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Legendas: Felipe Trentini
Este � um aparelho de TV de 16 polegadas...
igual ao que meu pai comprou no fim dos anos 40.
Eu vi meus primeiros filmes italianos nessa pequena tela...
com minha fam�lia ao redor, numa sala como essa.
Por ser americano, quando eu decidi ser diretor...
naturalmente pensei em ir a Hollywood
Afinal, nos EUA, � onde se faz filmes.
Ent�o, quanto mais eu fazia filmes...
mais eu notava a marca indel�vel....
que o cinema italiano deixou em mim.
Como diretor, isso era uma cilada...
eu n�o era um diretor de Hollywood...
ao menos na minha concep��o...
mas nem era um cineasta italiano.
Por isso, eu precisava achar meu lugar entre ambos.
S� assim eu ficaria confort�vel.
Hoje em dia, parece que s� existe o cinema americano...
os outros s�o secund�rios, inclusive o italiano.
Isso me preocupa...
e essa � a raz�o deste document�rio.
De fato, eu sei...
que se n�o tivesse visto os filmes de que vou falar...
eu seria uma pessoa diferente...
e � claro, um diretor diferente.
As minhas idas ao cinema sempre eram com a minha fam�lia.
Lembro-me de que meu pai me levava ao cinema e n�s dois...
compartilh�vamos as imagens e emo��es not�veis na tela...
e elas me influenciaram tanto, que hoje em dia...
parte do desejo de expressar-me atrav�s do cinema...
eu acho que vem da�...
dessa experi�ncia com meu pai.
Papai era oper�rio.
Ele trabalhava em uma confec��o em Nova York.
Ele adorava cinema...
e atrav�s dele, n�s nos comunic�vamos.
Quando n�s v�amos filmes na TV...
toda a fam�lia estava presente...
inclusive os meus av�s, os meus pais...
e �s vezes, o meu irm�o Frank.
A televis�o era diferente, naquela �poca.
N�o havia a TV a cabo nem em cores, nem sat�lites...
e havia poucos canais, cerca de quatro.
Esses canais estavam sempre � procura de programa��o.
Francesco, Francesco!
Francesco, os alem�es, os fascistas!
As sextas � noite era diferente...
pois haviam tantos italianos em Nova York...
que um canal passava filmes italianos com legendas.
N�o haviam muitos aparelhos de TV no bairro...
ent�o os amigos e parentes vinham assistir conosco.
Minha nossa, minha nossa!
A It�lia estava saindo da devasta��o da II Guerra...
e os filmes que n�s v�amos tinham imagens muito fortes.
ROMA CIDADE ABERTA
Francesco! Francesco!
Francesco!
Pina!
Pina! Pina!
Pina!
Francesco!
Francesco! Largue-me.
Deixem-me!
Francesco!
Francesco!
Pina!
N�o venha!
Mam�e! Mam�e!
Socorro! Mam�e!
Socorro!
Algumas imagens eram t�o comoventes e tocantes...
que eu via que meus av�s choravam.
Eles sa�ram da Sic�lia em 1910 e vieram para os EUA.
E agora, eles viam na TV realmente...
o que haviam deixado para tr�s...
e no que a Sic�lia se transformara.
Ao olhar para eles...
eu podia ver quem os meus av�s eram realmente.
E que esta era a terra que eles chamavam de lar,
Isso era emocionante...
pois pela primeira vez...
eu tive consci�ncia de que aquela era a minha origem.
Eu os via sofrer com os personagens.
Eles se sentiam protegidos nos EUA...
e eu podia ver que eles estavam aliviados e culpados...
ao mesmo tempo.
Podia ter sido eles na tela.
Fogo!
Fogo!
Atire!
O meu mundo consistia do nosso apartamento...
a igreja, a escola e um quarteir�o...
a loja de doces na esquina.
De repente, ele se expandiu.
Meus av�s eram imigrantes que s� falavam siciliano.
Eles n�o se naturalizaram americanos.
Eles mal falavam ou escreviam ingl�s...
e tinham uma cultura italiana razo�vel.
A fam�lia de papai era de Polizzi Generosa...
na prov�ncia de Palermo.
A da minha m�e era de Ciminna, tamb�m perto de Palermo.
Pessoas dessas cidades viviam na mesma rua em NY...
a Rua Elizabeth...
mas se mantinham � dist�ncia.
Esse era um dos costumes trazidos do velho mundo.
Os meus av�s n�o tinham contato com os EUA.
Os meus pais, os filhos deles, iam trabalhar de manh�...
como se fosse uma aventura em terras desconhecidas...
e bastava virar a esquina.
� noite, eles voltavam � Rua Elizabeth, onde estamos.
Eu cresci aqui, na Rua Elizabeth, 253.
A Rua Elizabeth era a Sic�lia...
e cada pr�dio era uma aldeia diferente.
Levou um tempo para que houvesse casamentos...
entre pessoas de pr�dios diferentes.
Durante anos, eu tentei descobrir o m�ximo...
sobre a hist�ria da minha fam�lia...
e de onde n�s v�nhamos.
Polizzi, a cidade de meu pai...
foi um centro de beneditinos que voltavam das Cruzadas...
e foi chamada Generosa por Federico II...
imperador de Roma.
Certa �poca, na cidade de minha m�e, Ciminna..
havia tantas igrejas quanto pessoas.
Passaram por essas cidades os gregos, fen�cios, romanos...
bizantinos, sarracenos, normandos, franceses...
espanh�is e neste s�culo, os nazistas e os americanos.
Eles sobreviveram a todos.
Meus av�s trouxeram uma hist�ria de sobreviv�ncia...
ao partir da Sic�lia e eles nunca mais voltaram.
Esta � uma festa de rua siciliana, festa de S�o Ciro...
patrono de Ciminna.
S� que isto n�o � Ciminna...
� a Rua Elizabeth em Nova York.
Eu s� vi esse filme recentemente.
Meu primo presenteou-me.
Ele foi feito h� 60 anos pelo meu tio, antes de eu nascer.
Vendo essas imagens...
o mundo todo que havia, o meu mundo...
que n�o existe mais, voltou � minha lembran�a.
Isto foi filmado no apartamento dos meus av�s...
pais de meu pai.
Lembro-me disso, das pessoas apertadas em uma sala.
Isto devia ser uma ocasi�o especial...
um casamento ou batismo, eu n�o sei.
Essa � a m�e do meu pai.
Esse � o pai do meu pai.
Essa � a m�e da minha m�e.
Esse � meu pai tocando bandolim.
Eu n�o me lembro dele com esta apar�ncia...
eu lembro-me dele mais velho, mais gordo e calvo.
Essa � a m�e do meu pai de novo...
na frente da loja que eles tinham.
Esse � o pai do meu pai.
Eu sempre ouvi falar dessa loja...
mas era a primeira vez que eu via imagens dela.
Essa mulher com a sacola � a m�e da minha m�e...
entrando no pr�dio.
Este � o pr�dio onde minha m�e nasceu.
Eu nunca pensei que os reveria em movimento.
Esse foi o mundo da minha inf�ncia.
Um mundo de pessoas como meus av�s...
que buscavam uma vida melhor.
Eles nunca falavam do pa�s deles e eu nunca perguntei.
Eu aprendi observando...
e com os filmes sobre a terra natal deles.
Eles foram a minha primeira liga��o...
com a Sic�lia, aquela terra remota.
Para quem era pobre na Sic�lia, e minha fam�lia era pobre...
a vida era dif�cil.
Por isso, muitos sicilianos vieram para os EUA.
E a li��o de sobreviv�ncia transmitida h� s�culos...
que eles trouxeram para o Novo Mundo...
era brutal.
Ela era...Pense bem antes de confiar em algu�m...
fora da sua fam�lia.
Pense nisso...o seu pa�s, a sua cidade muda de m�os...
constantemente, h� mais de mil anos.
Em quem voc� pode confiar?
No governo? Na pol�cia?
Na igreja?
N�o.
Apenas na sua fam�lia. S� no seu pr�prio sangue.
Foi com a minha fam�lia que eu via os filmes...
e passei a amar o cinema italiano...
com predile��o pelos filmes passados na Sic�lia.
Eu via filmes italianos do modo que fosse poss�vel...
e as c�pias eram p�ssimas...
geralmente riscadas ou emendadas...
e na TV eles eram dublados...
cortados por comerciais e editados, � claro.
Mas o efeito deles em mim era t�o forte...
que n�o importava.
Durante muitos anos, eu os vi v�rias vezes...
e o impacto deles sobre mim nunca diminuiu.
O primeiro filme italiano que eu vi foi na TV.
E foi Pais�.
PARTIDARISTA
Era 1948, ent�o, eu tinha seis anos.
S�o seis epis�dios sobre o Ex�rcito Aliado...
americano e ingleses...
em sua jornada pela It�lia de sul a norte...
expulsando os alem�es.
Os epis�dios de maior impacto sobre n�s...
falavam sobre sacrif�cio...
Era o sacrif�cio por algo que eu n�o entendia na �poca...
por ser t�o jovem...
o sacrif�cio pela liberdade.
PARTID�RIO.
No epis�dio de N�poles, eu vi algo que me chocou.
Se minha fam�lia n�o tivesse partido da It�lia...,
eu podia ser um daqueles garotos na tela...
que roubavam sapatos e os vendiam no mercado negro.
- Voc� quer 50 liras? - N�o, eu quero 200.
- O que eu preciso fazer? -Fique vigiando.
Cuidado com a pol�cia. N�s vamos comprar um negro.
Eles at� vendiam o direito de roubar soldados americanos.
Veja que belos dentes! Ele custa 200 liras.
Mas o uniforme est� rasgado!
Voc� viu os sapatos dele?
Aqueles garotos sofreram tanto na guerra e depois dela...
Pol�cia! Pol�cia!
que aprenderam todos os truques poss�veis.
Como este aqui...
eles criam p�nico, para deixar a v�tima...
longe da concorr�ncia.
Mas � preciso p�r isto em contexto.
Eu via todos os filmes americanos que estreavam.
Eu estava acostumado e adorava faroeste.
O figurino, o cen�rio...
lugares muito distantes de Nova York.
Eu adorava Roy Rogers.
Tudo naqueles filmes era muito simples.
As hist�rias eram simples.
Embora eles me fascinassem...
eu sabia que n�o eram reais.
Eu gostava deles por serem fantasias.
Quando eu penso nisso agora, parece incr�vel...
que no dia que eu via um filme de Roy Rogers...
eu ia para a casa e via...Pais�...na TV.
Pais�...n�o era fantasia...
principalmente a parte de N�poles.
Joe, entre, entre.
N�o me amole, porque eu sou branco e voc� � negro.
Como nesta cena...
o garoto leva o soldado para ver os fantoches...
para escond�-lo dos outros garotos.
Joe est� se divertindo...
at� entender que a hist�ria � sobre um cavaleiro branco...
que bate em um mouro, um cavaleiro negro...
e isso desperta algo nele.
Isto lembra o preconceito que ele sofre em seu pa�s.
Foi o primeiro filme que eu vi que falava de preconceito?
Eu n�o tenho certeza.
Mas foi um dos primeiro onde os lugares pareciam reais.
N�o pareciam cen�rio.
Eu n�o sabia que ele fazia parte de um movimento...
chamado...Neo-realismo...
que abalou o cinema no mundo todo.
Eu n�o quero ir para casa.
A minha casa � um barraco velho.
Eu n�o preciso dessa chave.
Eu n�o quero mais brincar.
Eu n�o quero ir para casa.
Eu n�o quero ir para casa.
Eu n�o quero ir.
Joe! Joe!
Se voc� dormir, eu roubarei seus sapatos.
O cl�max do epis�dio de N�poles era o mais perturbador.
Dias depois, Joe est� s�brio...
ele v� o garoto e quer seus sapatos.
� voc�! Voc� roubou os meus sapatos!
Eu falei para voc� n�o dormir.
Onde voc� mora? Leve-me � sua casa.
Qual casa? Eu n�o tenho casa.
Leve-me at� l�. Entre.
Eles v�o at� a periferia de N�poles.
Saia e pegue meus sapatos. Traga meus sapatos.
O garoto lhe entre outras botas.
As deles tinham sido vendidas h� tempo.
Estes n�o s�o meus sapatos! Leve-me at� os seus pais.
O garoto o leva ao lugar que chama de casa...
as Cavernas de Mergallina...
aonde foram os desabrigados que tiveram as casas destru�das.
Joe j� vira muitas coisas na vida, mas nada assim.
Nem eu.
Onde est�o seus pais?
Eu n�o entendo.
Dome mamma e pap�?
Eu n�o tenho m�e e pai. Eles morreram.
Foi a bomba. Bum, Bum!
Entende? A bomba. Bum, bum!
A emo��o do filme era t�o forte...
que era sentida nas piores c�pias que j� se vira.
Foi assim que eu vi...Pais�, na TV em 1948.
A c�pia era t�o escura que mal se viam as imagens.
Apesar disso...
o essencial era captado.
Na vers�o americana a �nica que eu vi...
eles usaram um mapa para apresentar cada epis�dio.
O epis�dio Sic�lia � o primeiro do filme.
Para a minha fam�lia era o mais importante.
Quando ele come�ava...
todos na sala prestavam muita aten��o.
Ricuzzo!
Ricuzzo! Ricuzzo!
Quem � voc�?
A voz daquela mulher ao fundo...
tinha um forte efeito sobre os mais velhos na sala.
Era o dialeto deles, a l�ngua que eles falavam.
Voc�s s�o americanos? Sim, somos!
Os soldados chegavam preparados para lutar.
Mas os alem�es haviam partido.
Ent�o, encontraram os sicilianos.
O meu filho estava em Licatta. Fez dez dias...
Quando o soldado come�ou a falar italiano...
o dialeto dele parecia o do meu tio...
porque ele era de origem siciliana.
N�o tenho medo, n�s n�o lhes faremos mal.
Ali�s, meu tio falava melhor do que ele.
Ele falava italiano! Voc� � italiano?
Sim, meu pai � siciliano. Ele nasceu em Gela.
Gela? Eu tamb�m sou de Gela.
O nome dele?
Mascali - N�o � de Gela
Meu pai nasceu em Gela. Depois foi para os EUA.
N�o havia Mascalis em Gela. Voc� n�o � de Gela.
Ele est� mentindo! N�o vamos acreditar nele.
Nossa liberdade acabou.
- Onde est�o as minas? - Nas costas
A �nica que sabe como evitar as minas alem�s...
� uma mo�a chamada Carmela.
Voc� conhece o caminho?
Ela vai sempre �s pedras, procurar pelo pai e o irm�o...
que desapareceram no mar.
Eu queria ir atr�s deles...
mas n�o me deixam ir sozinha. Eu o levarei, sei o caminho.
N�o pode ir sozinha com os desconhecidos.
Aonde voc� vai?
Depois que ela guia o pelot�o at� o campo minado...
ela fica de sentinela com um soldado chamado Joe.
Voc� est� com medo?
H� v�rios Joes em...Pais�.
Ele n�o fala italiano.
Voc� � fascista?
Eu aposto que voc� �.
E ela n�o falava ingl�s.
N�o fa�a fogo!
Boa garota. Voc� n�o � fascista.
Ela manda Joe cobrir a chama do isqueiro...
pois os alem�es ainda est�o por perto.
Com o fuzil apontado voc�s s�o todos iguais.
Ora, n�s vamos ficar algumas horas juntos.
Eu n�o quero discutir.
Vamos, Carmela, sorria.
Escute...
paisan...
spaguetti...
bambini...
mangiare...
Mussolini.
E voc�? Seu ingl�s � melhor que meu italiano?
Vamos ver.
- O meu nome � Joe. Entende? - Joe.
Muito bem, voc� � boa aluna.
Agora diga isto.
- Eu homem, voc� mulher. - Mulher
�timo, voc� est� indo bem.
- N�s somos amigos,entende? - Amigos
Muito bem.
No fim, eles se descontraem.
N�s temos um pomar. A minha m�e cultiva tomate.
Minha irm� e eu amarramos uma corda nas pareiras...
para nos balan�armos.
Eles ficam t�o descontra�dos...
Ela � mais bonita do que na foto.
que Joe baixa a guarda.
- N�s somos parecidos. - Irm�
Joe est� ferido...
e Carmela fecha o al�ap�o para escond�-lo dos alem�es.
- Por que fugiu da aldeia? - Eu tinha medo.
Ela tenta distra�-los, finge que estava com medo...
e est� feliz que os alem�es vieram proteg�-la.
Voc� marcou encontro com o namorado?
Fique quieto!
O seu namorado � idiota, por n�o ter vindo.
Eu n�o estou certo?
Mas quando Carmela consegue ir v�-lo, Joe est� morto.
Sargento!
- Parece uma carabina. - Joe pode estar ferido!
Quando os americanos chegam, encontram o corpo de Joe...
e sup�em que ele foi morto por Carmela.
Aquela italiana maldita!
Mas ela tamb�m est� morta...
baleada pelos alem�es e jogada no precip�cio.
Eles nunca saber�o...
que ela sacrificou a vida para salvar a deles.
Mas n�s sabemos.
Lembro-me de outro filme italiano que vi na �poca.
Fabiola...fascinou-me.
Foi o primeiro �pico italiano que eu vi.
Ele tinha uma hist�ria intrincada...
Tirem-me daqui!
e ficou mais confusa na vers�o dublada americana.
Como os �picos da �poca...
Fabiola...tratava do choque entre Roma e o cristianismo.
O que mais me chamou a aten��o foi o visual do filme.
Era muito diferente dos �picos americanos...
aos quais papai me levava.
Fabiola...tinha cen�rio detalhado, era esplendoroso...
com uma composi��o que eu n�o via em filmes americanos.
N�o � dif�cil entender por qu�.
A cultura italiana � milenar...
enquanto a americana tem alguns s�culos.
A nossa mitologia � o tiroteio no OK Corral.
A deles...
� sobre gladiadores lutando no Coliseu.
Para o artista americano...
esse tipo de imagem seria uma luta.
Para os italianos, � algo natural.
Lembro-me de outro filme que vi na TV na mesma �poca.
Ele era passado na Idade M�dia e chamou-se...A Coroa de Ferro.
Eu era muito jovem para saber nomes de diretores...
mas depois soube que os dois eram do mesmo diretor...
Alessandro Blasetti.
O enredo de...A Coroa de Ferro era mais complicado ainda...
mas isso n�o importava...
porque ele era fascinante.
Era um mundo de sonho infantil, sa�do do folclore italiano.
Com aqueles figurinos e cen�rios t�o esmerados...
o sonho era marcante.
Pais�...era o mundo real.
A Coroa de Ferro...era o mundo para onde se podia fugir.
Ele era v�vido, diferente dos �picos que eu assistia.
Na inf�ncia...
esses tipos de filmes t�o diversos eram reais para mim.
Mas...A Coroa de Ferro tinha algo mais...
a for�a e o terror dos contos de fadas...
dos irm�os Grimm.
Que lindos! Vamos levar para o pal�cio, pai?
Voc�s sabem como eles cantam melhor?
- Como? - Com um espinho, vejam.
- O que vai fazer? - Furar os olhos.
- E eles cantam? - E como!
- Eu n�o quero! - Fique quieto!
Voc� vai ouvir como eles cantar�o.
Voc� � mau! Mau e feio!
Eu n�o quero mais ser seu filho!
Mau, vai embora! Feio!
O que voc� quer?
� voc� a m�e do menino ou � ela?
Saia
Mas era a Antiguidade que me fascinava na �poca...
principalmente Roma Antiga...
que transformou-se em fasc�nio pela hist�ria da Igreja...
e pelo cristianismo.
Eu colecionava gibis com hist�rias do Imp�rio Romano.
Eu tamb�m tinha gravuras recortadas do livro de latim.
Mas isso n�o bastava.
Eu queria fazer meus pr�prios �picos.
Eu desenhava...storyboards.
Eu ainda n�o saia que eram...storyboards.
Eu fazia...storyboards para os �picos que imaginava.
Anos depois, eu vi os primeiros filmes mudos italianos.
Eles foram uma revela��o.
Esta � uma cena de...Cabiria.
� um �pico sobre Cartago, escrito pelo poeta italiano...
Gabriele D'Annunzio.
Cabiria...marcou muito D. W. Griffith...
e o inspirou em seu filme... Intoler�ncia.
Eu fiquei perplexo com esse filme...
pela expressividade dele.
Eu fiquei t�o chocado como quando vi...Pais�...
e...Roma, Cidade Aberta, s� que era diferente.
Era como uma porta secreta que levava � Antig�idade.
As imagens de Cabiria s� podiam ter sido originadas...
em um pa�s cuja imagina��o hist�rica � milenar.
Era como assistir a um notici�rio de Roma Antiga.
Na inf�ncia, eu conheci os dois extremos do cinema italiano...
que ficaram unidos em minha mente...
o �pico...
e o neo-realismo.
Todo filme � um produto de seu tempo.
Mas os filmes neo-realistas eram mais que isso.
Depois do neo-realismo...
o cinema nunca mais foi o mesmo.
Quando a guerra acabou, em 1945...
o cinema italiano estava em ru�nas.
Os alem�es confiscaram os equipamentos...
e transformaram os est�dios de Cinecitt� em dep�sitos.
Eles foram bombardeados pelos Aliados.
Quando os alem�es sa�ram de Roma...
eles se tornaram campo de refugiados.
Os cineastas italianos estavam por conta pr�pria...
com poucos e preciosos recursos.
O pa�s todo precisava ser reconstru�do.
Como o cinema, completamente destru�do...
teve um papel t�o importante em sua reconstru��o?
Como veio a representar toda uma na��o...
desesperada para redescobrir-se...
ap�s 20 anos de fascismo e da devasta��o da guerra?
Quando soa o carrilh�o em Trezza...
as mulheres, cujos homens est�o no mar, s�o tomadas de temor.
Se voc� duvida do poder do cinema de mudar o mundo...
de interagir com a vida e fortalecer a alma...
est�o estude o exemplo do neo-realismo.
O que era o neo-realismo?
Era um g�nero, um estilo?
Era um conjunto de regras?
Acima de tudo...
era uma rea��o �quele ponto terr�vel da hist�ria da It�lia.
Os cineastas tinham de mostrar o que o pa�s havia passado.
Precisavam quebrar a barreira entre document�rio e fic��o...
e com isso, mudaram para sempre as regras de dire��o.
Filho! Filho!
Meu filho!
N�s voltamos, m�e. Alegre-se.
Aqueles filmes eram uma prece...
para que o mundo olhasse para o povo italiano...
e visse a sua humanidade.
Eles tinham de ser reais, n�o havia escolha.
N�o era apenas uma quest�o de usar bem os recursos...
embora tamb�m fosse isso.
N�o havia cen�rio? Use loca��o real.
N�o havia dinheiro para pagar atores? Use amadores.
E como os atores e lugares seriam reais...
as hist�rias tamb�m seriam.
Havia cen�rios e atores em v�rios filmes...
mas pela primeira vez, a ilus�o dava lugar � realidade.
Pegue este personagem, por exemplo.
Ele est� desempregado h� muito tempo...
e quando, por fim, ele consegue um emprego...
precisa s� de uma coisa para mant�-lo...
uma bicicleta.
E no primeiro dia de trabalho, ela � roubada.
Durante o filme todo, ele passa o dia procurando...
varrendo as ruas de Roma com seu filho.
Pietro, pegue o bonde e v� at� Monte Sacro. Espere-me l�.
O que foi? Mexa-se!
Tempos de desespero...
exigem medidas desesperadas.
Ladr�o!
Ladr�o!
Pega ladr�o!
Os neo-realistas n�o s� queriam filmar...
eles precisavam fazer aqueles filmes.
Acima de tudo, o neo-realismo surgiu...
de uma necessidade moral e espiritual.
Eu vou dar-lhe uma li��o!
Ladr�o! Patife!
Papai!
- Papai! - Voc� vai para a pris�o.
Papai!
- Papai! - Para a pris�o!
O �mpeto do neo-realismo...
de fazer justi�a � vida, tal como ela �...
mant�m-se vivo at� hoje.
Eu penso no neo-realismo como uma semente...
de onde cresceu uma �rvore s�lida...
e seus galhos representam os grandes cineastas italianos...
do p�s-guerra.
Para mim, � o momento mais precioso da Hist�ria do Cinema.
Roberto Rossellini...
Vittorio de Sica...
Luchino Visconti
Junto com os roteiristas, eu incluo Sergio Amidei...
Federico Fellini...
Suso Cecchi D'Amico...
e Cesare Zavattini.
Eles fizeram os filmes que definiram o neo-realismo...
Roma, Cidade Aberta...
Pais�... Ladr�o de Bicicleta...
e... A Terra Treme.
Esses filmes ainda s�o fonte de inspira��o no mundo todo.
Antes, para a Nouvelle Vague...
para o Cinema Novo brasileiro.
Hoje, para diretores do Ir� e de Taiwan...
e para diretores americanos...
sobretudo do cinema independente.
De certo modo...
eu diria que o neo-realismo nasceu com Roberto Rossellini.
Ele nasceu em Roma, em 1906.
O pais dele construiu o primeiro cinema moderno...
o cinema Corso, e ele ia ao cinema todos os dias.
Dos filmes que ele viu no Corso...
dois filmes do diretor americano King Vidor...
The Crowd...e...Aleluia...
foram especialmente marcantes para ele
Eles s�o grandes filmes, marcos, de fato...
e foram importantes para muitos diretores...
inclusive eu.
Rossellini tinha 26 anos quando perdeu o pai...
e ele precisou fazer algo in�dito...
trabalhar.
Ele entrou para o cinema.
Ele come�ou fazendo sonoplastia, edi��o e dublagem.
Ele foi atra�do pelo document�rio, desde o in�cio.
Seus primeiros filmes foram curtas sobre animais...
ali�s, um interesse que ele manteve pela vida toda.
O cameraman de alguns desses filmes foi Mario Bava...
que depois seria diretor de filmes de terror.
O que � engra�ado...
pois eram duas pessoas opostas trabalhando juntas.
Rossellini fez o seu primeiro longa em 1940...
chamado...Navio Branco.
Ele s� fez mais tr�s filmes durante o fascismo...
O Retorno do Piloto...
O Homem da Cruz...
e... Desejo...
que foi finalizado por Marcello Pagliero...
e lan�ado depois da guerra.
Esses eram os filmes dos est�dios italianos...
todos melodramas...
mas em ess�ncia, eram muito convencionais.
Mas durante a ocupa��o...
Rossellini come�ou a imaginar um novo tipo de cinema.
Quando se � um cineasta...
� preciso arranjar o dinheiro antes...
essa � a realidade do neg�cio.
Como De Sica declarou...
N�o � que Rossellini, Visconti e eu tiv�ssemos dito...
"Vamos criar o neo-realismo".
Ele come�ou com diretores tentando filmar.
"N�s precisamos de dinheiro...
n�o h� dinheiro para acabar o filme."
Rossellini disse isso a De Sica...
ao se encontrarem na rua, em 1945.
"Qual?", De Sica disse.
Rossellini respondeu...
"A hist�ria do padre, Don Morisini...
executado pelos fascistas."
O filme a que Rossellini referiu-se...
quando ficou pronto...
viria a ser... Roma, Cidade Aberta.
Nos EUA, chamou-se... Open City.
Veja, padre, veja. Est� satisfeito?
Essa � a sua caridade crist�, seu amor fraterno.
� preciso salvar os seus c�mplices.
Voc� morrer� como traidor.
N�s vamos destru�-los a todos, at� o �ltimo.
Voc� n�o falou.
Se o neo-realismo come�ou com um filme...
foi com...Roma, Cidade Aberta.
Fellini chamava Rossellini de Grande Pai, como Ad�o...
que nos criou.
Ele foi t�o importante para o cinema...
como Griffith e Eisenstein.
Todos parecem concordar com isso.
Mas � parte seus marcos iniciais...
a sua obra n�o � t�o conhecida...
e muitos que conhecem seus �ltimos filmes...
n�o os aprecia muito.
Por exemplo...Viagem � It�lia, de 1953, um dos meus favoritos.
Eu o vi, pela primeira vez, na faculdade de cinema...
e preparei-me para v�-lo.
A minha rea��o foi imediata e emocional.
Mas muitas pessoas n�o t�m a mesma opini�o sobre o filme.
Como muitos filmes dele...
ele n�o � instantaneamente acess�vel.
Mas se voc� entregar-se a ele...
se lhe reservar um tempo...
pode ser uma experi�ncia rica, tocante.
Na realidade, Rossellini � um dos poucos diretores...
que ficou mais ousado com a idade. Isso � raro.
Os seus filmes das d�cadas de 50, 60 e 70...
s�o t�o apaixonados quanto os neo-realistas...
apenas s�o diferentes.
Aos 60 anos, ele fez um de seus maiores filmes...
A Ascens�o de Luis XIV...
que marcou o come�o de um novo rumo.
Como Orson Welles como...Cidad�o Kane...
Rossellini ressentia-se de...Roma, Cidade Aberta.
O que n�o � surpresa.
Voc� est� no meio da carreira e sempre que faz um filme...
ele � comparado com algo que voc� fez no in�cio...
e seu novo trabalho acaba menosprezado.
Isso � muito frustrante, at� revoltante.
Isso n�o muda o fato de que...Roma, Cidade Aberta...
� um filme singular...
onde a Hist�ria e o cinema juntos criam algo poderoso.
Roma, Cidade Aberta...fez sucesso mundial...
um fen�meno, mas isso come�ou devagar.
Antes, fez sucesso na Fran�a...
depois nos EUA e s� depois na It�lia.
Eu matarei todos!
Voc� quer que todos sejam massacrados?
Na �poca, a revista Life afirmou que o filme...
"ajuda a It�lia a recobrar...
a nobreza que perdeu sob Mussolini".
� raro dizer isso de um filme.
Pina! Pina!
De certa forma...
Roma, Cidade Aberta... foi um embaixador da It�lia.
Ele � um filme sobre pessoas comuns...
um padre, uma gr�vida...
um grupo de comunistas da Resist�ncia...
algumas crian�as, e todos tornam-se her�is...
em circunst�ncias extraordin�rias.
Ele tamb�m � um filme sobre a ocupa��o e o pre�o dela.
Enquanto...Pais�...
� um filme sobre a liberta��o e o pre�o dela.
Alguns cr�ticos consideram o �ltimo epis�dio de...Pais�...
filmado no Vale do P�...
a mais pura forma de neo-realismo.
Despido de qualquer artif�cio dram�tico...
as coisas simplesmente acontecem...
e n�s testemunhamos a situa��o desesperadora...
de pessoas genuinamente corajosas.
Fellini, que foi assistente em...Pais�...
disse que Rossellini n�o queria ficar preso ao roteiro.
Ele procurava algo que s� conseguiria...
ao ficar aberto a todas as possibilidades.
Outro partid�rio morto. Eu vou peg�-lo.
Tenha cuidado com aquela torre alem�.
N�o me importa. Eu vou, mesmo assim.
Partid�rios e soldados americanos e ingleses...
ficam isolados no meio do nada...
cercados por alem�es.
Eles descobrem que n�o ter�o apoio dos Aliados.
O que diz o Quartel-General?
Foi confirmada a mensagem de cessar as opera��es.
Os partid�rios devem voltar para casa.
H� mais um partid�rio no rio P�.
Eles n�o lutam pelo Imp�rio Brit�nico.
Eles lutam para sobreviver.
O que mais nos disseram?
Eu comuniquei que, de repente, n�s ficamos isolados.
O que eles esperam de n�s?
Voc� disse que n�o temos muni��o nem comida?
Eu relatei toda a situa��o.
A resposta � cessar opera��es.
O que faremos? Estamos cercados.
Aquela � a casa de Maddalena.
Eles ficaram t�o famintos que s�o for�ados a sair.
� Cigolani.
Entre, Cigolani.
- Boa noite. - Quais s�o as novidades?
Ontem, um alem�o veio aqui.
Deixe-os vir, eu n�o me preocupo.
Voc� sabe que eu escondi uns americanos?
Sim, sim.
H� tr�s dias, eu n�o fa�o o fogo...
os alem�es v�em a fuma�a.
Sim, eles est�o por toda parte.
Eles est�o cercando. H� algo para comer?
N�s s� temos um pouco de polenta.
Podemos cozinhar enguia.
Eu estou com um americano, um bom rapaz.
Mande-o entrar.
Voc� est� cheio de picadas de mosquito.
Eu tenho algo para isso.
O soldado americano retribui a gentileza da fam�lia.
Aqui no rosto.
Mas tenha cuidado. Isto arte.
A fam�lia prepara comida para eles...
polenta e enguia.
� bastante simples, pescar as enguias...
e mat�-las na frente da c�mera.
� um ato de brutalidade cotidiana...
e um modo de nos preparar para o que vir�.
Alan! Alan!
Os alem�es atacaram a casa de Maddalena.
Eles metralharam a casa de Maddalena?
Eles sabem que fomos l�.
Os alem�es descobriram.
Para os barcos, mas tenham cuidado!
A fam�lia prejudicou-se, por ser hospitaleira.
Alan, venha comigo!
Os alem�es os matam.
Mam�e! Mam�e!
Fellini disse que Rossellini sabia o que queria...
quando filmou este epis�dio.
Ele buscava uma nova forma de narrativa...
onde nada � dramatizado ou intensificado...
onde as coisas se desenrolam, como na vida.
Essa clareza de vis�o tem um impacto quase religioso.
Como afirmou o cr�tico franc�s Andr� Bazin...
Rossellini simplesmente...
dirigia os fatos.
Os alem�es vencem a escaramu�a...
e separam os Aliados dos partid�rios.
Eles tratam os partid�rios como traidores...
que n�o merecem o respeito dado a prisioneiros de guerra.
O que ser� deles, amarrados como animais?
Nenhuma lei os protege.
Eles n�o s�o soldados, s�o criminosos.
E os dois San Marco, do Ex�rcito Italiano.
N�o reconhecemos rebeldes.
O que ser� deles?
Eu aguardo ordens superiores.
A minha fam�lia nunca saber� o que aconteceu comigo.
Eu molhei as cal�as como um beb�.
Isto ocorreu no inverno de 1944.
No in�cio da primavera, a guerra acabou.
Este filme foi feito em Berlim, no ver�o de 1947...
para retratar com fidelidade...
esta imensa cidade semi-destru�da...
onde tr�s milh�es e meio de pessoas...
levam uma exist�ncia assustadora.
Em 1947, Rossellini foi a Berlim rodar...
Alemanha, Ano Zero...
o �ltimo filme de sua trilogia do p�s-guerra.
� sobre um garoto chamado Edmund...
que tenta sobreviver...
em um mundo dizimado pela guerra.
Edmund n�o tinha nada...
nem uma esperan�a.
Neste mundo de corrup��o e horror...
a �nica regra � a sobreviv�ncia.
O conflito ao redor dele o leva a fazer algo impens�vel...
matar seu pai doente, que perdeu a vontade de viver.
Para ele, este � um ato de miseric�rdia...
mas depois de executado, s� o que lhe resta � o desespero.
Comparado aos filmes anteriores...
Alemanha, Ano Zero...� um pouco alheio.
Para mim, Rossellini precisou distanciar-se...
pois ele nos apresenta uma realidade pavorosa.
Tente imaginar como era a Alemanha do p�s-guerra...
que teve a sua cultura autodestru�da.
Imagine ser um inocente...
em um mundo culpado.
Alemanha, Ano Zero...� um filme sobre a compaix�o.
A morte de Edmund � um sacrif�cio solit�rio...
como o de Carmela.
O sacrif�cio � o elo desta trilogia.
Rossellini estava pedindo �s na��es da Europa...
que tivessem pena e toler�ncia por seu ex-inimigo...
para que elas seguissem adiante juntas.
Nenhum outro teria coragem de filmar assim em 1947.
Depois disso, Rossellini fez algo diferente...
um tipo de conto chamado...O Milagre.
Federico Fellini escreveu o roteiro...
e esse � ele, interpretando um mendigo.
O Milagre...� um ve�culo para Anna Magnani...
o filme � impens�vel sem ela.
Ela interpreta uma pastora...
uma mulher de intelig�ncia limitada, mas de muita f�.
Jesus, Jos� e Maria.
Por que vai embora? N�o v� embora.
Eu posso lhe falar?
Deus, que consolo!
Meu belo santo, belo santo. Que felicidade!
O senhor pode fazer-me morrer? � s� isso.
E leve-me para o Para�so, na contempla��o do Senhor.
O Milagre...trata da quest�o da f�...
tema recorrente na obra de Rossellini.
Ele se perguntava como a f� podia sobreviver � II Guerra...
e ao horror do Holocausto.
Voc� passou pela aldeia e n�o o viram?
Eles n�o s�o dignos. N�o s�o dignos, mas eu...
Voc� sabe o que eles dizem?
"Os malucos n�o podem entrar no Para�so".
Para mim?
Ela est� convencida de que ele � S�o Jos�.
Mas ele n�o � santo e se aproveita da situa��o.
Que Para�so?
O Para�so na Terra.
A maluca recebeu uma gra�a.
Eu estou passando mal.
Eu estou mal.
Ela demora a perceber o que aconteceu.
Nanni, voc� sabe que est� gr�vida?
Quando ela percebe, acha que vai dar � luz a Jesus.
N�o me toque!
Eu recebi uma gra�a de Deus.
Os indigentes com quem ela mora a expulsam.
Os moradores da cidade n�o t�m pena dela.
Voc� sabe quem ela pensa que �?
Para eles, ela � uma idiota.
Nanni, fica bem em voc�.
O que voc�s est�o fazendo?
Todos ca�oam do milagre que est� por acontecer.
Ent�o, um milagre acontece.
Uma crian�a nasce.
O milagre � a vida.
O Milagre...parece um filme simples...
mas � muito especial...
porque, sem chamar aten��o para isso...
Rossellini mostra algo elementar da natureza do pecado.
Ele � parte do que n�s somos e n�o pode ser purgado.
Para ele, o cristianismo n�o tem significado...
se n�o puder aceitar o pecado e permitir a reden��o.
Ele tenta nos mostrar...
que o pecado daquela mulher e a loucura...
nada s�o em compara��o � sua humanidade.
� estranho lembrar que este filme...
causou um esc�ndalo na hist�ria do cinema americano.
Quando ele estreou no cinema Paris, em Manhattan...
o Cardeal Spellman, cardeal de Nova York na �poca...
e a Liga da Dec�ncia, uma organiza��o cat�lica...
considerou o filme uma par�dia blasfema...
e uma campanha foi feita para tir�-lo de exibi��o.
Burstyn, o distribuidor americano...
levou o caso � Suprema Corte...
e em 26 de maio de 1952, o tribunal decidiu em seu favor.
O cinema tinha o mesmo direito � liberdade que a imprensa...
e a id�ia de blasf�mia n�o seria base para censura.
Eu tive muitos problemas com a censura...
e sei, por experi�ncia pessoal...
que essa decis�o foi um marco.
O Milagre...causou esc�ndalo...
mas n�o foi nada, perto do que houve um ano depois...
com... Stromboli.
Stromboli...foi o primeiro filme italiano...
que eu vi em uma tela grande no cinema.
Mesmo aos sete anos, eu senti o esc�ndalo em torno dele.
Voc� podia perceber, dentro do cinema.
� claro que eu ouvi os meus pais...
falando em particular dos detalhes.
Rossellini e Ingrid Bergman tiveram um romance...
e um filho fora do casamento.
Hoje em dia n�o � grande coisa, mas na �poca, era.
Eles foram criticados nos EUA e n�o s� pela Igreja...
foram criticados no plen�rio do Senado.
Eu gosto muito de voc�.
Como...O Milagre...
Stromboli....girava ao redor de uma mulher.
Os cr�ticos acusaram Rossellini...
de se afastar do neo-realismo puro.
Boa noite.
O fato de a protagonista ser Ingrid Bergman...
uma das maiores estrelas de Hollywood, piorou as coisas.
Rossellini tra�ra o movimento que ajuda a criar.
Na verdade, ele estava amadurecendo como artista...
mas as pessoas n�o gostaram.
Assim, ele foi criticado dos dois lados do Atl�ntico.
Por que voc� est� rindo?
Voc� � maluco, n�o sabe nada sobre mim.
N�s conversamos algumas vezes na cerca...
e voc� quer casar-se comigo?
� claro.
Hoje, 50 anos depois, a controv�rsia acabou...
e podemos olh�-lo objetivamente.
No filme, Ingrid Bergman � uma refugiada da guerra, Karin.
Ela est� num campo de refugiados italianos...
e n�o pode voltar a seu pa�s...
porque envolveu-se com um soldado alem�o.
O seu visto para a Argentina foi negado.
A It�lia n�o a aceita, ela n�o tem para onde ir.
- Qual a sua ocupa��o? - Nenhuma.
Um dos prisioneiros de guerra, um pescador siciliano...
lhe oferece uma sa�da.
Ent�o, ela v� onde eles ir�o morar.
O vulc�o.
Em Stromboli, uma ilha isolada na costa da Sic�lia.
- � sempre ativo? - Sim, veja.
As pedras est�o caindo no mar.
Ela percebe que foi parar em outro tipo de pris�o.
Isto � uma ilha fantasma.
A minha terra.
Voc� v�?
Rossellini descreveu Karin desta forma...
"Uma mulher que passou pelas prova��es da guerra.
Ela sai machucada e endurecida...
e n�o reconhece um sentimento humano."
N�o me interessa a sua cevada...
as suas vinhas...
ou a sua terra nova,
Eu quero ir embora, para longe daqui.
Como todos os outros que nasceram aqui e partiram!
O que aconteceu?
O qu�?
Ou�a, esta � minha casa, voc� � minha mulher...
e voc� ficar� aqui porque eu quero.
Toda manh�, o marido vai pescar com outros homens.
Um dia, ela vai at� a praia.
Um homem lhe mostra como eles procuram peixe.
Embora tudo comece inocentemente...
isso acontece aos olhos dos moradores...
e para eles isso � impens�vel, imperdo�vel.
Ela n�o imagina que desonrou o marido.
Chifrudo!
Quando garoto, eu n�o entendia bem o que acontecia...
mas essa parte eu entendi.
Chifrudo! Chifrudo!
Ali�s, o meu irm�o explicou-me.
Lembrem-se, aquela sociedade era pequena e fechada.
Eles est�o isolados na ilha.
H� comida na mesa. Eu n�o quero comer.
O que aconteceu?
O que eu fiz?
Ali, perder o respeito como homem � uma trag�dia.
Ela fica t�o desesperada...
que faz o que for para sair da ilha.
O senhor � um bom homem.
Ela procura o padre...
que se oferece para ajud�-los a emigrar.
Mas ela quer ter certeza desta ajuda.
Voc� � um homem sens�vel, experiente.
Eu sou apensar um pobre padre.
Mesmo garoto, percebi pela linguagem corporal...
que algo proibido estava acontecendo.
Voc� � o �nico que pode confortar-me.
Eu sou apenas um p�roco de uma aldeia de pescadores.
- As suas qualidades humanas... - Eu sou padre!
Eu s� posso ajud�-la na confiss�o e a rezar.
Ora!
Eu s� posso sentir compaix�o por voc�.
Que o Senhor a guie. Componha-se...
medite, pense.
A cena da pesca do atum � a principal do filme...
� o seu �mago.
N�s somos levados ao cerne da exist�ncia daquela gente...
as preces, a espera.
Eles pegaram um peixe.
� como se a c�mera estivesse ali h� milhares de anos...
registrando o ritual da pesca...
antes de a hist�ria ser escrita...
quando era algo passado de gera��o em gera��o.
� a santidade do ato de comer, um ato comunit�rio...
e buscar comida com as pessoas que conhece.
A comida � sagrada, uma d�diva de Deus.
A cena � bastante longa.
O seu ritmo � lento, como uma pe�a musical.
Jesus e Maria.
Jesus e Maria.
Gra�as, Jesus e gra�as, Maria.
Voc� gostou da pescaria?
- N�o, foi horr�vel. - O que aconteceu?
Eu n�o me sinto bem.
Por qu�?
Ser� que...?
- Talvez... -Sim, j� faz tr�s meses.
Eu acho que estou gr�vida.
Karin, meu Deus...
que alegria!
Quando o vulc�o amea�a entrar em erup��o...
os nativos saem nos barcos e esperam que passe.
Para eles, aquilo � normal.
Mas Karin chegou ao seu limite e n�o ag�enta mais.
Antonio, deixe-me sair. Abra!
Antonio!
O �nico jeito de sair da ilha � atravessar o vulc�o...
e pegar um barco do outro lado.
Com a presen�a de Ingrid Bergman no filme...
Stromboli...foi produzido pela RKO...
que na �poca pertencia a Howard Hughes...
que n�o sabia o que fazer com o filme.
Ele cortou 25 minutos e inseriu uma narra��o no fim...
explicando a hist�ria...
e fazendo Karin voltar para o marido.
Mas na vers�o de Rossellini, o final � aberto.
O que acontece com Karin no vulc�o?
Rossellini disse que o importante era saber...
se ela ainda conseguia chorar.
Eu vou matar-me.
Eu n�o tenho coragem.
Mas � mais que isso.
Ela � uma mulher que passou por prova��es tremendas...
e agora ela sabe que est� gr�vida.
A beira do vulc�o...
ela desperta para uma nova realidade espiritual.
Senhor!
N�o importa se ela volta ou n�o para o marido.
O filme trata da jornada dela...
pela qual todos n�s passamos em certo momento da vida.
Que mist�rio.
Sofrimento, aceita��o, transcend�ncia.
Que beleza.
E finalmente, paz.
Alemanha, Ano Zero...� sobre a perda ou a aus�ncia da f�.
Stromboli...� sobre a descoberta da f�.
Ent�o, Rossellini fez um filme sobre ter f�...
sobre abra�ar a f�.
Com Fellini ele adaptou...Flores de S. Francisco...
um livro escrito no s�c. XIV.
No desfecho de uma trag�dia mundial...
o exemplo de S�o Francisco...
de amor incondicional por todo ser vivo...
tinha o sentido de prem�ncia real.
Eu nunca vi a vida de um santo ser tratada...
com tanta simplicidade...
e com tanto fervor.
N�o h� ningu�m aqui?
O que voc� quer, irm�o?
Como voc� � bonito.
O que quer?
- Eu quero falar com o chefe. - Fale comigo, � igual.
Eu quero ficar com Francisco.
O que voc� far� com essa r�s?
Eu quero d�-la para os irm�os.
O vov� enlouqueceu. A vaca � nossa.
- Sim, acalmem-se. - N�s n�o podemos d�-la.
N�s n�o temos necessidade dela. Eu cuido dele.
Fique com ele.
- Conosco, voc� trabalhar� mais. - Eu gosto
Os seus parentes ser�o como mortos.
- Deve ser humilde, orar, trabalhar. - Orar, trabalhar, digo tudo...
N�o vai ser dif�cil deixar a sua fam�lia?
Todos
O que voc� quer com Francisco?
- Eu quero ser santo como ele. - Eu sou Francisco.
Francisco!
- Aqui vamos n�s! - Vamos.
Flores de S�o Francisco...foi filmado em 1950...
nas colinas de Roma.
Temos um novo irm�o.
- Como ele se chama? - Ele chama-se Giovanni.
Rossellini usou monges de verdade nos pap�is principais.
O filme consiste de uma s�rie de epis�dios...
na vida de S�o Francisco e seus disc�pulos.
Irm�o, o que aconteceu?
Voc� est� congelado.
Os epis�dios s�o par�bolas.
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