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Nas encostas do Buçaco,
apesar dos numerosos obstáculos naturais que favoreciam a defesa do Monte Alcoba,
os nossos corajosos soldados do 2° Corpo conseguiram alcançar o cume
ao fim de uma hora de extraordinários esforços.
Mas mal chegaram, ofegantes, ao topo da colina,
encontraram-se de repente face a face com uma linha de infantaria inglesa...
O Marechal Masséna cometera um grande erro
ao enviar para o combate o 2° Corpo
antes que o 6° Corpo estivesse pronto a intervir.
Sim.
Amigo.
Amigo do Percy.
Á nossa!
Quero vê-lo.
Compreende?
Não é bom para...
Sim, é bom.
Faz-me bem vê-lo. Preciso de o ver.
Quero vê-lo!
Leve-me lá, por favor! Leve-me!
Noite.
De dia.
Está bem, amanhã.
Sim.
O meu nome é Maureen.
Durma.
Obrigada.
Demasiadas mortes, Monsieur Lévêque. Há demasiada carne.
Não lhe encomendei uma chacina. Pedi-lhe uma batalha.
Mais cor, mais movimento.
Mais panache.
É uma vitória, Lévêque, não um massacre.
Precisamos de mais heróis, menos corpos e menos sangue.
Recomece.
Recomece!
Menos mortos, mais heróis!
Como se os mortos de hoje não fossem os heróis de amanhã!
As nossas tropas entraram em Coimbra no dia 1 de Outubro.
Os infelizes habitantes desta magnífica e bela cidade de 120 mil almas
haviam sido prevenidos da chegada do inimigo
e tinham recebido ordem de abandonar as suas casas.
Vendo a sua progressão empatada pela enorme massa de fugitivos,
o exército de Wellington retira-se em direcção de Condeixa e Pombal.
Livrem-se destes piolhosos!
Despachem-se!
Em vez de se aproveitar da situação e de perseguir o inimigo,
o General Massena decidiu, para nosso enorme espanto,
permanecer em Coimbra,
sob o pretexto de reorganizar as tropas e cuidar dos feridos.
Merda!
Seja como for, não irá longe...
Visto de trás, confunde-se com uma mulher.
Não me digas que este velho casmurro ainda mexe!
Vá à merda, senhor!
Para albergar o Marechal e seu séquito,
encontramos intacta a magnífica residência dum empresário suíço.
Amigo dos franceses, sacrificou a sua última galinha-do-mato...
para a ceia do Marechal.
Conheci bem o vosso Voltaire, sabe?
Conheceu!
Que gabarolice, meu pobre Léopold...
Diga antes que o vislumbrou.
- Lembre-se, minha cara, em Ferney! - Sim, em Ferney! Lembra-se?
E estava bem longe!
- Uns escassos metros... - Qual?! Muito mais!
E de costas!
Mais vinho, Sr. Marechal? Infelizmente, não é de Borgonha.
Disseram-me que é algo áspero. Mas como não bebo muito...
Não!
Tem a certeza, Cosima?
A sério?
- Um hussardo? - Seguríssima, Severina!
Como o Papá...
Mas, irmãzinha, só uma cama no quarto!
Os franceses, sabe...
O que é? O que foi? Do que falam?
Não é nada.
Infelizmente, nada temos para sobremesa.
Os criados levaram tudo, quando fugiram.
Mas ainda sobrou um fundinho de cognac francês numa garrafa.
Talvez se pergunte, Sr. Marechal, por que ficamos...
Mas, adorada, isso não interessa nada ao Senhor M...
Cala-te!
E não me chames adorada. É ridículo!
A nossa filha está aqui enterrada.
Lá fora, no jardim.
Morta por uma bala perdida, na estrada do Buçaco.
Ainda nem 20 anos tinha...
- Severina... - Então, minha irmã?
Era uma bala francesa.
Isso nunca foi apurado, Sr Marechal.
- Podia bem ser inglesa. - Ou portuguesa.
Era francesa.
O desgosto transtorna, Sr. Marechal. Não lhe leve a mal...
É um povo curioso, o português, sabe?
Um povo melancólico... Eles chamam-lhe "saudade".
É a melancolia do que não aconteceu, mas que podia ter acontecido.
Caem em silêncios prolongadíssimos em plena conversa...
E depois recomeçam, como se não fosse nada!
Para eles, a frieza não passa duma forma de calor invertido.
É pena terem partido todos.
Mas acabarão certamente por voltar...
Este não.
Este também não.
Este não é mau...
Fora de questão.
Este aqui...
Por que não?
Não, de modo algum.
Qual a ideia deste rosto?
Francamente, Monsieur Lévêque!
Este é bom, não é nada mau...
Este também, pode ser...
Não.
Lévêque!
Porquê corpos, sempre corpos?!
Vê-se que é uma forma que muito aprecia!
Para o fogo!
Não!
Espere! Apanhe-o!
Esse aí! Sim! Apanhe-o! Dê-mo cá...
- General Wellington? - Sim, este é muito bonito.
Por favor! Acho que devia ver isto.
Apanha isso.
É inglês?
Major Jonathan Foster. Ao seu dispor, Menina...?
Clarissa.
Clarissa Warren.
O meu irmão, Peter.
- Os franceses vão ganhar? - Acho que não, meu jovem amigo.
Então porque fugimos?
Não estamos a fugir, e sim a retirar. É uma estratégia ardilosa, mas...
É segredo!
Ouvi-o falar português. Fala muito bem.
É natural, nasci no Porto. O meu pai é comerciante de vinhos.
O meu negoceia em vidro! Temos uma fábrica, perto de Leiria.
Mas apesar disso, sou inglesa da cabeça aos pés.
Nasci no Sussex.
E falo tanto português como uma galinha irlandesa!
É Miss McGee. A nossa governanta.
É insuportável!
O meu pai está muito doente, não devia estar a viajar.
Lamento imenso.
Não podíamos abandoná-lo á mercê dos franceses, pois não?
Não, claro que não...
Não fala há dois dias.
Mas está vivo, o seu coração ainda bate!
Auscultei-o e ouvi-o.
Lamento, mas não temos médicos nem enfermeiros connosco.
Talvez encontrem algum pelo caminho.
Ha uma aldeia a oito quilómetros daqui, sugiro que pernoitem lá.
Estas estradas não são de confiança.
Espero que voltemos a encontrar-nos.
Também o espero...
- O Major Jonathan Foster, por favor. - Primeiro piso.
Miss Warren!
Que agradável surpresa!
Soube que estava aqui.
O António arranjou uma galinha. Gosta de frango de fricassé?
Adoro...
Entre, por favor.
São os meus ajudantes de campo. Preparam o itinerário de amanhã.
Deve ser um itinerário muito divertido!
A galinha estava deliciosa!
Há muito tempo que não comia tão bem!
O Pai diz que o António é uma pérola rara. E até Miss McGee concorda!
- Apesar de insuportável... - Aquela velha bruxa...!
Mas, no entanto, deixou-a vir sozinha...
Nem pense!
Julga-me a dormir com o Peter na liteira.
Nunca me deixa ir a lado nenhum sozinha!
É absurdo, não acha? Em breve, terei 18 anos!
Dezoito, já? Quando?
Em Setembro.
Ou seja, daqui a praticamente um ano! Estamos em Outubro.
Pois muito bem, tenho 17.
E depois?
Na Índia, as raparigas casam muito mais cedo.
Já tenciona casar-se?
Tão depressa quanto possível.
Porquê?
Acha que ninguém me quer?
Não, pelo contrário!
Pretendentes não lhe faltarão!
A sério, Major...
Que tal me acha?
Deliciosa!
- Como a galinha? - Que ideia...
Então como?
Como...
um flamingo.
- A sério? - A sério.
Eu também o acho delicioso!
Ora vejamos...
Já sei!
Como um galgo afegão!
Quando o vi na estrada no outro dia, apeteceu-me morder-lhe...!
Menina Warren!
Não me parece boa ideia!
Porquê?
Não se preocupe, eu não mordo.
Não tenha medo, Major.
Eu já o fiz...!
- Já fez o quê? - Isso em que está a pensar.
- Com quem? - Com o meu irmão.
O Peter?!
Não, seu pateta!
O outro!
O Edward. Aquele que está na Índia com os Lanceiros, em Bengala.
Acha que está errado?
Não sei.
Acho que...
Acho que não está certo.
Acho que...
Acho que é mais errado do que certo.
Na verdade, acho errado.
Felizmente, não sou sua irmã.
Mas é praticamente uma criança!
Ora, Major!
Verá que não sou!
Não fique zangado, Major!
Por favor!
Não tem importância.
A sério, não altera nada!
Continuo a achá-lo delicioso como um galgo afegão.
Não tem qualquer importância. Tentaremos noutra ocasião.
Não tente consolar-me, Clarissa, não permitirei tal coisa!
E não me chame Major. O meu nome é Jonathan.
Não estou a tentar consolá-lo, Jonathan.
Asseguro-lhe que não!
É mesmo verdade, não tem importância.
Mas acho pena...
porque era a primeira vez com um desconhecido.
Até agora, tem sido sempre um experiência em família.
Paciência...
Há-de conseguir da próxima vez!
E agora tenho de ir!
Senão a velha bruxa McGee faz-me as tripas em picadinho!
Espere!
Eu acompanho-a.
Não posso deixá-la ir sozinha a esta hora da noite.
Valha-me Deus!
O que será destes desgraçados?
A sua única esperança é alcançar as Linhas de Torres antes dos franceses.
As linhas de quê? O que é isso?
É segredo, é um segredo militar!
Jonathan!
Por favor!
Não direi palavra a ninguém! Juro que não!
São fortificações que Wellington construiu para conter os franceses
antes de Lisboa, entre o mar e o rio Tejo.
E acha que isso os contém?
Se não os contiver, resta-nos alcançar a frota ancorada em Lisboa
e regressar definitivamente a Inglaterra.
Se não formos todos massacrados primeiro, bem entendido.
Quanto aos outros...
Que Deus tenha piedade deles.
Pequeno-almoço!
Não era preciso, Sargento...
Pequeno-almoço.
Casaco.
Não posso aceitá-lo!
Sargento!
Não é bom!
Avante, filhos da pátria...
Levamos três dias a alcançar a bela vila de Pombal,
atributo do famoso marquês do mesmo nome...
A evacuação total das populações orquestrada pelos ingleses
privara-nos de recursos indispensáveis para alimentar as tropas.
Não acharemos cereais, hortaliça ou forragem...
Os nossos soldados só haviam encontrado limões e uvas,
um alimento obviamente pouco substancial...
Lamento muito, Senhor Marechal. É a única sala em condições.
Eles esvaziaram o palácio antes de fugir.
Uma cama e um tecto...
Em tempo de guerra não se limpam armas, não é verdade?
- Serve-nos, Senhor Barão. - Sem dúvida!
Obrigado, General.
Senhor de Ségur,
teremos o prazer de o ter connosco esta noite para uma partida de whist?
Com a senhora sua mulher, bem entendido.
Não tive oportunidade de a ver, desde que se reuniu a nós,
mas disseram-me que, embora portuguesa, é de uma grande beleza.
A minha mulher nunca aparece em público, o que me entristece...
Nunca?
- Porquê, fez algum voto? - De certa forma.
E o que faz a pobre coitada, todas as noites sozinha no quarto?
Reza, minha senhora.
Todas as noites?!
Terá assim tanto pecado de que se redimir?
Penso que reza pelos pecados dos outros.
Que lhe faça muito bem.
Contaremos então só consigo.
Até logo.
Cá estás tu finalmente!
Onde te meteste, pobre imbecil?
A culpa não foi minha, minha senhora. Juro-lho, Deus me castigue se foi!
- Mandaram-me á outra ponta da cidade. - Mandaram-te? Quem?
Os soldados, minha senhora. Os ma- landros a quem perguntei o caminho.
Só para fazer pouco de mim!
E tu deste-lhes ouvidos, pobre palerma.
Os sujeitos tinham bom aspecto, não imaginei que fossem malvados.
Pronto, já chega!
Estás a retardar estes senhores.
Sim, pode retirar-se.
Vem ajudar-me a despir esta túnica satânica.
Deixa, faço-o eu.
Pega-se num belo naco de carne. Lombo, claro.
De preferência, inglês.
Quanto, Senhor Duque?
A sua cabeça, a sua cabeça! Por favor, não a mexa!
O quê? Quanto? Quanto o quê?
Quanta carne? Quantos quilos de carne?
Depende do raio do seu apetite! Das pessoas que vão comê-lo...
- Mas eu diria que um belo bocado. - As mãos...
Espalha-se a mostarda, como faz com a sua maldita tinta.
Mostarda inglesa, claro.
Barra-se muito bem a carne e embrulha-se numa fatia de fiambre.
A cabeça! Por favor, pode girá-la... só um pouco?
Muito obrigado.
Quanto aos cogumelos...
Cepes de Bordéus, finalmente laminados.
Depois pincela-se a massa folhada com ovo batido,
espalham-se os cogumelos cortados, tempera-se com sal e pimenta,
enrola-se o lombo na massa e mete-se no forno. E tudo.
E é a isso que chamam "Beef Wellington"?
É a isso que chamam "Beef Wellington".
Penso que é tudo por hoje. Vejamos o que já fez...
Mas que queixo pavoroso é este?!
O meu nariz! Que pontiagudo!
Acha que tenho o nariz torto? Claro que não!
Vá lá, corrija lá isso. Endireite-mo!
Muito bem...
Claro que não está inteiramente mau, Monsieur Levêque.
Acho-lhe uma certa parecença com a minha Tia Abigail.
Mas tentemos resolver o raio do nariz.
É bastante urgente.
Até amanhã.
Sentir-se-ia lisonjeado ou ofendido, no meu lugar?
Refere-se ao nariz?
Claro que não! À carne!
Ficava ofendido ou lisonjeado
se dessem o seu nome a um pedaço de carne em massa folhada?
Penso que ficaria lisonjeado. Afinal de contas, é um prato delicioso.
Realmente é.
Devia ter enviado a receita ao Masséna.
Ele devia estar a apertar o cinto, dadas as circunstâncias.
Pobre desgraçado. Devia tê-lo convidado para jantar.
Talvez o faça ainda, mais tarde,
se ele, entretanto, não partir os dentes numa das minhas linhas...!
Vá, rápido!
Malta! Venham cá!
Venham cá ver!
Não te mexas!
Viste o teu filho? Não resistas.
Porque resistes?
Atenção, os ingleses!
- Como vai isso, querida? - Espera!
Não tenhas medo, minha linda!
Eu não quero fazer-te mal.
Peter! Já chega! Não te afastes mais!
O que se passa com ele?
Está doente!
Está a sofrer!
Vai morrer, percebe?
Deviam...
- O que aconteceu? - Nada.
Despacha-te. Já perdemos demasiado tempo.
Atenção! Lá em baixo!
Os franceses!
Quantos serão?
Sei lá! Mais que as putas das mães...
Estão mais mortos que vivos.
Para onde nos levam estes saloios?
- Sem eles, perdemo-nos nesta merda! - Não vês que já estamos perdidos?!
Merda, que porra é esta?
- Que chacina! - É mesmo!
Foram os estupores dos franceses! Não devem andar longe...
Que bela puta...
Bonita rapariga.
Monsieur Lévêque, temos de partir ao amanhecer!
Então arruma tudo!
Como está ele?
Está muito fraco.
Dê-me licença, Sr. Dr.
Não se mexa...
Não está em estado de se levantar, tem de manter a calma.
Não tente o Diabo!
Beba uma gotinha de água...
O que se passa? Onde estou?
Em Torres Vedras. No Hospital da Misericórdia, meu filho.
O Dr. Murphy tirou a bala que lhe estava alojada na cabeça, graças a Deus!
Estávamos com medo...
Mas agora vai ficar como novo!
Há quanto tempo estou aqui?
Há uma semana. Fui eu quem cuidou de si.
Fartou-se de falar, estava delirante.
Deus me perdoe!
Julgamos que ia enlouquecer.
Mas rezamos tanto, que o Senhor ouviu as nossas preces.
Mas quem...? Como cheguei aqui?
Foi trazido por um homem demoníaco.
Um tipo malvado.
Muito grosseiro, com maneiras pavorosas.
Não quis dar o nome e depois desapareceu.
Mas deixou-lhe um recado.
Finalmente acordou! Já não era sem tempo!
Devagar, Miss Warren, não o canse.
Nunca imaginei vir a ver-lhe a cor dos olhos!
São lindos!
Já está a ficar cansado, vê?
A sério, são mesmo maravilhosos!
- Como se sente? - Cuidado, ainda o magoa!
- Tem muitas dores? - De maneira nenhuma! Sinto-me...
bem.
Não está tão bem como pensa.
Chamam-na, Irmã Cordélia. Não está a ouvir?
Sim, obrigada, Miss Warren.
Não fale muito tempo com ele, ele não está em condições.
Vou-me embora, mas já volto. Não se preocupe, Tenente.
O meu pai também cá está. Chamo-me Clarissa.
Fui eu quem lhe mudou o penso todos os dias, desde a operação!
Eu sei.
O homem que o trouxe disse-lhes o seu nome!
Dom Pedro...!
Basta que me chame Pedro.
Este é o meu irmão, Peter.
Olá, muito prazer.
Igualmente, Peter. Temos o mesmo nome.
Pois temos!
O Dr. Murphy deu-me a bala que Ihe tirou da cabeça.
Quer ficar com ela?
- Se quiser, pode ficar com ela. - Obrigado!
Que oferta maravilhosa!
Pronto, Peter, temos de ir.
Vamos deixá-lo descansar.
Caso contrário, a Irmã Cordélia dá cabo de mim!
Mas voltarei logo á tarde para lhe mudar o penso.
E para ver se esses seus olhos maravilhosos não mudaram de cor!
Vamos, Peter!
Quatro, dois, três, zero...
Sargento!
Inclino-me a usar o segundo batalhão porque esta muito mais protegido.
No entanto, pode pôr alguns homens no primeiro, não vá o Diabo tecê-las.
- Sim? - Meu Major!
Galinha.
Casamento.
Não posso, Francisco.
Lamento, mas não posso mesmo.
Não posso casar.
Porquê?
Filho.
Compreende?
Casamento!
É filho do Percy.
É filho dele.
Quero que nasça na Irlanda.
Quero que nasça na terra do pai.
Onde estamos, Tia Flora?
Parece a estação das diligências!
Que fazem aqui todas estas mulheres?
Acho que devíamos voltar a casa.
Tenho muito sono.
E a minha mãe já deve estar a ficar preocupada.
Não, eu avisei-a, não preocupe.
Já não me trata por tu? Está zangada comigo, Tia Flora?
Não, não estou zangada.
Espera-me aqui.
Vou ali falar com uma amiga e já volto.
Prefiro ir consigo.
Obedece! Faz o que te digo!
Espera-me aqui.
Não sejas teimosa. Eu já volto.
- Irmã? - Sim?
Trouxe-lhe aquela mulher ali.
Encontrei-a na rua, andava a vaguear há três dias.
Parece confusa e não diz coisa com coisa.
Julga que sou a tia dela, coitadinha.
Chama-me Flora.
Já me chamaram pior...
Ela parece ter sido...
abusada pelos franceses.
Abusada? Abusada, como?
Usaram-na como... como se ela fosse mais nova.
Entende?
Sim.
Parece ter sido por isso que enlouqueceu.
- Na idade dela, coitadinha... - É terrível!
Já nem respeitam os velhos.
Com tanta galdéria que por aí há!
Desculpe, perdoe-me, Irmã.
Desgraçada da mulher...
Sabe como se chama?
Ela diz que se chama Filipa,
mas como me chama Flora e eu me chamo Martírio, quem sabe...?
Menina.
- Menina? - Sim!
Menina Filipa.
Claro! Miss Filipa. A minha sobrinha, Filipa.
Claro! Miss Filipa.
Bem-vinda, Miss Filipa.
Este é o colégio novo, não é, Irmã?
Já percebi...
É isso mesmo.
- É a escola nova, não é, Irmã? - Sim, claro!
É o colégio novo.
Reconheci duas ou três raparigas.
Estavam o ano passado nas Filhas da Caridade.
Só me apercebi depois.
A minha mãe tinha-me dito...
que este ano eu ia ficar em casa.
Diga-lhe que não estou zangada com ela, Tia Flora.
Veja!
Aqui tem a sua caminha, o seu quartinho...!
- Esta é a minha caminha? - É, sim!
Gosta?
Sente-se.
Bom...
Vou andando.
Tenho de voltar aos meus afazeres.
Deixo-te aqui com a Irmã e...
vou andando.
Não me dá um beijo, Tia Flora?
Um beijo... Claro que sim. Claro que te dou!
la dar-to!
Tenho tanto medo de não voltar a vê-la...
A mim?
Não...
A Filipa.
À outra.
Que disparate...
Não diga isso... que desato a chorar também.
Fique em paz, meu filho.
O seu menino já está com Deus.
Os arredores de Lisboa estavam cobertos de fortificações
que os ingleses tinham erigido no último ano e meio,
na maior das discrições.
O Marechal Masséna, que se preparava há seis meses para invadir Portugal,
ignorava a existência de todas essas gigantescas construções.
Barão de Marbot!
É o Wellington?
É o Wellington.
Depressa percebemos que o entrincheiramento inglês
formava ao redor de Lisboa um imenso arco,
numa extensão de 15 léguas portuguesas,
equivalentes aproximadamente ás 15 léguas francesas.
A primeira...
A nossa localização.
A segunda...
e a terceira, para proteger as embarcações.
- Então estas é que são as "Linhas"! - Exactamente.
E os franceses? O que irão eles fazer? Atacar?
Não sei.
Só lhes resta atacar ou recuar.
Tanto quanto sabemos, aguardam reforços.
Mas sem mantimentos, não podem esperar muito tempo.
A cada dia que passa,
aumenta o número de desertores que alcançam as nossas linhas.
O Marechal Masséna arrisca-se a dar por ele sozinho...
Gostaria muito de ficar a ver o que acontece.
Lamento não poder esperar.
Eu também lamento.
E lamento não poder convidá-la a jantar, como me convidou a mim.
É melhor não voltar a correr esse risco, Major.
Jonathan.
E asseguro-lhe que não há qualquer risco.
Tarde demais.
Está então decidida a regressar a Inglaterra?
É a saúde do meu pai que o impõe.
O Dr. Murphy acha que ele está em condições de fazer a viagem.
- É uma sorte ele poder acompanhar-nos. - Certamente!
Ele é um médico muito talentoso, sabia?
Estou certo que sim.
Um homem "delicioso".
Ele parece...
Parece poder dar um excelente marido para alguém com tanta pressa de casar.
Quem sabe, Jonathan?
É uma viagem longa e as noites no mar podem ser frescas...
Compreendo...
pensais que qualquer outra aliança envergonhará os Césares"
"autores do meu nascimento?"
"Não, Senhora,"
"o esposo de que vos falo pode sem vergonha juntar os vossos avós aos seus;"
"podeis, sem corar, ceder ao seu ardor. "
"E quem é então, Senhor, esse esposo?"
- "Eu, Senhora. " - "Vós?"
"Citar-vos-ia, Senhora, um outro nome,"
"se dispusesse de outro qualquer acima do de Nero. "
"Sim, para vos propor uma escolha que vós pudésseis aceitar,"
"percorri com os olhos a corte, Roma e o Império... "
Sargento?
Está aí, Sargento?
Viva o Imperador!
A criança não pode morrer.
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