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Tivemos que podar essa árvore.
Suas folhas estavam devorando nossa luz.
Embarquei em uma série de viagens,
filmando aqui e ali, rostos e palavras,
museus, rios e arte.
Eu escutei as pessoas a quem encontrei talvez por acaso,
AGNES VARDA DAQUI PARA ALI
especialmente os artistas de cujo trabalho eu gosto.
Quando voltei de minha primeira viagem,
já havia novos brotos
Eu viajei, de trem ou de avião
filmando em cada cidade, não para fazer um relatório,
mas para capturar fragmentos, momentos, pessoas.
A árvore renascia.
Eu fui e voltei.
Jean-Baptiste e eu editamos imagens e sons que reuni.
Mas bem antes que eu completasse minhas viagens e meu trabalho,
que durou bem mais que um ano,
a árvore,
com rebentos e folhas
havia reconstituído sua folhagem em menos de três meses.
Vemos o processo aqui em menos de dois minutos.
Aqueles que veem estas crônicas
as verão durante muitos dias.
Esta série filma e parte, por assim dizer.
Neste episódio iremos a Berlim e a Boston.
Veremos Chris Marker,
Nantes e Portugal,
dar uma espreitada entre a foto e o cinema.
No avião a Berlim.
Sou esperada na Cinamatheque.
Sim, sim, amamos ursinhos de pelúcia!
Cada vez que venho a Berlim,
Hans Joachim Fretzer acompanha-me.
Não aos pontos turísticos,
mas em minhas buscas aos ursos, nas ruas.
Um vislumbre do Portão de Brandemburgo
e às lajes de concreto do Memorial do Holocausto.
Um alô ao anjo filmado por Wenders
e em Potsdamer Platz
Fassbinde e seu Alexanderplatz.
Aqui estou eu na Casa do Cinema
e Arsenal, sua cinemateca, para uma retrospectiva de meus filmes.
Um enigma:
Cléo das 5 às 7 acontece numa terça-feira.
A tradução alemã do título
não contém nem Cléo, nem terça-feira,
é quarta-feira das 5 às 7.
Um mistério.
Brigit Kohler administra Arsenal.
Ela programa filmes,
assistida por meu amigo Hans.
Dominique Bluher junta-se a nós.
Ela ensina filme em Harvard, em Cambridge.
Juntos vamos ao Museu Hamburger Bahnhof.
Parte de sua coleção está sendo exibida com o título
Arte é Super!
Há muitos artistas.
Escolhemos Joseph Beuys, o aventureiro.
Eu nunca vi suas gigantescas esculturas feitas de gordura.
Eu li o que ele disse sobre elas. Irei citar:
"A gordura foi para mim uma grande descoberta
porque como um material pode parecer muito caótico
e indeterminado.
Eu posso influenciá-la com calor ou frio
e transformá-lo
usando métodos esculturais não tradicionais
como a temperatura."
Fim da citação.
Beuys também trabalha com outros materiais
tais como cobre, mel
e o feltro,
que respira.
Alguns meses mais tarde,
Dominique trouxe-me a Boston.
De minha janela eu podia ver o Rio Charles.
No edifício construído por Le Corbusier,
ela me apresentou aos seus estudantes.
E, com a cumplicidade de Haden Guest,
fizeram chegar minhas 5 fotografias
e a instalação de As Viúvas de Noirmoutier,
com suas 14 cadeiras e 15 telas.
Todos amam Fine Poutoune.
Ela tinha 99 anos quando a filmei.
Infelizmente, ela não chegou aos 100.
Surpresa!
Dominique está tricotando-me um suéter,
da minha cor favorita.
Um ano mais tarde, ela vem a Paris
e entrega o suéter ao meu estúdio de edição.
Lindamente feito.
Estou tão feliz.
Lã de qualidade excelente.
Uma mistura de seda
e lã.
É enorme.
É muito grande.
É adorável, muito obrigada!
Você é tricoteira! Essa mulher escreveu sobre mim.
Ela é uma acadêmica
E isso termina com tricô.
De qualquer sorte, uma aventura de cinema.
Guillaume-no-Egito
está aqui conosco.
Quando ele não está errando pelas ruas, ele vai para casa.
Ele é o porta-voz do cineasta Chris Marker,
que usa a discreção ao ponto do segredo.
O gato laranja representa o homem que quer esconder sua face.
Seu estúdio é uma bagunça magnífica.
Nessa confusão indescritível estão suas fontes de inspiração,
objetos que ele acumula
e suas ferramentas
para os documentários que faz
de terras afastadas ou de perto grevistas e manifestantes.
Há fotos de mulheres.
Com um toque de mistério
ou reforçadas por um eco.
Ele publicou livros.
Ele também realizou filmes de ficção belos e inclassificáveis,
tais como o famoso A Pista e Nível Cinco.
Esse é o lado escondido do trabalho de Marker.
Os segmentos secretos do labirinto de sua obra.
Chris filmou esses Gatos Empoleirados.
E também cineastas que ele gosta,
Tarkovsky, Medvedkine
e Kurosawa quando ele filmou Ran.
Ele tornou-se amigos do compositor Toru Takemitsu.
Além de gatos, japoneses ou não,
ele tem uma coruja falante
e algumas outras corujas.
A coruja é o símbolo do conhecimento e Chris transmite seu legado.
Quanto à informação, ela vem de todos os lugares.
Que estação é essa?
Al Jazeera, em inglês.
De longe, a melhor estação de notícias 24 horas.
Modelada da CNN, mas melhor.
E por que você quer duas? Preto e branco e colorida?
Não sei por que eu não consigo pegar colorido em meu monitor.
Chris reúne informação,
e uma vez fez comentários, desenhos e colagens para uma revista na web,
Poptronics.
Ou mais diretamente.
Camiseta?
- Eu quem fiz. - Eu sei.
Nós vendemos e o lucro foi para a campanha de Obama.
Então, eu participei.
Lembramos da alegria
quando Obama foi eleito.
Mas Chris mostrou-me imagens horríveis
circulados pelos inimigos de Obama.
Os Republicanos jogam sujo.
Eles fizeram uma série inteira sobre o tema
"Obama é um comunista perigoso".
Mostrando-o como Stalin!
Todos os tiranos modernos
como Obama sendo o último.
Ele coleciona também arquivos históricos.
Isso foi quando eu estava no Exército Americano.
Todas as semanas nos enviaram cópias em tamanho reduzido.
Este foi o primeiro da série,
fim da guerra com o Japão.
Eles mudaram o sistema.
Aqui era muito simples.
E agora é o mesmo todas as vezes.
Eles só mudam a pessoa.
O último, da última semana.
Eles são reais?
Claro! Por que você pensa que tudo é falso aqui?
Não falso, mas Marker realmente vive uma vida dupla.
Ou talvez, ele vive alhures,
virtualmente, numa Segunda Vida,
num arquipélago criado por Max Moswitzer,
conhecido como Mos Max Hax.
O lugar é chamado de O'Ouvroir.
Conheça os avatares de Max e Chris.
O cara algo com o suéter branco é Chris.
Ele conversa com uma coruja.
Ele dança com seu duplo.
Entrei na dança.
Afinal, este arquipélago virtual tem um pavilhão
criado por Lucien Bookmite
e presidido por meu Tio Yanco, que era um pintor.
A pintura compete essencialmente
com o esplendor de um pássaro
e com a opulência
do mar ou de qualquer paisagem,
mas ultrapassa todos eles.
Eu queria...
Entre a concepção e a execução
há uma diferença tão trágica.
Como entre o copo e o lábio, há uma amargura.
A sombra cai.
Uma pequena turnê através do museu imaginário dedicado a Marker.
É gigantesco.
Meio que assustador.
Caí num buraco. Vertiginoso.
Pedirei a Guillaume tocar piano,
que me levantará.
A Fuga do Gato, de Scarlatti.
Quando Guillaume está realmente cansado, ele relaxa no sofá gato.
E quando ele realmente precisa relaxar,
ele deita-se de bruço no sofá gato.
É tão bom, você não pode imaginar.
Minha vez de testar o sofá gato.
Então, como frequentemente faço, eu olho para o mar.
Aqui, hoje, o rio não corre para o mar,
o mar corre no Rio Loire.
Este é Gérard Vaugeois,
muitos anos atrás.
Este trem está me levanto a Nantes,
que sempre será a cidade de Jacques Demy.
A cidade de Um Quarto na Cidade.
Para essa pequena viagem, para lembrar meu amigo,
trouxe alguns documentos.
Como a pontuação de Michel Colombier.
Desta vez, fazíamos uma viagem coletiva.
De licença em Nantes.
A cidade quer comemorar, por assim dizer,
0 20º aniversário de morte de Jacques Demy
e o 50º aniversário de Lola.
Amigos e jornalistas vieram juntos.
Aqui está Gérard Lefort.
Ali Michel Piccoli, de Um Quarto na Cidade.
Anouk Aimée... a própria Lola.
E nossa família. Mathieu Demy.
Rosalie.
E eu.
E à direita, um de meus netos que veio.
Na chegada,
as estrelas são fotografadas.
A estação ferroviária está decorada.
Jean-March Ayraud, Prefeito de Nantes, e Brigitte, saudaram-nos.
Sou um admirador fervoroso.
Obrigada.
Um dos quatros ônibus decorados esperam.
Eles mostram Jacques e imagens de seus filmes.
Ouvimos sua resposta a uma pergunta de um jornalista,
"Por que você filma?"
"Por que eu filmo?"
"Porque eu amo. Porque se move, é vivo.
"Porque ri e chora.
"Porque dentro do cinema é escuro
"e quente.
"Um cara bate seu joelho e uma garota retira o dela.
"Um idiota à frente fala muito alto.
"Um gênio para sua leitura das legendas.
"Porque dança. Porque canta.
"Então, eu voo.
"Porque é lindo.
"Porque filmar é como uma mulher.
"É como um homem.
"Pode machucá-lo,
"dilacerá-lo. Pode ser feio.
"Mas é bom de qualquer maneira.
"Por causa dos zooms, porque rastreia,
"Porque câmara, ação, corte!
"Porque sonhamos com 24 imagens por segundo.
"Então, ele corre durante a noite
"Em 86.400 imagens por hora
"fazendo o TGV morrer de inveja.
"Porque é branco e preto
"e tão mais.
"Porque eu amo isso.
"E é tudo que eu sei fazer."
Na biblioteca multimídia
um balé esperava por nós,
para a melodia dos diálogos de Jacques
e uma exposição.
O inevitável almoço no La Cigale,
o Bar Eldorado em Lola,
e a confeitaria em Jacquot de Nantes.
No dia seguinte, na Passagem Pommeraye,
outro lugar emblemático em Nantes e no cinema,
encontramos pessoas
a demos autógrafos
e um livro sobre Jacques Demy
que acabara de sair.
Na Passagem Pommeraye, Lola está sempre presente.
Anouk Aimée, 50 anos após a filmagem,
charmosa, vivaz,
repetindo os gestos coquetes de Lola...
Milagroso.
O tema de Michel Legrand para Lola encheu o ar.
Quanto aos estaleiros navais,
cena de grandes greves em 1955 e 1979,
foram recicladas nos escritórios.
E o grande hangar
agora abriga um complexo de lazer.
Ainda existe um estúdio de construção mecânica
que funciona com muitos técnicos.
Eles constroem máquina lúdicas
desenhadas por François Delarozière
e abaixo
os animais marinhos articulados.
François inventou, junto com Jean-Luc Courcoult,
os gigantes e elefantes do Royal Deluxe, Teatro de Rua.
Outro elefante
chega todos os dias após um passeio pela Ilha de Nantes.
Ele é também um meio de transporte para voltar ao centro
para a tranquilizante calma do Museu de Arte.
Uma grande, linda exposição do pintor cubano Wifredo Lam,
organizada por Blandine Chavanne, diretora do museu.
Não vimos uma há 30 anos.
Ele veio ao meu quintal nos anos 60.
Eu descobri seu trabalho em Cuba, em 1962, no Saul Yelin.
Eu gosto de fotografar sua filha Karen.
43 anos mais tarde,
recebo uma carta de sua garotinha, agora uma adulta,
que queria uma cópia dessa fotografia
e uma cópia de meu filme Salut les Cubains!
Eu carreguei a imagem comigo.
Eu esperei rever esse quadro, mas não.
O mais próximo foi Fiancée, de Papua Nova Guinea.
De volta a várias peças dos anos quarenta.
Magia, poesia tropical,
corpos e vegetação.
Orisha Andrógino,
com seios e uma barbicha em forma de pênis
a mão na orelha, escuta os sons da floresta.
Eu amei os olhos de Wifredo Lam, cheios de ternura.
Outra época,
Ernesto Neto invadiu o Atrium
com suas formas suaves,
figos ou testículos,
em uma hélice de entrelaçamento.
Recentemente, as pinturas de Judit Reigl, de origem húngara.
Raramente mostradas,
seu trabalho é, no entanto, rico e poderoso
como seu lindo rosto.
A tragédia ocorrida em Nova Iorque em setembro de 2011,
e as pessoas pulando das torres,
inspirou variações no tema de corpos em pé,
já o maior aspecto de seu trabalho.
Esses corpos estão em queda livre.
Queda trágica.
E há as coleções permanentes do museu,
incluindo Os Separadores de Trigo, de Coubert...
Gustave.
E dois esplêndidos Picassos,
Velho com a Bengala
e O Casal.
Eu sempre vou ver O Naufrágio de Emily, de Isabey.
Desta vez, estou com Pierrick Sorin.
Parece que o pintor queria sugerir um crânio.
É de propósito, eu penso.
A morte está engolindo
todos aqueles pobres pescadores.
Quando a Pierrick,
neste momento ele ocupa a antiga fábrica dos famosos biscoitos LU.
Não mais uma fábrica,
LU é agora Lugar Único.
Único e variado.
As trombetas da fama
estão olhando para Pierrick.
Está ele orgulhoso dessa grande exposição?
A parte interessante é encontrar com as pessoas,
falar com as pessoas que vêm.
No entanto, você está cuspindo em nós.
Talvez isso signifique
que eu goste do público, mas eles me assustam um pouco.
Então, mantenho-os à distância,
cuspindo neles.
Mas cuspido, também estou me mostrando,
e mostrando-me, estou chamando atenção para mim,
significando que eu quero que o público goste de mim.
E depois você limpa a janela.
Limpo, assim posso recomeçar a cuspir.
Ou você não pode me ver.
Eu limpo a tinta para que você possa ver esse pequeno personagem
expressando-se,
preso atrás de sua janela.
E ainda mais preso em um aquário.
Você está se divertindo.
Fazendo-se de bobo, sendo estúpido.
Estou sendo estúpido,
mas tipo um estúpido deprimido
Sentimos...
Sentimos que o cara está tentando escapar de alguma forma de depressão.
E quando você corre, patina e ri nos discos?
Talvez esteja correndo atrás de mim.
Talvez esteja tentando
fazer minha mente pegar meu corpo.
Eu queria descrever o mito de Sísifo
como alguém correndo sem cessar num gravador.
Chegando a lugar algum.
Se você ouvir atentamente,
ouvirá trechos de frases vindo do disco.
Apenas trechos entretanto,
não suficientes para criar um sentido.
Mas ao mesmo tempo é mágico, no estilo de Méliès!
Sim, eu amo fazer simples, coisas mágicas,
quase infantis.
Como esse totem de imagens.
Quando criança, tinha um livro como aquele?
Claro.
Então a exposição é você,
você e mais você.
Porque eu sou filho único.
Acostumei-me a brincar sozinho muito jovem,
fiz tudo sozinho.
As mini-máquinas que acompanham o auto-retrato multi-auto
também aparecem em concertos-acontecimentos,
improvisados com Pierre Bastien e François Ripoche.
Pierrick faz um espetáculo de luz usando seus vídeos.
O título para essa invenção incrível
é operador pessoal para cirurgia facial.
Com o consentimento de Pierrick,
eu pisei na frente do vídeo.
Atrás do Lugar Único,
há um único muro.
Este vasto muro, visto de perto,
é uma loja de janelas opacas,
selada por 100 anos.
Abriga objetos de A Loja do Século.
Jean Blaise teve a ideia, eu penso,
depois de ler o livro de Perec, A Vida, Modo de Usar.
Penso que foi onde ele teve a ideia
de colecionar objetos assim,
pedindo às pessoas que os trouxessem.
Eu coordenei o projeto.
Numa almoxarifado,
arrumamos uma área onde as pessoas podiam vir.
Durante mais de 3 meses,
11,855 pessoas vieram
e deixaram-nos seus objetos.
Nós os numeramos.
Mantivemos um registro dos nomes das pessoas, idades,
por que deixaram os objetos
o que significava para eles,
então lacramos os objetos em latas
e empilhamos em paletes.
Em 15 dias elas foram colocadas
no muro de A Loja do Século.
O que os fez doarem foi
que lhes demos um recibo
e esse recibo será dado aos netos e bisnetos.
E esses bisnetos
virão em 2100 quando os arquivos forem abertos.
Com o recibo. Eles não poderão ter o objeto
porque eles foram doados à cidade.
Mas eles poderão descobrir o que foi dado.
Um rádio relógio.
Um maçarico.
Meu telefone.
Meu cartão de seguro saúde.
Uma agulha velha.
Um jogo de compasso.
Um chapéu vermelho.
Nossa primeira compra.
Um trem elétrico.
Areia de Loire.
Meu cubo mágico.
Bilhetes do metrô
Uma armadilha para enguia.
Mamadeiras.
Sapatos.
Meu ursinho da sorte.
Estou fascinado com a idéia de reunir
tantas pessoas quanto possível.
Estou falando de centenas, talvez milhares.
Pessoas que trarão algo deles.
Sou fascinado pelos indivíduos,
sua vida privada,
sua vida interior
dentro de um grande grupo.
É uma memória coletiva.
Quando analisarem muito mais tarde,
encontrarão um significado nisso, como um todo.
Nas margens do Loire,
alcançamos o hotel suntuoso da região.
Nesse edifício imponente,
uma surpresa.
Está chovendo.
Chovendo dentro de uma pequena cabana.
É o trabalho de Stéphane Thidet.
Aqui é uma fotografia,
mas ainda escuto a chuva.
Ou é um violão?
Aquele que acompanha Amália Rodrigues...
Eu chego em Portugal com chuva.
Chove. Chove.
Na mesa de edição com essas imagens
brincamos de pará-las em movimento.
Cartier-Bresson chamou isso "o momento decisivo".
Caso em questão.
E me dá a oportunidade
de divagar sobre um assunto que me é caro.
Movimento ou nenhum movimento.
Cinema e fotografia.
O instante e a duração.
O momento decisivo em Portugal.
Ou quando esse trabalhador de sal descendo uma inclinação de sal
alcança o nível do telhado.
Outras vezes,
escolho a quietude das pessoas e o silêncio do tempo congelado.
Aqui está um retrato estático
em homenagem ao filme de Luis Buñuel A Idade do Ouro.
Mas é uma imagem dentre 24 por segundo numa sequência de filme.
Isso é cinema
com sangue que é hemoglobina e dor fingida.
Aqui,
em 5 imagens por segundo
ou em zoom.
Eu refilmei fotografias ao ritmo de uma música de Benny More.
Essa fotografia é uma composição.
Eu coloquei os modelos
em relação a uma cabra morta
caindo de um penhasco.
Aqui está uma imagem, um instantâneo,
tirado em Marselha, na Cité Radieuse de Le Corbusier.
Eu subi ao terraço e cliquei.
Frequentemente me pergunto quem são essas pessoas,
e o que acontecia antes desse instante
e depois.
Decidi imaginar um roteiro.
Fazer dessas pessoas desconhecidas caracteres num esquete.
Como no cinema, eu escolhi a locação,
o Seaside Theatre em Sète,
e tinha um cenárioo construído
da parede que estava por trás deles.
Eu montei uma equipe.
O equipamento foi alugado.
Montamos os trilhos de rastreamento.
Selecionei atores locais
e dirigi
em 2007
a improvável história de uma fotografia tirada em meados dos anos cinquenta.
É tão bonita!
Tão velha!
O mar está lindo.
Tão lindo.
Pensa que eles chegaram?
Você deveria ter trazido um chapéu para o pequeno
Eu sei...
Você pode tirar algumas fotos, mamãe.
Aí estão eles!
Oi, mamãe.
Que bebê bonito!
Oi, minha querida.
- Como vai? - Bem.
Deixe-me beijá-lo.
Estava tão quente no carro.
Legal, muito moderno.
Olhem para mim, sorriam!
O fundo não está bom. Vamos mudar.
Está mais bonito aqui. Vá em frente.
Deixe Jean-Pierre segurá-lo, é o filho dele.
Quero sair na foto com minha filha.
Fotos de família são sempre um sucesso.
Às vezes eles sentem saudade...
Esta foi tirada por um soldado da 1ª Guerra de licença.
Então, você tinha que ficar imóvel
por um minuto ou mais, sem se mexer.
Essa mulher se mexeu.
Então nessa foto de família estão faltando duas pessoas.
Uma, que a tirou,
duplamente sentido, pois morreu na guerra
e uma que se tornou um ectoplasma.
Para concluir minha digressão em imagens,
aqui está uma foto de um pescador.
Na parede em que ele se colocou foi filmada e está balançando.
É o mar, o oceano.
O Oceano Atlântico na boca do Tejo.
Estamos de novo em Portugal.
Em Lisboa, no Porto, em todos os lugares,
vemos essas famosas cerâmicas,
os azulejos.
Eles estão na Embaixada da França,
onde sou uma convidada.
É um museu de arte antiga,
exceto por um afresco de Martinha Maia.
Quando eles oferecem jantares,
convidam os hóspedes para ver a capela.
Nela
há um anjo,
conhecido como O Anjo do Silêncio.
Foi o silêncio no trabalho de Ana Vieira
que me impressionou na Fundação Gulbenkian.
Nas paredes veladas,
os objetos e mobiliário desta casa mal existem,
mas ainda estão todos aqui.
Candelabros,
cadeiras,
uma mesa colocada.
Tudo é ausência e silêncio.
A mesma qualidade de ausência
está nessas caixas e baús pelo mesmo artista.
Cobertas por um lençol translúcido,
é como uma mulher deitada sob uma mortalha.
Menos secretos são os santos de cera
mostrados nas igrejas
onde o ouro é barroco.
Outro estilo no Porto:
uma ponte construída por Eiffel,
ligando o lado sardinha do rio
com o lado vinho do Porto.
Duas especialidades locais.
Mais adiante, é o passeio na praia.
É onde eu encontro Manoel de Oliveira,
o cineasta de 102 anos
que ainda está filmando,
e sua esposa, Maria Isabel.
Fomos convidados pelo cônsul.
Como você conheceu Manoel?
- Eu? - Sim.
Aqui na praia, ele me viu pela primeira vez.
- Há quanto tempo foi isso? - Há muito tempo.
Nós nos casamos em 1941 ou 1942, não me lembro.
Já trabalhou com seu marido?
Qual o título em francês?
Colombo.
Sobre a vida de Colombo.
- Cristóvão Colombo. - Certo.
Manoel pediu que Maria Isabel atuasse nesse filme.
Eu cantei uma canção,
uma canção bem bonita,
quando cheguei na América.
A Senhora no Mar.
Uma mulher indomável,
Com facho aceso,
E com o lume vivo
E que tem por apelido
Mãe dos Desterrados
Do farol que empunha no ar.
Irradia acolhimento A uma terra inteira
Entre os convidados, está João Fernandez.
Ele gerencia o Museu Serralves onde estão exibindo meu filme.
Ele convida Oliveira para assisti-lo.
Ambos vieram.
É surpreendente.
Eis o que digo no final do filme.
A sensação combinada instantaneamente com a imagem, que permanece.
Enquanto vivo, eu me lembro.
E agora, eu filmo o que vivo.
Eu sou uma hóspede filmando minha própria recepção.
Após responder às perguntas da audiência,
eu queria ouvir um pouco mais de João e Manoel.
Eu trabalho muito no cinema,
mesmo quando não estou filmando.
Eu escrevo
filme atrás de filme atrás de filme.
Manoel trabalha com convenções.
Ele diz que a realidade não existe.
Ele diz que a realidade é meramente o resultado de certas convenções.
Uma dramatização organizada pela sociedade
para criar todas as leis
nos apresentadas pelas realidades em que vivemos.
É muito importante, nos filmes de Manoel,
entender que a sociedade torna-se o artifício.
Não é o cinema que é um artifício.
Os filmes de Manoel nos ajudam a nos distanciarmos
da realidade que nos é imposta
para que possamos interpretá-la de outra maneira.
Esta é a estranha história de Angélica.
Aqui está morta, no seu leito de morte.
Foi trazido um fotógrafo para tirar a imagem final
antes que ela parta.
Cinema torna-se um exercício do que é real.
Um fotógrafo é, em teoria, uma prova do que é real.
Mas aqui é diferente.
Eu penso no filme de Marker, La Jetée,
feito de fotografias
e subitamente a jovem mulher abre seus olhos.
A próxima parte dessa cena mágica é admirável.
O fotógrafo debruça-se sobre seu balcão
e olha.
Três enormes caminhões tanques passam.
O que você pensa da realidade?
Diga, Manoel, você pode falar sobre realidade e solidão?
- Solidão? - Sim.
Não sei.
Solidão é alguma coisa
com a qual não tenho experiência.
Ainda não.
Estamos sozinhos quando criamos, não estamos?
Não, não estamos sozinhos.
Estamos com o anjo da criação.
Estamos sempre acompanhados.
Não o vemos,
mas ele está ali.
Anjos são a configuração do espírito.
E o anjo da guarda?
O anjo da guarda
é o destino,
um espírito.
Um espírito que nos comanda.
Acreditamos sermos livres.
Mas não conhecemos as forças obscuras
que nos comandam.
Que força comanda Manoel
a lutar por um sorriso?
"Contra quem?", perguntei-lhe.
"Contra o destino!", ele replicou.
Penso ter acabado.
Não estamos nem perto.
Ele quer alegrar seus amigos.
Ele faz perguntas para Rosalie.
Ele se interessa pela minha câmera.
Eu a mostro a ele.
Explico como funciona.
Eu deixo que ele a use.
Ajusto as tomadas.
Mas não muito bem.
Está cheio de pingos de chuva.
Olhe para mim.
Olhe para mim!
Manoel de Oliveira está me filmando!
Hoje é meu dia!
Aqui estamos nós.
Maria Isabel, Manoel e eu.
Fizemos as contas
Somamos mais de 276 anos de idade.
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