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Original subtitles

AS PORTAS DA JUSTI�A

Bom dia, senhor. Como vai?

Scalia! O que faz aqui? Scalia!

O que est� fazendo aqui? Quem o deixou entrar?

Houve vezes em que entrava, sem bater.

Um bom tempo, ou um mau tempo, n�o dura todo o tempo.

Abra aquela sacada, est� faltando ar.

E ent�o voc� sai. Aqui, n�o h� mais nada para ver.

Vou lhe dar um conselho. Saia de Palermo, assim ficamos livres de voc�.

Mas olhe o que fez! N�o falamos mais a mesma linguagem.

Agora voc� os pega, um a um e coloque-os em ordem.

E r�pido, pois espero por algu�m.

Ainda n�o posso, advogado.

Levanto-me �s 06h30, visto-me, tomo o caf�.

Que fa�o?

Conto as horas. O tempo nunca passa.

N�o posso ficar em casa o dia inteiro.

Voc� roubou muito, Scalia e roubou mal.

S� eu fui demitido. Paguei por todos.

N�o deveria reclamar

e tem que me agradecer, por n�o acabar na pris�o.

Agora, saia daqui. Nunca mais quero v�-lo.

Saia!

Muito bem, advogado.

Desculpe-me.

Scalia, o que o traz aqui?

Veio nos visitar? Bem! Eu estou feliz. Sente-se!

Aqui era seu lugar. Eu o ocupo indignamente, sabe?

Quantas vezes esteve sentado aqui e eu lhe trazia as pastas. Lembra-se?

-Voc� parece bem. Encontrou trabalho? -Sim, encontrei.

Estou contente. Como vai?

-Bem... -Pensei em voc�, um dia desses...

porque suas coisas ainda est�o aqui. Coloquei-as em ordem. Est� tudo aqui:

as borrachas, os l�pis, at� um ma�o de cartas!

Por que n�o os pega?

Pode guardar tudo, n�o preciso mais disso.

Eu sei que voc� pensa que fui a causa de sua demiss�o

mas est� errado! Pedi-lhes que n�o o demitissem.

Al�m do mais, n�o entendo essa papelada. Fico confuso.

Quer que eu d� uma olhada?

S�rio? Certamente!

� melhor fechar a porta, conhece a cabe�a deles...

Claro! N�o seria bom se eles o vissem comigo.

At� mais ver, contador! Boa sorte!

Finalmente! O que foi agora? Faz tempo que espero

no meio da rua. Onde esteve? Faz 1 hora que o espero.

As pessoas olhavam. O que podiam pensar?

N�o v� t�o r�pido.

Voc� � t�o cabe�a dura, vai quebrar o carro.

O que me importa? J� est� vendido.

Pelo que me d�o...

Muito ruim, hein?

Gostava muito dele.

Gostava de ser uma senhora, hein?

Cretino! Quem riria disso?

E deixe-me. Chega!

-Papai! -Leonardo!

-O gato fugiu. -Ele estava certo. Voc� j� comeu?

O que comeu?

Tomate, sal, p�o e a��car.

Muito bem! Tomou seu rem�dio?

N�o, o vidro quebrou, mas n�o diga � mam�e.

N�o direi...

Voc� perdeu outro dente?

Sim, e voc� deve me dar o dinheiro.

Est� me machucando!

Assassino!

Sil�ncio! Sil�ncio! Sil�ncio! Sil�ncio!

A corte!

Queremos ver voc�, cara a cara com a justi�a!

-O r�u est� presente? -Presente.

Defendido por quem?

Por mim, senhor presidente, advogado Colao Francesco.

O reclamante est� presente?

Sim, senhor presidente, representado por mim,

Advogado Salvadore Spadaro, do tribunal de Palermo

como Procurador Especial, depositado em a��o.

A constitui��o da parte lesada foi devidamente notificada

tanto para o Minist�rio P�blico, quanto para o r�u.

As testemunhas foram chamadas.. Se alguma delas est� em tribunal ...

deve se retirar.

H� exce��es preliminares?

Scalia, Tommaso, � acusado dos crimes

referidos nos artigos 61, 575 e 576 do C�digo Penal

causando, em Palermo, em 10 de mar�o de 1973, a morte de

Spadafora Vincenzo, Speciale Antonio, Mignemi Rosa Scalia.

Neste ponto, o Presidente declara aberta a audi�ncia.

Que se proceda o interrogat�rio do acusado.

Humildade, eu recomendo! Calma e humildade.

Sente-se.

Desculpe-me, senhor presidente.

E imploro seu perd�o tamb�m.

Gostaria de dizer umas palavras e ent�o os deixarei trabalhar em paz.

Eu as escrevi.

Os bandidos e traidores tomaram conta

da Revolu��o Fascista, sem que ningu�m levantasse um dedo

Apreenda aquele papel!

Eu o sei de cor. Aqueles, que como eu, estavam nas barricadas

desde o in�cio, est�o horrorizados com isso.

Por causa de minha f� pura no trabalho do Duce e de Deus

tive que me agachar como um c�o

sob os disfarces de um cargo p�blico.

Mas quem comandava eram os corruptos e os sujos.

Sr. Presidente, o c�o mordeu um peda�o de sua carne podre...

Ordeno que o acusado seja retirado do tribunal.

Eu lutei abertamente,

sabendo que minha batalha colidiria com o tribunal de justi�a!

Eu posso morrer de cabe�a erguida

mas esses valent�es, que se chamam de fascistas, n�o poder�o.

E deveriam ter vergonha!

N�o choro pelo meu destino, mas pela pobre It�lia,

insultada pelos seus filhos, gananciosos e desonestos!

N�o venha me perturbar!

Eles me importunaram ontem, tamb�m.

O juiz Di Francesco est� aqui.

Vito! Entre, acomode-se.

Voc� n�o trouxe a jovenzinha?

Sim, ela est� l� fora.

S�o bonitos, hein? Chegaram esta manh�, do Oceano �ndico.

S�o ainda do mar.

Carmelina, ainda est� aqui?

Venha, vou lhe apresentar a dona da casa.

� t�o boa.

Queria que ela conhecesse voc� e seu pai.

V�o se dar bem. Deixo-as sozinhas.

Logo o jantar estar� pronto.

Por ocasi�o de um acontecimento t�o grave e delicado,

expressamos nossos sinceros votos de solidariedade.

Certos de um julgamento onde triunfe a justi�a,

ser� um exemplo, uma advert�ncia e um est�mulo.

"Uma advert�ncia e um est�mulo". O que significa isso?

Desejamos-lhe um bom trabalho.

Mas aqui j� tem uma senten�a escrita.

A senten�a foi escrita pelo infeliz, com sua m�o.

O esc�ndalo n�o foi a notinha, mas o fato

que o Minist�rio nunca perde a oportunidade de mostrar seu zelo.

Como acha que vai acabar esse julgamento?

O que podemos pensar? Ainda nem come�ou.

� como se j� tivesse acabado.

N�o vamos fazer outra coisa, a n�o ser cumprir formalidade.

N�o esperava isso.

Nunca nos encontramos num processo assim.

Todos os processo s�o iguais.

Os responsabilizados com a pena de morte s�o os assassinos.

Voc� tem que matar os malfeitores

quando eles amea�am a ordem p�blica.

E n�o s�o minhas palavras, s�o palavras de um santo:

Tomas de Aquino.

Falemos baixou ou acordaremos Assunta.

N�o dizemos que derrubou a sabonete na �gua, mas o sabonete.

Ela derrubou o sabonete no lago e chorou porque

Derrubou a sabonete

� masculino. Ela derrubou o sabonete no lago...

e chorou porque n�o poderia ter jogado.

Ent�o, o que a astuta fez?

A astuta fez como sua irm� boa fez.

Vamos, vou coloc�-la na cama. Tire o casado.

E ela jogou o sabonete no lago.

Agora, pode falar mais alto.

-Outro pr�ncipe... -O que ele fez?

Ao inv�s de fazer-lhe uma estrela,

imagine o que fez para ela?

Deixe-me ver. Ele n�o fez uma estrela para ela,

mas uma flor.

N�o? O que ele fez? Deixe-me ver... um chifre?

-N�o. -N�o? Uma toupeira?

-N�o. -Bem, eu n�o sei. O que ele fez?

Um rabo de burro!

A irm� m� era t�o feia, que n�o podia sair de casa.

Mas o pr�ncipe estava certo em faz�-la assim.

Pessoas m�s deveriam ser feias,

enquanto as pessoas boas, belas

Deixem as algemas. Ele deve ficar preso.

Gostaria de mostrar ao r�u, o objeto n� 2.

Reconhece-o?

Sim, � meu.

E como a conseguiu?

O que tem?

Eu usei, n�o usei?

Eu lhe perguntei, como a conseguiu?

Era de meu pai.

E onde a guardava?

No bolso. Mas que perguntas s�o essas?

Desculpe-me: explico-me melhor.

Voc� sempre a portava ou apenas aquela manh�?

Eu a guardava numa caixa de sapatos, sobre o arm�rio.

Costumava dar uns tiros para cima, no Ano Novo...

como todo mundo faz.

Por que golpeou as outras 2 v�timas com a baioneta?

Baionetas n�o fazem barulho, sr. juiz.

Quando entrou no escrit�rio da Confedera��o,

voc� trazia a arma no bolso?

Mas que perguntas s�o essas? O que significa isso?

Estamos perdendo tempo!

Responda � pergunta!

Muito bem, Excel�ncia, desculpe-me.

Eu a peguei mais tarde. Carreguei-a e sa� com minha mulher.

E voc�s se encontraram � altura da capela.

Parou o carro, ou ela pediu que voc� parasse?

Eu parei.

Por qu�?

Ela era muito devota. Sempre fazia isso, quando sa�amos.

E parou em todas as capelas?

S� na primeira que encontramos.

Sabia que na estrada de Piana havia uma?

Lembrei-me quando a vi.

E se n�o tivesse encontrado uma capela?

Eu teria feito em outro lugar.

Mas sempre assim, em campo aberto?

N�o sei, n�o sei.

Mas que perguntas s�o essas. Presidente, tenho que responder?

Quando?

Quando voc� decidiu mat�-la?

Ela me tratava t�o mal.

Responda � quest�o.

Que quest�o?

Quando decidiu matar sua esposa?

Ela era uma harpia, uma bruxa!

Ela sabia tudo. Ela fazia tudo.

Ela me torturava, ent�o, eu a matei.

Ent�o, fazia tempo que premeditava mat�-la?

-Quem lhe disse? -Voc�, acabou de dizer.

Eu nunca disse isso.

E voc� n�o escreva, escriv�o.

Fa�amos um neg�cio, eu n�o falo mais.

� meu direito.

Coloque-me as algemas!

As algemas.

-De Cumis? -Sim!

-Frustace? -Sim.

-Palumbo? -Sim.

-Consolo? -N�o.

-Paterno? -Sim.

-Juiz Di Francesco? -Sim.

Aparentemente, n�o precisam de meu voto. Ent�o, eu me abstenho.

O tribunal decidiu

que se proceda � per�cia psiqui�trica do r�u.

Juiz Di Francesco,

como a per�cia foi uma solicita��o sua,

seja diligente, tamb�m, para atender �s demandas do ritual.

Esperemos que seja louco, ou eles v�o nos examinar.

Desculpe-me,

-tenho que assinar? -N�o.

Por que o advogado de defesa n�o pediu uma per�cia psiqui�trica?

Se o r�u n�o a queria, n�o era obrigat�ria.

Mas poderia ter,

mesmo contra o desejo do cliente.

Basta perguntar ao advogado Colao!

Queria fazer outra pergunta: acha mesmo que ele est� louco?

As perguntas s�o feitas no tribunal.

Aqui conta apenas uma resposta mais simples. Sim

ou n�o.

Voc� nasceu em Bagheria?

Tenho parentes l�, um belo local.

O seu pai faz aquele p�o, sempre t�o gostoso.

Quando menino, fui muitas vezes � loja.

Papai.

Sr. Michele!

Vituzzo! Deveria ter descansado um pouco mais.

-Fique em p�, est� �mido aqui. -N�o importa.

Tome, entregue isto � sua esposa.

Somos a �nica fam�lia, com mortos divididos � direita e � esquerda.

Este jazigo � grande o suficiente para 7 gera��es!

Sabe o que dever�amos fazer, Vituzzo?

Pegue papel e caneta e escreva uma bela carta ao prefeito.

Vamos esperar nossa vez.

Foi o que me disseram na prefeitura:

"Por que precisa de um novo jazigo? O sr. Michele vende sa�de!"

Eles t�m raz�o! Eles t�m raz�o!

Vamos dar uma volta! S� tem esse terno?

-Voc� o usava domingo passado, tamb�m. -N�o me lembro.

N�o seja desmazelado. As pessoas olham essas coisas.

E o que me importam, essas pessoas?

Se ele chegar perto, n�o lhe d� confian�a.

Eu lhe pe�o que me deixe falar com ele.

Sr. Michele... Meus respeitos, sr. juiz.

Desculpem-me incomod�-los a esta hora. S� um minuto.

Estamos realmente com pressa. Meu filho tem de ir a Palermo.

De qualquer jeito, n�o se preocupe. O que dever� ser feito, ser� feito.

Sr. Michele, quando um homem tem necessidade, perde a dignidade.

Obrigado, Sr. Michele. Sr. juiz Di Francesco.

Nem no cemit�rio, voc� encontra a paz.

-O que ele quer? -Um pouco de sorte. O irm�o est� preso.

Aguarda julgamento h� um ano.

Eu lhe disse: "Meu filho, o juiz, n�o pode fazer nada."

"A justi�a deve seguir seu curso."

A outra vez, estava melhor.

� o mesmo de sempre.

De que est� rindo? Endireite-se!

Como est� feia, tia, com essas coisas nas orelhas!

N�o fale com a boca cheia.

Eles fazem seu rosto parecer mais comprido.

"Elas" fazem seu rosto, porque � feminino

S�o de ouro?

Deve perguntar ao seu tio, ele quem a presenteou.

Tio, s�o de ouro?

Isso n�o � pergunta que se fa�a.

Essa � a bela educa��o que seu pai lhe d�. Quanto vale? Quanto custa?

Por favor, Vito est� aqui. N�o discutamos.

� verdade, Vito, que a execu��o se d� atr�s do cemit�rio?

Deveriam ter mais respeito, por local t�o sagrado.

Eu lhe digo, papai, n�o est�o atirando em mais ningu�m.

Para os m�dicos, ele � louco. V�o encarcer�-lo

Colocam-no num manic�mio.

Depois de 3 dias ele escapa e mata mais 3.

Esse Scalia deveria ter sido morto no local.

Todo esse dinheiro gasto com advogados, pap�is e processos. Quem vai pagar?

N�s! Pessoas honestas que trabalham.

Agora todos se metem a falar de lei.

Quer ensinar lei a um juiz?

A per�cia psiqui�trica foi um conselho de Vito.

Depois da per�cia, vendo que n�o � louco, eles o fuzilam.

Vito ficar� de cabe�a erguida, e as pessoas dir�o: � um juiz consciente.

Tire os cotovelos da mesa e coloque o guardanapo no pesco�o.

Ou vai se sujar.

Tal como seu tio. Consciencioso como ele. O primeiro da classe.

Peppuccio, pegue o ensaio, que escreveu ontem

e leia-o para seu tio Vito.

A noite passada, sonhei com o assassino.

Ele estava numa casa feia, sem mob�lia, sem nada.

Ele sabia que n�o era real, mas chorava.

Por que ele chorava?

Deveria ter pensado antes de ferir aquela pobre mulher.

Em voz alta e clara.

Tema: Minha fam�lia. Desenvolvimento: Em minha fam�lia

h� 2 tipos de parentes, os que est�o mortos

e os que est�o vivos. Os que est�o vivos s�o:

vov� Michele, meu pai Vincenzo, minha m�e Antonia,

tia Nora e meu irm�o Salvatore. E tio Vito,

que mora em Palermo. Ele � vi�vo. Ele tem uma filha de 10 anos,

que � minha prima.

Voc� esqueceu o nome: Carmelina.

Tio Vito � importante porque � juiz no tribunal.

Quando est� no interior, � excelente e agora ainda mais

porque ele est� julgando o Monstro de Palermo.

Quando ele vem para c�, ele me beija

sua barba me pinica e eu sinto o cheiro do sabonete.

Mas ele s� nos visita duas vezes por m�s e eu sinto

pois quanto ele vem, tia Nora faz cassata.

Fim.

N�o entendo o que est� acontecendo.

N�o � como sempre. Est� calmo e tranquilo. Nenhum esc�ndalo.

Diga-me onde eu o bato.

Na bochecha direita.

No peito.

Se ficasse bravo agora!

-E agora? -Na perna direita.

-E agora? -Lugar algum.

Sente-se, por favor.

Tire-lhe a venda.

O crani�metro.

Bom dia, juiz. Veio dar uma olhada?

Dist�ncia entre o occipital e o bregma: 215 mil�metros.

Depress�o entre a sutura coron�ria

com a sutura sagital.

Leve. Na verdade, muito leve.

Alguma coisa errada? � grave?

Tudo normal.

Viu, senhor juiz? Normal.

Diga-lhe, doutor. Ele pensa que estou louco.

Sou perigoso,

mas n�o louco.

H� estofo bom nesta cabe�a, sr. juiz.

Bom dia, sr, juiz. Posso?

Como acabamos cedo esta manh�, pensei:

"Melhor que eu n�o v� para casa."

Eu venho da periferia, n�o sou de Palermo.

Veja o que comprei. Sementes como estas n�o se acha.

Esta � uma alface, que cresce quase sem �gua. Sabia?

Sinto muito, sobre o resultado da per�cia.

E por que sente? Foi o voto contra. O �nico.

Antes de vir aqui, passei na loja de tecidos de Paterno.

Todos jurados confabulavam. Um disse:

"Bem, se ele n�o � louco, se ele fez o que fez"

"ele n�o � um ser humano, � um animal, um monstro."

� normal que eles pensem assim.

Todos pensam assim. Eu escrevi isso.

O exame foi pedido para, precisamente, tirar qualquer d�vida.

Talvez fosse melhor que n�o tivesse sido feito.

Meu caro senhor,

todo mundo precisa assumir sua responsabilidade.

Quanto a mim, achei que era meu dever pedir a per�cia legal, de um m�dico.

Isso foi votado e assim foi feito.

-Eu n�o queria... -N�o, n�o...

N�o era para criticar... Eu n�o me permitiria.

Eu sei que o senhor n�o � como os outros ju�zes.

Entendi como pensa. Seus pensamentos s�o perigosos.

Estamos vivendo tempos dif�ceis.

Vivemos tempos dif�ceis, hein?

O que o senhor faz?

Sou agricultor.

Ent�o, em poucos dias voltar� para sua terra.

eu ainda vou estar l�, sentado atr�s daquela mesa

dia ap�s dia, senten�a ap�s senten�a.

Seu neg�cio � ser agricultor

o meu � ser juiz.

Com licen�a, sr. juiz.

N�o se preocupe. Vamos apenas fazer algumas pergunta.

O tribunal � o tribunal.

Sim, mas n�o � o r�u, � apenas testemunha.

N�o vai lhe acontecer nada.

Obrigado, excel�ncia. �s suas ordens.

E como o chamam?

Contador Lo Prete Pasquale.

Qual o seu trabalho?

Diretor de Recursos Humanos da Confedera��o Fascista

de Profissionais e Artistas

Um cavalheiro.

Pedimos que fa�a sil�ncio.

Desculpe-me, mas a testemunha � realmente um bom cidad�o.

Sr. Presidente, o r�u estava esperando uma promo��o, h� anos.

Em vez disso, foi, de repente demitido. Por qu�?

Porque eu roubei.

N�o perguntei a voc�. Responda, por favor.

Ele falsificou as contas financeiras.

Sim, � verdade, � verdade!

Cale-se!

Os documentos em posse da corte

dizem que o r�u vem falsificando o balan�o h�, pelo menos, 5 anos.

Por que s� agora perceberam?

Na verdade,

vislumbraram-lhe uma possibilidade de promo��o.

Sab�amos h� muito tempo,

mas n�o quer�amos jog�-lo na rua.

Tinha fam�lia...

Ent�o, o r�u roubava h� anos e voc� o deixou em seu posto.

Voc� poderia, pelo menos, transferi-lo para outro cargo.

N�o sei.

Algu�m o protegia?

Eu sempre andei com minhas pr�prias pernas, caro juiz.

Voc� quer se calar?

Ent�o, fa�o-lhe outra pergunta:

por que permitiram por anos

mas dessa vez o puniram?

Quando � demais, � demais!

Diga-me qual � a conex�o administrativa

entre a Confedera��o de Profissionais e Artistas

e o Hospital Civil?

Em que sentido?

N�o sei. O que tem as contas dos artistas a ver com o hospital?

Merit�ssimo, � claro que s�o duas coisas diferentes.

Era o que eu pensava tamb�m,

mas h� uma transfer�ncia de fundos, de uma institui��o para outra.

N�o me parece. O senhor est� seguro?

Sim, eu estou. E quanto a voc�?

Eu n�o saberia.

O qu�? N�o � gerente do hospital?

-O tesoureiro. -Melhor ainda. Quer ver os livros?

Senhor juiz,

sabe como s�o essas coisas...

� prov�vel que tenha acontecido algo. Um descuido, um erro...

Um erro? Uma confus�o, em outras palavras.

� verdade, uma confus�o.

Qual o nome de seu superior?

-Ainda n�o foi nomeado. -Como se chamava o anterior?

Advogado Spadafora.

Pode repetir o nome? N�o escutei. Mais alto.

O advogado Spadafora. Brutalmente assassinado por ele!

Vamos parar de atuar! Esse juiz quer brilhar �s minhas custas.

Eu j� lhe disse a verdade. O que quer mais, juiz?

Obrigado. Pode ir.

Fa�am entrar a testemunha.

A senhora � Marquesa Pirotta, Anna, vi�va de Spadafora?

Sim, sou eu.

Sente-se, eu lhe pe�o. Precisamos fazer algumas perguntas.

O que querem saber?

Seu marido lhe disse estar se sentindo em perigo de morte?

De incorrer em amea�as, ou chantagens, por parte do r�u?

N�o, nunca.

Entretanto, no interrogat�rio, declarou:

"Era esperado. Ao inv�s de demiti-lo,

ele deveria t�-lo mandado prender."

Quer explicar?

Meu marido era muito bom, suportava.

Em que sentido?

Se era um empregado desonesto, poderia ter se livrado, quando quisesse.

Eu repito, ele era muito gentil.

Ent�o, o r�u conhecia qualquer segredo?

Alguma coisa que ele n�o devesse saber?

Que tipo de perguntas s�o essas, juiz?

Quem est� em julgamento, aqui?

Sil�ncio! Fa�am sil�ncio!

O que meu marido fazia, o fazia � luz do sol,

como toda Palermo pode testemunhar.

Conhecia o r�u?

Eu o vi aqui, for�ada por voc�.

N�o, veja, declarou: "Ele veio a mim e me suplicou

que fosse readmitido." Confirma?

Inven��es! Mentiras!

Est� sob juramento,

deve dizer a verdade.

Meu marido foi assassinado, esta � a ver...

Desculpe-me, senhor presidente, n�o me sinto bem.

Acalme-se. N�o prosseguiremos.

Leva-a para fora, para tomar um pouco de ar. A sess�o est� suspensa.

O que est� tentando encontrar, com esse interrogat�rio?

Mataram-no o marido. Ela est� s�, com 3 crian�as!

-O que ainda est� fazendo aqui? -Precisa de alguma coisa?

N�o, n�o preciso de nada. A sess�o terminou. Vai, vai!

Muito servil, muito zeloso. N�o gosto de pessoas zelosas.

Para matar uma mosca, podem quebrar um vaso precioso.

Sente-se, Vito.

Estou atrasado. Realmente, preciso ir.

H� pessoas l� fora, melhor que n�o saia.

Gente perigosa. N�o � s�bio provoc�-los muito.

N�o acho que estamos provocando ningu�m.

Estamos apenas fazendo o que � preciso fazer.

Talvez esteja trabalhando muito.

Seria melhor eu fazer algumas coisas, eu mesmo.

Seria prudente ficar quieto, por um tempo. Seria melhor.

Estou apenas tentando cumprir meu dever.

Claro, voc� � um juiz severo, zeloso.

Mas faz muitas perguntas. Estamos julgando um indiv�duo que

s� para equilibrar as coisas, deveria ser fuzilado 3 vezes.

Lamento, mas eu tenho que ir.

Espere.

Estou com medo, que um processo t�o simples, fa�a-nos cometer erros.

Muitas pessoas esperam que isso aconte�a.

Sabe h� quanto tempo sento-me nesta cadeira?

Antes que Mussolini tivesse sentado na sua.

N�o quero que sejam eles a retirar a mob�lia.

Sabemos que a pena de morte � prevista

mas quem nos obriga a diz�-la amanh� de manh�?

Vamos tentar tirar todos os detalhes desta hist�ria.

Sem pressa. Levar� tempo.

Agora, com licen�a.

Preciso pegar minha filha.

N�o me reconhece?

"H� caneta e tinta?"

"H� algu�m que o ama?"

"Pode me dizer como se chama? Se ele amar voc�..."

"seu dedo quebrar�."

Muito bem! Voc� ainda se lembra.

Professora! O que faz aqui?

Eu vim todos os dias. N�o perdi uma palavra.

Eu tenho pena do homem. Penso no fim que ter�.

Algu�m deveria ter miseric�rdia.

Eu a acompanho.

Voc� encontrou um trabalho dif�cil.

As pessoas n�o sabem, n�o entendem.

Felizmente, tem a cabe�a t�o dura, como quando estava na escola, comigo.

Todas essas pessoas gritando... n�o leve a mal.

N�o est�o gritando com voc�. Est�o exaltadas.

-O carro est� pronto. -Eu vou a p�.

-Para sua seguran�a, � melhor lev�-lo. -Est� bem.

Posso lhe dar uma carona?

Eu moro aqui perto. Vou lhe dar meu endere�o,

assim poder� me visitar.

-Vire no pr�ximo domingo. -Esperarei por voc�!

Ningu�m o quis, sr. juiz.

Nem a Comunidade de Santo Ant�nio, nem a de S�o Jo�o,

nem a de Cosme e Dami�o. Todos recusaram, mas a responsabilidade

deveria ser deles. � �rf�o. N�o tem m�e

e logo n�o ter� pai.

-Nenhum parente apareceu? -Quem quer uma praga como ele?

O senhor o v� agora, que est� calmo, mas antes cuspia, gritava, mordia,

blasfemava. Um pequeno diabo!

Como voc� � pequeno.

Que posso fazer por voc�?

J� comeu? Precisa comer.

Eu vim v�-lo, porque preciso de voc�.

Leonardo! Fale comigo. Pode confiar em mim.

Meu pai est� morto.

N�o � verdade. Eu o vi esta manh�. Est� bem.

E ningu�m pode tocar nele.

Logo, voc� poder� ir encontr�-lo.

Iremos quando fizer sol.

Excel�ncia. Tenho que lhe dizer algo.

O menino falou comigo. N�o foi seu pai

quem matou sua m�e. Foi um soldado

que vestia um uniforme, com bot�es dourados. Com bot�es dourados.

Excel�ncia, tem um charuto?

Entre, entre, deixe-me abra��-lo. Manteve a promessa!

-S�o para voc�. -N�o precisava de se preocupar.

Que casa ador�vel.

Ador�vel � v�-lo aqui. Olhe,

h� uma pessoa ali. Uma antiga aluna, como voc�.

Ah, est� com visitas. Voltarei outra hora.

N�o, n�o. Ela s� veio para v�-lo. Precisa de ajuda.

Se a ajudar, vai fazer uma coisa boa. Vou fazer um caf�.

Sente-se, juiz. Pe�o-lhe.

Passei s� por um momento.

N�o fuja. Precisamos conversar.

� boa norma a um juiz,

n�o manter contato com os envolvidos num processo.

Bobagem. Ajustamos as leis, entre n�s.

N�s n�o fazemos mal a ningu�m.

Se quiser, posso dizer aqui, tudo que n�o posso dizer no tribunal.

Assim, vai me deixar em paz.

Perdoe-me, sra. marquesa.

O marqu�s Spadafora n�o era nenhum santo

mas ele foi morto. E isto basta.

N�o se joga lama sobre os mortos. Punimos os assassinos, sr. juiz.

Pergunte-me o que quiser.

O que quer saber sobre minha fam�lia?

Entendo seu estado de esp�rito,

devo me retrair.

Entre, sr. juiz, � sua disposi��o.

Um soldado.

Eu olho para as mulheres belas. Eu as aprecio.

E quem n�o gosta de uma bela mulher, sr. juiz?

O homem � ca�ador. Ca�ador das mulheres dos outros

e carcereiro de sua esposa.

N�o sabe dizer outra coisa?

Preocupo-me com minha vida. Vive-se mais.

Ao inv�s de fazer rir, responda � pergunta.

Pode repeti-la?

Eu perguntei, se conhecia a sra. Scalia.

Ela era uma mulher bonita.

Onde a encontrava?

E quem a encontrava? Antes fosse.

Vou reformular a pergunta:

Onde a via?

N�o me lembro.

Por a�.

Aqui e ali.

Sabe se o conselheiro Spadafora a conhecia?

Ele conhecia todo mundo.

Ent�o, conheceu a sra. Scalia tamb�m...

Claro que a conhecia. Mas eram s� amigos.

Amigos, n�o. Conhecidos.

Encontravam-se de tempos em tempos?

� a mim que pergunta? Que sei eu?

Por que n�o? N�o era voc� quem levava o Spadafora de autom�vel?

Sim, mas sou um bom motorista, porque n�o vejo, n�o entendo e n�o falo.

Mas, agora, voc� precisa falar.

-Por qu�? -Porque pode ser preso por retic�ncia.

Est� bem.

Algumas vezes, o advogado Spadafora encontrava-se com ela.

�amos busc�-la, com o Lancia

atr�s dos jardins da Pra�a Garibaldi, atr�s da igreja.

E que tipo de reuni�es eram? Secretos? Clandestinos?

O que � isso? Indaga-se sobre o moral das v�timas.

Os atos criminosos j� foram amplamente estabelecidos.

-Est� certo! -Sil�ncio! Sil�ncio!

Vou reformular a pergunta.

Esses encontros com a sra. Scalia eram agendados

ou aconteciam acidentalmente, de vez em quando?

N�o sei, sr. Presidente. Eu dirigia o carro.

E dirigindo o autom�vel, onde levava o advogado Spadafora e a sra. Scalia?

Algumas vezes a um hotel, em Mondello

e, �s vezes na casa de amigos. O advogado tinha muitos amigos.

Mesmo na casa do contador especial, quando n�o estivesse? Era solteiro!

Sr. juiz, � melhor apressar-se e me fuzilar, pois se escapo

eu o mato.

Sil�ncio!

E ent�o, levava-os � casa do contador? Sim ou n�o? Responda.

Uma vez s�. Talvez duas.

Ah, muito obrigado.

Eu acabei.

Eu era um estagi�rio. Tinha acabado de me formar.

Tive que defender um homem, que roubou uma delicatesse.

Um infeliz, com muitas crian�a para alimentar.

Foi julgado por este e 4 outros furtos...

em 4 lojas: p�o, macarr�o, a��car

Consegui demonstrar a inexist�ncia do v�nculo de continuidade.

Cinco roubos s�o parte de um �nico projeto criminoso, com motivo �nico

Fome.

5 roubos tornam-se um. A magia da lei.

Ele saiu depois de alguns meses.

Uma senten�a impec�vel,

fora de quest�o.

Voc� est� fazendo a mesma coisa.

3 assassinatos se tornam 1, porque foram inspirados por 1 motivo:

paix�o.

A premedita��o � eliminada

e n�o pode haver senten�a de morte.

Se o processo levar a isso...

Que processo?

Vamos comer em paz!

Esse seu r�u, Scalia, em pouco tempo,

ningu�m mais nem lembrar� como se chamava.

Recordar�o t�o somente que um assassino foi punido pela lei,

com a pena capital.

Foi o que eu disse tamb�m.

Mas o juiz Di Francesco j� entendeu.

Sim, eu entendi.

Agora ele parece aborrecido com voc�,

mas o presidente Sanna gosta muito de voc�.

Ele me diz sempre, que n�o h� outro melhor que voc�

para ocupar o lugar dele.

Eu sei, eu sei.

De onde �, de Palermo, n�o �?

Bagheria!

Ah, Bagheria! Estou aqui h� 3 anos e n�o fiz outra coisa a n�o ser

ir de uma cidade para outra, de um distrito legal para outro

mas aprendi uma grande verdade:

as pessoas sempre s�o as mesmas, tudo o que querem � uma vida tranquila.

Por que � contr�rio � pena de morte?

A pena de morte?

N�o � uma quest�o legal, mas pol�tica.

Serve para quem governa, n�o para os cidad�os.

Vamos fingir que n�o escutamos.

E se eu lhe demonstrasse que executando assassinos

diminu�mos a criminalidade, o que faria?

Eu n�o pouparei ningu�m, em circunst�ncia alguma.

Est� vendo este anel? Hein?

� lat�o, n�o vale nada...

mas, a pessoa que mo deu disse que tinha poderes m�gicos...

Se h� em sua frente, algu�m de quem n�o gosta,

vire o anel e ele desaparecer� para sempre.

Eu sempre o viro, mas ningu�m desaparece.

Mas seria bom, se com um simples gesto,

pud�ssemos tirar da face da terra todos os ladr�es, os violentos,

os man�acos e os loucos.

Mas n�o somos m�gicos. Temos que nos defende,r de algum modo.

Processo ap�s processo, temos que fazer o poss�vel

para os homens de boa vontade viverem em paz,

e irem para a cama � noite,

deixando aberta a porta de casa.

A porta de minha casa, fecho-a sempre.

Eu a chamava. Por que n�o responde?

Coloque seus sapatos. Vamos.

-Est� sujo. -Coloque assim mesmo!

O que � isto?

Um homem lhe trouxe, enquanto dormia.

Para mim?

Vamos para casa.

A testemunha disse que o advogado Spadafora

se encontrava, secretamente, com a sra. Scalia.

A testemunha confirma o que disse?

Se eu disse, eu confirmo.

Ent�o, confirma que eles se encontraram

em hot�is e, algumas vezes, na casa do contador.

E o contador saia e os deixava a s�s.

Quanto tempo duravam esses... encontros?

N�o duravam muito, ent�o, pararam.

Agora, eu queria saber se o r�u Tommaso Scalia

sabia da rela��o de sua mulher com o advogado Spadafora?

Senhor Presidente.

Por favor.

Sim, o qu�?

Ele sabia tudo sobre o caso.

Voc� tem certeza?

Sim, ele a acompanhava

e s� a deixava depois que estava no carro.

Controlava.

Por que controlava?

Porque ela n�o queria faz�-lo.

A testemunha pode explicar melhor?

Uma vez, quando entrou no carro, ela estava chorando.

Outra vez, seu nariz sangrava.

Seu marido havia batido nela.

A testemunha pode dizer por que o marido bateu nela?

Para faz�-la comparecer ao encontro.

Ent�o, ela n�o ia por livre e espont�nea vontade?

Nunca!

Eu a levava com um chute no rabo!

Quer um r�dio? Um novo vestido? Uma m�quina de costura?

Ganhe-os, sua prostituta!

Concluindo, sr. presidente,

aquela pobre mulher era for�ada, pelo seu marido,

a se prostituir.

Sr. presidente, agora tem que me matar.

O caso que coube a esta corte

entra nos artigos 61, 575, 576, do c�digo penal.

Aqui est�. Podem consult�-lo, quando quiserem.

N�s devemos ser gratos ao juiz Di Francesco

pelo extremo escr�pulo com que soube escavar

as dobras deste julgamento.

Ele defendeu os direitos do r�u, sem negar as garantias

que a lei imp�e at� para os r�us confessos.

Antes de proceder � vota��o, gostaria de lembrar aos jurados

que aqui n�o estamos sozinhos, decidindo o destino de um homem.

Toda a comunidade se expressa atrav�s de n�s

e nos chama para agir de acordo com a lei.

Se algu�m tiver necessidade de esclarecimento dos pontos t�cnicos,

eu e o juiz Di Francesco estamos � disposi��o.

Caso contr�rio, podemos iniciar a vota��o.

Desculpe-me, senhor presidente.

Desculpe-me, senhor juiz.

O artigo 61 e outros dos quais n�o me lembro, s�o claros:

o r�u deve ser condenado ao fuzilamento.

At� mesmo as pessoas o dizem: "Matem-no! Ele merece!

Mas uma coisa � falar assim nos caf�s, nas ruas,

sem pensar,

sem assinar uma senten�a, com seu nome e sobrenome.

Cada um de n�s tem uma carabina em suas m�os. N�o quero saber

se os outros atirar�o ou n�o. Quero saber se eu atirarei.

E para decidir isto, todo conhecimento da lei n�o � suficiente para mim.

Minha vida � muito diferente da de voc�s.

Ent�o, perdoe-me, senhor presidente,

mas n�o � verdade que temos pouco a discutir.

Temos ainda que come�ar.

Scalia, Scalia, onde est�? Mostre-se!

Tenho uma coisa a lhe dizer.

Estou aqui, na janela. Venha c�.

Tenho boas not�cias para voc�.

Voc� tinha medo de ir ao tribunal. Sabe o que aconteceu?

Um juiz o salvou. Eles n�o v�o mat�-lo.

Voc� vai para a pris�o, Scalia. Pris�o perp�tua.

Com licen�a, acho que estamos perdidos.

Giovanni Consolo mora aqui?

Sim, � aqui. Entre. H� um casamento.

Sr. juiz! Que surpresa!

-Incomodo? -Incomodando-me? O senhor?

Se eu soubesse, eu mesmo iria busc�-lo.

Viemos num impulso.

N�o podia imaginar que havia um casamento.

Venha.

Todos s�o de minha aldeia. Os dois se casaram esta manh�.

Os jantares de casamento s�o feitos sempre aqui, porque h� espa�o.

Sente-se.

-Talvez esteja cansado? -N�o. N�o.

Beba um copo de vinho para dar sorte.

Vamos tirar os pratos daqui.

Sr. juiz, estou contente em t�-lo em minha casa.

Vamos para um lugar mais tranquilo. N�s dois n�o dan�amos.

Quando acabo de trabalhar, venho aqui. Por favor.

Hein? H� mais de 7 mil.

Mas n�o os comprei, eu os herdei.

De seu pai?

Meu pai n�o sabia ler, nem escrever. Mas ele sabia as contas.

A casa pertenceu ao marqu�s Salemi, bacharel e jogador.

Jogou, perdeu e fez d�vidas.

Quando ele morreu, os agricultores dividiram o material.

Cresci entre estes livros.

Ent�o, fiz bem em lhe devolver este.

� seu, juiz Di Francesco.

O condenado entende tudo e se recorda de tudo.

H� um ponto em que absolutamente nada pode ser esquecido.

E n�o � poss�vel ver a consci�ncia.

Tudo d� voltas e gira em torno a esse ponto. E assim �

at� que a �ltima fra��o do segundo

quando sua cabe�a j� est� colocada no cepo e ele espera, sabendo.

De repente, ele ouve rangidos de um machado.

H� aqueles que dizem que a cabe�a continua vivendo

por um segundo, ap�s ter sido separada do corpo

sabendo, que foi separada dele.

� como ouvir sua voz na sala do j�ri.

Se algu�m n�o acha as palavras, tem que busc�-las.

O r�u certamente n�o imagina

que deve, momentaneamente, a sua vida a um livro.

Voc� deve ser mais generoso com seus jurados.

No �ntimo, j� estavam convencidos que n�o se deve atirar em ningu�m.

Em seu �ntimo, talvez, mas foi voc� quem os lembrou...

voc� e Dostoievski.

Embora, durante todo o julgamento, eu n�o confiei em voc�. Pe�o desculpas.

Esque�a isso.

Voc� foi teimoso, obstinado at� as �ltimas, como uma mula.

Voc� est� errado. Eu n�o queria entrar naquela sala do j�ri

queria fingir que estava doente, pensei em tudo.

Queria dar volta na lei, servindo-me dela.

Manter os apoios legais, para mim, � a �nica forma de avan�armos.

O importante � que esta senten�a pode constituir um precedente.

Sabe o que eles est�o dizendo no tribunal?

Um j�ri fraco, guiado por um juiz louco, que parece s�o.

E o presidente se cerca dessas vozes,

para salvar-se. N�o os escute.

Desde a manh� de ontem j� n�o sou um juiz do Tribunal Penal.

Como?

Fui transferido. Um lugar isolado. Um tribunal distrital nas montanhas.

E voc�?

Eu? Para mim, foi um al�vio.

O trabalho do processo judicial n�o me interessa mais.

N�o acredito nisso senhor juiz.

Um dia, se quiser, o acompanho para visitar o subsolo

dos arquivos da Corte de Palermo.

Arquivos, arquivos, montanhas de arquivos.

Cada arquivo, um morto julgado por um outro morto.

Passei parte de minha vida l�.

N�o se deixe enganar: De nosso julgamento n�o restar� um tra�o.

J� est�o trabalhando no recurso de apelo,

outros ju�zes, outros jurados.

Quando se tira as ra�zes de uma videira madura e forte

alguns peda�os de ra�zes permanecem no solo.

O tempo passa, perde-se tamb�m a mem�ria

e, de repente, v� nascer outra videira.

Eu tenho f�, senhor juiz, apesar de tudo.

Eu confio.

Tommaso Scalia foi condenado � morte, pela Corte de Apela��o.

Foi fuzilado atr�s do cemit�rio de Palermo

uma manh�, em mar�o de 1938.

Portas Abertas

Legendas em portugu�s: Lu Stoker

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