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Marie Heurtin
Esta hist�ria foi baseada em fatos reais ocorridos na Fran�a, no final do s�culo XIX.
Bem-vinda, minha querida.
Voc� est� muito boa.
- O qu�? - Venha ver.
Veja.
Cuide dela.
Quem �?
Como ela chegou l�?
Ela sobe em �rvores quando n�o estamos olhando.
- Como voc� a faz descer? - Esperamos at� que ela des�a.
Irm� Marguerite, como voc� se sentindo hoje?
Muito bem.
Ent�o suba l� e traga a garota.
Des�a com ela!
Ensinamos garotas surdas, n�o cegas e surdas.
N�o poder�amos tomar conta dela apropriadamente.
O que posso fazer? S� o manic�mio a receber�.
Sinto muito.
10 de Maio.
Hoje eu conheci uma alma.
Uma alma muito pequena, bem fr�gil.
Uma alma aprisionada,
que eu vi brilhar atrav�s das barras de sua pris�o.
Pensei que fosse uma selvagem,
um pequeno animal.
Mas ela estava esperando por mim naquela �rvore.
A garota est� presa num mundo de escurid�o e sil�ncio.
Como podemos falar com ela? Escut�-la?
Como ser� viver na escurid�o e no sil�ncio absoluto?
Mais forte!
Est� bom.
Educa��o n�o era minha escolha...
e eu preferiria trabalho manual,
mas conheci esta jovem e n�o consigo parar de pensar nela.
- Voc� nunca ensinou garotas surdas. - Eu falo a l�ngua delas.
Faz�-las romper o sil�ncio � algo completamente diferente.
- E ela � cega. - Me deixe tentar.
Eu tive uma revela��o.
Uma revela��o?
N�o, n�o uma revela��o... digo...
S� uma ideia. Uma simples ideia.
H� n�o ser que esteja errada, minha miss�o � cuidar dela.
Fazer com que ela fale para que possa entrar no mundo.
N�o.
Mas...
Eu te ouvi. Voc� perguntou. A resposta � n�o.
Obrigada, Madre.
Mas ela n�o pode ficar detida naquela pris�o!
Algu�m deve ensin�-la a falar.
- Como? - Linguagem de sinais.
Ela � cega!
Farei os sinais com as m�os dela.
Ela � cega de nascen�a. A intelig�ncia dela atrofiou.
Se estiver intacta, ela deve estar sofrendo aprisionada.
Mesmo que tenha uma pequena chance...
� uma tarefa e tanto. Com sua sa�de...
Meus pulm�es me matar�o. At� l�...
� um milagre que esteja viva. N�o, n�o � um milagre...
O menor esfor�o pode ser fatal.
Posso morrer na minha cama.
Poderia simplesmente morrer.
Sou a Madre Superior desta institui��o?
Sim, Madre.
- Ent�o voc� deve me obedecer? - � claro.
Se eu negar, voc� deve aceitar sem contestar?
27 de Maio.
Estou indo buscar a pequena Marie.
Estou t�o animada quanto no dia que proferi meus votos.
Tem algu�m em casa?
Sou eu.
Mas...
Quem � voc�?
Eu vim...
para ajud�-la.
Ela n�o tem sapatos?
Nunca conseguimos colocar um nela. Nem pente�-la.
Espere!
Quase esqueci.
Este canivete � o objeto favorito dela.
Ela prefere ele �s bonecas.
Voc� tem que deix�-la agora.
Eu sei.
Vamos.
V� embora! V� embora!
Voc�.
Voc�.
Eu.
N�s duas.
Juntas.
Vaca.
Vaca.
Vaca.
Aqui, sinta.
Isto � uma vaca.
Vejam.
Olhe o cabelo dela!
Voc� fica aqui.
Aqui.
Isto � para voc�. � sua cama. Onde voc� dorme.
Aqui. Tudo bem?
Eu voltarei.
Fique aqui.
Eu voltarei.
Vou pegar os len��is dela.
Ela � uma garota nova. Sejam boazinhas com ela.
Cuidem dela.
Eu j� volto.
Para a cama!
Parem de fazer bagun�a!
Confiei em voc�s.
Voc�s s�o todas malvadas.
Vou contar para a Madre Superior. Tudo vai acabar em l�grimas.
Estou decepcionada. Isto � errado!
Sou eu.
Sou eu. Aqui.
"Quando o discurso durou por duas milhas..."
"O Irm�o Leo o questionou..."
"dizendo: Pai, eu rezo,"
"ensine-me onde est� a perfeita alegria."
Madre!
Continue.
"E S�o Francisco respondeu:"
"Se..., quando chegarmos...".
Me deixe.
"...ensopados pela chuva e tremendo de frio,"
"exaustos pela fome,"
"e se, quando batermos nos port�es do convento,"
"o porteiro viria ferozmente,"
"e perguntar� quem somos n�s..."
"e diremos a ele..."
"...e ele responde: Isto n�o � verdade,"
"aqui est�o dois impostores que levam as almas dos pobres."
"Despare�am!"
"Ent�o se aceitarmos com paci�ncia..."
"e sem murmurar..."
"tanta injusti�a...".
Quente.
Quente.
"...acreditando com humildade..."
"e caridade..."
"Oh, Irm�o Leo,"
"escreva que isto � de fato a alegria perfeita."
26 de Julho
Cada um tem sua cruz para carregar.
Neste momento minha vida com Marie � um calv�rio.
Que caminho devo tomar?
20 de Setembro
Estou com a Marie h� 4 meses.
A linguagem dela n�o est� avan�ando.
Ela se comporta como um animal selvagem.
Sou eu.
Espere, espere...
Espere, veja.
Faca.
Esta � sua faca.
Esta � sua faca.
Veja.
Sua faca!
27 de Outubro
Ainda sem progresso.
Marie piorou desde que veio para c�.
� natural.
Eu tirei os pais e o lar dela,
o pouco que ela conhecia.
Eu a retirei do mundo dela.
Vidro.
Janela.
Pare de me criticar. � irritante.
Espere...
Vivi em sil�ncio at� os 4 anos.
Meus pais n�o conheciam a linguagem dos sinais,
mas me ensinaram o resto.
Que "resto"?
Tudo.
Educa��o, comportamento, maneiras � mesa...
Ela deve aprender a viver com as outras.
Ela n�o est� sozinha.
Voc� est� certa. N�o estou educando ela direito.
Talvez voc� estivesse errada mas voc� pode fazer melhor.
N�o tenho mais coragem.
Tudo isto por nada.
At� agora, voc�...
Voc� me ensinou a linguagem de sinais, sabe.
Tudo que sei � jardinagem.
J� que voc� sabe melhor, continue.
Voc� deu um passo. Voc� pode dar outros.
Ela n�o entende nada.
Hoje, 15 de Novembro.
Estou indo fazer o cabelo da Marie.
Solte! Solte!
Solte! Solte! Solte!
Solte.
Sim...
Aqui, est� vendo?
O qu�?
Sim.
Assim mesmo.
Oh, n�o! Marie j� est� aqui.
Esperem.
Tenham paci�ncia.
Temos que ir para a aula.
N�o.
D� a elas o seu lugar.
Oh! Vamos, ent�o. � toda seu!
Isto mesmo.
Ela entendeu.
Muito bem!
Muito bem!
"As palavras de nosso Senhor Jesus Cristo..."
"nos dizem que devemos seguir nosso pr�prio caminho..."
"enquanto lutamos com os problemas deste mundo."
"Fazermos nosso caminho,"
"sem estarmos presos a qualquer cidade."
"Ainda na jornada, ainda sem voltar para casa."
"Ainda esperando, n�o aproveitando."
"Vamos fazer nosso caminho,"
"sem pressa, nem interrup��o,"
"para que um dia possamos chegar."
"Martha e Mary eram irm�s..."
"n�o somente em carne..."
"mas tamb�m na f�."
"Juntas elas se unem ao Senhor... ".
Esta � sua faca.
E este � o sinal de "faca".
Faca.
Faca.
Faca.
Faca.
Espere.
Me d� ela.
Vamos.
Faca.
Faca.
Faca.
Faca.
Faca.
Faca.
Aqui, sinta.
Vamos.
Faca.
Vamos.
Vamos, ent�o!
Faca. Aqui, sinta.
� sua faca.
Voc� sabe! Vamos.
Faca.
Sim, sim! Vamos!
Isso.
N�o, nada de dormir. Nada de dormir. Vamos!
Vamos continuar.
Faca.
Nada de dormir, j� disse. Acorde!
Vamos, faca!
Faca!
N�o, fa�a o sinal de "faca".
Faca.
Faca.
Faca.
Faca.
Faca.
Faca.
Faca.
Isto...
Isto!
Isto!
Faca!
Isto mesmo! Faca!
Madre!
Madre!
Madre, venha ver.
- Onde? - Venha ver a Marie.
Ela j� est� aqui h� 8 meses, n�o �?
Sim, e...
- Eu acho admir�vel. - Oh?
Tanto esfor�o, t�o poucos resultados...
Consegui resultados. Marie fez progressos incr�veis.
Voc� deve vir e ver.
Veja.
Est� vendo!
O que � isto?
V�!
Ela est� sinalizando a palavra "faca".
Sim.
Ela est� perguntando.
"garfo".
Este � o sinal para "garfo".
Isto.
Isto.
P�o.
P�o.
P�o.
Isto mesmo. Isto mesmo.
Voc� viu?
Funcionou.
Funcionou.
Funcionou!
Cenoura.
Cenoura.
Aqui...
Cenoura.
Ma�a.
Uva.
Sim, assim mesmo.
O mesmo para a outra.
Folha.
15 de Junho
Estou testemunhando um espet�culo incr�vel,
uma explos�o de linguagem.
Foi t�o dif�cil aprender a primeira palavra...
mas as palavras seguintes t�m sido muito simples.
Burro.
Marie quer dar nome a tudo.
Velho...
Em seguida estudaremos adjetivos, frases,
gram�tica, palavras abstratas.
Jovem.
Espero viver o bastante para ver tudo isso.
Eles est�o vindo?
Ainda n�o.
Quando?
Em breve.
Demora muito.
Paci�ncia.
Eles est�o vindo.
Eles conseguem me ver?
Ainda n�o.
Eles conseguem ver voc�.
O que voc� est� esperando? Me ajude a descer.
Me ajude a descer.
V� at� eles.
O que voc�s est�o esperando? � a filha de voc�s.
Ela est� dizendo que est� aprendendo o alfabeto...
e tamb�m...
a pron�ncia das palavras.
Como se diz "Ol�".
Minha garotinha...
"Mam�e".
Como se diz: "Mam�e".
- Desse jeito? - Isto.
Ela disse que est� feliz.
E... que ela ama voc�s.
H� algo que possa ser feito?
Descansar, principalmente.
E o ar das montanhas.
N�o diremos a Marie que voc� est� partindo.
Vai mago�-la demais.
"Os homens que estavam com ele se prostaram estupefados,"
"escutando a voz mas n�o vendo ningu�m."
"Saul se levantou e apesar dos seus olhos estarem abertos,"
"ele n�o consegui ver nada."
"Ele foi levado at� Damasco...".
Por favor, coma.
N�o!
"Em Damasco, havia um disc�pulo chamado Anan�as..."
Sou eu, Raphaelle.
Voc� tem que comer.
N�o, Irm�.
A viagem piorar� sua condi��o e voc� poderia...
...morrer no final.
Como todos n�s iremos.
Mas eu provavelmente morrerei muito antes de voc�.
Quero terminar minha tarefa antes de morrer.
Apenas me arrume um rem�dio para que possa aguentar a viagem.
Estou t�o feliz.
Verei Marie novamente.
Ela � minha alegria,
a filha da minha alma,
a luz da minha vida.
Sou eu.
Qual � o problema?
A Irm� Elisabeth morreu.
- Quando? - Agora mesmo.
Estava trabalhando no jardim.
Ela disse que sentia calor, e ent�o morreu.
A Irm� Elisabeth est� quebrada?
N�o. O corpo dela est� quebrado.
Ela est� morta.
N�s somos o oposto. Estamos vivas.
Eu tamb�m irei morrer.
Quando?
Em breve.
Te pro�bo de morrer.
N�o posso decidir isto. Muito menos voc�.
- Quem decide isto? - Deus.
Quem � Deus? Onde Ele est�? N�o consigo toc�-lo.
Ele est� em todo lugar.
Aqui, aqui, aqui...
At� mesmo dentro de voc�.
20 de Abril
Marie me deu tantas coisas.
Ela me apresentou a um mundo do qual n�o sabia nada.
Um mundo que voc� pode tocar,
onde tudo que est� vivo pulsa sob seus dedos.
Eles s�o lindos.
Tem muitas deles.
Voc� est� bem?
Estou.
Gostaria de um pouco de �gua?
Sim.
Cuidado, est� quente.
Quer �gua?
N�o.
Me ajude.
N�o vou deix�-la entrar.
Mas ela precisa ver voc�.
N�o pedi sua opini�o.
Eu quero entrar, por favor.
Marguerite est� cansada. Ela est� descan�ando.
Quero entrar.
Eu disse que n�o.
Eu quero entrar!
Paci�ncia. Mais tarde.
E quanto a Marie?
Ela n�o foi vista durante o almo�o.
Onde ela foi?
Procuramos o dia todo.
Procuramos em todo lugar.
Procure nas �rvores.
� perigoso.
Oh, ainda sou capaz de subir numa escada!
Venha.
Quero ver Marguerite.
Quero ver Marguerite antes que ela morra.
Antes de fazer meus votos,
achava que os religiosos deixavam este mundo pacificamente,
em serenidade.
Agora que vi v�rias irm�s morrerem,
alguns padres...
Alguns pareciam calmos.
Com mais ou menos habilidade, faziam de conta...
que estavam felizes de se juntar ao Criador.
Mas nunca me enganei.
Sentia a revolta nos corpos deles.
Acho que irei desta forma tamb�m.
N�s dedicamos a Deus.
Toda nossa vida � uma rebeli�o.
N�s rebelamos contra o mal,
contra o mundo,
contra n�s mesmas.
Por que voc� n�o fala com a garota pela �ltima vez?
N�o estou pronta.
Voc� n�o tem mais tempo para se preparar.
Mas ela est� pronta.
Voc� fez um bom trabalho.
Ela sabe que voc� vai morrer. Ela j� aceitou isto.
Mas voc� ainda n�o.
Voc� n�o aceitou deix�-la.
Sim.
Voc� continuar� estudando?
Sim.
N�o estarei presente para te ajudar.
As outras irm�s ajudar�o.
Viva!
Voc� deve viver!
Irm� Marguerite, eu sempre penso em voc�.
Penso em voc� o dia todo.
De manh�, quando acordo, penso em voc�.
� noite, quando vou dormir, penso em voc�.
Quando aprendo algo novo, penso em voc�.
Aprendi muitas coisas at� agora.
Quando voc� me v� do c�u, espero que esteja orgulhosa de mim.
Uma garotinha nova chegou hoje.
Ela � como eu. Surda e cega.
Mas ela � diferente de mim quando chequei.
Ela n�o grita.
N�o esperneia.
Ela cheira bem.
Ela tem cheiro de p�o.
Ela est� esperando. O que ela est� esperando?
Ela est� esperando pela palavra.
As irm�s ir�o ensin�-la,
como voc� me ensinou.
Vou ajud�-las.
Espero que nos tornemos amigas.
N�s �ramos mais que amigas.
Marie Heurtin viveu o resto da vida dela no Instituto Notre-Dame de Larnay,
pr�ximo a Poitiers, onde morreu em 22 de Julho de 1921, aos 36 anos.
Uma �vida leitora em braille e imbat�vel no domin�,
ela nunca parou de estudar e foi uma guia para meninas surdas e cegas...
que chegaram depois dela em Larnay.
Tradu��o e adapta��o: Caudilho(Registered Trademark)
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