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Original subtitles

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Sim.

�.

PRECISA-SE DE HOMEM IDOSO, APOSENTADO, ENTRE 80 E 90 ANOS,

INDEPENDENTE, DISCRETO E COMPETENTE COM TECNOLOGIA.

PARA REALIZAR INVESTIGA��ES, COM DISPONIBILIDADE

PARA FICAR FORA DE CASA POR TR�S MESES.

Comprei o jornal e vi um an�ncio que dizia

que precisavam de pessoas...

De homens idosos, entre 80 e 90 anos.

Pensei: "Estou louco?" N�o fazia sentido.

Entre 80 e 90 anos.

Em qualquer entrevista de emprego,

assim que descobrem a sua idade, j� era.

� um impedimento.

N�o gostam de gente idosa.

Apesar de eu parecer jovem.

Pare�o e me sinto jovem.

Voc� � bom com tecnologia?

Estou conectado � internet usando Wi-Fi.

- Certo. - Mas n�o a uso

por uma simples raz�o:

acho que n�o � necess�rio.

N�o est� funcionando. Foi, foi, foi!

- N�o est� funcionando. - Deixe-me ver.

Veja. Eu aperto o bot�o e vejo da cabe�a aos p�s,

mas n�o funciona.

1, 2, 3, 4,

5, 6, 7, 8, 9,

10, 11, 12, 13, 14, 15...

Voc� tirou 15 fotos.

Esse trabalho para o qual estamos contratando

pede que usemos uma pessoa

de intelig�ncia,

um agente duplo.

Um agente duplo. Pode explicar melhor?

- Um espi�o. - Certo, um espi�o.

Sem que ningu�m saiba que voc� � espi�o.

E vai ficar de olho em tudo.

Teria algum problema �tico ou moral

que o impediria de entregar outros idosos?

- Nenhum. - Nenhum?

N�o. Claro que n�o.

Estou at� interessado nisso.

Temos a aprova��o da sua esposa

para que voc� fique num asilo por tr�s meses?

Minha esposa me deixou tr�s lindos filhos

que est�o casados, t�m seus pr�prios filhos,

mas est�o sempre preocupados comigo.

Ent�o eles seriam contra deix�-lo

tr�s meses num asilo?

Se eu conseguir este trabalho, n�o terei nenhum problema,

porque eu tomo as minhas pr�prias decis�es.

AGENTE DUPLO

"Alvo"

� como chamamos a pessoa que voc� vai vigiar.

Voc� ter� uma miss�o.

Vou lhe dar um nome, uma foto

e falar quem voc� ter� que vigiar l� dentro.

Eu fui contratado pela filha do alvo.

Ent�o voc� far� o trabalho l� dentro,

e eu terei que reportar � filha,

que acredita que a m�e est� sendo maltratada,

roubada e espancada l�.

Entendeu?

Ent�o voc� vai ser meus olhos e meus ouvidos.

Qualquer informa��o serve:

se os banheiros s�o nojentos, se n�o tem papel higi�nico,

se os idosos est�o andando com a fralda suja,

se a enfermeira deu um tabefe em algu�m... O que for.

Me informe tudo.

Ent�o precisa me garantir

que estar� sempre de olho no alvo.

- Tem que ser muito sutil. - Sim, claro.

Sem que ningu�m se d� conta,

porque, se for descoberto, ser� o fim do trabalho.

Esse � o alvo.

Ela se chama Sonia P�rez.

Sergio, por favor,

voc� precisa tentar memorizar

essa senhora.

- A vovozinha? - A vovozinha.

Voc� n�o ter� acesso a outra foto al�m desta.

O que est� vendo

� a fachada do Asilo S�o Francisco,

que fica no distrito El Monte.

Certo, agora voc� vai me ligar no FaceTime.

Tudo bem.

J� estou vendo o senhor.

Mas me ligue. N�o adianta s� me ver.

N�o vou estar perto da sua c�mera.

- Precisa me ligar primeiro. - Certo.

Al�, Romulo.

Estou vendo voc�.

Voc� n�o me ligou.

Sim.

Atenda a liga��o. Deslize.

- Qual? O verde? - Aceite a chamada.

Certo.

N�o, segure mais alto. No seu rosto.

- Est� me vendo? - Estou.

- Estou na tela? - Est�.

- E voc� est� aqui. - Claro.

Veja. Vai me ligar por telefone

para avisar que tem uma encomenda urgente.

Vai ser o nosso c�digo.

Uma encomenda.

Isso significa que tem uma informa��o importante.

- Sim. - QSL QAP.

Vamos nos encontrar no QTH.

Entendeu?

Nada.

Me mande uma mensagem de voz pelo WhatsApp.

Sergio, o que vamos fazer quando n�o estiver ao meu lado?

Por isso digo: aten��o. Quando digo algo, se concentre.

Vou lhe comprar um frasco de Actebral.

Para a sua mem�ria.

- Qual � o nome? - Actebral.

O que � isto aqui?

Uma caneta.

Se olhar com a lupa...

Est� vendo um pontinho piscando?

- Est� vendo? - Sim.

Esta � a c�mera. Uma microc�mera.

Pode ver que estou filmando voc�.

Estou filmando voc�.

Agora vou virar.

Agora vou desligar.

Essas s�o lentes espi�s.

- Voc� liga igual � caneta. - Certo.

- Vibrou? - Sim.

- Sentiu na sua m�o? - Senti.

Isso! Significa que est� filmando.

Neste minuto

quem voc� est� filmando?

Devagar, n�o t�o...

Isso. Assim. Bem devagar.

Isso. �timo. Isso a�.

Mas n�o fa�a cara de espi�o.

Seja mais discreto...

Mas voc�s sabem que sou espi�o.

- N�o v�o saber l� dentro. - Ningu�m sabe.

Senhor, me leve para casa?

- Por favor. - Voc� tem a chave? Eu n�o tenho.

- Minha m�o est� ocupada. - Menina, venha c�.

Me ajude, porque esse senhor est� com as m�os ocupadas.

Voc�! Voc�!

- "Voc�. Voc�." - Isso mesmo.

Tem uma c�mera aqui em cima.

Uma m�quina de fotografar ali.

� para escutar nossa conversa.

Sim, eles escutam tudo e est�o com os ouvidos cobertos.

Pensei que estavam fazendo um filme,

mas acho que est�o nos espiando.

�, est�o fazendo um filme.

N�o sei no que vai dar.

Certo. Sergio, Dalal.

L� pelo dia 20, 21,

vamos lev�-lo para l�.

Voc�, como filha dele,

e eu, para todos os efeitos...

Vamos ter que fazer assim.

Eu interpretarei o papel do seu afilhado.

- Certo? - Sim.

Alguma d�vida?

O que me preocupa sobre meu pai

� que perdemos nossa m�e h� poucos meses.

N�o t�-lo por perto durante tr�s meses ser� dif�cil

ap�s ter perdido a minha m�e.

Vamos poder visit�-lo?

Quanto tempo nos fins de semana?

Por quanto tempo ele pode sair do asilo?

Se a ger�ncia do asilo permitir

e autorizar a sa�da dele sob sua responsabilidade...

- Sim. - ...mas eu n�o posso

ignorar as regras do asilo,

porque, se todos os vovozinhos quiserem sair,

imagina s�.

Muitos deles v�o se perder.

E ele pode ter algum problema na Justi�a

se descobrirem que ele entrou

para investigar e filmar?

Porque ele estar� filmando um lugar sem permiss�o.

Ningu�m pode entrar e filmar sem permiss�o assim.

Do ponto de vista legal,

a cliente e eu assinamos contratos de confidencialidade.

Ela n�o pode fazer mau uso da informa��o que lhe darei,

porque s� est� interessada em saber como a m�e est�.

Dalal, se est� preocupada com o filme,

j� estamos filmando dentro do asilo,

e eles sabem que, se chegar algu�m novo,

vamos nos concentrar na pessoa.

Neste caso no seu pai.

- Ficou claro? - Sim, mas...

Mas, claro, n�o sabem que ele � um espi�o.

Olhe. Para que minha filha fique tranquila...

Voc� v� que eu saio,

moro ao lado do shopping,

que j� conhe�o de olhos fechados hoje em dia,

sei onde ficam todas as lojas.

E isso fica chato depois de um tempo.

Dar um passeio, pegar um sol,

olhar as �rvores bonitas, os passarinhos...

Isso tamb�m fica chato.

E voltar para o meu apartamento...

J� estou um pouco desesperado.

E acho que isso pode ser libertador mentalmente.

Cansativo mentalmente,

mas tamb�m libertador,

porque estou come�ando a me sentir como quem eu era.

N�o passo o tempo todo pensando na sua m�e,

que � o que acontece quando fico em casa.

Tudo que eu olhava me lembrava a sua m�e.

Agora chego em casa t�o cansado

que entro e j� vou direto para a cama.

Ent�o minha mente j� est� mais esclarecida.

Estou feliz com isto.

E quero que voc� fique feliz e tranquila tamb�m.

Est� bom?

- Ol�. Tudo bem? - Tudo e voc�?

Bem, gra�as a Deus.

- Bem e voc�? - Muito bem.

Com licen�a.

Tudo bem?

Como eu estava falando, este � o p�tio.

Sim, entendi.

- � bonito. - Obrigada.

Voc� pode ficar l� nas tardes de ver�o,

quando seus netos visitarem.

Poder�o passar a tarde aqui.

Temos estes corrim�es.

Mesmo que pense �s vezes: "N�o preciso deles."

- Talvez precise. - Certo.

Ent�o lembre-se de que tem corrim�os nas paredes

caso precise em qualquer momento.

- Claro. - Certo?

Como falei, temos quartos compartilhados, como este,

com duas camas e um banheiro privado.

- Certo. - Sim? Os quartos individuais...

Como este aqui.

Em que h� s� uma cama e um banheiro, certo?

Com o tempo, vai conhecer melhor o lugar.

Dirija com cuidado. Se cuide.

- Amo voc�. - Eu tamb�m. Se cuide.

Se cuide.

D� o p�o a quem n�o tem. Am�m.

Em nome do Pai, do Filho e do Esp�rito Santo. Am�m.

Soube que vai fazer 40�C amanh�.

Isso � bom!

- Chegou um novo homem. - Ele � um cavalheiro.

- �, parece ser. - Ele parece l�cido.

- J� conheceu o homem novo? - N�o.

Gostei dele, parece ser um cavalheiro.

Por tudo que conversamos, parece �timo.

- �? J� conversou com ele? - J�.

� a minha sobremesa.

Pode comer.

Obrigado, mas j� tenho.

Por que n�o o chamam aqui?

Tem espa�o para dois aqui.

Ele ainda tem que se acostumar.

Se ele se acostumar...

Alguns nunca se acostumam e v�o embora.

Talvez ele goste de ficar sozinho.

Depende.

Tenho pena quando botam pessoas aqui

que poderiam ser aut�nomas em casa,

mas que s�o trazidas para c� ainda assim.

Talvez ele se sentisse sozinho em casa.

Boa tarde.

Est� tudo bem?

J� se acostumou?

J� se acostumou aqui?

Ainda n�o sei dizer porque � s� meu segundo dia.

Mas � de Santiago?

De Santiago, da capital.

Certo. Deixou sua fam�lia l�?

Deixei.

- Sua esposa? - Sou vi�vo.

- Tem filhos? - Tenho. Uma fam�lia.

- Quantos filhos? - Tr�s filhos, cinco netos.

Nossa!

� muito!

�, para mim sozinho.

- O que mais? - Ele disse que � vi�vo.

O senhor � vi�vo.

H� pouco tempo. Quatro meses atr�s.

- Al�. - Sergio.

- Sim. - Desculpe ligar.

- Diga. - Eu queria perguntar algo.

Qual � o seu QTH?

Eu lhe digo amanh�, porque ainda n�o estudei isso.

- Tem que estudar... - �.

...para eu poder perguntar em c�digo.

- Sim. - Certo?

Amanh� lhe respondo v�rias coisas.

Por favor. Pelo menos anote no seu caderno.

Certo.

- Ok? QSL. Escute. - Tudo bem.

- QSL, QAP. - Entendi.

Para que possa responder com c�digos.

- Est� bem. - E tire a foto tamb�m.

- Est� bem. - �timo.

- Certo. Tchau. - Tchau.

Segure-se, tem algu�m vindo.

Levantem os bra�os.

Botem os bra�os para o lado direito.

Para o lado direito!

Qual � o lado direito? Isso.

Esquerdo, direito.

Esquerdo.

Para baixo. Para cima.

Para baixo. Para cima.

Para baixo.

Um, dois, tr�s.

Sem abaixar.

Quatro, cinco...

Romulo, este � o relat�rio de hoje, quarta-feira.

Estive na sala grande procurando o alvo.

Eu tinha quatro candidatas,

mas todas as senhoras parecem iguais para mim.

Qual � o nome dela?

N�o lembro.

E a vovozinha ao seu lado? Como se chama?

- Ela se chama Clotilde. - Ela?

- Ela � Clotilde? - Sim.

Ainda n�o encontrei nenhuma chamada Sonia.

Ent�o falei com a sra. Petronila,

que me divertiu com seus poemas.

"Vou brindar pela vida.

Quando h� compreens�o e amor,

n�o se sente dor nem h� ferida.

O viver bem nos convida a uma velhice florida,

o trabalho e a honra ao homem trazem alegria

e se termina a vida com uma maior fluidez."

Muito lindo.

A senhora tem uma �tima mem�ria. Meus parab�ns.

Ela disse que est� sendo bem cuidada,

mas reclama que as coisas somem.

Outro dia eu estava com uma camisa azul

na qual tinha escrito minhas iniciais,

P e A,

com uma caneta preta, bem aqui.

- Sim. - E a mo�a que roubou

escreveu as iniciais dela

em vermelho e azul em letras grandes.

Uma vez perdi dinheiro, mas foi um estranho.

- N�o sei, algum visitante... - Sim.

...mas n�o os funcion�rios.

- S� uma vez? - S� uma.

Depois do ch�, conversei com a sra. Juana,

que escorregou e caiu a caminho do quarto.

O resultado foi uma dor no corpo

e o olho esquerdo roxo.

Eu me pergunto se foi neglig�ncia ou n�o.

Esta minha mente... O c�rebro � muito traidor.

Pode soltar. Pode soltar.

- O c�rebro � traidor, n�o acha? - Sim.

Eu vivi um tempo em outro mundo,

sem saber onde estava nem quem era.

� tarde conversei com a sra. Rubira

sobre a vida pessoal dela

e como estava sendo a estadia dela no asilo.

Tenho tr�s filhos: duas meninas e um menino.

- Igual a mim. Eu tamb�m. - � mesmo?

- Duas garotas? - Duas garotas e um garoto.

- O garoto � o do meio. - O meu � o mais novo.

Entendo.

Ele n�o � t�o novo, j� tem a pr�pria fam�lia.

N�s �ramos muito pr�ximos,

mas ent�o ele se casou com uma mulher

que, quando eu comecei a ficar doente,

dizia para ele:

"Deixe para l�. Sua m�e est� bem."

Depois descobri que ela dizia:

"Ele se preocupa mais com a m�e do que comigo."

Ela ficou com ci�mes da m�e dele.

Isso acontece o tempo todo.

- O tempo todo. - Sim.

Antes de envelhecer, fiz tudo por eles.

Para meus netos, meus filhos, todo mundo.

Quando comecei a adoecer...

Como a velha n�o servia mais, me botaram no asilo.

Mas voc� est� muito bem agora. Parece �tima.

E sei que seus filhos v�o vir visit�-la logo.

Que Deus te escute!

- At� mais. - Est� bem. Tchau.

- Quer? - N�o.

- N�o gosta? - Acabei de almo�ar.

Ent�o vou embora.

Zoila e Marta, por volta das 18h,

come�aram a pedir que abrissem a porta da rua.

- A porta fechou. Foi voc�? - N�o, foi voc� que fechou.

Me leve para casa, mo�o!

Senhorio!

Abre, por favor!

Abre, senhor!

Por favor!

Como vou embora? Como fa�o?

N�o sei.

Ei, voc�, me leve � casa da minha m�e.

Me leve para casa da minha m�e!

Enganam Marta e a fazem acreditar

que a m�e dela est� ligando, mas s�o as enfermeiras.

Fazem isso para que ela fique tranquila,

porque ningu�m a visita.

Al�.

Certo. Martinha, � a sua m�e ligando.

- Fale com ela. - Voc� tem sorte.

Al�.

Mam�e, sinto tanto a sua falta.

Voc� nunca vem me visitar.

Mas estou aqui.

Tem que vir me visitar.

Certo.

Eu mais do que voc�.

Estou muito desesperada.

Estou desesperada porque voc� nunca me visita.

Romulo, contei 40 mulheres

e 4 homens, incluindo eu.

E encontrei o alvo. Ela est� no quarto 17.

Com licen�a, senhora. Com licen�a.

- Como est�? - Bem.

E o almo�o? Como foi?

Bom.

- E como est� sendo tratada aqui? - Bem.

Sim? Me esqueci de perguntar o seu nome.

Sonia.

Cheguei h� poucos dias e estou conhecendo as pessoas,

perguntando como se chamam.

Vim ver como est�.

A senhora parece muito bem. Est� muito bonita.

� uma vov� linda.

Vou visit�-la todo dia.

Tchau.

Ol�, Sergio. Escutei sua mensagem,

e a verdade � que, como j� sabe quem � o alvo,

n�o fa�a muitas perguntas.

V� com calma, porque j� a identificou.

N�o fique entrando no quarto dela.

N�o podemos correr o risco de ela ter a ideia errada

e acusar voc� de ter feito alguma coisa.

Por favor, seja prudente.

Com licen�a.

- Boa tarde, sra. Sonia. - Boa tarde.

- Como a senhora est�? - Bem.

Bem? Que bom!

Hoje est� mais fresco do que ontem, n�o �?

Romulo, � tarde fiquei observando o alvo de perto.

Na hora do ch�, o fisioterapeuta a ajudou

a andar como parte da fisioterapia.

Conhece o sr. Sergio?

- Quer ser apresentada? - N�o.

N�o? Ent�o est� bem.

Quando ele perguntou a ela se queria me conhecer,

ela disse "n�o" de forma brava.

Ela olhou para mim como se eu fosse o bicho-pap�o.

Percebi que ela n�o � soci�vel.

Se ningu�m falar, ela fica o dia todo em sil�ncio.

Este � o relat�rio de hoje.

Vamos rezar.

"Ave Maria, cheia de gra�a,

o Senhor � convosco.

Bendita sois v�s entre as mulheres..."

"Santa Maria, m�e de Deus,

rogai por n�s, pecadores,

agora e na hora de nossa morte.

Am�m."

Tenha bons sonhos.

Tenho que lev�-lo para casa.

Eu converso com ele.

- Eu converso com ele sempre. - Que bom!

Olho para ele como se fosse uma pessoa.

Entendi.

Sim. Todos podem falar com ele.

- E ele responde? - N�o.

N�o responde, mas eu o vejo

e falo sobre mim e sobre a minha vida.

Certo.

Mocinha, pode abrir aqui?

Como abre isso?

- Abra aqui? - N�o tem chave.

Mocinha...

Senhor, onde guardo isto?

O quarto est� muito limpo.

A ducha est� funcionando.

A �gua est� quente.

A �gua est� correndo.

Este banheiro...

tem urina na privada.

Roupas dentro do chuveiro.

Est� fedendo a urina.

Muito sujo.

Romulo, veja.

Estive vendo os quartos das vov�s

que est�o de cama.

Elas est�o de cama e n�o falam coisa com coisa...

Uma delas est� inconsciente.

A outra tamb�m n�o fala, s� bota os dedos na boca e faz caretas.

Na verdade �...

� muito dif�cil ver essas velhinhas assim.

Isso n�o � jeito de viver.

� terr�vel.

- Este � o meu quarto. - � muito bonito. Como voc� est�?

N�o sei se sentiu minha falta. Passei dois dias de cama.

- Me trouxeram tudo na cama. - Que bom...

Por sorte, me recuperei logo.

- Cuidaram bem de voc�? - Sim, muito bem.

- Ent�o n�o v� embora. - N�o.

N�o tem motivo para voc� ir embora nem ficar deprimido.

N�o, mas...

Se est� triste, tem que buscar a alegria!

Exatamente. Claro.

Aconteceu comigo, por isso estou dizendo.

Eu sou alegre. Sou, sim.

Se eu ficar deprimido, pego minhas coisas e parto.

N�o! De jeito nenhum!

Por isso estou dizendo para levantar a cabe�a.

- N�o vou ficar deprimido. - N�o...

Estou muito feliz.

Est� bem? Estou feliz aqui.

- Voc� est� confort�vel? - Gra�as a Deus, estou.

- Se sentindo bem? - Sim.

- Faz quantos anos? - Eles a tratam bem?

- Mais de 25 anos. - Ent�o foi muito bem cuidada.

Escute. Como sou independente,

gra�as a Deus e � Virgem Maria,

ainda consigo me movimentar sozinha.

Vou ao hospital sozinha, fa�o as coisas sozinha...

Fa�o tudo sozinha.

- Fa�o minhas coisas... - Isso � bom.

�, eu vou ao banco.

Mas, do jeito que as coisas est�o agora...

Vejo tantas coisas ruins no jornal

que tenho medo de sair sozinha.

Ent�o pensei em voc�,

a �nica outra pessoa independente que pode sair

e me acompanhar at� o outro lado da rua,

onde recebo minha pens�o.

Eu adoraria ajudar, mas preciso pedir permiss�o.

- Claro. - Porque n�o posso s� sair.

N�o. Vou falar com a diretora.

E falou com ele sobre isso?

Sim, conversamos, mas...

N�o sei se voc� vai autoriz�-lo.

Preciso falar com o sr. Sergio para ver se ele quer.

- Tudo bem? - Est� bem.

Eu gosto dele, sabe?

- Gosta do sr. Sergio? - Gosto.

- E disse isso a ele? - N�o...

- �bvio que n�o. - Gosto do sr. Sergio porque...

- � muito cavalheiro... - Certo.

- ...muito bonito... - Certo.

- ...sabe conversar... - Ele � interessante?

- Sim. - Certo.

E sinto que ele tamb�m gosta de mim.

Se tivesse um casamento aqui, seria espetacular.

Claro, Bertinha! Ter�amos uma capela linda, um padre...

Seria a primeira vez, nos 25 anos em que estou aqui,

que aconteceria algo extraordin�rio assim.

Nunca aconteceu.

J� est� pensando em casamento?

� s�rio assim?

N�o, � por que...

Se eu gosto de algu�m...

Eu sempre fui muito exigente durante a vida.

Certo. Mas voc� teve namorado?

Tive, mas abra�os n�o arrancam peda�o.

- Nada s�rio. - E eu era muito teimosa.

Eu queria dar minha virgindade a Deus

por meio do meu marido.

- Meu cabelo j� est� seco? - Sim, senhorita.

Romulo, este � o relat�rio de 5 de outubro.

�s 14h, depois do almo�o,

fomos todos ao sal�o para comemorar um anivers�rio.

Foi tudo muito bonito.

Primeiro teve um coquetel vegetariano,

seguido de frango assado e saladas.

Suco e sobremesa.

Depois fui eleito rei do asilo.

O que acha do rei, Mirta?

� de primeira classe.

- E voc�, Raquelzinha? - �timo.

Voc� � um conquistador, meu rei.

- Eu n�o estava errada, n�o �? - N�o!

Tem algu�m me olhando e dizendo: "Quero falar!"

Vamos perguntar a ela.

Bertinha, o que acha do rei?

O que voc� acha?

Eu estou apaixonada por ele.

Parece que teremos um casamento!

Eu te nomeio rei.

Eu lhe apresento o seu rei, sr. Sergio.

Encantada, senhor.

Espero que sejamos muito felizes.

Felizes, sim.

- Bravo! - Bravo!

Escute. Ouvi o que me mandou do festival,

da elei��o da rainha e do rei.

Est� tudo bem, e estou feliz por voc�.

Mas tem algo que voc� n�o me mandou.

As situa��es que eu pedi t�m que ter subst�ncia,

detalhes com fundamentos.

� o que preciso para a cliente.

- Oi. - Oi.

- Tudo bem? - Tudo. E com voc�?

- Tudo tamb�m. Gra�as a Deus! - Que bom!

- � isso o que importa. - �, sim.

- Vou para a cama t�o cedo! - Isso � bom.

O que mais posso fazer?

Hoje segui o alvo e percebi

que ela tem problemas para se levantar.

As enfermeiras t�m sempre que estar por perto.

A vovozinha!

Sente-se aqui. Vamos.

Sente-se.

Muito bom!

Pintinho bonitinho.

No sal�o consegui falar com ela,

mas ela s� me respondeu o m�nimo.

Acho que ela n�o gosta de falar com homens.

Por que fica brava quando toco em voc�?

Ningu�m pode me tocar.

E quem comprou voc�?

Eu comprei voc� com meu dinheiro.

- N�o briguem. - Ela tem que ser uma amiga.

Sim. Fique tranquila.

Fique calma, vovozinha. Certo? Fique calma.

Se minha m�e aparecer, vou embora.

Bem me quer,

mal me quer.

N�o me quer.

Bem me quer,

mal me quer.

N�o me quer.

Bem me quer.

Bem me quer.

�timo.

Mesmo com mais de 85 anos.

Sim, isso mesmo. � claro.

Isso � �timo.

Est� garantido.

Oi. Tudo bem?

Passou por mim e nem me cumprimentou.

Eu estava distra�do.

Eu queria falar com a senhora...

- Senhora... - Senhorita.

- Senhorita Berta. - Isso. Me diga.

N�o vou poder acompanh�-la para buscar a pens�o.

- N�o? - N�o.

A verdade � que prefiro n�o sair.

Eu fazia isso todo dia em casa, l� em Santiago.

N�o quero sair para a rua

e acompanh�-la para buscar sua pens�o.

Era um jeito de nos conhecermos melhor,

mas, se n�o quer se abrir...

- Mas j� nos conhecemos. - J�, mas...

�, at� j� fui ao seu quarto.

- E o que achou dele? - � bonito.

� bonito, sim, e tem uma vista boa da pra�a.

- Da pra�a, sim. - Est� em um quarto 5 estrelas.

Sim.

E sobre mim? O que acha?

- O qu�? - O que acha de mim?

- Voc� � muito agrad�vel. - Obrigada.

Talvez eu esteja me enganando.

- Posso falar francamente? - Pode.

- Se n�o quer nada comigo... - A quest�o n�o � voc�.

N�o quero nada com ningu�m.

Ainda estou de luto, senhora.

Minha esposa ainda est� aqui e aqui.

Ainda estou de luto,

ent�o n�o preciso sair com ningu�m.

Claro. Quer saber?

O problema � que eu disse a mim mesma:

"Chegou um senhor muito cavalheiro..."

E, dentro da minha cabe�a,

poderia ser poss�vel o senhor me fazer companhia.

Mas, ao contr�rio, se n�o pode, vou sozinha.

N�o tem nenhum problema com isso.

N�o se preocupe. Eu j� fa�o tudo sozinha.

Obrigado, senhora. Muito obrigado.

Enquanto Deus quiser que eu tenha boa sa�de,

prefiro ficar s� do que mal acompanhada.

Na vida que o Senhor escolheu para mim,

se tem uma pedra no caminho,

eu a tiro do caminho

e sigo com minha vida normalmente.

Amor, amor, amor...

- Al�. - Al�.

- Sim. - Sergio?

Sim, � ele.

Vou direto ao ponto.

Voc� me mandou v�rios v�deos,

mas, em alguns deles,

n�o gravou nada.

A cliente est� falando de um roubo que ocorreu a�.

Especificamente isso. Ent�o...

- Sim. Entendi. - Por favor.

- Tudo bem. - Espero o relat�rio �s 20h.

- Est� bem. - Certo?

- Tudo bem. - Boa sorte.

- Tchau. - Tchau.

- Eles gostam de brincar. - � claro.

- Mas eu, n�o. Eu digo "n�o". - Claro.

Cad� o dinheiro? N�o est� a�?

- E aqui? Tamb�m n�o. - N�o.

- Aqui, n�o? Tamb�m nada. - N�o.

- E aqui? - N�o.

- Nada. - Nada.

Voc� acabou dando sopa.

- Nada? - Pegou meu doce.

- O doce, sim. - Voc� tem m�os r�pidas.

- Pode ficar. - Coma esse a�.

Coma esse.

Mam�e...

sabe que eu tamb�m te amo muito.

Estou pedindo dinheiro a um homem.

Sim, n�o tenho nenhum centavo.

Espere um segundo.

A m�e dela est� viva?

A m�e dela est� viva?

- Me d� o dinheiro. - Que dinheiro?

Aquele que eu lhe dei.

N�o. Todo mundo perde dinheiro.

- Claro. - Traga a pol�cia aqui.

OL�!

PERTENCE A PETITA

N�O � DA ELSITA, � DA PETITA

Romulo, na quarta comecei a seguir Marta

porque suspeitava dela.

Minhas coisas. S�o todas minhas.

S�o todas coisas minhas.

Um, dois e...

Este aqui tamb�m.

Investiguei o quarto de Marta

e encontrei v�rios objetos que pertenciam a outras pessoas.

Marta � muito r�pida em surrupiar as coisas,

mas � dif�cil ficar bravo com ela.

N�o vi nenhuma enfermeira roubando.

Esta � a encomenda de hoje.

Voc� me mandou a foto de um colar de prata.

� uma gargantilha.

Uma gargantilha com uma pedra.

Eu escrevi mais cedo que a cliente me disse

que aquele colar pertencia ao alvo?

Voc� me falou sobre um colar com um medalh�o.

E essa � uma gargantilha com um pingentezinho.

- Uma pedra. - N�o sei se � pedra ou n�o.

Eu vi a foto, e � uma pedra.

Ent�o � uma pedra.

Ent�o n�s pegamos Marta.

Uma rata que entrou no quarto dos outros

e ganhou o t�tulo de ladra.

Sr. Sergio.

Sr. Sergio.

Sr. Sergio. O senhor encontrou minhas coisas?

- Eu tinha uma mochila... - Sim.

- ...com meus livros. - Sim.

- Onde? - Aqui.

- Mas eu n�o a vi. N�o. - N�o viu?

Eu estava com isso, com a mochila,

meus livros, tudo.

Minha m�e disse: "Cuidado com as coisas."

E eu cuidei de tudo.

- Ent�o onde est�o agora? - N�o sei.

Parece que n�o cuidou muito bem.

N�o.

Deixou por a� de repente.

Talvez.

� uma pena,

porque essas coisas s�o caras.

Quando cheguei aqui,

voc� foi a primeira pessoa com quem tive o prazer de falar.

E depois conversamos s� umas quatro ou cinco vezes.

Claro.

E voc�...

Eu estava falando de forma coerente?

Totalmente. Sim, imagina.

Totalmente coerente.

Mas �s vezes a senhora tem dificuldade de se lembrar.

Mas n�o estava incoerente. Isso, n�o.

Eu preciso dizer.

N�o me lembro de ter conversado com o senhor.

Est� vendo?

Todas as vezes em que conversei com voc�,

perguntei se sua fam�lia havia visitado voc�,

e a senhora nunca sabia.

Voc� sempre dizia: "N�o lembro."

Acho que talvez eles se preocupem com a senhora.

Assim como conversamos cinco vezes,

e a senhora n�o se lembra,

� poss�vel que n�o se lembre de ter falado com seus filhos.

- Boa tarde, meninas. - Boa tarde.

- Tudo bem? - Tudo, e voc�s?

Voc� tem visita.

Ah, essa visita.

Eu j� o conhe�o.

- Meu padrinho! - Senhor.

- Como est� Marta? - N�o muito bem.

N�o muito bem? O que houve?

O que houve? O que houve, Marta?

- Perdi meu casaco. - Ela perdeu o casaco.

Droga! E como? Onde? Quando? Por qu�?

Deixei em cima da mesa.

Ent�o eu sa�.

E a� sumiu.

Ela estava carregando o casaco,

ent�o falei: "Guarde-o."

Ela n�o ouviu e o perdeu.

- Qual era a cor do casaco? - Bege.

- Bege? - Bege com pelinhos amarelos.

Eu tive uma reuni�o com a cliente...

- Posso fazer uma pergunta? - Pode.

A sua cliente parece muito preocupada com a m�e.

Ela diz que est� preocupada,

que quer que eu fa�a um bom trabalho...

mas nunca a vi, ela nunca visitou a m�e.

Ent�o onde est� essa preocupa��o toda?

� que ela trabalha muito durante a semana,

por isso voc�s n�o se viram.

Ent�o ela me pediu urgentemente

que tome nota dos rem�dios dela.

Ela tem que tomar um comprimido de "quetia"...

"pianina".

"Queta"... "Quetia"... O qu�?

Os nomes s�o dif�ceis, ent�o anote.

"Quetia"...

"Quetia"...

- ..."tiapina". - Certo.

Romulo, hoje fiquei de olho no alvo.

Eu a estava vigiando �s 18h, e n�o deram a quetiapina a ela.

Acho que a senhora...

Qual � o nome da senhora ao lado?

- Dona Sonia? - Isso.

Ela tem que tomar o rem�dio.

Perguntei � enfermeira,

e ela disse que o alvo n�o toma rem�dios a essa hora.

- N�o, ela n�o toma �s 18h. - N�o toma?

N�o. N�o toma nada �s 18h.

- Eu achava que ela tomava. - N�o, n�o tem nada.

Voc� precisa ter muito cuidado.

Quando vir que s�o 18h e ela n�o tiver tomado o rem�dio,

fale s� para mim que n�o deram o rem�dio dela.

Mas n�o saia perguntando por que n�o deram o rem�dio.

Ela vai falar:

"N�o � da sua conta se dou ou n�o."

Voc� precisa ser prudente. N�o pode arranjar briga.

E quem disse que briguei com a enfermeira?

Ningu�m me disse nada. Voc�...

Voc� sup�s. Voc� sup�s.

A enfermeira s� disse que ela n�o toma o rem�dio.

- S� isso. - Certo.

Imagino que tenha dito: "Por que n�o deu o rem�dio?"

N�o.

N�o imagine coisas que n�o ouviu.

- Sabe o que me contaram? - O qu�?

- Que ontem voc� se perdeu. - Ontem? N�o.

- �, ontem. Voc� saiu. - O qu�?

- Voc� saiu para a rua. - �?

E que a pol�cia pegou voc�.

Sim?

- � verdade? - �.

- E o que aconteceu? - Eu me perdi.

Se perdeu? Certo.

Vou pegar isto, para n�o jogar fora.

Caiu um pouco.

Mais para baixo. A�.

Tem que passar um guardanapo.

- Tem que se sentar. - Est� bem. Tchau.

Tudo bem, mas se limpe com o guardanapo.

Onde est�?

Vou passar.

- J� foi? - J�.

- J�. Tome. - Obrigada.

- Martita... - N�o lembro por que fugi.

A pol�cia veio, me prendeu, perguntaram meu nome,

quanto anos eu tinha, todas essas coisas...

Foi � pol�cia procurando a sua m�e?

N�o sei por que fui l�.

Dev�amos ligar para a pol�cia

e perguntar por que � que me prenderam.

- Talvez tenha feito algo. - N�o. N�o sou ladra.

N�o tenho coisas roubadas.

- Nada roubado? - N�o.

Al�!

Mam�ezinha?

Por que n�o veio me buscar?

Mas, se eu me comportei mal,

voc� e ela deviam ter vindo.

Deveriam ter vindo me ver.

E fazer perguntas.

Fazer perguntas.

Isso � o mais sens�vel.

Claro.

Imagine s�...

N�o parece que sente a minha falta,

porque, se sentisse, teria vindo me buscar.

N�o importa como.

Eu gosto muito dos seus versos. Sabe por qu�?

Porque rimam bem.

Sim. Muito obrigada!

H� alguns versos de que n�o gosto

porque n�o rimam.

- N�o rimam. - Eu gosto de todos que rimam.

- Se n�o rimam, n�o gosto. - N�o vale a pena.

Este � mais para jovens e m�es.

Ent�o � para mim.

Se � para os jovens, � para mim.

N�o. N�o. N�o � para voc�.

Sua m�e ainda est� viva?

- N�o. - N�o?

Nem a minha m�e nem o meu pai.

Ent�o vou recitar para os dois.

"Se sua m�e viva ainda est�,

d� gra�as ao Senhor, que te ama tanto,

pois nem todo mortal contaria

com t�o grande alegria nem prazer t�o santo...

Mas, se ao C�u ela foi,

� muito santo o t�mulo de uma m�e,

pois n�o h� no cora��o lugar mais santo.

Quando a alma � perfurada por um espinho cruel,

� preciso derramar um triste pranto."

Eu gostei muito.

�, porque quem mais recita poesia para gente?

Ningu�m.

Muito menos meu marido.

Eu tive quatro filhos

que me deram muita felicidade e alegria,

mas agora estou aqui, sem muita felicidade.

Todos os quatro. Eu os criei...

S�o muito ingratos.

N�o s�o do tipo que vem todo domingo,

mas eu n�o os reprovo,

porque cada um faz o que quer.

Eles t�m suas obriga��es, seus compromissos...

J� est�o casados, t�m suas fam�lias.

N�o podem ficar pensando s� na m�e.

Ent�o eu n�o os reprovo. Se n�o v�m, n�o vieram.

A vida � cruel no fim das contas.

- Ol�, sra. Rubira. - Ol�.

Como est�?

N�o muito bem. Estou tonta.

- Est� tonta? - Sim.

Por qu�? Tomou algum rem�dio?

Acho que me deram um rem�dio,

j� que n�o tenho me sentido bem.

- N�o se sente bem? - N�o.

Estou tonta.

Mas algu�m j� veio v�-la?

A enfermeira examinou a senhora?

N�o, porque isto nunca me aconteceu.

� muito estranho o que est� acontecendo comigo agora.

Se quiser, posso lev�-la at� l�

para ela ver o que a senhora tem.

N�o, ela tem que vir at� aqui,

porque, se eu for andando, posso cair.

Mas eu posso ajud�-la.

Estou muito angustiada.

O que aconteceu � que se assustou.

Eu n�o sei onde estou.

Est� no asilo. O Asilo S�o Francisco.

Se tiver vontade de chorar, pode chorar.

- �? - Claro.

Assim vai relaxar.

Sim, n�o se preocupe comigo. Pode chorar.

� uma forma de extravasar.

Chore. Chore.

Pode chorar que vai melhorar.

Isso vai acalm�-la.

Romulo, fui at� a sra. Maria, da portaria,

e pedi para ver os registros de visita.

E descobri que minha amiga Rubira

n�o recebeu nenhuma visita o ano todo.

Quero saber se � poss�vel, dentro dos seus contatos,

conseguir fotos da fam�lia, para eu mostrar a ela.

Ela gostaria muito.

Estou preocupado com a sa�de mental dela.

Parab�ns para voc�

nesta data querida

muitas felicidades

muitos anos de vida

Est� feliz, filho?

N�o �?

Oi, papai.

Ol�. Tudo bem com voc�?

Como voc� est�?

- Ol�. - Tudo bem?

Tudo bem, obrigada.

Lindinha!

- Oi, pai. - Oi, filho.

Feliz anivers�rio.

N�o ligamos para avisar, mas viemos.

FELIZ ANIVERS�RIO

Surpresa!

- Parab�ns! - Muito obrigado.

- Todos aqui amam muito voc�. - Muito obrigado.

Feliz anivers�rio!

E muito obrigada pela companhia que nos faz.

- Amo voc�. - Voc� tamb�m.

Muitas felicidades.

Sr. Sergio, j� que � o seu anivers�rio,

temos um presente.

Mas isto j� � suficiente.

N�o, tem muito mais. Estamos s� come�ando.

Como � seu anivers�rio, lhe apresentamos

o sr. Freddy Torrealba e Patricio Osorio.

Vamos aplaudir!

Sempre que te beijo, quero mais

sempre que te vejo

eu fico louco

sempre que te vejo, sempre

� como se eu descobrisse

um universo

te amo

te amo

e voc� � o centro

do meu cora��o

te amo

te amo

como a Terra ama o Sol

Quem � esta?

� Carmen, minha filha.

- N�o. - N�o?

- Claudia. - N�o.

- Outra neta. - Carmen Rubi? Ana Maria?

Isso mesmo.

Aqui tem outra foto.

Esta � Carmen Rubi.

�. E esta?

- Claudia. - Que mem�ria!

Que mem�ria, sra. Rubira! Parab�ns, viu?

- Ela � muito bonita, n�o �? - �.

- Minhas filhas s�o muito lindas. - Sim, muito bonitas.

A senhora tamb�m deve ter sido muito bonita quando jovem.

- Acho que n�o. - Tem que ter sido.

- O que acha disso? - Maravilhoso.

- N�o �? - � lindo. Sou muito grata.

N�o se preocupe. Cuide bem disto.

Certo.

- Nas suas m�os. - Muito obrigada.

N�o fiz nada grave.

Deus sabe.

Ele est� me observando e sabe que n�o fiz nada grave.

S� me prenderam por precau��o.

Certo, desculpe, mas n�o pude mandar nada

porque estava de cama, ent�o sinto muito.

Vou mandar o relat�rio de ontem hoje.

Ontem n�o consegui porque fiquei de cama doente.

Mando o relat�rio hoje.

Minha vida � assim

porque meu marido...

- Mas o que foi? - ...teve o meu papai...

Perd�o, mas tamb�m sou gente!

Eu respeito voc�.

Sou gente. Eu respeito voc�, e voc� me respeita.

Est� bem, mas estou explicando.

Vou mandar o relat�rio hoje. N�o pode me tratar assim.

Est� bem.

Sim, vou mandar o relat�rio.

A ambul�ncia chegou.

Prepare tudo e leve o celular.

- Est� vindo? - Est�.

Tenha cuidado.

Quanto tempo at� estabiliz�-la no hospital?

�s vezes ficam no hospital.

Talvez fique por uns dias.

Depende se foi derrame ou n�o.

Minhas m�os t�m que admirar a Ti

eu gostaria

de ver a Ti

amar

como Tu amas

sentir

como Tu sentes

ver o mundo

atrav�s dos Teus olhos

Como eu sempre dizia, ela tinha uma mente invej�vel.

Com seus poemas...

Era a primeira que recebia nossos visitantes com poesias.

E, antes de falecer, ela sempre perguntava

aos nossos residentes

o que queriam quando fossem para o C�u.

Assim, com muita tristeza, tamb�m nos despedimos.

Agora, com alegria, vamos ver a homenagem

� nossa querida Pepita.

"Se sua m�e viva ainda est�,

d� gra�as ao Senhor, que te ama tanto,

pois nem todo mortal contaria

com t�o grande alegria nem prazer t�o santo...

Se sua m�e ainda est� viva, seja grato,

pois ela te carregou no ventre.

Por todo o sofrimento, ela se alegrou.

Velou � noite, trabalhou de dia.

A m�sica de seus l�bios te embalava,

e, ao despertar, seus l�bios te beijavam.

Mas, se ao C�u se foi

e voc� n�o pode mais torn�-la feliz na Terra,

deposite a mem�ria de suas flores

sobre a pedra fria que a cobre.

� muito santo o t�mulo de uma m�e,

pois n�o h� no cora��o lugar mais santo.

Quando a alma � perfurada por um espinho cruel,

� preciso derramar um triste pranto."

Podemos ir?

Podemos pegar um t�xi.

Vamos?

Romulo, sei que pediu fatos objetivos e n�o opini�es,

mas vou dar minha opini�o mesmo assim.

Os residentes se sentem solit�rios.

Ningu�m recebe visita, e alguns foram abandonados.

A solid�o � a pior coisa deste lugar.

N�o h� nenhum crime para a cliente denunciar.

A m�e dela est� definitivamente em boas m�os.

O alvo precisa de cuidados especiais,

que n�o sabemos se a cliente pode dar.

N�o entendo qual � o sentido desta investiga��o.

A cliente deveria ela mesma cuidar da m�e

e encarar a pr�pria culpa.

� por isso que ela n�o consegue visitar a pr�pria m�e.

Por �ltimo: quando � que vou embora?

Me diga logo.

Quero voltar para casa. Sergio.

Al�, Sergio.

Sua investiga��o ficou muito clara.

Fez um trabalho excelente.

Sobre voc� ir embora, espere s� mais um pouco.

Sei que est� cansado e estressado,

mas me d� dois dias para tir�-lo do jeito certo.

Por que vai embora?

Por que...

Por mim, eu adoraria ficar mais,

mas, como eu disse, tenho minhas ra�zes,

meus filhos, meus netos...

Tenho um neto de um ano que derrete meu cora��o.

Ent�o...

� por isso que quero ir.

N�o � que eu queira, mas preciso.

Muito obrigada por tudo.

Prometo que venho visit�-la.

Voc�s s�o minhas amigas.

- Obrigada. - Foram muito boas comigo.

E � por isso que vou lev�-las na mem�ria.

Nas minhas noites, voc� estar� comigo.

Eu tamb�m amo muito voc�. Desde que a conheci.

Eu tamb�m. Muito obrigada.

- E vou vir visit�-la. - Certo.

Meu bom amigo.

Um amigo que eu n�o tinha.

- Agora tem. - Agora tenho um.

Eu falei que sou sentimental. N�o me fa�a chorar.

Vai ficar tudo bem.

Na vida tudo tem solu��o.

Talvez minha m�e venha...

Padrinho!

Voc� vai poder ir pra casa.

Me leve tamb�m! Me leve tamb�m!

EM MEM�RIA DE BERTA, PETITA E MENNO BOEREMA

Legenda: Gustavo Sobral

Ajustes: Murrice Sincronia: Distanasia

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