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Achei este pedaço de papel no cinzeiro do meu quarto.
Do pouco que restou, dá para ver a data, 10 de fevereiro.
Então por que dizem que morreu na véspera?
Se me virem com o filho da Dona Sofia, não vão achar o choro estranho.
Mais cedo ou mais tarde, vou descobrir o que está escondendo.
Encontrei isto no nosso quarto.
Ofereça o que for necessário, mas que não me abandone.
-Só me resta ceder. -Não só isso.
Será você quem oferecerá seu cargo ao Alfredo.
Temo que as contas do seu pai não estavam pagas. Está falido.
Falsificou o atestado de óbito do meu pai. Quero saber por que e quem pagou por isso.
Tome. Achei melhor entregar pessoalmente.
-O que era? -Nada, o papel está em branco.
Que absurdo. Tramamos contra o médico para descobrir quem está por trás de tudo
-e só temos um papel em branco. -E se não formos tão espertos assim?
Talvez perceberam a armadilha e fingiram cair.
Queriam que víssemos o médico dando o envelope à Angela.
Mas não contavam que você descobriria que não tinha nada dentro.
-Por que fariam algo assim? -Não sei.
Para quem a Angela levou o envelope?
Para a minha mãe.
Se não precisar de mais nada, senhora...
Não vou permitir que leve meu neto. Por favor, Alfredo.
Não tenho intenção de levá-lo.
Só vim me despedir dele.
Alfredo, Alfredo. Espere até amanhã.
Amanhã enxergará tudo de forma diferente.
É só isso que vai fazer para impedi-lo?
Mãe, já pedi desculpas e não adiantou.
Que ironia!
Agora que o Alfredo é o Marquês de Vergara, decide te abandonar.
Está satisfeita com uma tentativa tímida de segurá-lo?
Não conseguiu se despedir do pai por minha culpa. Por sua culpa, mãe.
O rancor dele não é nenhum capricho.
Você é quem sabe.
No seu lugar, eu tentaria persuadi-lo.
Faria o que fosse preciso.
Não desistiria da fortuna do marquesado, entende?
Usaria todas as minhas armas.
Não!
Sofia, saia daqui, por favor.
Alfredo.
Eu suplico pelo que você mais quer,
pensa no nosso filho.
Eu lamento.
Alfredo, por favor, não faça isso.
Eu suplico. Eu suplico.
Sou um nada.
Vergara está em ruínas. Não tenho nada.
Você tem a mim.
Ou pensou que deixaria de te amar?
Que posso deixar de te amar?
O que vou fazer agora?
Não sei, mas sei o que não vai fazer.
Não vai contar para ninguém o que acabou de me contar.
Muito menos à minha mãe.
Eu lamento, querida. Mas não.
Fazer isso seria como aplaudir os erros do seu marquês.
Mãe, qual é o problema do Alfredo recusar o cargo?
Sei que entende que está chateado comigo, conosco.
Claro que entendo. Está chateado e recusou a diretoria adjunta do Gran Hotel.
Sabe que sua mãe não quer se humilhar pela segunda vez.
Não terá opção de recusar minha oferta novamente.
Tenho razões para acreditar que desta vez aceitaria.
Não me diga.
Quais são essas razões?
Temo que não será capaz de me abandonar, mesmo tendo motivos.
Vamos supor que Alfredo esteja disposto a aceitar minha oferta,
não te parece que ele deveria fazer algo, depois de me desprezar como fez?
-O que quer dizer com isso? -Não se faça de boba, Sofia.
Seu marido terá que me pedir o que recusou com tanta displicência.
-Mas isso seria uma humilhação para ele. -Exatamente.
Dona Adriana. Dom Eusebio. Sejam bem-vindos ao Gran Hotel.
Muito obrigado, senhoras.
O hotel é lindo.
Poderiam levar uma jarra de água morna e sal? Meus pés estão me matando.
-Claro, Dom Eusebio. -Obrigado. Querida.
Desculpem-no. É um pragmático incorrigível.
O que será que uma dama delicada enxergou num monstro desses?
Algum problema?
Alicia acusou o Dr. Bernárdez de alterar a data da morte do meu marido.
-Mas o que ela fez? -Por ora nada.
Mas fez o doutor trazer este envelope.
Para quê? Está vazio.
A Alicia o seguiu e o viu entregando à Angela.
-O que a torna suspeita. -E afasta a Alicia de nos investigar
e da verdade.
A minha esposa é bem persistente.
Eu não deixaria de vigiá-la.
Como quiser.
Enquanto suspeitar da Angela, não temos por que nos preocupar.
Me lembro de vê-la fazer isso quando eu era bem pequena.
E me lembro de você olhando.
Você me chamava de "Langela", com a sua língua presa
e me pedia para deixá-la me ajudar.
E me deixava?
Que pergunta. Claro que não.
Por menor que fosse, era a Srta. Alarcón.
Eu sempre tinha isso em mente.
Sei que o médico veio te ver, está com algum problema?
Não é nada relacionado à minha saúde e peço que não me comprometa.
Estas colheres estão arranhadas.
Quem de vocês limpou os talheres?
-Fui eu, Dona Angela. -Pode polir até não aparecer nem um risco.
Fazemos o melhor para instruí-las, mas estão sempre com a cabeça longe.
Angela, o que sabe sobre a morte do meu pai?
Não muita coisa, senhora.
Seu pai não saiu do quarto nos últimos dias, quase nenhum dos funcionários o viu.
Por favor, Natalia.
Eu lamento, senhora.
Não tem problema, Angela.
Mas ficaria decepcionada se me ocultasse algo sobre a morte do meu pai.
É tudo o que tenho para contar.
E desculpe, tenho muito trabalho.
Você se dá bem com as criadas?
Sei o que andou fazendo
-e não vou deixar que culpem todos nós. -Não fiz nada.
Faltam talheres.
Juro que não roubei nada, Julio. Acredite em mim.
Falaram que ficou nervosa.
-Achou que tinham te descoberto, não é? -O quê? Não fiz nada.
Natalia, não é o que parece.
Fiquei nervosa, mas não foi por isso.
A Dona Angela mentiu para Alicia.
Não é verdade que ninguém viu Dom Carlos dois dias antes de morrer.
Dona Angela falou que Dom Carlos não saiu do quarto aqueles dias.
Mas é mentira.
Viu Dom Carlos fora do quarto?
Eu o vi fora do hotel, na estação.
Mas por favor, não diga nada. Eu não deveria estar lá.
Eu saí escondida para ver uma amiga. Não queria que ele me visse.
Vi que saiu da agência dos correios e ficou parado.
Achei que tivesse me visto, mas não. Se encontrou com um homem.
Conhecia aquele homem?
Nunca havia lhe visto. Era aleijado, Julio.
Não tinha um dos braços.
-O que usa a colher. -O direito.
-O que ele disse ao Dom Carlos? -Só sei o que estou te contando.
Chegou no mesmo trem que a minha amiga. O trem de Aldain.
-Foi muito estranho. -Por quê?
Não sei. O Dom Carlos estava muito assustado.
Era como se soubesse que o homem ia fazer algo.
Minha amiga me distraiu e quando olhei, o homem tinha ido embora.
Não tinha acontecido nada com Dom Carlos. Pelo menos aquele dia,
porque no seguinte, estava morto.
Mas o melhor deste aparelho é que não só reproduz música,
-como também grava sons. -Como é possível?
Estão vendo este cilindro?
A agulha transforma o som em um desenho que fica gravado.
Mas é melhor vê-lo funcionando.
Diga alguma coisa.
-O quê? -O que quiser. Seu nome, onde nasceu.
Meu nome é Isabel. Isabel Beneito Fontes.
Sou de Ponferrada, Província de León. Pronto?
Meu nome é Isabel. Isabel Beneito Fontes.
Sou de Ponferrada, província de León. Pronto?
-Era eu? -Era. Este é o futuro.
Em breve haverá um fonógrafo em cada casa. É o nome do aparelho.
E para quem quiser,
também é uma possibilidade de trabalho independente e bem remunerada.
Parece até que é fácil construir um desses.
Quem falou em construir? As máquinas fazem coisas impressionantes.
Mas também quebram. Quem souber consertar, está feito.
Será possível ganhar a vida consertando estas coisas?
Claro. E de uma forma muito leve, jovem.
Falou com a sua mãe?
Já falei. Não tem problema em te oferecer o cargo.
-Não ouviu? -Não está me contando tudo.
Pode contar a parte ruim.
Quer que você peça.
-Quer que me humilhe a seus pés? -Que diferença faz?
Vá e se imponha.
Não dá para se arrastar e se impor ao mesmo tempo.
Alfredo,
minha mãe acredita que vai pedir a ela a direção adjunta.
Não faça isso. Peça a diretoria.
Que deixe Diego de lado.
Nunca fui de causar intrigas.
Antes de se reunir com ela, pense no seu filho,
no que for melhor para ele.
Só de pensar em contrariar sua mãe, já me deixa nervoso.
Parece muito interessada no seu livro.
Desculpe.
Às vezes me deixo levar pela leitura e posso ser grosseira sem querer.
Minha esposa adora romances.
Deve achá-las mais interessantes que sua própria vida.
-É só uma evasão. -Foi você quem disse, querida.
Quem não está preso, não precisa fugir.
O Senhor se prende muito à lógica. Não há nada de errado em ler romances.
-As conhece? -Li algumas.
Geralmente é uma heroína romântica que se rebela
e um pretendente ridículo declara
seu amor com palavras excessivas.
Essas coisas podem acontecer na vida real.
Posso, querida?
Ao olhar para ele, viu a paixão de um homem cego pelo amor.
Ele tremia dizendo que não podia desistir dela, que sabia antes de possuí-la.
Adoraria aproveitar sua companhia,
mas preciso responder umas cartas hoje.
Querida.
Quer me dizer o que é tão urgente?
Falei com a Srta. Alicia, vamos para Aldain.
Não espere meus parabéns. Sabe minha opinião.
-Andrés, nós três iremos. -Como se fosse fácil pular em um trem.
-Por isso nós decidimos ir de carro. -Nós?
-Eu e a Srta. Alicia. -Eu não conto.
-Você dirige. -Espera aí.
-Só você sabe dirigir. -Não vou.
É uma ordem da mulher do diretor.
Precisa ser você? A Sra. Alicia não pode chamar um dos motoristas?
Ela me pediu. Quer que desobedeça a uma ordem?
-Não, mas o que faço com a criança? -Para mim, é difícil me separar dele.
Às vezes sinto que muda só de desviar o olhar.
Por mim, passaria o dia inteiro com ele.
Não vai ter tempo para ficar com ele.
Nunca se sabe.
Meu pai embarcou quando eu tinha 5 anos.
Ainda me lembro da última vez que o vi.
O cheiro dele, seu sorriso.
Especialmente seu sorriso.
Depois soube que ele tinha se afogado.
Você só vai fazer uma encomenda em Aldain, é diferente.
-Você viu a minha esposa? -Pegou um carro do hotel. Foi para Aldain.
-Aldain? -Sim, senhor.
Algum problema?
Garrido, pegue um carro e vá para Aldain. Veja o que minha esposa foi fazer por lá.
-Já deve ter chegado lá. -Certo.
Andrés, tem certeza que sabe o que está fazendo?
Não sei de mecânica, mas se a correia está fora do lugar,
precisamos recolocar.
Por que precisam encontrar esse aleijado?
Achamos que está envolvido na morte do Dom Carlos
e o que aconteceu com você.
-Comigo? -Lembra que quase te mataram?
-Sim, não me lembre. Já passou. -Mas ainda não sabemos quem fez isso.
O povo de Aldain não vai responder a todas as perguntas.
-Nem pretendo perguntar. -Não vão confiar em mim.
-Você também não vai perguntar. -Não pretende que ela pergunte.
-Francamente... -Então quem vai perguntar?
Detetive Ayala, da polícia.
Estamos investigando a localização de um homem.
Só sabemos que é aleijado e esteve aqui há um ano.
-Com licença. -Já tenho minhas coisas para cuidar.
Ayala, faça o retrato deste homem.
Capriche nas orelhas, são bem características.
Sim, senhor.
Seu retrato irá aos arquivos policiais, se arrependerá se não cooperar.
Que eu saiba, só tem um aleijado aqui, na casa da vala.
Olhe nos meus olhos quando fala. Está escondendo alguma coisa?
-Não. -Não, senhor.
Não, senhor.
Tudo bem, continue com o seu trabalho.
Vão colocar meu retrato nos arquivos?
Não vai ser preciso.
Nesse caso, posso ficar com ele? Meu neto certamente vai gostar.
Entregue para ele.
Tome.
-Não está em casa, vamos. -Não vamos desistir na porta.
Mas o que está fazendo? Não.
-Quando nos virem... -Vão achar que somos policiais.
Entrei pela janela de trás. Vamos.
Boa tarde.
Viu uma jovem bonita e bem vestida passando por aqui?
Se nos vir aqui, não vai gostar. Ainda tem espingarda.
Precisamos saber se tem algo a ver com a morte do pai da Alicia.
Ela me ajudou a investigar o que aconteceu à minha irmã. E também te ajudou.
-É o mínimo que podemos fazer por ela. -Por isso está aqui?
-Não tenha dúvidas disso. -Olhem.
São recortes de jornal sobre o hotel.
"Carlos Alarcón, diretor do Gran Hotel, morre aos 65 anos."
E este é o obituário.
Será que quem tentou matar meu pai também tentou matar o Andrés?
É possível.
Será que foi o tal do aleijado?
Remessa de dinheiro.
O aleijado recebeu do hotel na véspera do seu pai falecer e de seu acidente.
Posso checar com a contabilidade do hotel, para saber quem pediu.
-Esta é a casa do aleijado... -Vamos embora!
Pela janela.
Podemos entrar pela janela.
-Está pisando no meu vestido. -Desculpe.
Não tem outro lugar?
-É o único lugar. -Entra!
Não gosto de invadir a casa do aleijado. Com aquele temperamento...
-Tem certeza que a garota entrou aqui? -Eulalia a viu entrando pela janela.
E os acompanhantes?
Falaram que eram da polícia.
O tal detetive Ayala e outro que dava as ordens.
Mas eu não acredito.
Vamos.
Dom Javier.
Dona Adriana.
Pelo visto, tivemos a mesma ideia.
Parece surpresa.
Esse livro não condiz com sua reputação.
Talvez minha reputação não condiga comigo.
-Já leu? -Assim que consegui um exemplar.
É uma história de amor maravilhosa e dramática, não acha?
Me encantou.
Qual é a sua passagem preferida?
Tem tantas...
-É impossível escolher uma. -O encontro no mercado das flores.
Ou a fuga para Paris.
Talvez prefira a mesma que eu.
Quando ela encontra o Duque e finge não tê-lo reconhecido.
Acho que concordamos.
Esse capítulo tem uma delicadeza maravilhosa.
Permita-me duvidar, Sr. Alarcón.
Não existe esse capítulo no livro. Tampouco há qualquer duque.
Acho que não me entendeu.
Pelo contrário.
O senhor estava representando um papel tão claro quanto o objetivo que perseguia.
Não sei do que está falando.
Francamente...
Sua reputação te precede. Estava tentando me seduzir.
-Encontrou a minha mulher? -Sim, senhor.
Acabou de entrar no seu escritório.
Veja só! A esposa desaparecida voltou.
Estava te procurando.
Desculpa, o tempo estava tão bom que me empolguei com o passeio.
Horas passeando, Alicia?
O que foi fazer em Aldain?
-Aldain? -Estava lá, não é?
-Mandou me seguir? -Mandei te buscar.
Alicia, Aldain não é um bom lugar para uma garota passear sozinha.
Ouvi falar que estava em boa companhia. Os policiais Ayala e Hernando?
Eu os encontrei por acaso,
mas fui sozinha.
Posso saber por quê?
Posso guardar silêncio sobre meus assuntos pessoais?
Com certeza.
Mas isso indica que talvez eu deva me preocupar, certo?
Fui fazer uma encomenda.
Não acha que seu marido tem direito de saber o que é?
Não, se a encomenda tem a ver com ele.
Só espero que terminem a tempo para o seu aniversário.
Dez dias passam depressa demais.
Precisa ter paciência.
Há motivos para se preocupar, senhora. A Alicia foi até Aldain.
Não quis me dizer por que, mas espero descobrir.
Acabaram de me dar uma péssima notícia,
mas confio tanto no diretor deste hotel que nem dei crédito.
Que notícia é essa?
Sente-se.
Aceita algo para beber?
Tem gente do Tesouro Público que está interessada neste hotel.
Pessoas que espalharam que meu finado marido devia muitos impostos,
-ou que não os pagou quando devia. -Falaram isso assim que morreu, senhora.
Você mesmo disse, tentaram nos destruir.
Te pedi que nos livrasse dessa ameaça.
E o fiz, Dona Teresa. Comprei muita gente, mas consegui.
Não conseguiu, Diego!
Senão o assunto não continuaria vivo.
Estão reclamando uma dívida de 300 mil pesetas.
Isto não me deixa escolha.
Esperava dizer ao seu concunhado que não tinha nada para ele
depois de deixá-lo se humilhar.
Mas agora terei que me controlar.
Precisamos do dinheiro daquele fraco.
Quem é?
Sou eu.
Olá, mãe.
O Alfredo está?
Dona Teresa.
A Sofia me perguntou se estava disposta a renovar a oferta da codireção do hotel.
E a senhora se recusou, a menos que eu pedisse expressamente.
-Se é isso que quer... -Não precisa continuar, Alfredo.
Você se sacrificou pela minha filha.
Foi preso para proteger seu bom nome.
E o do nosso filho.
Agora é marquês. Não é justo que venha me pedir nada.
Sou eu que devo oferecer.
O apropriado à sua condição e lealdade
não é compartilhar o cargo com alguém a quem despreza.
E o que propõe?
A diretoria acima do Diego.
Seria o líder do Gran Hotel.
Não deveria tocar, se não sabe como funciona.
Parece que o fonógrafo chamou sua atenção.
-Desculpe, Dom Pablo. -Imagina.
Gosto que aproveitem tanto quanto eu.
-Então ligue uma música. -Mas precisam dançar.
Tire a senhorita para dançar.
Eu?
Não.
Por que não?
Porque não sei dançar.
Bem, ouvi falar que se não sabe fazer algo,
sempre se pode aprender.
Pensei que não sabia dançar.
-Senhorita Alicia! -Desculpe.
Não tem problema. É o horário de descanso.
Só vim buscar o Sr. Espinosa, vai ser rápido.
-O amigo do Ernesto insistiu em dançarmos. -Não precisa dar explicações.
Aconteceu alguma coisa?
O Diego me pegou no escritório quando investigava a contabilidade.
-Ele te viu? -Acho que não.
Ainda bem, porque ele assinou os pagamentos para o aleijado.
Sim?
Andrés, pode entrar.
Contou ontem sobre as máquinas de música serem o futuro, e quem souber repará-las.
É isso mesmo, como contou?
Não tenho costume de mentir.
Poderia me ensinar como funciona a máquina de música?
-Parece mais complicado do que é. -Gosto dessas coisas.
Esta manhã, consertei um carro que nunca tinha visto na vida.
Estou vendo que não reparou, ou fingiu que não reparou.
Quando uso a prótese por muito tempo, começa a doer.
Só a morfina me acalma.
Acabo de lembrar que preciso resolver umas pendências.
Certamente tem uns minutos. O Ernesto é compreensivo. Sente-se.
Preciso muito conversar com o senhor.
O aleijado... aqui.
O quê?
Calma. Não entendi nada.
O aleijado está aqui.
Tem certeza?
É amigo do Ernesto, o Pablo.
Talvez não seja o mesmo aleijado.
Quantos devem haver por aí querendo me matar? Está até com morfina.
E se não for? Estaríamos acusando a um pobre aleijado.
O que vamos fazer?
Deveríamos comprovar, se é o mesmo aleijado.
Agora está no quarto e sairá na hora do jantar.
Estarei no restaurante com a minha família. Me avisem.
E eu? Vai me deixar sozinho?
-Ele pode me matar a qualquer momento. -Calma, não deve tentar nada até à noite.
-Dom Pablo. Já jantou? -Não, mas não quero incomodar.
Vou pegar qualquer coisa e beber no quarto do Ernesto.
Não incomoda.
Sente-se aqui, por favor.
O que foi?
É uma prótese. Sou aleijado. Não tinham percebido?
Não. Lida muito bem com ela.
Andrés, não vai jantar?
Não. Estou sem fome.
Vou para o meu quarto. Quer dizer, para o outro lado do hotel ou...
-Vou checar a mala dele. -E eu?
-Esconda-se em seu quarto. -Falei que ficaria lá.
Não, falou que ia ficar em todo lugar. Eu fico de olho.
-Se alguém aparecer, como te aviso? -Sei lá. Assobie.
-Uma senhorita não deve assobiar. -Então só fale alto.
Combinado.
Como perdeu a mão, Sr. Llanos?
-Não seja atrevida assim, Isabel. -Tudo bem, não me incomoda contar.
Uma farpa fincou na minha mão quando limpava celeiros no Uruguai.
Não me importei, infeccionou
e quando consultei um médico, a gangrena já estava avançada.
Que azar.
Eu achei mais um castigo do que outra coisa, senhorita.
-Imagine. -Se soubesse dos meus pecados,
entenderia o que quero dizer.
Não diga isso, Sr. Llanos. Tem cara de um homem bom.
-Dizem que a cara é o espelho da alma. -Sim, mas também, as aparências enganam.
E conheço gente sem coração, com cara de anjo.
Não podemos perder a esperança de que atrás dessa máscara severa,
a Dona Angela possa ter um bom coração.
-Vou com o senhor. -Boa noite.
Boa noite.
-Dona Alicia. -Estava te procurando, Ernesto.
Aconteceu alguma coisa, senhorita?
Claro. Não acha rude manter seu convidado aqui no andar de serviço
sem mostrar o resto do Gran Hotel?
Sinceramente, não.
Já foi generosa demais permitindo que se hospede aqui.
ALDAIN - CANTALOA TERCEIRA CLASSE
Acredite, estou muito agradecido.
-Mas eu insisto. -Eu insisto em recusar a gentileza.
Obrigado, senhorita.
Muito bem, como quiserem.
Se preferem ir descansar...
Está tudo bem, Dona Alicia?
Sim, perfeitamente.
Está bem mesmo?
Sim, Ernesto. Boa noite.
Boa noite.
É ele?
E agora?
Assim que o Ernesto sair, vou abordá-lo. Espere no meu quarto.
Abra.
-Quem é? -Isabel.
-O que foi, Isabel? -Um samovar do refeitório está vazando.
Meu expediente já acabou.
Sua mãe quer que você resolva e que é ótimo nessas coisas.
Andrés, o que está fazendo aqui?
-Deveria estar no seu quarto trancado. -Diga isso à minha mãe.
Não se preocupe, estou de olho no quarto do Ernesto.
-Se o Pablo sair, vou saber. -Vou estar no restaurante.
Pode entrar.
-Dom Ernesto. -Julio.
Essa pressa é boa no trabalho, mas não na folga.
-Estou procurando o seu amigo. -O Pablo?
-Acabou de sair, não conseguia dormir. -Sabe aonde foi?
Não sei.
Algum problema?
Não, Sr. Ernesto. Não é nada.
Julio.
Agora está a salvo. Eu cuido dele.
Você tem força, garoto. Poucos me derrubam no primeiro soco.
Se não falar a verdade, vai ser com mais força.
O que ia fazer com o Andrés.
Julio, não.
Desde pequena ela era a melhor da família.
Que bom que aquele pequeno anjo não mudou.
O senhor me conhece?
A senhora não se lembra,
devia ter apenas dois anos quando saí do hotel.
Trabalhou aqui.
Dez anos.
Mas se perguntar pelo Pablo, não vai encontrar ninguém.
Meu nome era Juan. Sou o pai do Andrés.
Não, o pai dele morreu nas Filipinas.
A guerra é um bom lugar para sumir e voltar como outro homem.
-Isso foi há 20 anos. -Eu sei.
Por que fez isso?
Não quero ofender a memória do seu pai.
Sei que a Angela teve uma relação com o meu pai.
Demorei cinco anos para descobrir.
Se fosse algo passageiro, eu a teria perdoado,
mas a Angela estava apaixonada pelo Dom Carlos
e Dom Carlos por ela. Foi o que fiquei sabendo.
Sempre tinham se amado.
Já pensou? Uma criada com um Alarcón.
Impossível.
Por isso cada um se casou com alguém de sua condição
e assim ninguém conseguiu ser feliz.
E o Andrés?
Cuidei dele durante seis anos,
sabia que não era meu filho, mas sinto como se fosse.
E por que o abandonou?
Por raiva, por orgulho.
Pensei em mil razões. Nenhuma delas era boa.
Me afastar do Andrés foi o pior erro da minha vida.
E por que voltou agora?
Foi visto falando com meu pai há um ano, na estação.
Para um homem sem uma mão, é difícil conseguir emprego.
Conhecia o segredo do Dom Carlos Alarcón e vim atrás de dinheiro.
Para mim e meu filho.
Já que tinha faltado quando era pequeno, queria lhe dar um futuro.
Sei que isso não compensa seu sofrimento,
mas posso dar ao Andrés o que lhe pertence.
Vou reconhecê-lo como meu filho mais velho.
Herdará sua parte do hotel e ocupará seu lugar na família.
-Por que demorou tanto para me dizer? -Ainda não pude agir.
Estão me vigiando, mas não se preocupe,
amanhã o assunto do Andrés estará resolvido.
Mas quando li a notícia de sua morte, percebi que o que tinham me prometido
não viraria realidade.
E por que voltou agora?
Estou ficando velho,
estou doente...
e quando li sobre o acidente do meu filho
quis vê-lo pela última vez.
Legendas: Marcelo Henriques
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