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Em 1932, acreditava-se que a alta mortalidade
e incidência de doenças entre os afro-americanos eram prova de que
eles eram "biologicamente inferiores" aos brancos.
Também se dizia que os médicos e enfermeiros negros
eram menos capazes que os brancos.
O governo, temendo que as doenças dos negros
passassem para os brancos
decidiu criar vários programas "para negros".
O mais ambicioso deles foi o de Macon County, Alabama.
Ele ficou conhecido como "O Estudo Tuskegee".
"COBAIAS"
"Juro solenemente diante de Deus...
viver na pureza, praticar minha profissão fielmente...
COMISSÃO DE SAÚDE DO SENADO
assistir com lealdade o médico em seu trabalho...
e devotar-me ao bem-estar dos pacientes a mim confiados".
É o juramento que fiz, senador. Como os médicos, fiz juramento.
Entenda, ser enfermeira era minha vida.
Entendemos e respeitamos isso, Srta. Evers.
E agradecemos muito por ter vindo depor hoje.
Espero que a senhora entenda que o único fim desta comissão...
é descobrir a verdade sobre o programa de saúde pública...
comumente chamado de "Estudo Tuskegee".
-É o que todos queremos, senhor. -Ótimo.
Segundo sei, a senhora trabalhou no programa desde o início.
Desde o começo, em 1932...
até eu me aposentar, há alguns anos.
Quase quarenta anos.
Estou há menos tempo no Senado!
Diga-me, Srta. Evers, o que a senhora acha do estudo?
Nossos pacientes tiveram os melhores cuidados de suas vidas.
Mas, de acordo com os depoimentos ouvidos até agora...
em alguns aspectos, esse estudo parece uma experiência nazista.
Em Nuremberg, determinou-se que testes feitos...
Fizemos o melhor que pudemos. A sífilis era uma epidemia então.
A vida sempre foi difícil em Macon County, e piorou na Depressão.
O senhor nem imagina como eram as coisas lá.
Ouvimos muitos depoimentos, Srta. Evers.
De alguns pacientes, de outras enfermeiras...
e do seu supervisor, o Dr. Brodus.
O Dr. Brodus é um médico excelente e humano, senador.
Não me importa o que dizem dele agora.
Sinto-me honrada em tê-lo assistido.
HOSPITAL TUSKEGEE Macon County, Alabama, 1932
-Vamos deixá-lo morrer asfixiado? -O que sugere, enfermeira?
Já tentamos com digitálicos, diuréticos...
talvez eu deva abri-lo e drenar o líquido!
Desculpe, não queria descarregar em você.
Foi um acidente numa fazenda, não?
Sim. Ele estava arando, a mula fugiu e o escoiceou.
Esmagou o peito dele. O coração não funciona.
Será que tem fluido no pericárdio?
Terei de avisar os pais. Por que se meteu com uma mula, garoto?!
-Vou trocar a roupa de cama. -Não, espere. Afaste-se dele.
-Por quê? -Traga uma seringa...
com uma agulha bem grossa. Já!
Não falei de abri-lo e drenar o líquido? Talvez eu tivesse razão.
Não vou machucar você, filho. Só quero examinar o seu peito.
Trate de segurar a mão da enfermeira Evers...
-...e aperte-a bastante! -Sem medo de me machucar.
Não é sempre que se pode pegar na mão de uma moça bonita.
-Não vou machucar você. Vou? -Não, doutor.
-Isso, fique assim. Confie nele. -Vamos curar você.
Ele vai por você de pé rapidinho.
É verdade. E nunca mais mexa com aquela mula.
Como é mesmo o nome dela?
Aleluia!
Que médico excelente.
Esse Dr. Brodus é branco ou de cor?
Já falei que não há médicos brancos em Tuskegee, papai!
Pelo jeito que você rasga a seda...
Não estou rasgando a seda, só sendo justa! Ele salvou uma vida!
É a obrigação dele! Ele é médico!
Até parece que todos fazem suas obrigações!
-Você gosta de salvar gente. -Não fui eu, foi o Dr. Brodus.
Eu só cumpri a minha função.
Não diga "só cumpri". Você é uma enfermeira!
É mais do que uma profissão, portanto...
-...não a minimize! -Não minimizei!
Ou quer acabar limpando banheiros de brancos...
como sua mãe teve de fazer a vida toda?
Já passei por isso. O assado sai em dez minutos.
Não nos matamos para que você estudasse para vê-la nessa vida!
-Não, papai, eu sei que não. -Tudo bem, então.
Tudo bem, então.
INCIDÊNCIA DE SÍFILIS
-Entre! -Sim, doutor?
Ainda tem licença para dirigir o carro oficial do hospital?
-Quero lhe dar uma nova função. -Onde quer que eu vá?
Vamos nos apressar, precisamos ir buscar alguém importante.
PESSOAS DE COR
SOMENTE BRANCOS
Dr. Douglas! Lamento o atraso.
-Fez boa viagem? -Fiz.
Bem-vindo a Tuskegee.
-Como vai? -Bem, é um prazer revê-lo.
-Digo o mesmo. -Tem malas?
Deixe-me ajudá-lo.
Fui descortês! Dr. Douglas, a enfermeira Evers.
-Prazer. -Sim, senhor.
Como verá, a enfermeira Evers vai ajudá-lo imensamente.
Precisamos de toda a ajuda possível.
Por sorte, uma fundação em Chicago está nos patrocinando.
Todos sabem a praga que a sífilis se tornou...
e nós queremos aniquilá-la.
Mas este programa é só para os negros daqui.
Por isso Tuskegee foi escolhido.
É um dos poucos hospitais só para negros do Sul...
numa região com 80% de negros. Vocês podem não saber...
mas sua gente tem uma das mais altas incidências de sífilis.
Ela é de quase 35%.
Sabemos disso. Atendemos casos que os hospitais brancos recusam.
Os negros também têm mais pelagra, pneumonia e tuberculose...
mas não há provas de que a sífilis seja um mal dos negros...
assim como ela não era um mal francês ou russo no passado.
Não me entenda mal.
Não sou dos que acham que os negros são mais suscetíveis...
Bem, eu votei em Roosevelt.
Primeiro temos de fazer o teste de Wassermann em todos. Eu levo.
-Só isso já é uma enorme tarefa. -Mas trará grandes benefícios.
Não pretende dizer a eles que têm sífilis, certo?
Se eles tiverem, precisaremos dizer algo, não?
Talvez seja melhor não usar uma palavra desconhecida.
Isso os espantaria, doutor.
Então o que diremos?
Diga que têm um problema no sangue, não precisa especificar.
-Todos sabem do "sangue ruim". -Ela tem razão.
É assim que se referem a qualquer doença.
O importante é que entendam que só queremos curá-los.
E queremos mesmo. Eu quero, você quer e o governo também.
Não descansaremos até achar uma cura para o mal.
Estão fazendo isso pelos negros? Deve ser alguma armadilha.
-Não veja tudo pelo lado negativo. -Sempre existe esse lado!
Serão curados de um mal grave. Nunca tiveram nada melhor...
portanto não seja irônica, Betty Parsons.
Assuma meu lugar e trate de mostrar serviço!
Fique de olho no Sr. Blakey...
porque ele esconde os comprimidos sob a língua.
Controle a febre do novo paciente a cada duas horas...
e não o deixe engasgar.
Quantos conselhos estou dando! Venha cá.
Você vai fazer tudo direitinho.
Mas não vá ficar cheia de ideias.
-Ouça sempre os médicos. Certo? -Certo.
Ficou bem com o novo uniforme, Eunice. Parece que nasceu usando.
-Vai ser algo grandioso. -Boa sorte!
Até mais!
E foi algo grandioso. O governo nunca fizera algo igual por nós.
Era o raiar de um novo dia...
e eles me escolheram para divulgar a mensagem.
"Eu fui enviada... eu fui enviada...
Fui enviada pelo governo dos EUA." Fui, sim.
Lá de Washington.
E o governo vai mandar os melhores remédios para nós.
Já viram coisa parecida?
Vamos ter uma coisa boa, pra variar!
Desta vez, todos vamos tomar parte em algo novo.
Nem imaginam a saúde que vamos ter aqui em Macon County.
Venham me ver. Vocês me verão lá, não se preocupem.
Você vai me ver, irmã?
Vai levar essa gracinha junto?
Vai ver a enfermeira Evers? Vai, sim.
O governo acha, Sr. Kirk...
que alguns homens seus podem estar doentes sem saber.
Eles se sentem mal com muita frequência.
Isso não é bom para a sua plantação.
Um homem doente colhe bem menos algodão do que um sadio.
Nós vamos tratá-los e, além de ajudá-los, ajudaremos o senhor.
Eu também quero isso, trabalho pela comunidade toda.
Sim, senhora! Mesmo quem não tem onde cair morto...
quem nunca foi a um médico, se estiver com "sangue ruim"...
vai ser tratado de graça! Não é demais?
Não é assim que o governo deve agir?
E para os de cor? É uma coisa completamente nova.
Agora, quem vai me ver?
Levantem as mãos! Quem vai me ver?
-Bom dia! -Bom dia, senhora.
Não trouxeram os amigos? Estou feliz em vê-los.
Sou a Srta. Evers. O que está acontecendo?
Manda ver!
O que vem agora? Estou esperando!
Muito bom, muito bom.
Estava ótimo! Você parece ter nascido para dançar.
Sou a enfermeira Evers, vocês vieram para me ver.
Obrigada por ter vindo.
O Sr. Kirk praticamente nos obrigou.
-Mandou a senhora também? -Nenhum branco me mandou.
Foi um homem de cor importante, o Dr. Samuel J. Brodus...
de Tuskegee, para eu tratar vocês de graça.
-De graça, é? -Disse de graça?
Sim. Cuidados médicos gratuitos e de primeira qualidade.
-Só que não estamos doentes. -Isso.
Já viu algum doente dançar deste jeito?
Dança muito bem, mas não quer dizer que não tem "sangue ruim".
-Como sabe que temos? -Isso é o que vamos descobrir.
Sentei-me aqui há muito tempo.
Foi aqui que estudou?
Eu sentava bem perto da Srta. Teeters. Olhe.
Ela não gostava disso, mas todo mundo fazia.
Era só não ser pego em flagrante.
-Qual o seu nome, senhor? -Espere aí.
Por que o governo quer nos ajudar agora?
Vão precisar de nós numa guerra?
O governo tem uma nova visão, uma visão mais populista...
e isso vem direto do presidente Roosevelt.
Não tenho medo de dar meu nome.
É Willie Johnson.
-Willie... -W-I-L-L-E Johnson...
Hodman.
Hodman Bryan.
Bem, meu nome é Ben. Big Ben Washington.
Nós quatro somos um grupo.
Os futuros ganhadores do concurso de dança "gillee".
Isso mesmo!
Mas não é porque falei meu nome...
que vou voltar pra fazer um tratamento.
Acabo de ter uma ideia.
Posso fazer o governo levar vocês pro concurso.
-Como? -Eu levo vocês no carro oficial.
Depois que vocês passarem pelo teste e pelo almoço quente grátis.
Almoço? Legal!
-Almoço grátis? -Vamos engordar vocês pro abate.
Enganei vocês!
-Ela enganou você! -Fiquei com medo.
Disseram que era um grupo de quatro. E o quarto?
Ele não quis vir.
Acha que nada que o Sr. Kirk diz é bom pros negros.
-Ele trabalha para o Sr. Kirk? -Não, não trabalha.
Caleb trabalha só pra si mesmo.
Mas quem me mandou não foi o Sr. Kirk, foi o governo.
-Caleb... -Humphries.
Ele sentava atrás de mim.
Está brincando!
Não vou esquecer aquele garoto enquanto viver.
Ele me atormentava, puxava meu cabelo e o enfiava no tinteiro.
-Não tinha jeito! -É, parece o mesmo Caleb.
É ele mesmo!
-E não quer fazer o tratamento? -Caleb? Não.
Bem, há 20 anos quero dar uma lição naquele garoto.
Pronto. Não estamos quites, mas já é um começo.
Sou Eunice Evers. Não diga que não lembra.
Eunice Evers. Lembro, sim.
-Você era a espertinha. -Lembra do que fazia comigo?
-Você era menina. -Isso não é motivo.
Você deveria se envergonhar!
Com licença.
Venham cá.
Leve esta ração pra sua mãe. Corrina!
-Estou terminando! -Temos visitas.
Tem uma bela família.
São filhos do meu irmão. Só estou ajudando.
Por que não quer fazer o tratamento?
Não confio no governo.
Eu sou o governo nesse tratamento.
O que me diz? Confia em mim ou ainda quer puxar o meu cabelo?
As duas coisas.
Eles foram comigo, como os outros com os quais falei.
E os amigos deles também. Como vieram!
A pé, em caminhões da fazenda... todos vieram se tratar.
Precisavam muito de tratamento.
-Bom dia. -Bom dia.
Meu Deus, são tantos! Eu não fazia ideia.
Bem-vindo a Macon County.
Vamos formar outra fila, há muitos que precisam de cuidados.
Por favor, todos os que estão deste lado...
entrem aqui e formem duas filas.
-Bom dia. -Bom dia.
E seu filho, continua tossindo?
Aquele remédio que a senhora deu funcionou bem.
Todos em Macon County serão saudáveis, você vai ver.
O próximo grupo!
-Caleb. -Madame.
Vejo que vai se vingar por eu ter puxado o seu cabelo.
Não vou me contentar com tão pouco.
Está tudo bem. Tudo bem?
Segure. Hodman.
Não quero dar meu sangue para...tenho esposa...
-Ainda sou jovem, tenho deveres! -Deveres?
Com minha mulher, sabe? Deveres conjugais!
Não pode tirar meu sangue!
-Conhece Fred Milson, de Almer? -Trabalha na serraria!
Ele tem 7 filhos, o oitavo a caminho. Doa sangue há 6 anos...
e cumpre seus deveres direitinho.
Espero que esteja certa, porque...
-Eu não mentiria pra você. -Pode sair um instante?
Doutor, eu gostaria de falar com eles.
Pode falar.
Cavalheiros, parecem estar confusos.
Vou explicar o que estamos verificando.
Existe um germe que infecta a área genital...
resultando numa temporária, indolor, porém muito contagiosa...
ulceração peniana.
Ela desaparece quando a doença fica não-contagiosa, ou latente.
Essa latência pode durar até 30 anos...
até que os sistemas cardiovascular e nervoso...
se desintegram e param de funcionar.
Alguma pergunta?
-Doutor, posso falar uma coisa? -Claro.
Aprontando demais, ou talvez das suas mães ou pais...
vocês podem ficar com uma ferida nas partes.
Aí um bicho entra em vocês e dorme por uns 20 ou 30 anos...
pra não machucar ninguém a não ser vocês .
Aí ele acorda, e vocês não podem mais andar, respirar ou pensar.
Isso é o "sangue ruim". Estamos vendo quem tem pra poder tratar.
Faz sentindo.
Já acabou. Willie.
Posso falar com você um instante?
Sim, doutor?
Obrigado.
Sou um bom médico, mas não sei se sou bom com as pessoas.
Dr. Douglas, se está ajudando as pessoas, é bom com elas.
Boa tarde, Eunice.
Vejo que trabalhou muito.
O mundo está cheio de doença.
-Não costumo pedir favores... -Nem me ver, mas aqui estamos.
Podia me arranjar um livro que falasse dessa doença?
Os médicos podem explicar tudo.
Eu sei, mas prefiro ler a respeito sozinho.
Os livros são muito técnicos.
Acha que não vou entender.
Vou procurar na biblioteca.
Caleb, por que largou a escola?
Você era o mais inteligente. Eu era só mais arrojada.
Você bombardeava a Srta. Teeters com perguntas, e um dia sumiu.
Agradeço se puder arranjar o livro.
CONCURSO DE DANÇA "GILLEE"
PRIMEIRO PRÊMIO: UMA VITROLA
-Os caras são bons. -Não tão bons quanto você.
Não sei. Viu como o cara fez a parada de mão?
Você faz aquilo até dormindo, Willie!
-Só que agora estou acordado. -Vai lá, Willie Johnson!
Pense positivo, Willie. Nós vamos ganhar.
-Sim, somos os melhores! -Sem dúvida.
Disse o novo nome pro apresentador?
Claro que sim! Aquele nome vai nos dar muita sorte!
-Nomes não são talismãs. -Você lá entende disso?
-Eu não me meto com eles. -Escutem, escutem!
De Macon County, um grupo do qual ouvimos falar muito bem!
"Miss Evers' Boys"!
-Vamos, Willie! -Manda ver!
Mostre a eles!
É isso aí!
Vamos levar!
Olhei Caleb e lá estava você... o que foi aquilo?
-Quando eu pulei? -Sim!
-Foi o "Jack sprint"! -Chamou a atenção de todos.
-Chamou, sim. -Chamou a minha.
Nem acredito que ganhamos a vitrola.
-Nunca ganhei nada antes. -Nem eu.
-Foi uma noite e tanto. -Se foi.
-A primeira de muitas, Willie. -Tem razão.
Daqui até o Cotton Club, no Harlem, em Nova York.
-Escuta o que estou dizendo. -Willie quer voar alto.
Qual o problema? Você não quer?
Ora, Srta. Evers, Caleb não contaria se quisesse.
-Ele não conta nada nem pra mãe! -Ela acaba descobrindo.
-Essa foi boa. -Parem com isso, vocês.
Nossas casas ficam ali, Srta. Evers.
Quero ver a cara do pessoal.
Vamos lá, gente.
Pronto. Segure, não derrube!
Querem saber? Da próxima vez, vamos gravar um disco!
-Isso mesmo. -Gostei!
Maisie! Vem ver uma coisa!
Hodman, Ben, Willie!
-"Miss Evers' Boys"! -Somos nós.
Quero que saibam que dando meu nome ao grupo...
Sabíamos que iria dar sorte.
Nunca me senti tão honrada. Muito obrigada.
É a primeira de muitas.
Boa noite! Até mais, Caleb!
Até mais Srta. Evers.
A platéia adorou vocês.
Willie é muito bom! Poderia mesmo dançar no Cotton Club.
-Sabe o livro que me arranjou? -Sim.
Já tive sífilis. O teste foi pra saber se ainda tenho, não?
O teste de Wassermann?
Ele diz se a pessoa tem ou não tem.
-Isso mesmo. -Eu tenho ou não tenho?
-Caleb, os médicos... -Estou perguntando a você.
Sim, você tem.
E o resto deles também. Hodman, Ben, Willie...
a maioria dos que se apresentou.
Mas a sífilis é tratável. Há o guaiaco, aplicações de mercúrio...
Isso cura?
Bem, não cura 100%.
E há efeitos colaterais, mas é uma chance.
De que tamanho?
Vocês estão ótimos, Caleb, e nós vamos deixá-los melhores ainda.
Há muitos outros prêmios esperando.
Mas não vai contar a eles o que têm, vai?
Só sabem que é "sangue ruim". Não queremos assustá-los.
Se tenho o direito de saber, eles também têm.
Abri uma exceção para você.
Foi antiprofissional, mas já está feito.
-Não quero assustar os outros! -Não são crianças, são negros!
Os médicos sabem o que estão fazendo, eles decidiram!
-Concorda com isso? -Claro que sim!
Sim! Por que está sempre me provocando?
-Você não mudou nada! -Tudo bem, vou ficar calado!
Você também não mudou.
Esfreguem com mais força, com toda a força!
Mais força! Esfreguem o mercúrio até os músculos gritarem!
-Por favor! -Nem deu pra ouvir.
Por favor!
É o "por favor" mais fraco que eu já ouvi!
-Por favor! -Melhorou!
Esfreguem com força, que o "sangue ruim" vira sangue quente!
Aposto que nunca viu passos de dança assim!
Na verdade, já vi algo parecido.
-Onde? -No Harlem. No Cotton Club.
Está mentindo! Nunca entrou no Cotton Club!
Não estou mentindo.
-Certo. Quem você viu dançar? -Bem, vi Buck & Bubbles...
-...e...Snake Lips... -Snake Hips Tucker?
Sim, Snake Hips Tucker.
Você viu Ruby Blue?
-Acho que não. -Ele acha que não!
Se tivesse visto, não ia achar, ia ter certeza!
Cara, ele sapateia, pula...
Ele é o melhor!
Acho que preciso voltar lá e vê-lo.
Aposto que vai... Ei, Srta. Evers!
Sabe o que esse cara disse? Que esteve no Cotton Club!
Ele não podia ser ignorante a vida toda.
-Ora, quem diria. -Não menti. Estive lá mesmo.
Caleb, não sei de mais nenhum livro.
Não preciso de outros.
Você não...
sairia com alguém que tem esse mal?
-Quer dizer, sair... -Ir ao cinema, jantar...
algo assim. Você não faria isso, faria?
-Não, não sairia com alguém... -Foi o que pensei. Certo.
Eu sairia com você.
Não quero você saindo com um lavrador!
-Você tem profissão, é enfermeira! -Bom, nenhum médico me convida...
nem advogado, nem papa-defunto!
E ele não é lavrador, é...mas por que estou me explicando?
Venho dizendo toda a vida que você precisa sonhar alto...
manter a dignidade desta família!
E ele sabe chegar na hora certa.
-Boa noite, Eunice. -Entre.
-Estou com a picape aí. -Ela não vai fugir!
Quero apresentar o meu pai.
Este é o Caleb Humphries. Caleb, o Sr. Evers.
Boa noite, senhor.
Como vai?
Ele sentava atrás de mim na escola e puxava o meu cabelo.
Já viu piores, não faça essa cara!
Tem certeza que este treco aguenta?
Quieta, ele não gosta de ser desrespeitado!
Achei que tinham música aqui.
Bem, eles vendem bebida e fazem todo o resto aos sábados.
Ótimo churrasco!
-O da minha mãe era melhor! -O de qualquer mãe é melhor.
Eu e meu irmão...
éramos encarregados de espalhar o molho.
O churrasco da mamãe era ótimo.
Eu sempre quis ter um irmão.
Ou irmã. Minha mãe não pôde ter mais filhos depois de mim.
Você só tinha um irmão?
Sim, ele...morreu.
Desculpe. É que, sabendo da doença, achei que...
Quer saber do que ele morreu? Não foi disso.
Ele não tinha doenças.
Foi acidente?
-Foi linchado. -Meu Deus!
Tinha boca grande, como eu.
Desculpe, não lembrei do sobrenome.
Não haveria por que, temos muito Humphries por aqui.
Desculpe, não quis estragar a noite. Sujou o vestido.
Deixe pra lá o vestido.
O engraçado é que eu ia partir quando aconteceu.
Para onde?
Qualquer lugar dos EUA. Seguir os trilhos.
Chicago. Conhecer o Norte, ou o Oeste, a Califórnia.
Acha que lá é diferente?
Igual não pode ser.
Às vezes, sonho com isso.
Ir para Nova York e ver tudo.
Não ter de descer da calçada para os brancos.
E por que não vai?
Adoro o que estou fazendo. O tratamento, o programa...
-...saber que estou fazendo o bem. -Para nós, pecadores.
A doença é o pecado, Caleb, não as pessoas.
-E você vai acabar com ela! -Deus ajude. Nossa...
-...não gostou do vestido. -Acho que não.
-Ele aguenta mesmo? -Sim, ele está ótimo.
Depois que meu irmão...
Bem, por isso saí da escola. Tive de trabalhar no lugar dele.
Você era criança! Podia estudar em casa, era tão inteligente.
Já tentou colher algodão de dia e estudar à noite? Eu tentei.
Adormecia sobre o caderno.
Nem todos são como John Henry.
Não precisa se reprimir.
Você está bem! Venha cá.
Sam, tenho más notícias.
O programa vai ser cancelado.
-Cancelado? -Acabou nosso dinheiro.
-E a fundação de Chicago? -Perdeu quase tudo na Quebra.
-Deram tudo o que podiam. -E o Serviço de Saúde?
O programa foi ideia deles!
"Acabar com a sífilis", como você disse!
Estamos tratando 1400 pacientes com 40 injeções anuais cada.
Existe doença demais para nosso orçamento.
A ideia era passar o programa para os Estados...
e os Estados não têm dinheiro.
Quem disse que Wall Street não afeta os pobres?
Estou dialogando com Washington. Queremos ver se salvamos algo.
Os dados que coletamos ano passado valem ouro!
Não me interessam os dados, só o tratamento.
Pense na importância deles para a sua raça, para a ciência!
-Estamos perdendo vidas, doutor! -Entendo isso.
Dê-me algum tempo.
Corte funcionários, tire dinheiro de outros setores, faça de tudo.
-Preciso de mais uns meses. -E depois, o que vou fazer?
-Eles precisam do tratamento! -Eu sei.
-Não pode interrompê-lo assim! -Não temos escolha.
-Eles confiam em nós! -Enfermeira...
você fez um trabalho maravilhoso, mas preciso tirá-la do programa.
Precisamos usar o dinheiro que temos no tratamento.
Estou fazendo cortes. Ou pago funcionários ou compro remédios.
-Entendo. Sim, é claro que... -Pode voltar à enfermaria.
-Betty Parsons... -Você teria preferência.
Não vou tomar o emprego dela. Não farei isso!
Espero e rezo para que isto seja temporário e você possa voltar.
-Logo. -Sei que o senhor faz o que pode.
Sr. Willians! Sei que o senhor nem me vê...
Seis meses se passaram e não se falou mais naquilo.
Havia cada vez menos tratamentos...
e em breve não haveria nenhum.
Tentei visitá-los quando podia, mas tive de arranjar emprego...
o único que achei, de empregada doméstica, como minha mãe.
Jantou?
Empanturrei-me com as sobras. Como essa gente desperdiça!
Daria pra alimentar a região toda.
-Como vão meus garotos? -Com saudades de você.
Também sinto.
O Dr. Douglas não quer que o Willie caia de joelhos dançando.
-Pode machucar os "cartuchos". -Quer dizer...
Eu sei, é "cartilagens", mas Willie entendeu "cartuchos"...
e agora acha que tem balas nos joelhos!
Parece que vão para Washington.
-Quem? Willie? -O Dr. Douglas e o Dr. Brodus.
-Para quê? -Não sei.
Douglas foi para lá semana passada. Brodus seguiu hoje.
Para Washington?
Sam. Como foi a viagem?
Primeiro o ônibus, depois o trem.
Não sei qual dos dois foi pior. Parece que o chão ainda se mexe.
Sei como é. O que achou de Washington?
Grandiosa.
Ficamos impressionados com seu trabalho em Tuskegee.
Davis, leve a mala do doutor.
-O seu programa foi exemplar. -Obrigado.
-Pena que o dinheiro acabou. -Pena, não. Uma vergonha.
Eu chamaria até de crime, mas há uma solução: um novo estudo.
Por isso o convocamos. Bem, e queríamos conhecê-lo, claro.
Quer uma bebida gelada, doutor? Fez uma longa viagem.
-Claro, obrigado. -Já ouviu falar do...
Experimento de Oslo?
Oslo? Não.
Uma clínica de lá publicou um estudo muito interessante.
Eles examinaram centenas de homens sifilíticos...
e conseguiram dados fascinantes! Por exemplo...
a proporção entre mortes por danos neurológicos e vasculares.
Fascinante. Sente-se, por favor.
Aqui está o estudo.
Veja por si mesmo. Tem um resumo em inglês.
Coca-cola, cerveja, laranjada, salsaparrilha?
Qualquer coisa.
Acredito, Dr. Brodus, que temos em Macon County...
-...uma oportunidade extraordinária. -Eles só estudaram brancos.
Acreditamos que os negros merecem ser estudados também.
Estudados? Precisamos de dinheiro para tratá-los.
Conseguiremos dinheiro. O governo federal vai pagar tudo.
Não para os 1400 pacientes que você vinha tratando...
mas poderemos estudar 400 sifilíticos...
e 200 não-contagiosos como grupo de controle...
sem depender de fontes externas.
-Pode ser cerveja? -Sim, obrigado.
Precisamos da sua ajuda.
Precisamos de Tuskegee.
-O senhor parece cético. -Não. Bem...
-...um pouco, talvez. -Sam, eles falam sério.
É importante saber se o negro reage à sífilis como o branco.
Suponhamos que a raça não importe...
e que os negros reajam à sífilis como os brancos.
Bem, gostaríamos de saber se é assim.
Afinal isto é ciência. Queremos a verdade.
Não importa a raça, credo ou cor.
Acabar com a doença. É isso que este departamento quer.
Para todas as pessoas, doutor. Todas!
Então querem repetir o estudo norueguês...
-...só que com homens negros. -Isso. Temos mais um...
Mas aqui diz que o estudo foi feito entre 1891 e 1910.
Naquela época não existia tratamento. Ninguém foi tratado.
Eles estudaram sifilíticos sem tratamento!
Sim, isso mesmo.
Sem tratamento?
Como poderíamos fazê-lo?
É o único meio de obter dados puros.
Não afetados por qualquer remédio.
Aí é que está a beleza!
"A beleza"! Sou um médico, meu Deus, e você também é!
O paciente vem em primeiro lugar!
Acha que não sei disso? Também estou dividido.
-Não podemos causar danos! -Não será para sempre.
Uns seis meses, e aí deixaremos que os resultados falem.
Este estudo entrará para a História!
Apagará séculos de ilusão sobre a relação entre doença e raça!
Se fizermos tudo direito, eles financiarão o tratamento!
-O governo financiará. -Acredita nisso?
É mais do que uma chance de manter vivo nosso projeto.
Pense nisso. O governo federal nos financiará!
Quando um programa federal começa, ninguém o cancela!
Você pode fazer de Tuskegee um centro de pesquisa...
e finalmente provar do que são capazes os médicos negros.
Pense em todo o bem que você poderia fazer.
Acabaram os remédios. Nossos pacientes já não têm tratamento.
O estudo é nossa única chance!
E os homens serão estudados como em Oslo?
Exatamente. Exames periódicos, radiografias, testes sanguíneos.
Testaremos até o líquido raquidiano deles.
Faremos os melhores exames, mas só assim o resultado será puro.
E como chamaremos o estudo?
Do que ele é. "Estudo da sífilis não tratada em homens negros."
"Estudo Tuskegee da sífilis não tratada em homens negros."
Certo.
Conseguiremos o tratamento, Sam. Você vai ver.
Conseguimos o dinheiro!
-Sabe que não pode correr aqui! -Tudo bem, Srta. Parsons.
Peça que mandem os resultados com urgência.
-Conseguiu o dinheiro? -Você voltará semana que vem.
Conseguiu mesmo que aqueles brancos...
O Dr. Douglas vai voltar. Esteja pronta para ajudá-lo em tudo.
Já nasci pronta pra isso.
Agora...
-...quanto ao programa. -Mal posso esperar.
-Vamos só estudá-los. -Já estudei bem essa gente.
Nós os estávamos tratando. Agora vamos só estudá-los.
-Nada de tratamento? -Não para a sífilis.
Por quê?
O estudo trará dinheiro para o tratamento.
Num prazo de seis meses a um ano.
-E o que vamos dizer a eles? -Nada.
Não entendo. Estávamos aplicando mercúrio neles...
-...e não vamos mais fazê-lo? -Continuaremos as aplicações...
mas usaremos linimento, não mercúrio. Eles não vão notar.
E com o dinheiro que recebermos...
daremos a eles aspirinas, tônico, vitaminas...
coisas que nunca tomaram antes.
Garanto que vão se sentir melhor.
Até que piorem.
Não me ouviu? Não é para sempre.
Só por seis meses?
Ou um ano.
-E então eles terão prioridade? -Prometo que sim.
Muito bem, jovem. Isto matará os germes que deixaram você mal.
Acredita em mim? É melhor acreditar, o médico sou eu.
-Não é, enfermeira? -Sim, doutor.
-O médico sabe, não é? -Sim, ele sabe.
-E se preocupa. -Sim.
Portanto, é melhor acreditar quando eu digo...
que tudo vai ficar bem. Certo, enfermeira?
Certo, doutor.
Por que está acordada a esta hora?
Lembra da oferta de Birmingham, o cargo de enfermeira-chefe?
Soube disso há um ano!
-Vou perguntar se ainda existe. -Por quê?
Já sabe que vai voltar a trabalhar aqui.
-Não sei se quero. -Não sabe se quer?
Qual o problema? O que houve?
No novo programa, não tratarão os homens...
por no mínimo seis meses. Só tratarão quando tiverem dinheiro.
-E daí? -Ele não vão tratá-los, papai!
Seis meses não é tanto tempo assim. Passam rapidinho.
Além disso, eles são médicos. Quer saber mais do que eles?
-Acho que é diferente! -É diferente, sim!
Você não limpará mais privadas. Já estava perdendo o orgulho.
Há coisas piores do que limpar privadas!
Eunice...
cada um de nós precisa carregar o seu fardo sob o sol.
Você tem o seu fardo. Eu tenho o meu.
Fazemos o que o Senhor nos permite fazer.
Vamos entrar.
Chegamos!
Caleb, sente-se aí com a Srta. Evers!
Vou pegar bebidas e volto já.
-Onde está a música? -Deve ser o intervalo dos músicos.
Vejo que está preocupada.
Você lê mentes, é?
Não é difícil de ler, está escrito na sua cara.
Estou pensando em partir.
Não quer saber por quê, para onde, nem quando?
Sei que vai me contar, se quiser.
Há um cargo de enfermeira-chefe em Birmingham.
Estou pensando em aceitá-lo. Será bom para a minha carreira.
O gato comeu sua língua? Você não é um tipo calado.
Já estávamos acostumados a ter você conosco.
Vocês se viraram muito bem sem mim.
Mas você estava por perto. Podíamos contar com você.
Sabíamos onde encontrá-la.
-Você não entende. -Entendo, sim...
mas há coisas que não dá pra continuar fazendo...
sem que a cabeça da gente não fique confusa.
Que coisas?
Os rapazes estão perdidos sem você.
Vejam só! O melhor uísque da região!
Se isto não curar o "sangue ruim", nada vai curar!
Um brinde a nós todos. "Miss Evers' Boys"!
"Gillee"!
"Gillee", maldição!
Mostra como se faz!
Vamos, Srta. Evers.
Vamos lá, Eunice! Você consegue!
Faça como eu.
Eu sabia que não conseguiria partir.
Naquela noite, vi que nunca partiria.
Nós reunimos 412 homens e recomeçamos.
Desta vez o governo nos deu todo o dinheiro necessário.
Vamos fazer testes sanguíneos para eliminar outras doenças.
Apenas os homens que só tiverem sífilis serão usados.
-Retiraremos líquido raquidiano... -Há um problema.
Se eles acharem que isso não é um tratamento, não virão.
Mas precisam vir. Temos de convencê-los de que nada mudou.
Alguma ideia?
Enfermeira, vai nos salvar mais esta vez?
Não sei se consigo.
Eu conto com você. Para que o programa seja um sucesso...
-...precisamos dar nosso melhor. -Injeções nas nádegas.
-O quê? -Diga que são injeções...
nas nádegas. Isso eles conhecem.
Assim acharão que é um tratamento.
Certo. Vamos dar "injeções nas nádegas".
Não se preocupe, Willie. A enfermeira Evers está aqui.
É muito importante...
ficar imóvel quando a agulha entrar no canal raquidiano.
-Entrar onde? -É uma parte das costas, calma.
Não se mexa, então...
para não afetar os nervos que vão para as pernas.
Não posso fazer isso! Preciso das pernas para dançar, Srta. Evers!
-Não posso fazer isso! -Por isso precisa ficar parado!
Vai levantar daí em dois minutos, vamos lá.
-Vai dar tudo certo. -É só não se mexer.
Vou ficar aqui com você. Relaxe.
-Só vou limpar a área. -Ouça essa música.
Como é doce! Deve ser Hodman.
Dr. Douglas, temos o melhor gaiteiro do Sul aqui conosco.
-Não diga! -É verdade.
Por que a agulha é tão grande? Nunca vi agulha dessa cor!
-É de ouro. Fique calmo. -Ouro de verdade?
-Ouro, sim. -Tudo do melhor para os negros.
Não se mexa, Willie.
Respire fundo agora.
É importante que você fique parado.
Pronto, terminamos.
Vejam só, ele se comportou!
Pode respirar, já acabou.
Você é corajoso, Willie. Um campeão.
Um campeão de verdade.
O próximo!
Acho que espantei todos.
Vai ter de capturar todos eles de novo.
Parece que sim.
Meu avô era escravo e foi enterrado assim.
Os escravos são livres, mas ainda são enterrados em sacos.
Como vamos trazê-los de volta?
Sei que eles têm medo e já enfrentaram dor demais na vida...
mas precisam ver que é para o bem deles.
-Se ousássemos dizer a verdade... -Nós tomamos uma decisão sábia.
Eles receberão tratamento...
mas antes precisamos trazê-los de volta! Como?
-Você sempre tem boas ideias. -Às vezes, não tenho!
-Dinheiro. -O que tem o dinheiro?
Dê dinheiro a eles. 50 dólares.
-Suborno? -Um seguro de vida.
Para que possam ser enterrados num caixão.
Sempre posso contar com você, não?
O dinheiro para o enterro trouxe todos de volta...menos Caleb.
Achei que ele fosse para o Norte, como tinha dito.
Tudo isto pertencia ao seu irmão?
Tinha escritura e tudo.
-Ainda está pensando em partir? -Não, não penso mais nisso.
-Precisa ficar para o tratamento. -Não pensei no tratamento.
É que sua família está aqui.
Não pensei na minha família.
Estou pensando em você e eu.
Caleb e Eunice.
-Gosto desse nome. Eunice. -Eu, não. Jamais gostei.
Termina com "nice".
Eunice. Eu..."nice".
Você e eu, Eunice. Muito bom.
Você disse que eu estava bem, que podia fazer isso.
E você está.
Não disse isso só para esconder algo de mim?
Não é você.
Não podemos continuar brincando como na escola.
Se não me quer, diga logo.
Quero você, Caleb. Sabe disso.
Mas estou num caminho diferente.
Podemos tomar o caminho juntos.
Não posso ficar com você com uma mentira no coração.
Que mentira?
Vamos lá. Conte que mentira é essa.
Não posso.
Não pode?
É só o que tem a dizer? Que não pode?
Vai se afastar de mim por algo que não pode contar?
Caleb, eu gosto de você.
Quando você gosta de alguém, você se abre com ele.
-Dê outro nome a isso. -Não sei que outro nome dar.
Parece que quer chamar de adeus.
-Lamento. -Lamenta?
Primeiro não pode, agora lamenta.
Lamenta porque não pode.
Duas palavras. Nós dois somos só isso para você? Duas palavras?
Não posso dizer mais nada.
Bem...
espero que seja melhor que aquilo a que você renunciou.
E os anos passaram.
Eles disseram que o tratamento começaria em seis meses...
mas os seis meses viraram um ano...
um ano se tornou dois, depois seis...
e nós continuávamos esperando.
E, durante todo esse tempo, a senhora guardou segredo?
Nunca contou a nenhum dos homens o que se fazia?
Eu queria contar, queria muito...
queria contar a eles que não estavam sendo tratados...
mas que deviam continuar para ter prioridade no tratamento!
Mas eles disseram que os homens não entenderiam...
e o programa os perderia para sempre. Não queríamos isso.
Por isso nós os esfregamos com linimento em vez de mercúrio...
demos a eles aspirinas, vitaminas...
e todo tipo de...
Antes que nos déssemos conta, dez anos passaram...
e eles continuavam sem tratamento.
Mas continuamos a estudá-los.
Mas não é verdade que, já em 1942...
a penicilina era considerada uma cura eficaz para a sífilis?
Não informaram isso a vocês?
Sabíamos disso, mas havia outras questões médicas.
Misture numa solução salina e injete.
Diga aos homens que dói. Na verdade, dói insuportavelmente...
portanto digamos a verdade. De vez em quando é bom.
Parece ouro!
Vale mais do que ouro. Salva vidas.
Quero usar nos casos de toxemia, depois nos de pneumonia...
E nossos homens?
Doutor?
Estamos estudando isso, mas a sífilis causa efeitos colaterais.
-Mas eles vão receber? -Pode diluir em água destilada...
mas prefiro a solução salina. Há um milhão de unidades em cada...
portanto teremos de estudar a dose para cada caso.
Com licença.
Onde está Caleb? Não apareceu mais na clínica!
Sabe como ele é, às vezes, dá suas escapadas...
-...mas já vai chegar. -Tomara, somos os próximos!
Rapaz!
-O que houve, Willie? -Minhas pernas!
O que houve com ele?
Rapaz! Desculpe, Srta. Evers, eu não queria gritar.
Quando sente dor, pode gritar.
De repente, minhas pernas pararam de funcionar!
-Willie, precisamos de você. -Estou com medo!
Tenho medo de ficar doente, Srta. Evers. Estou doente!
Não diga isso! Você é o nosso astro!
Se você ficar doente, estamos perdidos!
-Você está bem. -Acabou, acabou!
Não fique pensando assim. Vamos cuidar dessas pernas.
Escute, tome um litro de chá verde pela manhã e ficará bem!
-Vai voltar a pular feito perereca! -Ele precisa mudar de médico.
-Que fantasia é essa? -Não é fantasia, é um uniforme!
Você se alistou no Exército?
A guerra é tão minha quanto deles.
Quer saber como me aceitaram com "sangue ruim", enfermeira?
Tomei uma injeção de penicilina. Basta uma e o teste dá negativo.
O Exército adorou minha saúde.
-Você vai caçar jeito de morrer! -Pelo menos vou morrer por algo.
-Ele precisa de penicilina. -Ele está sendo bem tratado!
E agora, de Macon County, "Miss Evers' Boys"!
-Somos nós! -Ouviu, enfermeira?
Por que fala assim com ela? O que há com você?
É por causa do uniforme?
Nada vai me impedir de chegar ao Cotton Club!
-Caleb, você vem? -Estou aqui para isso.
Vou pegar meu baixo.
Tome cuidado.
-Tudo bem, tudo bem! -Vamos lá!
-Eles precisam de penicilina! -Temo que não seja possível.
Por que não? Quanto tempo terão de esperar?
O senhor me disse que teriam prioridade!
Foi uma promessa! Agora há um remédio que ajuda...
A penicilina não remedia os danos que o mal já fez.
-Mas pode evitar que piorem! -Também pode matá-los.
A penicilina?
Alguns sifilíticos crônicos sofrem uma reação alérgica fatal a ela.
É chamada de Reação Herxheimer. Isso foi provado.
Washington está estudando o grau de risco.
Ela está sendo administrada aqui. Caleb tomou e está ótimo!
Até entrou pra merda do Exército! Desculpem pelo linguajar.
Caleb teve sorte.
Sim, a penicilina é muito eficaz em casos primários, secundários...
mas para os nossos, que estão na fase terciária...
ela pode não curar e até matar.
Para esses homens, o estudo precisa ir até o fim.
-Já temos dez anos de dados! -Dez anos não é o fim.
Então o que é o fim?
Precisamos confirmar os fatos com a autópsia. Esse é o fim.
É o que diferencia a ciência da adivinhação.
Vamos esperar que eles morram?
A ciências, às vezes, exige sacrifícios, enfermeira.
Acha que gosto de não tratá-los? Não.
Mas precisamos concluir o estudo.
-Podemos entrar para a História. -A História?
Deixe que eu falo com ela.
Uma vez, quando eu fazia residência...
na minha cidade natal, no Norte...
precisei fazer duas autópsias ao mesmo tempo.
Dois jovens, um ao lado do outro, um branco e o outro de cor.
Atrapalhei-me com os corações e não sabia mais qual era de qual.
Lembro que fiquei segurando os corações por muito tempo...
examinando cada detalhe deles...
até que finalmente fechei os olhos...
pus um em cada corpo e os costurei. Simples assim.
Esqueça isso...
de "entrar para a História".
Pense que vamos mudar o modo em que as pessoas pensam...
afastando o ódio, afastando a ideia...da diferença.
Vamos mostrar, de uma vez por todas...
através da nobreza das provas científicas...
que, ironicamente, quando adoecemos, somos todos iguais.
Por que sinto que estou subindo a colina?
-Como assim? -Alguém diz...
"Está vendo aquela colina? É só subir."
Aí você sobe até o topo, e vê que há outra colina mais alta.
Aí dizem: 'Bem, ali é o topo".
Você sobe de novo e, quando chega ao topo, há outra colina.
Aí você pensa: "Já que cheguei até aqui, vou continuar".
Subir a colina é isso, Dr. Brodus.
-Você aceitou porque quis. -Achei que ia fazer o bem!
E está fazendo o bem. Nunca duvide disso.
Está fazendo o bem para aqueles homens e para a raça negra.
Por que não consigo olhar para eles sem chorar?
Todos queremos chorar, mas precisamos ser fortes e você é...
uma mulher forte.
E sei que você fará o que for chamada a fazer.
Venha, Willie.
Trouxe este homem para tomar uma injeção de penicilina.
-Nome? -Willie Johnson.
-Não posso ajudá-lo. -Por que não?
O nome está na lista.
-Que lista? -A do Estudo Tuskegee.
Não é permitido usar penicilina.
Por que não posso tomar? Caleb tomou.
-Vim aqui para... -Vamos para outro hospital.
Não adianta. Todos receberam a lista.
-Não vão me dar a injeção? -Não se preocupe...
nós iremos, e você vai tomar.
Nunca fiz nada a ninguém! Esse lugar...
Vamos para lá.
-Willie! O que você fez? -Não querem me dar penicilina!
Caleb vai me levar pra outro lugar.
-Disseram que estou na lista! -A injeção poderia matar você!
-Eu estou vivinho. -Teve sorte! Para ele é perigosa!
-Por que para mim não foi? -Você é diferente!
-Por quê? -Ninguém sabe...
mas não podemos arriscar. Escute, Willie...
seu coração podia ter explodido!
-Caleb não me disse nada. -Ele não sabe! Eu sei.
Volte com ela, Willie.
-Você disse que ia me levar pra... -Esqueça, volte com ela.
É para o seu bem.
Ela não iria deixar você tomar mesmo.
Eu sei, "os médicos sabem o que fazem". Sorte deles ter você.
-Preciso pegar um trem. -Não vá levar um tiro.
Nem sei se vou ver alguma arma. Willie!
Continue dançando, ouviu?
-Ele é um bom homem. -É, sim.
Vamos Srta. Evers.
Ben não está bem. Tem problemas nos olhos e nas pernas.
Agora só sobramos eu e Hodman no grupo.
Acha que vou chegar ao Cotton Club?
Vou comprar um chapéu novo e sentar lá na frente.
Está sendo sincera?
Vou continuar ajudando você. Não vou abandoná-lo.
Vamos superar isso juntos.
Andei pensando.
-Sabe como é no Cotton Club? -Não.
Não permitem gente de cor na plateia. Só no palco.
Bem, vou pegar uma cadeira e sentar no palco.
Ouvi dizer que Caleb fora enviado ao exterior...
mas muito tempo se passou sem notícias...
e comecei a achar que ele tinha sido morto.
Eu continuava me esforçando, mas os homens pioravam sempre.
A doença atacava seus corpos e suas mentes.
Hodman começou a achar que podia se curar sozinho.
Vamos fazer isso!
-Vamos fazer isso! -Hodman?
-O que faz aqui, Srta. Evers? -Procuro você.
Onde está a sua família?
Foram ficar com a minha mãe.
Dizem que não presto pra eles assim.
Precisa vir fazer o tratamento. Você e seus amigos.
Não! Tenho o meu próprio tratamento aqui.
Está vendo? É só queimar teias de aranha...
e olhar bem pra fumaça.
É bom pros olhos também.
Parece bom, mas acho que seria duas vezes mais eficaz...
se fizesse junto o nosso tratamento!
Eles trabalham juntos, dão força um ao outro.
-Acha mesmo? -Tenho certeza.
Duas vezes mais eficaz?
Vamos, venha comigo. Já fez bastante fumaça por hoje.
Hodman estava muito mal, mas Ben foi o primeiro a cair.
Olá, Ben.
Srta. Evers?
Não me diga que não reconhece sua velha amiga! Como vai?
Acho que estou morrendo...
porque todo mundo só anda na ponta dos pés por aqui.
Ainda não morreu. Você é duro na queda.
É que me sinto cansado o tempo todo.
Tenho uma coisa aqui que vai animá-lo. O governo mandou.
-Para mim? -Você e os outros homens.
É um certificado de agradecimento.
E uma nota de dez dólares!
Um dólar para cada ano em que esteve no programa.
Estão pagando a gente por ter "sangue ruim"?
Estão agradecendo pelo que vocês fizeram.
Não fiz nada, Srta. Evers, só fiquei doente.
Não pego tanto dinheiro assim na mão...
desde que recebemos os US$50 para o enterro.
Estou ficando cego também. Não é uma beleza?
Não pode fazer mais nada por mim, pode?
-Estamos tentando de tudo. -Sei que estão.
-Não passa um dia sem que... -Todos nós sabemos.
Afinal, não foram vocês que nos fizeram adoecer.
E fizeram tudo o que podiam para nos curar.
Não dá pra fazer mais do que isso.
-Você vai ficar bem! -Não, não vou.
Mas agradeço por pensar assim.
Espere até ver o caixão que o velho Ben escolheu!
Ele é vermelho, azul...
verde, amarelo...
é um espetáculo, Srta. Evers! Vai ficar orgulhosa!
Muito orgulhosa!
-O que está fazendo agora? -Não dá pra perceber?
Não sabe que horas são? Assim não consigo dormir!
Você sempre diz que não consegue dormir.
Mas esta noite eu tinha conseguido.
Se está fula com algo, não desconte na madeira!
-Vá atrás de quem a deixou fula! -Ben morreu, papai.
Hodman está ficando louco. Estou fula com o mundo.
Rachar lenha não adianta. Assim só vai me manter acordado!
Mas não posso fazer mais nada.
Se você acreditasse nisso, nunca teria se tornado enfermeira.
Vou tomar leite. Você quer?
Aqueça-o antes.
Olá, Hodman.
O que tem aí? Terebintina?
Vai tirar a tinta de algo?
Estou fazendo um remédio pra mim.
Ouvi dizer que terebintina é boa pra toupeiras. Tenho algo novo.
Penicilina.
Pra mim?
Pensei que não queria que a gente tomasse.
Bem, agora acho que você precisa dela, Hodman.
Por quê?
Anda vendo fantasmas. Não quero que veja mais.
Acha que eles não existem?
Acho que você precisa de penicilina.
Mas pode ter uma reação ruim.
Provavelmente não terá, mas precisa estar ciente.
Acha que devo tomar?
Desde que saiba o que está fazendo. Você sabe, Hodman?
-Entende o que eu digo? -Sim, sim.
-A tal reação é muito ruim? -Muito.
Mas vou ficar aqui. Se ela não vier em doze horas, não vem mais.
Certo. É só me dizer o que devo fazer.
Lua, lua nova!
Primeira vez que te vejo.
Não, não beba isso, é veneno!
Venha cá! Meu Deus!
-Remédio bom! -Não! Venha cá!
Os fantasmas sumiram!
O bebê voltou pra casa! Eu falei!
Vamos, Hodman!
De pé! Vamos, fique de pé!
Vamos, Hodman! Meu Deus!
Eles vão te ajudar!
Aguente firme!
Eu o matei.
Como eu previa. Ele morreu por ter engolido a terebintina.
Mas...
havia...
alguns outros elementos, consistentes...
com a Reação de Herxheimer.
-Que outros elementos? -Nada que prove definitivamente.
Mas a penicilina pode tê-lo matado.
Bem, não há provas conclusivas, só uma indicação.
Vou dar como causa oficial o auto-envenenamento.
Mas você sabe o que fez?
Poderia ir presa por ter roubado remédios.
Dando a ele a injeção, você violou o protocolo do estudo.
-Eu não pensei no estudo. -Mas eu preciso pensar!
Muita gente espera que fracassemos...
torce para fracassarmos, para continuar dizendo que negros...
são burros, incompetentes, imprestáveis, inferiores!
Mas vou esquecer o que você fez.
Ele estava demente, era só uma questão de tempo.
Você é a enfermeira deles!
Nós os estamos sacrificando por algo que nem posso revelar!
Sim, sim, por razões que eles nunca entenderão...
por razões maiores do que qualquer um deles...
pelo bem maior de toda a raça!
Não vou subir a próxima colina.
E para onde irá? Eles não nos deixam ir para as planícies.
Só existem colinas para nós, ou subimos ou ficamos embaixo!
É a única escolha que temos! Sabia disso ao entrar no programa.
Abandoná-lo é um privilégio seu, mas eles sentirão sua falta.
Eu fiquei. Não recuei.
Subi a próxima colina, e naturalmente havia outra maior.
E outra mais.
Veja bem, senador, eles ainda precisavam da minha ajuda.
Eu não podia salvá-los, mas havia coisas que podia fazer...
coisas que eu lhes devia.
Consolos simples, como saber que alguém os amava.
A guerra acabou, e nós continuamos a cuidar deles.
Mentíamos, sim, mas cuidávamos deles.
Conte a ela onde esteve, doutor!
-Sabe onde ele esteve? -Sei, no Norte.
Ele voltou ao Cotton Club.
Tive de ir a Nova York, então passei por lá para informar Willie.
Ele viu Ruby Blue.
Ele sapateou, pulou e dançou na escada!
Certo, doutor? Foi assim?
-Bem, mais ou menos. -Como assim?
O que ele fez de diferente?
Ele mexia os dois pés em ritmos diferentes...
ao mesmo tempo, mais ou menos assim.
Então era como duas pessoas dançando com as mesmas pernas?
Isso é legal. Isso é novo!
Eu podia tentar. Onde tem escadas por aqui?
Já sei. Com licença, doutor.
O senhor foi simpático, mas ele pode se machucar na escada.
Estou bem, doutor.
Você está bem?
Só preciso de tempo.
Só um pouco mais. Eu consigo.
Você precisa descansar. Venha.
Doutor, disse que ele estava dançando...
ritmos diferentes...
com as duas pernas ao mesmo tempo?
-Sim, você quase conseguiu. -Ora, sei que não consegui.
-Mas o senhor não dançou mal. -Ora!
Vamos ver como dá uns passos. Vamos lá!
Vamos!
Que tal?
É melhor médico do que dançarino.
O carro precisa de pneus novos.
-Estamos em guerra. -É, ouvi falar.
Vejo que ganhou umas medalhas.
Não são medalhas, só dizem por onde andei.
África, Sicília, na Itália.
Sabia que tem negros lá na África?
-Está brincando! -Não, tem mesmo.
-Você está bonita, Eunice. -Você também, Caleb.
Voltou para ficar, desta vez?
Não, os filhos de Corrina já conseguem se cuidar.
Voltou só para vê-los?
Voltei por sua causa.
Muita gente acha que a guerra é lutar, dar tiros, se movimentar...
mas na verdade é só ficar sentado, esperando.
-Pensei muito enquanto estava lá. -Dizem que é bom para a alma.
Pensei sobre nós. Agimos errado, e eu deixei você escapar.
-Não me deixou. Eu não quis. -Foi tudo um engano.
-Todos nos enganamos. -Eunice, pare de enrolar e escute.
Não quero cometer esse erro de novo.
Caleb, não nos vemos há cinco anos. Não tive notícias suas!
Voltei, isso é o que importa.
Tenho um emprego me esperando no Norte assim que tiver baixa.
Numa siderúrgica de Chicago.
Um cara do pelotão me pôs no sindicato.
Em Chicago há muitos hospitais, você poderá trabalhar.
-Poderíamos ter uma vida boa. -Espere um minuto!
Você sabe mesmo passar conversa numa garota!
Sinta aqui.
-Fiquei com palpitação. -Quer se sentar?
Não posso.
-Não pode o quê? Ainda diz isso? -Não posso partir.
Você podia ficar.
Não posso. Nem por você.
Minha vida aqui acabou. Preciso ir para onde há oportunidades.
Quero que você venha comigo.
Quanto tempo isso já dura? Dez, doze anos?
Você fez tudo o que podia. Ninguém fez mais do que você.
-Cuidou deles dia e noite! -O Programa não acabou.
O que mais você pode fazer?
-Ficar aqui com eles! -Para vê-los morrer?
Segurar a mão deles enquanto agonizam? Ir aos funerais?
Lembra do que disse? Eles estão perdidos sem mim.
Estão morrendo com você.
Não há mais "Miss Evers' Boys". Aquilo já acabou.
Nada prende você aqui!
-Você não sabe como é. -O que preciso saber?
Sei que quero você comigo...
e que você quer ficar comigo.
Sei disso há anos.
Fomos bobos de nos separarmos.
Por quê? Seu pai está olhando?
Ele só vai ver que a garotinha dele virou mulher.
O que você provou?
-Que você me quer. -Eu sempre quis você!
-Então vamos viver juntos no Norte. -Não posso...
-...estou em dívida com eles. -Já pagou. Não deve...
Nunca vou conseguir pagar.
Perdemos algo muito bom, não?
Certo. É melhor eu ir ver o horário do meu trem.
Estou feliz em ver você vivo.
Eu também.
Por que não nos deram penicilina, Eunice?
-Vocês faziam parte do estudo. -Isso não é resposta.
O estudo era a prova de que os médicos precisavam.
Os médicos são dedicados, e sabem o que é melhor!
O melhor era a penicilina.
Vá atrás dele, Eunice.
Vá atrás dele!
Por que continua aqui?
Cuidar de um velho não é vida para você!
Ainda é jovem.
E não diga que fica porque é enfermeira. Pode sê-lo no Norte.
Você tem uma oportunidade. Ele é um bom homem!
Todas aquelas medalhas no peito... e você ainda gosta dele.
-Eu percebi. -Deixe-me só, papai.
Não deixo você só desde quando era bebê...
como espera que eu comece agora?
Você ainda tem muita vida pela frente, não a desperdice!
-Não posso, papai. -Se quiser, pode!
Não posso! Você sempre me diz para fazer o que é certo, não é?
O que estou fazendo é certo!
Tem de ser certo, papai!
Era certo. Tinha de ser certo.
Os homens continuavam morrendo...
mas eles iriam morrer mesmo, não é?
Eu fazia uma contagem dos que restavam toda primavera.
412 em 1946...
360 dez anos depois...
e ano passado, quando os jornais começaram a falar do assunto...
restavam 127.
Dos 412 com os quais começamos, sobraram 127.
E dos "Mis Evers' Boys", só dois...
Willie e...
Caleb. Ouvi dizer que ele conseguiu o emprego no Norte.
CENTENAS DE NEGROS USADOS COMO COBAIAS
Ele nunca se casou.
E isso nos traz a Washington, DC.
Não acabou como nós prevíamos.
Eu simplesmente não entendo, Srta. Evers.
Por mais que admiremos o seu sacrifício pessoal...
o fato é que pacientes com uma doença potencialmente fatal...
não foram tratados, e o tratamento existia.
-Foi para um bem maior. -O bem de quem?
Quem se beneficiou?
Nós provamos que não há diferença...
nas reações de brancos e negros à sífilis.
-O benefício disso... -Se fossem brancos...
aqueles homens teriam sido tratados dessa maneira?
-Deve saber responder. -Sei, sim, senador.
Se fossem brancos, o seu Serviço de Saúde nunca teria permitido...
a existência do estudo! Não ousaria!
Se fossem brancos, vocês não o teriam aprovado por 40 anos!
E alguém teria dito alguma coisa antes...
pois todos sabiam do estudo, ele não era secreto!
Mas como eram negros, ninguém ligou.
Como eles eram negros, vocês, o governo dos EUA...
os julgaram supérfluos, e agora querem culpar a mim...
e aos médicos que foram obrigados por vocês a escolher...
entre abandonar aqueles homens...
ou dar a eles os melhores cuidados que podiam dar!
Cuidar deles era a minha vida, senhor!
Não estamos tentando culpá-la. Sabemos que obedecia ordens...
do Dr. Brodus e dos outros.
Eu subi aquela colina sozinha.
Posso levar o peso do fardo por mim mesma.
Mas, Srta. Evers, o que a senhora achava que estava fazendo?
Honrando o meu juramento de enfermeira.
Eu amava aqueles homens!
Eles eram suscetíveis à ternura...
e eu lhes dei toda a ternura que eu tinha.
Você dançava bem.
Seus pés pareciam pássaros.
Vamos para casa.
A dança acabou.
A Comissão do Senado declarou o estudo
"ultrajante e intolerável".
A regulamentação de experiências com humanos
foi alterada em seguida.
O Serviço de Saúde ofereceu rapidamente
penicilina e tratamento gratuito aos sobreviventes.
Em 1974, a justiça garantiu US$37.500 a cada um deles
e US$15.000 aos herdeiros de sifilíticos mortos.
Apesar do alerta sobre os perigos da penicilina
nenhuma reação adversa foi notada
entre os sobreviventes que se trataram com ela.
Nenhum dos responsáveis foi condenado ou punido.
O debate sobre experiências com humanos continua.
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