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LENFILM
Primeira Uni�o Art�stica
REI LEAR
Inspirado na trag�dia de Shakespeare
Argumento e realiza��o Grig�ri K�zintsif
Fotografia - Jonas Gricius
Cen�rios - I. Ienei, V. Ultka, S. Virsaladze
M�sica - Dmitri Chostak�vitch
Som - E. Vanunts
Legendagem em portugu�s - Alexandre Bazine
Nos pap�is:
Rei Lear - Yuri Yarvet
Goneril - E. Radzin Regane - G. Volthik
Cord�lia - V. Ch�ndrikava O Bobo - O. Dal
Edgar - L. M�rzine Edmundo - R. Adomaitis
Kent - V. Yemelyanov
Duque de Cornualha - A. Vokatch
Duque de Alb�nia - D. Banionis
Osvaldo - A. Pitrenka
Rei de Fran�a - I. Budraitis
Sempre julguei que o rei gostava mais do
Duque de Alb�nia do que do de Cornualha.
Tamb�m eu julguei isso.
Mas hoje, pela partilha do reino,
n�o se v� qual dos duques mere�a-lhe mais afeto,
porque os lotes s�o de tal forma iguais que,
por mais minucioso que seja o exame,
ningu�m saber� fazer a escolha entre o de um e entre o de outro.
N�o est� ali o vosso filho, senhor?
Tantas vezes me envergonhei de t�-lo reconhecido
que j� estou estranhado.
N�o chego a conceber...
Mas a m�e dele concebia perfeitamente,
pois arranjou primeiro um filho para o ber�o do que um marido para a sua cama!
Farejais, senhor, nisto um crime?
N�o desejaria que tal falta se n�o tivesse cometido,
visto que t�o bons resultados deu...
Mas � que eu tenho um filho leg�timo,
que � mais velho alguns anos do que este.
Ide chamar os soberanos da Fran�a
e da Borgonha, Gloucester.
Obede�o-vos, meu senhor.
Entretanto, quero revelar-vos as nossas
mais secretas inten��es.
Ficai sabendo!
Ficai sabendo
que dividi o meu reino em tr�s partes:
� nosso firme prop�sito libertar a nossa velhice de todos os cuidados.
Esses neg�cios, vamos dep�-los nos ombros dos mais novos,
de forma a caminharmos livre de fardos para a morte.
O nosso filho de Cornualha e v�s,
oh, nosso filho de Alb�nia, de quem n�o somos menos amados,
resolvemos determinar aqui publicamente quais sejam as arras de nossas filhas,
para prevenir qualquer ulterior discuss�o.
Os pr�ncipes de Fran�a e de Borgonha,
rivais ilustres na disputa do cora��o da nossa filha mais nova,
devem aqui hoje receber a resposta.
Ora bem, filhas minhas... De qual das tr�s poderemos
dizer que somos mais amados? Fazei-me saber
para que a nossa generosidade se estenda
�quela de quem os sentimentos naturais mere�am maior recompensa.
Goneril, falai em primeiro lugar.
Amo-vos mais que as palavras o podem dizer.
Mais carinhosamente do que a vista, do que o espa�o, do que a liberdade;
acima de tudo que pode ser estimado de rico ou de raro.
N�o menos do que a vida, com a sua gra�a, sa�de, beleza e honra.
Tanto como n�o houve filho algum que amasse assim
ou qualquer pai que fosse assim amado.
� um amor que torna pobre a palavra. � assim que eu vos amo.
E que dir� Cord�lia?
De tudo quanto est� compreendido dentro destes limites
fazemos-vos soberana.
Que diz a nossa segunda filha, a nossa car�ssima Regane,
esposa de Cornualha?
Sou feita do mesmo metal que minha irm�
e fa�o minhas as suas palavras.
Ela revelou a pr�pria natureza
do meu amor;
s� que foi demasiado breve.
N�o me sinto absolutamente feliz sen�o no amor de Vossa querida Alteza.
No amor de Vossa querida Alteza.
A v�s e os vossos perpetuamente herdeiros
damos este vasto ter�o do nosso reino.
Oh, pobre Cord�lia!
Ali�s, cert�ssima estou de que o meu amor
� mais rico do que a minha linguagem.
E v�s, nossa alegria, que podereis dizer
para alcan�ardes o quinh�o ainda mais opulento do que o de vossas irm�s?
Nada, meu senhor.
Nada?
Nada.
O nada s� do nada pode nascer.
Continuai...
Infeliz sou! N�o conseguir que o cora��o suba at� aos meus l�bios!
Amo a Vossa Majestade como � meu dever;
nem mais nem menos.
Que dizeis, Cord�lia? Reparai nas vossas palavras, se n�o quiserdes
arruinar a vossa fortuna.
Meu bom senhor! Fui por v�s gerada,
educada e amada.
Vos pago esses com os deveres que foram-me legitimamente impostos.
Amo-vos, obede�o-vos e venero-vos.
Como podem as minhas irm�s dizer que s� a v�s amam tendo maridos?
Talvez, quando eu me casar, o meu noivo
leve tamb�m metade do meu amor, da minha solicitude, do meu dever.
N�o deixaria de casar-me para amar absolutamente sen�o o pai,
como dizem minhas irm�s.
O teu cora��o est� de acordo com semelhantes palavras?
Sim, meu bom senhor.
T�o nova e t�o pouco meiga?!
T�o nova e t�o honesta, meu senhor.
Muito bem! Que a tua franqueza sirva-te de dote!
Pela sagrada luz do Sol,
abdico de todo o meu carinho paterno,
de todos os meus direitos de sangue e desde agora n�o passas de uma
pessoa estranha ao meu cora��o.
Sil�ncio, Kent!
Eu que a amava sobre todas
e que contava poder confiar o meu sossego aos seus carinhos!
Fora daqui! Para longe da minha vista!
Ide chamar a Fran�a. Ide chamar Borgonha.
Cornualha, Alb�nia, juntei aos dotes das minhas filhas o que era o dela.
Que o orgulho a que chama sinceridade a case.
Iremos, alternadamente, de m�s a m�s, residir nos vossos pal�cios,
e para isso reservamos um s�quito de cem cavaleiros.
Reservamos tamb�m o t�tulo de rei e as etiquetes que lhe pertencem.
Quanto ao governo e outras fun��es reais, tudo vos entrego.
Real senhor! Eu que sempre vos venerei como meu rei,
quem amei...
Afasta-te!
O arco j� est� frouxo; a flecha j� partiu.
Deixai-a ferir-me em pleno cora��o.
Que Kent seja descort�s quando Lear est� desvairado.
Que quereis fazer?
A minha lealdade n�o tem medo de falar quando o vosso poder se verga � lisonja!
Pela minha vida vos digo a verdade:
A vossa filha mais nova n�o � a que menos vos ama.
N�o h� cora��o vazio
cujo som abafado n�o repercuta algum sentimento oco.
Kent, pela tua vida, cala-te!
A vida, sempre a tomei como um dep�sito, para me servir dela
contra os vossos inimigos. N�o tenho medo de perd�-la.
- Sai da minha vista! - Procurai ver mais claro!
Vil�o! Traidor!
Aboli a vossa ordem, procedestes mal!
Oh! Vassalo infiel!
Acalmai-vos, senhor!
Ouve-me, renegado! Como meu s�bdito, ouve-me!
Se amanh�, a tua banida carca�a for encontrada nos meus dom�nios,
morres onde fores encontrado.
Adeus, oh, rei!
Deixastes claro que � fora deste pa�s
que a liberdade vive.
Eis a Fran�a e a Borgonha, meu nobre senhor.
Senhor de Borgonha, � a v�s que nos dirigimos em primeiro lugar,
pois sois o rival deste rei por mor da filha.
O seu dote j� foi proporcional � nossa estima;
mas hoje baixou de valor.
Estais disposto a lev�-la com a nossa maldi��o
e com um dote feito da nossa ira?
Informei-vos de todas as suas riquezas.
Quanto a v�s, oh, grande rei,
n�o quero fazer-vos desposar
quem eu odeio.
� preciso um milagre para que eu acredite. Tudo se revolta contra esta id�ia.
Suplico a Vossa Majestade que me atenda.
Se o meu opr�brio apenas � n�o adular-vos por hipocrisia,
rogo-vos que deixe claro que
n�o matei,
n�o cometi ignom�nia alguma para decair das gra�as de Vossa Majestade.
N�o disponho daqueles dons que me tornam mais rica:
Um olhar perpetuamente solicitador e uma l�ngua que me sinto feliz de n�o ter.
� tua, Fran�a! � tua e bem tua!
Pois uma filha como ela � n�o nos pertence.
O tempo � que h� de desvendar
o que a hipocrisia discreta esconde.
Incluir cem cavaleiros no s�quito!
Incluir cem cavaleiros no s�quito!
Selar os cavalos, que o s�quito se prepare para o caminho!
Selar os cavalos, que o s�quito se prepare para o caminho!
Um selvagem que devora os seus descendentes
ser-me-� mais caro do que tu, filha que j� n�o �s.
Tu, Natureza, �s a minha deusa, �s quem
com as suas leis me subjuga.
Dos meus direitos ningu�m me privar�, ainda que seja mais novo que o meu irm�o.
Bastardo!
Por que me chamam bastardo?
Por que � esta inf�mia?
Porque, no segredo lascivo da Natureza, adquirimos elementos mais vigorosos
do que os concebidos no leito legal, mofento e asqueroso,
onde se cria uma tribo inteira de bonifrates enfadonhos?
Ent�o, meu leg�timo!
Kent assim expulso!
O rei de Fran�a partindo furioso!
Renegou, de s�bito, o seu poder,
influenciado por um momento de c�lera!
Edmundo, e agora? Que not�cias h�?
Nenhumas, senhor.
Por que procuras esconder t�o apressadamente essa carta?
N�o sei not�cias nenhumas, senhor.
Que papel � esse que estavas a ler?
N�o era nada, senhor.
N�o era nada e t�o apressadamente procuraste escond�-lo no bolso? Vejamos.
Imploro-vos, meu senhor, que me perdoeis: � uma carta do meu irm�o que,
pelo que sei, entendo que n�o deve ser vista por v�s.
D�-me a carta.
Ofender-vos-ia, quer vo-la d�, quer vo-la esconda.
Espero, para justificar o procedimento de meu irm�o, que ele haja escrito isto
para se certificar da minha virtude ou para me experimentar.
amarguram os nossos melhores dias,
ret�m-nos os nossos melhores haveres at� que a idade n�o permita que os gozemos.
Come�o por achar absurda e insuport�vel a escravid�o exercida por essa tirania
da velhice que governa, n�o porque seja poderosa,
mas porque � tolerada.
Vinde ter comigo, para que assim possamos falar mais abertamente sobre o assunto.
Se nosso pai dormisse
at� que eu o acordasse,
v�s gozar�eis para sempre a metade do seu rendimento e ser�eis o irm�o
querido do vosso Edgar. >>
Hum! Uma conspira��o?
Ai que celerado! Abomin�vel celerado! Desnaturado celerado! Detest�vel bruto!
Procura-o, vou-me certificar ouvindo-o! Abomin�vel celerado!
Onde est� ele?
Eu n�o sei bem, meu senhor, se for do vosso agrado, suspendei a vossa c�lera
contra meu irm�o, at� que possais tirar dele a confiss�o das suas inten��es.
Edmundo, ganha a confian�a dele,
p�e-no em pratos limpos.
Estes �ltimos eclipses do Sol e da Lua
n�o pressagiam coisa boa!
O amor arrefece, a amizade quebra-se,
os irm�os dividem-se, revoltam-se as cidades,
h� disc�rdia nas aldeias, trai��o nos pal�cios,
Os la�os entre pais e filhos desatam-se.
Os nossos melhores tempos j� passaram.
- H� quanto tempo n�o vedes nosso pai? - Desde ontem � noite.
- Falastes-lhe? - Sim durante duas boas horas.
E despedistes-vos em bons termos? N�o adivinhastes nenhum desgosto?
Absolutamente nenhum.
Procurai bem no que o poder�eis ter ofendido, e se tal aconteceu,
evitai a sua presen�a at� que o calor do seu desgosto tenha tempo de se moderar.
Esse desgosto nem mesmo a vossa pr�pria morte o tranquilizar�.
Algum malvado me ter� intrigado com ele.
Rogo-vos que guardeis prudente reserva at� que a sua c�lera se modere.
Ide ao meu quarto, aqui tendes a minha chave.
E quando sairdes, sa� armado.
Armado?
Irm�o, eu s� vos aconselho para o bem.
O que te contei nada � em compara��o com a realidade.
Fartos de bem-estar,
atribu�mos os nossos infort�nios ao Sol, Luz ou astros.
Como se f�ssemos idiotas por vontade dos C�us,
em consequ�ncia da a��o atmosf�rica.
Boa escapadela, a licenciosidade humana, que carrega
toda a culpa sobre os astros.
Sou o que sou.
E s�-lo-ia, mesmo se o meu ber�o tivesse sido iluminado
pelo mais casto dos astros.
N�o quero esperar nem um segundo pelo jantar, ide fazer com que me sirvam j�.
O jantar! O jantar!
Onde est� o meu bobo? Ide, ide busc�-lo.
Ol�, velhaco, onde est� a minha filha?
Com licen�a...
Que disse ele? Chamai esse est�pido!
Onde est� o meu bobo? Ol�! Parece que est�o todos a dormir.
Ent�o, onde est� esse vil�o?
Ele diz, meu senhor, que a vossa filha n�o est� bem.
E por que � que esse grosseiro n�o veio, quando o chamei?
Respondeu-me, senhor, redondamente que n�o vinha porque n�o queria.
N�o viria?!
Senhor, n�o sei o que se passa, mas, no meu entender, n�o est� a ser tratado com
a mesma cerimoniosa afei��o a que Vossa Alteza estava habituado.
Mas onde est� o meu bobo?
J� n�o o vejo h� dois dias!
Desde que a minha jovem ama partiu para Fran�a, esse pobre bobo tem sofrido bem...
A esse respeito, basta!
Ide dizer � minha filha que lhe quero falar.
E tu vai ver onde est� o meu bobo e traga-o aqui.
Ah, Sir, sois v�s? Oh, senhor, vinde c�.
Quem sou eu?
O pai da minha ama.
O pai da tua ama?! �s o vil�o do senhor!
- N�o consinto que me batam, senhor! - Nem que te atirem ao ch�o, biltre?
Obrigado, amigo! Quem �s?
Um homem muito honesto,
e t�o pobre como o rei.
Se �s t�o pobre, sendo vassalo, como ele � pobre, sendo rei,
na verdade n�o �s rico.
Que queres tu?
Servir-te.
Se depois de jantar me agradares tanto como agora, n�o me separarei de ti t�o cedo.
Aqui tens, amigo, a paga do teu trabalho.
Tamb�m eu te quero pagar.
Ent�o, meu gentil brejeiro, como tens passado?
- Aceita a minha crista. - E por que, meu caro?
Por qu�? Porque tomas partido dum que est� em decad�ncia.
Este separou-se de duas filhas para sempre;
E, se a terceira � feliz, n�o foi por vontade dele.
Se ficas ao seu servi�o, bem podes trazer o meu carapu�o.
Tem cautela com a l�ngua! Lembra-te do chicote...
A verdade � uma cadela que se obriga a ir para a casota...
Mas a cadelinha lisonja, essa tem licen�a de estar ao lume e de
incomodar os narizes dos patr�es...
�s um bobo bem azedo!
Conheces a diferen�a entre um tolo azedo e um tolo doce?
N�o, menino, di-la l�.
O lorde que te aconselhou a ficares sem as tuas terras
� que deve vir substituir-me e tu vais para o lugar dele.
Ver�s como aparecer�o logo diante de ti
o azedo e o doce;
Um, est� aqui, e o outro h� de
encontrar-se mais al�m.
Assim me chamas tolo?
Perdeste todos os teus outros t�tulos; quanto a este, nasceste com ele.
N�o � de todo desarrazoado.
Est�o pouco em voga os tolos
Porque aos s�bios d�o lugar;
Que maneiras t�o burlescas! S� sabem macaquear...
Desde quando est�s cheio de cantigas?
Desde o dia em que fizeste das tuas filhas as tuas m�es;
entregaste-lhes as vergastas e tiraste as cal�as.
Elas choram de alegria, Estou de dor a cantar.
Vejo o meu rei entre tolos
A cabra-cega a jogar.
Pe�o, titio, que pagues a um mestre-escola.
De boa vontade aprenderia a mentir.
Se mentires, patife, mando-te vergastar.
As tuas filhas amea�am-me com vergastadas, se eu digo as verdades;
tu, por eu mentir, e �s vezes por n�o dizer nada.
Preferia ser qualquer outra coisa, a ser bobo.
No entanto, n�o queria ser o que �s, titio.
Limaste o ju�zo de ambos os lados e n�o deixaste nada no meio.
A� vem uma das que to limaram.
Ent�o, minha filha, que � que tens,
que h� dias andas t�o carrancuda?
Tu eras um belo companheiro quando n�o tinhas que preocupar-te
com o seu ar carrancudo.
Sim, darei um ponto na boca, por que
a isso me obriga a vossa fisionomia,
apesar de nada me dizerdes.
N�o s� este tolo,
mas outros da vossa insolente comitiva,
levantam ru�dos e entregam-se a rixas.
Esperei que, levando este fato ao
vosso conhecimento, a emenda fosse mais certa,
mas acabei por saber que favoreceis tudo isso.
N�o vos zangueis, mas se isto � verdade
vou ter de tomar medidas austeras.
N�o fosse a preocupa��o com o bem do Estado,
acreditai, teria vergonha de me meter nisto.
Porque bem sabeis, titio!
Ao cuco a toutinegra tudo deu
Mesmo a cabe�a dos filhos
Ofereceu-lhe.
A vela apagou-se
E ficamos �s escuras.
Sois v�s minha filha?!
Fazei uso da grande prud�ncia que sei possuirdes
e abandonai essas disposi��es que vos tornaram quase desconhecido.
H� algu�m que me conhe�a aqui?
Este homem n�o � Lear!
Porventura Lear marcha assim? Fala assim?
Onde est�o os seus olhos?
A sua intelig�ncia enfraqueceu; o seu discernimento paralisou!
Estar� ele acordado? N�o, n�o est�...
Quem me poder� dizer quem sou eu?
�s a sombra de Lear.
Queria saber isso a fundo;
porque as ins�gnias da soberania
e alguns outros ind�cios seriam capazes
de me persuadir falsamente
de que tenho duas filhas.
Como vos chamais, senhora?
Este espanto, senhor, pertence � mesma fam�lia de outros vossos
recentes desprop�sitos.
Rogo-vos que compreendais claramente as minhas inten��es.
Sustentais aqui cem cavaleiros,
homens t�o desordenados, t�o debochados, t�o sem-vergonha,
que a nossa corte, infectada com as maneiras desta gente,
parece-se com uma reles casa de pasto.
A vergonha deste espet�culo reclama um rem�dio imediato.
� o desejo daquela que,
doutra maneira, tomar� o que agora pede.
Vou diminuir um pouco a vossa comitiva.
E os que ficarem ao vosso servi�o h�o de ser de idade conveniente
� vossa, que saibam quem v�s sois e quem eles s�o.
Oh, trevas! Oh, diabos! Selar os meus cavalos!
Selai os meus cavalos!
Reuni a minha gente!
Bastarda degenerada!
N�o te importunarei por muito tempo.
Ainda tenho outra filha.
Desgra�ado do que se arrepende tarde.
Preparai os meus cavalos!
� a vossa vontade, senhor? Preparai os cavalos.
Pe�o-vos que sossegueis, senhor.
Execr�vel abutre! Tu mentes!
Como fui cego!
Partamos, partamos, meus amigos!
Senhor! Sou t�o inocente como ignorante do que vos aflige.
Talvez seja assim, senhor!
Ouve-me, Natureza, ouve-me, deusa querida, ouve-me!
Leva a esterilidade �s suas entranhas!
Mas se for�oso for que ela procrie,
d�-lhe um filho horr�vel e que viva unicamente para lhe servir de mart�rio!
Para que ela saiba que ter um filho ingrato, � dor mais aguda
do que a mordedura da v�bora!
Partamos, partamos!
Est� demente... Deix�-lo barafustar.
Chamai Oswaldo!
Que bela id�ia que este homem teve! Cem cavaleiros!
Cem cavaleiros prontos a apoiar qualquer fantasia desse velho
com a for�a das armas!
Onde est� Oswaldo?
Levais muito longe o vosso receio.
Melhor isso do que a confian�a excessiva.
J� escrevi � minha irm� contando-lhe tudo o que ele disse.
Ser� pouco sensato que ela o ature com os seus cem cavaleiros.
Montai j� a cavalo!
Informai-a de todos os meus receios.
Essa indulg�ncia doce como leite
que dita o vosso proceder n�o a condeno eu; mas permiti que vos diga,
que sois mais censurado pela falta de prud�ncia
do que louvado por vossa inofensiva brandura.
Uma raposa ca�ada E mais a filha malvada
Mereciam bem a morte; Se o meu bon� tiver sorte
De boa corda pagar
C� vai o doido marchar.
Oh, olhos velhos, n�o choreis!
Ainda tenho outra filha.
Quando ouvir isso, arranhar� o teu focinho de loba.
Vereis como recuperarei todo o poder
que achas que abdiquei para sempre.
Recuperarei!
Levai estas cartas a Gloucester. Nada digais � minha filha do que sabeis.
Se n�o andardes depressa, chegarei l� primeiro do que v�s.
N�o dormirei sen�o depois de ter feito entrega da vossa carta.
Titio, podeis dizer-me para que quer o caracol a sua casinha?
Para qu�?
Para esconder a sua cabe�a,
em vez de exp�-la �s suas filhas
juntamente com as suas antenas.
N�o me deixeis enlouquecer, C�us!
Dai-me for�as para n�o enlouquecer.
Irm�o, duas palavras.
Irm�o, eu disse!
Meu pai est� vigilante! Fugi destes s�tios.
Avisaram-no do lugar onde vos escondeis.
Tens a preciosa prote��o da noite.
A� vem meu pai.
Preciso fingir que puxo da espada contra v�s; fingi que vos defendeis.
Fugi, irm�o!
Luzes, luzes!
Adeus.
Pai! Meu pai! Ningu�m me acode!?
Onde est� o malvado?
Estava escondido nas trevas, agitando a ponta da sua espada,
suplicando � Lua que fosse sua divindade tutelar.
Reparai, senhor, estou ferido.
Onde est� ele, Edmundo?
Fugiu por aqui, senhor, quando viu que n�o podia por outros meios...
Persegui-o! Ide atr�s dele...
Que � isso de outros meios?
Obrigar-me a assassinar Vossa Senhoria.
Ent�o, meu nobre amigo! Soube coisas extraordin�rias.
E se s�o verdadeiras, toda a vingan�a � pequena. Como estais de sa�de, senhor?
O meu velho cora��o est� despeda�ado, senhora.
Por que procuraria o afilhado do meu pai atentar contra os seus dias? Edgar?!
Oh, senhora, senhora! A vergonha n�o devia consentir que isto se soubesse.
N�o � ele tamb�m dos da turba de libertinos da comitiva de meu pai?
N�o sei, senhora. � muito criminoso, muito criminoso.
Sim, minha senhora, pertencia a este bando.
Ent�o n�o � para admirar! Foram eles que o levaram a matar seu velho pai,
para terem que dissipar e comer.
Eu j� recebi informa��es da minha irm�, esta noite.
Se vierem com inten��es de c� ficar, n�o me encontram em casa.
Edmundo, vejo que te portaste para com teu pai como um verdadeiro filho.
- Foi algu�m em sua persegui��o? - Foi, meu senhor.
E v�s, Edmundo, cuja virtude e obedi�ncia se recomendam
com tanta distin��o,
pertencei-nos.
Sabeis por que estamos aqui?
O nosso pai nos escreveu, e a irm� tamb�m, das suas diferen�as,
que eu preferia resolver longe da minha casa.
Distra�-vos das vossas desgra�as,
e dai-nos o vosso conselho neste caso que n�o suporta demoras.
Estou �s vossas ordens, senhora.
Vossas gra�as s�o sempre bem-vindas.
Cobarde!
Desembainha essa espada! Defende-te, miser�vel!
Socorro!
Alto, j� disse! Aguenta a�, malandro!
Vens aqui com cartas contra o rei?!
Qual o problema?
Tamb�m quereis?
Armas! Espadas! Que quer isto dizer?
Paz! Paz! Pela vossa vida!
Aquele que me bater, morre. Que � isto aqui?
S�o mensageiros de nossa irm� e do rei.
- Que pend�ncia � a vossa? Falai! - Mal posso respirar, meu senhor.
N�o admira, vil�o cobarde.
Bufo, monstro, bajulador asqueroso,
disposto a qualquer maldade para se fazer destacar!
Como nasceu a vossa quest�o?
Este velho rufi�o a que eu poupei a vida em respeito �s suas barbas brancas...
Se o senhor me autorizar, farei cal deste miser�vel e pintarei com ele as sentinas.
Sil�ncio! Insolente! Esqueces-te do respeito que me deves?
Perd�o, senhor, mas a c�lera tem os seus privil�gios.
E qual a raz�o para te excederes?
Senhor! Um biltre como esse, traz na cinta uma espada, quando � um desavergonhado?!
Oh, aldrab�es sorridentes!
Para eles, dizer ou , d� na mesma.
S� querem bajular
quem seguem como c�es.
Maldito sejas! Tu est�s a rir-te do que eu digo como se eu fosse um tolo?
N�o est�s maluco, velho?
Mas qual foi o motivo desta rixa?
N�o h� contr�rios que sejam t�o antip�ticos como este patife o � para mim.
- Em que te ofendeu ele? - N�o gosto daquela cara.
Tamb�m � poss�vel que n�o gostes da minha, da deste senhor...
Senhor! O meu of�cio � ser sincero.
J� tenho visto melhores caras do que as de certas pessoas aqui presentes.
Tragam da� os cepos!
Vamos dar-te uma li��o, meu velho teimoso!
J� estou velho para aprender, senhor.
Os cepos n�o s�o para mim,
pois estou ao servi�o do rei.
O seu mensageiro � s�sia dele.
Tragam os cepos!
Ficar� neles at� ao meio-dia.
Se eu fosse um dos c�es do vosso pai, n�o me tratar�eis assim.
Mas sois insolente!
� da t�mpera daqueles de quem vossa irm� nos fala.
Rogo-vos, senhor, que suspendais o castigo.
Deixai o rei castig�-lo contra a vossa queixa.
Quem castiga aqui sou eu.
Trazei os cepos!
Tenho pena de ti, amigo, mas quem manda � o duque.
Mas tentarei interceder por ti.
N�o vale a pena, senhor, que grande coisa, prender as pernas!
� muito pior quando d�i o cora��o. Adeus, senhor.
N�o, o duque procedeu mal.
Partiram do pal�cio e n�o me mandaram um mensageiro. N�o compreendo.
Ainda ontem, pelo que ouvi, n�o tencionavam sair.
O pobre Tom tem frio...
Os diabos perseguem-me...
Arre, diabo!
Desaparece, for�a imunda! N�o lhe darei nada.
O diabo atormenta-o.
Deambula de aldeia em aldeia, onde � a�oitado com varas.
Protejo-vos contra o mau feiti�o!
Protejo-vos contra o mau olhado, que os astros n�o vos fa�am mal.
Gl�ria a ti, nobre senhor!
Os ligamentos dele s�o duros!
Os cavalos s�o presos pela cabe�a, os c�es e os ursos, pelo pesco�o,
os macacos, pelo corpo, e os homens, pelas pernas.
E quem tem pernas expeditas,
usa meias de madeira.
Quem ousou ofender-te?
Quem ousa castigar os meus mensageiros?
Ambos, o vosso filho e a vossa filha.
- N�o! - Sim!
- N�o, j� disse! - E eu digo, sim.
N�o acredito!
Se os patos bravos ainda andam por aqui, � que o Inverno n�o acabou.
Os pais que vestem trapos
Fazem os filhos cegos.
Mas os pais que t�m boas bolsas,
Fazem os filhos bondosos.
Fortuna, esta lasciva errante,
Nunca olha para os pobres.
Esta dor vai asfixiar-me!
Ang�stia, n�o me atormentes, vai embora!
N�o me apertes tanto o cora��o.
Onde est� a minha filha?
Est� com o conde, senhor.
N�o me sigais, quedai-vos aqui!
Por que trouxe o rei t�o pouca gente?
Se fosses aos cepos por essa pergunta,
bem merecido seria!
Por que, bobo?
Afasta-te, quando uma grande roda rola pelo monte abaixo,
mas agarra-te a ela, quando vai pelo monte acima.
Onde aprendeste isso, bobo?
N�o foi nos cepos, bobo!
N�o quereis falar comigo? Estais mal e cansados? Viajastes toda a noite?
Desculpas!
Meu rei!
Conheceis o temperamento furioso do duque. N�o ouve ningu�m.
Vingan�a! Pragas! Morte! Confus�o! Fogoso? Que temperamento?
Escuta, Gloucester, preciso falar com o duque de Cornualha e sua esposa!
Informei-os disso, meu senhor.
- Compreendeste-me? - Sim, meu senhor.
O rei vai falar com Cornualha,
o pai extremoso vai falar com a filha.
Ordena.
Informaste-os? N�o!
Dizei ao duque fogoso que...
N�o, n�o � preciso.
Poder� estar mal-disposto. A enfermidade negligencia o dever.
Esperarei. Fui demasiado duro,
ao tomar a s�rio as palavras de um doente.
Mas esperai,
at� quando estar� ele assim?
Isto me diz que a viagem do duque e dela foi um subterf�gio.
Libertai o meu criado!
Ide e dizei ao duque e � esposa
que vou falar com eles imediatamente e
que lhes ordeno que venham ouvir-me,
ou mandarei bater na porta deles como num tambor,
que at� os que estiverem a dormir h�o de morrer de medo.
Gostava que tudo entre v�s terminasse em bem.
Oh, o meu cora��o! Como ele bate!
Calma! Calma!
- Bom dia os dois! - Bons dias, sa�do Vossa Gra�a.
� um prazer ver Vossa Alteza.
N�o duvido! Acho que estais contentes, Regane!
Ah, libertaram-te?
Falemos disso mais tarde.
Querida Regane,
a tua irm� n�o presta.
A sua crueldade despeda�ou-me o cora��o.
N�o suspeitas como tem ruim car�ter, Regane!
Sede paciente, senhor, pareceis-me injusto para com ela.
Como compreender?
Custa-me acreditar que minha irm� tenha olvidado o seu dever.
Se teve de lidar com as desordens dos vossos companheiros...
Maldito seja!
Oh, senhor, estais velho.
Tendes de ser orientado
por quem conhe�a melhor o vosso estado do que v�s.
Por isso, pe�o-vos que volteis e digais
a minha irm� que reconheceis a sua culpa.
Pedir-lhe perd�o?
Querida filha, confesso que estou velho e n�o tenho mais pr�stimo.
Suplico-te de joelhos que n�o me negues roupa, cama e mesa!
Basta!
Tais brincadeiras n�o vos fazem bem. Voltai para minha irm�.
Jamais!
Que a vingan�a dos C�us caia-lhe em cima.
Manqueira, fere-a!
V�s, rel�mpagos velozes, lan�ai as vossas chamas nos seus olhos vergonhosos!
Doen�a, reduz a p� o seu orgulho!
Oh, deuses! Desejar-me-eis o mesmo
num momento de ira?
N�o, Regane, nunca ter�s a minha maldi��o!
A tua natureza suave n�o me dar� motivo!
N�o �s surda � voz do parentesco,
n�o esqueceste que te dei
metade do meu reino.
Vamos ao que importa.
Quem mandou prender o meu emiss�rio ao cepo?
Fui eu.
Ele merecia muito mais.
Oh, C�us! Se sois prop�cios aos velhos, protegei-me!
E vais tu, Regane, apertar-lhe a m�o?
Claro que vai. Por que n�o?
N�o � ofensa atribuir a culpa � senilidade!
N�o vos esque�ais da vossa idade, pai. Vivei conforme a vossa fraqueza.
Ide viver com minha irm�, dispersando metade
do vosso s�quito. Depois, vinde viver comigo. Agora, n�o estou em casa.
Voltar para casa dela? Dispersando cinquenta homens?
N�o, prefiro ficar sem teto.
Voltar para casa dela?
Prefiro ser escravo deste lacaio detest�vel.
- Como queirais, senhor. - Filha!
N�o me endoide�as, suplico-te!
N�o te incomodarei mais, minha filha.
Adeus.
N�o te voltarei a ver.
No entanto, �s carne da minha carne, sangue do meu sangue.
Ou, melhor, �s doen�a desta carne.
Por conseguinte, �s a minha doen�a.
�s o tumor, a praga, o carb�nculo purulento do meu sangue.
N�o te ralho.
A vergonha h� de tomar um dia conta de ti.
Emenda-te, quando puderes. Eu esperarei.
Viverei com Regane, eu e os meus cem cavaleiros.
De forma alguma, senhor. N�o vos esperava.
Mais, s� vos autorizo a ficar com vinte e cinco cavaleiros,
n�o mais.
- Eu dei-vos tudo quanto tinha! - E em boa ocasi�o o fizestes.
Fiz de v�s minhas tutoras e deposit�rios.
Pedi apenas um certo n�mero de pessoas.
Para que quereis 25 ou 10 ou 5 numa casa
onde tereis o dobro dos criados?
Nem de um tendes precis�o.
N�o se pode julgar o necess�rio.
O mais miser�vel dos pobres tamb�m tem coisas sup�rfluas.
N�o concedais � Natureza mais do que ela exige.
A vida humana pode custar tanto como a do animal.
C�us, dai-me paci�ncia! Preciso de paci�ncia.
Oh, deuses, vedes-me aqui,
um pobre velho.
Mesmo que tenhais sido v�s que indispusestes as filhas contra o pai,
n�o vos riais de mim.
Insinuai-me uma nobre c�lera.
Vingar-me-ei de v�s de tal maneira, bruxas malvadas,
que o mundo estremecer�.
Julgais que vou chorar?
N�o, n�o chorarei.
Tenho todo o direito de chorar. Prefiro que o cora��o se despedace
em mil bocados a verter uma l�grima.
Oh, bobo, vou endoidecer!
� cruel e desumano!
N�o gosto desta a��o imunda!
Recebi uma carta esta noite que fechei no meu quarto.
As injusti�as de que o rei � alvo,
n�o ficar�o sem vingan�a.
� preciso ocupar o partido do rei. Vou procur�-lo.
Vai e ocupa o duque com uma conversa,
para que n�o d� pela minha aus�ncia. .
Por favor, tem cautela.
O velho est� acabado.
Vou subir. J� viveu quanto baste.
Chegou a minha vez.
Fim da primeira parte
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