All language subtitles for Miss Marple Sleeping Murder

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Original subtitles

Agatha Christie's Miss Marple

Um Crime Adormecido Primeira Parte

Porque quiseste sair em Dilmouth?

Gostei do nome. Para além disso, ainda mal vi o mar.

Queres ir dar um mergulho, Gwenda?

E porque não? Não sejas pretensioso.

Tudo isto é novidade para mim. E isso que não compreendes.

- Olha, Giles! - O quê?

Pára!

Tenho de ir ver aquilo.

O quê?

Aquela casa.

Gwenda, o que farias com uma casa deste tamanho?

Viveria nela. É justamente o que procuro.

Aquilo com que sempre sonhei.

E a agência imobiliária fica em Dilmouth. Vês, fiz bem em vir.

Querida, os recém casados não compram casas em Dilmouth,

é um sítio para viver após a reforma.

Sou apenas uma neo-zelandesa ignorante, posso fazer o que quiser.

Agência Galbraith & Penderley, em Fore Street.

Se é mesmo isto que queres... Mas não vemos mais casas hoje.

Talvez não precisemos de ver mais casas, ponto final.

Parece muito espaçosa. Tem sete quartos?

Seis, na minha opinião. O sétimo é um quarto de vestir.

É um belo quarto, Sra. Hengrave, mas não se vê o mar.

- É de Devon, Sr. Reed? - Sim, nasci em Plymouth,

mas a minha esposa nunca tinha vindo a Inglaterra.

Regressei na semana passada, após três anos na Nova Zelândia.

- Em negócios? - Sim, na Inspecção-geral de Carnes.

- O meu marido trabalhava no banco. - Deveras?

E foi secretário do clube de golfe. Era muito ligado a Dilmouth.

Aqui é a dispensa das roupas de cama.

A casa de banho é aqui? Vejo que sim.

Com um rebordo em mogno. Não é maravilhoso, Giles?

É um pouco antiquado, mas o meu marido não quis mudar nada.

É perfeita.

Consigo imaginar patos de celulóide a boiar numa banheira destas.

- Queres dizer de plástico, não? - Era celulóide quando era pequena.

Aposto que há outro quarto aqui.

Peço desculpa, Sra. Hengrave.

Mas sinto-me como se estivesse em casa.

Este é o quarto indicado para mim.

E ali está o mar.

- O que se passa? - Não sei.

Foi uma vertigem... Alguém a pisar a minha campa...

A casa não está assombrada, pois não?

Nunca ouvi tal coisa.

Mas alguém morreu aqui.

O meu marido morreu na Casa de Repouso de St. Monica.

Claro, já nos tinha dito. Sinto muito.

Numa casa tão antiga devem ter ocorrido algumas mortes.

Miss Elworthy, a quem comprámos a casa há sete anos,

gozava de uma saúde de ferro. Partiu para o estrangeiro em missão.

Presumo que queiram ver o jardim.

Temos um jardineiro que vem duas vezes por semana,

mas tem sido difícil arranjar pessoal desde a guerra e ele não é...

- Céus... Dêem-me licença. - Com certeza.

Achas que é mais alguém a querer ver a casa?

Duvido. O preço não é muito convidativo.

Teremos de cortar aquela forsítia, tapa a vista por inteiro.

E devia haver uns degraus que dessem para o relvado.

Mais degraus... Pensei que a casa te causasse arrepios.

Isso foi uma tolice. Quero muito esta casa, Giles.

A mobília da Tia Mary ficaria muito bem aqui.

É 500 libras acima das nossas expectativas.

Faz-lhes uma oferta.

Faz um negócio da China com a Galbraith & Penderley e fica feliz.

- Temos de nos levantar. - Porquê?

Só porque não vais fazer nada durante os próximos dois meses...

Mudar-me para esta casa é o trabalho mais difícil que já fiz na vida.

Os homens das obras devem estar a chegar. E a Sra. Cocker também.

Ela disse-me ontem que o diabo é amigo da preguiça.

Acho que estava a falar de ti.

- Olá, Sra. Cocker. - Aqueles homens sujam tudo.

Eu sei. Encontrei isto para cobrir a mesa de jantar. E muito valiosa.

- E já vem tarde, minha senhora. - Vou tratar disso.

Céus, que tolice...

Julgo sempre que há aqui uma porta.

Pouparia muito esforço ter uma porta aí.

Acha que sim? Vou falar com o Sr. Sims.

Importa-se de estender isto na mesa? Vou dar isto ao meu marido

e levar-lhe o pequeno-almoço. - Com certeza, minha senhora.

- É do Raymond West. - Quem?

Raymond West, o meu primo que mora na cidade.

O escritor. Falei-te dele.

O que diz ele?

Quer que vamos passar uns dias com eles a Londres.

Ele e a Joan querem conhecer-te e mostrar-te a cidade.

- Não, Giles. - Porquê, Gwenda? São inofensivos.

Seria óptimo termos uma folga. E tenho assuntos a tratar na cidade.

Porque não queres ir?

Tenho muito que fazer aqui. Isto vai ficar caótico.

Vai ficar caótico, seja como for.

O Sims e a Sra. Cocker tratam disso enquanto descansamos.

Não, vai tu se quiseres. É a ti que querem ver depois destes anos todos.

Eu fico aqui.

- Vais sentir-te sozinha. - Não tenhas tanta certeza.

- Talvez tenha um caso com o Reg. - Com o Reg?

- O carpinteiro. - Ai sim?

Parece que está a voltar aos velhos tempos, minha senhora.

- Aos velhos tempos? - Sim.

Encontrei estes antigos degraus, tal como a senhora queria.

Mas colocaram aqui plantas e cobriram-nos.

Mas que disparate. Taparam a vista para o relvado e para o mar.

E os arbustos fazem a casa escura. Mas ficaram muito bonitos.

A forsítia não vale grande coisa, mas as trepadeiras custam dinheiro.

- Mas assim está bem melhor. - Talvez esteja.

Sr. Foster?

Quem morou aqui antes dos Hengrave? Não ficaram aqui muito tempo.

Cerca de seis anos,

e, antes deles, a Sra. Elworthy.

Era uma senhora religiosa que fazia missões de evangelização.

E antes dela quem era...? Ah, sim, a Sra. Findeyson.

Uma senhora muito distinta. Plantou o jardim antes de eu nascer.

Ela morreu nesta casa?

Não, morreu no Egipto, ou num sítio assim.

Mas trouxeram-na para cá e está enterrada no cemitério.

Ainda não havia aquelas casas novas.

Mudanças...

É preciso haver mudanças. Melhorias.

Ainda não vi nenhumas.

Costumava haver ali um hospital que ficava mesmo à mão,

mas depois construíram um novo a cerca de 1,5 quiIómetros da vila.

Mudanças a toda a hora. E para quê?

Não se planta nada de jeito se não pensarmos com antecedência.

Qual prefere, Sra. Reed?

Temos um padrão às riscas muito bonito. Está na moda.

Uma ou duas paredes com uma tinta a condizer...

- Não sei, Sr. Sims. - É muito actuaI.

Presumo que este não seja o vosso quarto,

uma vez que os outros já estão arranjados.

Gosto muito deste quarto.

- Creio que já foi um quarto de bebé. - O quê?

Sim, têm grades nas janelas.

Seja como for...

Já sei o que quero. Quero papel de parede.

Com muitas papoilas vermelhas.

E mais qualquer coisa...

Sim...

Papoilas e lóios-do-jardim azuis,

a condizer com isto.

Um fundo branco e muitas flores vermelhas e azuis.

- Bem, Sra. Reed... - E mais outra coisa.

Esta porta está emperrada, nem o meu marido a conseguiu abrir.

Pode tratar disso?

Já foi pintada várias vezes.

O meu carpinteiro trata disso.

A remodelação trata dos estragos.

E não vai alterar o preço acordado?

- É que o meu marido... - Claro que não.

Tenho boas notícias para lhe dar a esse respeito, Sra. Reed.

Ai sim?

Aquela porta de ligação para a sala de jantar que me falou.

O Reg removeu o estuque e disse que havia ali uma porta antes.

- Havia ali uma porta? - Não custa nada colocá-la de novo.

Vai poder poupar algum dinheiro.

- Eu sabia que havia uma porta... - É uma questão de senso comum.

Mas o papel de parede que me falou...

Lóios-do-jardim e papoilas...

Vou dar uma vista de olhos nas amostras,

mas não me lembro de nada assim.

Consigo imaginar patos de celulóide a boiar numa banheira destas.

Queres dizer de plástico, não?

Aquela porta de ligação para a sala de jantar que me falou.

O Reg removeu o estuque e disse que havia ali uma porta antes.

Parece que está a voltar aos velhos tempos, minha senhora.

- Aos velhos tempos? - Sim.

Encontrei estes antigos degraus, tal como a senhora queria.

Creio que já foi um quarto de bebé.

Já foi pintada várias vezes.

O meu carpinteiro trata disso.

A remodelação trata dos estragos.

Quero papel de parede com muitas papoilas vermelhas

e lóios-do-jardim azuis.

Estou? Estou?

- Giles? - Está tudo bem, querida?

- Estás em Londres? - Sim, em casa dos West.

Eles queriam mesmo que viesses. Só por alguns dias.

Estás a ouvir, Gwenda?

Sim... estou a ouvir.

Apanha o comboio e vou buscar-te a Paddington amanhã. O que dizes?

Sim, vou fazer isso.

Esplêndido. O Raymond e a Joan vão ficar encantados.

E querem que conheças uma pessoa.

Aqui está ela. Tia Jane, a esposa do Giles, Gwenda.

- Muito prazer, Miss Marple. - Igualmente.

- Sente-se, por favor. - Que nome tão invulgar.

É galês. A minha mãe era galesa.

Mas pensei que a Joan me tinha dito que veio da Nova Zelândia.

A minha mãe morreu a dar à luz.

Como vivíamos na Índia, o meu pai mandou-me para a Nova Zelândia,

para casa de uns parentes. Também ele Morreu pouco depois.

É um clima muito traiçoeiro.

Conheço gente que esteve na Índia, de St. Mary Mead, a minha aldeia.

- A Tia Jane é uma celebridade local. - Que disparate...

Soluciona quebra-cabeças. Mas não aqueles do "The Times".

- Gosto muito das palavras cruzadas. - Que quebra-cabeças, Miss Marple?

Quebra-cabeças complicados, Giles.

Nem imaginas as coisas que acontecem nas aldeias inglesas.

Acho que é por isso que passas tanto tempo lá, Raymond.

Sim, meu anjo. O ambiente convém-me na perfeição.

A coberto de lilases e "darjeeling", agitam-se paixões negras.

Aqui, na simples e deserta Londres,

precisamos da Arte para agitar as águas.

Por falar nisso, hoje vamos todos ao "The Court".

- Ao tribunal? (= Court) - E um teatro, minha querida.

Graças a Deus...

Mais paixões negras, "A Duquesa de Malfi".

Onde está o doce?

Ai de mim! Que ofensa atroz!

A morte das crias de lobo não deve ser chorada.

- Vede este espetáculo. - Pois sim.

Não chorais? Onde os outros pecados falam,

o assassínio grita em altos brados!

O elemento da água humedece a terra,

mas o sangue sobe num ímpeto e vai banhar os céus.

Cobri o seu rosto. Os meus olhos num desvario...

- Ela morreu tão jovem... - Creio que não...

Longo era já o seu tormento.

Éramos gémeos.

Se caísse morto neste instante, mesmo assim viveria através dela.

Ao que parece, ela nasceu primeiro.

Sancionastes com sangue a verdade de antanho.

Mais inimizade existe entre irmãos do que entre estranhos.

Desvendai novamente o seu rosto...

Como posso saber porque gritou?

Webster estava obcecado com a morte, isso é certo.

Muito bem, Raymond.

Pessoalmente, abomino teatro jacobiano.

- Deve ter sido do choque. - Creio que não foi apenas isso, Joan.

Tenho de vos pedir desculpa. A Gwenda lamenta imenso e eu também.

Ela foi deitar-se.

Como está a pobrezinha?

Ainda está muito abalada e não sei bem o que fazer.

É tudo muito complicado, como um dos seus quebra-cabeças.

É melhor não a deixar só por muito tempo.

Não... Mas será que...?

Não quero importunar, mas acha que posso falar com ela?

Seria gentil da sua parte. Sim, ela haveria de gostar.

Óptimo. Bem, acho que vou subir.

Vou servir as bebidas, Tia Jane. O que toma?

Um cacau quente seria óptimo. E um chá doce para a Gwenda.

E muitas botijas de água quente, obrigada.

Sabe qual é o quarto?

- Temos cacau? - E botijas de água quente?

Querida Tia Jane...

Mas temos whisky. E tu mereces um duplo.

Obrigado. A Gwenda está muito abalada.

Acho que estou a ficar louca.

Só posso estar louca.

Todas aquelas coisas que aconteceram na casa...

Em Hillside.

E hoje à noite...

Sim?

Aconteceu tudo de repente.

Estava a gostar da peça,

já nem sequer pensava na casa,

mas depois o Duque disse aquelas palavras.

"Cobri o seu rosto.

"Os meus olhos num desvario.

"Ela morreu tão jovem..."

E eu vi-me lá... Na escadaria, em Hillside.

A olhar através do corrimão.

E vi-a ali estendida, com os seus cabelos louros.

E o seu rosto...

Ela foi estrangulada.

Estava lá um homem...

Vi as suas mãos.

Eram pardas,

enrugadas como as de um macaco.

Estava morta.

- Quem estava morta? - A Helen.

Porque disse este nome? Não conheço nenhuma Helen!

Vê? Estou a ficar louca.

Preciso de consultar um psiquiatra antes que seja tarde de mais.

Pode sempre fazer isso quando quiser,

mas é melhor pensar nas explicações mais simples primeiro.

Disse que muitas coisa naquela casa lhe pareciam familiares.

- Não é verdade? - Sim.

A explicação mais óbvia e mais natural é que já lá tenha estado.

- Noutra vida? - Não, minha querida.

Nesta vida.

Mas a primeira vez que vim a Inglaterra foi há seis semanas.

Da Índia, o meu pai mandou-me directamente para a Nova Zelândia.

Lembra-se disso? Lembra-se da viagem para a Nova Zelândia?

Não.

Penso que é muito provável que tenha vindo para Inglaterra por uns tempos

e que tenha vivido em Hillside.

O quarto que mais se recorda terá sido provavelmente o seu.

Era um quarto de bebé. Há grades nas janelas.

- Mas isso é impossível. - Não é impossível.

Apenas uma coincidência extraordinária.

E, nesta vida, as coincidências acontecem.

Lembre-se que foi você quem escolheu a casa.

E nunca se sentiu mal

até começar a descer as escadas e olhar para a entrada.

Então isso também aconteceu. A Helen...

Temos de aceitar que é uma recordação tal como todas as outras.

Disse-me que viu o corpo através do corrimão.

Tal como teria visto, do alto da escadaria,

quando era criança.

Preciso de falar com a Tia Alison.

Ela vive na Nova Zelândia?

Ela há-de saber.

- Bom dia, Miss Marple. Incomodo? - Claro que não, meu rapaz.

A Gwenda já vai descer. Tomou o pequeno-almoço na cama.

Deitámo-nos muito tarde ontem.

A Gwenda conseguiu falar com a parente da Nova Zelândia?

Acho que a Tia Alison não percebeu que aqui era de noite.

Mas o que disse à Gwenda era verdade.

O pai dela trouxe-a para Inglaterra após a morte da mãe,

conheceu uma jovem no navio

e casou com ela em Londres... - Uma madrasta?

A Tia Alison lembrou-se do nome dela?

Creio que o deixou pouco depois.

Foi por isso que mandaram a Gwenda para a Nova Zelândia.

Mas a Tia Alison lembrou-se de uma coisa.

Eles tiveram uma casa em Devonshire.

Pensou que fosse em Dartmouth, mas podia ter sido em Dilmouth.

Tudo se encaixa.

A Gwenda explicou à Tia Alison o motivo das perguntas?

Disse que teve um pressentimento que já tinha estado em Inglaterra,

mas a ligação estava má.

E a Tia Alison deixou coisas por desvendar no passado da Gwenda.

É evidente que não foi um casamento feliz e ela preferiu esquecer isso.

- Que bom vê-Ia, minha querida. - Bom dia, Miss Marple.

O Raymond está de volta da escrita, mas onde está a Joan?

No escritório.

O Giles contou-lhe as novidades? E disse-lhe que a senhora é genial?

Nem conseguimos dormir. Aquilo explica muita coisa,

mas deixa tanto por explicar. - Sim, isso é verdade.

- Mas agora temos de saber. - O quê?

A verdade. Quem era a Helen?

Terá sido mesmo assassinada? Preciso de saber.

Aconselho-a veementemente a não fazer isso, minha querida.

Porquê? Creio que não passam de fantasias,

mas a Gwenda só ficará descansada quando souber.

O Giles tem razão. Preciso de saber a verdade. Não compreende?

Claro que compreendo. Mas vocês são tão novos e simpáticos

e têm uma vida inteira pela frente. E não imaginam as coisas...

Estava a pensar no Freddie Lovelace.

Ele tinha uma quinta de lacticínios

e, ao que parece,

a mãe tinha ganhado um concurso de crisântemos,

muito antes de ele ter nascido. Foi um êxito para ela.

Quando ela morreu, ele procurou o certificado para o emoldurar.

Tinha muito orgulho nela. Foi um erro terrível.

Porquê? Ela não tinha ganhado?

Não, minha querida, ela não era mãe dele.

Estou apenas a dizer que gostaria,

mas gostaria mesmo muito, que não remexesse no passado.

- Estava aqui? - Mais perto das escadas.

Acho que é verdade.

O que Miss Marple nos disse.

Não te lembras de mais nada aqui na entrada?

Só da Helen.

Ninguém em Dilmouth sabe de nada, por isso não pode ter sido homicídio.

E o registro de óbitos da paróquia também não ajudou.

Que idiotas... Sabes a quem devíamos perguntar?

- A quem? - Aos agentes imobiliários.

O meu pai deve ter comprado a casa, ou pelo menos alugado.

Claro, Galbraith & Penderley.

Havia um Halliday no meu liceu...

... em Yorkshire.

Foi há 70 anos.

Santo Deus, porque vieram falar comigo?

Sou apenas um velho. Reformei-me há muito tempo.

Pensámos que talvez se lembrasse, Sr. Galbraith,

porque o meu pai esteve na Índia

e o Sr. Penderley disse que esteve lá na Primeira Guerra Mundial.

Disse na Índia?

Achamos que o pai da Gwenda pode ter alugado Hillside.

Chamava-se Hillside na altura?

Houve um homem, com uma esposa jovem e uma criança.

- Uma menina. - Era eu.

Não me diga!

Ora, ora...

Como é que ele se chamava?

Halliday.

É isso mesmo, minha querida. Um tipo simpático.

Tinha uma esposa muito bonita. Jovem, de cabelos claros.

Queria estar perto dos seus parentes, ou algo assim.

Sim, muito bonita.

Quem eram os seus parentes?

Não faço ideia, minha querida.

- Não se parece com ela. - Não...

St. Catherine's. Era esse o nome da propriedade.

Ficou com St. Catherine's por oito guinéus por semana,

enquanto a Sra. Findeyson estava no Egipto.

A jovem não fugiu com outro homem? A esposa do Halliday?

Pensámos que o senhor soubesse.

Não sei, minha querida, já foi há muito tempo.

Digam à Beryl que pode trazer a minha bebida.

Então, não foi um sonho.

A minha madrasta era jovem.

E tinha cabelos claros.

Mas ainda não sabemos o nome dela.

Não sabíamos. Chegou uma carta do Raymond.

Pedi-lhe para investigar em Somerset House.

Em Somerset House?

O registro civil onde guardam os nascimentos, óbitos e casamentos.

Aqui está. Um duplicado da certidão de casamento do teu pai.

Cartório de Kensington, 7 de Agosto.

Kelvin James Halliday.

Casado com Helen Spenlove Kennedy.

Mas não a podes ter visto a ela.

O Galbraith disse que ela fugiu.

E como podemos saber isso?

Como sabemos que ela fugiu?

Miss Marple!

Bem me pareceu a senhora.

Tenho a certeza que é uma grande surpresa para si.

O que faz aqui?

O meu médico recomendou-me os ares do mar

e você sempre me disse que Dilmouth era uma bela vila.

A cozinheira de uma amiga minha abriu aqui uma hospedaria,

por isso decidi vir. - Mas porque não nos visitou?

Os mais velhos são sempre um fardo para os recém-casados.

- A senhora, não. - Eu sei que seria bem acolhida.

E que tal vão as coisas?

Para ser sincera, estava agora mesmo a pensar em vocês.

- A sério? - Estive a ler o jornal local.

É sempre uma boa fonte de informação.

Então viu o nosso anúncio.

Lamento, mas não seguimos o seu conselho.

Os bons conselhos são ignorados, mas não é motivo para não os darmos.

Os anúncios sempre me intrigaram.

"Pede-se a quem tenha conhecido Helen Spenlove Halliday,

"cujo nome de solteira era Kennedy, etc..."

- Sempre era a Helen? - Sim.

Perdoe a minha preocupação, mas a minha vida é tão monótona

e creio que não me levará a maI se pedir para me manter informada.

Claro que não. Se não fosse por si, a esta hora estaria num manicómio.

Contar-lhe-ei tudo.

Mas tem de ir tomar chá comigo e aproveitar para ver a casa.

Também colocámos o anúncio no "The Times",

por isso alguém deve responder, não acha?

Penso que sim, minha querida.

"Galls Hill, Woodleigh Bolton."

"Prezado senhor, em resposta ao seu anúncio no "The Times","

"Helen Spenlove Kennedy é minha irmã."

"Perdemos o contacto ao longo dos anos"

"e gostaria muito de ter notícias dela."

"Com os melhores cumprimentos, Dr. James Kennedy."

Deus do Céu! Não me diga que é a Gwennie.

Sim, sou a Gwennie.

Temos de comemorar. Vamos tomar um chá.

- Sentem-se, por favor. - Obrigado.

Compraram a casa em Dilmouth, foi?

Sim, foi uma estranha coincidência. Comprámos Hillside.

Creio que me falou disso ao telefone.

A casa estava à venda.

Foi a casa onde o meu pai viveu, há muito anos.

Hillside? Mas certamente...

Mudaram-lhe o nome, pouco antes da guerra.

Não me enganei na casa?

Em Leahampton Road, quando se desce para a vila?

Isso mesmo, chamava-se St. Catherine's.

Sim, claro.

Vamos tomar um chá, Sra. Rowe.

Com uns bolinhos, torradas com manteiga, ou algo assim.

Não costumo tomar chá.

Porque voltou a St. Catherine's? Não se deve lembrar de muito.

Muito pouco. Mas senti-me em casa.

Sentiu-se em casa...

Pensei que me podia contar a história.

Do meu pai, da Helen...

- Bem, de tudo. - Há pouco para contar.

A Helen regressava da Índia, conheceu o seu pai no navio.

Ele havia perdido a esposa, apaixonou-se por ela

e ela teve pena dele, é tudo.

É difícil perceber porque estas coisas acontecem.

Casaram em Londres e vieram ter comigo.

Tinha um consultório em Dilmouth na altura.

O Kelvin era um tipo simpático, um pouco nervoso e abatido,

mas eles eram muito felizes.

Contudo, antes de fazer um ano, ela fugiu com outro homem.

- Mas já deve saber isso. - Fugiu com quem?

Não me disse. Nunca fui seu confidente.

Mas era notório que havia alguma tensão entre ela e o Kelvin.

Não me quis dizer o que se passava. Eu não teria aprovado.

Recebiam muitos hóspedes. Sempre imaginei que fugira com um deles.

- Eles não se divorciaram? - A Helen não queria o divórcio.

O Kelvin contou-me isso. Foi por isso que pensei, talvez erroneamente,

que se tratasse de um homem casado. Alguém com uma esposa católica.

- E o meu pai? - Também não queria o divórcio.

Porque decidiu mandar-me para a Nova Zelândia?

Por pressão dos vossos parentes, e após a separação...

- Porque não me levou ele mesmo? - Não sei.

Estava muito debilitado, na altura.

- Mas morreu de quê? - Não me lembro dos pormenores.

Ele estava muito debilitado e deu entrada num sanatório,

algures na costa Leste. Foi lá que morreu, dois anos mais tarde.

- Onde, exactamente? - Lamento, mas não me recordo.

Pode dizer-nos onde foi enterrado?

Acho que não devemos remexer no passado.

Foi há muito tempo

e perdemos o contacto quando ele saiu de Dilmouth.

Não faço ideia onde o seu pai esteja enterrado.

- Isso é estranho. - De todo. A Helen era a ligação.

Sempre gostei muito da Helen, tentei cuidar dela.

Era apenas minha meia-irmã, muito mais nova do que eu.

Esteve envolvida com um homem de reputação duvidosa.

Tive de resolver esse assunto

e ela decidiu partir para a Índia para casar com o Walter Fane.

Era filho de um advogado proeminente de Dilmouth,

um sujeito muito insípido.

Quando chegou a Bombaim e o viu, ela cancelou o casamento.

E conheceu o seu pai quando regressava a casa.

Percebe o que quero dizer? Sempre me preocupei com a Helen.

Sabe onde ela está? Gostava de entrar em contacto com ela.

Não.

Não sabemos de nada.

Foi por isso que viemos aqui.

Mas depreendi do anúncio...

- Porque colocaram o anúncio? - Tínhamos esperança...

Pensámos que alguém que a conhecesse

me podia falar do meu pai.

Deveras? Sinto muito. Não sei mais nada.

O que achaste dele?

Acho que esconde algo.

Quem me dera nunca ter começado isto.

Jim?

Vê só o que encontrei no jornal.

Por pouco não o usei para secar as batatas.

"Pede-se a quem tenha conhecido Helen Spenlove Halliday,

"cujo nome de solteira era Kennedy,

"que entre em contacto com os Srs. Newman..."

Era a Sra. Halliday para quem trabalhei em Dilmouth.

Ela chamava-se Helen e era irmã do Dr. Kennedy,

que curou as minhas frieiras.

Achas que isto mete dinheiro? Talvez um testamento?

Já foi há tanto tempo...

Achas que é coisa de Polícia, Jim?

- Isso que interessa? - Sabes bem o que sempre pensei.

Disse-o à Edie, mas ela não me deu ouvidos.

Tinha mais umas coisas a dizer, na altura,

mas, naquela noite, fui ao cinema e não queria que ninguém soubesse.

Não deve ser coisa de Polícia, já passou tanto tempo...

Mas não diz que é em nosso benefício.

Achas que os devia contactar, Jim?

- Eu não o faria, Lily. - Porque não?

Daí nunca vem coisa boa.

Para quando é o jantar?

Eu atendo, querida.

- Estou? - Sr. Reed, fala o Dr. Kennedy.

- Olá, Dr. Kennedy. - Estive a pensar na nossa conversa.

Há uma ou duas coisas que o senhor e a sua esposa deviam saber.

É estranho voltar aqui.

Presumo que ainda queira encontrar o sanatório onde o seu pai morreu.

Sim, claro.

Deve ser fácil depois do que lhe disse.

- Vamos sentar-nos. - Obrigado.

Achei por bem ser eu a contar-lhe os factos.

Não lhe vai servir de nada, Gwennie.

Mas cá vai.

Não, obrigado.

O seu pai não padecia de uma doença física.

O sanatório em questão era para doentes mentais.

Um hospital psiquiátrico?

Quer dizer que ele era louco?

Teve um esgotamento nervoso.

Tinha alucinações obsessivas.

Que tipo de alucinações?

Estava convencido que tinha estrangulado a mulher.

Não...

Estrangulado?

- E foi verdade? - O quê? Claro que não.

- Como pode saber? - Essa questão nunca se pôs.

Ele andava instável há já algum tempo

e o choque de ver a Helen partir foi a gota de água.

Se um homem prefere que a esposa esteja morta a tê-lo traído,

pode convencer-se de tudo, até de a ter matado.

Tem a certeza que não há hipótese de ele ter feito o que afirmou?

Absoluta. Recebi duas cartas da Helen.

A primeira, uma semana após ter partido para França,

e outra cerca de seis meses mais tarde.

Tudo aquilo não passou de uma alucinação.

- Pode contar-nos como se passou? - Vou tentar.

Ele tinha tido alguns sonhos

que acabavam todos da mesma forma, com ele a estrangular a Helen.

Tudo acabou uma noite depois de ter voltado do hospital.

Lembro-me que era sexta-feira.

Kelvin estava à minha espera no consultório.

Estava ali há um quarto de hora.

Quando entrei, olhou para mim e disse:

"Matei a Helen."

Não sabia o que pensar. Perguntei se tinha tido outro sonho.

Ele respondeu: "Não, é verdade. Está estendida no chão, morta."

Pareceu-me calmo e lúcido.

Levei-o no meu carro e fomos até à casa.

Estava silenciosa e às escuras.

- Subimos até ao quarto. - Ao quarto?

Sim, foi onde tudo aconteceu.

Mas quando lá chegámos, não havia nada. Estava arrumado.

Foi tudo uma alucinação.

- O que disse o meu pai? - Insistiu na mesma história.

Dei-lhe um sedativo e deitei-o no quarto de vestir.

Encontrei um bilhete no cesto de papéis.

Tinha escrito: "Vou partir com o único homem que amei na vida."

Era óbvio que ele o tinha lido

e sofrido um ataque de amnésia.

E é tudo.

Não estava sozinho em casa, naquela noite.

Não, você estava na cama.

Mas interroguei a criada.

Foi comigo ao quarto da Helen e revistámos as suas coisas.

Arrumara uma mala e um saco antes de partir.

Na manhã seguinte, falei com o Kelvin

e ele concordou em dar entrada no hospital.

Recebi uma carta da Helen, de Biarritz.

Dizia que não queria o divórcio e pedia ao Kelvin para a esquecer.

Ele deu entrada num hospital psiquiátrico privado

e foi lá que morreu.

- Recebeu outra carta da Helen? - Sim, vinda de Florença.

Dizia que se o Kelvin quisesse o divórcio, ela concordaria.

Mostrei-lhe a carta, mas ele recusou imediatamente.

Escrevi a dizer-lhe que ele não o queria.

Foi a última vez que tive notícias dela.

Como é óbvio, a guerra apagou muitas coisas.

Lamento ter de lhe contar isto, Gwennie,

mas tinha de saber.

A Tia Alison nunca disse nada.

Não, nunca.

- Eu sempre soube. - Não podemos ter a certeza.

Sabia que era a Helen. Vi-a ser estrangulada.

Mas não havia cadáver. O teu pai enganou-se e tu também.

Não, Giles.

É a única coisa que faz sentido, Gwenda.

Imagina que a viu a escrever o bilhete.

Imagina que ficou furioso e que a agarrou.

Apertou-lhe o pescoço e foi isso que viste.

- E depois? - Depois ela desmaiou.

Ele pensou que a tinha matado e foi a correr ter com o Dr. Kennedy.

Entretanto, ela acorda, ou o amante aparece...

Não, é impossível. Eu sei que estava morta.

Como um cão que uiva à lua.

- Olá. - Bolas!

- O que faz ela aqui? - Convidei-a para tomar chá.

- Gwenda... - Agora não há volta a dar-lhe.

Já que insistes, querida.

Olá.

Olá, Miss MarpIe.

- Está a gostar de Dilmouth? - Sim, muito.

Tenho aqui amigos que têm amigos e já recebi muitos convites.

- Que bom. - Sem dúvida.

Mas que bela vista.

- Já estão instalados? - Bem...

A verdade, Miss Marple, é que recebemos uma visita.

E foi um grande choque para mim.

Agora compreendo tudo.

Foi o que pensou em Londres, não foi?

Pensou que o meu pai pudesse estar envolvido.

Essa hipótese passou-me pela cabeça.

Em casos de estrangulamento, o marido está muitas vezes envolvido.

Gostava de ter seguido o seu conselho.

Mas depois de começarmos, não podemos voltar atrás.

Não.

Por mais perigosa que seja a viagem, não podemos voltar atrás.

E nem podemos seguir em frente. Nada faz sentido.

Há sempre o factor "X".

"X"?

O factor desconhecido, alguém que ainda não apareceu,

mas cuja presença se adivinha. Talvez um amante.

Alguém, que não a Helen, que tenha enviado as cartas do estrangeiro.

São muito novos para se lembrarem do caso do Dr. Crippen,

um caso semelhante a este.

Temos de ir ao hospital onde o meu pai faleceu.

Talvez encontremos alguma resposta.

Lembro-me bem do seu pai, Sra. Reed, apesar de não ser meu paciente.

Foi tratado pelo Superintendente, o Dr. McGuire. Eu era um assistente.

- Entrem, por favor. - Obrigada, Dr. Penrose.

Obrigado.

Recebi a carta do Dr. Kennedy.

Estive a rever a ficha clínica do seu pai.

Tem contornos invulgares. Muito interessantes.

Sei muito pouco sobre o meu pai, Dr. Penrose.

Tínhamos esperança que nos contasse o que sabe.

Pois...

Uma obsessão notável. Acreditava ter estrangulado a mulher por ciúmes.

A alucinação em si não era invulgar,

mas não havia corroboração dos sintomas psicóticos.

O que quero dizer, Sra. Reed, é que ele não era louco.

Ou não parecia ser.

Como descreveria o meu pai, Dr. Penrose?

Muito credível.

Meigo, gentil, muito controlado.

Para ser sincero, a princípio acreditei nele.

Acreditou que ele tinha matado a mulher?

Eu disse a princípio.

Mas à medida que desvendámos o passado do Major Halliday,

fomos percebendo que se tratava de uma alucinação neurótica,

com reminiscências na sua infância.

Infelizmente, não tivemos tempo de concluir o diagnóstico.

Presumo que saiba que ele se suicidou.

Não...

Não, não sabíamos.

Sinto muito, pensei que soubessem.

Reconhecemos alguma responsabilidade.

Receitaram-lhe comprimidos para dormir antes de dar entrada.

Fingiu tomar a dose nocturna até ter comprimidos suficientes.

- Era assim tão infeliz? - Foram os remorsos, não a depressão.

Primeiro, tentou chamar a Polícia.

Um comportamento normal para quem quer ser castigado.

Lembro-me que me disse

que houve uma altura em que pensou que a mulher o tentava envenenar.

Algo relacionado com a sua passagem pela Índia.

Casos de mulheres que tentam enlouquecer os maridos

envenenando-os com datura eram freqüentes nos tribunais locais.

Aqui está uma consulta típica.

Os apontamentos do Dr. McGuire. Diz-lhe o seu pai:

"Entrei em casa, estava tudo às escuras."

"Dirigi-me à sala de jantar, servi-me de uma bebida"

"e segui para a sala de estar."

Depois diz que não se lembra de mais nada,

até dar por si no quarto a olhar para Helen, estrangulada.

- Sabia que a tinha matado. - Como podia saber?

Pergunta: "Lembra-se de a ter matado?"

Resposta: "Não."

"Então, como pode ter a certeza?" Resposta: "Porque estava morta."

O mesmo padrão de resposta repete-se várias vezes.

Foi impossível demovê-lo.

É verdade, ele deixou um diário.

Suponho que queira levá-lo.

Não tem grande importância para os nossos registros médicos.

- Quer levá-lo, Sra. Reed? - Sim, com certeza.

"Qual é a verdade?"

"Escrevi uma carta ao James Kennedy."

"A Helen que me venha visitar, se está mesmo viva."

"Diz que não sabe onde ela está, mas não me deixo enganar."

"É um bom amigo e sabe que a matei."

"Depois de todos aqueles sonhos, os pesadelos..."

"Porque eu sempre soube, desde o início, que havia outro homem. "

Há sempre o factor '"X".

O factor desconhecido, alguém que ainda não apareceu,

mas cuja presença se adivinha. Talvez um amante.

Mas depois de começarmos, não podemos voltar atrás.

Por mais perigosa que seja a viagem, não podemos voltar atrás.

"Esta é a única solução. Para mim e para a minha pequena Gwennie."

"Sempre soube que havia outro homem... "

Continua, de seguida, a segunda parte...

Agatha Christrie's Miss Marple

Um Crime Adormecido Segunda Parte

O que é isto?

O diário que o meu pai escreveu enquanto esteve no sanatório.

Confirma o que o Dr. Penrose nos contou.

Que o meu pai se suicidou porque pensava ter estrangulado a Helen.

- Mas quero que o leia. - Obrigada, minha querida.

Não acredito que a tenha matado. Sei apenas o que me lembro;

de ter estado, muito pequena, no cimo da escadaria,

e ver um homem com mãos de macaco a apertar o pescoço de uma jovem.

E isso é verdade. Sabemos agora que é verdade.

Só quero provar uma coisa:

que o meu pai não era louco e que não a matou.

Alguém respondeu ao anúncio que colocaram no jornal local?

Ainda não. Não vai ser fácil.

Pois não.

Não agora que passaram 20 anos desde este crime adormecido.

Diz que o seu pai achava que a Helen o drogava para lhe confundir a mente?

Sim, mas o Dr. Penrose não acredita nisso.

Disse que o meu pai achava isso

por ser comum na Índia as mulheres drogarem os maridos com um veneno.

- E há ainda as cartas da Helen. - Que cartas?

Tenho-as aqui. Trouxe-as o Dr. Kennedy quando voltámos.

Recebeu duas cartas da Helen após o seu suposto homicídio.

Essa é a segunda. A morada é uma caixa postal.

Pensa ter deitado a primeira para o lixo.

Esta foi a única coisa que encontrámos na sua caligrafia.

É uma lista de bolbos ou sementes para plantar.

Sim, é isso mesmo.

A caligrafia parece-me igual, mas não sou perito.

Nem eu. Mas tenho um amigo, Sir Henry Clithering,

que tem contactos no Ministério do Interior.

- Óptimo, porque parece-me... - Sim, Giles?

Parece-me que procuramos o factor "X", foi o que lhe chamou.

Alguém apaixonado pela tua madrasta que a matou num acesso de ciúmes.

Já se vê que tipo de rapariga era.

- Dissoluta. - Mas nada sabemos dos seus amantes.

Desculpe-me dizê-lo, mas está enganado.

Temos o homem que ia encontrar na Índia para casar, por exemplo.

Claro, o advogado. Como se chamava?

Walter Fane. Vou tomar chá com a mãe dele na quinta-feira.

Céus, Miss MarpIe, como conseguiu?

Eu disse-lhe que tinha amigos que têm amigos aqui.

E havia outro homem. Alguém com quem se envolveu quando era mais nova.

De reputação duvidosa, de acordo com o Dr. Kennedy. Não admira.

- Já são dois. - Podemos deduzir um terceiro.

Porque diz isso?

Ela partiu para a Índia para casar com Walter Fane,

mas, assim que chegou, mudou de ideias. Porquê?

- São coisas que as mulheres fazem. - Mas só em certas circunstâncias.

Algo que ele fez?

Mas é claro. Ela conheceu outra pessoa no navio.

- Oportunidade. - Luar no convés do navio...

Mas não casou com ele.

- Mas que parvoíce... Já era casado. - Exactamente.

Foi o que o meu pai escreveu. "Sempre soube que havia outro homem."

Temos de encontrar e interrogar todos os seus amantes

para descobrirmos o culpado.

Acho que está tudo esclarecido, Sra. Reed.

Quando pretende vir assinar o testamento?

Quando quiser. Moramos perto, Sr. Fane.

Sim, deu-me a sua morada.

Hillside. Creio que já se chamou St. Catherine's.

Sim, em Leahampton Road.

Que tal segunda-feira, às dez da manhã?

Sim, perfeito.

Sabe, escolhi a sua firma porque penso...

Creio que conheceu a minha mãe.

Deveras? Como se chamava?

Halliday. Megan Halliday.

Disseram-me que estiveram noivos.

Não, nunca conheci a sua mãe, Sra. Reed.

Mas estive noivo, por pouco tempo, de Helen Kennedy,

que casou com o seu pai em segundas núpcias.

Compreendo, desculpe a confusão. Foi com a minha madrasta.

Sabia que tinha sido na Índia, e pensei que fosse com a minha mãe.

Helen Kennedy foi para a Índia para casar comigo, mas desistiu.

No caminho para casa, conheceu o seu pai, após a morte da sua mãe.

- Meti o pé na argola? - Foi há 19 ou 20 anos, Sra. Reed.

É tempo suficiente.

Por certo saberá

que o seu pai e a Helen viveram um bom tempo na sua casa em Dilmouth.

Foi uma das razões porque viemos. Foi óptimo saber que estava à venda.

Lembro-me desses tempos.

Talvez não se recorde, mas devo tê-la visto em pequena.

Tinha apenas dois ou três anos.

Veio da Índia em licença, ou coisa parecida?

Não, não. Deixei a Índia para sempre.

Passeio os exames de Direito e vim para a firma do meu pai.

Não voltei a sair daqui.

Sim, desde essa altura.

Tem de ir tomar chá com a minha mãe. E leve o seu marido.

- Obrigada. - Segunda-feira, às dez horas.

Adeus, Sr. Fane.

- E então? - Esteve em Dilmouth naquela altura.

- Mas não pode ser ele. - Porquê?

É muito pacato e banal. Uma mosquinha morta.

- São sempre esses. - O quê?

- Que cometem os homicídios. - Sim, talvez.

Quando lhe falei na casa... Talvez estivesse apaixonado por ela.

Olha, está ali Miss MarpIe.

O que andará a fazer?

Compras para as férias. Não é assim que vai desvendar o mistério.

Aqui tem, camisolinhas de Verão.

Duas, tal como pediu. Julgo que são o seu tamanho.

Acertou em cheio, obrigada.

Mas o Verão este ano está fraco.

A última vez que estive em Dilmouth, o tempo estava esplêndido.

- Mas já lá vão 20 anos. - Sim, minha senhora.

Fiquei em casa de uns amigos, em Leahampton Road. St. Catherine's?

- Talvez conheça. - Conheço, sim.

- Devia ser a Sra. Findeyson. - Estes amigos mobiliaram a casa.

Era o Major Halliday, a esposa e uma filha pequena.

- Vai precisar de mais alguma coisa? - Não, apenas as camisolinhas.

- São oito libras e dez pence. - Com certeza. Aqui está.

Os Halliday tinham uma óptima cozinheira.

Deu-me uma receita de tarte de maçã e outra de pão de gengibre.

O que será feito dela?

Deve ser a Edith Pagett. Ainda mora aqui em Dilmouth.

- Que interessante. - O seu troco.

Obrigada.

Sempre tive muita pena do Major Halliday.

Creio que a sua jovem esposa o trocou por outro homem.

- Sim, minha senhora. - Não era irmã do médico?

Isso mesmo. O Dr. Kennedy é muito boa pessoa.

Mas não sei o que é feito da sua irmã. Ninguém fala dela.

Pois não, claro.

Muito obrigada.

Não me saberá dizer como posso encontrar a Edith Pagett.

- Sei sim, minha senhora. - Fico-lhe grata.

É que eu perdi a receita e gosto muito de pão de gengibre.

Valha-me Deus... A pequena Miss Gwennie. Quem diria?

Entrem.

- Lembra-se de mim, Miss Pagett? - Claro que sim.

Mas trate-me por Edie, como antigamente.

Sentem-se, por favor.

Eu e a Lily brincávamos muito consigo.

A Lily era a criada, Lily Abott.

Era uma rapariga nova e atrevidota.

O senhor desculpe esta tagarelice toda,

mas falar recorda-me os velhos tempos.

A sua amiga, Miss Maple, passou por cá

e disse que me queria falar.

É sobre os velhos tempos. Fui criada na Nova Zelândia,

por isso nada sei da minha vida aqui, com o meu pai e a minha madrasta.

Ela gostava muito de si.

Passeava consigo na praia, brincavam no jardim...

- Também ela era uma garota. - E gostava dela?

Claro que sim. Digam as pessoas o que disserem.

Nunca teria acreditado que ela fizesse o que fez.

Mas já corriam boatos...

Faz ideia com quem ela terá fugido?

Tínhamos as nossas suspeitas. A Lily tinha.

Mas ela era uma tonta.

"Aquele fulano gosta dela, Edie", costumava dizer-me.

- E a mulher dele ficava fula. - De quem?

Não me lembro do nome dele.

Coronel Esdale? Seria Astley? Não...

Ele e a mulher ficaram hospedados no Royal Clarence.

Hóspedes de Verão?

Mas acho que ele, ou o casal, já conheciam a Sra. Halliday.

Ainda estavam cá quando a Helen... a minha madrasta se foi embora?

Acho que partiram um ou dois dias depois.

Foi próximo o suficiente para fazer correr boatos.

Acho que eles são do Norte.

Penso que de Northumberland.

Ela tinha medo de algo, não tinha?

- Medo? - Sim.

Tem piada que fale nisso.

A Lily veio ter comigo um dia, tinha estado a limpar a escadaria,

e disse que ouviu zaragata. Por vezes, usava uma linguagem menos própria.

Tinha ouvido os patrões na sala de estar.

"Tenho medo de ti", foi o que disse a Sra. Halliday.

E pareceu bastante assustada.

"Há muito tempo que tenho medo de ti. Não és normal.

"Desaparece e deixa-me em paz", foi algo assim.

A Lily levou aquilo a sério, e quando aquilo aconteceu...

Não sei porque lhe estou a contar estas coisas.

É importante, Edie. Precisamos de saber.

A verdade, Miss Gwennie,

é que a Lily a deixou sozinha naquela noite e foi ao cinema.

Eu não fazia ideia, senão tinha olhado por si.

Estava entretida a passar a ferro

e não se ouve nada naquela cozinha quando a porta está fechada.

Boa noite, Edith.

Boa noite, senhor. Há algum problema?

Venho à procura da Lily. O Major Halliday quer falar-lhe.

Acho que ela já se recolheu.

Disse-me há duas horas que estava com dor de cabeça.

Não está no quarto, mas se não se sente bem...

Boa noite, senhor.

Santo Deus, Lily. Onde te meteste?

Vim só buscar um copo de água para tomar uma aspirina.

Pensava que tinhas ido ver de Miss Gwennie.

- Posso ajudá-lo nalguma coisa? - Quero que venhas comigo.

Eu e o Major Halliday não sabemos da tua patroa.

Não está em casa. Pensámos que podias saber alguma coisa.

Ela disse que ia dar um passeio depois do jantar.

Queremos que vás ao quarto dela. Obrigado, Edith.

Edie...! Deus bendito, o que mais irá acontecer?

- Deixa-te de coisas. - Nem imaginas o que aconteceu.

O quê?

- Ela raspou-se! - Quem?

A patroa, quem havia de ser?

O Dr. Kennedy levou-me ao quarto dela,

queria saber se ela tinha levado alguma roupa.

Não acredito...!

O que o fez pensar isso?

Ela deixou um bilhete. Fugiu com um fulano.

O patrão está arrasado. Mas já devia estar à espera desta.

- Não tens o direito de falar assim. - Porque não? Não te tinha dito?

Não foi com o Sr. Sisudo Fane. Ele só a segue como um cachorrinho.

- Achas que foi com o tal Coronel? - É o meu palpite.

A menos que tenha sido com o homem mistério do carro finório.

Há algo que não bate certo.

- O quê? - As roupas.

Estive a vê-las como o Doutor pediu, e muitas levaram sumiço,

- mas só as peças erradas. - Como assim?

Levou um vestido de noite,

mas não levou o cinto, nem os sapatos a condizer.

Levou o vestido de tweed verde que só usa no Outono,

mas não levou a camisola vistosa. Já para não falar da roupa interior.

Ouve bem o que te digo. Ela não saiu daqui.

- O patrão despachou-a! - Lily...

Ela estava com medo dele. Lembras-te de eu ter ouvido isso?

Aí é que te enganas. Ela não disse isso ao patrão.

Depois de me contares isso, olhei pelo vidro da janela

e vi o patrão a descer a colina com os tacos de golfe.

Não era ele que estava com a patroa na sala de estar.

Era outra pessoa.

Outra pessoa...

É aquela casa. Anstell Manor. Estás a vê-la no mapa?

Sim, deve ser. Tens a certeza que é esta?

Espero bem que sim. Não vim a Northumberland caçar gambozinos.

O Coronel e a Sra. Erskine, Anstell Manor, Daith.

Foram o único casal militar a ficar no Royal Clarence, naquele Agosto.

- A Edie disse que eram daqui. - Só podem ser eles.

Resta saber se vão morder o isco.

- E agora? - O motor vai ficar sem água.

Só espero que os Erskine sejam hospitaleiros.

Afinal, está na hora do chá.

Olá, entrem. É bom receber visitas inesperadas.

Venham tomar um chá.

A vida aqui é muito monótona, não temos vizinhos com quem falar.

É muito simpático da sua parte, só queríamos um jarricão de água.

Faça o favor.

Mas que bela casa. Quando foi construída?

É uma casa do período Tudor, mas está a cair aos bocados.

A família do meu marido vive aqui há cerca de três séculos.

- É australiana, Sra. Reed? - Neo-zelandesa.

- Mas o Giles é de Devon. - De que parte?

Nasci em Plymouth, mas compramos uma casa em Dilmouth.

- Dilmouth? - Sim, conhecem?

Passamos lá algumas semanas, há muitos anos.

É uma vila encantadora. Lembras-te, Richard?

- Muito bem. Sentem-se, por favor. - Obrigado.

Ficámos no RoyaI George... Não, no Royal Clarence.

- Ainda existe, suponho. - Sim.

A nossa casa fica ali perto. Chama-se Hillside.

Mas costumava chamar-se... Como era, Giles?

St. Catherine's.

Depois de tomarmos o chá, talvez queiram ver o jardim.

Achas que vais conseguir encontrá-lo?

Espero que sim, faz o par que combina com os meus olhos de gatinha.

Viste como ela olhava para mim?

Há algo de ruim naquela mulher, quase sinistro.

- Deve fazer-lhe a vida num inferno. - Quando vais falar com ele?

Amanhã de manhã. Ela vai às compras a Daith.

- Como sabes disso? - Ele disse-o no jardim.

Acho-o muito simpático. Não se parece com um estrangulador.

Peço desculpa pelo incómodo, mas achei que valia a pena tentar.

Sei que o tinha posto quando viemos para o jardim.

- Mas não se lembra... - Brinco com eles e perco-os.

Veja, está ali. Ali mesmo.

É verdade.

- Tem boa vista, Sra. Reed. - Eu sabia que estava aqui.

Muito obrigada.

Mas tenho uma confissão a fazer.

Queria falar consigo a sós e esta pareceu-me a única maneira.

Preciso de saber uma coisa que só o senhor me pode contar.

O quê?

Penso que já esteve apaixonado pela minha madrasta.

Helen Kennedy.

Tornou-se Helen Halliday quando casou com o meu pai.

É verdade?

Desculpe tê-lo enganado...

Costuma-se dizer que vale tudo.

Creio que há cartas.

As mulheres nunca as destroem, pois não?

- Porque quer saber? - Quero saber mais sobre ela.

- Era uma criança quando ela partiu. - Ela partiu?

Deixou Dilmouth naquele Verão, e nunca mais voltou.

Não sabia?

Não, não sabia disso.

Ela tinha um irmão. Era médico.

Ele não sabe de nada. Todos pensam que fugiu com outro homem.

E pensou que tivesse sido comigo.

Não tive tal sorte, infelizmente.

Tudo aconteceu no navio que partiu para a Índia.

Um dos meus filhos adoeceu e a minha mulher ficou em terra.

Eu e a Helen ficámos perdidamente apaixonados.

Perdidamente, porque ela ia casar com outro homem.

Foi uma decisão desesperada

porque ela não era feliz em casa e queria sair dali.

E perdidamente para mim que tinha mulher e dois filhos.

Compreendo.

Mas ela não casou. Voltou para casa e conheceu outro homem.

O seu pai, suponho.

Oito meses mais tarde, o meu pai morreu e herdei esta casa.

Pedi transferência e voltei para Inglaterra.

A minha mulher quis tirar férias antes de nos mudarmos para aqui

e eu sugeri Dilmouth. Ela não sabia de nada, claro.

- Queria voltar a ver a Helen? - Foi o que pensei.

Mas foi um erro.

A Janet é uma mulher ciumenta, sempre foi.

- Quando a viu pela última vez? - Na noite antes de virmos embora.

Encontrámo-nos na praia e eu acompanhei-a a casa.

A que horas?

Por volta das nove. Estava a escurecer.

E despedimo-nos.

Foi num sábado, 21 de Agosto?

Talvez. Sim, penso que sim.

A minha mulher estava com receio do trânsito.

A Helen partiu na sexta-feira. Na noite anterior.

Mas não por minha causa.

Ela tinha medo de alguém?

Do meu pai? Ele era um homem ciumento?

Porque haveria de ser? Eu é que tinha ciúmes dele.

A menos que houvesse outra pessoa.

O ciúme é uma coisa terrível. Acredite que eu sei.

Eu falo com ela.

A Sra. Reed veio procurar um brinco que perdeu ontem, no jardim.

- A sério? E já o encontrou? - Sim, obrigada. Foi uma sorte.

Muito obrigada. Tenho de ir andando.

- Vamos sair hoje do hotel. - Eu acompanho-a ao carro.

Desculpa, Richard, mas tens uma chamada importante.

Não tem importância, não se incomode.

Mais uma vez, obrigada... por tudo.

- Queres que acredite naquilo? - Faz como entenderes.

Combinaste tudo com ela! Eu vi como a trataste!

Por favor, Janet...

A verdade é que os casamentos podem ser complicados, Miss Marple.

Este teria sido desastroso. Meu pobre Walter.

- A rapariga não era digna. - Deveras, Sra. Fane?

Não digo que fosse actriz ou coisa parecida.

Era irmã do médico local,

mas mais parecia filha; era muito mais nova.

O pobre homem não sabia como a educar.

Envolveu-se primeiro com um jovem lá da firma.

Era má rês, tiveram de se livrar dele.

- E como? - É um assunto confidencial.

A rapariga, Helen Kennedy, dizem que era muito bonita,

mas eu não achava. Sempre achei que o cabelo dela não era natural.

Mas o Walter pediu-a em casamento e ela recusou.

Foi por isso que partiu para Assam. Ou foi para Burma?

O que acha que aconteceu depois?

Assim que ele partiu, a tolinha mudou de ideias e disse que aceitava casar.

- Deus do Céu... - Marca a passagem, parte no navio

e qual foi a jogada seguinte? - Nem imagino.

Teve um romance no navio com um homem casado, acredita?

O Walter foi para o cais esperá-la,

e a primeira coisa que lhe diz é que já não quer casar com ele.

Não acha que foi uma malvadez?

É inquietante. Ele deve ter ficado fulo.

O Walter sempre foi muito controlado.

E o que aconteceu à rapariga, Miss Kennedy?

Voltou para casa.

Teve outro romance no caminho, mas desta vez casou com o homem.

Fixaram-se do outro lado da vila, perto do antigo hospital.

Mas não durou. Um ano depois, ela fugiu com um homem casado.

- O seu filho escapou de boa. - Foi o que eu lhe disse.

E o primeiro homem com quem se envolveu na firma do seu filho?

Está bem na vida.

Tem uma empresa de camionagem. Transportes Narciso Afflick.

- Aquelas coisas amarelas. - Afflick?

Jackie Afflick. Um sujeitinho rude.

Até que enfim, Walter. Costuma vir a esta hora.

Olá, mãe.

Esta é Miss MarpIe, amiga da Dolly Bantry.

- Como está? - Bem, muito obrigada.

Agora que já chegaste, vou mandar fazer mais um cházinho.

- Não é preciso, mãe. - Claro que sim. E mais scones.

Ela estraga-me com mimos.

É tudo um grande mistério.

O Walter Fane é um chato e o pobre Coronel Erskine...

Dois já lá vão, falta um.

Esperemos que Miss Marple tenha novidades.

Se ao menos conseguíssemos encontrar a Lily Abott...

Que angústia. Nem sequer sabemos se ainda está viva.

"Caro Dr. Kennedy,"

"Espero que me possa valer em relação a este assunto."

"Acha que é um assunto de dinheiro, ou uma recompensa?"

"É que o dinheiro fazia-me falta."

"Penso muitas vezes na noite em que a Sra. Halliday se foi embora,"

"mas acho que nunca partiu, por causa do que vi pela janela."

"Aquele carro espampanante que vi antes..."

"... que já tinha visto antes."

"Não quero fazer nada sem antes falar consigo,"

"porque nunca me meti em casos de Polícia"

"e o Sr. Kimble não havia de gostar."

"Posso ir visitá-lo no próximo dia de mercado. "

Dois dias por semana não chegam. E logo nesta altura do ano.

Concordo consigo, Sr. Foster.

Foi por isso que vim ajudar enquanto a Sra. Reed está fora.

- O pulgão verde não dá descanso. - E bem verdade, minha senhora.

É triste. Agora só trabalha a tempo parcial, não é?

Suponho que já tenha sido jardineiro a tempo inteiro, Sr. Foster.

Sim, minha senhora. Quando trabalhei para o Dr. Kennedy e para a irmã.

- Para a madrasta da Sra. Reed? - Miss Helen. Uma bela menina.

Fazia a vida negra ao doutor.

Nunca parava quieta. Bailes, ténis...

Aí está uma coisa estranha...

- O quê? - O court de ténis.

Alguém foi lá a meio da noite e cortou a rede em pedacinhos.

- Foi uma grande maldade. - Quem faria uma coisa dessas?

Foi a pergunta que fez o doutor. Disse que não compraria outra.

Quem cortou uma vez, voltaria a fazê-lo de novo.

Miss Helen era uma jovem cheia de vida. Mas não teve sorte.

Primeiro foi a rede, e depois foi o pé.

- O que lhe aconteceu ao pé? - Tropeçou e caiu.

Foi só um arranhão, mas não sarou.

O doutor ficou muito preocupado. Fez a ligadura, tratou-a...

Mas a pobrezinha não se curou.

Acabaram-se os bailes e o ténis naquele ano.

Foi no ano em que rompeu o noivado com o Sr. Afflick?

- Isso foi um grande disparate. - Mas alguém queria maI a Miss Helen.

Talvez algumas jovens. Mas o Jackie Afflick era sabichão.

Era daqueles de fugir com o rabo à seringa.

Não durou muito tempo por aqui. E que faça boa viagem.

Não queremos gente daquela em Dilmouth.

Que vão ser sabichões para outras bandas.

- Sra. Cocker. - Dr. Kennedy!

Desculpe se a assustei.

Deve ter cuidado, com o seu problema. Como tem passado?

- Bem, obrigada, Doutor. - Nada de esforços.

Procuro o Sr. ou a Sra. Reed. Está alguém no jardim?

- Bom dia. Bom dia, Foster. - Bom dia, Doutor.

Sou o Dr. Kennedy.

Muito prazer.

É um líquido muito nocivo, mas dá cabo do pulgão verde.

- Jane Marple. - Muito prazer.

Sinto muito, mas o Sr. e a Sra. Reed não estão.

Foi o que me disse a Sra. Cocker. Tenho uma carta para eles.

- Uma carta da Lily? - Vejo que está a par de tudo.

Eles pediram o meu conselho, mas os jovens nunca os seguem.

É verdade. Gosto muito da Gwennie, era uma criança encantadora.

Mas penso que vai ter problemas.

O que lhe disse?

Para não perturbar um crime adormecido.

Se é que foi um crime.

É estranho não ter tido notícias da Helen estes anos todos.

E é estranho que, estando morta, eu não tenha sido avisado.

- Gostava muito dela. - Sim.

Ainda a vejo neste jardim.

No pouco tempo que aqui esteve, afeiçoou-se muito a ele.

Pode entregar esta carta ao Giles? Já enviei a resposta.

Vou ver a Lily na quinta-feira. Peça-lhes para irem tomar chá comigo.

Entregá-la-ei assim que chegarem.

Muito interessante...

Mas isso é maravilhoso. Tivemos notícias da Lily

e a senhora encontrou o terceiro homem, aquele execrável Afflick.

- É genial, Miss MarpIe. - Ora...

- E temos notícias para si. - Isto chegou hoje.

É o relatório do Min. do Interior sobre as amostras de caligrafia.

Ele diz que a carta e a lista foram escritas pela mesma pessoa.

- Céus... - Porque diz isso?

O ciúme. Cruel como o túmulo.

As cinzas que dele derivam são cinzas de fogo.

Sim, como a Sra. Erskine bem sabe.

Eis os dados sobre os autocarros. Algum há-de servir para o seu clube.

Diga-nos o que quer, que nós fornecemos.

Obrigado.

E que outro assunto queriam discutir comigo?

- Bem... - É um assunto pessoal, Sr. Afflick.

Quero encontrar uma parente que talvez o senhor conheça.

A sério? E como se chama?

Helen Halliday.

Antes de casar com o meu pai, chamava-se Helen Kennedy.

Foi há muito tempo, Sra. Reed. Qual é o problema?

Uma discussão? Saiu de casa? Ou é assunto de dinheiro?

Ela saiu de casa uma noite, alguns anos antes da guerra.

- Ninguém sabe onde ela está. - E porque hei-de eu saber?

- Sabemos que foram amigos. - Aí é que se engana.

- O irmão não sabe dela? - Recebeu duas cartas, sem morada.

É um mistério. Podiam colocar um anúncio.

- Já o fizemos. - Não tiveram sorte?

Não.

Talvez esteja morta. Era uma miúda encantadora.

- O que sentia por ela, Sr. Afflick? - Boa pergunta.

Vou ser franco consigo, Sra. Reed.

- Tinha pena da miúda. - Pena?

Nada mais. Com aquele irmão, ela não se divertia nada.

Não gostava do Dr. Kennedy, pois não?

Foi por causa dele que foi despedido?

Também sabem disso?

Fui despedido da Fane & Watchman, não o escondo.

Foi um trabalho sujo e eu sei quem foi responsável.

Mas não foi o Dr. Kennedy.

Lamento, mas não vos posso ajudar.

Diverti-me com a Helen, mas nada mais.

Voltou a vê-la depois de estar casada?

Se a vi? Talvez. Algumas vezes.

Se me dão licença... Digam-me o que pretendem,

autocarros de 24 ou 32 lugares, que nós fornecemos.

- Achas que é dele? - Deve ser. Um perigo amarelo.

Não é pavoroso?

Lembras-te da carta da Lily? Falou num carro espampanante.

E a Edie falou num homem mistério com um carro finório.

O que nos dirá a Lily hoje, em casa do Dr. Kennedy?

- Achas que ela sabe? - Estão a admirar o meu autocarro?

Chamo-lhe Botão-de-Ouro.

Escolhi cor de narciso para os autocarros. Tudo combina.

Mesmo ao meu gosto. Parece que está bom tempo.

Acho que vou dar uma voltinha.

Tenham um bom dia.

- Raios... - Achas que ele ouviu?

Espero que não.

Cruzes! Que valente susto. O que está aqui a fazer?

Não...!

Dei-lhe indicações explicitas, muito simples.

Uma caminhada de poucos minutos pela estrada.

Deve ter optado por não vir.

Talvez o marido tenha proibido. Esta gente do campo é imprevisível.

O que teria para nos contar?

Talvez nada de interessante, se a Helen está viva ou morta.

Se o que ela pensa é verdade, as cartas foram falsificadas.

Tenho pensado muito nela.

Na Helen?

Quem a podia ter matado? Ela não tinha inimigos.

Aqui está uma fotografia.

Não pensei nela durante muitos anos.

Agora, ela não me sai da cabeça. A culpa é sua.

Não.

- Acho que é ela. - Como assim?

Não sei explicar.

Não somos nós, é a própria Helen.

Talvez seja alguém com notícias.

Infelizmente, foi homicídio.

O corpo da Lily Kimble foi encontrado por um turista

no bosque junto da estação de Matching Halt.

Matching Halt? É uma estação antes.

Devia ter saído em WoodIeigh Bolton. Foi o que eu disse na carta.

Encontrámos a sua carta na mala dela. A Sra. Kimble era sua paciente?

Deixou de o ser há 20 anos.

Disse-lhe para apanhar o trem das 15h30 de Coombeleigh

e para sair em Woodleigh Bolton.

Deve ter apanhado um trem duas horas antes,

porque o corpo foi encontrado às três horas. Foi estrangulada.

Esperava-a em sua casa à hora do chá?

- Sim, às quatro horas. - Então, o que aconteceu?

A explicação mais razoável é ter ido encontrar-se com alguém

para depois apanhar outro trem. Fazem ideia de quem possa ter sido?

- É possível... - Sim, Sra. Reed?

A minha mulher acha que deviam interrogar um tal Jackie Afflick.

- Dos Transportes Narciso. - Muito bem.

Têm mais alguma coisa para me contar?

Se a Sra. Kimble não era sua paciente, Dr. Kennedy,

qual era o motivo da visita e estava relacionado com o Sr. e a Sra. Reed?

- Estava, sim. - É difícil explicar...

Creio que tudo começou quando fui ver uma peça em Londres,

"A Duquesa de Malfi".

- Porque estão a cavar ali? - Foi ideia minha.

Lembra-se que quando viu a casa pela primeira vez,

ficou surpreendida por esta janela não ter vista para o mar.

E depois o Foster encontrou os degraus por baixo dos arbustos.

Foi uma das coisas que me fez pensar que já aqui tinha estado.

Pareceu-me que queriam fazer degraus novos por isso cobriram os antigos.

- E quando abrem um buraco novo... - Então, foi o meu pai!

Deve ter sido ele. Quem mais podia ter feito isso?

Não devemos tirar conclusões precipitadas por enquanto.

Precisas de uma bebida, querida.

Miss Marple?

Não, obrigada. A Sra. Cocker está a fazer um chá.

Preciso de algo mais forte.

Foi uma de três pessoas. Walter Fane, Erskine ou Jackie Afflick.

Fosse quem fosse, assassinou a Lily, esta tarde.

O Inspector deve estar a verificar os seus álibis.

Não pode ter sido o Coronel Erskine, ele está em Northumberland.

Claro.

- Isso é algo que podemos verificar. - O que vais fazer?

Fiquei com o número deles. Aqui está.

Não, não é urgente, Sra. Fane. Eu ligo para o escritório amanhã.

Obrigada. Adeus.

Todos têm paradeiro desconhecido.

- O Sr. Afflick? - Também.

Vimo-lo a sair de carro.

Todos eles podiam ter-se encontrado com a Lily à saída do trem.

- Aqui está o chá. - Obrigada. Pode pô-lo ali?

- Sinto muito tê-la retido. - Também fiz umas sanduíches.

Os senhores que estão no jardim também devem querer comer algo.

Não me podia ir embora com este rebuliço todo.

- Desculpe, Sra. Reed? - Sim, Inspector?

Sinto muito, Gwennie. Miss Marple tinha razão.

Encontrámos aquilo que procurávamos.

O que foi? Eu sabia...

Eu vi enquanto levava...

- Calma, Sra. Cocker. - Meu Deus...

- O Dr. Kennedy está aqui. - Recoste-se no sofá.

- É o velho problema? - Sim.

Vai ficar boa.

Podem avisar o hospital que vamos a caminho?

Inspector?

Antes de se irem embora, posso dar-lhe uma palavrinha?

-Diga, Miss Marple. - É muito importante...

- Então diga-me, Miss Marple. - Estou muito preocupada...

- Estou? - Gwenda?

- Olá, querido. - Estou no hospital. Ela está bem.

- Já foi vista pelos médicos? - Sim, vai ficar a fazer exames.

O Dr. Kennedy já se foi embora e eu vou buscar umas coisas a casa dela.

- Vais demorar? - Não sei, cerca de uma hora.

- Então, vou tratar do jantar. - Óptimo, obrigado. Amo-te.

Eu também. Adeus.

Está aí alguém?

Quem está aí?

Olá, Gwennie. Vim agora do hospital.

A Sra. Cocker vai ficar bem.

Eu sei, o Giles telefonou agora.

- O que faz aqui? - Queria vê-la.

Tal como naquela noite... Uma menina, no cimo das escadas.

Tal como se lembrou...

Vi a Helen a vir para casa.

Vi-a da janela do hospital;

naqueles tempos, ficava mesmo aqui em frente.

Estava com um homem, Richard Erskine.

Eu sabia que ela o amava e que pensava em fugir com ele,

e que havia de a perder.

A verdade, Gwennie,

é que eu não agüentaria isso.

Foi você...!

Foi você quem eu vi!

Uma garotinha... tal como a Helen.

Nunca a quis magoar,

apenas abraçá-la com força, em segurança, junto a mim.

Os seus cabelos claros...

A morte dos jovens não deve ser chorada.

Cubram o seu rosto.

Os meus olhos num desvario, Gwennie...

Mas não a quero perder...

Minha querida... Minha adorada irmã...

Pronto, minha querida.

Miss Marple...

Pensou mesmo que a deixava sozinha?

Muitos indícios apontavam para ele.

Mas, acima de tudo, estava no sítio certo, na altura exacta.

E havia ainda aqueles sinais de possessão doentia:

a rede de ténis estraçalhada

e o arranhão que não sarava mesmo com o tratamento.

- Tomámo-la por uma ninfomaníaca. - Porque o Dr. Kennedy vos disse.

Só queria fugir. O Jackie Afflick disse que tinha pena dela.

- E também a Lily... - Pobre Lily.

O Dr. Kennedy não sabia que ela tinha ido ao cinema naquela noite.

Pensou que ela sabia a verdade e que o estava a chantagear.

Devia ter o carro à porta do hospital naquela noite

e ele pensou que ela o tinha visto a aproximar-se da casa.

"Um carro espampanante... Já o tinha visto antes."

Escreveu-lhe a dizer para apanhar o trem mais cedo

e sair em Matching Halt.

Então, bastou-lhe trocar a carta por aquela que a Polícia encontrou,

- depois de a matar. - Sim.

E a carta da Helen e a lista com a sua caligrafia

foram escritas por ele. - Por isso eram idênticas.

- Porque não pensámos nisso? - Porque acreditaram nele.

É perigoso acreditar nas pessoas. Deixei-me disso há anos.

Mais o mais terrível foi a forma como iludiu o seu pai,

utilizando drogas para lhe causar alucinações

e envolvendo um inocente nas suas terríveis fantasias

de estrangulamentos e dominação.

Contudo, parte da sua mente era muito fria e calculista.

Convencendo o seu pai a fazer alterações

para que a campa da Helen já estivesse cavada.

Tanta maldade...

A culpa é minha por não ter visto isso antes.

Foi a peça de teatro. "Cobri o seu rosto!"

Palavras ditas por um irmão que causara a morte da irmã.

Pobre Helen, morreu tão nova.

Espero que agora esteja mesmo a dormir.

Creio que está.

E então, minha querida, já pensou nas novas roseiras?

Queríamos que nos aconselhasse.

Na minha opinião, as velhas fórmulas já testadas são as mais fiáveis...

Dedicado à fantástica Ilda.

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