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MORTE AO VIVO
- Você ainda chora? - Não, de jeito nenhum.
- Você sente uma certa tensão? - Nos meus olhos geralmente?
Não, eu não sinto nenhuma tensão agora.
- Mesmo mudando a lente. - Isso é bom, está cicatrizando.
Não é nada.
- Isso é você que diz. - Acenda.
Você pode ficar alguns minutos no escuro antes de provocar uma lesão permanente.
- Quantos minutos? - Nunca tentamos esse tipo de experiência...
- Eu sei. - Alguns minutos.
Deixe acesa, se não for problema.
Você deve ter sempre uma lanterna com você.
Toda essa tecnologia! Mas finalmente dependemos do quê?
De uma pilhinha elétrica de 3,50 francos.
- Como quando eu era escoteiro. - O que você faz à noite?
Eu sonho com o sol.
- Não... Eu leio, vejo TV... - Você consegue dormir?
Isso pede uma certa concentração.
Eu consigo às vezes tirar um cochilo sem fechar os olhos.
Não há problemas nesse aspecto.
As pílulas fazem efeito? Você sente cansaço?
Não. Eu confesso que não gosto de dormir.
Se ocorrer algo, tenho medo de não estar presente.
Bom... Quando é o próximo ajuste?
- Você não precisa mais. - Então, estou pronto!
Sr. Farau.
Sr. Farau. Por que deixou que fizessem isso com o senhor?
Deixar fazer?
É para nunca esquecer como você é bonita.
- O que ele está fazendo? - Eu não sei, não entendo.
Ele está se divertindo.
Ele me disse que havia caminhado o primeiro dia inteiro.
Caminhado, sem saber por onde.
Ele não voltou.
Por que ele voltaria?
Estávamos separados há quase três anos.
A gente se acostuma a não ser casado, você não acha?
Em três anos ele deve ter criado novos hábitos.
Perdido os antigos.
Como eu.
Não... não completamente.
Perguntaram-me se eu via muita diferença. Se...
Se eu tinha o achado diferente.
Não. Creio que não.
Ele queria tanto esse jogo novo.
- Uma cerveja? - Obrigado.
- Venha empurrar, senhor. - Bom...
Está bom, vamos parar.
- Adeus. - Adeus e até a próxima.
- Oi, Vincent. Como me encontrou? - Basta girar um botão.
- É isso. - Sim, temos um problema.
O homem que você deveria seguir morreu há uma hora atrás.
- Você está brincando comigo? - Não.
Achamos um outro que parece promissor.
- Quem? Não é o pintor, é? - Não, muito chorão.
Como você tinha dito. Tome, veja.
- O que ela faz? - Ela é editora de livros.
Bonita, não?
- Uma editora. - De best sellers.
Contarei no caminho.
- Sempre problemas! - Vai à caça na África?
O quê? No começo disseram-me que era um fim de semana relaxante.
E então? Hoje ainda é terça, não?
Olhe, devolveram nosso livro. Imbecis.
Vincent, a primeira parte está boa?
Magnífica.
- Não ficaram ruins? - Foram perfeitos.
Algumas tomadas que estavam desfocados quando você começou a endoidar,
mas ficaram bons. Realmente um bom trabalho.
Vincent?
E seu lenço perdeu consciência?
Não entendo...
Idiota!
- E as crianças, tudo bem? - Oh, como você quer que eles estejam?
Nils faltou na escola por causa de um punho torcido.
- Como ele fez isso? - Gliel fez isso nele.
"Não sei o que fazer de um homem", articulou entre os dentes.
"Você parece uma freira, com esse negócio preto", ele murmurou.
"Quando você usa isso, não posso nem lhe tocar".
- E depois? - Nada.
Lembra alguém que conheço bem.
- Ela assinou? - Ainda não falamos com ela.
Gostaria de estar presente quando falar.
TELEVISÃO NÃO EXISTIAANTES DE MORTE AO VIVO. A ÚLTIMAAVENTURA.
Nervoso?
Seria bom que ela agüentasse.
Você tem medo que ela ceda.
Não sou contra um certo engajamento.
Eu queria que fosse uma boa pessoa.
E Tracey, você a viu ultimamente?
Não. Por quê?
Eu estava me perguntando se ela estaria feliz em esperar...
- sua promoção. - Minha promoção?
- Não. Ela não sabe absolutamente nada. - Ah, bom!
Eu deveria ter-lhe contado?
Sim, por amizade.
- A Senhora Mortenhoe. - Faça-a entrar, por favor.
Eu repito, doutor. Quero que seja feito com extrema delicadeza.
Não sou um principiante. É minha profissão.
Não, doutor. É minha profissão.
Ela não deve só aprender as coisas. Ela tem que assimilá-las.
Que ela assimile-as totalmente.
Você também está muito nervoso.
Tem bastante luz para ver sua entrada?
Senhora Mortenhoe
- Katherine, entre. - Bom dia, doutor.
Tudo bem com sua edição?
Muito obrigado.
Se há alguém para agradecer, é Harriet.
- Harriet? - Sim.
- Minha inimiga, minha máquina. - Vocês continuam em guerra?
- Ela está ganhando. - Porque ela não se deixa abater.
Ela ganha porque todo mundo quer livros onde todos são bonitos.
- Em um mundo de sonhos. - Katherine...
O mundo não é tão feio assim.
Não, mas infelizmente ele não é assim tão leve,
nem tão gostoso e seguro como crê Harriet.
Não é, doutor?
Não.
- É novo? - O quê?
O espelho.
Não, ele sempre esteve aí.
- Fique à vontade. - Obrigada.
Sensacional.
O que foi?
Os últimos textos são tão ruins quanto os primeiros?
Na sua última visita você me disse que
você esquece nomes,
que você deixa cair objetos...
Acontece. E então?
Sim, eu me arruíno substituindo minha louça quebrada. E depois?
Parece que você está morrendo.
Por que eu esqueço alguns nomes?
- O que significa "parece que..."? - Você vai morrer.
O que é esse negócio aí?
Ninguém morre mais.
De... doença.
A cirurgia é um massacre. A gente corta, costura...
- Nada de operação. - Eu quero. Serei operada.
É inútil.
Eu exijo essa operação.
- Não vai parar. - Não vai parar o quê?
O que eu tenho, doutor?
Qualquer que seja o mal, qualquer que seja o preço, eu quero que se resolva.
Eu tenho tempo. Faça-o agora.
Katherine, não existe esperança de cura.
Não tem nenhuma cirurgia.
Eu tenho quanto tempo?
Não muito tempo.
Quanto?
Dois meses. Talvez menos.
Quanto, doutor?
Muito bem. Então vou indo.
Eu pensei que você quisesse saber.
Não.
Eu vou vivê-lo, o resto o que eu faço do resto?
Então certo, mas faça-o rápido.
Então?
De fato, é isso que é incurável.
- O quê? - Sua impaciência.
Você vive num estado de revolta permanente. Tudo a escandaliza.
Sua natureza é assim.
- É verdade, não? - Sim.
- Você acha que mudará? - Eu não quero.
Não.
Muita gente tinha úlceras, câncer.
Você perde a cabeça.
Nós não permitimos mais.
De qualquer forma consultei alguns colegas. Você pode ir vê-los.
Não.
Muito obrigada, doutor.
Espere, Katherine.
- Você irá sofrer. - E daí?
Podemos evitar.
Não espere. Isso a ajudará.
Eu a acompanho.
- Fazemos a montagem pouco a pouco? - Como é o marido dela?
Sem problemas. Seu perfil indica: "Equilíbrio e sem confusões".
Ele se chama Harry Graves. Homens que se chamam Harry, não são problemas.
Graves? E Mortenhoe, é o que? Seu nome de solteira?
Seu primeiro marido, um tal Gerald Mortenhoe.
Eu me pergunto por que ela guardou seu nome.
É bonito. Talvez ela goste dele.
Sim, mas é mais difícil de escrever que Graves.
Que horas são, por favor?
Horas?
Negativo.
Não aceitaremos um novo fim, Katie.
Segunda proposta: O amante deixa Anne-Marie.
Rejeitada. Você vê? Eu tinha dito.
- Explique. - Vendo sua memória temática,
ela viu que usamos essa idéia em Dick Slocum, há menos de seis meses.
- Você não pode ganhar. - Você vai ver.
Terceira proposta.
Rejeitada.
Como a segunda, mas mudando a cobertura.
Anne-Marie sozinha na praia aparece nua,
ela olha.
Afirmativo.
Finalmente!
Eu queria ganhar, ao menos uma vez.
Projeções de venda em Tóquio, Paris, Moscou, Shangai,
Kampala. Quebra em Berlim. Tudo certo em outras áreas habitadas.
Para que serve confiar numa máquina que se chama Harriet?
O cuidado em contar nossas histórias?
Estamos cansados de ter lhe inventado
que não podemos mais inventar nada.
Afirmativo.
Vai se foder, Harriet.
Termos desconhecidos. Reformular.
Senhora Mortenhoe!
- Senhora Mortenhoe! - Quem é você?
Dave Mattiesson.
Eu creio que li alguma coisa sua.
Eu trabalho para a Agência News Print.
Não. Um romance!
- Tem uma entrada de serviço na sua casa? - Por quê?
A notícia se espalhou.
- Deixe-me em paz, Sr. Mattiesson. - Não posso.
- Você se tornará famosa. - Famosa?
- Sim. - Por quê?
- Nós precisamos. - De quê? De fofoca?
De tragédia, Sra Mortenhoe. Ainda mais do contato com alguém que vai morrer.
Há uma certa glória, um pouco de tristeza...
Morrer como antes. O fogo, os acidentes, as manifestações...
Das mortes que temos aqui, enquanto...
Eu falo do modo... Desculpe-me... Do modo como está acontecendo com você.
Nós temos sede de autenticidade.
Se eu puder ajudar, não hesite.
Em troca da exclusividade,
nada mais que fotos e entrevistas.
Nossa agência impedirá qualquer intromissão em sua vida privada.
Legalmente.
Não haverá nenhuma espécie de intromissão, Mattiesson.
Você não poderá impedir nada.
Você crê que eu vou aceitar que as câmeras, os projetores,
que as equipes de televisão invadam minha vida?
- Minha casa. - Não corra riscos, Sra. Mortenhoe.
Nós daremos provas de discrição e de tato.
Nossas entrevistas não irão durar mais que uma ou duas horas por dia.
- Até quando? - Até o limite de suas forças.
Ou isso se tornaria incoerente.
Eu me lembro do seu livro.
- Ele era bom. - Sim.
Você será paga.
Mais ou menos um décimo do que a NTV
pagaria, mas você será bem menos perturbada.
Pagam para que se morra em público!
Para morrer jovem em público!
Eu sinto muito.
Eu vou morrer pobre, mas sozinha.
Você não vai conseguir.
Apesar de tudo, obrigado.
Eu fiz chá, mas ele está frio agora.
Não tem problema. Quero leite.
É novo?
Sim. Você gosta?
É macio.
Katherine...
Eu sei. A notícia espalhou-se.
Então, você não precisa facilitar as coisas e nem me dar coragem.
Katherine...
- Katherine! Onde está você? - Não entre!
Eu disse: "Não entre".
Saia. Eu saio já.
Katherine...
Tente entende o que significa para mim. Para mim também.
Eu já não sou mais tão jovem e quando eu vejo que minha mulher...
Eu sei, Harry. Eu entendo, eu entendo.
- Vincent Ferriman ligou. - Quem?
Eu gravei.
Ferriman, da NTV. Você quer vê-lo?
"Aqui é Vincent Ferriman. Katherine...
Sinto conhecê-la bastante para chamá-la Katherine,
- depois de ter falado com Harry, hoje. " - O quê?
Ele me ligou no escritório.
"Eu quero primeiramente dizer-lhes que estou abalado
pelo que ocorreu há algumas horas. O cartaz é uma vergonha.
Mas peço-lhe minhas desculpas, assim como...
Quanto?
- O quê? - Quanto ele ofereceu?
Eu quase não o escutei. Você pode imaginar em que estado...
Você não lembra quanto ele ofereceu?
Eu creio que eram 500 mil dólares.
Claro que o mandei se foder.
- O que você fez? - Eu fechei os olhos.
Você pode piscar. Com 19 quadros não se sente...
Magnífico.
Absolutamente maravilhoso.
Quem era esse cara que fazia fotos sublimes
- com crianças sujas em locais horríveis? - Jacob Ries.
O que está acontecendo? Você está chorando?
Tinha algo em meu olho.
É uma boa escolha. Ela tem exatamente o rosto que precisamos.
- Nenhum defeito. - Tudo é visto.
Não, não é verdade!
Esse tem um rosto sinistro! É horrível!
E o sorriso, ao menos...
Bem, podemos dizer que uma imagem vale mais que um discurso.
- Sim? - Katherine Mortenhoe.
Em que linha?
Ela veio. Katherine Mortenhoe está aqui.
- Vejam só. - Você acha que ela veio assinar?
Isso eu não sei.
Faça-a entrar.
- Não quero que você fique. - Por quê?
Vou filmar desse canto aqui.
- Não, espera... - Não se preocupe!
Ela não pode vê-lo.
Entre, por favor.
Senhora Mortenhoe, você quer se sentar?
O que há? Alguma coisa incomoda?
Você é exatamente como eu o imaginei.
Perfeito.
Eu faço tudo para isso.
Procure outra pessoa.
Mas decidimos que você era a melhor.
- Quem decidiu? - A NTV.
Não é da conta da NTV.
Claro que sim.
Mas é necessário seu consentimento.
Eu não estou de acordo. Eu digo não desde já.
- Mas você já suscita grande interesse. - Isso passará.
- Nós evitaremos que isso aconteça. - É o que você acredita.
- Fico na minha casa e em três dias... - Não funcionará.
Será explorado o lado misterioso do caso. Já estou vendo...
"Katherine Mortenhoe, onde ela se esconde? O que esconde?"
Absolutamente nada.
Quero somente deixar essa cidade sem a ajuda de ninguém.
Eu conseguirei. Pode estar certo. É fácil.
Suicídio?
- Só a palavra já lhe repugna. - É verdade.
Eu acho normal que você prefira se retirar, se apagar modestamente.
- É? - Tem sentido.
Teria sido minha primeira reação.
Depois eu teria me perguntado do que o público mais precisa.
Estar com você nessa provação.
Dividi-la a seu lado. Afrontá-la com você. Suportá-la com você.
- Nada mais. - Isso só diz respeito a mim.
Ah, é? Por quê?
Você encontrou uma família, aqui na NTV?
Sim.
Tudo lhe interessa, mas nada é importante.
- Eu não entendo. - Eu sei.
Eu devo certamente assinar algo, dar um consentimento
antes que mandem para as câmeras?
Eu esperava que você tivesse vindo para isso, para assinar.
Não me faça rir, Vincent.
São estrelas douradas?
- Como? - Essas pílulas?
Não.
Algo para tirar da memória, talvez?
- Você é farmacêutica? - Eu vivia tomando pílulas.
Elas aprofundam o senso da beleza e da solidão.
Da solidão? Ah, bom.
Não, elas são excitantes.
Eu já o vi aqui.
Não tem muitos lugares abertos tão tarde.
Você não é casado.
Está usando a pílula da adivinhação?
Você é ou não?
Não, não sou mais.
Então você a amava?
Ah... sim.
Podemos amar alguém sem poder viver juntos.
É verdade.
Então?
Então?
Provavelmente não teria dado certo.
Não, talvez não.
Bem, eu espero que a noite não seja tão longa.
É, eu também.
Se uma noite você me encontrar aqui, venha me dar um"boa noite".
Mesmo que eu esteja acompanhada.
Dizem que os sentinelas aprendem a dormir com os olhos abertos.
É assim que eles chegam ao fim de suas noites.
Talvez.
Mas... será que ele aprendeu a sonhar assim?
Eu não creio que seja possível.
Acontecem coisas atrozes a animais de laboratório
quando os impedimos de sonhar, você sabia?
Alguns deles não acham nunca mais os seus caminhos.
- Você já estava desistindo? - Oi, Tracey.
Você ainda não cortou o gramado?
- Você não faz mais a barba? - Eu não tive tempo.
Muito impaciente para me ver, hein?
Você vai entrar?
Bem, a gente faz o café da manhã?
Eu posso prepará-lo. Você se lembra dos nossos domingos?
Não.
Não tem pão de verdade?
Você não deu sorte hoje.
O menu só funcionava para o sábado.
Oh, está ótimo.
Aliás, não foi para tomar café da manhã que você veio.
- Então por que foi, segundo você? - Quem sabe. Com você...
Eu pensei que você estava voltando.
Ah, é?
Mas só por 20 segundos.
Pensei: "É para ver o pequeno". Mas estaria com um brinquedo.
Seus cabelos estão mais longos.
Mais longo que há dois anos.
Tracey...
Você tem tudo de que precisa?
- Está tudo bem. - Não, eu quero dizer...
Para criança e você, pois... Eu tenho isso para você.
- Claro que não. - E eu posso lhe enviar mais.
Não tem nenhum homem aqui.
E seu dinheiro, você pode guardá-lo.
Por que estão lhe pagando mais?
É para uma nova experiência, eu estou cuidando de...
Enfim, um novo procedimento. Eu sou o primeiro a usá-lo.
- Um novo brinquedo. - Merda! Sempre do mesmo jeito com você!
- É para o Vincent, é isso? - E daí?
É por isso que está aqui ao amanhecer.
Para que eu aprove.
- Vejo que nada mudou. - Não.
Nada mudou.
Que eu venha ou não, dá no mesmo?
- Talvez dê no mesmo para mim. - É o que eu estou achando.
Talvez...
Nada está perdido completamente,
e que ainda resta... algo de você.
O que você quer? Que eu jogue flores?
Quem mais o faria?
Você.
É, talvez.
Tracey...
Por favor, Tracey.
Venha.
Era sempre assim...
Isso ao menos funcionava.
Ele vai transar com a mulher.
Sua ex-mulher.
Colocamos o quadro branco?
Não, esperem um minuto. Vamos ver o que acontece.
O que foi?
Diga-me.
- O que foi? - Tracey.
Saia daqui. Caia fora.
- Doutora Klausen. - Sim?
Você não acha que o lançamos rápido demais?
O que lhe preocupa?
- A tensão emotiva? - Sim.
Os testes mostraram que ele assimila muito bem.
Mas você havia dito para ele que você não gravaria o tempo todo.
Sim, mas ele sabia que eu o faria.
- Você quer café? - Sim.
Vai fazer todos chorarem.
Por que você está no escuro?
- Tem água quente? - Sim, eu acho.
- Você quer escutar as mensagens? - Não, não.
Você quer que eu assine, Harry?
- Não. - Então o que há?
- Por que você está no escuro? - Por que você fecha as persianas?
A porta com duas voltas? Eu não quero ter que me esconder aqui.
Eu tenho medo de abrir as cartas, atender o telefone, esperando o quê?
Que você tenha febre? Que você esqueça meu nome e logo em seguida o seu?
- E que você comece a ter raiva de mim? - Não, não.
- Você já chegou a esse ponto. - Mas não, Harry...
Então amanhã ou mais tarde acontecerá.
É inevitável.
No final das contas eu também não poderei suportá-la.
Eles vêm quando para consertar essa janela?
Na próxima semana.
Eles disseram isso no mês passado.
Você os conhece.
Você tem dinheiro, Harry?
Você quer dizer economias?
Não.
- Eu não quero o dinheiro deles. - Seria o meu.
Não assine.
Mas não morra aqui.
Papai.
Papai.
- Você chegou em boa hora. - Que bom!
Para fazer o quê?
Eu posso jogar xadrez. Disseram a você?
- Não. - Sim.
Nós todos aprendemos a jogar.
É isso.
- O que eu posso fazer por você? - Dê-me um pouco de tempo.
O quanto você quiser.
Eu gosto das pessoas da sua idade.
Minha filha Katherine deve ter a sua idade mais ou menos.
Talvez você a tenha conhecido.
Não estou certa.
Você não a teria esquecido.
Muita vitalidade, mas nunca em detrimento da beleza.
Belíssima.
Ela deve ser ótima.
Melhor... Extraordinária.
Agora eu vou jogar xadrez.
Cuidado com meus cabelos brancos.
Foi preciso horas para arrumá-los.
Você vai terminar seu quebra-cabeça?
Mas ele está terminado. O que você tem?
Você lembra o que era a condição da velhice?
Anos de senilidade e angústia.
Acabou nos nossos dias.
Eles morrem.
Como? Felizes?
Eles nem sabem que morrem.
É melhor?
Você se lembra do dia que você trouxe seu pai para cá?
Das alucinações dele?
Eram histórias. Histórias maravilhosas cheias de imaginação.
Nenhuma relação com imaginação.
Seus capilares não enviavam mais oxigênio para seu cérebro.
Talvez seja isso, a imaginação.
Nós fixamos em suas artérias elementos químicos que se dissolvem lentamente.
É repugnante.
Ah, é? O quê?
Que ele esteja feliz?
Carinhoso?
É isso que a repugna?
A miséria humana lhe faz falta, Sra. Mortenhoe?
Sim.
A sorte de ter
uma possibilidade de felicidade.
Não é a pior maneira de terminar a vida.
Adeus, doutor.
Acredite em mim, esse contrato é igualitário.
Exceto o valor. Eu estou pedindo 650 mil dólares.
Não, é realmente impossível.
Nada é impossível, Vincent.
Você pensou que eu viria armada de uma caneta?
Nunca. Mas aceite 500 mil.
É a única morte que eu tenho para vender.
- Então a venda por 500 mil. - Eu quero vendê-la.
- Por 600 mil. - Está certo.
Estou morrendo de fome. Você pode servir-me algo?
- Café e sanduíche? - Está bem.
Café e sanduíche.
Você está tomando o seu remédio?
Remédio?
Devem ter lhe dado algo para ter menos dor...
- Contra a tontura. - Vitaminas.
Tomo de A a Z.
- Você é casado? - Sim.
- Se surpreende? - Não.
Eu tenho três filhos.
Obrigada.
Onde está o dinheiro?
Você não quer terminar seu almoço?
Acabei.
A vista. E antecipado.
A metade antecipado e o resto em um banco no nome de Harry Graves.
Aqui está um bônus em dinheiro e um bônus de viagem para qualquer destino.
Você queria ir para onde?
- Para qualquer lugar. - Qualquer lugar?
Para Tasmânia.
- Por causa do nome. - Para Tasmânia.
Muito bem.
Válido em todas as agências de viagem para duas pessoas.
Uma ida e volta e uma ida simples.
- Eu previ duas idas e volta. - Você é realmente sensível.
- Você quer começar a reportagem agora? - Espere.
Dê-me ainda hoje e amanhã.
Por quê?
- Para ser meu presente. - Está bem.
O que há?
Maggie!
- Chame Mason. - Mason?
O doutor Mason. E faça-o vir rápido!
E o médico de plantão!
Katherine... o que há? Você pode respirar?
Onde está Roddy, caralho! Encontre-o! E uma equipe de filmagem!
- No meu escritório! Agora! - Por quê?
Nós só começamos a filmar em 36 horas.
- Cancele isso tudo. - Tudo?
Isso. Anule tudo.
Você conhece o doutor Mason?
É meu médico de família.
Por que esse teatro?
Para mostrar-lhe a que ponto seria fácil você perder tudo.
Reduza o custo dessa lâmpada de 300.000 dólares.
Os do Harry.
Vem realmente de Zanzibar?
A propósito, onde é Zanzibar?
Mais um desses países que todos já ouviram falar
sem saber onde é.
- Tente adivinhar de onde vem essa planta? - De Zanzibar.
Senhora Mortenhoe!
- Por favor! - Por favor, senhora!
Senhora Mortenhoe?
O Sr. Ferriman reservou um carro com motorista. Se tiver algo para fazer,
nós estamos à disposição 36 horas. Onde você quiser, mas na cidade.
Façamos as coisas em grande estilo, Harry!
... volte para o Senhor!
- Quanto? - Parecem cabelos de verdade.
Quanto?
- Você tem muito dinheiro? - Sim.
Eu troco pelo seu sobretudo e seus sapatos.
- Tudo bem? - Sim, tudo ótimo.
- Você achou alguma coisa? - Sim, várias.
- Você me dá um pouco de dinheiro? - Está certo.
- Não é o bastante? - Não.
- Volto já. - Sem pressa.
Diga-me... Os subsídios do governo são suficientes para vocês?
Prende-nos aqui na favela. É feito para isso, não?
Sim... eu imagino.
Saia daqui.
- Onde está sua esposa? - Não é verdade que cheira bem?
- Fede. É um horror. - Acho que não o convidei para jantar.
- Onde ela está? - Ela está se trocando. Não vai demorar.
Mensagem publicitária.
Fiquem conosco o tempo de passar-lhes uma importante comunicação.
Voltaremos a transmitir em dois minutos.
Não, Roddy, ainda não é isso.
Só um café e um conhaque, Henri, por favor.
- Mas eles são de avestruz! - Eles são extravagantes.
O preço também. Você sabe que é muito difícil pegar um avestruz?
Você sabe, o que incomoda é o conjunto. Assine o primeiro exemplar.
Exatamente... Não foi feito para combinar.
E você é um especialista.
Você tem dinheiro suficiente?
Depende.
Digamos para uma semana.
Parabéns!
- Quem é o felizardo? - Eu não sei.
Pode-se dizer que sou um estranho para ela.
Uma maneira muito estranha de descobrir que sua filha casou.
- Você se lembra dela, Roddy? - De Allegra?
Sim. Ninguém tem seus cabelos cor do sol.
Sinto muito, Vincent.
- Vamos dar uma volta. - Não temos tempo.
Encontraram Katherine Mortenhoe.
- Onde? - Em Gatesbridge.
Ela quase nos escapou.
Essa não vai morrer facilmente, Vincent.
Eu sei. Ela é perfeita para nós.
Desligamento das luzes em dez minutos, meus amigos.
Café da manhã às oito horas.
Se não houvesse a luz do luar por trás seria apenas vidro quebrado.
Desligamento das luzes em dez minutos, meus amigos.
Tudo bem, meu pai. Posso jogar no escuro.
Desculpe, meu pai. Não terá nenhuma luz? Porque eu tenho medo do escuro.
Temos todos medo de algo.
- Isso me assegura. - Há luzes sobre os pilares.
Obrigado. Um biscoito?
Não, obrigado.
Você não poderia trocar de cama comigo?
Sim, porque...
Eu sempre tive medo que mijassem em cima de mim à noite.
Eu vou lhe dizer uma coisa e eu serei muito breve.
Olhe... Esse osso é o septo, é muito duro.
Eu tenho um soco muito forte. Como cimento.
Eu lhe prometo que se você recusar a cama de baixo,
na qual dorme-se tão bem, como na de cima, eu quebrarei seu septo em dois.
Com um só golpe e isso vai impedi-lo de respirar até o fim da sua vida.
Então, de acordo ou não? Desce?
Você quer bolo de amêndoas?
Desculpe-me, Harry.
Você não pode ter raiva de mim.
Tome.
Beba isso.
É água da fonte. Não é whisky.
Eu juro.
Não, eu não juro, mas vai aquecê-la.
Vamos.
- Que horas são? - Muito tarde.
Você deveria dormir.
Eu preciso ser ninado.
Você está com menos frio?
Sim. Obrigada.
Está melhor?
Sim.
Então, no que vai dar?
A luz está boa?
E como é a seqüência das camas?
Pegue bem o foco onde ela deixa cair seus comprimidos.
Eu ligo para você quando puder. Tchau.
Meu pai...
Eu não quero morrer.
Você fica conosco para a missa?
Bom dia!
Está melhor? - Sim, obrigada.
Eu serei mais uma vez obrigado a perturbá-lo. Se não se incomoda.
Você está cheio de olheiras.
É que eu tive que cuidar de uma amiga doente.
- Está melhor? - Está passando.
Obrigada.
Aqueles que quiserem deixar a cidade
receberão seu dinheiro quando derem suas impressões.
Do que ele fala? Impressão?
- Impressão de quê? - Impressão digital.
- Impressões digitais para quê? - Para que não voltemos.
Eu estou certo, meu pai, que o que o senhor dá, será reembolsado.
É uma boa causa, o tempo é bom!
Por que você fez isso, naquela hora?
- Eu não gosto de cooperar. - Eu também não.
Você vai para que lado?
Você não perguntou o meu nome.
Qual é o seu nome?
- Chamam-me de Kate. - Bom dia, Kate.
- Chamo-me Roddy. - Bom dia, Roddy.
É mais fácil falar cara a cara.
Nunca tem aquecedor nos ônibus.
Exceto no verão.
Eu não quero ficar aqui. Ajude-me.
Merda! A polícia!
Por aqui.
Você quer um pouco de chá?
Obrigada. Tem alguém ali que eu conheço.
Não há nada a fazer no momento. Eles passaram dos limites.
Só resta a mim nesta casa. Mesmo na rua.
Onde havia jardins antigamente.
Ele não está mais lá.
As pessoas vão viver em outros lugares.
Eu sei bem o que eles querem.
A calma que nós tínhamos.
- É seu marido? - Não.
Nós nem ao menos andamos juntos.
Sente-se, então.
Depois que nós tivermos conversado um pouco você poderá ir tranquilamente.
- É gentil, obrigada. - Você teria um cigarro?
Você não tem documento, nem carteira de identidade ou licença para deslocamento.
Eu mostrei minha carteira da NTV.
- Como é que provamos que você existe? - Ligue para o meu escritório.
- Por que mendigos teriam escritório? - O que você faz na NTV?
- Eu tiro fotos. - É?
- Onde está a sua câmera? - Eu a perdi na briga.
Você acha que somos imbecis por trabalharmos no subúrbio?
Idiota. Você feriu uma mulher, você talvez tenha
fraturado o crânio de um homem e provocado a sua morte.
Era uma briga! Por que você está me perseguindo?
Eu estou com perseguição, eu? É possível.
Eu creio que é porque você vem da cidade,
e eu detesto as pessoas da cidade.
Eu detesto a arrogância deles, o seu poder, as suas boas maneiras.
E as suas elites. Mas o que eu detesto mais são os seus bajuladores e os seus serviçais.
Merda! Eu não sou um serviçal, seu idiota, então pare...
É uma pena. Você não estava mais sangrando pelo nariz.
O que está acontecendo? Por que a imagem está desfocada?
Você está brincando?
- Onde ele está? - Nem ele sabe. Ele desmaiou.
- Mas eu não reconheci o lugar. - E ela, onde está?
Santo Deus! Que bagunça é essa?
É tudo, menos "A morte ao vivo". É sei lá o quê.
Policial!
Nós!
Você aí!
Em nome de Deus! Acenda a luz! Eu suplico!
Socorro!
Acenda a luz!
Socorro!
Não apague. Não apague, por favor.
Escute, eu...
Tem uma lanterna na minha jaqueta.
Tem que esperar amanhã de manhã. É fechada à noite.
É imprescindível... Eu tenho que ter luz.
Eu fui correspondente de guerra e fui feito prisioneiro.
Jogaram-me num buraco
durante sete semanas.
Não! Não apague! Eu suplico!
Eu sei que eu a perdi.
Não. Nenhuma idéia.
Diga ao doutor Klausen que o meu sucessor deve ser mais calmo.
Então... Tudo está em ordem, senhor?
Antes de ir embora você deveria tomar um chá
ou uma vodka.
Onde está o policial que estava de serviço essa noite?
Ele só volta às 4.
Você quer deixar-lhe uma mensagem?
Você não tem muito material para um cameraman.
Você precisa de um meio de transporte?
Não. Diga ao policial da noite que eu lhe agradeço.
- Então eles o soltaram? - De onde vêm essas maçãs?
Eu as encontrei.
Uma para você.
Como você saiu?
Com o meu jeito sincero e pacífico.
Então, você me esperou?
O que foi?
Você é Katherine Mortenhoe.
Então, caminhamos ou gastamos o dinheiro?
- Quando você soube? - Na primeira vez que eu a vi.
Na igreja?
Você lhes disse?
Para a polícia?
Você já os teria nas costas. Você rompeu um contrato, creio eu.
Muito boa essa maçã.
Muito melhor.
Você deveria tirar a sua.
Ela é formidável.
Venham juntar-se a nós!
O pão é ruim, mas a causa é boa.
- E o pagamento é razoável. - Não, obrigado.
- Por que não? - Acabo de tomar.
Você já fez manifestos?
Muito. No meu tempo. Agora eles os contratam e lhes pagam.
É um modo de viver, à deriva.
Andamos em círculos, criando slogans.
Para que lado é o oeste?
O oeste?
- Para lá. - Eu quero ir em direção ao oeste.
Essas primeiras imagens...
Elas nos mostram as coisas, os lugares,
como se você nunca tivesse visto nada antes,
como se você nunca tivesse ido a lugar algum.
Ele mesmo só compreende uma coisa quando ele a filmou.
Só então ele a conhece.
Eu nunca entendi isso no Roddy.
Como ele faz?
É preciso poder amar alguém sem saber tudo o que ele esconde nele.
Aí está você, Tracey? Como está?
O índice de audiência é de 71%.
74% significa 3 pessoas a cada 4 na Alemanha.
Em 10 minutos termina. Todos os Chefes de Estado vindos de Nova York.
Está assistindo a emissão.
- E não posso ficar por aí. - Você sempre foi assim.
- Não vou me acostumar nunca. - E vai continuar fazendo.
- Não é pelo dinheiro. - É pelo poder?
- Você já viu algumas partes? - E foi o suficiente.
- Quer um Cherry? - Um Martini, por favor.
- Dois Martinis. - Vincent?
Não há ninguém que ache que o que você está fazendo é obsceno, nojento?
Sim... 37% acham isso desprezível, mas nos assistem.
- Eu não entendo. - Eu sim.
É porque é real.
Talvez real demais para você.
Eu posso ficar forte frente a uma mulher que morre.
Ah, é? Eu me pergunto.
Observe como nós temos medo da morte.
É a nova pornografia. A nudez não choca mais ninguém.
Colocamos folhas nos agonizantes e os mumificamos,
em cemitérios, longe de tudo. Quem quer viver com os mortos?
Ninguém. Nem familiares, nem amigos.
Profissionais eficazes e endurecidos.
É essa a última imagem que eles vêem. Eu quero aproximá-los de nós.
- Cativar suas mortes. - Quem?
Quem você quer aproximar de nós? Uma desconhecida.
Justamente. É algo inédito.
- Uma exclusividade... - Sim. Uma exclusividade sensacional.
Com intimidade, verdade...
Ela não deixa de ser uma desconhecida.
Mas você está pagando um terrível melodrama.
- Eu sinto que você o considere assim. - Você não está nem aí que eu ache isso.
71%. 3 a cada 4 pessoas na Alemanha...
Onde está a câmera?
- O quê? - Onde está a câmera?
Onde você acha?
Não roube. Cedo ou mais tarde será descoberto.
Não roube, você vai se sentir bem.
Pague todas as suas compras.
Não esqueça nada, pague por tudo.
- Obrigada. - De nada.
Você viu desde o início? É bonito, não?
Só escuto a mensagem contra roubo. Seu som está estragado.
Oh, não! De novo?
- Eu não queria perder isso. - Por quê?
Porque me faz chorar.
O que eles vão fazer aqui?
Uma escola informatizada. Com pequenas escolas fazemos grandes.
Um terminal de computadores e telas de televisão para os alunos...
- Onde está o professor? - Na cidade.
Ou em uma fita.
Por que você guarda o nome de Mortenhoe?
- Quem lhe falou? - Ninguém. Eu só conheço o nome.
Gerald Mortenhoe.
- Fale-me dele. - Não, eu não falo nunca.
Você é casado, não é?
Sim, eu era.
Sim.
Ela se chama Tracey.
Você gosta de dizer o nome dela.
Sim.
Como ela é?
Ela lembra muito Gerald Mortenhoe.
Não é hoje que a emissão começa?
- Que emissão? - "A morte ao vivo".
- Eu me pergunto o que eles fizeram. - Eles devem ter achado outra pessoa.
Você acha?
- Por quê? Mudou de idéia? - Não, claro que não.
- Mas você queria saber. - Sim.
Não é difícil. Deve ter uma TV
- na cabana do canteiro de obras. - Não.
Oi!
Estava reclamando um pouco com o decorador.
Por que você fica aqui?
- Não entendo. - Vá, vá embora!
Não está bem?
Não temos nada para fazer juntos!
Por que você fica preso a mim?
Por nada.
Eu estou doente.
Eu falei baixo? Estou doente!
Não tem problema.
Você quer dizer um lixo!
Não é nada. Vamos limpar tudo isso.
Saia daqui, seu cafajeste. Eu não quero saber de você!
O que você procura?
Estou fedendo. É horrível!
- Não! Saia daqui! - Vamos limpá-la...
- Não! - Pare!
Só vai piorar!
- Em breve começarei a vomitar! - Pare!
Cale a boca, eu lhe peço. Cale a boca.
Vamos, acalme-se!
Merda! Esses últimos dias têm sido realmente horríveis!
Você pode me ajudar?
Acalme-se.
Não desista.
Você pode me ajudar?
Não.
Mas eu não deixarei que você parta sozinha.
Nem que tenha medo.
- Você vai pegar uma gripe. - E daí? O que muda?
O que você está olhando?
Não consigo acreditar que você esteja doente.
Você sempre diz algo que nos faz rir!
Sou uma revoltada. É isso que sou.
Quem não o é às vezes?
Você não prestou atenção? Quase ninguém.
Não há mais muitos modos de partir.
De partir?
De morrer, ora.
Aquilo que utilizávamos para escrever romances.
Os crimes passionais estão se perdendo também.
Já não resta muita coisa.
Você encontrou sua partida? E eu também talvez.
Sim.
Mas você encontrou um meio de não morrer.
Eu não sei como você fez.
Roddy?
Leve-me até o mar, Roddy.
Até o mar?
- Não importa qual? À minha escolha? - O mar a oeste.
Você vai me levar?
Está indo muito rápido, mais rápido do que eu pensei.
As pílulas que eu dei são mais eficazes do que
pensei. Você viu que ela tremia. E essa paralisia...
Doutor! Um tremido de nada. Ela estava azul de frio.
- Nós ainda temos tempo, eu acho. - Eu digo que ela vai morrer!
Muito rápido!
Quem é Gerald Mortenhoe? Onde fica a escola que ele ensina?
É próximo a Kettering, no interior.
Ela disse: "O mar do oeste". Isso deve significar alguma coisa.
- Ela tem que saber. - Não.
- É impossível ir ao encontro deles. - Você sabe muito bem que não é verdade.
Só dois dias, doutor. Não vamos parar tudo agora!
Você corre o risco de perder tudo em uma hora.
- É um risco que escolhemos. - Que ela escolheu.
Eu sei.
- Eles roubaram um carro. - O quê? Merda...
- Vocês anotaram o número do carro? - Sim.
O que é certo é que eles vão ficar no prego.
Encontre o proprietário e diga-lhe para ficar calmo. Ele logo terá o seu carro.
Que não denuncie à polícia. Diga-lhe que é uma brincadeira,
uma piada entre amigos, os rapazes da NTV que beberam um pouco.
Sim. Foi uma garotinha, aluna de Gerald, quem inventou.
A criança caminha ao longo do rio e percebe alguém se afogando.
Então ela entra na água, avança o quanto pode sem perder o chão.
E ela grita: "Eu não sei nada. Ensine-me e eu o salvarei!"
- Tem que descer imediatamente. - Por quê?
Porque não estamos legais. Por favor, rápido.
Espere...
Tanto assim? Para fazer o quê?
Você acha que esses pobres idiotas se interessam por Katherine Mortenhoe?
FUNERÁRIA POSEIDON.
PROVIDENCIAMOS UM FUNERAL MARÍTIMO PARA VOCÊ SER ENTERRADO NO ESTILO POSEIDON
Você conhece essa praia.
Não essa. Mais longe.
Atrás daquele golfo?
Sim.
Se você quiser a gente pode chegar em menos de duas horas.
Amanhã.
Iremos amanhã.
Tivemos sorte por ser baixa estação.
Você tem certeza?
Eu gosto.
- Juntando as camas deve ficar bom. - Sim.
Roddy?
Queria que dormíssemos lado a lado.
- Apenas isso, você entende? - Como? Sem fazer nada?
Sem fazer nada.
Para uma mulher na sua situação...
Não tem problema. Não vou levar para o lado pessoal.
No início eu pensei que talvez esse local
evocasse lembranças da infância.
Mas ele lhe lembra Gerald Mortenhoe.
É isso?
Vocês passavam o verão ali?
Sim.
Você era feliz?
Em todo caso, em suas lembranças, você era.
Ele está lá agora?
Sim.
E nós ficamos sentados aqui, a duas horas da sua casa.
Já é amanhã.
Como você ainda pode ter medo do que quer que seja?
É assim.
Talvez você ache que eles se enganaram, os médicos.
Não.
Tudo está acontecendo como eles disseram.
- Você quer mais? - Não, obrigada.
O que é o mais difícil, Katherine?
Decepcionar-se ou
decepcionar alguém?
Decepcionar alguém.
O outro é fácil.
Era um grupo de pigmeus, particularmente selvagens,
que viviam longe, longe, no mais profundo da floresta.
Nós buscávamos ainda novas tribos, fazem há anos isso.
Meu amigo era alto,
louro... de Estocolmo.
Ele percebeu que um homenzinho tímido o fixava constantemente.
E ele sentiu que...
que esse pigmeu queria falar-lhe.
Então meu amigo deixou o grupo para ir longe.
E ele foi para o mais profundo da floresta.
E foi aí que o pigmeu o seguiu.
Enfim, meu amigo pára
e o pigmeu o contempla.
E foi aí que...
Talvez porque ele se sentisse um pouco seguro.
E o pigmeu disse a meu amigo, com muita doçura,
e timidez:
"O seu povo sonha?"
E meu amigo disse: "Sim, nós sonhamos. Por quê?
E o pigmeu...
Ele parecia tão desamparado.
Ele lhe disse: "Eu pensava que só nós sonhávamos".
Se ele tivesse vindo até mim eu teria respondido:"um sonho"?
"O que é um sonho?"
- Está levemente embaçado. É uma pena. - Talvez uma poeira no seu olho.
Está bom. Temos que guardar essa tomada.
No telão nós veremos melhor.
- Eu vou lhe dizer uma coisa. - O quê?
Eu sonhei com ela a noite passada.
Coloque-os.
Você pode acompanhar-me à cidade, por favor?
Por quê? Não creio que seja uma boa idéia.
Haverá certamente propaganda, cartazes, fotos.
- Por favor. - O que você quer? Vou buscar para você.
Produtos de beleza.
Eu achava que eu ficaria melhor que isso fisicamente.
- Você está bem! - Por favor!
O que você precisa? Vou buscar para você.
Um quilo e meio de quê?
Batom.
Da cor que você quiser.
Roddy?
Sabe, eu não aceitei o dinheiro deles.
Então... é tudo o que eu tenho.
Então, você vai realmente vê-lo?
Eu não estou tão certo se quero testemunhar a cena.
Você vai reencontrar esse homem depois de quantos anos?
Você sabe dizer às mulheres palavras que as tranqüilizam.
Sim, nisso sou campeão.
Seis anos.
Nada mal esse vestido.
Ele combina com seus cabelos.
Você gostaria que lhe comprassem um vestido assim para o seu aniversário?
Ele é muito grande!
Saia daqui, seu idiota! Eu não quero saber de você!
O que você quer?
- Estou fedendo! É horrível! - Escute-me...
Saia daqui!
Vamos encontrar um lugar para você se lavar.
Não!
Roddy?
Leve-me para o mar.
Katherine!
Roddy!
Estou aqui!
O que está acontecendo? O que você tem?
- Minha lanterna! - O quê?
- A lanterna... procure-a! - O quê? Roddy!
Ajude-me a encontrá-la! A lanterna!
- Onde ela está? - A lanterna...
- A lanterna! - Roddy! O que há?
Encontre essa lâmpada, porra!
Eu lhe suplico! Ache a minha lâmpada!
Onde ela está?
Espere... aqui...
Aqui está ela.
- Onde ela está? - Roddy... aqui.
Acenda-a, acenda-a, por aqui!
Sim, aqui está!
Aqui nos meus olhos. Não abaixe.
Acenda-a, pelo amor de Deus!
A água salgada a estragou? Acenda-a!
Ela está acesa.
Quem é você?
- Quanto tempo? - Doze minutos.
- Você verificou os circuitos? - Tudo está bem.
- E o áudio? - Nada.
Willy... Quanto material temos de reserva?
- O bastante para duas edições. - Não.
Prepare-o.
- Ligue para Tracey. - Tracey, a mulher de Roddy?
Sim, a mulher dele.
Ele talvez tenha feito de propósito. Ou então foi um acidente.
- Não é nele que temos que pensar. - Difícil de saber.
Talvez devessem ter avisado a Roddy que ele não estava condenado.
Agora ele está.
Nós a encontraremos, doutor.
Que circo!
Nós a matamos com drogas
e depois nós a salvamos.
E tudo isso por quê? Ela tem índice de audiência.
Você ainda está aí?
Você ainda está aí?
Sim, você está.
Eu não posso mais!
O que você quer que eu faça? Que eu volte atrás?
Que eu mude as coisas? Que eu apague tudo?
Eu não posso fazer nada mais do que eu fiz.
Nem sentir-me pior.
Coragem, vá embora.
É tarde e eles sabem onde você está.
O vestido deve estar lá, na praia.
Eu não o escolhi.
Foi uma garotinha. Ela tinha os cabelos da cor dos seus.
Ainda não é dia?
Faz frio.
Sempre faz frio.
Eu lembro quando eu era pequeno, tinha tanto sol...
Katherine?
Venha.
Cuidado.
Olhem, eu achei isso.
Sim. É o seu casaco.
Você poderia segurá-lo?
Pode pegá-lo em primeiro plano.
Se queríamos verificar se uma técnica cirúrgica é válida, ela é.
Não. Ela era.
Peguei o casaco dela.
Mas ela, não.
Você tem medo dele. Confesse.
De quem? De Roddy?
Você tem medo, Vincent. E tem razão de ter medo.
Estou aqui por isso, não?
Você percebe que a qualquer momento tudo pode vir abaixo?
Tudo o quê?
Você fala de você.
Como é que ficou?
Deu certo em você?
Eu achei magnífica.
Venha aqui.
Há alguns anos, quando eu trabalhava na União Soviética,
tinha uma velha senhora que sentia as cores com a ponta de seus dedos.
Então?
Laranja!
O marido não tem notícias dela?
Não. Nós o encontramos. Ele estava na casa de uma moça.
De uma de suas colegas. Ele está sendo consolado.
- E onde está Mortenhoe? - Ele não está no Liceu de Kettering.
- Ele tirou uma licença de um ano. - Onde isso?
- Nós estamos tentando descobrir. - Você já deveria saber, inspetor.
Eles estão separados há seis anos.
No entanto, ela ainda é chamada de Katherine Mortenhoe.
Eu a vi chegar ao longo do prado.
Eu tinha esquecido o quanto você era grande.
- Vejo que está usando cores alegres. - Sim, é verdade.
É Roddy.
Bom dia.
Entrem.
- Aqui está. - Obrigado.
Estou muito feliz em vê-la.
Nada mudou muito.
- Por que algo teria mudado? - Em seis anos?
- Você comprou uma televisão? - Sim.
Olhe, a lua e o sol no céu.
- Ainda lhe agrada como antes? - Sim.
Eu gosto da lua na luz do dia.
- Não à noite? - Não. Muito comum.
Você faz muita falta, sabia?
São brócolis.
De vez em quando pequenos barcos os trazem,
vindos da Ilha Deversoir.
Parece que custa oito libras em Nova York.
A última vez que estive em Londres vi uma etiqueta.
Quatro libras o quilo.
E não tinha.
Fui numa outra loja,
e estavam vendendo por oito libras.
Eu disse: "Elas só valem quatro libras na loja vizinha".
E ele disse: "Bom, vá lá".
Eu disse: "Eles não têm mais". E ele respondeu:
"Quando eu não tiver mais, serão quatro libras também".
Roddy?
Você consegue perceber as cores?
Não.
- Quando há luz, você a sente? - Não.
Na verdade, sim. Se ela for quente.
O sol.
Eu o sinto.
- Você não hesitou. - Hesitar?
- Antes de aceitar. - Não. Nenhum instante. É verdade.
Você percebe... Tudo que eu vou guardar...
Qualquer coisa bela... uma criança...
Tudo que é aventureiro...
ou corajoso
inútil, divertido, apavorante,
misterioso, terrível. Basta olhar.
Está no filme.
Para sempre.
Não é pouco!
Sim.
É o brinquedo que acaba com todos os outros.
Na verdade era.
Eles vão me consertar. Eles podem fazer tudo.
E depois não será desagradável poder enfim fechar os olhos.
Robert de Boléac.
Era um soldado afortunado
que adorava música.
Ele até inventou um tipo de cravo.
Compunha músicas o tempo todo.
Como era um amador, cometia muitos erros.
Ele compunha melodias que nunca tínhamos ouvido.
Isso foi em 1314.
R. Bruce estava se preparando para guerrear
com Eduardo II na cidade de Bannockburn.
E Boléac uniu-se a Bruce.
Mas não pela Escócia,
nem título, nem mesmo por dinheiro,
mas para tocar sua música na catedral de Bannockburn.
Ao cair da noite, Eduardo II bateu em retirada.
Seu exército foi dizimado,
e com ele, infelizmente, também o grupo de músicos de Bannockburn.
Mas o concerto.
Foi um desastre. Pior que a batalha.
Boléac começou a esganar raivosamente seus músicos.
Três esmagando os coristas.
Só os mais talentosos e os mais rápidos escapavam,
queimando suas partituras na fuga.
E somente um exemplar escapou.
Ele pertencia a um tocador de alaúde que morreu com a peste negra
no dia do concerto.
Eu o encontrei em um estábulo, em Perth.
É como os brócolis?
Não, é uma história.
Você se tornou cínica. Katherine, nós não éramos cínicos.
Você quer dizer que eu era uma moça ingênua quando nos casamos?
- Uma criança. É tudo. - Você era tão velho. 26 anos.
Eu levei anos para reconstituir as outras partituras dele.
Escute.
Esse diabo de Gascon estava 700 anos à frente de seu tempo!
São harmonias modernas!
Você se sente desarmado, Gerald?
- Desarmado? - Para mudar as coisas.
Sim, é possível.
Mas eu não sinto isso em todo caso.
Há objetos que não têm função alguma a exercer.
É fato, que não têm muito significado.
Como o vôo de um pássaro.
Um homem andando em uma rua.
Ou a sombra de uma nuvem deslocando-se sobre o nosso prado.
Nem tudo é necessariamente decifrável.
Eu penso freqüentemente como um bando de leões,
na borda do cerrado,
alimentados,
a caça já não os interessa mais, mas eles aguardam.
Eles não podem evitar.
Está no sangue deles, eles não vão atacar.
E o vento sopra a grama alta contra a juba do leão.
E...
Aí está.
É tudo. Nada mais.
E mesmo conosco não há nada, geralmente.
Enfim, as pessoas vivem como se houvesse outra coisa.
Elas apenas dramatizam suas vidas. Elas trapaceiam.
Você está apaixonadamente preguiçoso, Gerald.
Sim...
Eu levei tempo.
Eu gostei quando você disse: "Nosso prado".
Eles disseram que viriam de qualquer modo.
Então eu não escondi que você estava aqui.
Katie.
Eles cometeram um erro.
- Qual a diferença? - Não, foi um golpe montado!
Um truque para o programa deles!
Você não está doente.
E ele disse que tem que parar de tomar o remédio.
Imediatamente.
Eu quero tomar um banho.
- Sabe quanto tempo eles levarão? - Não.
Menos de uma hora.
- Não vou esperar. - O que você quer dizer?
Eu gosto do cheiro deste quarto.
É lenha de madeira de faia.
Lenha de madeira de faia...
Eu escrevi isso assim que... assim que eu soube que...
Quando eu soube que...
Você parou no meio de uma frase.
Como nós.
- Katie. - Sim?
Você se arrepende?
Você fala da gente?
Não.
Apenas um arrependimento. Nós não tivemos filhos.
Outros terão por nós.
Fique aqui, Katie.
- O que você disse? - Fique!
Isso lhe custaria muito caro.
Você perderia tudo. O prado, a sua música,
a calma.
Tudo que lhe faz voltar para casa.
Eu sempre a amei.
É verdade?
Foi necessário coragem para lhe dizer.
É bom ouvir.
Katie.
Você quer me agradar?
O que está acontecendo?
Por favor, desça e toque aquela peça musical que você gosta tanto.
- O que você vai fazer? - Eles vão já chegar
e eu não quero ver nem ouvir ninguém.
Katherine!
- Venha! - Não...
- Venha. - Não! Não!
- É preciso. Nós ainda temos tempo! - Não há nada a fazer!
- Sim! - Não!
Sim, eu estou dizendo! Quanto você tomou?
Eu não me importo. Tenho o direito de fazer o que quero!
Gerald.
Eu só tenho isso. Eu só tenho esse meio para vencer.
Vencer?
Eu só tenho este meio para acabar com esse homem.
Vincent Ferriman.
Não, não me pare, Gerald.
Tenho que vencê-lo.
Eu preciso.
Fique tranqüilo.
Não há...
Não há nada mais.
Eu estou bem, é o que importa.
Melhor do que há muito tempo.
Eles disseram que foi um erro, Katherine.
É mentira.
Em quem você vai acreditar, Gerald? Nele ou em mim?
Em você.
Por favor, desça e toque aquela música.
Eu não quero ouví-los quando chegarem.
Neste cômodo
eu não os ouvirei.
Eu olharei
de longe
deixando o vento balançar a relva.
Deixando o vento balançar...
Vá.
Por favor, faça-o por mim.
É tudo que nos resta.
Gerald?
Não os deixem crerem que eu quero fugir deles.
Você não fugiu.
Conte comigo. Eu direi a eles.
Katherine?
Não, sou eu.
Onde está Katherine?
Katherine morreu.
- Há alguns minutos. - O quê?
Roddy, eu queria pedir algo.
Tracey?
- Onde está Katherine? - Você é Vincent?
- Sim. - Katherine nos deixou.
- Onde ela está? - Saia daqui, Vincent.
Será que ninguém lhe disse que ela não tinha mais nada a temer?
Será que não podíamos baixar essa música?
Deixe-a como está. E saia já. Se não eu o mato.
- E Katherine... - Saia daqui!
- Vincent está aí? - Por quê?
- Leve-me até ele. - Roddy!
- Não vale a pena... - Vincent!
Venha aqui, seu imundo desprezível!
Eu vou matá-lo!
Seu imbecil!
Sou eu, Mortenhoe!
Saia daqui, Vincent!
- Ou serei eu que irei matá-lo. - Nojento! Imbecil!
Acabou, Roddy.
Você sabe, não? Ele está acabado.
Ele ainda está vivo.
Não. Ele está morto. Completamente morto.
Mortenhoe?
Sim?
Eu queria apresentar-lhe minha esposa, Tracey.
Ele me disse que tinha caminhado durante todo o primeiro dia.
Caminhado, sem saber para onde.
Não voltou.
Por que ele voltaria?
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