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Original subtitles

Ora ora, ó do barco!

Sejam bem-vindos!

Já não era sem tempo.

Capitão Franco, 31ª Companhia.

Onde é o pontão de desembarque?

O pontão é aqui mesmo, homem. E aqui, mais.

Primeiro sargento, dê ordens para o desembarque!

Pessoal, atenção!

Tudo a saltar para cima dos pretos e agarrem-se às carapinhas.

Vai tu, Cardoso!

Sim, meu sargento.

-Vá, vá! Vai, vai! -Sem medos.

Vá, vá! Vai Zacarias, tens ali um para ti.

Vá, salta para cima dele! Sabino tás a dormir, é?

Vamos embora!

Olha aqui, olha aqui!

Está a demorar muito!

Bora lá soldados, aqui. Um para aqui!

Vamos embora!

Mais um para aqui! Um para ali, um para ali!

Vamos embora!

Dorme M’zungo! Eu sentinela.

Três semanas, M’zungo.

Três semanas o quê?

Companhia, M’zungo.

Passaram aqui há três semanas?

Hmm, vamos embora.

Duarte?

Sim, M’zungo.

Meus queridos pais,

quando lerem esta carta já estarei longe,

num qualquer comboio ou navio a caminho da França.

Vou de coração apertado mas de alma cheia,

lado a lado com os bravos soldados do nosso Portugal,

sedentos por lutar nesta guerra,

a bem da nação e da justiça dos povos.

Perdoem-me por partir sem a vossa bênção

mas não consigo suportar mais

a censura implacável do senhor meu pai

ou o choro silencioso da mãezinha.

Sufoco só de pensar na clausura dessa terra

enquanto o mundo desaba lá fora.

Mas não quero que se preocupem. Parto para poder voltar.

Que a guerra devolva o homem que sempre me cobraram que fosse.

E se for a vontade do vosso Altíssimo que eu tombe no campo de batalha,

pois que assim seja.

Ordem!

A Ele entrego o meu destino.

Ponham-se a brincar com os chouriços

quando chegarem à mata ponham, a ver o que é que a besta lhes faz.

Vocês não perceberam. Vocês vão para África!

Sabes o que é África, ó anormal? África!

Em África um homem tem de ser discreto.

E aqui também, senão o Sabino não dorme.

Ah o quê caralho, foda-se.

Cambada de bobões.

Eu quero ver quando tiverem os alemães à vossa frente.

Olha os alemães, para vossa informação,

cortam as mamas às pretas

e deixam-nas ali a morrerem para vocês verem.

Os alemães põem os pretos a jogar à bola

com as cabeças dos vossos camaradas mortos.

Passado dias esses pretos são a coisa mais sanguinária desta guerra.

Aí é que eu quero ver quem é que se ri.

Valha-me nossa Senhora, o nojo que aqui vai.

Não admira que as meninas lá de cima nunca cá ponham os pés.

Olha este já embarcou morto em Lisboa.

Olha para isto!

Meu sargento, não era possível mandar um médico cá abaixo?

Aquele está bastante mal tratado.

Não fazes puto ideia do que te espera do outro lado.

Alimenta-te mas é,

que isto não é para fracos é para fortes!

Mas então e o médico, meu sargento?

Médico, o quê? Já não precisa de médico!

Joguem os corpos ao mar antes que nasça o dia.

Posto português.

Cinco dias de andar.

Está tudo bem?

Tens a certeza?

Sim, m’zungo!

Quem vem lá?

-Somos portugueses. -Quem?

Somos portugueses.

Mãos no ar!

Alto!

Soldado, identifique-se.

Soldado Zacarias, 31ª companhia da coluna do lago.

Coluna do lago?

Coluna do lago, meu tenente.

Pedia para dormir aqui esta noite.

E para comer e beber alguma coisa, se fosse possível.

Perdeste a companhia, foi?

Não, meu tenente. Fiquei retido no acampamento.

Mas com a graça de Deus e a vontade nas pernas,

vou ajudar a defender o que é nosso.

Venham daí.

Pela Pátria que é minha, vou lutar.

Nessas terras distantes do Rovuma

Mas parto sem saber se vou voltar.

O mar imenso é um lençol de espuma.

Meu sargento.

Paz às suas almas.

Como é que tu te chamas, rapaz?

Zacarias, meu sargento.

Deixa lá o “meu sargento” para quando tivermos no mato.

Um cigarro?

Vai pedir à vaca que ela comeu os meus.

A vaca comeu?

Vai po caralho!

Isto é a glória da República:

bandidos, fugitivos, bêbados, malucos.

É isto que nos mandam para defender o Império Português.

Desculpe a pergunta,

mas o meu sargento não preferia estar a caminho de França?

Não. Não é que lá tivesse melhor.

Eu percebo os que antes queriam estar em França.

Porque os heróis em África são feitos de outra fibra.

Eu trocava dez fadistas destes por um preto dos meus.

E tu ias de borla.

Então o meu sargento já esteve em África?

Outros tempos, outras guerras.

Como é que tu achas que a gente manteve as nossas colónias?

Outros tempos!

-Não sabemos bem porque lutamos -Ah, não sabes não.

Pois, não sabes porque é que lutas.

Pois quem nos manda foi assim que quis

Sabes muito!

Que é que tas aqui a fazer?

Como é que tu apareceste aqui?

Então, alistei-me, meu sargento.

Valente!

Alistei-me mas queria era ter ido para França.

Que idade é que tu tens?

Tenho 17.

Foda-se, qualquer dia vêm para cá de fraldas. Tens namorada?

Não.

Ainda bem porque assim podes comer as pretas à vontade

sem problemas de consciência.

Um homem não pode ir a África

sem dizer que enterrou a minhoca na selva negra.

Ainda tens a minhoca virgem...

Não tenho nada, meu sargento.

Ah pois não, a gente depois trata disso.

Ouve uma coisa que eu te vou dizer, soldado.

Na selva quando o leão ruge os outros animais calam-se.

Nós somos o leão, hã? Somos o leão!

Ah, grandes fadistas.

Sim senhor, grandes artistas, sim senhor.

Agora limpar esta pocilga é que tá quieto, não é?

Não sei como é que vocês conseguem viver no meio desta merda.

Soldado, queres chegar ao fim da guerra?

Não me percas de vista.

Sim.

Sim? Sim, meu sargento!

Sim, meu sargento.

Meu sargento, ouça lá, o mar tá calmo, não há vento. Você tá a abanar...

Você tá...

Vens de Mocímboa?

Sim, meu tenente.

Vais para onde?

Juntar-me à minha companhia que vai para o Lago Niassa.

Sozinho?

Queres comer, soldado?

Agradecia, meu tenente.

Então, queres feijão ou preferes feijão?

Feijão é bom, meu tenente.

Feijão será.

Onde é que arranjaste isto?

Deram-me lá no acampamento, meu tenente.

Em Mocímboa?

Em Mocímboa da Praia, sim.

Pois a coluna passou por cá já há algum tempo.

Tiveram que fazer um desvio para combater os rebeldes do reino Macua.

Macua?

Hmm, uns dias depois seguiram caminho.

Isso foi há quanto tempo?

Quanto tempo?

Foi há...

há três, três ou quatro semanas, não sei precisar.

Há duas, patrão.

Tens a certeza, Solimane. Ia jurar que foram três.

Duas e meia.

Solimane! Duas e meia!

Duas e meia.

Posso comer?

Come, filho.

E há quanto tempo é que está aqui?

Aqui?

Aqui, neste posto?

Há uns seis, sete meses.

E na guerra?

Há tempo suficiente, soldado.

Vim com a segunda companhia expedicionária.

Tu vens quê, na terceira?

Quarta.

Quarta, caralho?

É verdade, é verdade.

Vocês chegaram há uns meses atrás,

tu e os tipos da Companhia do Lago. Dois meses?

Quatro meses.

O tempo passa, Solimane.

Zacarias, bem-vindo ao meu posto.

À guerra!

Zacarias!

Voltaste.

Anda cá, rapaz.

Dança com ele.

Dança!

Dança!

Isso!

Solimane,

vamos contar a história

do sargento e do soldado e do seu barril.

Zacarias, esta é a história do sargento do barril.

Diz o sargento ao soldado: “Soldado, eh!

Ao fundo do mastro existe um barril com um buraco bem apertado.

Cada vez que você sentir um formigueiro lá no coiso,

pode ir lá.”

E diz o soldado:

“Oh que bom!

Meu sargento,

mas posso ir lá todos os dias mesmo?”

“Eh pode.

Espera!

Espera, menos à sexta-feira.”

“Ah, mas porquê?”

“Porque à sexta-feira é o teu dia de ficar no barril.”

Ai rapaz,

tu já pensaste...

em não encontrar a tua companhia?

Feijão aqui não falta.

Porque é que a bandeira não está hasteada no posto, meu tenente?

Solimane, tira a música.

Eu já estive no Rovuma, rapaz.

Eu já estive em Chumba, em Palma

e no Nevala,

onde quase morremos todos.

Agora estou aqui.

E daqui tão cedo não saio.

Porquê?

Porque não quero morrer.

E porque os alemães estão em todo o lado.

Sabes porque é que eles nunca renovam a tropa?

Porque não precisam.

Porque ninguém os encontra.

Porque estão em todo o lado.

Parecem fantasmas, os filhos da puta.

Eu agora estou aqui!

Aqui, sou só eu e o meu exército!

Se os alemães aparecerem

é só levantarmos as mãos.

Solimane ordem!

E rendemo-nos.

Rapaz, o que é que te deu para ires para o Niassa sozinho, hã?

Era muita a vergonha de teres ficado na base?

Levanta!

Apaga tudo, Solimane.

Isso na tua cara é o quê Duarte?

Isso, essas marcas que tu tens.

Duarte, povo Maconde.

Povo Maconde vestir o corpo assim, bonito.

E então aquele? Porque é que não tem umas marcas como tu?

Nhanguete, povo Macua. Não Maconde.

Macua, Maconde, não é tudo a mesma coisa?

Vossa senhoria, meu comandante, dá licença?

Diga, rapaz.

Quero juntar-me à minha companhia, meu comandante.

E que companhia vem a ser essa, soldado?

A 31 da Coluna do Lago, meu comandante.

Bem que essa companhia precisa de homens.

Mas ficas a ajudar aqui no acampamento.

Eu vou sozinho, meu comandante.

Só preciso da sua permissão.

Não me deixe morrer na praia, meu comandante.

Deixe-me provar que eu posso ser um soldado de valor.

Eu trago a guerra no pensamento e a pátria no coração.

E onde é que ouviste esses versos, caramba?

Eu aqui não faço falta nenhuma, meu comandante.

“Eu aqui não faço falta nenhuma.”

Diz o pivete que acabou de ser parido pela senhora sua mãe.

Não sei o que é que lhe ensinaram lá na pátria, soldado.

Mas quando um imberbe como vossa excelência

faz um discurso tão inflamado, só há uma solução.

Atar-lhe as mãos e os pés, pôr-lhe uma venda

e mandá-lo mato dentro.

E deixá-lo morrer por lá,

esfolado vivo pelos alemães ou pelos pretos.

Ou pelas bestas.

Ou pelas formigas, que lhe entram pelos ouvidos.

E depois o ensurdecem e lhe comem a mioleira.

Ou pelas cobras,

o que também poderá ser interessante

visto de um determinado prisma. Prisma.

Sabeis o que é, certo?

Prisma! Sabeis o que é, seu potro bastardo?

Sim, meu comandante.

Ah, já estabelecemos aqui um...

uma plataforma de entendimento.

Leva dois pretos à tua escolha.

Obrigado, meu comandante.

Ainda vais a tempo de mudar de ideias.

Meu comandante dá licença para me retirar?

Soldado, anda cá.

Cuidado com os pretos que levas. Punho fechado e olho bem aberto.

Duarte!

Coluna do Lago.

Uma semana, M’zungo.

Isto foi há uma semana?

Sim, M’zungo.

Óptimo, vamos embora.

Esperar, M’zungo. Nhanguete descansar.

Vamos Duarte. Não há tempo a perder, descansamos mais tarde.

Parar!

Muito calor.

Muito peso.

Dormir aqui.

Nhanguete descansar.

Não. Agora!

Agora, caralho!

Tás a fazer de propósito, não estás?

Queres nos atrasar, caralho?

Olha para mim.

A partir de agora andas à minha frente.

Vai.

Famba, Nhanguete.

M’zungo!

Anda Duarte.

Na frente, m’zungo!

Ei! Pára!

Nhanguete, pára!

Respira!

Respira, preto!

Respira, respira!

Sabes que foi sem querer, não sabes Duarte?

Duarte!

Ele estava a fugir com os nossos mantimentos.

Alikududa.

O quê?

Meu nome é Nkabala Alikududa.

Duarte!

Duarte!

Duarte!

Duarte!

Eu sou Zacarias.

Eu sou um soldado português. Eu caminho.

Eu não posso parar.

Eu não paro.

Nunca. Nunca!

Eu não posso parar.

Eu não paro.

Eu não paro.

Seis, sete, oito,

nove, dez...

Tem um cigarro?

Obrigado.

A Morte,

oh la la.

A Morte.

Zacarias!

Ó Zacarias, anda cá!

Confesso a Deus todo poderoso,

e a vós irmãos e irmãs,

que pequei muitas vezes

por pensamentos, palavras,

atos e omissões,

por minha culpa,

minha culpa,

minha tão grande culpa...

Masca.

Sozinho por sozinho...

O quê?

Estava a responder à tua pergunta.

Qual pergunta?

À pergunta que me queres perguntar.

Masca esta raíz.

Mata a sede e dá energia.

Mais vale estar sozinho.

Primeiro subi e depois desci.

Estava a terminar a frase que tinha começado:

Sozinho por sozinho, mais vale estar sozinho.

No “sozinho por sozinho” subi o tom no último “inho”

e suspendi a frase.

No “mais vale estar sozinho”

vim por aí abaixo no tom, ou seja, desci.

Vem!

Ando perdido como tu.

Mas tenho um rumo definido.

O tempo das minhas palavras

é o dobro das nossas passadas.

Mas as vontades não são quimeras.

Minhas ou tuas, não são quimeras.

Um objetivo é um objectivo, seja em sonho seja por procuração.

Um ponto quase invisível no espaço pode servir de alvo.

É para lá que nos dirigimos.

Tu vais na direção ao Niassa e eu sei que é o Niassa

porque é o ponto mais afastado na direção em que vais.

Não interrompas!

Dois, três.

Devemos caminhar na música e não na matemática

porque apesar de o primeiro se poder explicar com o segundo,

o segundo não se pode explicar com o primeiro.

O primeiro é uma dádiva de Deus perante os Homens,

o segundo é uma conquista dos Homens para explicar Deus.

Eu não posso parar de falar senão tu lembrar-te-ás

que estás cansado e vais querer parar e descansar.

Eu caminho vivo no meu sonho estrelado.

Eu caminho vivo no meu sonho estrelado.

Eu caminho vivo no meu sonho estrelado.

A minha mãe é Maria Josefa.

O meu pai é Manuel da Conceição.

O pai é mestre na escola.

A mãe toma conta da casa...

Ajude-me a vestir, por favor.

Onde é que estão as minhas botas?

Bom dia.

Há quanto tempo é que eu estou aqui?

Não te lembras de nada?

Seis anos.

Três semanas.

E a minha companhia?

Tá boa.

A 31. Sabe deles?

A caminho do Niassa, integrados na Coluna do Lago.

Língua para fora. Língua para fora!

Foram hastear a nossa gloriosa bandeira

onde Judas perdeu as botas.

E o primeiro s...

Tira a camisa. A camisa para cima.

E o primeiro sargento Justino, ele também foi?

Foi a companhia inteira.

Só ficaram cá os estropiados, os maluquinhos, os inúteis...

e um menino com febrezinha por causa da malária.

...sonho estrelado.

Eu caminho vivo no meu sonhos estrelado.

Eu caminho vivo no meu sonho estrelado.

Eu caminho vivo no meu sonho estrelado.

Acha que consigo?

Eu já fui como tu.

Cheguei aqui de coração cheio, de mão dada com o Senhor.

Mas Ele não quer mais nada comigo.

Deus não gosta de quem se afasta do caminho.

Quem manda aqui é o Cornudo,

que se esconde atrás de cada pedra,

cada árvore, dentro de cada palhota.

Eu cheguei aqui sem nada e vivi como um rei.

E como um rei, dancei a dança do Chifrudo.

Bailando de prazer em prazer, a fornicar como um selvagem,

até ser castigado pelo Senhor.

Eu caminharei até aos ossos dos meus pés se quebrarem

ou se esvaírem em sangue

e o grande manto preto cobrir os meus olhos.

Tu vais conseguir.

Tu vais conseguir.

Onde é que estão os homens da aldeia?

Hã? Onde é que estão os homens da aldeia?

O chefe? Onde é que está o chefe?

Eu quero falar com o chefe!

Onde é que está o chefe?

Eu quero falar com o chefe!

O que é que vais fazer? Vais me dar um tiro?

Dispara! Dispara!

Dispara!

Anda, anda!

Nem deves saber usar essa merda, sua vaca escarumba!

Eu, M’zungo! Homem branco, branco!

Eu exijo que me libertem imediatamente.

Vocês não me podem prender aqui.

Eu exijo que me libertem ime...

Água.

Água.

Homem.

Água.

Mulher.

Terra.

O que é que ias fazer, caralho? Hã?

És Deutsch, hã alemão de merda?

Anda! Na, na, na, anda!

Pum!

Anda.

Torsten.

Trossen.

Nein...

Troféu.

Anda.

Anda, alemão de merda!

Vocês alemães parecem fortes

mas não passam de umas titicas de merda.

São todos uns grandes cobardes.

Merecem é levar na peida como devem estar a levar.

E eu aqui com esta andorinha.

Que se deve ter cagado todo.

Covarde de merda.

Covarde de merda.

Eu percebi, caralho!

É doce!

É doce, caralho!

É doce!

É isto que procuras?

Deutsch?

Português.

Português?

Português, caralho!

Português.

Soldado Zacarias,

31ª companhia do corpo expedicionário português.

Apresento-me ao serviço.

31ª companhia? Nunca te vi, caralho.

E este aqui? Hã?

É um alemão.

Alemão?

Onde é que tão os outros?

Alemão?

Maravilha!

Venham.

Zacarias?

Zacarias!

Estás vivo!

Como é que tu vieste aqui ter, hã?

Sou eu caralho, sou eu!

Cansei de te ganhar nas cartas.

Onde é que tu te meteste este tempo todo?

Tiveste de férias, tu?

Foda-se não me apertes que me partes os ossos todos, caralho.

Como é que vieste parar aqui?

A pé. A pé.

A pé tu e todos nós, a pé.

Está aqui o Zacarias, está vivo!

Não se vê logo que é um alemão, caralho.

Santa aparição, valha-nos nossa Senhora.

Que é que tás aqui a fazer, caralho?

Vim à sua procura, meu sargento.

Com quantos homens?

Saí com dois pretos e cheguei com este alemão.

Foda-se, caralho!

Olha, olha!

Devias era ter apressado o passo.

A guerra acabou, ganhámos a guerra!

Quer dizer, ganharam eles lá na Europa

que a gente aqui foi só levar porrada.

Que cara é essa, homem?

Anima-te! Vamos voltar para casa.

E o que é que fazemos com este cabrão?

Damos-lhe um carinho.

Filho da puta!

Caiu que nem uma rola, o filho da puta.

“Sinto nas penas perdidas,

saudades da pátria ausente.

Sinto nas penas perdidas

saudades da pátria ausente.

Poucos padecem na ida

o que na volta se sente.

Poucos padecem na ida

o que na volta se sente.

Corri terras, corri mundos

com um segredo na voz.

Corri terras, corri mundos

com um segredo na voz.

Os corações são profundos

quando se chora por nós.

Os corações...”

Dá-me licença, rapaz?

Meu sargento.

Há quanto tempo é que tu não fumavas um desses, hã?

Vai para o pé dos teus camaradas!

Não estejas aqui sozinho,

já passaste muito tempo sozinho.

Olha aquilo do teu prisioneiro...

Tu tens que perceber que a guerra foi dura, rapaz.

Eles mataram os teus camaradas.

Esses cabrões pareciam sombras no mato.

Apareciam, roubavam, matavam, iam-se embora

e ninguém mais lhes punha a vista em cima

desses filhos duma grande puta.

Andámos estes meses todos aí perdidos no mato

a levar porrada desses cabrões.

Pois.

Que é que estás a fazer, Zacarias?

És doido?

Zacarias?

Zacarias, dispara!

Dispara, Zacarias!

Zacarias, então?

Soldado, dispara!

Dispara, é uma ordem!

Soldado!

Estás a ouvir o que eu te estou a dizer, Zacarias?

Zacarias!

Socorro!

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