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Calada! Fica calada!
Calada.
Mario?
Sou eu.
Est�s ocupado.
Sim?
Ent�o, podes ir buscar os mi�dos?
Eles t�m aulas de t�nis agora.
Sim, estou bem.
Aconteceu alguma coisa?
Bem, vai agora.
M�e, chegamos!
Vou jogar aqui.
Para o cato!
Quero ver o Diabo Rastejante!
- �s um copiador! - N�o sou nada!
Ol�.
Queremos ver se se mexe!
- O qu�? - Queremos ver se se mexe, pai.
� um Diabo Rastejante.
� a �nica planta do mundo capaz de se mover.
- �? Quem te disse isso? - A m�e.
N�o fa�as isso querida. Por favor come.
Acabei! Posso ir ver a corrida?
Que corrida?
Esqui alpino, m�e.
Quando crescer, vou bater o recorde de velocidade.
Eu, vou ter o melhor tempo.
Que copiador! Tu queres ser paraquedista, n�o esquiador.
Nina, eu vou ser as duas coisas.
N�o podes ser as duas coisas.
Dez minutos, depois banho.
Eu acabei, tamb�m.
- N�o, n�o acabaste. - Est� a come�ar, Julian!
Por favor, m�e!
Pega no teu prato e come o que falta.
Julian!
Depois eu limpo!
O qu�?
A minha press�o arterial desceu.
Eu fico tonta facilmente, lembras-te?
- Queres que chame um m�dico? - N�o.
N�o � preciso. Estou cansada, s� isso.
Eu posso chamar o Dr. Risso.
N�o.
S� preciso de me deitar.
Vai chover.
H� len��is l� fora...
N�o te preocupes. Eu apanho-os se come�ar a chover.
Deitas os mi�dos?
Eu n�o sei bem quando � que foi que comecei a ficar assustado.
A minha m�e conta-me v�rias vezes como era dif�cil p�r-me a dormir.
Durante toda a minha inf�ncia.
Eu esfor�ava-me muito para ficar acordado.
Desesperava.
Ela pensava que eu tinha medo de n�o acordar.
Mas eu n�o sei se era isso. N�o me recordo.
A minha m�e nunca soube � que era cada vez mais dif�cil adormecer.
Eu nunca lhe contei as noites que eu passei paralisado na cama,
incapaz de fechar os olhos,
incapaz de me levantar.
Paralisado.
Aos poucos aprendi a pensar que era normal viver com medo o tempo todo.
Quieta.
Cala-te.
Fica quieta.
Eu corto-te a garganta.
Cala a boca.
Quieta! Quieta!
Cala-te!
Anda c�!
Aqui!
Cala-te. Cala-te.
Fica quieta!
Estou? Estou?
Mario? Sou eu.
Como est�s?
Est�s ocupado?
N�o, n�o estou ocupado meu amor. A minha reuni�o j� acabou.
O diretor n�o veio. Terminou.
Podes ir buscar os mi�dos?
Sim, posso. Apanho um t�xi e vou.
Mas, estou perto de casa...
Talvez possa aparecer. Ainda tenho tempo de ir a�.
- Est�s bem? - Sim, estou.
- Aconteceu alguma coisa? - N�o, n�o.
N�o, �... Porque... Eu corri.
Bem, vai agora.
Est� bem, eu vou.
Isso, d�-lhe!
Trabalho de equipa!
Essa foi boa, pai.
Aqui vai!
M�e, chegamos!
Vou brincar aqui.
Para o cato!
Quero ver o Diabo Rastejante!
- �s um copiador! - N�o, n�o sou nada!
Diana?
Ol�.
Quero ver se isto se mexe!
- O qu�? - Quero ver se isto se mexe, pai.
� um Diabo Rastejante.
� a �nica planta do mundo capaz de se mover.
- �? Quem te disse isso? - A m�e.
Que aconteceu?
Nada...
Eu...
Aleijei-me no cato.
Deixa-me ver.
Ainda tens alguns espinhos aqui.
Depois de jantar eu tiro-os.
Desastrado como de costume.
Mais.
Cansado?
Sim.
Um bocado.
E tu?
Estou bem.
Como � que correu?
Tudo bem no clube?
O qu�?
Correu tudo bem com os mi�dos no clube?
Sim.
Correu tudo bem.
Agora o penso...
Qual � que escolheste?
Este.
Pap�...
O que � que significa "retroceder"?
"Retroceder" significa voltar para tr�s.
"Avan�ar" � ir para � frente...
E "retroceder" � para tr�s.
Pronto.
Bem. Vamos l�.
Luzes apagadas...
Adeus.
A Diana sempre soube dos meus medos.
No nosso primeiro encontro, eu disse, como se fosse uma piada,
que tinha todas as fobias do mundo.
Ela riu-se, pegou num guardanapo e come�ou a fazer uma lista.
"A Lista dos Medos do Mario".
Morte, confinamento,
velocidade, alturas, avi�es...
Talvez, avi�es acima de tudo,
j� que eles combinam quase metade dos meus medos numa coisa s�,
eu lembro-me de lho ter dito.
Ela ainda vivia no Brasil, na altura,
ent�o eu contei-lhe do meu medo da dist�ncia.
Beij�mo-nos.
Namor�mos durante seis meses.
Vivemos juntos por oito anos e tivemos dois filhos.
Depois, estivemos separados dois anos, um m�s e dezassete dias.
H� uma semana atr�s, voltei de vez.
Durante todo este tempo, eu sabia que ela continuava a apontar as minhas fobias...
naquela lista que ela guardava com cuidado.
Sei que n�o h� mais espa�o naquele guardanapo.
N�o h� espa�o para mais fobias.
Eu estava alto, muito alto.
Muito alto?
Alto como?
- Alto como a lua. - Uau!
E estava a cair...
E demorei muito a cair.
J� alguma vez sonhaste com algo assim?
Sim, mas...
Mas um segundo antes de bater no ch�o...
Acordei.
Como se chama aquele desporto? Onde te atam a uma corda...
E tu saltas para o nada?
Bungee jumping, Julian.
� isso que eu quero fazer!
- Bom dia. - Ol�.
Bom dia.
� muito perigoso. Ainda �s uma crian�a.
Pap�, quando for grande. Quando tiver dez anos.
Est�s bem?
Parece que levei uma co�a.
N�o sei, talvez seja gripe.
Eu liguei � Elisa. N�o vou para o atelier hoje.
Eu tamb�m tenho gripe. Posso ficar em casa tamb�m?
- Eu tamb�m. - N�o, voc�s est�o bem.
Eu tenho febre alta.
Como � que n�s criamos estes pequenos monstros?
Que monstros? Toma l�!
Pronto! J� terminaste?
Vai buscar a tua mochila, o autocarro j� est� a chegar.
Voc�s fizeram-nos porque estavam apaixonados.
Ainda estamos, Nina.
� verdade.
A casa muda muito quando as crian�as n�o est�o.
Podemos passar algum tempo juntos.
Queres que fique aqui hoje?
Eu posso escrever daqui...
Tomar conta de ti.
N�o tens de desocupar o teu apartamento hoje?
Posso ir depois.
Ao fim do dia.
N�o � preciso, Mario.
Vai.
Tens a certeza?
Certeza absoluta.
Vai buscar as tuas coisas.
Medo da morte, confinamento, velocidade.
Medo das alturas, avi�es, dist�ncia, loucura.
Medo de amputa��es. Medo de barcos. Medo do mar.
Medo de tubar�es, crocodilos, cobras, c�es desconhecidos.
De armas, dentistas, mis�ria, pobreza,
est�dios de futebol, insetos, multid�es, viol�ncia, elevadores,
doen�as, m�dicos, tempestades, eletricidade,
panelas de press�o, botijas de g�s, grandes cidades,
ruas vazias, sangue, cancro, pol�cia,
escorpi�es, envelhecer.
Estou aqui em baixo. Subo?
Medo de ser impotente.
Medo de deixar de ser amado.
Medo de ser rid�culo em p�blico.
Medo de n�o ter raz�o.
Medo de ser tra�do.
Medo de ser negligenciado.
Medo de parecer fr�gil.
Medo de saber a verdade.
Medo de n�o saber a verdade.
Conhece esta mulher?
N�o.
N�o. � fic��o.
Eu trabalho na televis�o. Sou escritor.
Ana � o nome da personagem.
E neste gui�o...
O amigo da mulher viu tudo...
Mas ele n�o fez nada?
N�o.
NADIA
N�o podia.
Ele...
Estava com medo.
Ele temeu pela vida dela. Era uma situa��o delicada.
Eles estavam armados.
Eram fortes, grandes e jovens.
A sua pr�pria vida estava em risco.
Ent�o, o que eu quero saber...
�...
Porqu�?
Porque � que uma mulher que foi violada...
N�o disse...
Uma palavra, acerca disso tudo?
Aqui tens a informa��o que precisas para o teu gui�o.
Sugiro que a tua personagem reporte o crime a pol�cia.
As primeiras horas s�o criticas.
Nem a mulher, nem as suas coisas...
Devem ser limpas ou lavadas antes de ser devidamente examinadas.
Que se passa?
Porque n�o abre?
- Eu mudei as fechaduras. - Porqu�?
Houve alguns assaltos a semana passada.
N�o te disse para n�o te preocupares. Entra.
O Trini, est� no teu escrit�rio.
- O Trini? - Sim.
Mario, Mario, acorda!
Temos uma semana antes de ir para o ar.
Acorda ou somos despedidos.
O Pablo despede-nos, a s�rio. Olha o que te digo.
Est� bem.
Onde est�vamos?
Estamos emperrados com a Alicia na cozinha.
Ela est� desesperada � espera da sua chegada...
Da mesma forma que aprendi a viver com o medo constante,
tamb�m aprendi como o esconder.
Eu falo, trabalho nos meus gui�es,
mostro a minha intelig�ncia, a minha bondade natural.
Repreendo a hipocrisia das outras pessoas,
sorrio, como um tipo que v� o seu pr�prio medo como uma piada.
Quase toda a gente acredita. Incluindo eu.
Por muito tempo pensei que tinha dominado este disfarce...
de uma forma em que n�o deixava vest�gios dele na minha express�o.
Nos meus gestos, na minha voz.
At� que conheci a Diana e a sua lucidez.
Os seus olhos desarmaram-me.
Depressa ela aprendeu em como me fazer baixar a guarda,
reparando em todas as pequenas falhas desta perfeita imita��o de mim mesmo.
O anel n�o cabe, porque...
Nenhum anel cabe no mesmo dedo para toda a vida.
Vez? Porque... O dedos mudam.
De que raios est� ele a falar?
O meu �ltimo whisky. Tenho de me guardar para a festa de amanh�.
- Diverte-te, por mim. - O qu�? N�o vens?
Claro que n�o.
Diana, ele tem de ir amanh�.
Todos os produtores v�o.
Ele � adulto, Trini. Ele pode fazer o que quiser.
Adulto!
Voc�s os dois restauraram o vosso ninho do amor, e agora ningu�m sai de casa.
O que vai acontecer quando fores para Espanha?
Espanha?
- Raios. Estraguei tudo. - N�o, n�o estragaste.
Que se passa, Mario?
Era para te dizer ontem, mas...
Ofereceram-me um trabalho em Espanha. � um gui�o de um filme.
- Isso � fant�stico. - Sim, � bom.
Mas eu n�o vou. J� decidi.
Acabei de voltar para casa. Entendes?
N�o vos posso deixar sozinhos.
� o avi�o?
Ainda tens medo?
Sim.
Ficou pior.
� muito dif�cil.
S� a ideia de que vou entrar num avi�o...
Sabes?
Fico paralisado.
Al�m disso, n�o � s� o ir.
Tamb�m tenho de voltar.
Mario, os avi�es s�o a forma mais segura de viajar.
O que � est�s a dizer?
Eu sei que s�o.
N�o tem nada a ver com estat�sticas.
� algo que n�o consigo controlar...
Tive um sonho horr�vel.
Que sonho?
Diana?
Acordei cedo.
N�o conseguia dormir.
A chuva est� a acabar em Montevideu, a temperatura vai descer para...
- Mario, como est�s? - Como est�s?
Que surpresa, j� vai h� tanto tempo.
Estou t�o contente com tudo o que voc�s est�o a passar.
Eu tamb�m.
Ainda bem.
Devo preparar um ch�?
N�o, n�o deixa estar. Eu tenho de ir.
Mas antes, diz-me se gostas das nossas ideias para a nova cole��o?
- Ningu�m me mostrou. - Oh, por favor.
Anda, anda ver. Esta por exemplo.
Vamos ver se gostas. Eu adoro. A s�rio.
- Gostas? - Sim.
Foi ideia da tua esposa.
Ainda estamos um pouco inseguros acerca do cato.
Muitas pessoas odeiam catos porque pensam que s�o todos prejudiciais.
Mas para n�s, eles s�o fant�sticos.
A textura, o volume. Para a moda...
- Eles t�m o seu charme. - Certo...
Por falar em charme, a Diana falou-me da tua viagem a Espanha.
Quando � que lhe disseste?
Ontem.
Eu disse-lhe porque o irm�o dela tem medo de avi�es.
Sim, foi terr�vel.
Ele ficava petrificado.
Sim, mas seja como for...
Eu ainda n�o sei se vou.
Por isso � que eu mencionei isto, porque ele est� curado!
Eles fez algumas sess�es com um psic�logo especializado.
E al�m da terapia, tamb�m existe um espantoso simulador de voo.
Que o meu irm�o acabou de me enviar...
Por isso, eu quero mostrar-te se n�o te importares... S�o s� dois minutos.
� mesmo porreiro.
Aqui vamos n�s.
� muito bem feito.
Muito real.
Muito forte para mim, n�o consigo ver isto.
Vou dar-te o n�mero dele.
Chama-se Dr. Comas.
Vou-to escrever agora mesmo.
- Chama-se mesmo Dr. Comas? - Sim. Mas a s�rio...
Devias experimentar.
- Bem. - Aqui est�.
Obrigado, Elisa. Muito Obrigado.
N�o tens de qu�!
A Diana tinha o talento de reparar no p�nico que eu tentava esconder,
fez-me feliz no in�cio.
Era como se algu�m finalmente conseguisse ver atrav�s de mim.
Mas depois comecei a sentir-me muito fr�gil comparado a ela.
Aquele aparente olhar de compreens�o...
A confrontar-me a todo o tempo.
Era exaustivo.
Eu precisava de equilibrar as nossas for�as.
Comecei a usar a ret�rica da sinceridade que roubei dela para a diminuir.
Eu impus, algum tempo depois de casarmos,
quando ela me falou acerca dos seus sentimentos.
Quis saber de todas as suas falhas, para poder alimentar a minha confian�a.
Ol�, Trini.
Estou em casa, ouve-me.
Eu vou ter de ficar aqui por um bocado, est� bem?
Como assim? Temos trabalho a fazer.
Eu sei que est�s � minha espera, mas a Diana pediu-me para...
Mario, temos de acabar isto. Eles est�o a pressionar-me.
D�-me...
- D�-me... - Tens de vir agora.
Certo, certo. D�-me algumas horas.
Eu ligo-te j�, est� bem? Adeus.
Praticamente, obrigava-a a falar.
Insistia fortemente, exigia, queria que ela descrevesse tudo:
Um desejo inesperado para algu�m que n�o eu.
Um choro escondido na casa-de-banho.
A ang�stia de querer deixar tudo por um momento.
Um momento de raiva com os nossos filhos.
Uma vontade enorme de querer gritar violentamente comigo numa discuss�o,
de me matar, asfixiar enquanto eu dormia.
De me fazer mal, me fazer sofrer.
O impulso de querer partir as janelas da sala, ou dar murros na parede.
Ou mandar o carro contra um poste de luz a toda a velocidade,
ou meter a sua pr�pria m�o em �gua a ferver.
Tudo que ela dizia, eu sentia que era para me atacar.
Para expor a minha fraqueza,
a minha brutalidade, a inseguran�a, a minha falta de amor,
a minha frieza, o meu ego�smo, a minha viol�ncia.
Ent�o, algo mudou.
Ela perdeu a sua curiosidade por mim.
Quis terminar tudo. Eu aceitei, fazendo de conta que me sentia aliviado.
Mas n�o houve um �nico dia em que eu n�o sentisse a falta...
da vida que constru�mos juntos.
Passado um tempo, perguntei-lhe se ela n�o queria tentar de novo.
Ela foi muito relutante.
Mas gradualmente, apercebi-me que sem a intensidade dos primeiros anos,
n�s nos sent�amos mais confort�veis nos nossos pap�is.
Acho que foi por isso que conseguimos voltar a ficar juntos.
Seguros que tudo iria correr bem,
se ag�ssemos como as personagens que n�s t�nhamos criado.
Gosta?
Sim.
Este � um cato muito especial.
O Diabo Rastejante.
Oh, conhece a variedade.
� um dos catos mais estranhos do mundo.
N�o crescem aqui.
O meu filho trouxe-o das praias da Baixa Calif�rnia.
� tamb�m o �nico cato na parte �rida do M�xico que n�o cresce ereto.
� verdade que eles se movem?
Cinco cent�metros por ano, sim.
Est� � procura de algo em particular?
N�o, eu...
Vou levar este.
- O mais pequeno. - Bela escolha.
� um presente?
Sim.
O seu filho faz entregas ao domic�lio?
O qu�?
Faz entregas ao domic�lio?
Sim, sempre que necess�rio.
- Quanto lhe devo? - 8,50 euros.
E obrigado por escolher o Jardim do Viveiro de Belvedere.
Mario?
O problema � que descobri tarde demais que estas personagens que cri�mos
n�o serviam para todas as situa��es.
N�o sabem lidar com o que escapa � rotina.
E eu,
depois de todo o esfor�o, para a fazer parar de ver atrav�s de mim,
tentei a todo o custo, estes �ltimos dias, faz�-la parar...
e esquecer por um momento o car�ter vazio
que eu ajudei a criar.
Ol�.
Mario, assustaste-me.
Desculpa.
N�o faz mal. Onde est�o os mi�dos?
Com os meus pais.
Eu perguntei-lhes se eles podiam l� passar a noite...
Para termos algum tempo a s�s.
J� l� vai algum tempo que n�o jantamos s� os dois.
S� voltamos a estar juntos h� uma semana atr�s.
Exatamente.
Exatamente...
Este fim de semana eles v�o para Punta del Este.
E ofereceram-se para levar os mi�dos.
Que bom.
- Cozinhaste? - Sim, frango com batatas.
D� tempo para tomar um banho?
Tens quinze, vinte minutos.
E o que � isto?
� um presente para ti.
Pareceu-me bonito...
Para o trabalho que est�s a fazer. N�o achas?
Estava a pensar em tir�-los.
Sim?
Sim.
O que aconteceu contigo, pode acontecer com os mi�dos.
Sa�de.
Tomaste um bom banho?
Sim.
Sabes onde estive hoje?
N�o.
N�o?
Adivinha.
A minha primeira consulta com o Dr. Comas.
A s�rio?
Gostaste?
Sim, muito.
Entraste no simulador de voo?
Sim.
N�o consigo acabar esta cole��o.
Talvez o problema seja eu.
N�o, Mario.
N�o te consegues concentrar desde que voltei.
N�o, n�o tem nada a ver com isso.
Sou eu que estou a causar isto.
N�o.
N�o �s.
O que �, ent�o?
N�o sei.
Diz-me.
Diz-me.
N�o � nada, Mario. N�o te preocupes.
Se os meus esfor�os n�o compensam,
se n�o consigo mais convencer a Diana a confiar em mim e falar comigo,
ent�o eu tamb�m tenho de me tornar nesta personagem confiante que criei.
Mas para manter esta confian�a eu precisava de ajuda.
Ent�o, fui � casa da Trini nessa noite e pedi-lhe a sua arma emprestada.
Disse-lhe que o Dr. Comas queria fazer um exerc�cio com uma arma descarregada,
para me ajudar a superar o meu medo.
A Trini riu-se, mas deu-me a arma do seu pai e disse-me:
"Ainda funciona.
Tem cuidado."
Bom dia.
De volta?
Sim.
Algum problema com o cato?
N�o. A minha namorada...
Viu o cato a noite passada...
E disse que n�o o queria em casa, que traz m� sorte.
- Isso � absurdo. - Sim.
Trazem boa sorte.
Sim.
Por isso, gostava de levar outra planta.
Que n�o d� muito trabalho, mas real. E que n�o seja um cato.
N�s n�o trabalhamos com plantas de pl�stico.
Se eu dissesse isso ao meu filho...
Ele � um fan�tico por plantas.
� a �nica coisa que lhe importa.
Ele pode ajud�-lo melhor que eu.
Nestor, anda c�, filho.
Ajuda este senhor a escolher uma planta como presente.
Mas n�o te esque�as que tens uma entrega para fazer.
Esta chama-se Poins�tia.
Muito bonita. Vermelha.
� um bonito presente.
Se n�o apanhar muita luz, fica verde.
Como esta.
O que � que daria � sua namorada?
Eu n�o tenho namorada.
A orqu�dea � sempre um bom presente. Mas n�o � f�cil de cuidar.
Olhe esta planta, veja como � linda.
Faz sempre as entregas sozinho?
Ant�rio! Esta aqui.
Tenho muitas destas.
Vive numa casa ou apartamento?
Apartamento.
Que outras plantas tem l�?
Nenhuma.
Mas acabou de dizer que...
A minha m�e n�o gosta de plantas em casa.
Tenho as minhas plantas na casa do meu irm�o.
E na ag�ncia.
O seu irm�o trabalha aqui tamb�m?
Na ag�ncia, j� lhe disse.
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E? J� se decidiu?
Sim.
Uma Areca.
Uma grande.
Mas eu passo depois para a buscar, de momento n�o h�.
Venho antes da 7:30.
O seu filho convenceu-me.
Disse-me que o seu outro filho tem muitas destas na ag�ncia.
Sim. O Nestor d� montes de plantas ao irm�o.
Como se chama?
Como se chama a ag�ncia? Talvez eu conhe�a.
Eu tamb�m trabalho em publicidade.
Not�rio.
Not�rio.
� de renome.
Muito conhecida.
Bem.
Vejo-a depois?
Desculpe-me.
Qual � o seu nome?
Para anotar a sua encomenda.
Comas.
Daniel Comas.
Eu sou Malena. Se precisar de algo.
At� logo.
Ol�, rapariga.
Ol�.
Mario. Podes-me vir buscar?
Que se passa?
N�o me estou a sentir bem.
Eu estou perto. Posso-te levar ao m�dico.
...Para o Dr. Risso. Est�s muito perto?
A cerca de 10 minutos.
Ent�o, podes vir?
Eu vou buscar-te e depois vou buscar os mi�dos.
Pai.
Eu gosto de coisas s� para homens.
O qu�?
Coisas de homens, eu gosto. E tu n�o gostas?
Sim, eu gosto tamb�m.
Temos de fazer isto mais vezes.
Que dias?
�s quartas e sextas-feiras.
Porque �s segundas e ter�as tenho educa��o f�sica...
E �s quintas tenho basquetebol.
Ent�o, pode ser �s quartas e sextas.
Maravilha.
Sexta est� bom.
Posso brincar com o teu telem�vel?
N�o.
Mas Pai, eu tenho o b�nus di�rio do Dragon Zombie!
- Estamos a passar um bom momento. - Por favor...
- Somos apenas rapazes a falar. - Mas, por favor...
Anda l�. Por favor.
- Toma l�. - Porreiro!
S� por um bocadinho.
Est� bem.
� o tio Andres.
Quem � o tio Andres?
Conheces?
Claro.
Claro?
De onde?
De casa...
E da casa dele.
De casa?
De nossa casa?
D�s-me...
Julian, para.
Ouve-me.
Estiveste em casa deste homem?
A casa perto do porto.
Do porto?
Uma com muitos andares.
Fomos l� uma vez.
Ele brincou comigo.
Foi divertido.
Ao que � que brincaste?
Julian, ao que � que brincaste l�?
Playstation.
Tinha um jogo muito bom de t�nis.
Podes-me emprestar o telem�vel?
Sim.
� um amigo da m�e, � isso?
A m�e disse que ele j� n�o � mais nosso amigo.
Que se o virmos, n�o devemos falar com ele.
- Vens? - N�o, vou trabalhar com a Trini...
A minha personagem devia fazer algo.
N�o ficaria paralisada pelo medo.
Eu criei-a desta forma. Passei anos a desenvolver as suas caracter�sticas.
Matei a curiosidade nos olhos da Diana, para que ele pudesse existir.
Passei noites sozinho, a aprender a n�o chorar, tremer ou desejar estar morto.
A personagem tinha de fazer algo.
Eu n�o podia aceitar que ele me dececionasse.
N�o, depois de eu lhe ter dado toda a minha vida.
Sr. Comas, tenho a sua Areca. Espere um minuto, por favor.
Bem, aqui est�.
- Maravilha. - Tivemos de a matar.
Vamos ver as op��es.
Qualquer um destes serve.
A �nica diferen�a entre os dois � a concentra��o.
- Tem crian�as em casa? - Duas raparigas.
Mantenha-a fora do seu alcance porque � um pouco t�xica.
Esta � mais barata, mas o resultado pode variar.
Bem, � somente uma planta.
Quanto �?
- 3,50 euros. - Aqui est�.
Obrigado por escolher o Jardim do Viveiro do Belvedere.
Obrigado, senhora. At� breve.
Espere aqui. J� a vou por pronta.
- � um presente, certo? - Sim, por favor.
Sabe, lembrei-me de quem � o seu filho.
Ai, sim?
Sim, eu conhe�o-o. Trabalh�mos juntos.
Andres, certo?
Sim, Andres.
Eu conhe�o-o.
At� fui a uma festa em casa dele.
O Andres adora festas. Eu odeio-as.
A rua era...
Aquela...
Perto do porto, como � que se chama?
Nestor!
Anda c� e p�e a Areca no carro deste senhor.
Que carro �?
O preto que est� ali.
Obrigado.
Est� aberto.
E tamb�m na ag�ncia...
Fizemos muitos trabalhos juntos.
Com este tipo de planta, precisa de um vaso.
Dois sacos largos, pelo menos.
Uma Areca...
Dois sacos...
- Quanto � que lhe devo. - 40 euros.
Tem notas mais pequenas?
N�o. Lamento.
S� um minuto. Vou buscar o troco.
Nestor, Vai buscar ao senhor dois sacos grandes de terra para vasos.
Vamos esperar que a sua namorada n�o se queixe de nada, desta vez.
Deixe que eu fa�o.
ABERTO
- At� amanh�. - Adeus.
Que se passa, Nestor?
Est�s bem? Que se passa?
Vens? As crian�as est�o com fome.
M�e, porque n�o posso levar tr�s biqu�nis?
Porque � s� por dois dias, meu amor.
Quando � que vamos ao Brasil visitar os nossos outros av�s?
N�o sei, espero que seja em breve.
Mas agora, o que temos de fazer, � acabar de fazer as malas e ir para a cama.
Um, dois, tr�s.
O primeiro que falar, perde.
E agora,
a partir desta noite,
eu sou, de facto,
este homem que eu inventei.
Esta personagem que eu criei.
E sou,
de facto,
Mario?
Que se passa?
Nada.
Eu estou...
A pensar.
O meu filho est� a levar a s�rio essas li��es para o medo de andar de avi�o.
Nunca o vi fazer nada ao s�bado de manh�.
� um curso intensivo. S� dura alguns dias.
Tens a certeza que est� tudo bem?
Sim.
Esta oportunidade que est�o a dar...
Faz com que conte.
Ele ama-te.
Bem...
Basta de interrogat�rios. Vamos indo.
Se precisares de algo, liga-nos. A qualquer hora.
Est� bem.
E se decidires vir amanh�,
esperamos por ti com a carne no grelhador.
Queridos, ou�am os vossos av�s, est� bem?
Claro!
Amo-vos.
N�s tamb�m te amamos.
Ol�, este � o n�mero do Mario, deixe a sua mensagem. Adeus.
Ol�, Trini. Como est�s?
Diana, como est�s? Desculpa incomodar-te.
Voc�s discutiram?
N�o! Como vamos discutir se ele nem atende as minhas chamadas?
Eu ligo, e ligo, e ele ignora-me. Estou desesperado.
Desculpa por te envolver, mas o Pablo acabou de me ligar.
Se n�o tivermos o gui�o todo pronto amanh�, estamos fora.
Isto � muito s�rio.
Por favor, passa-me a ele.
Ele n�o est� aqui.
N�o estava contigo, ontem?
N�o, n�o o vejo desde que ele veio aqui pedir-me a arma emprestada.
Para aquilo da terapia do medo de voar.
- Passaram dois dias... - Tenho de desligar, Trini.
Ol�, este � o telefone do Mario, deixe a sua mensagem. Adeus.
Sra. Diana?
Ol�, Fernando.
- Ent�o, como vai? - Tudo bem?
- H� muito que n�o a via? - Sim, h� muito tempo.
Bem, o Andres tamb�m aparece pouco.
Est� aqui por causa do Nestor?
Que aconteceu?
N�o ouviu? Ontem, enquanto ia para casa...
Come�ou a sentir-se doente e acabou no hospital.
Est� l� com a Sra. Malena.
Podes dizer-me em que hospital est�?
Por favor.
Vim visitar o Nestor Gorostiaga.
Pode dizer-me o n�mero do quarto?
� da fam�lia?
Sim.
Gorostiaga, disse?
Est� nos Cuidados Intensivos.
N�o pode receber visitas agora.
Podes ligar-me a qualquer altura.
Tem o meu n�mero, certo?
Ainda bem. Obrigado.
Posso ajud�-la em algo mais?
N�o, obrigada.
O que � que queres, Mario?
Senta-te.
Podes falar r�pido e depois ir embora. Tenho outras coisas a fazer.
Entramos?
Sim.
Como est�o as crian�as?
Ligaram da praia.
Est�o excitadas, a apanhar conchas.
Querem traz�-las.
Que bom.
Estiveste na sess�o, todo o dia?
Sim.
Acabei. Hoje foi o �ltimo dia.
Foi cansativo?
Sim, muito.
Ent�o...
Consegues voar agora?
N�o.
N�o?
N�o.
Porqu�?
O Dr. Comas explicou que... bem,
O meu problema...
N�o era o avi�o.
O meu medo, era o c�u.
Est�s a ver? N�o era...
Algo em particular, espec�fico.
� em geral.
Que queres dizer?
Quero dizer, que n�o h� cura.
N�o h� cura.
Traduzido por: Miguel Silva
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