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Para um viciado em hip-hop, conhecer os pioneiros
que constru�ram as suas funda��es foi uma experi�ncia reveladora,
porque comecei a compreender a inova��o incr�vel
que impulsionou esta m�sica.
Hoje, o hip-hop � muito mais do que DJ e MC a animar parques no Bronx.
� um peso pesado do espet�culo que domina a Internet, a TV e a r�dio,
e enche est�dios em todo o mundo.
Claramente, a inova��o criativa n�o foi a �nica coisa que construiu o hip-hop.
Ent�o, o que o levou ao topo?
Como � que o hip-hop passou de clandestino a popular?
NETFLIX APRESENTA
UMA S�RIE ORIGINAL NETFLIX
Nova Iorque deve ter mais rappers do que ruas, atualmente.
Mas no final dos anos 70 s� havia uma equipa para admirar:
Grandmaster Flash and the Furious Five.
Flash e os seus MC foram a primeira equipa a destacar-se
na parte alta da cidade e a viajar pelo mundo.
O sucesso deles era aquilo a que os jovens negros
do Bronx e do Harlem aspiravam,
mas pegar no microfone era outra hist�ria.
Criar uma equipa era caro.
Era preciso ter microfones, misturadores, pratos e colunas.
Mas o hip-hop foi constru�do ultrapassando limita��es.
�s vezes, s� era preciso um pequeno incentivo.
O rel�gio parou h� exatamente 24 horas,
juntamente com tudo o mais, na cidade de Nova Iorque.
As �nicas luzes s�o as dos carros. Fora isso, a escurid�o � total.
Milhares de pessoas sa�ram �s ruas para devastar e destruir.
Os funcion�rios camar�rios chamaram-lhe "Uma Noite de Terror".
Os comerciantes do South Bronx tentavam defender as suas lojas
com espingardas, lan�as caseiras e tacos de basebol.
Um pol�cia do Bronx diz que os saqueadores varreram tudo como gafanhotos.
Foi uma loucura. Foram todos para as lojas de eletr�nica.
Havia uma loja chamada Sound Room,
e eles puxaram as grades para baixo,
por isso, fui l� e ajudei-os a puxar as grades.
BRONX, NOVA IORQUE
Pux�mo-las para baixo, partimos a montra e entr�mos.
E depois, vieram os pol�cias
e eles tinham as luzes e toda a gente: "Baixem-se!"
Estava toda a gente deitada no ch�o at� as luzes desaparecerem
e depois levant�mo-nos e fugimos
e eu tinha um misturador M2, percebes?
E foi isso que eu consegui trazer.
- O que conseguiste? - Uma aparelhagem, roupas, uma bicicleta,
uma pulseira.
Vimos todos descontrolados e fomos na onda.
Acha que se houver outro apag�o isto voltar� a acontecer?
Sim.
A mentalidade do bairro � de que quando surge uma oportunidade
para ganhar alguma coisa, n�s aproveitamos.
Quando foi o apag�o, quem era DJ ou queria ser um,
roubou gira-discos, como � evidente.
Um tipo que n�o tinha nada aparecia no parque, esta semana, tipo:
"Onde arranjaste isso tudo?" Ningu�m diz nada.
HARLEM, NOVA IORQUE
Foi uma esp�cie de Natal.
BRONX, NOVA IORQUE
Nessa noite, vi as coisas mais loucas.
Todo o pessoal arranjou equipamentos.
A conclus�o foi que havia uma riqueza
de equipamento dispon�vel para todos os DJ da zona.
Depois desse ver�o, houve uma invas�o de DJ a tocar sistemas de som
e come�aram a formar-se grupos.
Agora, todos s�o MC.
DO FILME WILD STYLE
Nessa altura, foi um pandem�nio porque havia demasiados grupos.
Havia os Funky 4, o Busy Bee Starski.
Havia o DXT e aqueles tipos,
o Spoonie Gee, os Treacherous Three, os Fillers 4,
os Master Don and the Def Committee, os Crash Crew.
BRONX, NOVA IORQUE
Havia muitos grupos oriundos do Harlem e do Bronx.
Havia que batalhar para que as pessoas nos conhecessem.
� isso que � ser competitivo. Faz com que queiramos estar
dois ou tr�s passos � frente dos outros.
Fala-me das batalhas e dos espet�culos desse tempo.
Era intenso, meu.
Durante algum tempo foi intenso.
O melhor grupo: os Furious Five, sem d�vida,
mas os Furious Five estavam em digress�o. N�o estavam na cidade,
por isso, est�vamos a competir por esse lugar,
pelo primeiro lugar em Nova Iorque.
Os Fantastic e os Cold Crush eram...
REALIZADOR
... sem d�vida os principais rivais da rua,
no Bronx, naquela altura.
Tent�vamos ser como os Jackson 5,
com passos de dan�a, harmonia. Chegou ao ponto em que consegui ser
t�o popular com as mulheres, que nos torn�mos os Fantastic Romantic 5.
Quando nos junt�mos,
ensai�mos um ano inteiro em minha casa,
todos os dias, antes de apresentarmos algo.
D�vamo-nos t�o bem,
como quando dizemos: "Conhe�o algu�m a quem consigo terminar as frases."
N�s termin�vamos as frases uns dos outros.
A nossa rivalidade com os Fantastic atingiu o auge.
Fizemos uma batalha na Harlem World.
Foi uma cena �pica.
A tens�o estava a aumentar.
Eles levaram aquilo mesmo muito a s�rio.
Estavam mil d�lares em jogo. O s�tio estava a abarrotar.
Havia o pessoal dos Cold Crush Brothers. E havia o pessoal dos Fantastic Five.
Harlem World, calma. Tenham calma.
Tenham calma. Acalmem-se.
O dono disse: "Muito bem, pessoal. S�o mil d�lares para o vencedor.
Mas, se voc�s quiserem,
podemos dar 700 ao vencedor e 300 a quem perder.
O que querem fazer?"
Olh�mos uns para os outros.
Que se lixe. O vencedor leva tudo.
A sala estava a abarrotar.
FOT�GRAFO BRONX, NOVA IORQUE
Trouxemos f�s dos Cold Crush de todo o lado.
O GrandWizzard Theodore e os Fantastic Five
enchiam a sala com o pessoal deles. Essas batalhas eram ganhas
pela participa��o do p�blico, quem aplaudisse e gritasse mais.
Por isso, estava nas nossas m�os subir ao palco,
ou nas m�os dos Cold Crush subir ao palco, e quem tivesse o melhor espet�culo...
T�nhamos n�meros, passos de dan�a, meu. �ramos intoc�veis.
Com os Cold Crush e os Fantastic, tinha a ver com o n�vel de criatividade.
Qual � a abordagem? N�o se pode prever o que os outros v�o fazer numa batalha.
N�o interessa se as rimas s�o melhores se ele for mais eficaz com o p�blico,
porque � ao vivo, num local onde obtemos rea��es.
Tinha a ver com a arte de organizar espet�culos.
Eles eram os meninos bonitos,
por isso, tinham mais a favor deles do que apenas o talento.
Eles tinham bom aspeto.
As mi�das estavam a adorar. Quando se ouviam gritos,
ouviam-se muitos gritos, a maioria das raparigas.
Quando se ouvia gritar por n�s, era dos gajos.
Est�o todos bem? Est�o prontos para serem ju�zes?
- Sim! - Se est�o prontos, digam: "Sim!"
Sim!
Se acham que os Cold Crush Four ganharam a batalha, quero ouvir-vos.
Se acham que os Fantastic Romantic Five ganharam, quero ouvir-vos.
S� quero ter a certeza. Quem recebe os mil d�lares?
Quero ouvir.
No final da noite,
os Fantastic Five, n�s ganh�mos, meu.
N�s perdemos, certo?
Nessa noite... n�s perdemos.
Do dia seguinte em diante, ganh�mos.
Tudo mudou depois disso,
porque eles ganharam a batalha nessa noite,
mas quando as pessoas come�aram a ouvir as grava��es,
foi tipo: "Espera l�."
"Como � que eles ganharam?"
Foi aquele brilho todo e assim, est�o a perceber?
As mi�das em frente a gritar e isso. Est�o a perceber?
Eles fizeram a cena deles,
mas as grava��es contavam a hist�ria verdadeira.
Grandmaster Caz e os Cold Crush Brothers perderam a batalha �pica
contra os Fantastic Five naquela noite lend�ria de julho.
Mas n�o era o fim da hist�ria.
Grava��es piratas da batalha divulgaram as rimas dos Cold Crush Brothers
pelos cinco bairros, como fogo selvagem.
Comprava as cassetes como se fossem droga, todas as semanas, no liceu, no nono ano.
QUEENS, NOVA IORQUE
O Terrence Washington aparecia com uma pasta cheia de cassetes,
abria-a
e tenho dos Cold Crush e dos Funky 4+1. Fantastic Five. Treacherous Three.
E depois quando comprei a cassete da batalha infame
dos Cold Crush contra os Fantastic Five,
ouvir aquilo foi espantoso.
Os Fantastic Five eram conhecidos por serem homens de espet�culo,
muito bem vestidos. Tinham bom aspeto. As raparigas adoravam-nos.
Os Cold Crush organizaram um espet�culo,
mas sem o brilho. Davam um espet�culo com o ataque deles.
Nunca ouvi isto antes.
E eles faziam...
Quando ouvi aquilo...
"Espera, estes tipos s�o diferentes."
Eram como o heavy metal do hip-hop.
Claramente, o grupo clandestino dominante de todos os tempos � Cold Crush
e tem muito a ver com o Caz escrever aquelas can��es.
Ele tem rimas exibicionistas no arsenal dele,
mas tamb�m tem rimas de rua, onde usa palavr�es
e coisas da rua com que as pessoas se identificam.
Ele tem hist�rias, tem piadas em rimas. Tem tanta coisa no seu arsenal,
aquela esperteza e ast�cia, com a qual n�o se quer competir,
porque ele pode dizer algo que fa�a com que as pessoas te olhem com outros olhos.
Ele era rigoroso.
As rimas que ele dizia: "6,1 e meio, n�o sei contar...
BROOKLYN, NOVA IORQUE
... digo rimas a mim pr�prio quando me estou a banhar."
E eu andava a escrever umas coisinhas que achava que eram fixes,
e quando ouvi o Caz, meu, rasguei o meu primeiro rap.
"Tenho de repensar a minha vida, porque assim n�o d�."
O Grandmaster Caz foi o primeiro verdadeiro poeta do hip-hop.
Mostrou-me um monte de cadernos da escola
e estavam preenchidos com uma linda caligrafia
de p�gina, ap�s p�gina de letras dele
que estavam escritas sem rasuras,
o que indica que ele as fazia na cabe�a
e s� as escrevia quando estavam acabadas.
Que influ�ncias tiveste para escrever as rimas?
Em mi�do, ouvimos a m�sica a que temos acesso,
e era a de uma esta��o de r�dio
que passava Barry Manilow, Terry Jacks e Simon & Garfunkel,
os Beatles e os Rolling Stones e isso tudo.
O que se costumava chamar m�sica de brancos. Percebes?
Gostava mais dessa do que da chamada m�sica negra.
E marcou-me imenso.
Por causa do meu gosto por essa m�sica,
e eu conseguia ver a grandeza das letras,
isso ajudou-me na parte l�rica.
Olho para as can��es que ouvia quando era mi�do
e elas deram-me a inspira��o para escrever desta maneira.
Quando ouves os Cold Crush dizer:
� "I Write The Songs", do Barry Manilow.
E quando ouves isso com rap por tr�s, pensas:
"O que � isto?"
� o tipo de merdas que escrevo. Quando digo a �ltima palavra,
todos gritam...
As cassetes dos Cold Crush tornaram-se t�o populares,
que rivalizavam com os discos mais famosos.
Mas o Caz fazia coisas com o p�blico sem discos.
Tem a ver com atuar ao vivo.
Aqueles tempos da velha guarda,
com in�cio em 1972 e 1973 at� 1979,
s�o algo que apreciamos, mas h� menos registos disso,
porque esses m�sicos...
AGENTE PUBLICIT�RIO
... esses poetas n�o gravavam discos.
Quando falamos de porque � que as pessoas n�o conhecem os pioneiros do hip-hop,
em parte n�o � diferente do jazz inicialmente.
ESCRITOR/ATIVISTA
Muitos m�sicos do in�cio do jazz,
no in�cio do s�culo passado, n�o foram gravados.
Alguns dos pioneiros do jazz nem sequer queriam ser gravados.
Alguns dos pioneiros do hip-hop n�o queriam ser gravados.
Diziam: "N�o tem nada a ver." Era para festas.
Na primeira gera��o do c�rculo do hip-hop,
a ideia de gravar um disco n�o era uma realidade...
BRONX, NOVA IORQUE
... que passasse pela cabe�a at� 1979.
Podemos dividir o hip-hop numa esp�cie de a.C. e d.C.
com a inven��o do hip-hop em discos.
Uma d�cada ap�s o seu surgimento, ainda era uma arte apresentada ao vivo,
em discotecas e festas.
Ainda n�o tinha sido posto em vinil,
mas isso iria mudar em breve.
E a ideia de editar o hip-hop em disco n�o tinha vindo do interior do hip-hop.
A Sylvia Robinson come�ou no setor da m�sica
como cantora adolescente, chamada Little Sylvia.
O seu futuro marido, Joe Robinson, encorajou-a
a formar um grupo com o professor de guitarra dela, Mickey Baker.
AUTOR
Eles tiveram um grande sucesso: "Love Is Strange".
Ela tinha um bom curr�culo em R&B.
Nos anos 70, ela tinha uma m�sica sensual chamada "Pillow Talk".
Ela tinha ritmo. Tinha sucesso.
AUTOR/CINEASTA
O Joe era s�cio dela. Ele era um tipo duro de Nova J�rsia
e eles fundaram uma editora, a All Platinum Records, em Nova J�rsia.
Mas em meados dos anos 70,
a All Platinum come�ou a ter problemas financeiros.
A Sylvia pediu um milagre a Deus,
que lhe salvasse o neg�cio e a fam�lia.
Ela foi � festa de anivers�rio de uma sobrinha, no Harlem.
Entrou na antiga discoteca Harlem World
e viu, pela primeira vez, um DJ de rap, o Lovebug Starski.
E v� o Starski no microfone, a fazer algo assim...
E ela diz: "O meu milagre � isto.
Vou gravar um disco com estas cenas.
Tragam-me aquele tipo. Quero gravar um disco com ele."
Mas a Sylvia n�o consegue que o rapper do Harlem participe no disco dela,
por isso, fala com o filho, Joey, para arranjar uns tipos
em Nova J�rsia.
- Ent�o, pessoal? Shad. - Ol�, meu. Master Gee.
- Tudo bem? Sou o Wonder Mike. - Prazer em conhecer-te.
- Senta-te, mano. - Obrigado.
Fui descoberto em frente deste s�tio num 98.
ENGLEWOOD, NOVA J�RSIA
Num Oldsmobile de 1998, mesmo l� fora.
Quem estava no carro?
O Joey Robinson Jr. e a Sylvia Robinson.
A Sylvia procurava pessoal para fazer rap num disco.
O Hank era o tipo do Bronx que era rapper,
ele sabia de rap e fazia pizas, aqui, no Crispy Crusts.
Os Robinsons disseram ao Hank: "Fecha a loja.
ENGLEWOOD, NOVA J�RSIA
Queremos ouvir o teu rap."
O Hank entrou no 98 novo...
... com farinha, molho e gordura de salsicha por todo o lado.
E come�ou a fazer rap.
E entra um tipo.
O tipo e o Hank estavam ao desafio, eram duas da manh� de uma sexta,
e ela disse: "Meu, n�o sei quem escolher."
Por isso, eu disse: "Sra. Rob, eu sei fazer rap."
E ela foi simp�tica e ouviu-me.
Ela disse: "Muito bem, vamos ver como te safas."
Eu disse: "O hip-hop, o hippie..."
E ela disse: "N�o consigo escolher entre voc�s os tr�s."
Ent�o, ela disse assim: "Vou juntar-vos aos tr�s.
Apare�am na segunda-feira e gravamos um disco."
Quando fomos ao est�dio, o Mike, o Hank e eu,
n�o fazia ideia de como se fazia uma grava��o.
Pusemos os auscultadores.
Decidimos quem ia primeiro com base no que era dito.
O Mike disse: "O que ouvimos n�o � um teste."
Pens�mos que era uma boa maneira de come�ar uma can��o.
O Mike come�ou, passou ao Hank e depois passou para mim.
Eu passei para o Mike e o Mike passou para o Hank.
E continu�mos. Ningu�m nos disse para parar.
N�o disseram para parar. N�o pens�mos em parar.
Pass�vamos uns aos outros, como se estiv�ssemos numa festa.
O "Rapper's Delight" chega �s ruas
e � evidente que vai ser um sucesso monstruoso.
O que pensaste na primeira vez que ouviste o "Rapper's Delight"?
Eu adorei e o vulc�o come�ou:
BRONX, NOVA IORQUE
Foi assim. Explodiu em 1979.
A can��o passava em todas as esta��es de r�dio,
todos os carros, todos os t�xis, todas as aparelhagens, havia um r�dio
na casa de algu�m a passar a can��o 24 horas por dia.
HARLEM, NOVA IORQUE
Mor�vamos num pr�dio de cinco andares. Ouvia-se em todos.
BRONX, NOVA IORQUE
Passavam tr�s carros e ouvia-se em todos.
Mud�vamos de esta��o de r�dio. Estava nas tr�s esta��es.
Pode ir-se do princ�pio ao fim.
"Master Gee. Tudo na boa." Sei a letra de cor.
Deve ser o �nico disco de rap da Hist�ria
que todos sabem de cor.
Passavam o microfone como numa sess�o de improviso...
BROOKLYN, NOVA IORQUE
... ou numa festa em casa, era tipo...
Tinha mesmo a vibra��o de MC e disse ao meu pessoal: "N�o.
N�o era uma cassete que algu�m tivesse ido entregar � r�dio."
E disse: "Isto � uma can��o, meu. A s�rio, isto � mesmo uma can��o."
Eu estava a ouvir bem.
Teve um sucesso enorme.
Em agosto de 1979, eu trabalhava numa f�brica de doces
e em setembro estava a fazer a primeira parte dos Parliament Funkadelic.
O pessoal ligou: "Quer�amos que apresentassem a vossa can��o
aqui em Bruxelas,
aqui em Copenhaga, Estocolmo, Venezuela.
N�s pagamos tudo.
Pagamos as passagens a�reas, os hot�is.
E ainda vos pagamos pelo espet�culo."
A s�rio?
O hip-hop explodiu por causa do "Rapper's Delight".
Foi um sucesso gigantesco em todo o mundo.
Come�ou um novo g�nero musical.
Antes de n�s n�o havia nada, meu.
Fomos as primeiras estrelas mundiais do rap, ponto final. Fomos o molde.
Toda a imagem de ser uma estrela do rap. Jeitosos, famosos, aparecer na televis�o,
fomos os primeiros a fazer isso.
O que pensavam as outras pessoas do disco?
N�o estou a falar do p�blico comum, mas das pessoas que eram...
A comunidade do hip-hop ficou: "O que � esta merda?
Quem s�o estes gajos?"
Tipo, que merda � esta?
O que est�o a fazer � nossa arte? Est�s a perceber? � tipo,
isto � a primeira vez que as pessoas t�m contacto com o que fazemos,
com o que andamos a fazer h� uns sete anos?
Odi�mos aquilo.
Era a pior merda de sempre,
uma can��o est�pida de que qualquer merdoso gostava.
E as pessoas vinham ter connosco e diziam: "T�m de fazer um disco como aquele."
E n�s: "Como � que vamos fazer uma merda daquelas?"
As pessoas pensavam que eles tinham inventado o rap.
Est�s a perceber? Porque ningu�m sabia que existia.
As pessoas estavam entusiasmadas. Era divertido.
Era tudo o que o hip-hop sempre fora.
Mas n�o era feito pelas pessoas que o tinham criado.
E eles gravaram as rimas que eram dos Cold Crush, dos Hollywood...
FUNDADOR DA DEF JAM RECORDS QUEENS, NOVA IORQUE
... que eram do Starski, todas as rimas que eram de outras pessoas,
pegaram em muitas e fizeram um disco.
E eu: "Merda, estes negros roubaram as nossas merdas."
O Hank dizia uma rima que ouv�amos nas festas.
BRONX, NOVA IORQUE
Estava a dizer uma rima que era de outra pessoa.
E para n�s, isso era algo completamente proibido.
Havia quem levasse porrada por dizer as rimas dos outros.
E h� um disco em que um tipo pega nelas e as grava.
Isso foi o pior de tudo.
O Hank roubou algu�m,
o Grandmaster Caz.
Ele roubou-lhe as rimas dele.
O Hank tinha uma voz �tima, fenomenal.
Mas n�o tinha rimas.
E ele ouvia as rimas do Caz e dizia as rimas do Caz.
Ele pediu ao Caz. Ele disse: "Querem que eu grave um disco.
Podes ajudar-me com umas rimas?"
O Hank conhecia as minhas merdas por andar sempre comigo.
Ele diz que fez o que devia ter feito,
e disse � Sylvia: "Eu n�o fa�o rap, mas o meu amigo Grandmaster Caz, do Bronx,
eu posso traz�-lo c�." Mas ele nunca disse isso.
Ele entrou no carro e disse:
"Sim, sou o C-A-S e o O-V-A."
E tipo: "Merda. Essa cena pega. Est�s contratado."
O mais ir�nico � que a �ltima rima era assim:
"Nunca deixes um MC roubar as tuas rimas."
No seu tempo, o "Rapper's Delight" foi o single que mais vendeu.
Muitos de n�s olh�vamos para aquilo e ach�vamos um fiasco.
N�o via uma ind�stria a nascer.
E pensei: "Est�o a fazer o que est�o a fazer, est�o a fazer
uma vers�o muito leve da coisa." Foi o que achei.
O disco dos Sugarhill Gang foi... Acho que foi um fen�meno.
Acho que n�o houve nenhum puto do liceu na Am�rica
que n�o conhecesse o disco.
Foi mesmo decisivo.
E as pessoas do setor discogr�fico come�aram a:
"Esta cena do rap est� a acontecer.
� uma novidade. Vamos fazer um disco assim."
O "Rapper's Delight" fez as pessoas pensarem que qualquer um podia fazer rap
e, rapidamente, sonhadores e vigaristas de todo o mundo tentaram faturar
com a nova mania.
Houve uma esp�cie de satura��o desmesurada.
O hip-hop n�o era os an�ncios da McDonald's,
com letras em estilo graffiti e assim.
Foi alterado. Tornou-se algo que era considerado um clich�.
Parecia que se estava a preparar para ser uma moda passageira.
DJ DA ZULU NATION BRONX, NOVA IORQUE
O hip-hop estava estilo:
apareceu em cena, toda a gente o adorava e estava pronto para morrer.
O que salvou a cultura hip-hop na sua forma pura
foi quando o Afrika Bambaataa disse: "Sabem que mais?
Vamos tir�-lo do Bronx e lev�-lo para Manhattan."
Foi isso que abriu um novo mundo ao hip-hop.
DA ALTA DA CIDADE PARA A BAIXA
Nessa altura estava envolvido...
BROOKLYN, NOVA IORQUE
... no ambiente art�stico da Baixa, como pintor,
mas tamb�m alertei muita gente
da cena art�stica da Baixa para a arte visual da cultura hip-hop.
No mundo da Baixa, havia um p�blico
que estava aberto a ideias diferentes,
o que era a cena mais fixe da arte na Baixa de Nova Iorque naquela altura.
Era muito amigo de um artista chamado Keith Haring.
E disse ao Keith:
"H� um tipo chamado Afrika Bambaataa, ex-chefe de um gangue,
que tamb�m � conhecido como o Mestre dos Discos."
E lembro-me do Keith dizer: "Achas que ele viria c�
tocar numa das nossas festas?"
E eu disse: "Claro, eu pe�o-lhe."
N�o nos deixavam ir �s discotecas da Baixa. Foram os punks do new wave...
BRONX, NOVA IORQUE
... que nos abriram a porta para tocarmos nessas discotecas.
Pessoas como o Fab 5 Freddy convidavam-nos a ir l�
e muitos punks come�aram a seguir-me at� onde quer que tocasse.
Toda a gente pensou que ia haver um motim,
mas quando a m�sica come�ou, toda a gente come�ou a dan�ar.
V�amos os punks a tentar aprender como se dan�ava o hip-hop.
Foi quando tudo come�ou a mudar.
A cena punk rock era fixe, porque era selvagem. Percebes?
Mas o hip-hop tamb�m era.
Identific�mo-nos com aquele movimento porque era uma alternativa ao rock,
e o hip-hop era uma alternativa ao disco sound.
Partilh�vamos essa situa��o.
E come��mos a ir �s discotecas da Baixa,
a Roxy, a Negril, a Peppermint Lounge, e foi como o casamento perfeito.
N�o eram os aristocratas.
N�o era o pessoal da Studio 54.
�amos � Negril, � Mudd Club,
essa cena, sabes, e eles gostavam.
Os donos das discotecas, como o Michael Holman e uma promotora inglesa, Lady Blue,
estavam a contrat�-los. N�o era preciso ir ao Bronx para ouvir m�sica rap.
Podias andar na Universidade de Nova Iorque e andar tr�s quarteir�es
e ouvias o Afrika Bambaataa, na mesa de mistura.
Queria perguntar-lhe como foi ir para a Baixa...
BRONX, NOVA IORQUE
... pela primeira vez... - Bolas.
... e relacionar-se com aquele mundo,
e como � que foi. - Certo.
Foi mesmo para a Baixa, para as discotecas em que s� havia brancos.
Eles disseram: "Faz o que fazes sempre."
A s�rio?
� isso. Ent�o l� vinham os sinos. L� vinha o Apache.
L� vinha todo o calor.
Numa sala com 95 por cento de brancos.
O que far�o quando ouvirem isto?
Aquela merda foi o m�ximo.
Eles estavam a aderir �quilo.
N�o se fartavam. Est�vamos sempre ocupados.
A toda a hora. E isso abriu-me
um novo mercado, porque agora
eu podia tocar can��es que n�o podia tocar no bairro.
Consegui toc�-las, porque eles percebiam, mas eu tocava-as de forma especial.
Eu tocava-as... de forma cient�fica.
Acho que estava a melhor�-las, mas correu mesmo muito bem.
O Fab 5 Freddy disse: "Flash, vou trazer uma pessoa que � minha amiga,
para que veja isto."
O Fred trouxe-a ao palco e disse: "Flash,
apresento-te a Blondie."
E eu: "Merda."
E ela disse: "Querido, estive a ver-te alguns minutos
e quero escrever uma can��o sobre ti."
As pessoas queriam saber quem era o Flash de que ela falava.
A cena das entrevistas era rid�cula.
"Como � que a conheceu?" Porque ela era uma estrela.
Ela abriu-me as portas.
Havia sempre os brancos fixes e alternativos
que apoiaram o fen�meno negro, um novo fen�meno cultural.
E eles trouxeram-no para a ribalta.
Mesmo que l� n�o estivesse, eles reconheciam-no.
E o punk rock e as pessoas alternativas identificavam-se com o hip-hop.
Quantas pessoas ouviram rap pela primeira vez, sem perceberem
que era a ponta de um icebergue?
Foi como n�s fic�mos quando vimos o Kool Herc pela primeira vez.
Foi o que aconteceu ao pessoal da Baixa. Tipo: "Isto � diferente.
Temos este pessoal do gueto, do bairro, na Baixa a tocar boa m�sica."
O Bam deu esse primeiro passo,
ao dizer que isto era o que se tocava na Baixa,
Bus Boys, Sex Pistols.
O Bam passava Elvis Presley.
O Bam foi o primeiro DJ a dizer: "Certo, vou entrar nisto mesmo a s�rio",
e come�ou a juntar uma cole��o incr�vel de batidas.
Tocava muito rock e punk new wave para o meu p�blico.
Sabes, B-52's, Siouxsie and the Banshees, Adam Ant,
Talking Heads, Kraftwerk, eu tocava muitos desses grupos diferentes.
E eles diziam: "Onde arranjaste isso?
Como arranjaste isso?"
Fui ver o DJ Bambaataa e havia putos a dan�ar e ele tocava peda�os de m�sicas
e aumentava os intervalos e assim.
Ele passava o "Big Beat", do Billy Squier.
FUNDADOR DA TOMMY BOY RECORDS
Depois passava um disco do Sly Stone e um do James Brown,
e depois passava um disco dos Monkees.
E o que lhe interessava era
se era funk ou n�o. Era s� o que ele queria saber.
Nesse dia, eu disse: "Queres gravar um disco?"
Ele disse: "Sim." E eu: "Boa, vamos a isso."
Gostava dos sons techno-pop dos Yellow Magic Orchestra, dos Kraftwerk.
Queria um som com instrumentos eletr�nicos como eles tinham.
E colocar o funk do James Brown, dos Sly and the Family Stone
e do Uncle George "Parliament Funkadelic" Clinton.
Foi assim que nasceu o som electro-funk.
A ideia veio de uma can��o
que os Soulsonic Force usavam e eu a passar m�sicas por tr�s.
Havia dois discos dos Kraftwerk. E era a "Numbers"
e a "Trans-Europe Express",
e a "Super Sperm" do Captain Rock,
e essas tr�s can��es foram escolhidas para fazerem de cama
a uma can��o chamada "Planet Rock".
Era t�o diferente do que os outros andavam a fazer.
O esp�rito no est�dio era de experimenta��o.
Tentemos isto. Tentemos aquilo. N�o t�nhamos mesmo inten��o
de que resultasse de uma forma particular. S� quer�amos que fosse
uma representa��o do DJ Bambaataa para que tivesse
o som de diferentes batidas.
E quer�amos usar uma tecnologia nova.
Foi o primeiro disco de sucesso a usar o 808,
e depois disso houve uns mil discos que imitaram a batida
que us�mos nesse disco.
T�nhamos o 808 e o sintetizador Synclavier.
O John Robie e a forma como tocava o sintetizador era funky como os Kraftwerk.
T�nhamos o emulador que fazia os sons de arranhar,
apost�mos muito na nova tecnologia que tinha aparecido.
O "Planet Rock" foi enorme a muitos n�veis.
Foi muito importante em termos do estilo de produ��o,
mas acho que tamb�m foi importante pela filosofia hip-hop que tinha por tr�s
e especificamente por Bambaataa estar a passar um grupo como os Kraftwerk,
indicando que n�o havia limites.
A ideia de que n�o havia limites foi uma parte fundamental do hip-hop.
AUTOR
Cada can��o hip-hop deve ter samples de algu�m que n�o se espera,
e tem sido sempre assim.
� futurista, � dan��vel, � estranho
baseado no que todos acham que o hip-hop deve ser,
e acho que foi por isso que teve impacto.
O som de "Planet Rock" � como uma nave a aterrar no gueto.
O funk futurista de Bambaataa levou a discoteca para o "Planet Rock",
mas os jovens negros continuavam a viver no planeta Terra.
E as coisas pioraram muito no Bronx.
- O que vai fazer por n�s? - Estou a tentar dizer-vos!
O que pode fazer?
De repente, o hip-hop explodia na Baixa,
mas no South Bronx n�o havia empregos para ningu�m.
Devia haver cerca...
DONO DA DISCO FEVER BRONX, NOVA IORQUE
... de 25 a 30 por cento de desemprego.
Toda esta gera��o batalhou, durante muitos anos, com a crise econ�mica.
Havia muito pr�dios abandonados, em muitos quarteir�es.
Quando o Reagan veio ver o Bronx, disse que parecia ter explodido uma bomba.
Quando falamos do Bronx, de Nova Iorque,
o que significou a era Reagan para os pobres?
De todas as origens? Est�vamos a sofrer imenso.
E de repente saiu um helic�ptero enorme, sabe-se l� de onde,
e lan�ou uma quantidade imensa de crack na nossa cidade.
Foi uma coincid�ncia. Est� bem.
Foi uma cena marada. At� tu tinhas metido drogas, n�o me lixes.
Temos uma hist�ria sobre uma m�sica que est� a ser ouvida em todo o pa�s.
Sim, um novo grupo de negros.
Este grupo chama-se Grandmaster Flash and the Furious Five.
O seu som e a sua f�ria
provaram que a sua m�sica pode ser usada para passar uma mensagem s�ria.
N�o � por acaso que o nome da can��o deles � "The Message".
Um hino intenso do gueto urbano.
Quando escreveste "The Message",
sabias que n�o era uma can��o de festa. O que te inspirou?
O conceito daquela rima veio de...
Stevie Wonder, "Living for the City". "Um rapaz nasceu em Hard Time, Mississ�pi."
Mas eu disse: "Um beb� nasceu sem estado de esp�rito", e depois parti da�.
Ningu�m compreendeu
o alcance que "The Message" podia ter.
At� l�, todas as can��es editadas eram can��es de festa.
Inicialmente, n�s n�o quer�amos gravar o disco, porque era basicamente
algo a que n�o est�vamos habituados. N�o era um disco de festa.
Mas fizemo-lo porque era relevante socialmente. Tinha algo a dizer.
Vidro partido por todo o lado
Pessoas a mijar nas escadas Sabemos que n�o se importam
N�o aguento o cheiro N�o aguento o barulho
N�o tenho dinheiro para me mudar Acho que n�o tenho hip�tese
"Ratos � frente, baratas nas traseiras. Lixo no beco com um taco de basebol.
Tentei ir-me embora, mas n�o fui longe.
Porque um homem com um reboque retomou o meu carro."
Rimas como estas s�o agressivas.
LOS ANGELES, CALIF�RNIA
Atingem profundamente.
S�o pungentes.
T�m de ser ditas.
"N�o me empurres, porque estou � beira do abismo."
Tento n�o perder a cabe�a
�s vezes parece uma selva
Faz-me pensar Como consigo n�o me afundar
J� ouvi milhares de rimas.
Ainda n�o ouvi uma rima melhor, do princ�pio ao fim,
do que: "Um beb� nasceu sem estado de esp�rito."
Um beb� nasceu sem estado de esp�rito Cego em rela��o � humanidade
� uma hist�ria, uma mensagem, � pungente,
� hip-hop, � tudo o que um MC pode desejar numa rima.
Admirar�s todos os corretores de apostas
Bandidos, chulos e traficantes E todos os que ganham papel
Aquela can��o � como uma janela para a Am�rica urbana,
para as pessoas
que nunca a viram ou t�m medo de l� ir.
Era o que era essa can��o.
Era mais poderosa do que a pol�tica, do que a religi�o,
mais poderosa do que os meios de informa��o.
� informa��o. � jogo. � conhecimento.
LOS ANGELES, CALIF�RNIA
Atraiu-me imenso porque...
... muito do rap era tolo.
Nunca tinha ouvido...
... informa��o.
S� ouvira: "Vamos celebrar, vamos celebrar."
Mas nunca tinha ouvido uma mensagem.
Era dissonante. Era chocante. A can��o n�o dava solu��es.
Nem sequer dava qualquer esperan�a. Era tipo:
"� isto que estamos a passar." Estava a chegar
a mi�dos como eu e a dizer: "Olha, � aqui que vais acabar,
se n�o tiveres um plano."
O conceito era um bom conceito, e alterou o paradigma
dos tipos de discos que seriam feitos
e das coisas de que se podia falar.
� um disco que permite ver o potencial disto como forma de arte.
Demonstra que o hip-hop pode ser muito expl�cito sobre a pol�tica.
Pode ser sobre dor e sobre raiva
e sobre todas aquelas coisas de que antes n�o se falava muito.
Lembro-me que a Rolling Stone, que nesse ponto n�o dava import�ncia ao hip-hop,
deu ao disco cinco estrelas, ou assim.
Mesmo as pessoas que n�o gostavam ou que n�o acreditavam
ficaram... Chamou-lhes a aten��o...
E ficaram: "Isto � algo diferente."
E quando a r�dio come�ou a toc�-la, a can��o disparou
e tornou-se na primeira can��o de hip-hop aclamada pela cr�tica,
em que as pessoas que... Elas nem gostavam de hip-hop,
at� hoje, h� pessoas que n�o gostam de hip-hop,
mas que gostam de "The Message". Mudou todo o panorama.
Alargou os horizontes do que o hip-hop podia ser.
"The Message" provou que o hip-hop tinha a profundidade para ir al�m das festas.
Mas tamb�m representava algo muito maior.
Dez anos ap�s come�ar a fazer barulho,
o hip-hop tinha finalmente descoberto o poder da sua voz.
E mesmo a tempo.
Porque a d�cada seguinte traria a economia Reagan, o crack,
a SIDA, a guerra contra a droga e a viol�ncia dos gangues.
E a Am�rica urbana n�o voltaria a ser a mesma.
As pessoas precisavam de uma nova voz e o hip-hop estava pronto.
Agora, deixem-me falar-vos da nossa �poca de ouro.
Legendagem: Dina Almeida
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