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Tivemos que podar essa árvore.
Suas folhas estavam devorando nossa luz.
Embarquei em uma série de viagens,
filmando aqui e ali, rostos e palavras,
museus, rios e arte.
Eu escutei as pessoas a quem encontrei talvez por acaso,
AGNES VARDA DAQUI PARA ALI
especialmente os artistas de cujo trabalho eu gosto.
Quando voltei de minha primeira viagem,
já havia novos brotos
Eu viajei, de trem ou de avião
filmando em cada cidade, não para fazer um relatório,
mas para capturar fragmentos, momentos, pessoas.
A árvore renascia.
Eu fui e voltei.
Jean-Baptiste e eu editamos imagens e sons que reuni.
Mas bem antes que eu completasse minhas viagens e meu trabalho,
que durou bem mais que um ano,
a árvore,
com rebentos e folhas
havia reconstituído sua folhagem em menos de três meses.
Vemos o processo aqui em menos de dois minutos.
Aqueles que veem estas crônicas
as verão durante muitos dias.
Esta série filma e parte, por assim dizer.
Estamos na França com muitos artistas,
Na Bienal de Lyon,
e na Sète, com Pierre Soulages.
Os rios trazem para as cidades seu movimento, sua vitalidade e sua energia.
Então, Lyon se reuniu artistas de todas as partes
para a Bienal de 2009.
Ela está exposto em uma fábrica de açúcar reabilitada.
Hou Hanru é o comissário.
O nome é "O Espetáculo do Cotidiano".
Esta opção
é para mostrar que
talvez seja o momento
de olhar as coisas que não olhamos mais
e de mudar o holofote
para qualquer coisa que vivemos sem falar nisso.
Não temos discursos nem imagens.
Uma grande exposição coletiva onde fui convidada.
Amo muito ver os preparativos,
como fazemos as instalações...
Para minhas cabanas montamos lençóis ondulados,
nós esperamos
os painéis de imagens,
nós trazemos uma praia temporária.
Instalamos uma tela de plasma.
E ajustamos as películas
para fazer as paredes da minha cabina
de cinema.
Meus vizinhos mais próximos são os chineses.
Yang Jienchang trouxe
da China pedaços de ossos
em cerâmica esmaltada, 3300, disseram-me
e guardanapos em papel de seda.
Ele numerou e assina cada peça
e apresenta tudo arrumado.
Sarah Sze instalou
os elementos
frágeis. Seu universo
é um mundo
tremendo, cheio de surpresas.
Um esfera sem título
mais nomeado "Planetário portátil, ou provável...
Ela já expôs
na Fundação Cartier um móbile gigante, feito
de objetos recolhidos.
Um pouco mais longe, Takahiro Iwasaki está perto de sua obra.
Não é monótono...
Aqui, há um pilão elétrico cinza, uma montanha...
Qual é sua cidade?
Hiroshima.
Eu vivo em Hiroshima.
Sou nascido em Hiroshima
e moro em Hiroshima.
Enquanto a palavra "Hiroshima"
soa em minha cabeça como um gongo de horror,
eu olho o trabalho desse menino delicado
que fabrica essas torres liliputianas
com fios rasgados
dos tecidos empilhados.
Pedro Reyes exibiu pás em abundância.
Entre a exposição e a sala de exposição de uma loja
a borda é fina.
Foi uma loja inteira que Michael Lin trouxe de volta da China.
Sim, essa é a loja da Sra. Tié, em Xangai,
que nós compramos.
Tudo o que estava nela veio a Lyon.
Mas Michael sublimou
cada objeto usual
e o apresentou como
numa loja de decoração.
Sim, é bem o espetáculo
do cotidiano e a sociedade do entretenimento.
Há um vídeo de malabaristas para distrair a barcaça.
Há muitos artistas orientais
nesta Bienal.
Sim, podemos dizer isso.
Depende de como contamos ou onde se situa.
Se você já está em Tóquio,
o oriental é a América.
Se estamos em Paris, efetivamente,
o Oriente é o Japão, a China, etc.
Nós estamos em Lyon.
Sim, então, efetivamente, é verdade,
nós temos muitos artistas que vêm do leste de Lyon,
incluindo Strasbourg,
da Alemanha, etc.
Efetivamente é algo
muito confuso. Isso corresponde
ao conceito
de mundo hoje,
que é um mundo confuso.
O futebol é preciso.
O coletivo Yangjiang tornou-se a própria razão para estar lá,
em torno de uma mesa, para comer, beber
e apostar grandes somas
em jogos de futebol em todo o mundo.
Eles anunciam as apostas nas partidas.
Eles até encontraram tempo para vir visitar minhas cabanas.
O que poderiam
pensar das imagens de Catherine Deneuve e Michel Piccoli?
O intérprete murmurou: "Nouvelle Vague".
Eu gostei que eles visitassem os habitantes
da ilha de Noirmoutier.
Aqui estão alguns chineses da região de Guangdong, a oeste de Cantão,
olhando
os Noirmoutrines.
Ah, aqui está o senhor Bouton!
É Michel Jeannès.
É o lionês que eu conheço. Venha.
- Eu lhe trouxe isso da Inglatera. - Extraordinário.
São botões de chocolate.
Eles me chamam de sr. Bouton.
Desenvolvo uma prática de poeta familiarizado com esse objeto.
Um trabalho artístico, uma zona de intenção poética
ao redor do botão, o menor objeto cultural comum.
Quando encontro um botão na rua,
eu o pego,
anoto o lugar, o dia
e o que acontece no meu dia.
Esses são os botões que encontrei no chão, na rua.
E aqui está o pequeno texto que fiz
- no mesmo dia. - No mesmo dia.
O que você escreveu aí?
Escrevi: "Um preto, no ônibus 99 sobre a ponte Lafayette.
"Então dois brancos idênticos na ponte de Guillotière".
Aquele encontrei em Brest,
dia 14 de maio de 2008, rua Bugeaud.
São botões que não se costuram mais.
Foram afundados por um martelo:
Os "botões solteiros".
Este é
um ano do "Jornal do Fibulanomista".
Você disse "fibulanomista"?
É a palavra para dizer "colecionador de botão".
Proponho cartões e as pessoas pegam.
Costure sua história a um botão...
Por 10 anos, colecionei perto de 800 fichas.
Uma certa senhora disse: "Aqui a história de meu botão.
Ele representa uma âncora, memória da marinha nacional
que reflete meus amores passados.
Ele me lembra um marinheiro que amei muito,
sob a Joana D'Arc,
navio escola no grande porto de Mers el-Kébir, Argélia."
Elas aceitam que você exponha seus testemunhos?
Sim, elas aceita a exposição.
Penso que elas ficam contentes.
A ideia de colocar o botão no centro do meu trabalho...
É um trabalho coletivo,
com tudo o que as pessoas trazem...
- São mulher. - Mulheres, sim, na maior parte.
Vamos à La Duchère, um bairro onde ele criou elos.
Entrei no bairro dizendo: "Eu sou um poeta.
Trabalho com objetos.
Os botões têm memória."
Eu já brincava com a caixa de botões de minha mãe.
Então eu já sentia que eles tinham histórias
e que estavam ligado à mãe. É um matrimônio.
Estamos na casa de Chantall Roberjot.
Ela tem um gato preto e 3 pessoas idosas como pensionistas.
Chantal participou dos Dias do Matrimônio em 2003.
Você trouxe sua caixa de botões.
Vou lhe mostrar este aqui,
pois ele pertencia a um de meus vestidos
que usei para minha comunhão
e que eu rasguei estupidamente andando de bicicleta.
Eu fiquei muito triste.
Michel deu-me a ideia de fazer meus botões falarem.
Eu não coloquei as palavras
sobre o que eu estava sentindo mexendo na caixa do meu botão.
E aqui está Aicha Benayad, uma vizinha de quarteirão.
Sempre resisti falar de minha caixa.
Vou retirar os vermelhos.
Sim, é uma cor boa.
Estes vermelhos aqui, eu os comprei quando minha filha era pequena.
E os tempo passa realmente muito depressa.
O botão é um objeto, é verdade, bem pequeno.
Mas, meu Deus, como ele está carregado de memórias,
de cultura, de tantas coisas.
É preciso organizar isso, este ano.
Esse gato é um patife!
Há 2 botões que falam, também.
Seus olhos, são os botões que falam.
Este é um trabalho que se chama "O segredo das mulheres".
Ele ainda está em andamento. Pedi a 100 mulheres
75 responderam,
para escrever um segredo,
um papel e de escondê-lo dentro desses pequenos quadros
com os botões.
É mais ou menos
apertado, mais ou menos colorido.
Quando dizemos "costurados na boca", é um segredo costurado.
Há também o discurso tácito,
contido, doloroso, coisas assim.
Nas exposições
é o lado dos fios e nós que são mostrados.
- Você tem segredos? - Não.
Eu sou guardião. Confiam em mim, confiamos à poesia.
Não é para ler.
Volta à Bienal,
com a sua parede do lado do Ródano,
e um vagão, para acolher os jornalistas.
Na exposição há um vândalo, que jamais acabou seu projeto
e por uma boa razão.
O desempenho dos caras de Yangjiang durou 3 dias,
então eles voltaram para a China,
deixando o video suas previsões de futebol,
e 120 latas vazias de cerveja chinesa.
Aqui estão algumas delas
em memória a sua passagem.
O trabalho em exibição são os restos de seus acontecimentos.
Há pessoas na exposição.
Mas poucos se aproximam para ver meu vídeo escondido.
Uma baleia encalhada, com raiva porque o mundo vai mal.
"Excertos das notícias da televisão.
O limite de 1000 mortos foi excedido...
A violência, nós a ignoramos tanto quanto possível.
Nós fugimos, isso é normal.
Eu vou para a Sète.
É na sua grande praia que filmei essas pessoas no inverno.
Eu chego sempre
com prazer pelo trem que corre ao longo da água.
Eu tenho tantas lembranças,
daqui e dali. Há a ponte Civette, no centro,
o Palais Consulaire, de minha adolescência,
a área do porto alto onde vemos o mar,
e do outro lado,
o lago de Thau onde afunda a Pointe Courte,
onde filmei meu primeiro filme.
Tenho as memórias
e mesmo um beco.
Ainda conheço os pescadores que envelheceram comigo.
Conversa.
E sempre as redes,
e os galpões
e as garagens.
Eu vejo fotos do meu filme, olhe!
Essas fotos estavam em casa. Eles tinham colocado na nossa reunião.
Como há toda minha família, Eu as recuperei.
Mas que descaramento! Quem está aí, de sua família?
Você me pergunta? Meu avô, minha avó,
meu tio, meu irmão, eu.
Enfim! Ela me pergunta como se ela não me conhecesse.
Nem sempre sei todos os nomes, todos os prenomes.
- Esse é Louis. - Louis é meu amor.
Aqui, meu irmão. Este é Joseph.
No filme,
- ele se chamava Raphael. - Não, eu sou Raphael!
- E seu prenome! - Oh, Agnès!
Ele ri. - Minha cabeça não está boa.
- Seu prenome? - Marcel.
- Então, você atuou como Raphael? - Sim.
- E seu irmão. - Ele não atuou de jeito algum.
Mas não é...
Preste atenção, Agnès, ela começou a...
Sim. Sim, eu começo, sim.
É normal, eu sou mais velha que você.
Sim, mais velha!
Muito mais.
No filme, eu tinha 23 anos.
- Pronto, eu tinha 26. Isso anda. - Ah, tá bom!
Eu tinha 26. Estávamos sintonizados.
Pobrezinho, é que estávamos ao lado
de Philippe Noiret e de Sylvia Monfort.
Isso era novo, para nós!
Agnès, ela veio
em casa durante...
Antes do filme.
Ela fez umas perguntas.
E foi depois que ela colocou no filme
tudo o que ela recolheu.
Ou seja, ela rastreou A história de... da minha...
Aqui, essa é minha avó materna.
Meu avô não queria
dar sua filha ao meu pai.
- Vou lhe ensinar! - Não fiz nada de mal.
- Você é muito jovem. - Mamãe se casou com 19 anos.
- Eu fiz o papel... - Do jovem, do namorado.
De meu pai.
O papel de meu pai. E ela fez vir essa...
A pequena Banegas.
Do mercado, do açougue.
Ela fez o papel de minha mãe.
Sim. Pronto.
Isso é ... É isso, Agnès?
Está voltando...
Só tenho este filme para me lembrar.
Você fez tanto, você mistura tudo.
Então, os primeiros...
(Música tradicional)
Portanto é fácil se lembrar dos jogos
cujo ritual não mudou.
Esse aqui, filmando em 1954
e esse, no verão de 2010,
diferente, pois de noite
e sem remeiros.
(Música)
São torneios juniores, em barcos a motor.
Há meninos bem jovens,
mas a espera é a mesma até a queda de um combatente.
O prazer é o mesmo
Declarado vencedor.
Esse jovem foi declarado vencedor, como o personagem de Raphael.
Então, aqui, sou campeão,
porque me fizeram ganhar.
E o meu sogro ficou tão contente por eu ter vencido
que me deu sua filha.
Pronto, Raphael!
- E então, tudo bem, meu garoto? - Tudo bem.
- Bela festa, hein? Vai ao baile esta noite? E você, Anna?
- Oh, sim! - Obrigado. Boa noite.
Você permitiu que ele dance com Anna no baile? Como você é corajoso.
Ele lutou bem, hein?
Ele, ela vai ser um homem!
Aqui está um homem,
bem combativo!
Quem é seu inimigo?
Ele mesmo.
Trata-se de um vídeo do cubano Alexandre Arrechea.
Estamos numa exposição temporária dedicada ao Caribe.
Um pouco mais longe, um ícone de poder, por Hew Locke.
Com um gato,
"Miam, miam!" Diz o gato de Thomas Vuille,
imortalizado pelo filme de Marker, "Gatos Empoleirados".
'MIAM" é o nome desse museu único,
Museu Internacional de Artes Modestas.
Hervé Di Rosa diante de suas telas.
Ele é um dos pintores do movimento "Figuração Livre".
Eles pedem emprestado à HQ, rock, grafiti.
É por sua outra atividade que nós o encontramos ao MIAM,
que ele criou com B. Belluc,
cada um deles trazendo sua coleção.
Nós dois, nós...
Nós sobrevoamos o arco-íris
de todas essas produções populares modestas.
Então, queríamos fazer um museu.
Realmente, são todas as produções feitas...
Que são seguidamente fabricadas.
Mas também algumas artesanais.
E que no início são feitas por razões comerciais.
São artigos que damos como presente.
Como o famoso presente
Bonux. Uma garrafa de refrigerante...
O Iogurte com a cápsula datada, enfim,
quando a campanha publicitária acaba,
quando o objeto não empolga mas as crianças
então, ele atinge uma dimensão poética.
Mesmo marcas que produziram milhares de itens de presente
não tiveram o arquivo guardado. É graças à paixão de algum
zigoto como nós que temos esses arquivos.
Em 50 anos, teremos preservado
coisas negligenciadas por todos.
São as coisas que foram utilizadas, mas que se
tornaram inúteis, abandonadas, uma espécie de órfãs
da criação. Tudo isto forma uma família
que eu chamei de arte modesta
para reagrupar essas imagens e esses objetos.
Uma outra exposição temporário no MIAM:
O universo imaginado
dos catadores, com um belo título: "Kitsch Catch".
Descobrimos
o mundo das máscaras.
As imagens
de fervor e de furor.
Um passeio ao porto, pois meu hotel habitual estando lotado
eu procurei um outro.
Ainda um pouco kitsch...
A escolha entre um quarto todo branco...
Sim, isso é uma cama!
Ou um quarto todo preto.
Era um must porque no dia seguinte eu ia ver Pierre Soulages,
o pintor que trabalha o preto como outros
a terra.
Ele está instalado numa colina em meio aos pinheiros
bem depois do porto, entre o museu e a casa Vilar.
Quando eu vi esse horizonte, senti um golpe no coração.
Meus amigos me disseram:
"Você encontrou sua velha casa?"
"Não. Eu comprei um horizonte vazio."
Com sua esposa, eles desenharam
os planos da casa deles.
Eu reparei num lugar
abaixo e eu tinha decidido que seria a minha oficina.
Pois eu não gosto dos ateliês dominadores.
Os ateliês...
Existem vistas panorâmicas
e eu seria muito tentado pelo espetáculo.
A minha oficina está fechada no lado do mar.
Para mim, a oficina é um lugar onde estou voltado
para o que eu faço.
A partir do momento quando eu coloco esta pedra, é privado.
É a pintura, eu trabalho.
Peço para ficar sozinho, que ninguém entre.
- Mesmo Colette? - Sim.
Sua esposa, Colette, um Sétoise infinitamente discreta.
O primeiro encontro que tive com Colette,
fomos ao museu Fabre juntas.
Nós não nos deixamos mais.
Agora, hoje faz 68 anos.
Centro Pompidou, Museu de Arte Moderna.
Mais de 500 mil visitantes vieram,
por curiosidade ou com graus diversos de prazer e de emoção,
ver mais de 90 telas
de Soulages. De fato, é a idade do pintor em número de telas.
O preto tem possibilidades insuspeitas.
Atenta ao que ignoro, vou ao encontro deles.
É aparentemente necessário, em tais exposições,
escrever nas paredes.
Eu vejo coisas que eu disse há muito tempo, com datas.
Eu prefiro ver as pinturas em vez de ler o que eu digo.
Uma exposição assim tão grande não o impressiona?
Impressionava quando eu era muito mais jovem.
Eu expus num museu com um espaço imenso
em Houston, no Texas.
Eu estava procurando remover as paredes.
E então o curador,
James Johnson Sweeney
disse-me: "Basta suspender os quadros."
A palavra "suspender" não me agradava.
Mas foi o que fizemos. Colocamos
fios de nylon e penduramos as pinturas.
Então, quando suspendemos telas no espaço,
quem estiver olhando é livre
confrontar a tela que está em primeiro plano
com não importa qual que estiver atrás, de acordo
com o local onde ele se coloca. Este princípio me interessou tanto
que, desde os anos 60,
eu fiz isso muitas vezes.
Em uma parede, finalmente, uma tela, é como uma janela. em seguida
quando ela esta sobre os cabos, ela se transforma em coisa.
Essa qualidade de coisa manifesta-se no título,
que é a dimensão.
Agora, eu adiciono uma data, mas a data não é
o título: É para distinguir 2 pinturas tendo
a mesma dimensão. O verdadeiro título é a dimensão.
Quando chegamos ante essas telas
percebemos que tudo foi pintado com o mesmo pote de preto.
As pessoas que não olham
dizem: "Tudo isso é preto", pois eles têm o preto na cabeça.
Na realidade, quando eles olham com os olhos
eles percebem que se trata de outra coisa.
Por sinal, quando comecei fazer essas pinturas,
eu me dei conta que não trabalhava com o preto,
mas com luz refletida pelos estados de superfície do preto.
Há lugares onde ele brilha, outros onde é calmo.
Calmo ou bem ritmado, pouco importa.
O que é a passagem de um preto a outro preto?
Assim que eu tive uma grande exposição
no Museu de Arte Moderna de Paris,
nós batisamos "Luz Preta".
Foi um bom título, mas me incomodou.
Foi porque eu inventei uma palavra
para dizer "além do preto", "além da luz negra".
A palavra "outro preto".
"Outro preto" designando um campo metal
e não um fenômeno ótico.
Mas há um pouco "além do túmulo", ainda?
- Há de tudo... -"Ultramarino" também.
"Ultramarino" ou "ultra Atlântico" "ultra Alemanha".
Isso designa um outro país.
Outro país além do preto.
Este tríptico foi exibido em Pompidou,
mas Soulages o guarda em Sète.
Acho que fica bem aqui, porque fica de frente ao mar.
Eu prefiro a luz do dia
às luzes pontuais do Centro Pompidou, sem difusor.
Ele está em frente e ao lado do mar.
Vamos o mar no reflexo.
Hoje ele tem certa cor, mas...
num dia de tempestade, só as árvores estavam iluminadas,
ele ficou verde.
Que emoção você acha que teve
que se transmitem sem explicação em suas pinturas?
Por que há pessoas que elas fazem chorar?
Não, não creio que elas se importam.
Isso as fizeram...
É um choque, um reencontro.
Jean-Claude Dugrip, conselheiro do prefeito de Sète,
fala de seu reencontro com Soulages.
Então, eu tinha 20 anos, acho...
- Quando foi isso? - Em 1987.
Eu cuidava de uma pequena galeria de exposição. Foi nos dito
que serial bom convidar Soulages.
Eu fui vê-lo
em Paris. Soulages, muito gentil, me recebeu, mas estava ocupado
Eu esperei muito tempo, uma hora ante suas telas.
E, depois de um tempo,
veio-me uma emoção, mas qualquer coisa...
Como descrever?
Na época, eu escutava o Adágio, de Albinoni.
Quando você o escuta, você chora.
Ou quando você escuta Barbara, de Prevert, você chora.
Eu nunca imaginaria que um quadro tivesse esse efeito.
Eu compreendi, aquele dia lá, enfim eu entendi
que o que ele coloca em sua obra
e que nós sentimos...
Com um pouco de tempo, deixando-se penetrar
somos submergidos pela emoção.
É aqui que o artista trabalha
no silêncio
pintanto suas telas no solo, em um fundo encerado.
Quando eu pinto em uma tela no chão, eu tenho esse sistema
de vigas. A ponte me permite
trabalhar diretamente na tela sem pisar nela.
Você nunca pinta em pé?
Sim. Eu coloco a tela em pé, para controlar.
Mas quando eu trabalho, eu amo estar na tela.
Muitas vezes, não sei verdadeiramente que o quadro está terminado
a não ser quando a coloco durante uma semana contra uma parede
e que a olho novamente.
Há quadros, algumas vezes,
que acreditava inacabáveis
e que terminaram sozinhos, se posso assim dizer.
E outros que acho
um fracasso, então os faço desaparecer.
Eu retiro da armação, eu conservo a armação.
E queimo a tela.
Ali é o cemitério?
Sim... talvez
seja o lugar onde eu queime as telas.
É o crematório.
A ideia agradou bastante.
A tela que queima cria um espetáculo interessante.
- São as cinzas de... - De um trabalho inacabado.
Eu gosto muito da madeira, do ferro enferrujado...
Amo muito as matérias que vivem,
que mudam.
Eu passei
num cais onde havia
grandes madeiras de importação
É uma madeira da África.
E em casa eu consegui que me cortassem um pedaço.
Não era desta cor.
Originalmente, era uma madeira vermelha.
Mas com o mar, a maresia... O inverno, o sal que chega.
E o sol.
O sol é o mesmo para ele e para seus vizinhos,
os mortos do cemitério marítimo.
Paul Valéry foi enterrado.
Ele cantou esse cemitério...
E as velas latinas como pombas
"Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre
Oh, recompensa, após um pensamento,
Um longo olhar sobre a calma dos deuses!
Jean-Louis Trintignanat deu um recital de poesia no Teatro do Mar.
Eu saí com um tema "O amor e a Morte."
Ele escolheu Jacques Prévert, Boris Vian, Robert Desnos.
Contrabaixo.
"Um poeta é um ser único.
Em montes de exemplares
Que só pensa em versos. E só escreve em música
Sobre assuntos diversos, Uns vermelhos outros verdes
Mas sempre magníficos."
O acordeonista toca.
Você escolhe poemas... Isso fala às pessoas, como dizem.
Eu não queria que fosse intelectual, elitista.
Boris Vian:
"Primeiramente, há muito mérito
casar com uma mulher
mais nova que você.
Há muito mérito em se casar com uma mulher.
Há muito mérito em se casar,
sem falar no tédio. Risos.
"Em segundo lugar,
há muito mérito em se casar
com uma mulher mais velha que você.
Há muito mérito em se casar com uma mulher,
Há muito mérito em se casar,
sem falar no tédio."
"Terceiro: há muito, muito, muito, muito
tédio,
sem falar no mérito de se casar com uma mulher."
Aplausos.
Fico em pé
porque amo fazer isso.
Mas há muitas dificuldades para chegar à cena.
Aliás para chegar a Sète...
Felizmente, eu tenho uma mulher mais jovem que me conduz.
- Sim. Eu, mas tenho uma bengala. Ele ri.
E há um que eu não disse:
"Duas coisas de lua. O outro é o sol."
Bonito, não? Prévert.
Houve um nascer da lua, parece, durante o espetáculo.
- Você viu? - Não, eu só olhava para você.
Eu queria tentar filmar um pouco. Vou pegar alguns fragmentos.
Eu tento trabalhar por impressões, por toques.
E você me tocou.
Obrigado. Toca-me muito que você me fale assim.
- Toque-toque, vamos parar! - Sim.
- Muito obrigada. - Obrigado, Agnès.
O festival de poesia, criado por Maithé Vallès-Bled,
continua na cidade, em uma capela antiga.
O palestino Ghassam Zaqtan recita,
então é a vez do seu tradutor.
"O soldado que a patrulha se esqueceu no jardim.
A patrulha, que os guardas-fronteiras se esqueceram na barragem.
A barragem que o exército de ocupação
se esqueceu na soleira da porta."
"Gnossian número 1" de Satie ao violão.
No bairro alto,
num jardim isolado
esperamos por um poeta oriental que não chega.
Nadie Gerber toca Satie.
A música, o mar...
O que mais?
Eis minha versão da borda do mar.
1: Uma fotografia.
Nós acreditamos nisso. Nós sentimos as ondas tremendo,
mas é uma imagem fixa, plana, vertical e muda.
2. A continuação da fotografia no cinema.
Ela se mexe, é sonora.
Um outro tipo de representação.
E depois 3: Um pouco de areia.
A realidade da praia tal qual à beira mar.
Foi Noëlle Tissier que me convidou a expor ao CRAC em Sète.
Obrigada, Noëlle.
Ela mandou trazer a areia
para a exposição.
E eu filmei na praia.
Ilusão de ótica
mar difratado, decomposto.
Em diálogo de obras na galeria,
Nicolas Floc'h com sua "Tour Pélagique".
Gaivotas.
Eu saio no cais.
Um pouco além, eu faço ums visita aos irmãos Calli, Ange e Daniel.
Um é chefe pescador.
Outro é rendeiro.
Mesmo se eu não for ao mar, vou ver meu barco.
Ele está bem ao lado. - O nome dele?
Eros Calli.
- Calli, é o nome da família. - E Eros é de meu filho.
Ele se chama Eros?
- É ousado! - É o deus do amor.
Sim.
- Seus pais lhe deram o nome de Ange. - Sim.
Por quê?
Por causa de nossas origens italianas, sicilianas.
Pegamos o nome de nosso avô.
Então seu avô se chamava Ange?
Pronto! Dos dois lados: paternal e maternal.
O trabalho do fabricante de rede consiste em fazer
redes para os arrastões. Ele compra
as toalhas de mesa.
Calcula todos os cortes e constrói
- a rede. - Segundo o tamanho do barco?
Segundo a força motriz do barco.
E paga-se por rede, pelo tempo, ou o quê?
Será
pago ao tempo e ele será muito, muito rico.
Infelizmente...
Infelizmente, este não é o caso.
É à porcentagem da pesca.
Se pescamos e vendemos,
ganhamos o dinheiro e compartilhamos.
Quantos são
- a bordo? - Quatro.
- O rendeiro faz parte do barco. - Vocês compartilham
- como? - Fazemos 45/55.
Uma vez que vendemos os peixes,
no final da semana temos a nossa receita,
Nós removemos gastos, óleo diesel...
Depois, fazemos 45/55.
55, para o barco.
45 pelo equipamento.
E nós removemos as contribuições.
E se não vendemos, não ganhamos.
Você encomenda as redes de seu irmão?
Ah, sim! Com meu irmão, eu sei onde eu vou.
Não tenho preocupações com a rede que embarquei.
Com uma boa rede
- o peixe fica preso. - Se ele quiser!
Alguns peixes são mais inteligentes.
- Como eles escapam? - Nadando mais rapidamente.
O peixe nada tão rápido
que você não consegue recuperar o atraso.
Ele nada,
ele nada... ele é como você, no final de 10h, você está cansado.
Ele está cansado e quando ele chega na rede, ele está afogado.
Ele se afoga antes de ser pego?
90% dos peixes capturados são pescados afogados, mortos.
É mesmo?
Ao voltar da loja de redes,
ja havia mais e mais nas docas.
Esses objetos, essas ferramentas, latas, cordas, redes,
estavam dispostas
de uma maneira tão bela
que fariam corar de inveja a certos artstas.
Como dizemos "a arte bruta",
podemos falar "de instalações brutas"?
Guinchos.
E o barulho simples de uma passarela bem segura
não é a música mais sutil?
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