All language subtitles for Rifkins.Festival.2020.1080p.WEB-DL.DD5.1.H.264-EVO

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Original subtitles

Na verdade, nem sei bem por onde come�ar.

De repente, tive que parar de trabalhar

no romance que estava a escrever e acompanhar a minha mulher

ao festival de cinema de San Sebasti�n.

Bem...

...a Sue tinha mesmo que ir. Para ela, era trabalho.

Ela representava v�rios clientes que estavam l�

e tinha que os assessoriar.

A ironia era que, h� uns anos,

quando eu dava aulas de cinema,

a ideia de ir a qualquer festival de cinema,

bastava para ficar animado.

Mas... os festivais de cinema j� n�o s�o o que eram.

Deixaram de ser aquilo que eram quando ensinava.

Eu ensinava cinema como arte, os grandes mestres europeus.

Apenas fui, porque n�o conseguia lidar com a suspeita

de que a Sue se sentia atra�da por um realizador fraquinho

para quem ela tinha feito publicidade antes.

No meu novo filme, sobre o julgamento de Eichmann,

tu serias perfeita no papel de Hannah Arendt.

Hoje �s 20:00

h� uma sess�o de "Three Stooges", o Director's Cut.

No filme, todos os seus orgasmos s�o efeitos especiais?

Olha, ali est� o Philippe.

Adoro o visual dele, � t�o chique.

A ideia de mim mesmo...

�s vezes, o p�blico d�-te uma ideia

diferente de ti mesmo.

Lembra-te, voc�s conheceram-se na Universal,

houve uma discuss�o sobre "Bringing Up Baby",

ele gostava e tu n�o.

Ele gostava de "Some Like It Hot" e tu n�o,

ele gostava de "What a Wondeful Life" e tu n�o,

lembras-te? Ele fez uma piada sobre "The Grinch"?

Eu lembro-me da piada.

Toda a Europa ama o seu novo filme.

A sess�o desta manh� foi um sucesso.

A guerra � infernal, e voc� apareceu do nada e disse-o!

Sabe, existem guerras boas, guerras m�s,

e por vezes at� guerras com justifica��o.

Pode dizer-nos sobre o que ser� o seu pr�ximo filme?

O meu pr�ximo filme ser� sobre o conflito do M�dio Oriente,

e espero oferecer uma solu��o

para a reconcilia��o entre os �rabes e Israel.

O senhor teve um caso com a mulher de um ministro franc�s?

Ouvi esse rumor, sim.

O rumor diz que a engravidou.

Quer fazer algum coment�rio?

Ok, j� chega. Foi muito bom.

Amanh� ter�o o dia todo para lhe falar.

Tr�s dias inteiros de entrevistas.

-Chegaste mesmo na hora. -Sinto muito.

-Lembras-te do Mort, n�o? -Oh, sim.

The Grinch.

Parab�ns pelo seu novo filme. Toda a gente o adora.

Sim, mas... hoje, qualquer filme que lide com problemas reais,

os cr�ticos classificam-no como arte.

Bem, a guerra � um inferno. Isso � uma revela��o.

Ok, o melhor � irmos desfazer as malas.

Sabes, eu apreciaria muito se medisses as tuas palavras.

A tua hostilidade come�a a aparecer.

Bem, n�o � que me alegre muito

quando ele me trata por The Grinch.

Tudo para ti � de baixo n�vel.

Eu n�o digo que o que ele faz � de baixo n�vel.

� de m�dio n�vel!

Eu acho-o politicamente relevante.

N�o o ouviste sobre o seu pr�ximo filme?

Ir� tentar reconciliar os �rabes com Israel.

Sim, fico contente que passe � fic��o cient�fica.

O Philippe � t�o brilhante!

O que � a pol�tica? A pol�tica � totalmente ef�mera.

-N�o lida com as grandes quest�es. -Que grandes quest�es?

-As grandes quest�es! -Como?

Qual � o objectivo de tudo?

Isto � tudo o que existe ou h� algo mais?

S�o essas as perguntas que realmente importam.

Os assuntos que ele trata s�o banais,

embora lhe pare�am ser profundos. Mas n�o s�o.

Num mundo politicamente ideal,

continuar�amos a fazer as mesmas perguntas assustadoras.

-O meu peito come�a a doer... -C� vamos n�s!

J� sei, tu achas que � tudo psicol�gico.

N�o vais ter um ataque card�aco, Mort.

Comeste demasiados tacos no avi�o.

Bem, aqueles tacos eram como halteres!

Quando adormeci nessa noite,

tive um sonho estranho...

Rose Budnick.

Quem?

-A Rose Budnick. Morreu. -Oh meu Deus, como?

-Cometeu suic�dio. -Oh n�o!

Era uma mulher t�o inteligente, uma intelectual.

-Era sobrevivente do Holocausto! -E deixou uma nota,

decidiu que a vida n�o fazia mais sentido.

N�o encontrou mais motivos para continuar.

� um absurdo pensar que a vida n�o tem sentido!

Se parares para pensar, Max, qual � o ponto?

-Pareces um dos meus alunos. -Porque estamos todos c�?

Flutua��es c�smicas. N�s viemos do nada.

Acredita, se fosse por mim, teria feito diferente.

N�o fales sobre isso na frente do Mort. Ele tem pesadelos.

Mort.

Entra, est� demasiado frio.

Ontem � noite tive um sonho estranh�ssimo.

N�o tenho tempo agora. Estou meio que atrasada.

Bem, vejo-te ao almo�o?

N�o. Almo�o com o Philippe e com um jornalista do Paris Match.

Um almo�o de neg�cios.

Hoje ser� uma loucura, mil coisas. Uma entrevista atr�s da outra.

E tens mesmo que participar de todas?

Claro, foi por isso que vim. � o meu trabalho.

N�o posso dizer que gostei da ideia

da Sue passar o dia todo com o presun�oso do Philippe.

Ela considera-o um g�nio!

Toda a sua vida, viu-se atra�da por homens brilhantes.

Chegou a pensar que eu era um grande intelectual.

No nosso primeiro encontro

ficou t�o impressionada com os meus artigos para revistas,

com os meus pensamentos,

que achou que havia um romance a brotar de mim.

Quando lhe mostrei as minhas primeiras p�ginas,

disse que eram pretensiosas.

Agora, ficou claro: ela come�a a pensar

que apostou no cavalo errado.

Caminhava sem rumo. Andei toda a manh�,

pensei na minha vida, no meu pai...

Eu desapontei-o.

Foi o meu irm�o quem ganhou dinheiro.

Pensei no meu livro e como � dif�cil

escrever um livro realmente bom.

N�o um romance banal, mas uma obra-prima.

Shakespeare criou obras-primas.

Michelangelo, Joyce, Chaplin.

Fellini!

Eu dei um curso sobre Fellini.

Identifiquei-me muito com os seus filmes.

Mort! Quando terminas o tal livro?

Estou a trabalhar nisso.

Mort Rifkin?

Santa Virgem!

�s tu em carne e osso!

Meu Deus, srta. Weinstein, a minha professora de Ingl�s!

-Tu prometias muito como escritor. -Acabei a ensinar cinema.

Tenho que ganhar a vida, mas estou a escrever um romance.

Tenta s� n�o ser pretensioso.

Diz-me l�, Mort, ainda est�s preocupado com as grandes perguntas?

Deus, a morte, o sentido da vida?

Rabino Mintz! Sim!

S�o as �nicas perguntas que valem a pena.

O resto � trivial.

�s vezes pergunto-me se �s um verdadeiro judeu.

N�o respeitas o Sabbath, ridicularizas a tua religi�o,

nunca estiveste em Israel.

O que diria Deus, se O encontrasses cara a cara?

Depois do que Deus fez, n�o tenho nada para Lhe dizer.

Ele que fale com o meu advogado.

Quem sen�o um judeu para pensar em processar Deus?

Quem sen�o um judeu sairia do tribunal como vencedor?

Ol�, Mort.

-Vieste ao festival? -Marcia Cohen!

Tu foste a mi�da do bairro que roubou o meu cora��o!

E tu o �nico menino que leu os russos e Proust,

e me levou para ver pe�as de Ionesco e Beckett.

Os meus pais � que se apaixonaram por ti. Eu n�o.

Os teus pais ficariam desapontados comigo, ainda n�o consegui encontrar-me.

Continua � procura.

� verdade... feliz anivers�rio!

N�o me lembres, o tempo voa.

M�e e Pai?

O que raio fazem em San Sebasti�n?

Viemos dar-te um conselho, filho.

Eu queria-o no meu epit�fio, mas a tua m�e achou muito vulgar.

E esse conselho �..?

Com dinheiro, cago onde quero!

Mort! Mort Rifkin!

Tom�s!

Como vais, meu amigo?

-Que alegria ver-te. -Uma maravilha.

E ent�o?

Que tal vai o festival?

Oh, este festival � sempre um prazer.

A minha produtora concorre com um filme este ano.

-Tu pareces estar meio perdido. -N�o...

� que ainda tenho jet lag.

Certo, entendo.

Este ano est� muito bom.

Eu amo este festival.

� tipo uma folga do mundo real.

Por dez dias estou, v� bem, nesta cidade m�gica,

onde o cinema � rei.

Eu sinto-o. Percebi isso logo ao sair do avi�o.

Eu vi a Sue esta manh�.

-A Sue... ela anda cheia de trabalho. -Bem, n�o me deu essa impress�o.

Estava a caminhar pela praia

com aquele realizador franc�s, Philippe Germain.

-Conheces? -Na praia com ele?

Sim, sim.

Disse-me que uma das entrevistas foi cancelada.

Eu fazia a minha corrida matinal e vi um casal � dist�ncia,

pensei que estava a interromper algo.

Depois, apercebi-me que era a tua esposa.

A Sue e eu somos velhos conhecidos

dos tempos em que ambos trabalh�mos na Paramount.

Ela deu-me a conhecer este realizador. E a verdade � que ele � �ptimo.

Vi o filme dele. � magn�fico.

Eu sei que � contra a guerra...

Sim, mas tem uma abordagem t�o positiva...

Eleva o teu esp�rito, de verdade.

-E estavam a caminhar na praia? -Sim.

O que se passa? Est�s p�lido!

Pra te ser sincero, tenho tido dores no peito.

Dores no peito? Isso n�o � bom, p�.

-Desde quando? -Desde que deixei Nova Iorque.

A s�rio? No lado esquerdo ou direito?

-Aqui. -Precisas de ir ver isso, Mort.

Assim que voltar para Nova Iorque ser� a primeira coisa que farei.

-Quantos dias vais ficar? -O festival inteiro.

Mort, eu se fosse a ti iria ao m�dico, amigo.

Sentes uma opress�o?

Bem, � mais uma esp�cie de formigueiro.

-A irradiar, certo? -Sim, talvez.

Oh... N�o me parece bom.

Reconhe�o os sintomas do ataque card�aco do meu primo.

Ele deixou-nos...

Assim.

Com que idade?

48. D� para acreditar?

O diagn�stico precoce � essencial.

N�o te esque�as disso.

Tenho a certeza que, no hotel, um m�dico...

Tu n�o queres um m�dico qualquer de hotel!

� o teu cora��o, afinal. � a tua vida que est� em jogo.

Que cabe�a a minha!

Eu tenho um n�mero.

Grande profissional, que mora aqui.

O Gil Brenner deu-mo.

N�o que eu o tenha usado, mas nunca se sabe.

Dr. Jo Rojas.

Dr. Rojas est� no hospital esta tarde.

Mas, pode vir amanh� de manh�?

Meu Deus! Que dia!

Preciso de uma bebida.

Nem acreditas o qu�o est�pidas s�o as perguntas...

N�o fizeste uma pausa?

Oh, nem deu pra isso.

Bem, houve uma entrevista que foi cancelada

e tivemos meia hora de ar fresco.

E que fizeste?

Bem, sa�mos para fumar um cigarro.

Bem, o Philippe fumou um.

Ol�.

Um vodka martini, por favor?

Um copo de vinho tinto.

Vinho tinto?

Por causa do cora��o?

Bem, eles dizem que �...

Tu sabes...

L� est� o Philippe.

Convidei-o para jantar connosco.

-Ah sim? -Sim, achei que n�o te importarias.

Mort, ele respeita as tuas opini�es.

Eu queria um jantar sossegado s� contigo.

Eu sei. Mas ele est� aqui sozinho. Seria rude n�o o convidar.

Deparei-me com o Tom�s Lopez hoje...

Ele disse que te viu com o Philippe na praia.

Sim, eu falei-te da entrevista cancelada.

Fomos respirar... longe da multid�o enlouquecida.

N�o entendo nada do que aqui diz.

-Ol�, desculpem o atraso. -N�o faz mal.

Estava a conversar com um cr�tico de uma revista de filmes cult.

Ele acha que o meu filme deveria ser exibido nas Na��es Unidas.

Ena, um filme de sucesso que tamb�m � capaz de levar � paz mundial!

Sabes, parece-me uma �ptima ideia.

Consegues imaginar a bomba na m�dia

se a estreia fosse em Nova Iorque, nas Na��es Unidas?

-Seria incr�vel, n�o? -Sim.

-Hoje estivemos muito bem, h�? -Tu sim, tens sido incr�vel.

Posso tomar um vodka martini, faz favor?

-Com um toque de lim�o. -Uau, tens boa mem�ria!

Surpreendente.

E tenho que te dizer, foste muito eloquente com aquele tipo dinamarqu�s.

Ah, sim!

-Havias de o ter ouvido sobre a fome mundial...

E ficaste contra isso, imagino?

N�o, achei-o muito inteligente.

Foi de longe o jornalista mais inteligente de todos.

E aquela mulher, meu Deus!

-Aquela de Paris. -Qual?

A que disse que tu �s o cineasta mais inovador

desde a Nouvelle Vague.

Sim, ela era muito inteligente.

Sabem, desde sempre que fui um admirador incondicional

de Godard e Truffaut e Claude Lelouch,

"Un Homme et une Femme".

E o que lhe disseste sobre a montagem...

Deixaste-a louca.

Achei que ela ia-te pular em cima.

As minhas influ�ncias t�m sido mais John Ford,

Howard Hawks. Esqueci-me de falar...

-Eu sempre amei "Breathless".

E "Jules and Jim".

"Jules and Jim", que obra-prima!

E o quanto deves a Frank Capra!

-Sim, claro. -Bem, a todos os tr�s.

Desde que foi lan�ado, "Jules and Jim"

exerceu uma incr�vel influ�ncia noutros filmes!

Sabes, o que eu gosto nos mestres americanos

� do seu sentido de optimismo.

Tento sempre dar ao espectador um sentido de esperan�a.

N�o h� d�vida que os mestres americanos foram fabulosos mas...

...gera��es de americanos cresceram enganados,

acreditando que a maneira Hollywoodiana � que era.

Ent�o, os europeus apareceram e os filmes amadureceram.

A minha vis�o � menos pessimista.

Ao final, acho que a arte faz com que tudo valha a pena.

Arte e amor. Com a pessoa certa.

O romantismo, a aventura, a paix�o.

Tudo o que faz a vida ser uma experi�ncia positiva.

Mas j� tivemos esta conversa hoje cedo,

quando falamos sobre paix�o e qu�o poucos

entendem as ra�zes do desejo.

Sim, foi muito interessante.

Lembras-te, certo?

-Sim, foi incr�vel. -Gosto de mulheres que concretizam.

Acho essa energia sexy.

Acho que vou querer o linguado.

A Sue e eu tivemos uma pequena discuss�o,

algo p�ssimo de se fazer antes de ir para a cama.

Eu disse-lhe que era uma piada comparar Philippe

com realizadores franceses da Nouvelle Vague.

Truffaut era deslumbrante,

e Philippe era qualquer coisa menos original.

Comparar o trabalho de Philippe com "Jules and Jim"

era um absurdo!

Quando finalmente consegui adormecer, tive outro sonho estranho...

Quando nos conhecemos, ela n�o era apenas uma beleza,

era excepcional.

Sarah Lawrence, especializada em literatura.

Absolutamente brilhante mas muito neur�tica!

E aos olhos dela, voc� parecia o qu�?

Um g�nio em forma��o.

Costum�vamos ter enormes e incr�veis discuss�es.

Livros, teatro, m�sica cl�ssica,

o nosso Ver�o em Newport...

E agora, n�s os dois apaixonados por ela.

Do que falam voc�s pra�?

De como estamos ambos apaixonados por ti.

O meu primeiro marido era muito possessivo.

Sempre a acusar-me das coisas que ele fazia.

Ent�o conheci o Mort, doce e brilhante.

Continuo a sentir que realmente n�o vivi

um amor pleno de paix�o desenfreada.

-E daqui a nada ser� tarde demais. -Mas n�s conhecemos-nos.

-Sim. -Embora tu ainda o ames.

J� me acostumei a ele.

Gostaria que pud�ssemos viver os tr�s juntos.

Bem, parece que voc�s se conectaram intensamente.

Mort, o que achas de um m�nage � trois?

Se n�s tr�s mor�ssemos juntos?

� bo�mio demais para mim.

Apesar de todo o meu discurso

sobre existencialismo, liberdade e hedonismo,

sou um judeu de classe m�dia do Bronx.

Pensa nisso.

� tudo muito "rive gauche" e tu amas tudo parisiense.

O Philippe e eu dormir�amos no quarto

e tu, no sof�-cama.

Que sonho poderoso!

E � verdade...

...a Sue est� aberta a tudo,

� totalmente desinibida.

� curiosa para experimentar coisas novas, nunca sente medo.

Eu, pelo contr�rio, sou cheio de medos.

Porque estou muito ciente da fragilidade da vida.

Vai ser atendido agora.

Obrigado.

Ol�.

Sou a dra. Rojas.

-Algo est� mal? -Mal? Se algo vai mal?

Refere-se �s dores no peito?

-Bem, eu senti dores esta manh�. -Conte-me l�...

J� teve problemas de cora��o?

N�o, embora �s vezes possa doer-me...

...se comer comida indiana.

-H� quanto tempo tem essas dores? -Desde que sa� de Nova Iorque.

Desde h� poucos dias.

Voc� j� as teve antes?

Na verdade, n�o.

Est� de visita a San Sebasti�n?

-Sim, vim para o festival de cinema. -Ah, entendo.

Tive estas dores e deram-me o seu n�mero e...

Eu vivo em Nova Iorque,

no Upper East Side, rua 72.

J� esteve em Nova Iorque?

Sim. Estudei na New York University,

e morava com os meus tios.

-Na Quinta com a 72. -O qu�?

N�o!

Que coincid�ncia incr�vel! -Sim, eu estive para ser m�dica em NY.

-Como veio c� parar? -O meu marido...

-� uma dor aguda ou uma press�o? -O qu�?

Agora n�o me est� a doer, ent�o n�o sei.

-Voc� participa do festival? -N�o.

Mas a minha...

A Sue, uma amiga que...

-Bem, na verdade, � a minha esposa. -E ela apresenta um filme?

N�o. Administra uma ag�ncia, tem clientes aqui.

Gerencia o filme de s�bado � noite,

"Apocaliptic Dreams".

-Posso ser honesta? -N�o gostou?

Pretensioso.

Um filme comercial vendido como arte.

-Mas parece que sou uma minoria. -N�o, n�o, eu penso a mesma coisa!

Bem, vou examin�-lo ao pormenor.

Ent�o, � casado...

Submete-se a grande stress? Em que ramo trabalha?

-Ah, vejo que � escritor. -Ando a trabalhar num romance.

Se o terminar, ser� a minha estreia

e, naturalmente, quero que seja uma obra-prima.

Naturalmente.

Acontece que escrevo uma p�gina e ent�o rasgo-a.

Escrevo outra, e tamb�m a rasgo!

N�o pretendo escrever mais um romance med�ocre.

Entende o que quero dizer?

O meu ponto de vista �:

se n�o posso jogar nas ligas principais,

com Joyce e Dostoi�vski,

prefiro agarrar na bola e ir para casa.

Pelo que vejo, o seu cora��o est� bom.

A press�o arterial est� excelente.

Terei os resultados dos exames de sangue

dentro de uns dias.

Se voc� n�o for comunicado

significa que tudo est� bem, o que � mais prov�vel.

Tente ent�o aproveitar a sua estadia.

Cuide-se.

Obrigado.

A prop�sito...

...posso confessar uma coisa?

Sim.

Eu n�o sabia que voc� era mulher.

Quando ele disse "Jo Rojas"...

Alguns homens n�o gostam de ser examinados por uma mulher.

Mas eu n�o, eu n�o!

S� lhe mostrei uma parte do peito!

Bem, aproveite o festival, sim?

-Eu disse-lhe que ensino cinema? -Sim, disse.

Houve uma era dourada de cl�ssicos do cinema

e essa � a minha especialidade, os grandes cl�ssicos do cinema.

Naturalmente que estudei os grandes realizadores europeus.

Fellini e Bergman.

Lembro-me daqueles filmes maravilhosos de Truffaut e Godard.

Parece que voc� � entendida de cinema.

Nem por isso, mas j� passei uns tempos em Paris.

Morei por l� e costumava ir � Cin�mat�que,

que exibia apenas cl�ssicos.

E era bastante barato.

Bem...

C�us, pergunto-me com quem ser� ela casada.

Que mulher ador�vel!

Alegrou o meu dia!

S� me ir� ligar se houver problemas no exame de sangue.

Agora, j� nem sei o que prefiro.

� uma pena j� ter tomado a vacina contra a gripe.

Naquela noite, jantei com pessoas ligadas ao cinema.

Um t�dio absoluto!

Conversas sobre bilheteira e facturamento

e n�o se pense que n�o vi

Sue e Philippe a trocar olhares e sorrisos,

como se compartilhassem alguma piada particular.

Ol�, Mort!

Vi-te a passar por a�.

-Como est�s? -Muito, muito melhor.

T�o bom ouvir isso.

-Vim c� tomar uma bebida. -Ent�o senta-te connosco.

Com certeza.

Apresento-te o meu amigo Ram�n Robles.

-E este senhor aqui � Gil Brenner. -Ol�, Mort.

Foi o Gil quem me falou do m�dico.

-Oh, obrigado. -De nada.

-Ent�o, j� o foste consultar? -J�. E "Jo" � uma mulher.

-A s�rio? -Sim, n�o � um amor?

Sim, �.

Fui v�-la e descobri que estou bem.

Isso � fant�stico.

-Conhece-a h� muito tempo? -Sim, bastante.

Desde que ela era estudante.

Sempre a achei muito inteligente...

Maravilhosa.

Casou com um colega professor da universidade.

Um tipo realmente brilhante.

Mas tamb�m muito idiota.

Muito inteligente e muito idiota.

-Sim, ela escolhe mal os homens. -Oh, lamento ouvir isso.

Gostaria de poder dizer que voltou a si e que o deixou

mas foi ele quem a deixou.

-Trocou-a por outra aluna. -Ser� poss�vel?!

N�s dois estivemos em Paris mais ou menos na mesma �poca.

Eu trabalhava para a MGM, e ela ficou l� por um ano

a recuperar do fracasso conjugal.

E agora ela est� com outro tipo, a tentar h� alguns anos.

� um idiota � mesma.

Posso tomar um u�sque?

-E o que faz esse novo tipo? -� pintor.

De Madrid.

Eles conheceram-se em Greenwich Village

mas ele queria pintar aqui, claro est�.

Como n�o?!

Isto aqui � lindo.

Ele � bom, � talentoso, mas eu ouvi que...

-O Mort adora Paris. -Ah, sim?

Consideraste morar l�, n�o?

Dei uma palestra na Cin�mat�que,

em ingl�s, obviamente,

sobre a influ�ncia de Pasolini e Bertolucci.

Oh, fant�stico.

E ela est� feliz com esse pintor?

Duvido. Para mim, ela s� pode ser masoquista.

-Adiante, � tua sa�de, Mort. -� sua sa�de.

N�o ouvi nada sobre uma doen�a rara no sangue, ent�o

conformei-me de que n�o iria ver a m�dica novamente.

Mas ainda assim, ela n�o me sa�a da cabe�a.

Mais uma hora e estaremos em Paris.

Acreditas em amor � primeira vista?

Sim.

Soube que te amava no momento em que me disseste

que nada havia de errado com o meu cora��o, que seria apenas refluxo.

Refluxo � uma palavra t�o bonita, n�o achas?

Quando �s tu a diz�-la.

Re-flu-xo.

N�o vejo a hora de chegar a Paris para que comecemos o nosso pequeno tour.

Vamos caminhar pelas ruas de Paris, comer nas brasseries,

e tu vais terminar o teu romance.

-Para ser exacto, quanto deu o meu colesterol? -185.

Mas, juntos, vamos baix�-lo.

Acho que n�o h� necessidade de acompanhamento.

Eu sei, mas tenho um pequeno caro�o na m�o

e gostaria de ter um exame r�pido.

Ok, vamos ver...

O �ltimo paciente � �s 18:00. Pode vir �s 18:30?

Talvez ela possa v�-lo antes de ir para casa.

Posso ir �s 18:30. Estarei a�.

Tem que parecer bem...

Ei, o que andas a fazer?

Ah, ol�!

Ia tomar um duche r�pido e fazer a barba.

-Sim, onde vais? -A lugar nenhum, tenho andado por a�.

-Mas n�s temos a sess�o pra ir! -Que sess�o?

"Breathless".

Dar�o a Jean-Luc Godard um pr�mio Vida e Obra.

Tu lembras-te, certo?

Godard � o teu �dolo. N�o podemos faltar.

-Tenho um compromisso �s 18:30. -Com quem?

-Um m�dico. -O que tens agora?

-� a minha m�o. -Oh meu Deus!

Primeiro o cora��o, agora a m�o!

-O que se passa com a tua m�o? -Tenho um caro�o vermelho.

Onde?

Onde?

Mort, nem d� pra ver!

� uma picada de insecto.

Bem, prefiro ouvir isso da boca de um m�dico qualificado.

-Eu sou um m�dico qualificado. -A s�rio?

-Dermatologista. -� o Dr. Kline.

� s� o maior dermatologista da Europa.

Posso dar uma vista de olhos?

Sim.

-Ela tem raz�o, � uma picada de insecto. -Ah �?

N�o � nada. Amanh� estar� bom.

�ptimo, cancela a consulta e vamos.

Foi muito dif�cil conseguir tr�s bilhetes.

-Tr�s? -Claro.

O Philippe quer muito v�-lo.

J� o viu milhares de vezes, mas quer fazer um remake agora.

Quero que experimentes...

Algumas drogas poderiam libertar a tua escrita.

-Tu precisas de estar alucinada? -Jesus! N�o estou sequer drogada.

-Quanto mais vais fumar? -N�o sei.

N�o est� a funcionar, por qualquer raz�o.

O Philippe fuma a todo o instante, enquanto escreve os roteiros.

A julgar pelos filmes dele, acho que ele fuma Lorazepam!

Tu n�o gostas dele porque ele achou-se enquanto artista.

Isso torna-se f�cil se te deixares acomodar.

Mas Tchekhov n�o se acomodou.

Stendhal n�o se acomodou, Stravinsky n�o se acomodou.

J� te ocorreu que talvez tenhas a auto-estima um pouco inflamada?

� apenas triste, �s um intelectual, n�o um poeta.

Se fiz�ssemos um m�nage, com quem seria?

N�o sei. E tu?

N�o sei.

Ryan Gosling.

Tom Hardy.

E tu?

N�o sei.

-Acho que com a Doris. -A tua cunhada?

Bem, eu conheci-a primeiro.

Porque achas que ela se casou com ele?

N�o sei.

Pensei que ela me amava mas isso nunca se sabe.

O teu irm�o sabe que tu fantasias com a mulher dele?

Eu n�o fantasio com ela!

Tu perguntaste-me sobre um m�nage e parei para pensar.

E porque estamos sob os len��is?

Sinto-me sufocar.

Voc� � tido como um realizador para mulheres.

Bom, tenho que lhe confessar:

sou um rom�ntico.

Como diz a can��o, apaixono-me facilmente.

Dou valor �s mulheres porque n�o gosto de homens

que acham que � fraqueza mostrar os seus sentimentos.

As mulheres nunca escondem as suas emo��es.

� verdade que acabou de comprar um veleiro?

Sim. Naveguei a vida toda.

O mar � o �nico lugar onde se pode ser realmente livre.

-Sabes, eu costumava velejar. -Ah sim?

Foi o que mais gostei de fazer no mundo.

T�nhamos uma casa de Ver�o em Newport, Rhode Island,

e o meu pai ensinou-me a velejar.

Isso � curioso. Sabes porqu�?

O meu pai tamb�m me ensinou a velejar.

Ele foi marinheiro.

Uau! Que vida fascinante tiveste, h�?

A prop�sito, respondeste �quela quest�o sobre amor e paix�o,

essas coisas tontas... t�o bem.

Espero n�o te ter incomodado.

N�o, eu pensei que ia ter que intervir, mas...

Deduziste que ele estava a falar sobre ti?

-N�o devias dizer isso. -Porque n�o?

Porque, bem, eu...

N�o sei...

N�o que isso n�o me lisonjeie.

Sim, mas o qu�?

N�o sei.

Creio que...

N�o sei.

Tu fazes-me enfrentar sentimentos

que tendo vindo a suprimir.

Eu penso numa coisa e depois noutra.

Estou uma confus�o agora.

�s vezes, quando a pessoa certa chega,

decis�es dif�ceis s�o mais f�ceis de tomar.

Tenho um novo e lindo barco e sou um �ptimo navegador.

Ficarias horrorizada se naveg�ssemos juntos para Koh Rong?

-Para onde? -Koh Rong.

� uma ilha nos mares do sul.

-Falas a s�rio? -Sim.

Eu... c�us, tu tens a estranha habilidade de descobrir

as minhas fantasias mais �ntimas.

Sou realizador de cinema, entendo da psicologia humana.

E sei quando uma mulher est� a morrer para ter um caso.

Deus, e agora acaricias o meu rosto...

-Sabes o que est�s a fazer comigo? -Sei, sim.

Sinto um pequeno zumbido nos meus ouvidos.

E gostaria que me examinasse

para ter a certeza de que n�o tenho

um tumor cerebral ou um neuroma ac�stico.

Normalmente, quando vou ao m�dico, fico aterrorizado.

Acho sempre que me v�o dar um m�s de vida,

e, com a sorte que tenho, seria Fevereiro.

Mas com a dra. Rojas n�o me importaria

de fazer um check-up di�rio.

N�o que exista

a possibilidade remota de haver algo entre n�s,

por diversas raz�es.

Mas foi isso mesmo que pensei a primeira vez que vi a Sue!

Comprei um guia tur�stico � procura de algo para ver

enquanto matava tempo at� a minha consulta.

Gosto de dizer que quando estou numa igreja

sou atra�do apenas pela est�tica,

mas adoro visitar locais de culto.

Tenho muito respeito pela f� religiosa.

Li a b�blia do in�cio ao fim

e apaixonei-me por Eva, pela esposa de J� e por Dalila.

O meu psiquiatra diz

que me sinto atra�do por mulheres que me podem magoar.

O novo testamento � muito mais indulgente.

Pelo menos o Messias aparece!

Jesus aparece, vestido com roupas simples,

cura pessoas, faz milagres.

E ainda assim, � um tipo normal!

Um trabalhador-comum.

� por isso que na minha tese

escrevi que Ele n�o deveria ter ressuscitado na Semana Santa.

Ele era carpinteiro profissional.

Deveria ter ressuscitado no dia do Trabalho.

Eu tinha isso, constantemente e intermitentemente.

-E agora, acho que o fez desaparecer. -�ptimo. Fico contente.

E como passou desde a �ltima vez que a vi?

Passei muito bem.

Ainda sente falta de Nova Iorque?

Sim, �s vezes...

...sinto falta das caminhadas.

Gosto de caminhar e ver as montras.

Deveria ser m�dica em Nova Iorque,

os m�dicos t�m boa reputa��o por l�.

O ir�nico � que sa� de Espanha, para estudar em Nova Iorque

e acabei em Espanha novamente, com um pintor espanhol.

Ele engatou-me em Greenwich Village, na Minetta Tavern.

Eu ficaria muito acanhado para a tentar engatar.

Nunca fui bom nisso.

Ver uma mulher fascinante

sentada numa mesa de restaurante e...

o meu cora��o ficaria acelerado

e eu diria pra mim mesmo:

ela � t�o fascinante que, com toda a certeza, me dar� uma nega

se eu for at� l� falar com ela.

Nunca se sabe.

Sim?

Desculpe.

O seu marido est� na linha 1 e eu vou-me embora.

Vou deixar isto no hospital a caminho de casa.

Ok, est� bem. Tem um bom fim-de-semana.

Vemo-nos segunda.

Com licen�a, s� um momento.

Posso prescrever algumas gotas para o seu ouvido,

mas realmente n�o acho necess�rio.

Diga-me, qual era o seu cantinho preferido do Central Park?

O qu�?

Eu sempre adorei ficar pr�ximo da lagoa dos barcos.

Conseguiu ver algo de Shakespeare in the Park?

Aquelas noites de Ver�o, eram fabulosas.

Sim, consegui.

Por favor, d�-me licen�a mais um momento?

Desculpe-me por isto.

-Do que estava a falar? -Do Central Park.

Oh, o Central Park.

Sim...

Eu... eu passava muito tempo no The Met.

Adorava sentar-me nas escadas na Primavera.

E frequentou aquele caf� louco da Madison Avenue?

Desculpe, � melhor voc� ir.

Claro, estou de sa�da.

-Mas... sente-se bem? -N�o � nada.

Quero dizer, posso fazer alguma coisa?

Eu percorria todos aqueles caf�s.

E adorava.

Ou�a, posso pagar-lhe uma bebida?

N�o, obrigada.

Acho que poderia beber alguma coisa

e talvez conversar com algu�m do seu antigo bairro.

Sim, sabe?

Trazemos problemas para n�s mesmos.

N�o tenho certeza de isso ser verdade.

Tome um len�o de papel.

Obrigada.

�lcool nunca pode ser bom, mas �s vezes � o �nico rem�dio.

Posso ser o m�dico agora?

Posso ser o m�dico?

Claro.

Fale-me dos seus sintomas.

O meu casamento est� a causar-me dor.

Aqui.

E porqu�?

Porque lhe estou a contar isto? Nunca deveria beber.

Diga-me a verdade: ama o seu marido?

J� nem sei mais.

E ele ama-a?

Ele tem aventuras.

E eu aceito-as.

Afinal, ele � um artista.

E n�o se pode julgar um artista pelos seus padr�es burgueses.

Ele � criativo e tempestuoso.

Se tivesse concordado com um casamento aberto...

Mas eu concordei.

Sim.

E voc� tamb�m tem aventuras?

N�o, nunca tive.

Porque..?

Porque nunca conheci ningu�m com quem gostaria de me envolver.

Mas se est� infeliz, porque n�o o deixa?

Ele precisa de mim.

-H� quanto tempo est� casada? -Cinco anos.

-E voc�? -Oh, muito mais do que isso.

-E � fiel? -Tenho sido.

-Nunca olhou para outra mulher? -Sim, claro que olhei.

Fico bem impressionado...

...mas tenho sido fiel.

Somos ambos fi�is.

Outra coincid�ncia.

Para ser totalmente honesto,

o meu casamento tem vindo

a meter �gua h� uns tempos.

O Paco � inst�vel.

Dram�tico.

Temperamental.

� dif�cil de se viver com ele.

E se digo que o vou deixar

ele come�a a chorar e amea�a matar-se.

Isso � bluff. Voc� mesma disse que ele � dram�tico.

-Como sabe que � bluff? -Ningu�m quer realmente morrer.

-Nem mesmo por amor. -N�o morreria por amor?

Francamente, preferiria n�o morrer por nada,

nem por doen�a, nem por idade, nem engasgado com um biscoito.

A minha vida aqui n�o � assim t�o m�.

San Sebasti�n n�o � Nova Iorque,

mas aqui a vida � agrad�vel e calma.

� uma bela cidade. J� a visitou?

A minha mulher conhece-a bem, esteve aqui por diversas vezes,

mas anda muito ocupada para me acompanhar, sabe?

Gostaria de descobrir alguns dos encantos?

Sim, gostava muito.

-Em que hotel est� hospedado? -No Mar�a Cristina.

Ok, apare�o a busc�-lo amanh� �s 10:30.

� porta do hotel.

-Ei, por onde andaste? -Eu? Por onde andei?

Bem, eu... sa�, e depois

fui ao consult�rio m�dico.

Eles deram-te um b�nus ou algo do g�nero?

Eu sentia um zumbido no ouvido.

Mas j� passou.

S�o 20:00 horas.

Quanto tempo ficaste l�?

Havia uma grande fila e eu era o �ltimo.

-Cheiras a �lcool. Andaste a beber?

-Eu? -Sim, tu.

O que h� de errado contigo? Pareces meio tonto.

Bem, bebi um copo com o Tom�s Lopez,

encontrei-o e estive a beber com ele,

foi por isso que cheguei um pouco tarde.

Eu liguei-te v�rias vezes e nunca me atendeste.

O que � isto?

Um livro sobre Ingmar Bergman.

O jornalista sueco deu-o ao Philippe,

que j� o tem,

e como sei que gostas de Bergman, trouxe para ti.

Fabuloso!

Vamos, vamos, temos que ir, apressa-te.

-Outra sess�o? -N�o, uma festa cocktail.

Se n�o quiseres vir, n�o venhas.

O Philippe vai?

Claro que vai, � em sua homenagem.

Ele tamb�m odeia festas.

Ningu�m diria, ele nunca perde uma!

Pois �.

Ningu�m entende.

Ele reclama, mas adora estar no centro das aten��es.

-� como um mi�do. -Exacto.

� como um mi�do, com transtorno narcisista.

Sim, ela est� encantada. Come�a as filmagens em Mar�o.

Fant�stico. J� conseguiu o dinheiro?

Sim, � uma vers�o feminina de "Lis�strata".

Aqui est�o voc�s. Ol�!

Ouviste que o filme do Philippe

ganhou hoje o grande pr�mio em Col�nia?

Que emocionante!

O Eichmann n�o era de l�?

Fico � espera que apare�am no clube Altxerri, ok?

Claro, n�o perderia por nada no mundo.

-V�o fazer de ti cavaleiro? -N�o.

Philippe toca bongos muito bem

e apresenta-se com a banda esta noite.

Por falar nisso, os jornalistas suecos

adoraram o filme.

E eles v�o ver-te tocar esta noite.

Ok, fixe.

N�o � emocionante, Mort?

Quase tanto como quando Neil Armstrong andou na lua!

Nunca fui infiel ao Mort.

Mas estive perto de o ser.

Uma vez, com um grande arquitecto

que se apaixonou por mim.

Ele queria levar-me para �frica, num safari.

E eu quis muito ir.

Mas, no �ltimo momento,

n�o me vi preparada para ter uma aventura.

(em sueco) Tornei-me obcecada com o sil�ncio de Deus.

At� que um dia Ele falou comigo.

Deus disse: �Eu vi o Mort�.

"E Eu, no teu lugar,

avan�ava com a trai��o".

Estou confusa e desorientada com a vida.

Acredito que Deus faz-nos sofrer pelos nossos pecados.

Mas a Sue e eu n�o temos pecados.

E o �nico pecado de Mort �

que ele s� gosta de filmes legendados.(fim)

Sabes, desde que viemos para o festival de cinema

tive alguns pensamentos e sonhos muito estranhos.

Sabes o que dizem, os filmes s�o como sonhos de celul�ide.

Hoje ficar�s ocupada com mil confer�ncias de imprensa?

Sim, Mort.

Avisei-te que estaria muito ocupada,

agora n�o reclames.

N�o, estou bem.

Pensei em alugar um carro com motorista e descobrir a cidade.

Acho uma grande ideia.

-Ei, pronta? -Meu Deus!

E que tal, Mort?

-Foste sublime com os bongos ontem! -Obrigado.

Espero n�o ter abusado, deixei-me levar.

Eu tinha os tamp�es de ouvido do avi�o, tive oportunidade de us�-los.

-S�o 10:15. Vamos. -Sim, vamos.

-Tchau, Mort. -At� logo.

Vamos comprar chocolate. Adoro chocolate.

Eu tamb�m. E gosto de p�o e chocolate.

Sim, sempre.

Que bela combina��o!

E que tal sandu�ches de chocolate. J� provaste?

Ok, perguntei-te isto quando bebeste

e vou perguntar-te agora que est�s s�bria.

Se o teu casamento � p�ssimo, porque n�o acabas com ele?

Acho que por um pouco de tudo.

Ele ama-me,

n�o o posso mudar,

h� o trabalho de recome�ar,

um segundo div�rcio...

E ultimamente, tenho pensado deixar a medicina e fazer outra coisa.

E esse desejo assusta-me.

O que gostarias de fazer?

Qualquer coisa, n�o sei.

Escrever, ler, talvez estudar, assistir a aulas,

descobrir o que realmente quero, quem realmente sou.

Ou ser apenas diletante, isso � mau?

Experimentar coisas diferentes, desfrutar a vida.

N�o ter que fazer nada.

N�o ter mais obriga��es com o Paco nem com os meus pacientes.

� incr�vel como t�o poucas pessoas

param esta correria e tentam descobrir o que querem,

quem s�o, quem realmente s�o,

n�o quem elas acham que t�m que ser.

Tu sabes quem �s?

Achava que sim,

mas desde que c� cheguei,

tive pensamentos muito estranhos.

Em Nova Iorque, s� me preocupava com o meu livro,

mas desde que cheguei para o festival,

a minha mente anda a brincar comigo.

Estou a come�ar a questionar tudo,

o que realmente quero, quem sou...

Quem diabos sou eu?

Eu sinto que o problema �

que a resposta nem sempre � aquela que queremos ouvir.

Provavelmente era mais feliz quando dava aulas de cinema.

O vinho deixa-me cansada.

O vinho,

ou a minha fascinante conversa?

Sabem, estava ansioso por este fim-de-semana.

Amigos, o campo...

...e, devo dizer, n�o me desapontei.

Obrigado por nos receberes, Paul.

No pr�ximo ano, a Doris e eu vamos alugar uma casa aqui.

Eu cresci por aqui.

E tu, Mort? �s da praia ou do campo?

Paris � o para�so para o Mort.

-A Doris disse que d�s aulas de cinema. -� verdade, sim.

-Deve ser divertido. -Pode ser, �s vezes.

A maioria dos alunos s�o todos iguais,

mas sempre h� alguns

que realmente apreciam os grandes cl�ssicos,

e esses fazem valer a pena o esfor�o.

A primeira vez que sa� com Mort

ele levou-me para ver "Red Desert", um filme chato.

Levou-me para ver "Last Year at Marienbad", outro filme chato,

levou-me para ver "Claire's Knee", chato tamb�m,

ent�o casei-me com o irm�o dele.

Para o Mort, qualquer filme

divertido ou lucrativo � suspeito.

Ok, sr. Guru do Cinema, o que nos recomendas para ver aqui?

"Chushingura" de Inagaki.

Quem est� nele?

Y�z� Kayama e Tatsuya Mihashi.

Com argumento de Yasumi. Toshio Yasumi.

E tamb�m "Kagemusha",

com Tatsuya Nakadai e m�sica de Shinichir� Ikebe.

Amo-te.

E eu a ti.

Acho que o teu irm�o ainda gosta de mim.

� compreens�vel.

Mas, azar o dele.

Ele conheceu-te primeiro, sa�ste com ele algumas vezes.

-Ele teve a sua chance. -N�o era para mim,

todas aquelas baboseiras.

As grandes quest�es!

Que fardo!

Ele nunca vai acabar aquele romance com que luta h� anos.

De maneira nenhuma.

Se n�o est�s ao n�vel de Dostoi�vski, n�o vale a pena.

Ouviste-o falar? Filmes japoneses?

-Est�s a brincar? Ele � um afectado. -Eu sei.

Escreve e depois rasga as p�ginas em frustra��o.

Prevejo que ele nunca ir� acabar aquele livro.

Evita enfrentar a verdade desagrad�vel,

de que talvez a grandeza liter�ria n�o seja para ele.

Tem medo do fracasso. Sempre teve.

Ele nivela o fracasso junto com a morte.

E notaste que a mulher dele n�o veio...

Sim, tinha que estar em Hollywood para alguma confer�ncia,

e ele n�o gosta de Hollywood.

N�o sei como ela o aguenta.

Ele � um saco de neuroses.

Ela apaixonou-se pelo intelecto dele. Eu vi isso desde o in�cio.

Ela tinha acabado de sair de um mau casamento,

com um grande e arrogante homem da publicidade,

e o Mort pareceu-lhe super brilhante.

N�o sei, mas tenho a impress�o de que ela est� infeliz.

Ela � jeitosa e ambiciosa.

Nunca achei que seria feliz com um mesquinho introvertido,

sempre a querer saber porque existe algo em vez de nada.

Era intelectual demais para mim,

n�o como o irm�o sexy dele.

Amo-te.

E eu a ti.

O dia voou r�pido.

Sim...

Podemos parar no mercado?

Quero comprar um presente de anivers�rio para o Paco.

Oh, � muita gentileza tua.

Gostas de mercados de rua?

-Bem, se eu for contigo, gosto. -Vens comigo?

O que achas desta velha cigarreira? T�o d�co.

-Ele fuma? -N�o, mas � bonita, n�o �?

Sim, �.

Mas que tal dar-lhe algo que possa usar?

Como, h�.. um pijama?

Ele n�o usa pijamas.

Acho que ele n�o gostar� de um presente pr�tico. � demasiado teatral.

Eu sempre quis uma escova de dentes el�ctrica.

No que est�s a pensar?

Penso como tudo � bonito aqui.

E que n�o sou grande viajante.

Nunca vi as pir�mides, nem o Taj Mahal, nem o Grand Canyon.

Tamb�m n�o tenho nenhum interesse em v�-los,

mas contemplar o boulevard Saint-Michel na chuva

seria algo que me deixaria muito feliz.

O que foi isto?

N�o fa�o ideia.

-Achas que � um pneu furado? -Poder� ser.

-Vamos ver se consigo parar. -Est� bem.

N�o sei...

Ok, vou ver.

-Sabes trocar um pneu? -Eu?

Tens alguma ideia de como usar este macaco?

N�o, mas sei dactilografar.

Devemos ter muito cuidado.

Um de n�s pode ficar debaixo do carro, � perigoso.

Vamos buscar o pneu primeiro.

Eu n�o fico debaixo de um carro que pode cair em cima de mim,

que maneira de estragar a tarde!

-Acreditas? -No qu�?

-N�o h� pneu. -O que queres dizer?

N�o h� pneu sobressalente!

O Paco deve-o ter usado e n�o o substituiu.

-E tu n�o sabias? -N�o � meu costume verificar a bagageira.

E agora, o que fazemos?

Vou ligar para a assist�ncia. Mas demoram um s�culo para vir.

Podemos andar.

Tenho outro carro em casa. N�o estamos longe.

Ou podemos pedir boleia. � naquela direc��o.

S�o cerca de 30 km, mais ou menos. N�o � longe.

20 milhas!

20 milhas?

-Diverti-me muito hoje. -Eu tamb�m.

Olha,

comprei algo para ti. -Para mim? Quando?

Enquanto estavas entretida no mercado,

pensei que talvez gostasses.

Adoro!

� lindo.

�s t�o querido. Obrigada.

Foi divertido.

Desculpa por isto. Desculpa.

Ficas segura se eu te deixar com ele?

Claro que sim! Quem � voc�?

-S� um amigo. -Que quer com "ficas segura"?

Que pergunta idiota � essa?

Eu posso conduzir.

N�o estou b�bado!

Podemos partilhar um t�xi de volta � cidade.

N�o te preocupes, eu levo-te, ok?

Eu estava a pint�-la.

E n�o fui capaz de resistir. Sou humano.

N�o h� nada mais bonito do que uma mulher sem roupa.

E com formas perfeitas. Veja.

Acho que lhe devia dizer "adeusinho".

N�s temos um acordo. Ela contou-lhe?

Basicamente, ela estava a mostrar-me a cidade, furou-se um pneu,

e n�o havia sobressalente!

�s vezes, ela pensa que � a minha ju�za moral.

N�o concorda?

P�ra!

N�o o arrastes para isto, ok?

Vou levar os dois, vamos embora.

Desculpa.

Perdoa-me.

Perdoa-me.

Sinto muito. � imperdo�vel.

N�o foi culpa tua.

N�o deixes isso estragar o dia.

Desculpe, o meu ingl�s � muito mau. Mas o Paco ama-a muito, ok?

Ficas bem?

Sim, claro.

Ol�.

-Mort, certo? -Sim.

-O Tom�s apresentou-nos. Sou o Gil. -Sim, claro. Ol�.

-E como est� de sa�de? -Como estou de sa�de?

N�o tinha ido ver a dra. Rojas?

Oh, sim!

-Estou muito melhor. -Sim, a Joanna � fant�stica.

-Mas conhece o marido dela? -Sim, � um idiota...

N�o consigo crer que ela fica com aquele tipo.

Ele � t�o louco, t�o selvagem.

� capaz de a atirar pela janela.

Eu sei, bem sei

mas ela acha razo�vel ficar com ele.

Diz que, caso o deixasse, ele ficaria perdido!

Voc� � escritor, certo? Desde quando os relacionamentos s�o racionais?

-O cora��o ter� as suas raz�es. -Como correu a confer�ncia de imprensa?

-Que confer�ncia de imprensa? -A grande confer�ncia desta tarde.

N�o houve nada esta tarde.

A menos que se refira ao assunto do munic�pio com o Philippe.

Os espanh�is criaram o pr�mio Luis Bu�uel

para homenagear cineastas e v�o d�-lo ao Philippe.

Mas ser� esta noite. De tarde n�o houve nada.

Devia vir, vai ser �ptimo.

Vens a este jantar comigo? Temos que nos apressar.

-A confer�ncia de imprensa foi boa? -Sim.

Bem, tu sabes... � uma entrevista vulgar.

As mesmas perguntas repetitivas.

Passaste o dia todo com esses jornalistas?

-Sim, passei. -Tu e o Philippe?

N�o venhas, se n�o quiseres. Bem sei que odeias estas coisas.

N�o, eu vou.

O Philippe recebeu o pr�mio Bu�uel.

Eu fui por respeito a Bu�uel, um realizador que adoro.

Mas a minha cabe�a estava com Joanna.

Por falar em escolher o homem errado...

Deixei o jantar enquanto eles cantavam elogios a Philippe.

Lembro-me vividamente do meu sonho.

Foi um jantar maravilhoso. As trufas estavam deliciosas.

Meus queridos amigos, n�o h� comida melhor que a de San Sebasti�n.

Ao festival de cinema!

E a todos os filmes que fazem do cinema uma arte!

Ao cinema europeu e aos seus anos dourados!

E ao filme do Philippe, uma obra de arte...

e, com sorte, obra comercial.

E... ao romance do Mort.

Uma obra nem art�stica nem comercial,

que permanece inacabada.

Sem nenhum progresso.

Prevejo que, se terminar o romance,

ser� uma miscel�nea de pensamentos.

Muitas preliminares e sem orgasmo.

Foi uma �ptima noite

em honra do talento e do g�nio do Philippe.

Agrade�o a todos por terem vindo.

Esperem.

N�o se v�o j� embora. Tomemos uma �ltima bebida.

E, Mort, p�ra de despir mentalmente a minha esposa.

Levanto o meu copo:

foi um grande festival

e agrade�o ao Mort, pelo uso da sua mulher.

Perdi um sapato.

Procuras por ele debaixo da mesa?

-Sabes o que tenho aqui? -Um frasco de gin?

O que vais fazer com isso?

Se ela me deixar, aponto para a cabe�a e aperto o gatilho.

� um pouco extremo, n�o?

Alguns comprimidos n�o resolvem?

Um homem que n�o se v� a morrer por amor, n�o � um homem.

Olha, todas estas pessoas a conversar e a trocar

opini�es triviais e insinceridades tolas.

Vamos sair juntos agora.

Deixemos a nossa complicada situa��o pessoal para tr�s

de uma vez por todas e comecemos de novo.

� a melhor oferta que j� recebi.

N�o podes gastar a tua vida sendo ref�m do Paco.

� imposs�vel viver com ele.

Tenho esperado toda a vida por algu�m vir resgatar-me.

Vamos.

O que h� de errado?

-N�o posso. -N�o podes o qu�?

N�o posso sair.

Quero ir contigo, mas n�o posso.

N�o sei se entendo o que queres dizer.

Entendes?

� curioso, tamb�m acho que n�o posso sair.

O que se passa?

Tent�vamos sair pela porta mas...

-N�o podemos. -Parece imposs�vel.

Sai e pronto.

-O que se passa? -N�o consigo sair.

-Queremos ir, mas ... -Bem, tenho que ir para casa.

Acho que deixei o forno ligado.

Espera! Espera!

Acorda!

-O qu�? -Acorda!

-Tiveste um pesadelo. -Tive?

Que horas s�o?

Jesus...

Quatro da manh�? Onde estavas?

A dan�ar.

�s quatro da manh�?

-Com quem? N�o me digas... -O Philippe. Ele � �ptimo dan�arino.

Cheiras a etanol dilu�do.

Etanol dilu�do... sim, estou um pouco b�bada.

Tomei alguns vodkas,

� o momento ideal para falar.

Estou um pouco b�bada e o vodka encoraja-me.

Escuta.

Mort, acho que nos devemos separar.

Que queres dizer?

V� l�...

Estamos num navio prestes a afundar.

O nosso casamento est� condenado. Ambos o sabemos.

Um dos dois tem que dar o primeiro passo.

-Tens dormido com o Philippe? -Nunca.

Excepto uma vez. Bem, duas.

E se contar aquela vez no elevador, e...

Enfim, sendo honesta, foram tr�s vezes.

Na praia...

Mas o mais importante � que

espalh�mos todas as cartas na mesa.

-Quantas cartas tens tu, 52? -Ouve, n�o sou uma traidora, Mort.

Para mim, estar casada estragou toda a cena do sexo.

Acho que est�s certa em querer terminar

o que obviamente se transformou numa farsa.

Mas...

Estou preocupado.

� preocupante.

Estivemos juntos tantos anos!

E � bem dif�cil, quando te acostumas com algu�m,

embora seja �bvio que acabou h� muito tempo.

N�o compartilh�mos mais nada.

Certo?

E, ultimamente, ficamos bravos por qualquer coisa.

Tenho a certeza que com o Philippe foi incr�vel.

Oh, sabes...

Entre n�s n�o h� mais surpresas,

e com o Philippe...

...sinto-me mulher novamente.

Estou cheia de paix�o e lux�ria.

Como um animal selvagem, ansiosa para tentar e fazer tudo.

Bom, isso parece bem mais do que a posi��o mission�rio.

Acho que o melhor ser�, quando voltarmos,

eu sair de casa.

O apartamento � grande. Ficar� vazio sem ti.

N�o vou levar os m�veis comigo.

Vou apenas levar os meus livros

e as minhas roupas.

O Philippe tem um apartamento, vou morar com ele.

E vou ter que ficar com a serigrafia do Andy Warhol.

E com a impress�o do Rauschenberg.

Mas quero que fiques com a caricatura

que aquele tipo nos fez no Washington Square Park.

Sumo de laranja para um.

Larry Hart bem que acertou.

N�o importa qu�o desastroso

o nosso casamento se tenha tornado,

n�o se pode esquecer de uma vez

uma rela��o que era t�o promissora,

sem um pouco de melancolia.

Ol�, Mort.

Desculpem.

Por acaso n�o tem o n�mero de casa da dra. Rojas?

Sim, tenho.

-N�o se est� a sentir bem? -N�o muito.

Oh, lamento.

Algu�m tem uma caneta?

Devo dizer, deixa-me muito triste ver que o festival acabou.

Sabe, passei um �ptimo tempo aqui. Adorei.

Sim. Tem sido uma experi�ncia muito iluminada.

Aqui tem.

-Espero que melhore. -Obrigado.

Ol�, � o Mort.

Ol�, Mort.

Arranjei o teu n�mero com o Gil Brenner.

N�o queria incomodar-te em casa

mas queria ter a certeza de que est�s bem.

Sim, estou bem.

E tu?

Eu? Estou bem.

S� queria dizer que passei �ptimos momentos ontem.

E eu tamb�m.

Sinto muito que tenha terminado daquela forma.

Sim, n�o faz mal.

Est�s livre hoje?

Vou ficar por casa, a fazer coisas por aqui.

Arruma��o.

� importante.

Tamb�m sou um pouco viciado em arruma��o.

Bem, o festival est� prestes a terminar

e voltarei para Nova Iorque.

Uau, que inveja.

Atira uma moeda ao lago dos barcos por mim.

Podes deixar.

Gostei tanto dos muitos lugares agrad�veis que me mostraste.

O tempo passa a voar por aqui.

Sim, � dif�cil acreditar que j� � Outono.

O Outono � a minha esta��o favorita.

Outono em Paris.

Mas, encontras-te bem?

N�o tens refluxo?

Nem caro�os?

Nem zumbido nos ouvidos?

Adoro a maneira como dizes refluxo.

Tens a certeza que n�o tens tempo livre hoje?

N�o, n�o acho que seja uma boa ideia.

Entendo.

Certo.

Bem, se alguma vez quiseres

comer um hamb�rguer no Minetta Tavern...

Quem sabe?

Ent�o... cuida-te.

Adeus.

Eu sentia-me abatido e cansado depois

do encontro com a Sue,

e fiquei sem conseguir dormir.

Sempre que fico deprimido,

penso na amiga dos meus pais, Rose Budnick.

Por fim, ela desistiu.

Porque c� vieste?

Vim para o nosso �ltimo jogo de xadrez.

N�o tenho nenhum tabuleiro de xadrez.

Eu nunca saio de casa sem o meu.

Porque fazes isto?

Dou-te uma chance de me conheceres.

Para que me aceites.

Nunca te irei aceitar.

Ent�o nunca poder�s relaxar e aproveitar a vida.

Que vem a ser essa gentileza? Regra geral, �s sempre implac�vel.

N�o sou implac�vel, sou indiferente.

Detesto apenas ver um pobre idiota

dar cabo da sua vida com o inevit�vel.

Da maneira que me sinto hoje,

poderias levar-me agora mesmo.

O que aconteceu contigo?

Tive oportunidade de reflectir sobre a minha vida nas �ltimas semanas,

e vi que tomei muitas decis�es erradas.

Como quais?

Talvez eu tenha sido mesmo um tipo snob.

Um asno est�pido que empurra os outros para baixo

pelo seu gosto supostamente intelectual.

S� sei que a minha mulher e eu separ�mo-nos

e que a minha vida acabou de se esvaziar.

A tua vida n�o est� vazia, est� � sem significado.

N�o confundas as coisas.

Pode n�o haver significado, mas n�o quer dizer que esteja vazia.

Tu �s um ser humano. Podes te autosatisfazer.

Como?

Com trabalho, fam�lia, amor, os disparates de sempre,

mas que s�o razoavelmente eficazes.

Mesmo se n�o acertares, o facto de teres tentado j� � bom.

Alguma vez leste O Mito de S�sifo, de Camus?

Sim, e vi-me num pesadelo.

Vi-me a empurrar aquela rocha montanha acima,

e ela continuava a rolar.

Por fim, consegui lev�-la ao topo da montanha.

E a�, que diabos ganhei eu?

Uma rocha na montanha!

Come�as a conseguir deprimir-me.

Devo desistir do meu livro e voltar a dar aulas de cinema?

Sim,

se n�o quiseres terminar

com 500 p�ginas de trag�dias.

Talvez eu n�o seja um escritor de livros.

Talvez eu seja um leitor de livros,

uma pessoa que gosta de pensar, um professor.

As minhas aulas de cinema eram divertidas!

Talvez eu fosse um pouco r�gido na minha abordagem.

Tenho que ir.

Tenho que visitar milhares de fam�lias.

N�o, espera!

Tem calma, quando eu voltar tu vais achar que � cedo demais.

Vais voltar? Quando?

Depende. Tu fumas?

N�o.

O segredo � comer muitas frutas e vegetais

e evitar as gorduras saturadas.

-Oh, eu tenho tido muito cuidado. -Ainda bem.

Faz por fazer exerc�cio.

N�o precisa de ser intenso, tem � que ser rotineiro.

Est�s a desaparecer...

N�o comas alimentos processados. E n�o esque�as a colonoscopia!

Foi um festival e peras!

Terminei um casamento

que queimou todos os cartuchos,

e tive tempo para pensar sobre mim e examinar a minha vida.

E depois houve a Joanna.

Um sonho lindo que n�o se tornou realidade.

Mas, ao menos por um tempo, manteve a adrenalina flu�da.

Talvez S�sifo estivesse certo.

Ent�o,

ainda tem algo a dizer-me,

depois de tudo o que eu lhe disse?

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