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NOS TONS DE CINZA
- ... e lubrifique a corrente. - Sim.
- Pai, voc� ainda n�o est� pronto? - Vamos, vamos.
- 20 minutos. - 20 minutos? Ok.
- Certo. - Obrigada.
Por que me pediu para vir?
Pra te tirar um pouco de casa.
N�o � bom que fique trancada o tempo todo.
Mas voc� n�o tem que se preocupar mais com isso.
Como assim? Ainda somos casados.
"Ainda somos casados."
Esse "ainda" soa como... um adv�rbio de transi��o. "Ainda".
J� conversamos sobre isso, Sole. Preciso pensar um pouco.
Se trata de sair de casa para sempre.
Mas voc� vai embora.
Aos poucos.
Pra que n�o doa. Pra que nem eu nem Daniel demos conta.
Primeiro, leva todas suas coisas. Suas roupas.
Depois a bicicleta que nunca usou.
Voc� vai levar tudo, eu sei.
Eu preciso ficar sozinho.
Sabe o que significa isso, n�o �?
- Pai... - O que?
J� tem meia hora que sa�mos do mec�nico. Vamos, quero dar uma volta.
Pedale mais um pouco, e ent�o n�s vamos.
Mas est� na hora!
- Estou conversando com sua m�e. - N�o tem nada pra conversar.
Vamos buscar a bicicleta.
- O que voc� acha? - N�o sei.
- Por que me ligou? - Porque gosto dos seus desenhos.
� mesmo?
Ou foi pelos pr�mios que ganhei com eles?
Vejo que j� adiantou o trabalho.
O que quer dizer?
Aposto que ensaiou tendo essa conversa comigo.
Analise, tire suas conclus�es, mesmo dizendo que
aquele facista de merda do German Schulz deve ir pro inferno.
Voc� veio, olhou e se foi t�o puro como chegou.
- Estou errado? - N�o. Foi mais ou menos assim.
Bruno, me d� um pouco de cr�dito, por favor.
Sou experiente o suficiente para avaliar um projeto sobre meu pr�prio crit�rio.
Eu gosto dos seus desenhos porque... Eles s�o ousados.
S�o conceitualmente originais. S�o harmoniosos.
Espera um pouco, German. Olha... Desculpe, se sou t�o c�tico, mas...
A verdade � que n�o imagino a tua construtora fazendo meus desenhos.
N�o, claro.
Minha construtora � unicamente comercial.
Mas o que estou te propondo tem a ver com outra coisa.
- Que coisa? - Ideologia.
- Ele ligou? - Sim, ligou.
Quem � ele?
Fernando Contreras. Um jovem, 28 ou 30 anos.
Historiador, mas trabalha como guia tur�stico. Foi assim que o conheci.
� jovem, mas conhece Santiago de cima a baixo.
� da rua e do mundo. Eu disse que voc� entraria em contato.
Vamos.
- Que ferramenta legal. Pra que serve? - Pra tirar a corrente.
- � mesmo? - Sim.
Teu mec�nico � um man�. Ajustar as engrenagens � o b�sico.
A culpa � minha, eu o apressei.
- Quem � ele? - O mec�nico? Importa?
Eu gostaria de apresent�-lo para um amigo.
- Voc� disse que ele era um man�. - � pra um amigo.
Voc� n�o vai precisar disso. Me deixe levar.
T�.
Ent�o? O que voc� quer saber?
- Eu? - Sim.
Me pergunte o que quiser.
Por onde, exatamente, acha que devemos come�ar?
Voc� sempre fala assim?
Como?
N�o importa. Me refiro a cidade, o que quer saber?
- Bem... suponho que voc� � o guia. - Mas � um projeto espec�fico.
Schulz n�o te contou nada?
Ele disse que te atribuiu um projeto e me pediu para ajud�-lo.
Mas n�o mencionou que tipo de projeto.
- E n�o te ocorreu perguntar? - Com ele, quanto menos, melhor.
- � muito alto? - N�o...
Estamos quase l�.
- Quente a essa hora, n�o �? - Sim.
Tem mais uma.
Viu?
A cidade?
E o morro... � �nico.
E isso era o que queria me mostrar?
N�o gostou?
O que tem de especial?
Muito bonito.
- Gostou? - Sim.
Eu gosto desse lugar, porque vem pouca gente.
Bem, um mausol�u, n�?
Melhor.
Os mortos s�o boa companhia.
N�o julgam nem reclamam.
E voc�? Reclama muito?
- Se incomoda? - N�o, vai em frente.
Tenho uma cole��o.
Obrigado.
Cuidado com a bola.
L� vou eu!
Parab�ns pra voc�
Parab�ns pra voc�
Parab�ns pra Danielito
Parab�ns pra voc�!
Papai, todo mundo j� foi?
Sim.
- N�o est� com calor com isso? - Sim, t� muito quente.
Eu tirei as cobertas, mas senti frio.
Acho que se resfriou por causa da piscina.
Tamb�m vou, t�?
Pra onde?
Voc� sabe pra onde. A oficina do Toto, meu av�.
Outra vez?
Outra vez, sim.
E por que n�o dorme com a mam�e em casa?
N�o sei.
N�o posso te explicar agora.
Mas se voc� vai, deve ter uma raz�o, n�o �?
Sim, tem que haver uma raz�o, � verdade.
Mas eu n�o sei bem que raz�o � essa.
Olha, �s vezes voce percebe que tem coisas que n�o funcionam bem.
Mas eu tamb�m n�o sei muito bem que coisas s�o essas.
Por isso preciso de um pouco de tempo. Ficar longe um pouco.
Por isso estou dormindo na casa do Toto.
Pra poder ficar sozinho e pensar.
Para as coisas ficarem mais claras.
Quem sabe eu termino voltando pra casa?
Mas talvez voc� n�o...
Sim, � poss�vel que n�o.
Mas n�o significa que n�o amo a voc� e tua m�e.
Voc� sabe que te amo muito, n�o �?
- Sim, mas... - Sabe ou n�o sabe?
Sim, mas a quest�o � que n�o se sente bem vivendo com a gente.
Escuta, Dani...
Conversamos melhor amanh�.
Voc� est� morto de sono. J� passam das 11.
�...
- Apago a luz? - Eu apago.
- O que? - Pesquisa.
- Mesmo? - Sim.
- Sobre o que �? - � para a faculdade.
Se chama...
"Diferentes Hist�ricos de Diagn�sticos de Dist�rbios Fict�cios..."
"Entre Indiv�duos em Estado de Confus�o Perp�tua."
Interessante.
Interessante?
Bruno, eu n�o seria capaz de repetir uma s� palavra
dessa merda que acabei de dizer.
Como assim? Ent�o a pesquisa � sobre o que?
Porra, Bruno. � uma brincadeira!
Eu sou gay, essa � uma boite gay. � isso, pronto.
Ah...
E o que voc� est� fazendo aqui?
Eu estava com um amigo. Viemos do trabalho. Era minha despedida, ent�o...
Bom, n�o deixaram a gente entrar no restaurante.
Cara... Obrigado.
Veio com quem?
Um amigo... Gente do trabalho... Amigas tamb�m.
Ah �? Legal?
E cad� eles?
Parece que se foram.
Pancho bebeu demais, e n�o estava bem. A� foi embora.
- Foram embora sem te avisar? - �, � o que parece.
Cara, eu vou embora tamb�m. Meu amigo deve estar me procurando.
-Claro, fique a vontade. - Ok.
- Nos vemos segunda, �s 9. - N�o, ao meio dia.
- Brincadeira. �s 9. - �s 9.
- J� consertei a bicicleta... - Oh, que bom.
- Nos vemos. - Sim, nos vemos.
Toto! Toto!
- Bom dia. - Oi.
Entrei com minha chave.
Pensei em tocar a campanhia, mas achei melhor n�o te acordar.
Tudo bem, � dia de semana.
Se imagina que a essa hora j� devia estar trabalhando.
Se imagina.
Pensei que voc� n�o vinha mais aqui.
� verdade, mas sua irm� me pediu pra fazer uma estante pra ela.
Minha irm�...
Posso perguntar uma coisa? S� por curiosidade.
Desde quando minha irm� te pede que fa�a seus m�veis?
- � a primeira vez. - Que coincid�ncia!
Ningu�m quer te controlar, filho.
Mas reconhe�o que essa situa��o nos pegou a todos de surpresa.
N�o sabemos o que pensar.
Nem eu.
Isso vindo de voc�, � bem raro.
O que vindo de mim?
Mesmo quando era crian�a voc� tinha tudo bem decidido.
Claro, outro tempo.
Sim.
Pensei que voc� era feliz.
Eu tamb�m.
E?
O que aconteceu?
N�o sei.
A felicidade envelheceu, suponho.
Quer dizer como eu?
Voc� est� muito bem.
� o que parece, te garanto.
Deveria deixar de fumar, isso sim.
Lembro disso. Se lembra?
Sim.
Mas n�o tenho dinheiro pra pagar.
- Anda, anda... - O que voc� est�...?
Senhoras e senhores que est�o nesse meio de transporte,
tenham todos muito boa tarde.
Por encomenda de um importador mundial
venho lhes oferecer um produto exclusivo
rec�m chegado ao mercado local.
Se trata, como podem ver, de uma tesoura de �tima qualidade
f�brica inteiramente com a�o inoxid�vel galvanizado.
Idela para cortar todo tipo de papel, papel�o e cartolina
que voc�s podem levar, s� hoje, pelo incr�vel pre�o
de 500 pesos.
Ent�o, eu Joe Picarte, como digo, n�o venho vender, venho presentear.
O primeiro de voc�s que...
- De onde inventou iss? - � uma nova maneira de viajar!
Quem � Joe Picarte?
Joe Picarte, cara, n�o conhece?
Nem eu, mas soou bem, n�o �?
De onde voc� tirou isso...
Adoro quando voc� ri.
Particularmente te prefiro assim
do que quando fala sobre arquitetura.
- Isso � uma... brincadeira? - Sim. Quer dizer, s� uma gentileza.
- Gosto do teu senso de humor. - S� isso?
- Melhor pegar as bicicletas. - Vamos.
Ou vamos pra minha casa. Ainda tenho que almo�ar.
- Agora? - Sim.
Beleza. Vou pegar a bicicleta, se puder.
- Vamos? - Vamos.
Fer?
Entre.
Deixe l� no jardim.
A� t� bom.
O que vai tomar?
- O que foi? - O que quer tomar?
- N�o sei, vinho ou cerveja? - Bom... cerveja.
- Marca ou tipo? - Tipo.
Vamos... Stout, Amber, Calafate, Pale Ale, Torobayo.
Voc� n�o tem todas essas cervejas, n�o �?
N�o.
- Diga qual voc� quer. - Torobayo.
- Uma Stella. - Legal.
Deixa eu abrir.
- Quer um pouco? - N�o, obrigado.
N�o sabia que fumava.
Fumei outro dia. Voc� viu.
Ah, � verdade.
Eu parei de fumar j� faz um tempo.
Esse � o melhor do mercado.
N�o, obrigado.
- Terminou? - Sim.
- O que voc� estava vendo? - Seu quarto, sua cama.
N�o. Que filme estava vendo quando te liguei?
"Jerry Maguire"
Uma merda.
Bem, eu gostei.
- N�o vi o final mas... - N�o veja, � a pior parte.
Por que?
N�o sei, eu odeio finais felizes.
Experimenta.
Por que voc� veio?
Porque voc� me convidou.
De manh�, mais cedo. O vizinho te viu.
J� tem um tempo desde que Schulz me contratou
e n�o pensei em nada ainda.
Al�m disso, voc� deveria me ajudar, n�o �?
Eu sei.
Por que voc� n�o desenha uma escultura monumental?
O tema ou o desenho n�o importam,
o que importa � que seja a maior da Am�rica Latina, n�o �?
Gaste dinheiro.
Ou melhor... Desenho um arco, como o Arco do Triunfo de Paris?
N�o, espere. Desculpe.
Nesse pa�s se gosta de comemorar as derrotas, certo?
Como o dia que Grau derrotou Prat e Condell afundou a independ�ncia.
Mas quem celebramos?
Prat. O papel de v�tima tem sua pr�pria gl�ria.
Terminou?
Eu estava pensando em... uma torre.
- Eu imaginei... - Uma torre! Maravilha! � isso!
Uma torre futur�stica! Que original!
Ah, estamos sendo ir�nicos.
N�o, s� quero falar s�rio. Por que voc� veio?
- Eu j� te disse. - N�o foi suficiente.
Est� chateado porque eu vim aqui?
Odiei, amei, n�o sei.
Depende.
Eu queria te ver.
Pra que?
N�o sei bem pra que. Queria clarear o que aconteceu no outro dia.
- Me deu um beijo. - E voc� me rejeitou.
N�o vale nem meia p�gina em minha hist�ria amorosa.
E tampouco afetou sua... identidade heterossexual.
Est� invicto, campe�o.
- O que foi? - Nada.
O que voc� tem?
Nada. N�o vamos complicar as coisas, Bruno.
Olha. Eu pensei que voc� era gay, ainda no arm�rio.
Quando te beijei, eu senti...
algum tipo de rejei��o f�sica. O que voc� queria que eu fizesse?
- Voc� tamb�m n�o insistiu muito. - Jamais faria algo assim.
- N�o? - N�o, n�o sou disso.
Eu achei que todo gay tinha o sonho er�tico de seduzir um hetero.
N�o. A quest�o � que eu sou um viado, n�o um pol�tico.
Proselitismo n�o � a minha.
Desculpe, o que eu disse foi um pouco... grosseiro.
N�o, tudo bem. Se quiser, podemos continuar com os estere�tipos e as simplifica��es.
Mas, quer saber?
Pra mim, o amor... n�o � um jogo
A homossexualidade � uma condi��o intr�nseca,
n�o � um jogo er�tico est�pido.
Olha Bruno, voc� n�o sabe quase nada de mim.
Talvez suas expectativas sejam altas. Eu deixaria para l�.
O que? Agora voc� est� me rejeitando?
N�o estou te rejeitando.
- Olhe pra mim. - O que foi?
H� quanto tempo voc� n�o fuma?
Muitos anos, j�.
D� pra notar.
Se quiser, durma no sof�. Passe a noite a�.
Amanh� sa�mos cedo e...
Pegamos as bicicletas e vemos se posso te ajudar no teu projeto.
E vamos ver se s�brio voc� vai falar isso de novo.
- Falar o que? - Nada. Deixa pra l�.
Vou buscar um cobertor.
Descanse.
Qual � o plano?
N�o sei. Conquistar o mundo.
- Um pouco pretencioso, n�o acha? - � uma brincadeira.
Como o seu projeto.
Vamos come�ar de novo?
Por que n�o me mostra o teu roteiro?
� pra grupos de 5 a 10 pessoas.
Imagine que eu sou essas 10 pessoas.
- Bom dia senhoras e senhores... - que viajam nesse meio de transporte.
Isso � pro �nibus.
Ok. Chile.
- Chile. - Chile.
O que lhe diz? O que � Chile?
Um pa�s.
Calma. Estava perguntando para a senhora aqui, que s� veio a olhar para minha bunda.
Eu tamb�m.
� mesmo?
- Desculpe, desculpe. - Que pena... Oh, bem...
Enfim, um pa�s. E um pa�s �...
- Um estado? - Ou uma na��o.
- Um territ�rio. - Uma sociedade.
- Uma cultura. - Bom trabalho, senhora, uma cultura!
Isso � exatamente...
Calma, n�o precisa brigar.
Se voc� est� t�o excitado, me fale sobre a cultura chilena.
Mas n�o mencione cueca,
ponchos ou chicha. Como se a Espanha fosse flamenco e touros. Fale.
Corta essa, Fer.
J� vi muita gente Isso acontece
Sempre acontece Mas � diferente
Sempre acontece Mas � diferente
� diferente
�! Estou me apaixonando
De quem � essa m�sica?
Sei que � para toda a vida
A cidade cresceu...
segregando uma da outra.
Sei.
� um pouco como um div�rcio invis�vel no interior da cidade,
porque, quase sem exce��o, somos todos uma alma mesti�a...
que nunca nos fundimos bem.
Vamos por a�.
Essa sim, � a minha pesquisa. Minha verdadeira pesquisa.
Preciso de um fundo estatal pra terminar de escrev�-la.
E � um pouco mais complexo do que o que conversamos
mas a tese central � mais ou menos essa.
Um pai e uma m�e divorciados,
e uma filha, que n�o compreende a si mesma e que � nossa socidade
confusa por um pai que tenta oprim�-la
e por outro lado sua m�e que tenta minar a legitimidade do pai.
E o que tento estabelecer como conclus�o
� que precisamos de pontes entre um e outro
ou vai ser imposs�vel construir uma sociedade
com uma identidade pr�pria aonde todos nos sintamos inclu�dos.
Isso tudo de pai e m�e parece meio freudiano, n�?
N�o sei, n�o sei.
O que Freud diria sobre mim?
N�o sei. O que voc� gostaria que ele dissesse?
Talvez que...
h� uma chance para n�s.
N�o sei. Quando voc� � gay � bem simples.
Preto ou branco.
Se a pessoa de quem voc� gosta � gay...
bem, h� uma boa chance, �bvio.
Mas se a pessoa de quem voc� gosta n�o � gay...
Bem, aceite que � imposs�vel, e pronto. Fim da ang�stia.
A parte angustiante � se apaixonar
por algu�m que...
na ampla gama de tons de cinza.
Como eu.
Bem, n�o sei em que n�vel da ampla gama de tons de cinza estou.
Mas eu sinto que...
Me sinto bem com voc�.
O que?
- O que foi? - Nada.
Todo o o dia em um passeio com voc� falando sobre a cidade...
me passou uma frase que n�o me sai da cabe�a, na verdade.
- Que frase? - � um pouco r�dicula, vou logo avisando.
- O que? Foi alguma coisa que eu disse? - N�o.
� daquele filme, "Jerry Maguire".
Ah! Meu filme favorito.
Olha, Tom Cruise... No final, ele est� com sua namorada e diz...
"Voc� me completa."
O que?
N�o ria!
� muito brega, muito brega!
Mas � verdade... Pare.
Bom dia.
Cala a boca.
- Caf�? - Ainda n�o.
- Daqui a pouco. - T�.
O que foi, Fernando?
Isso � bonito.
Oh sim! Eu trouxe da Fran�a.
Caf�?
Aceito.
- Com a�ucar? - Sim. S� uma colher.
Quando era adolescente, e j� tinha transado com mulheres...
Fui bem sucedido, na verdade.
Minha primeira vez foi com uma namorada.
Minha segunda namorada.
Eu me sentia bem com ela. Ela me divertia muito.
Me sentia atraente.
Muito masculino.
Com ela aprendi a ser mais forte, mais confiante.
Mas?
Mas no segudo grau voc� sabe como �.
Tinha aquelas t�picas brincadeiras quando um colega te pegava por tr�s
e voc� deveria ficar com raiva...
Mas voc� gostava.
Na verdade, eu sentia alguma coisa, mas n�o sei bem o que...
Eu me sentia tremendamente culpado...
porque eu gostava.
Que idiota.
E o que mais?
Ent�o eu decidi... ir a uma boite gay pela primeira vez na minha vida.
Ent�o em sa� em busca de uma boite gay.
Pra ver o que acontecia. S� isso.
E o que aconteceu?
Nada... Eu nunca fui l�.
No caminho pra l� eu encontrei Javier,
um amigo que estava com um grupo,
que inclu�a Soledad... minha futura esposa.
E bl� bl� bl�, o resto � uma hist�ria conhecida.
Eu comecei essa vida. Outra vida.
Mas voc� nunca questionou nada? Foi isso?
N�o. O que iria questionar? Pra mim, estar com uma mulher tamb�m era uma op��o.
Me dava muito bem com elas.
Me dava muito bem com a beleza feminina.
N�o era nada estranho pra mim. Era muito normal.
Estava acostumado.
Quer comer alguma coisa? P�o com abacate?
Legal.
Posso imaginar que...
voc� esta se sentindo um pouco diferente?
N�o sei como me sinto, pra ser honesto.
Mas n�o quero pensar tanto. Quero que as coisas aconte�am. � isso.
Al�m disso, os paradigmas da beleza podem mudar, n�o �?
Como a arquitetura.
Certo.
E voc�?
- O que? - Como soube que era gay?
N�o sei. Na verdade, eu sempre soube.
Nunca me senti atra�do por quem n�o fosse homem.
Nunca teve problemas?
- Alguma coisa assim? - Problemas com a fam�lia?
Sim, por exemplo.
Na verdade n�o, porque...
N�o sei... Minha fam�lia...
era mais disfuncional que eu, ent�o...
Mais que voc�?
Sim, eles n�o podiam dizer nada.
N�o sei. Quando entrei pra faculdade comecei a sair com garotos...
E depois de um ano j� tinha meio que me assumido.
At� que um dia um colega de escola
me viu saindo do Club Fausto.
- E o que aconteceu? - Nada. Me caguei.
Eu n�o pude contar a verdade.
O que voc� disse ent�o?
Que estava fazendo uma pesquisa.
Cara.
Daniel?
Dani?
Soledad?
Sole.
Soledad.
Acorde, est� tarde.
O que voc� est� fazendo aqui?
O que estou fazendo aqui?
Combinamos que eu pegaria o Daniel, n�o foi?
J� s�o 4 horas. Ele est�?
Sim... ah... n�o.
Bem, ele est� aqui ou n�o?
Quer dizer, ele veio almo�ar e ent�o...
saiu.
Saiu? Saiu pra onde? Ele tem 8 anos, Sole.
Ele foi encontrar um amigo, Bruno.
Ele me pediu permiss�o.
Que amigo?
Ramirez, acho que Gam... Ramirez Gamboa.
A m�e que me ligou era Gamboa.
Pelo amor de Deus, Sole.
Eu te disse que esse era o �nico dia que eu tinha pra sair com Daniel.
Que �s 4 eu estaria aqui pra andar de bicicleta com ele. Pelo amor de Deus!
O que foi? H� quanto tempo voc� n�o vai trabalhar?
Pedi uns dias.
Pediu uns dias?
E voc� acha que pode pedir uns dias quando quiser?
A Marcia vai se cansar, ela pode... n�o sei...
- Marcia � minha amiga. - Mas � sua chefe tamb�m.
Ela vai acabar te demitindo.
Legal, mas posso arrumar outro lugar ganhando o mesmo.
O teu curr�culo a essa altura deve parecer um prontu�rio, te garanto.
Se eles n�o te demitirem, voc� devia sair.
Eu queria te comer!
Qual o teu problema? Calma. Voc� tem que ser gentil. Assim.
Anda, cara!
Odeio essa fonte.
Claro, e eu adoro.
N�o v� a arquitetura que tem?
Que saco!
� enorme, mas eu n�o gosto de nada.
Pra falar a verdade, eu venho sempre aqui.
Com quem?
- Sozinho. - Sim, sozinho.
Com... meus namorados.
Pra fumar.
- Vamos? - Vamos.
Cara, voc� n�o sabe como voc� � alto!
Eu sou um ser pequeno.
Mas voc� � muito forte!
Bruno.
Desculpe ter mudado a reuni�o pra c� porque as coisas est�o meio complicadas.
De qualquer forma, � bom que sinta a press�o.
Press�o?
- O que aconteceu? - O que parece?
- Um v�deo da National Geographic? - N�o. Jornalistas.
Que jornalistas? Quem me dera! Eles est�o atr�s
do sangue de uma empresa moribunda! Eu!
- Est�o te processando. - Eu n�o, a empresa.
Sabe o que me d� raiva? N�s constru�mos apartamentos h� anos.
Qual o problema se com um terremoto cai um edif�cio?
Ao inv�s de nos elogiar, nos recompensar
por nosso bom trabalho, nos crucifixam. Filhos da puta!
German, um dos seu edif�cios � muita gente.
� sempre a mesma hist�ria. S� sei que n�o queroe escutar mais.
N�o quero sua opini�o. A �nica coisa que quero, � teu projeto.
Quero ver os esbo�os.
Os esbo�os?
Olha, ainda estou fazendo pesquisas, formulando algumas id�ias, mas...
- Ainda n�o tenho... - Voc� t� brincando comigo?
Eu te contratei h� tr�s meses e voc� ainda est� formulando id�ias?
Olha, German, o que voc� me pediu n�o � f�cil.
N�o posso ter um projeto do dia pra noite. � muito complexo, preciso de tempo.
- Precisa de um pouco de tempo. - Sim, para... para...
- Precisa de um pouco mais de tempo. - Ok...
N�o fale mais nada, por que n�o sou idiota, ok?
- Tudo bem? -N�o.
Preciso encontrar uma id�ia. J� perdi muito tempo e n�o tenho nada.
Vamos comer.
Vamos?
Estava olhando. Veja.
Outro limite como os que voc� mencionou.
Teve uma �poca que as margens do rio. aonde est�o os monolitos,
eram conectadas por uma enorme ponte de pedra.
Foi a maior e mais ambiciosa obra da �poca do per�odo colonial.
- A ponte Cal y Canto, n�o �? - Isso.
Tinha mais ou menos 200 metros de comprimento,
11 arcos, 10 metros de altura.
Foi, durante um s�culo inteiro, a maior ponte urbana da cidade.
Ent�o, o que aconteceu?
Seu comprimento come�ou a atrapalhar o projeto de saneamento.
Os primeiros trabalhos, em 1888, enfraqueceram a sua estrutura.
Ent�o, no inverno, uma enchente destruiu 3 dos arcos,
o que contribuiu para sua demoli��o definitiva.
Que pena.
O �nico peda�o que sobrou est� na esta��o de metr�.
- De verdade? - Sim.
Vamos v�-los.
- Agora? - Sim.
Podemos ir mais tarde?
Vamos comer primeiro. Meu est�mago t� cantando a Traviata.
- Tudo bem. - Vamos.
- Quem est� ligando tanto pra voc�? - Soledad.
E voc� n�o est� atendendo ela?
Muito barulho l� fora, n�o �?
Espere um segundo...
Ei, Carlanga!
Abaixe o volume! � dia de trabalho amanh�!
Certo. Ent�o, al�m de ser viado voc� trabalha...
Vai cara, abaixe o volume!
Diga ao cara de cabelos encaracolados para vir aqui!
T�, obrigado!
Ok, s� um pouco de folclore.
Tenho que ir agora.
Vou pra casa, ok?
Por que?
Preciso pensar.
Em que?
No trabalho.
Oi Sole, o que foi?
Bem...
J� vou. Tchau.
Oi.
Oi.
Oi Dani.
Como voc� est�?
Como vai na escola?
Que foi? Por que essas caras? Parece um funeral.
Bruno...
Dani quer te perguntar uma coisa.
Certo...
O que foi?
- Pergunte. - � que...
Quando eu fui ao banheiro... Eu tava na casa do Ramirez...
eu escutei a m�e falando com o pai dele...
e... escutei o que ela falava.
Mas foi sem querer, eu juro.
- O que ele est� falando? - Voc� n�o vai se aborrecer?
Por que iria?
Meu amor... pergunte. Voc� n�o � culpado de nada.
� que...
- O que foi? - � que...
A m�e dele t� dizendo pro pai dele...
Que ela te viu beijando outro homem...
� verdade?
Dani! Dani, venha aqui!
� por isso que voc� foi embora?
- Responda. Por isso voc� se foi? - Escute...
O que foi?
Agora voc� se sente quando algu�m te abandona!
Do que voc� est� falando? Eu nunca te abandonei!
Como n�o?
Me deixou plantado na porta da igreja!
Cala a boca!
Depois voltei e virei tua mulher, n�o?
Pra voc� sempre foi mais f�cil. Sempre quis algu�m que...
Chega! Chega!
Voc� n�o precisa se defender. N�o estou te atacando.
S� preciso saber se isso � verdade.
Se voc� est� confuso, preciso saber e entender o que estou enfrentando.
O que voc� est� fazendo aqui?
N�o vai me convidar?
Faz uma semana que tento te encontrar.
Te mandei um email, n�o foi?
Sim, mas n�o entendo. Como o teu filho soube?
A m�e de seu melhor amigo � ju�za.
Imagine o resto...
Ah...
Sinto muito ele ter descoberto assim.
- �... - � culpa minha ser t�o impulsivo.
Isso n�o importa.
Posso imaginar como voc� est� se sentindo...
Voc� n�o imagina como estou me sentindo, Fer.
Ou voc� saberia que se n�o te ligo de volta � porque preciso ficar sozinho.
N�o estou fazendo isso pra te rejeitar,
que � a �ltima coisa que eu quero.
Eu s� vim ver como voc� estava,
j� que voc� n�o responde.
Eu vou bem, obrigado.
Tudo bem?
Tchau.
- Amigo? - Sim.
Uma sangria, por favor.
- Uma jarra? - N�o, s� um copo.
As d�vidas surgem quando a rela��o se desgasta.
Quando come�a, vem um vazio.
Incr�vel.
Um dia voc� levanta...
e come�a a se perguntar se est� vivendo a vida que quer viver.
E uma pergunta t�o simples pode destruir tudo.
Assim. Em um segundo.
A� voc� come�a a cavar sua vida, a olhar pra tr�s...
a se perguntar aonde exatamente foi o momento em que podia
- ter tomado outra dire��o, outro rumo. - Sim, eu te entendo mas...
descobrir um lugar novo n�o te obriga a ficar nele.
A quest�o � se voc� ama esse... homem
da mesma maneira que amou Soledad.
N�o sei.
A �nica coisa que eu sei...
� que quando estou com Fer, eu me sinto t�o feliz, t�o... calmo.
Depois...
N�o sei. Todos n�s crescemos com essa id�ia rom�ntica
em que os personagens s�o sempre um homem e uma mulher. Sempre
N�o sei se posso tirar essa estrutura da cabe�a.
Bem, tamb�m n�o sei se isso � poss�vel.
Mas... se n�o tem amor... n�o significa nada.
Eu... eu n�o te julgo.
Voc� � meu neto e � o que mais amo.
E...
se te posso aconselhar em algo � que...
Se voc�... vai... romper com teu passado...
vai ter que ser...
Dar sentido a tua vida, entende?
Se n�o, vai viver eternamente divido.
O Bruno que sempre foi vai se tornar o que quer ser.
Entendeu?
Sim...
- Puxa com mais for�a. - N�o, espera.
Se tirar, ele n�o vai encaixar aqui. Ainda n�o, meu amor.
- Sua m�e est� certa. Espera. - A� est�.
Tudo bem.
Sua vez.
Vamos, vamos! Precisa de ajuda?
Pai? Por que n�o trouxemos barracas maiores?
- O que? - Por que n�o trouxemos maiores?
Como assim? Temos essas pequenas guardadas.
Seu pai e eu usamos essas aqui numa viagem quando �ramos mais novos.
� verdade. Viajamos quase a metade do Chile, n�?
Ent�o mostre algum respeito por essas barracas
� que... parece meio velha.
Do que tanto se queixa, hein?
Essa t� pronta.
Anda, vem experimentar.
Pai, se tem duas barracas, quem vai dormir sozinho?
- Gostaria de dormir sozinho? - N�o, s� t� perguntando.
Eu posso dormir sozinho se voc� quiser.
Eu gostaria que voc� e a mam�e dormissem juntos.
- Voc� gostaria, ou ela disse isso? - A mam�e n�o me disse nada.
Ela te falou alguma cousa sobre o que aconteceu?
Sim, disse.
- O que te disse? - Que todos temos que ser felizes.
- E o que voc� acha? - Tamb�m, que todos temos que ser felizes.
Mas, voc� est� envolvida com algu�m, ou n�o?
N�o.
Por que n�o?
Porque sou mais idiota que voc�.
- Sole, eu queria te pedir... - N�o, n�o. Espere.
N�o, apaga isso...
A pergunta que quer me fazer tem que ser com a lanterna...
porque sen�o n�o posso ver sua cara, e eu tenho que te ver Bruno.
T� bom...
Eu queria te pedir desculpas
por todo o sofrimento que te causei.
� voc� e ao Dani. De verdade.
Eu lamento nunca ter entendido nada.
Como?
Eu te deixei sozinha na igreja.
Sumi por dois meses.
E voltei.
E voc� me perdoou.
- Ma era o que queria, n�o �? - Sim.
Mas n�o entendo porque voc� fez isso.
Por que me diz isso agora? Era o que voc� queria...
- E agora voc� tamb�m me perdoou, como se... -N�o, n�o, n�o.
O que voc� quer dizer?
Eu nunca te perdooei.
E n�o vou te perdoar.
Eu s� estou pagando pelo meu erro. Nada mais.
Tudo bem, � o que eu mere�o.
Voc� ainda n�o entendeu nada do que estou dizendo.
O que?
Voc� sempre foi certinho, certo?
Um �timo pai, excelente marido.
Bom amigo.
Vivo contigo h� onze anos.
E a �nica coisa que tentei ser todo esse tempo
foi tratar de ser outra pessoa
pra n�o me sentir t�o pequena do teu lado.
Sentir que posso ser tua companheira.
Mas n�o consegui... N�o consegui.
Fracassei.
Quando eu soube...
me dei conta que n�o era infal�vel.
Voc� n�o era perfeito.
Me senti t�o tranquila.
Eu senti...
uma sensa��o... profunda de...
liberta��o.
Voc� pode me explicar aonde quer chegar?
Sim, sim. J� vou.
Quando voc� me contratou, German...
me pediu que desenhasse, e aqui cito textualmente tuas palavras:
"Uma obra s�lida,"
"cuja beleza seja f�cil de apreciar,"
"que se insira no inconsciente coletivo..."
"Uma obra muito importante. T�o importante que nem n�s poder�amos destru�-la."
- Verdade? - Sim.
Bem...
Depois de percorrer Santiago muito,
Me dei conta que o monumento que voc� me encarregou, j� existiu.
� a Ponte Cal y Canto.
Olha.
A Ponte Cal y Canto,
constru�da no s�culo XVIII.
A constru��o levou 15 anos.
Durante a constru��o, muitas pessos morreram.
Um verdadeiro sacrif�cio de sangue e dinheiro que deu origem a...
essa genial... beleza,
que com certeza foi o orgulho dos santiaguinos da �poca.
Olha.
Com certeza nada disso foi obst�culo para que o governo progressista,
e a neglig�ncia do engenheiro encarregado,
apagassem do mapa, completamente, a obra mais importante da �poca colonial.
Na verdade � muito ir�nico que essa obra fosse uma ponte...
Uma ponte que uniria os �ndios com a cidade espanhola.
Justamente os dois extremos b�sicos de nossa forma��o como povo.
Desculpe, n�o sei se alguma vez voc� se deu conta...
que os trabalhadores da constru��o come�aram a descansar na rua?
- Sim. - E agora eles est�o limpos? Vestidos?
- N�o. - Claro que n�o. Por que?
Porque para construir, tem que se sujar. Entende isso?
Voc� tem que se sujar.
Os que est�o limpos, � porque n�o constru�ram nada.
Uma coisa...
N�o pense que n�o me dei conta de que tudo isso...
tem a ver com o que est� te passando.
Sinceramente, Bruno...
boa sorte com isso.
Oi.
Voc�?
Preciso falar sobre uma coisa com voc�.
Claro, fale.
Fer, n�s podemos comversar um pouco, por favor...
Fer!
Fer, espera um pouco!
Fer!
Para!
Para!
Fer, por favor, para!
Para!
Espera!
O que est� acontecendo?
Eu preciso de um pouco de tempo.
- N�o, Bruno. - Um pouco de tempo.
N�o, Bruno! Voc� sabe como eu penso: preto ou branco.
Mas como voc�... pode me fazer escolher uma coisa dessas?
Bem, algum dia voc� vai ter que escolher.
Escolha, Bruno... Voc� tem o privil�gio de fazer.
Desculpe...
Desculpe.
NOS TONS DE CINZA
Legenda: OVER THE RAINBOW
PORQUE DADO DE GRA�A...
� MUITO MAIS GOSTOSO!!!!!!!!!!!!!!!!
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