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"SKINWALKER"
- Vocês querem saber o que eu penso? Uma moto-serra não poderia cortar um cara daquele jeito!
- Eu estava lá! Eu vi ele! Ele estava em retalhos, parecia cortado em fatias.
- Não está cansado de contar essa história, Jim?
- Eu já vi caras espetados em uma espada com aparência bem melhor! Vê se bota isso na sua cabeça!
- Alguém quer tirar essa porcaria e botar Merle Haggard?!
- Sorriam! Por aqui. Temos poucos índios felizes esta noite.
- James, George.
- Roosevelt, a próxima rodada é por minha conta! Pelas coisas boas.
- O que estamos comemorando, amigo? Está querendo ficar bêbado ou o que?
- Você está olhando para o novo chefe do departamento! Agora sou eu que dou as ordens!
- Às crianças e à grana!
- Felicidades!
- Ei, capitão, qual é?! Achei que ia ficar aqui celebrando!
- Acho que Marie está me esperando em casa e ela fica mais zangada do que vocês se eu me atrasar.
- Vejo vocês depois.
- Senhora Bistie... eu acho que esse homem matou o seu marido.
- Ah, eu gostaria...
- Eu pago, Roosevelt!
- O que vai beber?
- Cerveja.
- Gelada. Obrigado!
- Você parece ser um desses estudantes que andam por aí,
pesquisando o que os índios da cidade gostam de beber?
- Achei que fosse um bar normal, desculpe você errou.
- Tem alguma coisa contra estudantes?
- Em geral, não. Eu já fui um. Mas em particular, sim.
- Ficam rondando. Este é o nosso mundo, e não gostamos que fiquem pesquisando a gente como animais.
- O cara que eu estou procurando ficaria bem em uma jaula. Grandalhão, feio. Se chama Janos Skorzeny.
- O último branco vagabundo que apareceu por aqui acabou espetado, que eu me lembre.
- Tente outro bar. Mas até você conseguir, eu agradeço uma contribuição para o memorial.
- O que houve?
- Eu digo: algum psicopata estraçalhou um navajo só para se divertir!
- Essa é uma das teorias...
- E qual é a sua?
- Continue. Conte o resto.
- Alguns de nós pensamos que... é um "skinwalker".
- E que diabos é um "skinwalker"?
- Uma das lendas mais "enfeitadas" da minha tribo...
- Superstição, alguns acham que é magia, depende com quem você fala.
- Um "Skinwalker" é um feiticeiro.
- Um bruxo que tem o poder de se transformar em outros seres.
- Um cão, um pássaro... um lobo. Quem sabe?
- Mais espíritos? Deixe-me contar-lhe sobre espíritos, garoto. Sou especialista.
-É o Khe Sanh: diz que todo animal tem o seu próprio espírito por aí... na neblina.
- Do lado de fora da cerca!
- Mas cada vez que nós descarregamos metade de uma 7.62 em um desses malditos fantasmas... me parecem bem sólidos.
- E bem mortos!
- Ah, Roosevelt tem dado ouvido a muitos velhos, como o tio dele.
- Corta essa, Gus!
- Ei, você é apenas um índio honorário!
- Se eu pagar outra rodada, posso me juntar de novo à tribo?!
- Bem, não batam na minha cabeça com o seu tacape ou qualquer outra coisa que vocês fazem quando um cara faz uma pergunta boba...
- Mas, e se como dizem, o tal "Skinwalker" está realmente por aí matando pessoas... o que vocês fariam?
- Mataríamos ele!
- Alguns dizem que temos que usar armas feitas de ossos. Ossos de cadáveres.
- Prata também deve funcionar.
- Claro! Bata com uma dessas fivelas de prata na cabeça de alguém e talvez ele fique morto por uns tempos.
- Alguns dizem que existe uma cura.
- Uma cura?
- Quer dizer, tem algum jeito?
- Existiam crenças em algum tipo de cerimônia de purificação. Uma trabalheira infernal...
- Bahe, o senhor Endocheeny, me falou sobre isto um dia. Ele é uma espécie de curandeiro.
- Senhor Endocheeny...?
- Caia fora daqui! Eu não sou nenhum urso dançarino!
- Não estou aqui por causa disso... estou aqui por causa do "Skinwalker".
- Acho que podemos nos ajudar.
- Lá em cima...
- Vamos conversar.
- Esteve lá?
- Eu nuca subi no topo do Suribachi. Eu estava na encosta.
- Com um lança-chamas... tirando os franco-atiradores das cavernas. Ordens... nada demais.
- Tinha muitos índios lá em Iwo. Inclusive um cara chamado Ira Hayes. Ele sim foi um herói.
- É? O que aconteceu com ele?
- Ele morreu louco, falido, furioso... Hoje eles tem um nome especial para isso:
- Transtorno de Estresse Pós-Traumático.
- Acho que isso acontecia com todos nós.
- Aconteceu com meu sobrinho Roosevelt, o barman lá embaixo.
- Ele parece bem lúcido.
- Ah, agora ele está. Alguns anos atrás ele estava vivendo... definhando na verdade, em um hospital de veteranos.
- Ele voltou da sua guerra, e naquela época não faziam nenhuma homenagem ou davam medalhas para veteranos. Ele estava mal.
- Foi quando eu comprei o bar.
- Transformei ele em um tipo de centro de recreação para os que saíram da reserva.
- Deixei Roosevelt dirigir as coisas. Acho que fiz as mudanças no tempo certo.
- Eu acho que é tudo uma questão de tempo certo.
- Respire e você já era, Skinwalker!
- Isso é feito de prata!
- Deixe-me ver sua mão. Abra a sua maldita mão!
- Eu sabia!
- Está bem! Está bem, eu sou um "Skinwalker", mas não o que está matando a sua gente.
- Eu só cheguei aqui hoje. Tenho a minha passagem de ônibus no bolso, tem a data, eu mostro para você!
- Acredite! Como eu te disse, é por isso que estou aqui, nós podemos nos ajudar!
- É melhor falar bem depressa ou a sua cabeça vai rolar no meu bar!
- É melhor por um pouco de comida aí. Ela vai começar a chutar como louca se não lhe der algo de comer.
- Como sabe que é uma menina?
- Porque, irmãzinha... ela já estaria chutando se fosse um menino.
- Ligue a TV enquanto eu lavo tudo. O café fica pronto em um instante.
- Está bem!
- Marie!
- Onde conseguiu isto?
- Um homem veio procurando por ele, um caçador de recompensas. Disse que é o cara que matou o Joseph.
- Por quê?
- Este palhaço estava no bar hoje!
- Então você acha que o "skinwalker" é esse tal Skorzeny?
- Exatamente! Eu o perdi há algumas semanas atrás e então eu li sobre os crimes aqui.
- Pode ter sido Skorzeny, mas eu posso pará-lo se você me ajudar!
- E o que você quer em troca?
- Eles estavam falando lá no bar sobre uma cura. Uma espécie de cerimônia de purificação...
- Existe esta coisa?
- Eu ouvi algumas histórias.
- Estudei para ser curandeiro, quando era menino.
- Como eu descubro sobre isso?
- Precisa de um índio bem velho para isso.
- Tipo quem? O cara que posou para a foto nas moedas?
- Quase... existe um velho "avô". Ainda estava na reserva quando eu saí.
- É, eu posso chamá-lo, se ainda estiver vivo.
- Então nós temos um acordo?
- "Arrume um lobo para pegar um lobo".
- Você o matou! Você matou meu marido!
- Pegue a corda na carroceria.
- Você está numa enrascada, cara-pálida!
- Não fui eu, cara!
- Quando deixarmos você na delegacia, eles não vão nem saber de que cor você é!
- Tudo bem! Você está a salvo agora!
- Não sei dizer o quanto sentimos com o terrível engano que cometemos!
- Foi por causa daquele homem com o seu retrato!
- Que homem?
- Ele disse que o nome dele era Joe Rogan.
- E o que fez vocês mudarem de idéia?
- Eu acho que você impressionou o senhor Endocheeny. Ele chegou na hora certa. Deu sua palavra por você.
- Eu... sinto muito.
- Eu liguei para a reserva. Aquele velho ainda vive...
- Mandaram alguém para a montanha para trazê- lo até aqui.
- Não se entusiasme muito.
- Mesmo que o velho lembre do ritual, não vai ser fácil.
- Os brancos pensam que os índios só sabem se enfeitar com peles, contas e dançar até ficar com os pés em carne viva...
- Coisas assim são mais complicadas, que levam tempo para aprontar.
- E vai ser preciso muita purificação individual, sem comida, sem bebida... sem cigarro, sem nada.
- E eu tenho alguma outra escolha?
- Vamos fazer o possível. Eu prometo.
- Não quebrou nada, você vai sarar rápido. "Skinwalkers" sempre saram.
- Além disso, temos que agir rápido, esta noite tem lua cheia. E Skorzeny vai estar caçando.
- Olá, Bahe, quanto tempo. O que deseja?
- Eu preciso do meu amuleto.
- Ah, não vai esquecer de pagá-lo, não é?
- Ah, tem muita prata rolando hoje.
- Há duas horas Marie veio querendo comprar aquela minha adaga de prata, que eu uso para abrir caixas.
- E ainda fez eu afiar ela!
- Marie?! Marie?!
- Roosevelt, você viu Marie?!
- Oi, Marie! Ah, deixa eu te ajudar!
- Ah, não... eu preciso me exercitar.
- Então... ah, como está indo?
- Bem... você sabe...
- Geralmente as coisas não acontecem do jeito que nós planejamos.
- Metade das coisas que eu pensei que aconteceriam nem sequer saíram do chão.
- Você sempre foi tão sábio, George. Até onde me lembro todos pensavam maravilhas a seu respeito.
- Já cheguei a te contar... o que eu costumava pensar?
- Como assim?
- Você nunca soube, não é?
- Sobre a minha "queda" por você?
- George, isso foi a anos atrás. Nós éramos só duas crianças.
- Crianças têm sonhos.
- O meu seria: ser um índio de colar azul. Como o Joe.
- Voltar para casa, resmungar sobre o conselho da tribo, passar a mão na cabeça das crianças.... Ter casado com você!
- Ao invés disso, eles me mandaram para a escola, sabe?
- Estranho como as crianças encaram as coisas. Todo mundo pensava que estavam me fazendo um favor...
- Eu me senti tão abandonado. Expulso pela tribo!
- Meu Deus, George! A tribo toda pagou pelos seus estudos!
- Bem, não me parece um favor tão bom quando você é George. O cara meio branco meio índio.
- Passando de pessoa para pessoa, de escola para escola. Como um objeto!
- Fez eu me sentir pequeno, insignificante. Como um mosquito voando por aí!
- Eu tenho certeza que eles queriam fazer o melhor por você! Nunca pensaram...
- Ninguém nunca pensou, essa é a questão! Ninguém nunca deu a mínima para mim...
- Você nos odeia, não é?
- Este é o meu outro sonho, Marie: acabar com toda a maldita tribo!
- Que diabos você vai fazer com isto?!
- Sai de perto de mim! Agora!
- Mate-o! Senão eu o mato!
- Eu falei com o velho "avô" lá na reserva.
- O espírito de Jim Chatto vem de muito tempo atrás.
- Antes mesmo de existirem as pessoas.
- Se houvesse uma cura...
- Não haveria Chatto.
- Mas e a lenda...?
- A lenda era uma mentira, Eric.
- Quando o velho "avô" ainda era criança, o avô dele lhe contou essa história.
- Havia um "skinwalker"... era filho do chefe.
- O chefe trouxe um curandeiro com grandes poderes. Mas a cerimônia.... não funcionou.
- O chefe matou sou próprio filho, com uma lança com ponta de prata.
- Por isso inventaram essa mentira... a lenda. Para esconder a vergonha.
- E agora, duzentos anos depois, a vergonha voltou para nos envergonhar de novo.
- Desculpe por não poder cumprir a minha parte do acordo.
- Eu acho.... que tenho que encontrar a cura eu mesmo.
- Se conseguir...
- Eu voltarei.
- Eu imagino.
Legendas: André Bozzetto Junior e Rodrigo Zioli
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