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[GAROTO] Galego, volte aqui. Diacho!
[HOMEM] Ei, meninos. Venham aqui.
Opa, moço.
Desculpe pelas crianças.
A gente estava só de passagem.
Que isso.
Deixe os meninos descansar um pouco.
E você?
Faça o café para a gente.
Vamos embora daqui, vamos.
Você não ouviu?
Sentem ali naquele tronco.
[TINIDO] Ah, diacho.
Não sou muito bom em fazer café.
Sou bom mesmo é em contar história.
Deixa que eu faço o café.
Sente aqui.
E conte uma história.
Antigamente, lá para cima destas terras, tinha uns cabras maus.
Tudo que respiravam e não era do agrado deles, os cabras matavam.
A vida por aquelas bandas não tinha muita valia não.
Cabra mau tem em todo canto.
Assim como cabra frouxo.
É.
Mas lá era diferente.
Diferente como?
Naquela época, só vingava quem merecia muito viver.
Época?
É.
Época do Cangaço.
Conte logo essa história.
[HOMEM DISTANTE] Vá, homem.
Faça sua prosa.
Pelo amor de Deus.
Faça sua cantoria, homem.
Que a gente aprecia. Não é, cambada?
É!
"Os Macacos têm matado, muito mais estão matando,
e a força do cangaço aos poucos está se acabando.
Os Macacos da Volante têm cumprido o seu papel,
cada cangaceiro morto exibem como um troféu.
E o cangaço está sentindo o gosto amargo do fel.
Admiro a Volante, com tanta disposição,
dando final no cangaço, trazendo paz ao Sertão.
Já mataram a Maria e o temido Lampião.
Desta vez, a Volante não terá nenhum agouro,
vai pegar o destemido, Corisco, Diabo Loiro,
e exibir a sua cabeça com o seu chapéu de couro."
[DISPARO DE ARMA] Recitei...
Vamos embora!
[NARRADOR] Nossa...
Sertão é terra seca,
dura, cruel.
As pontas são tortas,
espetam.
O chão é rachado.
Tudo que nasce lá tem que ser forte e bravo para sobreviver.
Mas também, era no Sertão que tinha uma das pedras mais valiosas deste mundo.
A turmalina paraíba.
Mais valiosa que diamante.
Era azulinha e muito poderosa.
Diziam até que era maldita.
Todo cabra que sujasse o sangue com as pedras,
caía na maldição e se vendia para o tinhoso.
Tinha família no Sertão que, por causa das pedras, perdia tudo e passava fome.
Por isso era costume achar uns bebês deixados na mata.
As famílias que não tinham como criar eles,
alimentava os bichos para comer eles depois.
Só não podia olhar nos olhos dos bebês.
Porque senão enchia a cabeça com coisa errada.
Aí depois era difícil de arrumar.
[BEBÊ CHORANDO]
[ROSNADO]
[DISPARO DE ARMA]
[ESTRONDO]
[CHORO CONTINUA]
[NARRADOR] Esse cabra foi o maior matador que já existiu no Sertão.
Até ser jurado pelo Gringo,
o "matador dos matadores".
[RESPIRAÇÃO OFEGANTE]
[FALANDO INGLÊS] É hoje que você morre, seu filho da puta.
[DISPARO DE ARMA]
[NARRADOR] Ele foi criado por Sete Orelhas.
Seu nome de nascimento era Januário.
Uma vez, sete cabras amarraram o irmão de Januário numa árvore
e despelaram ele vivinho.
Januário matou os sete.
Depois arrancou uma orelha de cada um.
Salgou, colocou num cordão e passou a usar no pescoço.
Não demorou muito para ficar conhecido como Sete Orelhas.
Foram sete orelhas que ensinaram ele sobre tudo o que é importante nesta vida.
E o primeiro aprendizado foi:
"tudo que rasteja, anda e voa, se come."
Mas só se mata o que vai comer.
Ele me contou que aprendeu tudo sobre armas com o Sete Orelhas.
Por exemplo,
ele me ensinou que as pontas das balas são mais importantes que o calibre
e que cada uma faz um estrago diferente.
Foi Sete Orelhas que ensinou ele a montar um jirau para caçar à noite.
E o mais importante,
foi Sete Orelhas que ensinou ele a matar.
Todo detalhe conta.
A roupa não pode aparecer.
A respiração tem que ser baixa.
E o principal,
a cabeça tem que estar sempre vazia.
Se você pensa no filhote do porco,
você não mata ele.
Sete Orelhas nunca deixou ele sair do Sertão.
Tudo o que eles precisavam tinha ali.
A única coisa que ele conhecia da cidade dos homens
eram os cordéis que Sete Orelhas trazia de lá.
A "cidade dos homens" era o povoado mais próximo.
A mais de uma lua e meia de distância.
O sonho dele era um dia conhecer aquele lugar.
Quanto Sete Orelhas ia para a cidade dos homens,
ele fazia um boneco de Sete Orelhas
para ter certeza de que ele iria voltar.
Sete Orelhas dizia que se o boneco estivesse bem,
ele também iria estar.
Com o tempo, ele cresceu, e Sete Orelhas nunca mais voltou.
Volta e meia ele pensava em ir atrás de Sete Orelhas,
mas ficava acuado
toda vez que lembrava da última vez que tentou atravessar o Sertão.
Então tomou coragem
e decidiu não voltar sem Sete Orelhas.
O cabra conhecia todos os tipos de toca dos bichos do Sertão,
mas nunca tinha visto onde o "bicho homem" se escondia.
Ele conhecia as pedrinhas coloridas
e sabia que Sete Orelhas gostava.
Você quer morrer, é? Filhote de cruz credo.
[NARRADOR] Quando a intenção não é boa, os olhos mostram.
Isso é igual para todos os bichos.
Foi a primeira vez que ele matou um cabra
e já começou matando bem.
Navalhada, Boca Seca
e Peruano.
Eram os três pistoleiros mais procurados de Pernambuco.
Ele passou o resto da noite rodeando ali para ver se encontrava Sete Orelhas.
Como recompensa por ter matado os cabras,
ele ganhou três turmalina paraíba.
Para ele era difícil entender como aquele pedacinho de pedra
podia valer mais que uma vida.
Ela não acabava com a sede,
não enchia o bucho,
nem trazia de volta defunto.
Por que as pessoas gostavam tanto daquela pedrinha?
Ele ficou de longe só apreciando o que as pessoas faziam.
Era igual apreciar os bichos do Sertão.
Cada um com a sua mania.
Ele viu que o povo da cidade também tinha um boneco,
amontoava de gente esperando ele voltar.
Naquela noite,
ele não dormiu, pensando que Sete Orelhas também podia ter virado uma pedrinha.
Ficou aperreado e foi tirar dúvida,
perguntou para o cabra que tinha dado a recompensa se ele conhecia Sete Orelhas.
O cabra mandou ele falar com um tal de Francês.
Monsieur Blanchard.
O dono da cidade.
Laerte.
Pierre se comportou bem?
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[VOZ ESTRIDENTE]
Monsieur Blanchard, o meu cliente não concorda com o irmão dele
e, portanto, decidiu não vender as terras de Petrolina para o senhor.
É verdade?
É isso mesmo, Francês.
As terras são minhas e de meu irmão.
E se ele decidiu vender as terras para o assassino de nossos pais,
ele que acerte as contas com o capeta.
Não vou vender nenhuma terra para você.
Pense.
Você me tirou tudo.
Você matou toda minha família.
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[INDISTINTO]
[NARRADOR] Monsieur Blanchard
era um bicho diferente,
que falava uma língua que ninguém entendia.
Por isso usava um mudinho para se explicar.
[SONS ESTRIDENTES]
[NARRADOR] Ele veio fugido do pai dele, sem ter onde cair morto.
De repente, trabalhando no garimpo, achou uma turmalina paraíba
de tamanho generoso
e caiu na maldição.
Ficou rico
e, em pouco tempo, construiu um império explorando o povo da região.
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[NARRADOR] Monsieur Blanchard
trouxe do seu país o amor de sua vida,
a filha do dono do bordel da cidade onde ele morava.
[FALANDO FRANCÊS]
Madame Blanchard.
[FALANDO INGLÊS] Impressionante.
[NARRADOR] Uma mulher de personalidade forte.
Quanto dura seu orgasmo?
[NARRADOR] E com a cabeça um bocado diferente.
[Madame Blanchard] Quanto dura?
[NARRADOR] Ela abriu um bordel na cidade para agradar os compradores de pedra.
Empresários, políticos, fazendeiros.
[FALANDO FRANCÊS]
[NARRADOR] E todo mundo que tivesse bastante dinheiro.
O casal teve um filho chamado Pierre,
uma mistura de tudo o que tinha de ruim dos dois.
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
Tião, aquele ali.
Venha cabra.
Não!
Não!
Para!
Não!
Você que é o tal Francês?
O quê?
Quem é você?
Cadê Sete Orelhas, que não voltou para casa?
Ele foi viver com uma família que ele tinha na Paraíba.
[GALOPE]
Perdi meu melhor matador.
Me coloque no lugar dele.
[FALANDO FRANCÊS]
Sou bom de pontaria, podem perguntar por aí.
Estão rindo de quê?
Está contratado.
Mudinho!
[FALANDO FRANCÊS]
[NARRADOR] Para dar as boas-vindas,
o Francês preparou uma surpresa para ele.
Qual é seu nome?
[NARRADOR] Foi ali,
naquela noite,
que ele criou o próprio nome.
Cabeleira.
[NARRADOR] O nome do seu herói dos cordéis.
Cabeleira.
Oi.
Para fazer o que você fez comigo,
tem que pagar.
Pagar?
[NARRADOR] Cabeleira tinha caído na tentação
e precisava arrumar as pedras.
Então o Francês mandou o Mudinho contar qual era o esquema.
Mudinho explicou sobre o despacho, o retrato de defunto em chifre de bode,
e das pedrinhas que Cabeleira iria ganhar.
Ele começou a matar todo mundo que não queria vender terras ao Francês.
Cabeleira não entendia como alguém podia ser dono de terra,
se antes mesmo de ele nascer a terra já estava ali.
Para ele, não deveríamos ser donos da terra.
Ela que deveria ser nossa dona.
Mas a vontade de ganhar as pedras era tanta,
que, em pouco tempo, Cabeleira virou o matador preferido do Francês.
Com as pedrinhas que ganhou, se aprumou,
e gastava tudo no bordel dos Blanchard.
Cabeleira nunca tinha sido tratado tão bem.
Ele estava encantado com o poder das pedras.
Queria ganhar cada vez mais.
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[TODOS APLAUDEM]
[FALANDO FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
[CANTANDO EM FRANCÊS]
E o Sete Orelhas?
Nossa...
Cabeleira se esqueceu do Sete Orelhas.
Mas por quê?
Porque ele estava amaldiçoado pelas pedrinhas.
Ele já tinha tirado umas vidas em troca da azulinha.
Todo cabra que sujasse o sangue com as pedras estava amaldiçoado.
Ou você não lembra?
Então ele passou a matar e tudo, não é?
Não.
Cabeleira não matava mulher, nem criança.
Por isso o Francês usava os cangaceiros.
[NARRADOR] Dava ordem para o grupo invadir as propriedades.
Colocar fogo nas casas e matar toda a família.
Meu filho!
[CHORANDO]
[NARRADOR] Para dar fim aos cangaceiros, apareceram os Macacos.
Para mim, eram uns cabras que faziam maldade igual.
Mais eles podiam.
Porque tinham a vestimenta.
Vai, retardado! Rasteje aí!
Vai, está com medo de quê?
- Rasteje, vai! Grita, vai! - Isso, rasteje aí. Está com medo de quê?
- Aí, rapaz. - Essa carta aqui...
- Vou urinar em cima de você. - Seu retardado.
[NARRADOR] Só que eles morriam também.
Sobral.
Cabra macho, coração vazio.
Tipo de animal perigoso.
Não tinha nada a perder.
Aproveitou o traje de tenente.
Cortou as cabeças dos defuntos.
E chegou na cidade disfarçado de Macaco.
Em pouco tempo, todos ali já sabiam da chegada e valentia do tenente.
De quem eram?
Cangaceiros.
Mas em cidades sem lei, cangaceiro morto não é bem visto pelo delegado.
Delegado.
O tenente que chegou com as cabeças está aqui.
E eu vim perguntar
quem é o coiteiro dos cangaceiros desta cidade.
[DELEGADO] Mas aqui não tem cangaceiro.
Não tem?
[NARRADOR] Quatro Olhos era quem desenhava os defuntos do Francês.
Qualquer um que ele encucasse, já era rabiscado.
Aí era só esperar o Francês dar o sinal, que ele já despachava o defunto.
O cabra era cheio de mania, e devoto de Egum desde criança.
Por isso ele sempre colocava as pedrinhas e os rabiscos nas oferendas que fazia.
Era o lugar mais seguro. Ninguém mexia num despacho.
Quatro Olhos era patrão de Cicatriz.
Não existe escravo que fazia tudo o que Quatro Olhos mandava.
[DISPARO DE ARMA]
[ORANDO] "...céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje.
Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.
Não nos deixeis, cair em tentação, mas livrai-nos de todo o mal.
Amém."
Vou lavar minhas mãos.
Renata, você e a prima deviam fazer o mesmo.
Minhas mãos estão limpas, homem.
Mas as minhas não.
Vocês não pegaram nelas?
A gente vai comer de garfo e faca, homem de Deus.
Ah, sei. Quero só ver.
[RISADA CONTINUA]
Posso saber o que estava acontecendo de tão engraçado aqui?
Hein, Doidinho?
Estava rindo do quê?
[GRITANDO] Estava rindo do quê, Doidinho?
Do quê?
Estava rindo do quê?
Responda! Do que você estava rindo?
Fica brincando com Macaco, cai do galho e se machuca.
- Merda. Preciso lavar minha mão de novo. - O que foi que ele...
Estou sabendo que ele chegou ontem, junto com o Macaco na cidade.
Nossa, homem. Ele não entende nada.
Ele deve ter visto um senhor de farda, achou bonito e quis andar com ele.
Pois é bom ele entender
que aqui quem anda com Macaco tem vida curta, viu Doidinho?
Vida curta, homem!
Onde é o quarto do tenente?
[NARRADOR] Fernanda foi atrás de Sobral na esperança de justiça.
[BATENDO NA PORTA] Com licença, tenente.
[NARRADOR] Só não podia vacilar.
O que você quer, menina?
O desgraçado do Francês queimou nossas terras e matou toda minha família.
Só sobraram eu e meu irmão, o Doidinho.
O Doidinho que o senhor conheceu.
Tome cuidado, homem.
O Francês tem um pistoleiro que se chama Cabeleira, o maior matador que há aqui.
O senhor parece ser bom.
[NARRADOR] Fernanda viu nos olhos do tenente
a chance de vingar sua família.
Não me decepcione, não.
Pelo amor de Deus, não me decepcione.
Nossa, que susto.
Escolhendo carne com a mão, mocinha?
Você não tem nada a ver com esse Macaco que chegou aí, tem?
Até já fiz o retrato dele, está lá em casa.
Do tenente?
Não ouviu nada do que eu disse aqui, certo?
Não ouvi nada.
Estou de olho em você, mocinha.
Aqui eu sou a lei.
Já está tarde, primo. Eu preciso ir.
Vá mesmo.
Ainda tenho que comprar mais algumas coisas por aqui.
Porque sua prima não sabe escolher carne.
[CACHORRO LATINDO]
Prima, saia daí, pelo amor de Deus. Quatro Olhos vai matar você, mulher!
- Onde é que está o retrato do defunto? - Do que você está falando?
É verdade que ele desenhou o tenente que chegou?
- Pelo amor de Deus, prima. Calma, mulher! - Onde é que está, prima?
- Você não sabe o que está fazendo! - Me diz onde é que está!
Quatro Olhos vai chegar e vai matar você. Pelo amor de Deus!
Fernanda, você é tudo o que tem, minha prima.
Não faça isso.
- Ei, Renata. - Oi, homem.
Onde é que está a prima?
Não está lá fora?
Não tem ninguém lá fora.
Ela deve ter ido lá no curral. Eu falei que a vaca deu cria, ela deve ter ido ver.
Cadê a carne, homem?
Não comprei nenhuma carne.
Perdi o apetite.
O que...
Quem foi que derrubou Egum?
Sei lá, homem.
Eu já disse que não se mexe com Egum, Renata!
Já não disse que não se mexe com Egum?
Não disse?
Nunca mais mexa com Egum, está entendendo?
Está entendendo?
[OFEGANTE] [TOSSINDO]
Merda. Tenho que lavar minha mão.
[CHORANDO]
[CHORO CONTINUA]
[NARRADOR] Naquela mesma tarde, o Francês deu sinal para Quatro Olhos
colocar o retrato do Macaco no despacho.
Quenga dos infernos.
Quenga dos infernos!
Ei, Doidinho.
[GRITANDO INDISTINTAMENTE] Não vai me pegar.
Não vai me pegar.
[BATIDA]
Ei, Doidinho.
Cabritinha.
Cadê você, cabritinha?
[BALIDO]
Ei, mulher.
Hoje você é só minha.
Cadê você?
Hein, galeta?
Está aí, é?
Cabritinha.
[BALIDO]
Ah, cabritinha.
Você é só minha hoje.
Estou sentindo seu cheiro.
É você?
É?
Vou arrombar esta porta, cabritinha!
Abra! Você está aí, é?
Volte aqui agora, cabrita!
[MULHER REZANDO] "...cheia de graça, o Senhor é convosco,
bendita sois vós entre as mulheres,
bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores.
Agora e na hora da nossa morte. Amém."
Espírito santo.
Dona Luzia.
Dona Luzia, pelo amor de Deus.
Abra a porta, dona Luzia.
Abra a porta, me deixe entrar.
- Menina, que desespero é esse? - Tem que trancar a janela.
Tem um matador atrás de mim, dona Luzia.
Um matador? Mas por quê?
Não sei, juro que não sei.
Venha aqui. Se acalme.
Vamos lá para dentro, vamos.
- Não se preocupe, ele já foi embora. - Mataram meu irmão.
Mataram meu irmão!
[CHORANDO]
Vamos.
Sente aqui.
Sente aqui, calma.
Vou pegar um copo com água
e açúcar para você.
Ei, cabritinha.
Cicatriz. Por favor, não suje a minha casa.
Deixe comigo, dona Luzia.
Que eu não vou estragar o corpo.
Porque depois eu vou usar.
[CHORANDO]
Falei para a prima que quem anda com Macaco cai do galho, lembra?
Ainda foi ajudar aquela quenga.
E agora, como eu vou explicar para o delegado
que o Macaco já sabe que está encomendado?
[SIMULANDO A CONVERSA] "Quatro Olhos, seu filho de uma rapariga, como aconteceu?
Então, delegado,
é que a minha mulher, a prima dela e o Doidinho
descobriram o retrato do defunto e abriram o bico para o Macaco.
É mesmo, Quatro Olhos?
Se isso for verdade mesmo,
o Francês vai tirar meu couro, rapaz."
Que ódio, meu joanete está naqueles dias.
[NARRADOR] Aquele era Corisco,
mais conhecido como "Diabo Loiro".
Um dos únicos que sobrou do grupo de Lampião.
O cangaceiro mais arrochado que já existiu.
Os cangaceiros chegaram sem avisar.
Procurando aqueles que ajudavam os Macacos.
Venha aqui, homem.
Você está surdo? Venha aqui, cabra!
Coloque a língua para fora.
Coloque a língua para fora, cabra!
[GRITANDO DE DOR]
Isso é para você saber que quem dá com a língua para Macaco, fica sem ela!
[GRUNHINDO DE DOR]
E mulher que anda com homem errado é rapariga!
Dê ela para o filho do Francês e para os amigos brincarem esta noite.
[FALANDO FRANCÊS]
Tudo bem. Que a festa continue.
Ai, por favor.
[FALANDO FRANCÊS]
Pelo amor de Deus!
Não me machuque.
Não vou machucar você.
Eu gosto é de olhar.
[FALANDO FRANCÊS]
E ela morreu?
Morreu.
Mas Soraia não é aquela que Cabeleira
tirou a forra?
Essa mesmo.
E cadê esse Cabeleira que sumiu da história?
É agora que Cabeleira volta com tudo.
É agora que ele vai vingar a quenga, não é?
Não.
Mas a morte da Soraia mudou a vida dele.
Soube da Soraia?
O que tem a Soraia?
Mataram ela.
Mataram, é?
Ela deixou uma coisa para mim que na verdade é para você.
Uma coisa?
Que coisa?
Aguarde um instante.
Volto logo.
Antônio...
esse aqui é seu pai.
Que pai o quê!
Soraia falou que ele é seu filho.
E jurou de pé junto.
O que você quer, menino?
Fale com seu pai, menino!
Ele é mudo?
Está meio abatido por causa dessa história que aconteceu, mas o menino é esperto.
O bicho é lento.
Não é, não. Ele é esperto.
Passou um dia aqui e já ficou atocaiando tudo.
Já sabe quem entra, quem sai.
Vai ser bom para você levar para caçar, sabia?
Você sabe caçar, Antônio?
Leve ele com você.
O menino não tem mais ninguém nesta vida.
Até mais.
Leve que o filho é seu!
Não vou ficar com você.
Não sou sua mãe.
Sua mãe morreu!
Aquele lá é seu pai!
Agora ele é tudo o que você tem nesta vida.
Viu? Então grude nele.
Tome estas pedrinhas aqui. Para você não ir sem nada.
Vá embora, menino.
Nossa, bicho teimoso.
[RESPIRAÇÃO OFEGANTE]
Menino!
Cadê o boneco?
Se você tocar de novo nas minhas coisas,
mato você, menino!
Escutou?
[MURMURANDO] Um, dois, três, quatro, cinco, seis,
sete, oito, nove, dez, 11, 12, 13, 14...
Me dê sua mão.
É seu.
E aí, você vai ou não?
O que você tem aí?
- O quê? - Esse anel.
É de Sete Orelhas.
Quem é Sete Orelhas?
Sete Orelhas foi o homem que me criou.
- Então ele é seu pai? - Não.
Foi o homem que me criou, já falei.
Não somos da mesma família.
Se ele criou você, ele é seu pai.
E onde ele está?
[PEDINDO SILÊNCIO]
Para pescar tem que estar em silêncio, viu?
Quieto.
O que é isso?
Defunto encomendado.
Como você sabe?
Porque eu sei.
Aonde você vai?
Acabar um trabalho.
Posso ir com você?
Não.
Não minta para o menino.
Você não vê, homem?
[NARRADOR] Quem nasceu para matar, tem que ter a cabeça sempre vazia.
Se você pensa no filhote do porco,
você não mata ele.
- [OFEGANTE] - [GRUNHINDO]
Cadê a lei desta cidade?
Está tirando uma soneca.
Você que é o desenhista?
Sim, senhor.
Agora você vai se desenhar que eu quero ver.
Vá!
Eu conheço esse cabra.
[DISPARO DE ARMA]
Ei, cabra!
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
[FALANDO FRANCÊS]
Eu vim matar você, Francês.
Para que eu possa morrer em paz.
Quem é você?
Sou mais um dos que você desgraçou.
Por favor.
[FALANDO FRANCÊS]
Está achando que é brincadeira, não é?
Eu já tive mulher e filho
e você matou os dois.
Mudinho, fique quieto aí.
Para depois contar a história.
Eu gosto de justiça. Ah, eu gosto mesmo.
"Olho por olho, dente por dente."
Éramos três. Morreram dois, sobrou um.
Vocês também são três. Vão morrer dois e sobrar um.
O menino pode sair.
Obrigado.
Estava agradecendo a desgraça da família?
Esse não merecia viver.
Ei, você. Levante.
Vá abraçar o defunto.
Mas feche bem os olhos.
Porque o que vou fazer com o seu marido, nem defunto vai aguentar ver.
[CHORANDO]
Eu vim aqui
para fazer você sofrer...
[FALANDO INGLÊS] Tudo bem.
[FALANDO INGLÊS] Agora deixe eu ver a espingarda.
[NARRADOR] Toda vez que o Francês se irritava com algum matador
que não conseguia cumprir o serviço,
ele chamava o Gringo, o "matador dos matadores".
Depois de alguns dias, o recado chegou.
Cabeleira tinha que sair dali ou ia acabar virando mais uma paraíba de M. Blanchard.
O Francês ficou com raiva porque perdeu o filho.
E jurou Cabeleira de morte para o Gringo.
Eu... Eu tenho que ir embora.
Não posso mais ficar aqui.
E para onde a gente vai?
Você não pode ir comigo.
- Mas quero ficar com você. - Não!
Bom, falei.
[FALANDO INGLÊS] Sorria.
Não entendo o que você diz, homem.
[FALANDO INGLÊS] Eu disse: "sorria".
[FALANDO INGLÊS] Venha aqui.
[GRUNHINDO]
[FALANDO INGLÊS] Você fala demais.
[DISPARO DE ARMA]
Uma passagem de trem para o lugar mais longe que tiver.
[FUNCIONÁRIO] Vai querer quantas?
Uma.
Sente aí.
Sente aí, menino. Já falei.
Você vai ficar aí sentado,
e quando o trem chegar você entra nele.
Entendeu?
Entendeu?
Certo.
Aquele lá é seu pai, agora ele é tudo o que você tem nessa vida.
Viu? Então grude nele.
[FALANDO FRANCÊS]
Quem?
Filho de Cabeleira?
Cadê o garoto?
Está no banheiro.
[FALANDO INGLÊS] É hoje que você morre, filho da puta.
[DISPARO DE ARMA]
[DISPARO DE ARMA]
[NARRADOR] Cabeleira viu o cordão de Sete Orelhas no Gringo e ficou zangado.
Carregou seu revólver só com ponta oca
e foi resolver a bronca com o Francês.
Cabeleira queria saber o que tinha acontecido com Sete Orelhas.
E o Francês contou.
Sete Orelhas desistiu de ser matador
e resolver avisar o defunto e a família que ele estava encomendado.
Não demorou, e o fazendeiro que contratou Sete Orelhas para o serviço ficou sabendo
e colocou o Gringo no lugar.
O Francês só não contou uma coisa.
Que o fazendeiro era ele.
E o Cabeleira matou o Francês?
Calma.
A história não acaba aí.
E o que aconteceu com o menino?
Então...
O menino era eu.
[CONDUTOR] Acorde, menino.
Vamos embora, está na hora de descer. Vai.
[NARRADOR] Nunca tinha visto tanta gente aprumada.
Tudo era colorido
e bem misterioso.
Fiquei um bom tempo vagando pela cidade sem rumo.
Só lidando com o que vinha pela frente.
Diferente do Sertão, a terra ali era farta.
E o povo era bem mais hospitaleiro.
Cadê sua mãe?
Ela morreu.
Ah, querido.
Cadê seu pai?
[NARRADOR] Fiquei alguns meses vivendo num orfanato com várias crianças como eu.
Que não tinha pai, nem mãe.
Todos os dias eu achava que Cabeleira iria aparecer de repente.
Mas ele nunca vinha.
Pegue suas coisas.
Vamos embora.
[NARRADOR] Cabeleira voltou para me pegar.
Mesmo sabendo que, como matador, ele não devia.
Cabeleira foi meu grande amigo,
pai
e professor.
Mas estava amaldiçoado pelas pedras.
As pedrinhas tinham um poder do diabo.
Elas compravam tudo,
terras, bicho, gente.
Matavam a sede,
enchiam os buchos,
tiravam a vida
e davam um prazer danado.
Por tempos, o Sertão ficou amaldiçoado pela coisa mais valiosa que ele pariu.
A turmalina paraíba.
A azulinha do Sertão.
Cabeleira tomou o lugar do Francês
e ficou amaldiçoado para sempre.
Contaminando todos do seu sangue.
Assim como o Cabeleira e o Sete Orelhas,
eu também estou condenado.
Vocês não são os irmãos Miranda,
aqueles cabras que tiveram envolvidos na morte da menina de Rosário?
Somos nós mesmos.
E ela morreu que nem a quenga, a Soraia, sua mãe.
Vamos embora.
Não precisa olhar retrato. Os defuntos já confessaram.
Mas eu quero olhar.
Vamos embora, moreno. Ainda tem mais um cabra para a gente contar história.
Vamos embora, galego.
Espere, diacho.
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