em 1980...

ainda estaremos esperando. Entende, Antonio?

Armas... as encontra...

fabrica, rouba, arranca do poder...

enfim, consegue conquist�-las de qualquer jeito...

Sen�o sempre nos deixar�o de joelhos!

Entende? Voltamos � hegemonia.

Sem a ajuda e o apoio da massa dos soldados...

como quer que seja poss�vel uma insurrei��o vitoriosa?

� a politica de massa que decide.

Com compl�s e aventuras...

nunca conseguiremos ter uma presen�a armada...

capaz, adestrada, em cada atividade do Estado.

Mas o exemplo n�o conta?

Claro, se for seguido por um milh�o de homens.

Sen�o � aventura. Neste terreno n�o se brinca...

se n�o quiser cair nas ciladas da provoca��o.

Pol�cia, carabineiros, tribunais s� querem isso...

um compl� de subversivos para usarem...

a fim de justificar a viol�ncia do Estado.

E, se ningu�m cai nessa, eles mesmos providenciam.

Agora lhes dei um belo soco no olho.

- � mesmo. - Est� bem, est� bem.

Temos que recome�ar do in�cio.

- Claro. - Agora cabe a voc�s refletir.

Ent�o, nos coloca perante uma escolha?

Sim, refletir, discutir, � sempre uma escolha.

A pris�o nos oferece todo o tempo.

Mas como? Uma escolha significa agir! No Partido!

Mas afinal o que quer de n�s?

Hoje o Partido � obrigado a caminhar de cabe�a para baixo.

� preciso recoloc�-lo sobre as pernas.

Por isso temos que lutar...

e arriscar... tamb�m.

N�o, n�o, n�o! Eu n�o vou nessa.

Athos! Athos!

Conseguiu me chatear.

Eu n�o aguento!

N�o tem sentido, minha nossa!

- Mas quem �? - Em nome de quem fala?

Ele nos abate, mas temos que responder.

Tem raz�o.

N�o se trata s� de ideias, � o Partido, a disciplina...

Mas n�o me convenceu.

Aqui n�o se discute s� ideias, ele quer muito mais.

O Antonio tem raz�o, mas estes...

� um cheque em branco.

Mas o que n�s sabemos do que o Partido decidiu?

Muitos concordam com o Antonio...

mas todos nos recusamos...

a trabalhar politicamente pelas ideias dele...

antes de conhecer as decis�es do Partido e da Internacional.

N�o podemos escolher na pris�o, n�o �?

Pessoal, isso pode significar quebrar a disciplina do Partido.

De acordo, ent�o de acordo.

Comprometer-nos como presos � absurdo.

Temos que falar isso para ele.

Isso! Para que nos d� outro soco nos olhos!

- S�o piores que chacais. - Voc�s o criticam feio.

Eu sei. Pegue isso, eu n�o posso comer.

Dizem que com seus discursos...

arrisca a corromper os camaradas mais jovens.

Dizem que n�o est�o na sua...

porque n�o querem desagregar o Partido.

Vamos, andem!

- Antonio? - Sim.

- Os camaradas discutiram. - Falat�rio, fofoca, eu sei.

Est� enganado.

A prepara��o pol�tica de muitos de voc�s � infantil.

Decidi suspender todas as discuss�es.

- Mas estamos todos de acordo. - N�o!

Voc� est� mal informado. N�o s�o fofocas.

N�s nos recusamos por disciplina.

N�o queremos destruir o Partido.

Voc�s s�o s� uns tagarelas.

E se todo o Partido tivesse uma linha diferente da sua?

Se � assim, fundaremos outro movimento.

O Antonio est� totalmente de acordo com voc�s.

- Teve ocasi�o de lhe explicar? - Sim, claro, j� falei com ele.

Sobre tudo?

Sim, disse: "Diga-lhe que concordo com tudo."

Disse assim mesmo.

Bem.

Mas, como est�?

Envelheceu, est� assim... na pris�o, n�o?

- Enfim, como est�? - Acho que tem algo dentro.

Est� p�lido, e at� inchado.

� uma sensa��o, posso estar enganado.

Vamos falar com a Tania. N�o lhe faltar� nada.

N�o se preocupe...

receber� tudo o que lhe for necess�rio. Fique tranquilo.

A conta, por favor.

L� longe no Arizona

Terra de sonhos e quimeras

O bandoleiro cansado

Bom dia.

Na Pianosa, dava para se lavar?

Nos banheiros coletivos, havia tantos piolhos.

Quando voc� se ensaboava, eles saltavam em cima.

Temos uma coisa para te dizer.

J� dissemos tudo.

- No Coletivo parecia... - N�o, decidiu!

O Coletivo decidiu que seu pedido aos camaradas...

de divulgar ao Partido e �s massas as suas ideias politicas...

se contrap�e �s normas de disciplina do Partido.

- � tudo? - N�o, n�o � tudo.

E a�?

Os camaradas exigem que respeite o estatuto do Partido.

- � tudo? - Sim.

Agora, tenho mais o que fazer.

Antonio, espere, queria lhe dizer...

- eu me abstive. - Tenho mais o que fazer.

Sempre acreditei que camaradas t�m que estar de acordo.

Voc� � um bobo. O Partido...

n�o � uma sociedade de socorros m�tuos.

Com eles n�o estou de acordo, mas...

mas entendo voc� cada vez menos.

E voc� a�, n�o vai se lavar?

N�o, senhor. A �gua machuca os ossos.

Foram grosseiros, n�o �?

Droga...

J� cansei de matar piolhos! J� matei tantos...

Minha nossa!

Afastem- se!

N�o fiquem em cima dele, levantem- no!

Levante- o!

Vamos lev�-lo � enfermaria!

For�a!

Ajudem!

- Guarda! - Abra!

- Guarda! - Guarda!

- Guarda! - Abra!

Abra, guarda!

- Abra! - Est� morrendo e n�o abre.

- Todos iguais! Nojentos! - Tem um cora��o de pedra!

- Abra, droga! - Vai abrir ou n�o?

- Abra. - N�o posso abrir.

- Droga, abra! - N�o posso.

- Ele est� morrendo. - N�o sou sargento, n�o posso.

- Abra! - Sem chaves n�o posso abrir.

- Abra, ele est� morrendo, guarda. - N�o posso abrir...

Nojento.

Queriam que pedisse perd�o ao Mussolini!

Mas v�o todos se danar!

E o que isso importa? Covarde!

Digam-lhe que pe�a o perd�o. Por que espera?

� uma provoca��o. O Partido n�o permite.

Para sair e viver, n�o para morrer.

Digam-lhe que o pe�a.

� maligno como todos os corcundas.

Antes Lo Santo por que est� doente, depois...

mas ele tamb�m est� doente, n�o?

Entendem, agora, por que quer que pe�a o perd�o?

O Antonio diz que s�o os fascistas...

que t�m que se envergonhar por pedir que assine.

E voc� fique quieto! N�s sabemos quem tem que se envergonhar!

- Parem! - Deixem para l�!

Isto � o que eles querem!

Posso?

N�o, obrigada, n�o fumo.

Voc� � estrangeira.

Sim.

Vejamos se adivinho. H�ngara.

Como?

Voc� � h�ngara.

- De Budapeste. - N�o, sou russa.

Vai visitar a Catedral de Conversano?

- N�o, descerei em Turi. - Em Turi? Mas n�o tem nada...

Tem, sim.

Meu cunhado.

Est� preso.

� um politico.

Ah!

- Vou visit�-lo. - Entendo.

Documentos, por favor, senhora.

Documentos, por favor.

Obrigado.

Documentos.

Documentos, por favor.

Senhora, por favor.

Senhora... Obrigado.

Documentos?

Desta vez n�o vai me olhar no rosto.

Para que se chatear? Fiz isso por ele, n�o?

Naturalmente, n�o entender� nada. Teimoso.

Sem um pouco de generosidade.

Est� bem, errei...

Mas n�o serve para nada mesmo.

Deveria ter lhe falado logo da Giulia...

Mas por que n�o lhe disse?

Eu, preocupado pela Giulia e voc� calada.

- Pe�o-lhe... - Os seus cuidados...

A Giulia est� mal e vem piorando h� tr�s anos.

Eu podia prever os golpes dos advers�rios...

mas n�o os que me atingiram de onde menos esperava!

Mas ela lhe escreveu sobre isso, n�o?

Como n�o se lembra?

Sim... h� dois anos.

- N�o, h� tr�s anos. - E ent�o?

Mas falava de depress�o.

Nervosa.

Nervo!

Mas depois disse que estava melhor!

Mas agora est� numa clinica.

Para doentes...

Para doentes de...

Aqui est�.

Olhe.

Oh! Meu Deus. O que fizeram? Lamento.

Quiseram controlar e a esmigalharam.

Lamento porque ela � boa.

Lamento, quiseram controlar.

SEREBRJANYJ BOR (MOSCOU), 1922

Os doentes, as enfermeiras, os camponeses...

todos ali me ouvindo tocar.

Eu tive medo, n�o reparou nisso?

N�o, mas percebi... - Camarada Schucht...

a dire��o do sanat�rio lamenta...

esta noite n�o temos quartos livres.

Como � poss�vel?

O meu concerto era previsto.

At� lhes mandaram um telegrama.

Sim, camarada, n�s recebemos.

Infelizmente estavam previstas algumas partidas...

que foram adiadas pelo mau tempo.

Contamos com o seu esp�rito de colabora��o.

Colabore, camarada Schucht, v� dormir sobre o piano.

Por que n�o? � de cauda, para mim sobra espa�o.

N�o, eu vou cuidar de voc�.

� mesmo?

Colabore, camarada Schucht, venha dormir na minha cama.

Uma bela ideia, n�o acha?

Sozinha ou a dois?

Tem medo? Disseram-lhe: "Cuidado � um sardo!"

Meio assaltante, meio bandido...

pode at� esfaquear!

Ora, ora...

N�o tem medo de mim?

N�o.

Em voc� confio quase cegamente.

E ent�o por que ainda se esconde nesse casaco?

Mas o que �?

S�o mochos.

Est� com frio e nem percebe.

Vamos, agora precisa dormir.

Amanh� de manh� vai partir cedo.

N�o acho que conseguirei dormir.

Precisa tentar me entender.

Eu n�o quero que fique de p� toda a noite.

Quero que durma um pouco, voc� tamb�m.

- Sim? - Sim.

Portanto...

pensei...

que voc�...

que...

- que voc� poderia... - Ah! Quer dizer...

- como dois irm�os. - Sim.

N�o est� dormindo?

N�o.

N�o sou eu, por acaso, que... Quero dizer que...

- Por estar acordado... - N�o.

Eu sinto que voc�...

Eu sinto muit�ssimo que voc� esteja aqui perto.

Estar perto de voc� � t�o bom.

- E quero tamb�m dizer que... - O que devo fazer?

Ficar assim...

ou ent�o deixar-se abra�ar.

N�o. N�o.

� culpa minha.

Eu quis demais.

Que hist�ria maravilhosa...

ter� para contar amanh� �s suas amigas.

N�o sente as gargalhadas?

Claro... � corcunda.

� tamb�m rid�culo.

Todo deformado.

N�o � verdade.

Eu n�o tenho amigas...

e n�o me importa mesmo que voc�...

N�o entendo por que o choro.

Eu n�o quero que pense isso de mim.

Eu queria...

ficar um pouco com voc�.

Queria conhec�-lo um pouco melhor.

Mas...

o fato que voc� seja...

o que quer que importe?

De verdade?

Sim.

E por que queria me conhecer melhor?

Porque sim.

Giulia...

as cartas que lhe escrevo...

s�o censuradas pela dire��o da pris�o...

enviadas ao Minist�rio do Interior.

Nas minhas condi��es quero estar perto...

mas � preciso que voc� me ajude...

que me ensine o modo melhor de ajud�-la.

As cartas que lhe escrevo...

analisadas pela pol�cia para revelar a tinta invis�vel...

A nossa maior desgra�a...

foi termos ficado muito pouco tempo juntos.

As cartas que te escrevo, copiadas palavra por palavra...

cartas ao Partido...

A impot�ncia de fazer qualquer coisa real...

eficaz para ajud�-la.

H� 5 anos...

na Trattoria dei Liberti, na Appia Antica...

havia mais camaradas, est�vamos partindo para Moscou...

o primeiro curso da escola leninista...

Sim, Pietro Laurin, � v�neto se n�o estou enganado.

Est� certo, sou de Verona.

H� quantos anos o...

14 anos, mas quem se importa?

Em poucos meses estaremos todos livres.

Sabe, aqui dentro chega pouco ou nada.

Not�cias vagas, imprecisas.

Enfim, como est� tudo?

Eu voltei para It�lia em junho, de Paris...

Sim, isso depois.

O Partido?

Bem, comecemos pela virada.

O Partido entendeu finalmente que estamos diante...

de uma situa��o diretamente revolucion�ria.

O fascismo est� em frangalhos.

Agora, o murro nos olhos vai para o Antonio. Que cara!

De social-democrata, ali�s, de social-fasc...

Ssshhhh, minha nossa!

Quando se est� fora da linha do Partido...

se acaba mal.

N�s tornamos traidores, olhe o Trotsky...

n�o concorda?

O nosso Togliatti diz que na It�lia...

n�o � poss�vel seguir outro m�todo, sen�o o prolet�rio.

O m�todo plebeu.

O m�todo democr�tico burgu�s est� exclu�do.

Sabem o que lhes digo? Ele est� gastando saliva.

N�o.

Mas o Antonio est� com as costas na parede.

Sim, sim, ele j� sabe.

Desculpe, quantos oper�rios trabalham em Paris...

no Centro Exterior?

Quatro ou cinco.

Poucos, n�o �? Por que o Partido n�o assume outros?

� dif�cil encontrar quem se disponha...

a deixar o trabalho, a fam�lia.

Mas como obrigar os camaradas?

Depois, quanto volta para It�lia � preso...

acaba num Tribunal Especial, ou acaba como o Sozzi...

que a pol�cia matou para obrig�-lo a confessar.

E � preciso gente de confian�a, segura.

- � muito dif�cil, n�o �? - �, sim.

Ent�o n�o � uma quest�o s� de meses, n�o acha?

Assim, foram mandados para It�lia...

para organizarem o Centro Interno. Quanto durou?

Menos de um m�s. Fomos tra�dos.

Um dos nossos, t�nhamos encontro marcado...

e, em vez dele, encontramos uma matilha de policiais.

N�o � a primeira vez.

E neste m�s o que viu?

Como os oper�rios pensam?

Sim, no Piemonte...

e falo do Piemonte porque trabalhei l�...

h� muita insatisfa��o, sal�rios baixos.

Na prov�ncia de Biella me chamaram...

para uma reuni�o de 30 camaradas.

- Voc� os viu? - N�o.

- Fui preso antes. - Ah!

O nosso informante em Turim falou de protestos na FIAT.

- Protestos como? - Bem, protestos...

Em Alessandria, me falaram de uma greve dos chapeleiros...

- Quando? - Para os sal�rios.

Quando?

Voltou. O que quer dizer?

Quais s�o as for�as do Partido no Piemonte?

Uma centena de camaradas.

Mas, com os simpatizantes, multiplique por dez.

E talvez estejamos abaixo.

E voc�, com uma centena de camaradas, quer fazer a revolu��o?

Quer desencadear a luta contra a pol�cia...

a mil�cia fascista, o ex�rcito...

na esperan�a de vencer?

Disse a esperan�a. N�o digo a certeza.

O que lhe t�nhamos dito?

Sim, entendi. N�o est� de acordo.

Mas n�o � que tenha me dito.

Entendi pelas perguntas que me fez.

Oh! Laurin, acorde!

Voc� � do Centro Interno.

Voc� pode lhe dizer: N�o!

"A linha do Partido � esta...

e quem n�o est� de acordo, est� fora."

Com voc� usou de vaselina...

- conosco n�o. - Droga, � verdade.

- Por que n�o lhe enfrentou? - Porque n�o me pareceu...

- com ele... � o chefe, n�o �? - Justamente!

Pense a responsabilidade que assume diante do Partido!

Voc� tem que informar o Partido.

Camaradas.

Vou ser operado. Parto amanh� de manh�.

Ficando aqui, morro.

Indo para ser operado, tamb�m morro.

Mas vai escrever, sim ou n�o?

N�o, o Antonio est� doente. Pegou 20 anos, 20!

- Nenhum de n�s pegou... - O que tem isso?

N�s � que vamos fazer a carta!

Vamos saber do Lo Santo.

- Ou�a. - Sim.

Preciso te falar de Antonio.

N�s achamos que seja conveniente escrever ao Partido.

O Partido precisa sempre ser informado.

Est� bem. Ent�o vou escrever.

Camaradas, o Francesco Lo Santo n�o morreu.

Foi assassinado.

Quer ser curado? Quer viver?

N�s o trouxemos para uma cl�nica...

mas antes tem que assinar.

Assinar sob o pedido de perd�o exigido por Mussolini...

em troca da vida. Uma bela troca, n�o �?

Ele escolheu morrer entre os piolhos...

a dois passos do balde e l� a esposa n�o estava...

e nem sequer um camarada.

Mas perto dele, que morria, estava o Partido.

Ele nunca esqueceu o Partido.

Procurar�o apagar o nome dele...

mas a hist�ria fala uma linguagem...

que os assassinos nunca dominar�o.

A hist�ria tem leis...

que os assassinos, os fascistas...

- n�o podem esperar... - Dispersem! Mexam-se!

Dispersem!

- Mexam-se! - Mas o que acha?

- Que basta fazer cara de... - Explique-me, o que quer?

� voc� que tem que explicar.

Queria que aquele pobre velho pedisse perd�o?

Cava, cava, e sob o figur�o encontra o tagarela...

mesmo entre comunistas, mesmo entre n�s.

Bem, voc� arrisca a ser comunista por pouco tempo.

Mandamos uma carta ao Partido.

Sim, o Laurin a escreveu.

Mas saiba que est�vamos todos de acordo...

at� o Lo Santo.

- O que escreveu? - Nada, poucas linhas.

Tinha medo que a mensagem acabasse nas m�os da pol�cia.

Disse s� que voc� est� em desacordo...

com a linha do Partido.

Depois perguntei o que deveria fazer.

- Por que n�o me disse? - Mas quando?

Est� sempre sozinho...

e, se algu�m se dirige a voc�, parece que fica contrariado!

- Entre voc� e os camaradas... - Isolaram-me completamente.

Mas n�o devia ter permitido!

Voc� tinha, tem ainda a autoridade...

para quebrar este clima terr�vel.

Aqui tem gente que diz ser comunista e n�o �.

Antonio, aqui cabia a voc� e a mais ningu�m.

Mas o qu�? Trocar o c�rebro dos inconscientes?

Mas sabe do que me acusam? Voc� sabe?

De ser um legalista ferrenho...

de ter privil�gios.

Imagine que privil�gios, previstos pelo regulamento.

Portanto, sejamos francos.

Eu quero continuar a estudar, a escrever...

e o farei.

Nunca, em caso nenhum, entende?

Nunca darei chance para que os tirem de mim.

Por isso respeito o regulamento.

Dizem: "Quer mais cuidados, uma comida melhor..."

Claro, � natural.

Eu trabalho, estudo. N�o fa�o fofoca.

Eles tamb�m est�o doentes, n�o sabe?

Os nervos explodem em todos.

Voc� tem que se aproximar dos camaradas.

Antonio, aqui � preciso mudar tudo!

� preciso sair desta maldita confus�o.

Bastaria que voc� recome�asse as li��es.

D�-me um pouco de tempo...

quero pensar nisso.

Enquanto isso, escreva outra carta ao Partido...

anulando a primeira.

Mesmo curta, n�o tem import�ncia, mas logo.

Sim, mas voc�...

� voc� quem precisa escrever ao Partido!

Nunca o fez. Por qu�?

Enquanto isso, voc� escreva a sua...

e ent�o, com calma...

escreveremos outra juntos... depois.

TURIM - SETEMBRO DE 1920 A OCUPA��O DAS F�BRICAS

S�o os Conselhos de F�brica...

que amedrontam o Partido e o pessoal do Sindicato.

Os Conselhos, como se n�s os quis�ssemos.

Porque com estes Conselhos...

com a participa��o direta de todos...

n�o s� dos filiados ao Partido e ao sindicato...

Entendeu? Com esta participa��o direta...

de todos os oper�rios que decidem...

adeus � tutela do Partido e do sindicato sobre as massas!

- Est� bem. Para onde vamos? - Atr�s da mesa, n�o?

- Da mesa do Agnelli? - Sentados. Sentados.

Ah! Vou guardar esse fotografia para os filhos!

Bem, um dia eles chegar�o l� de verdade.

Com os Conselhos.

Porque o medo dos patr�es � exatamente este.

Arranca-lhes das m�os a m�quina mais importante...

n�o esta, voc�s!

Ou�am, hoje, na f�brica o oper�rio � nada.

Com os Conselhos quer se tornar tudo.

Parados. Disse parados!

Est� bem. Mas agora, vamos fazer o qu�?

Aonde chega? Para obter o qu�?

Mas como conquistar o poder?

Responda.

Bem, agora...

a �nica coisa que nos resta a fazer...

� lutar pelos nossos Conselhos de f�brica.

� a �nica coisa concreta que podemos fazer hoje.

- Mas n�o chega. - Antonio, os Conselhos, sim.

Mas os Conselhos sem o Partido...

Ou com esse Partido a�...

Sozinhos n�o chegam l�!

J� pensou? Estar num Partido...

onde tem que se precaver das trai��es dos seus?

Droga, esse n�o � mais um Partido.

Mas que cheiro de piolhos assados!

Olhe, que o Antonio nunca escrever� ao Partido.

Fez s� com que anulasse a carta.

Era o que queria.

Mas diga, por que n�o a escreveria?

Foi uma ideia dele, n�o?

Se ele escrever ao Partido, vou cortar meus test�culos...

corto-os com uma lata enferrujada!

Nestes dias n�o d� nem para se aproximar dele.

Est� muito nervoso!

A esposa n�o lhe escreve, dos filhos n�o sabe nada...

� uma fam�lia um pouco estranha.

Mas est�o na R�ssia, na R�ssia!

L� eles cuidam de tudo...

at� mandam sua esposa para uma clinica.

E n�s, ent�o...

que n�o t�m ningu�m para pensar nas nossas fam�lias?

Isso, a fam�lia...

ainda bem que minha companheira na R�ssia...

ainda bem que eu disse sim quando ela quis abortar.

A fam�lia, sim. N�s tamb�m a temos...

mas a verdade � que n�o escrever�...

nem hoje, nem amanh�, nem nunca...

porque ele e o Partido caminham assim.

Ouviu como fala do St�lin?

N�o. Mas por qu�?

Por qu�? Porque at� o St�lin o incomoda.

Sem brincadeira! Ele n�o � o L�nin de hoje.

Enjaulado numa R�ssia atrasada...

conservou uma mentalidade nacional.

Quer dizer uma mentalidade muito russa?

Ent�o conhece bem o pa�s e o governo.

St�lin � primeiro georgiano, depois russo, depois comunista.

- � preciso ter cuidado. - N�o � L�nin, mas � algu�m.

- Um sujeito com nervos de a�o. - � o que � preciso.

Bem, segundo L�nin, St�lin era arrogante demais.

St�lin tem um poder imenso na m�o...

e n�o estou nada seguro que seja capaz de us�-lo bem.

Se n�o estou enganado, L�nin falou assim mesmo.

Queria tamb�m afast�-lo do cargo de Secret�rio do Partido, mas morreu.

Mas quando o L�nin escreveu isso?

Eu n�o me lembro.

N�o � verdade! � tudo bobagem!

� um documento que o Partido n�o quis publicar.

- Era um documento de L�nin! - Sim.

- E o mantiveram em segredo? - Sim.

- Por qu�? - Por qu�?

Eu estou de acordo com isso.

Est� bem, vou lhe perguntar...

Ent�o, v�.

Sim, o momento � prop�cio. Est� sozinho e de bom humor.

V�, v�...

Agora vou lhes contar tudo.

Ol�, Antonio, como est�?

Mal, obrigado. Minha cabe�a est� doendo.

Escreveu ao Partido?

N�o, mas estou pensando nisso.

Sim, estou pensando.

Trouxe-lhe este livro, � importante, sabe?

Vamos conversar sobre ele depois.

Desculpe, mas estou com dor de cabe�a...

Dor de cabe�a.

- Viram? - O Laurin foi engolido...

Laurin, para voc�!

Bastardo!

- O que �? - Bastardo!

Chega! Vou matar voc�!

Vamos, parados!

Para a parede, j�! Para a parede! Fiquem quietos!

Revistem-nos!

Vamos, revistem-nos!

Provocam desordens? Conseguem se socar?

Ent�o n�o est�o doentes.

E est�o querendo que eu tenha problemas.

Mas eu acabo com voc�s!

Aqui em Turi v�o ficar pouco tempo.

Vou coloc�-los na solit�ria!

Todos!

Bem, tem sorte...

- Eu? - Vai embora deste nojo!

Adeus. E ju�zo.

Soube alguma coisa do Partido?

Sobre o Antonio, responderam?

N�o. As cartas n�o devem ter chegado...

ou a resposta ter� se perdido.

Fique tranquilo...

em poucos meses estaremos todos livres.

Antonio, vou embora...

- E queria dizer... - Adeus, Giovanni. Adeus.

- V� em paz. - Sim.

- Lamento. - A mim n�o. O que me importa?

Pense que quando me mandaram para c�...

quase chorei...

de felicidade...

"Estarei com o Gramsci"!

Aqui, nada mais vai mudar.

� melhor outra pris�o. H� tantas!

Encontram-se novos camaradas...

recome�a-se a conversar sobre pol�tica...

sobre coisas!

Aqui n�o d� mais para fazer.

- Posso me despedir? - Est� bem.

A� est�.

Antonio.

Procure ficar bem...

- e se curar. - At� logo.

- At� breve. - Leia, estude...

Era s� uma despedida.

Em 3 de agosto, a uma da manh�...

cuspi sangue de repente.

Ao respirar sentia um gorgolejar por dentro.

Seguia-se um ataque de tosse...

e a boca se enchia de sangue.

A tosse n�o era violenta.

Uma tosse que aparece...

quando se tem algo estranho na garganta...

ataques isolados...

sem cont�nuos acessos, sem orgasmo.

Durou at� quase �s quatro.

Nesse per�odo cuspi cerca 250, 300 gramas de sangue.

Ou�a, queria lhe pedir...

Sei que gosta de mim e que quer me ajudar...

Claro.

N�o sei se � melhor que voc� escreva isso para Giulia...

ou se devo escrever eu.

N�o entendo. O qu�?

Eu quero a separa��o.

A Giulia pode recome�ar sua vida.

Como?

- Como, tudo isto para... - O que voc� tem com isso?

N�o, n�o. N�o queria... Eu pensava na Giulia.

Est� fechada na cl�nica, come�a agora a melhorar...

- n�o conseguir�... - Mas eu nunca sairei daqui.

- Olhe, eu... - Tania, nunca sairei daqui!

- Voc� vai escrever... - Mas por que um ser vivo...

tem que ficar ligado a um morto como eu?

Professor, desculpe-me pela intromiss�o.

Nesse estado, professor.

Diga-lhe tamb�m, senhorita.

Ele n�o pode continuar aqui dentro.

Sim, sim. Entendi. O pedido de perd�o.

Bela forma de suic�dio! A pior!

Nino, mas n�o v� que todos dizem o mesmo?

N�o � por maldade. At� na sua terra o dizem todos.

N�o � por maldade. � ignor�ncia.

O que est� dizendo?

Por favor, escreva para Giulia.

N�o � a mim que deve escrever...

� a ela e s� a ela que deve escrever. Entendeu?

Entendeu?

Para onde o levam?

Para a cela mortu�ria, onde tem o dep�sito de feno.

Mas h� tantos colch�es!

V�o coloc�-lo l� para ficar no mais macio.

- Quantos anos cumpriu? - Quem sabe? Talvez 40.

Nem ele sabia.

Antonio, � verdade que v�o mand�-lo para uma cl�nica?

Eu?

Tanto, j� estou tramado.

PARIS, MAR�O DE 1933 Nada mais.

A �ltima vez que o vi foi h� seis meses...

antes de sair da pris�o e de fugir para c�.

Ah, sim. Soube tamb�m...

que a cada novo camarada que chegava a Turi...

fazia o relato do pensamento dele...

as cr�ticas, os erros do partido...

Sim, ele os chama assim... e todo o resto.

Tamb�m escrevi isso no relat�rio que entreguei.

Nada mais?

N�o.

Soubemos que ele est� mal.

Sim.

Em Turi, os camaradas pensavam que ele n�o aguentaria.

Chega. � tudo.

J� o lemos.

O Partido obriga-o a n�o falar disso com ningu�m.

- Ningu�m. - Est� bem.

Sobre tudo, est� claro?

Entendi, um momento. Excel�ncia, � Turi na linha.

Ent�o...

esse Gramsci?

Excel�ncia, examinei os cadernos...

conceitos desconexos, nebulosidade, contrassenso...

at� alguns erros de ortografia.

Eu j� sabia.

Pe�as da arteriosclerose.

Pe�a aos carabineiros...

para que providenciem uma escolta especial.

Pol�cia, por medidas especiais de seguran�a...

em todas as esta��es de tr�nsito.

Para a Schucht, dobrar o servi�o...

por meio de agentes � paisana.

Todos casados.

� uma santinha na qual � melhor n�o confiar.

A todos os chefes de pol�cia interessados...

vigil�ncia ininterrupta, adequada � import�ncia etc.

E assim, Gramsci conseguiu.

N�o assinar o pedido de perd�o?

Sim.

E n�s n�o vamos libert�-lo.

Vamos mand�-lo morrer em outro lugar.

Guarda.

Cada dia se despeda�a um novo fio...

das minhas liga��es com o mundo passado...

e � sempre mais dif�cil atar tantos fios quebrados.

N�o ter rela��es com ningu�m...

ser esquecido por todos, esquecer tudo.

Ter uma vida de animal na sua toca...

enovelar-me sobre mim mesmo...

tornando-me mais arisco que um porco-espinho.

Descarregar a bagagem.

Cumprimente.

Bem, o que � isso? O que est�o fazendo aqui?

N�o h� nada para ver. Sumam!

As hierarquias sociais est�o despeda�adas...

os valores hist�ricos est�o subvertidos...

as classes executivas, as classes subalternas...

viraram classes dirigentes.

A classe oper�ria se colocou na lideran�a de si mesma...

encontrou em si mesma os homens que transformar�o...

um agregado elementar e mec�nico...

em uma criatura viva.

Tudo isto faz torcer de raiva os escritores da burguesia...

os crentes na investidura divina da classe burguesa.

Estamos construindo a primeira c�lula hist�rica...

de um destino diferente.

26 de abril de 1937, 15�. Ano da era fascista.

Fonograma...

Da Pol�cia de Roma � divis�o dos neg�cios gerais...

e reservados do Minist�rio do Interior, 1�. Se��o...

10h25.

O c�lebre Antonio Gramsci...

em decorr�ncia de um ataque de hemiplegia...

encontra-se em condi��es grav�ssimas.

Ele deve falecer.

27 de abril de 1937, 15�. Ano da era fascista, 11h.

Em rela��o � mensagem de ontem...

comunica-se que Antonio Gramsci...

faleceu esta manh� �s 4h.

Ser� organizada uma atenta e rigorosa vigil�ncia...

para evitar quaisquer manifesta��es subversivas.

28 de abril de 1937, 15�. Ano da era fascista...

22h10.

Em rela��o � mensagem de ontem...

comunico que esta noite, �s 19h30...

ocorreu o cortejo f�nebre...

do not�rio comunista Antonio Gramsci...

seguido por apenas dois familiares.

A carruagem procedeu a cavalo at� Verano...

onde o corpo ficou depositado...

aguardando ser cremado.

"TODAS AS SEMENTES MORRERAM, COM EXCE��O DE UMA QUE AINDA...

N�O SEI O QUE �, MAS QUE PROVAVELMENTE � UMA FLOR...

E N�O UMA ERVA DANINHA." ANTONIO GRAMSCI

FIM

AS PERSONAGENS DOS CAMARADAS DE C�RCERE DE ANTONIO GRAMSCI...

foram livremente inspiradas em fatos e epis�dios ocorridos na...

PRIS�O DE TURI, ENTRE 1929 E 1933.

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