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Eu estava a viajar para Praga para me encontrar com Jiri Menzel.
Para mim, a viagem estava cheia de mem�rias.
Lembro-me da primeira vez que vi Comboios Rigorosamente Vigiados, como estudante.
E, depois do filme, de sair do cinema e de falar sobre ele com os meus amigos...
AP�S UM ANO E 11 VISITAS, CONSEGUI PERMISS�O PARA FILMAR
COM NAIR SAAB NO ARQUIVO. POR FIM, ELE REGRESSAVA A CASA.
... Santosh e Prabhu at� de manh� cedo.
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O Sr. Nair �, para mim, um s�mbolo de mem�ria do cinema.
Havia uma express�o que dizia que o cinema tem a vida de uma borboleta...
REALIZADOR
... uma vida muito curta.
A linda borboleta voa e desvanece.
E s� algumas pessoas, como ele,
conseguiram preservar a borboleta
e manter a borboleta dispon�vel para as gera��es futuras.
Acho que ele � o guardi�o do cinema indiano.
Ele n�o � s� um mero arquivista.
Ele foi tamb�m um historiador,
porque se n�o se tem um arquivista, n�o se tem uma hist�ria do cinema.
REALIZADOR
E se n�o se salva o cinema e se o destr�i como aqui,
pois a mem�ria do cinema desapareceu,
o cinema deve ser visto como uma forma de arte.
� noite, com exibi��es na Sala Principal, costum�vamos comer rapidamente
e fic�vamos � espera no exterior pela chegada de P. K. Nair.
REALIZADOR
E depois havia um frenesim:
"Oh, Nair Sahib est� a chegar."
Era como se o Deus do cinema tivesse chegado!
Light of Asia, bobina n�mero oito.
Kaliya Mardan, bobina n�mero seis.
Shiraz, bobina n�mero sete.
O Anjo Azul, bobina n�mero sete.
O P�o Nosso de Cada Dia, �ltima bobina.
Rainha Cristina, bobina n�mero tr�s.
Sant Tukaram, bobina n�mero quatro.
Barua, Devdas, bobinas n�mero tr�s e seis.
Hunterwali, bobinas n�mero nove e dez.
O cinema come�ou como uma maravilha e uma magia.
Foi como me senti na minha inf�ncia.
Depois, tornou-se numa obsess�o...
... e, finalmente, numa paix�o.
Mas agora, ao olhar para tr�s,
o cinema faz muito parte de mim...
... e da minha vida.
Entendi muito melhor o mundo e as pessoas...
... ao longo da minha longa viagem com o cinema.
A forma como olho para o cinema � a forma...
porque entendo muito melhor as pessoas e o mundo,
e alargou a minha vis�o da vida.
Vejo o cinema como parte da vida.
O meu guru, Henri Langlois, o meu mentor, disse-me uma vez:
"Tens de olhar para os filmes... Trat�-los como se fossem teus filhos.
Tens de os amar."
E � esse o sentimento que se deve ter por estes filmes.
Ele deu um rosto humano a estes filmes.
Perguntam-me muitas vezes quando come�ou o meu amor pelos filmes.
�s vezes n�o sei. Existia ainda antes de abrir os olhos.
E quando os abri, foi o primeiro dia no Instituto.
Viagem a T�quio, �s Portas do Inferno, Meghe Dhaka Tara,
Andrei Rublev surpreenderam-me.
Encontr�vamo-nos nesses filmes.
Isso inspirou-nos a tornar-nos no pr�ximo Tarkovsky,
Fellini ou Ray.
Queria conhecer o homem que tinha tornado poss�vel
a nossa compreens�o do cinema.
Esta � a sala onde eu trabalhava.
Sabe...
� um local muito emotivo para mim, porque...
... mais de 20 anos, a segunda e terceira d�cadas do Arquivo,
foi tudo feito neste local, a recolha de filmes.
Contactar com gente do cinema, tanto na �ndia como no estrangeiro,
e tamb�m, muitos conhecedores do cinema vinham falar comigo,
e todos se sentavam nesta sala.
Havia uma estante de vidro cheia de livros,
os meus livros favoritos e brochuras de festivais.
Guardava-os aqui.
E quando estava cansado,
costumava olhar pela janela para as lindas �rvores l� de fora.
Este era um dos meus locais favoritos, onde passava grande parte da vida,
para construir o Arquivo.
Gostaria de saber o que lhe aconteceu.
A forma como o mant�m...
Vamos come�ar por um homem como Godard,
ou Ozu, Fellini, Ray, Ghatak...
REALIZADOR
... Tarkovsky, Bresson... A lista � infinita. Ozu.
A lista � infinita, de participa��es e visualiza��es de filmes.
Mas o mais importante � perceber que se vem de outro mundo,
que se vem de outro mundo,
e que de repente se entrou no mundo do cinema,
e que de repente se v�...
... a forma como outras pessoas veem o mundo em que vivemos.
E quando se � jovem, fica-se viciado. Estamos numa trip.
CINEMA SHREE PADMANABHA
Tinha interesse em colecionar coisas,
at� quando via filmes nos meus dias de escola.
Talvez tivesse um pouco de arquivista dentro de mim,
porque n�o deitava nada fora, incluindo...
A minha fam�lia n�o gostava muito.
No cinema, d�vamos os bilhetes,
depois eles davam-nos metade do bilhete.
Costumava guardar os bilhetes, e...
N�o sei porqu�,
n�o gostava de deitar fora coisas relacionadas com cinema.
Mas a �nica pessoa que realmente entendia o meu envolvimento com o cinema
era o meu irm�o mais novo Ramakutty.
E ele tamb�m me ajudava a guardar coisas,
mesmo apesar de nunca lho ter pedido.
HOTEL WATSON, BOMBAIM
CINEMATOGRAFIA A MARAVILHA DO S�CULO
ADMISS�O: UMA RUPIA CINEMA DE ESTREIAS
HAVER� EXIBI��ES ESTA NOITE NO HOTEL WATSON.
Dhundiraj Govind Phalke, popularmente conhecido como Dadasaheb Phalke,
� muitas vezes referenciado como o pai da ind�stria do cinema indiano.
Na verdade, ele fez o primeiro filme indiano, Raja Harischandra.
SUCESSO FENOMENAL
Por isso, quando come��mos o Arquivo em 1964,
a nossa grande prioridade era procurar material,
filmagens de Dadasaheb Phalke.
Isto � Nashik.
Quando cheguei, em 1969, num transporte de jornais,
para vir buscar filmes de Dadasaheb Phalke,
do seu filho Prabhakar Phalke.
Vim tarde, quase � meia-noite, de Pune.
Acho que era uma da manh� ou algo assim e cheguei aqui logo pela manh�.
Transportava o jornal di�rio, o Kesari.
A primeira edi��o publicada...
Eles queriam que chegasse cedo de manh�.
Era a rota normal de jornais. Pediram-me que me encarregasse do transporte...
... porque quando � para voltar, ele volta quase vazio,
de forma a que eu pudesse transportar os rolos de nitrato comigo.
Na nossa hist�ria do cinema, enciclop�dia do cinema...
ARGUMENTISTA / REALIZADOR
... ou arquivo do cinema que ele criou em Pune,
o nome dele devia ser Dada Phalke.
Dada Phalke foi o pioneiro,
mas Dada Phalke foi recolhido por ele e ficou para a hist�ria.
Foi para aqui que vim, em 1969,
onde costumava ser a casa de Dadasaheb Phalke.
Lembro-me que Prabhakar Phalke, o seu filho mais novo, me convidou,
porque ele disse que tinha filmes antigos de Phalke em casa.
Por isso, vim de Pune
e fiquei impressionado quando vi a porta, era de madeira,
e no topo estava uma ins�gnia gravada de uma c�mara de filmar,
muito similar �quilo.
Notava-se que era quase um espa�o santificado,
e ele disse que tinha uma caixa de madeira com coisas,
material de Phalke. Eu abria-a,
e vi que estava l� uma grande parte do filme Kaliya Mardan,
e foi assim que conseguimos
o �nico filme completo de Phalke para o Arquivo, at� este momento.
KALIYA-MARDAN DO SR. D. G. PHALKE O PIONEIRO DO CINEMA DO ESTE.
MANDAKINI PHALKE, FILHA DO PAI DO CINEMA INDIANO,
NO PAPEL DE SHREE KRISHNA.
Gostaria que o tivessem mantido como museu.
Seja como for, haver� algo de bom para recordar no futuro.
Agora desapareceu tudo.
� o que acontece quando o mundo muda.
Estamos num local hist�rico.
Este � o local onde o primeiro filme indiano,
Raja Harishchandra, foi rodado.
Sim.
Acho que houve mudan�as, n�o?
Sim, foram feitas muitas mudan�as.
Gra�as a Deus que a estrutura original ainda existe.
NETO DE D. G. PHALKE
- Lembro-me que nos conhecemos em 69... - Sim.
Sim, foi no final de 69, in�cio de 71, 70...
- A minha m�e estava comigo... - Pois.
... e ela queria mostrar o meu... Tinha acabado de casar,
e ela queria mostrar filmes de Dadasaheb Phalke aos meus sogros,
e voc�, muito atenciosamente e graciosamente, aceitou.
N�o, eu queria muito mostrar-lhe o filme,
porque t�nhamos recebido um filme do Prabhakar um ano antes
e estava todo aos bocados.
Deu muito trabalho junt�-lo,
na ordem em que Dadasaheb o tinha feito originalmente.
ESTUDO DE EXPRESS�ES FACIAIS POR UMA MENINA DE SETE.
Queria mostr�-lo a Mandakiniji para que nos dissesse a ordem...
Esperei at� � noite, apanhei o mesmo transporte de volta
e disse-lhes: "Isto � material muito precioso
e vejam, por favor, se conduzem muito devagar."
Parti de l�, novamente, por volta da meia-noite
e cheguei aqui de manh� cedo,
aos abarracamentos, onde t�nhamos um gabinete do arquivo,
em 67 ou algo do g�nero.
Depois tirei as bobinas uma por uma
e vi que eram s� partes,
mas do mesmo filme, Kaliya Mardan.
J� que n�o sab�amos a ordem do filme,
a caixa continha, de alguma forma, um caderno,
uma nota escrita � m�o por Phalke
com a ordem em que as bobinas estavam,
tal como o conte�do de cada uma das bobinas.
Isso ajudou muito para juntar as partes
na ordem pela qual, talvez, Phalke as tinha...
Havia cenas danificadas. N�o conseguimos...
Na altura, n�o havia restaura��o digital.
Espero que agora o consigam fazer.
Mas, no entanto, Kaliya Mardan tornou-se numa filmagem integral.
Era um filme de seis bobinas, quase uma longa-metragem.
Durante o per�odo de filmes mudos, entre 1912 e 1931,
foram feitos mais de 1200 filmes neste pa�s.
Mas grande parte tinha desaparecido.
Simplesmente n�o existem.
Com exce��o de dez ou 12 filmes
que conseguimos salvar ou preservar no Arquivo.
E mesmo esses est�o incompletos.
MAHAVIR PHOTOPLAYS APRESENTA
Qualquer filme feito, digamos, h� 80 anos, 50 anos...
"Bem-vindo, professor. Quando arranjar� um tolo rico
para a minha linda menina para o recompensar?"
... tem algo a dar, algo que j� perdemos.
AUTOR
E P. K. Nair, creio eu, conhecia a import�ncia de preservar,
n�o s� os filmes, mas as mem�rias.
O meu primeiro encontro com o cinema foi no in�cio dos anos 40,
quando eu tinha sete ou oito anos.
Ainda me lembro com carinho
da minha primeira associa��o ao cinema, sentado no ch�o.
N�o era de cimento, era de areia branca da praia...
CINEMA SHREE PADMANABHA
... e de ver um filme t�mil realizado por K. Subrahmanyam, creio eu.
Foi uma experi�ncia m�gica para mim, na altura.
Desde a primeira vez que o vi, fiquei fascinado pelo cinema.
Todos os dias, � noite...
A minha fam�lia opunha-se a isto, especialmente o meu pai.
Ele era contra o cinema.
Achava que o cinema eram s� coisas m�s.
De alguma forma, sa� de casa, � noite, ap�s todos terem ido dormir
e apressei-me... na verdade, corri at� ao cinema mais pr�ximo,
a dez, 15 minutos.
E quando l� cheguei, o filme j� ia quase a meio.
Ent�o, comecei por ver primeiro a segunda parte do filme.
E depois, para apanhar o in�cio, fui �s matin�s,
porque era a �nica possibilidade que tinha de ver,
e s� podia ser ao s�bado ou ao domingo.
O primeiro filme de Hollywood que vi foi um Western, Vigilantes Return.
Nem sequer conhe�o o t�tulo!
- � um filme da Universal. - Pois.
� um Western Technicolor, do in�cio dos anos 40...
- Foi em Chennai, ou... - N�o, em Trivandrum.
- Trivandrum. Certo. - Certo.
E outro filme foi Inconquist�veis de DeMille.
Gary Cooper e Paulette Goddard...
- Sim, esse chegou ao New Empire... - Sim.
� um filme de que ainda me recordo. Foi o primeiro filme de DeMille que vi,
porque esse cinema em particular exibia principalmente filmes da Paramount.
Depois, A Cigana Feiticeira, Marlene Dietrich...
A preto e branco, linda fotografia... Ainda me recordo disso...
E depois, claro, o de Ray Milland...
- Que idade tinha? - ... Farrapo Humano.
Que idade tinha na altura?
- Talvez oito ou dez... - Oito ou dez?
- Oito ou dez anos. - Incr�vel!
Lembro-me, na altura, que havia uma tenda com proje��o aqui
e uma cabina desse lado,
e que metade do cinema estava cheio de areia...
... algo que se chamava bilhete terreno.
Linda areia branca da praia Shankumugham em Trivandrum.
A areia branca em Kerala tinha um aspeto real.
� muito brilhante
e � usada para ocasi�es especiais, casamentos
e celebra��es.
Ent�o, nunca sentimos que...
... t�nhamos o bilhete mais barato,
por causa do facto de eu estar sentado na areia,
e assim, a linda areia associada � celebra��o
era uma maravilha, juntamente com as imagens no ecr�.
Costumava haver s� duas sess�es, na altura, �s 18:30 e 21:30.
E em cada cinema, �s 18 horas, havia uma coluna de som no exterior
a tocar m�sicas populares,
talvez para atrair p�blico para comprar bilhetes.
Costumavam come�ar com uma can��o de devo��o.
"Gnanapazham", creio eu, de K. B. Sundarambal,
em honra ao Deus Muruga.
E depois, mais tarde, seguiam-se muitas can��es hindis
de Kemchand Prakash e Naushad.
E mais tarde, neste cinema em particular,
eu costumava vir ap�s o in�cio do filme e ficava no exterior,
porque, na altura, o projetor estava ali e o ecr� deste lado.
Estavam sempre a trocar.
Quando comecei a ver filmes, o ecr� estava aqui e a proje��o ali.
Depois, algures em 44 ou 45, lembro-me
distintamente do filme, Kismet, de Bombay Talkies.
Costumava ficar no exterior e ouvia as can��es do projetor.
Se n�o tiver muito p�blico,
apetece encostar na areia e depois ver filmes.
Era uma esp�cie de maravilha,
o tipo de hist�rias em que me comecei a meter no in�cio.
A maior parte, da mitologia t�mil ou de lendas.
Ter tudo isso filmado � lindo porque,
digamos, que daqui a 100 anos,
pode ver-se
um certo aspeto da vida...
REALIZADOR
... que s� existia naquela altura.
Significa muito.
Significa mais que a trag�dia grega,
onde � tudo engrandecido sem compara��o.
Mas essas coisas t�o pequenas
manifestam-se lindamente.
� a alma da arte.
A minha vis�o do cinema mudou, basicamente, com dois filmes
que vi no in�cio dos anos 50.
Um foi Ladr�es de Bicicletas de De Sica e o outro foi
�s Portas do Inferno de Kurosawa.
Esses dois filmes tiveram um tremendo impacto em mim,
porque, at� essa altura, o tipo de cinema a que eu estava exposto
era a narrativa escolar, o melhor de Hollywood e at� filmes indianos.
Era uma forma de tratamento do cinema que era totalmente diferente.
E sabia que o cinema n�o conta s� hist�rias, mas vai al�m disso.
LADR�ES DE BICICLETAS
Depois o meu interesse e envolvimento no cinema tornou-se mais profundo
e eu queria aprender a realizar
e n�o queria continuar a estudar.
O meu pai achava que eu devia ir para engenharia.
Eu estava determinado a aprender realiza��o.
Eu tinha sido exposto a Hollywood
e aos filmes hindis antes de vir para o Instituto.
ATOR
Tinha-me esgueirado para ver O Sil�ncio
no Max Mueller Bhavan em Deli,
sobretudo porque havia cenas de mulheres nuas,
n�o por ser um grande filme.
E tinha-nos sido mostrado o �s Portas do Inferno na escola dram�tica,
com particular aten��o ao desempenho do Sr. Mifune,
porque eu estava a interpretar uma personagem semelhante numa pe�a.
Mas o meu conhecimento do cinema mundial era zero,
quando vim para o Instituto.
Eu tinha sido muito influenciado por atores com um discurso muito bom,
atores com uma postura muito boa,
que enchiam um ecr� ou um palco,
atores como o Sr. Olivier e os mestres brit�nicos.
E alguns atores brit�nicos tamb�m.
Mas n�o fazia ideia de que havia tantos �timos atores noutras partes do mundo.
E um dos primeiros filmes que eu vi no Instituto foi o Ladr�es de Bicicletas
e n�o podia acreditar no que via.
Foi um completo enigma para mim
como o realizador arranjou gente aut�ntica para interpretar pap�is aut�nticos,
porque, como todos sabem,
n�o � f�cil interpretarmo-nos a n�s mesmos � frente da c�mara.
No momento em que uma c�mara � apontada na nossa dire��o...
... o av� tira os �culos, o tio encolhe a barriga
e todas as mulheres tentam ficar o mais lindas poss�vel.
Portanto, as pessoas ainda t�m receio
porque se sentem muito vulner�veis � frente da c�mara.
Ent�o, o feito do Sr. De Sica foi...
... algo inigual�vel at� aos dias de hoje.
E foi gra�as � insist�ncia de Nair Sahib
que nos foi mostrado o Ladr�es de Bicicletas.
Caso contr�rio, o curso de representa��o n�o acharia que seria importante para n�s
ver filmes como o Ladr�es de Bicicletas
ou Hiroshima, Meu Amor, ou outros filmes do g�nero.
Fiquei fascinado com alguns realizadores, principalmente, Mehboob Khan e...
... Bimal Roy, Raj Kapoor e Guru Dutt.
Achei que devia abordar um desses realizadores
e tentar trabalhar com eles como assistente ou aprendiz.
EST�DIO MEHBOOB
Assim, com essa inten��o, vim para Bombaim, em 1955,
e fui ao Est�dio Mehboob encontrar-me com Mehboob Khan Sahib
e, nessa altura, ele estava a filmar Mother India.
Ele disse: "N�o te pago nada mas, se quiseres, podes ficar a ver."
Porque ele j� tinha seis ou sete assistentes.
Costumava apanhar os pormenores t�cnicos da realiza��o,
os sum�rios das personagens, as fichas de continuidade, coisas assim.
Falava com os assistentes de c�mara, n�o com os operadores de c�mara.
Faredoon Irani estava incontact�vel...
O assistente de c�mara era de Keralite, um malaiala.
Por isso, tinha longas conversas com ele.
Est�vamos quase � beira de planear a realiza��o de um filme.
T�nhamos escrito uma hist�ria...
Mas, de certa forma, com esse processo eu percebi
que isso n�o era para mim.
Porque havia um conceito de como deveria ser um bom filme
e da forma como os filmes estavam a ser concebidos e planeados.
Algures pelo caminho, apercebi-me, pela forma como plane�vamos
fazer o filme... Eu disse:
"Tenho a sensa��o de que n�o encaixo nisto."
O ponto de viragem foi reunir-me com Jean Bhownagary, em Bombaim.
Ele aconselhou-me a candidatar-me a uma posi��o no Instituto do Cinema.
Candidatei-me, fui selecionado e vim para Pune, em mar�o de 1961.
O local parece igual ao que era h� 50 anos,
com a exce��o de que havia mais passadi�os em madeira,
e tamb�m algum do equipamento.
Esta grua... � a grandeza do equipamento antigo...
EST�DIO PRABHAT
... � t�o robusto que ainda hoje pode ser usado.
E lembro-me que havia um tanque,
algures aqui. Podemos abrir a plataforma em madeira
e, l� dentro, h� uma torneira. Podemos encher com �gua.
Lembro-me que, num filme como Amrit Manthan,
eles encheram um tanque com �gua. Como se fosse um jardim com �gua.
Nalini Tarkhad estava l�, creio eu.
Poucos eram os est�dios, em Bombaim, que tinham esta coisa.
Disseram-me que at� havia um zoo com animais e tamb�m uma selva.
Isto foi tudo modelado segundo o melhor de Hollywood,
gra�as aos grandes pioneiros Damle e Fatehal.
Este local est� exatamente igual ao que era h� 50 anos,
quando entrei neste espa�o santificado.
O espa�o onde alguns dos grandes filmes indianos foram feitos.
Um local onde corajosos como Shantaram, Damle, Fatelal, Jagirdar,
Vishram Bedekar come�aram na realiza��o.
Fiquei t�o entusiasmado por c� entrar
e por come�ar a minha longa carreira no Instituto do Cinema.
Estas salas eram as salas iniciais de maquilhagem no Est�dio Prabhat.
O est�dio, as salas, eram os preferidos de Shanta Apte,
Nalini Tarkhad, Durgabai Khote e das grandes estrelas de Prabhat.
Uma destas salas era a sala de maquilhagem favorita de Madhubala,
quando estava a trabalhar num filme de Prabhat chamado Apradhi.
Lembro-me que foi nesse edif�cio onde estavam as salas de maquilhagem...
E o andar de cima do edif�cio foi tamb�m usado para grava��o de som.
REALIZADOR
Havia um est�dio de som ali.
Lembro-me que o professor Thakkar costumava sentar-se l�.
Aquele local tornou-se no Arquivo durante algum tempo.
Esta � a sala onde inici�mos o Arquivo em 1964.
Era uma sala pequena onde tr�s de n�s,
eu, como Curador Assistente, um assistente de laborat�rio e mais um
revisor de filmes, come��mos o trabalho inicial.
A minha primeira prioridade era procurar os primeiros filmes indianos,
desde a �poca dos filmes mudos.
Quando eu era crian�a, costumava passar com o meu pai, ent�o realizador...
PRODUTOR / REALIZADOR
... por um s�tio chamado Famous Tardeo.
Diz-se que costumava l� haver um est�dio que, infelizmente,
sofreu um infeliz acidente,
em que os filmes de nitrato, que l� eram preservados, se incendiaram.
E o local ficou reduzido a cinzas, essa metade de casa queimada ainda l� estava.
Algo que sempre me confundiu enquanto crian�a foi
como � que aquelas imagens t�o tentadoras,
t�o fascinantes, podiam ser a fonte de tal destrui��o?
Os cofres estavam do outro lado...
... onde guard�vamos os filmes, mas agora acho que j� l� n�o est�o.
Disseram-me que foram destru�dos num inc�ndio, no in�cio de 2000.
Costumavam guardar material em nitrato aqui, o que eu nunca...
Na minha �poca, nunca guardei nitrato nesta zona.
Houve um raro inc�ndio devido ao nitrato que aqui era guardado,
que destruiu um espa�o onde,
n�o s� estava o Arquivo, mas tamb�m os cl�ssicos de Prabhat.
Os negativos originais, imagem, som, negativos de nitrato, tudo desapareceu.
MINIST�RIO COME�A INVESTIGA��O AO INC�NDIO NO INSTITUTO
PARTE CRUCIAL DA HERAN�A DO CINEMA DESAPARECEU
Na verdade, durou de 1933 at� 2000.
Do que me lembro, o diretor da altura chegou at� a dizer:
CR�TICO DE CINEMA
"Que diferen�a faz? Temos c�pias, positivos."
O que � rid�culo de se dizer,
porque se se perdeu os originais de nitrato de alguns dos cl�ssicos,
o que fazer agora?
Arquivar deveria ter o respeito que merece,
o que, infelizmente, n�o faz parte da vontade pol�tica...
ATRIZ
... acho que nem sequer h� um acordo.
Lembro-me que, quando houve um inc�ndio no Arquivo,
eu era membro do Parlamento,
e que eu tinha falado com l�grimas nos olhos
e que n�o teve efeito algum,
como se n�o tivesse import�ncia pol�tica.
A porta era muito pesada, quase como um cofre de um banco,
que requer que duas pessoas a abram. Eu n�o o conseguia sozinho.
E havia uma c�mara interm�dia.
Quando se entrava, costumava ser muito, muito frio.
Por isso, fiquei mesmo surpreendido. Como � que aconteceu?
Depois, quando quisemos instalar ares condicionados,
algu�m teve de rebentar paredes,
e n�s descobrimos, muito estranhamente,
que havia muitos calhaus a cair do teto.
Havia duas paredes com uma separa��o no meio
cheia de calhaus at� ao topo.
No topo, estava um metro de �gua, permanentemente armazenado.
� preciso valorizar mesmo o engenho dos nossos antepassados.
Eles n�o tinham ar condicionado,
mas conseguiam manter o local fresco.
Agora, sei que o Instituto se tornou num gin�sio.
Quem dera que tivesse sido mantido como era antes,
para haver uma mem�ria da heran�a deste fant�stico local.
EST�DIO PRABHAT
Este � o fant�stico Est�dio Prabhat,
que produziu alguns dos melhores filmes indianos dos anos 30 e 40.
Agora esta � a casa do Instituto de Cinema e Televis�o da �ndia.
Mesmo nos primeiros dias, foi quase como um campo de treino
para os futuros realizadores,
e depois, quando o governo ficou com ele e construiu o Instituto de Cinema,
na verdade, a velha tradi��o de o usar como um campo de treino
para os futuros realizadores continuou.
Quando me juntei ao Instituto, nunca havia deixado um filme a meio.
No Instituto, vendo tantos, e n�o tendo de pagar para os ver,
uma pessoa ganhava o h�bito de sair a meio nos que n�o interessavam.
Sempre que fazia isso, no entanto,
e havia alturas quando estavam duas pessoas no audit�rio,
ou talvez nenhuma, exceto Nair Sahib,
que estava sempre l� sentado e costumava pensar:
"Que lindo trabalho, este homem tem! Daria tudo para ter o trabalho dele.
Ver filmes o dia todo."
At� ter percebido a quantidade de trabalho que era preciso,
a tens�o que sentia
e qu�o psicologicamente cansativo � ver tantos filmes num s� dia
e tentar assimil�-los a todos.
E arquivar todos eles, coloc�-los
no Arquivo, classific�-los, anotar todos os detalhes dos cr�ditos.
� incr�vel a quantidade de trabalho que Nair Sahib tinha nos bastidores.
O trabalho que ningu�m via.
E, infelizmente, o trabalho de que poucos t�m no��o.
Talvez n�o devesse ter dormido com o Charlie quando o conheci.
Uma pequena luz e um homem com uma caneta a fazer anota��es.
Era o Sr. Nair, meticulosamente a fazer anota��es,
a verificar a letra, a verificar problemas de alinhamento, quaisquer problemas,
l� estava ele, silenciosamente a fazer anota��es.
E depois percebemos algo muito simples.
Se n�o tivesse sido por este homem, n�o estar�amos a ver este trabalho.
Enquanto o filme estava a ser exibido, ele fazia anota��es, muitas anota��es.
REALIZADOR
Todos tent�mos isso.
Tamb�m diz�amos: "� um bom m�todo, porque n�o o fazemos?"
Nas salas de aula come��mos a fazer isso.
Enquanto dava o filme, n�s simplesmente escrev�amos.
Peg�vamos numa pequena lanterna e anot�vamos como o Nair.
Alguns de n�s entr�vamos na sala dele
para ver o que estava no caderno.
REALIZADOR
E no caderno, havia notas meticulosas
sobre a condi��o do rolo,
em que minuto o filme se deteriorava.
Era essa paix�o, uma paix�o obsessiva sobre cinema,
que era uma for�a mobilizadora.
Um dia fui a casa dele,
fui a casa de Nair Sahib por volta das 22:00 para jantar.
DOCUMENTARISTA
Est�vamos sentados a falar, e eu reparei
num monte de livros, artigos. Havia cadernos de 200 p�ginas perto dele.
E perguntei-lhe: "O que � aquilo?"
E ele disse: "Costumava ter um di�rio dos filmes que eu via."
Eu perguntei: "Desde quando?" E ele: "Desde os dias em Trivandrum."
Ent�o, peguei em alguns deles, folheei-os
e fiquei maravilhado com a forma meticulosa atrav�s da qual
cada filme que ele via estava registado.
Como a data de exibi��o, o cinema em que o viu, a hora.
O Homem Que Sabia Demais, a segunda vers�o de Alfred Hitchcock.
O Homem de Fato Cinzento,
tamb�m me lembro de ter visto no New Empire.
Pedi-lhe: "Deixe-me ficar s� com dois livros,
nunca me pe�a que os devolva. Ficarei com eles como recorda��o."
E guardo-os comigo h� 33 anos
e ainda me s�o muito especiais.
No in�cio, tamb�m se tinha algum medo dele,
porque �amos por tr�s dele sem que visse que est�vamos atrasados...
DIRETOR DE FOTOGRAFIA / REALIZADOR
... e por vezes ele ligava a lanterna
e apanhava-nos a falar. Algo do g�nero.
Ele fazia-nos perceber que o cinema n�o era um s�tio onde se conversava.
Era um s�tio onde se desfrutava da experi�ncia,
h� filmes que podem ser uma experi�ncia de grupo,
como as can��es de Dev Anand,
em que as pessoas cantam,
e h� filmes que podem ser uma experi�ncia muito pessoal.
Por isso, devemos respeitar o sil�ncio. E todas essas coisas.
Isto foi algo que aprendemos sem que nos fosse ensinado.
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O que aconteceu neste pa�s foi que, apesar de estarmos a fazer filmes
do virar do s�culo, o s�culo XX,
ningu�m pensava que o cinema ou que os filmes feitos neste pa�s...
NEW THEATERS LTD APRESENTA
... fizessem parte da nossa heran�a cultural.
Eles tratavam o cinema como uma comodidade...
EDITOR DE ARTE
REALIZADOR
... ou um meio de entretenimento para as chamadas massas analfabetas.
Se n�o se consideram os filmes como parte da cultura hist�rica,
ent�o est� a eliminar-se uma grande parte.
Claro, como � que se estuda os gostos do p�blico nos anos 20 e 30?
O esp�rito do arquivo foi sempre
o de dar a todas as express�es
o tipo de respeito que merecem.
Nunca se sabe que tipo particular de forma de express�o
pode ser vista, atualmente, como um disparate,
mas que amanh� pode ser transformada
na maior forma da literatura.
Somos um pa�s t�o consciente do cinema.
Muito do nosso povo, dos nossos ideais, da nossa atitude perante a vida,
nas rela��es interpessoais, tudo isso pode ser identificado nos filmes
que vimos durante a inf�ncia.
Ele pensa mesmo que tudo deve ser preservado para o futuro,
porque n�o sabemos, daqui a 20 anos, a 60 anos...
DOCUMENTARISTA
... a dois s�culos,
o que ser� considerado historicamente importante.
E esse aspeto tornou-o, de uma forma estranha, muito altru�sta,
porque ele foi muito ego�sta e esteve muito
envolvido na aquisi��o de coisas para o Arquivo,
mas altru�sta, n�o colocando o seu ju�zo de valor
naquilo que adquiria.
De um ponto de visto do Arquivo, um filme de Satyajit Ray � t�o importante
como um filme de duplos dos prim�rdios com John Cawas ou Nadia.
Dizemos que esses filmes s�o filmes de classe C.
H� as categorias A, B e C.
A certa altura, pode ser classe C mas 50 anos depois ser� um cl�ssico.
N�o se pode selecionar um filme com base no seu valor contempor�neo.
� preciso v�-lo numa perspetiva hist�rica.
Em Fran�a, Langlois nunca pensei em...
... apenas guardar os bons filmes.
Ele disse: "Os bons filmes est�o primeiro, claro,
eles t�m de ser preservados,
mas todos os filmes merecem viver, n�o morrer."
Sabe, aqui, no Sri Lanka, n�s somos muito bons a destrui-los...
... aos filmes. S�o feitos, mostrados, e acaba-se tudo.
N�o digo que todos os filmes devem ser guardados,
mas h� filmes em que um painel de certo pa�s deve decidir
sobre a respetiva import�ncia hist�rica,
import�ncia comercial, import�ncia art�stica.
Tudo isso tem import�ncia no que respeita � preserva��o do cinema.
Caso contr�rio, a hist�ria n�o existe, n�o h� mem�ria do cinema,
do cinema nacional e desaparece tudo.
E quando desaparece, as pessoas esquecem os grandes realizadores,
os grandes atores, as grandes atrizes,
e todo esse cap�tulo da hist�ria do cinema � perdido.
Era mais uma tradi��o oral.
N�o acredit�vamos em preservar as coisas, em escrever sobre elas,
em guard�-las.
Partia dos contadores de hist�rias, dependia da mem�ria.
O mestre falava, o aluno absorvia o que o mestre falava,
e por sua vez, ele acabava por passar isso.
E acho que se deu pouca �nfase a guardar
aquilo que era considerado sagrado ou que devia ser mantido...
... para a eternidade.
Quando eu prestava assist�ncia a Gulzar Sahib,
ele contou-me uma hist�ria de quando foi assistente de Bimal Roy,
em Kabuliwala.
Wazir Mohammad Khan, que representava nesse filme,
costumava falar sobre ter cantado a primeira can��o
alguma vez cantada na hist�ria do cinema indiano.
"De de khuda ke naam", no filme Alam Ara.
Infelizmente, nada resta dessa can��o, a n�o ser a hist�ria.
Este foi o local aonde vim, nos anos 60,
penso que em 66 ou 67,
principalmente para encontrar-me com Ardeshir Irani, o pai dos filmes falados.
Queria encontrar-me em pessoa com ele para ver se pod�amos...
... obter algumas bobinas de Alam Ara, o primeiro filme indiano falado.
Logo desde o in�cio, quando o Arquivo come�ou,
um dos filmes que est�vamos ansiosos
por conseguir era Alam Ara.
Entrei e vi-o sentado...
... � frente de uma grande mesa, junto do seu filho Sapurji.
Falei-lhe do Arquivo e do que est�vamos a tentar fazer e...
... do nosso interesse genu�no em preservar o Alam Ara.
Ele disse: "Devem estar algumas bobinas algures aqui,
mas n�o o filme inteiro."
Claro, ele ofereceu muitos negativos da Imperial Films,
e todo o material que eles tinham no est�dio,
pediu ao filho que nos entregasse.
Quando est�vamos a descer as escadas,
Sapurji tamb�m estava comigo. Ele pr�prio confessou:
"Eu livrei-me de tr�s bobinas, das que o meu pai fala,
ap�s lhes ter extra�do prata."
Foi uma esp�cie de confiss�o do filho de um grande pioneiro.
Um rolo de 16 mm vende-se por 4000 a 5000 rupias.
Se for um rolo pequeno, vende-se por 200, 300 rupias.
O de 35 mm � vendido por quilogramas. S�o 100 rupias por quilograma.
Quando eu era crian�a, o meu ver�o era passado a ver filmes em casa da av�.
Ela costumava reservar uma plateia do cinema
e sent�vamo-nos nas plateias.
Ficava sentado atr�s dela, e v�amos filme atr�s de filme.
Ainda me lembro dos momentos a cores de Pakeezah.
A interpreta��o de Meena Kumari de "Inhi logon ne".
E depois de Calcut�,
o meu av� trazia muitas vezes rolos a preto e branco de 16 mm de...
Devdas, Do Bigha Zameen, Bandini e alguns filmes de Raj Kapoor.
Lembro-me de cantar as can��es de Shree 420.
"Ramaiya Vasta Vaiya".
E c� estou eu agora. Rodeado por bobinas e filmes.
As imagens com que cresci, a desvanecerem e tornadas em prata,
ou braceletes coloridos.
Muitos dos produtores nunca quiseram preservar os seus filmes,
mesmo quando tinham muito dinheiro.
Eles tinham feito muito dinheiro. Mas assim que esse per�odo acabou,
nunca se interessaram em preservar os negativos,
ou em fazer interpositivos e tudo isso.
Nem fizeram isso.
Eles achavam que a vida da coisa...
Eles achavam que tinham tido retornos suficientes disso
e que a vida do filme tinha acabado. Mas de repente, quando surgiu a televis�o,
come�aram a exibir filmes na televis�o
e come�aram a obter receitas disso.
Depois come�aram a procurar pelos seus filmes,
mas eles n�o existiam.
Muita gente descobriu que n�o havia rasto do filme.
Um filme como Sholay, por exemplo, est� vivo ainda hoje.
PRODUTOR / REALIZADOR
Pode ser exibido e o dinheiro � recolhido todos os anos.
� dif�cil separar-nos de...
O principal tem de ser isso, sen�o
porque � que as pessoas n�o quereriam o seu trabalho preservado?
Era lei governamental. Um filme que ganhe um pr�mio nacional
tem de ser enviado para o Arquivo.
PRODUTOR / REALIZADOR
Ent�o envi�mo-los.
Os filmes com pr�mio foram enviados.
Mas n�o enviei todos os meus filmes e talvez isso tenha sido culpa minha.
N�s fazemos material pl�stico n�o-degrad�vel,
mas, infelizmente, transform�mos a nossa arte...
ATOR / REALIZADOR
... especialmente a do cinema, em material biodegrad�vel.
Os nossos realizadores nunca trataram o que fazem
como uma consequ�ncia hist�rica e como parte da heran�a do pa�s.
Sabe, como arquivista, eu recuso-me a acreditar
que Alam Ara esteja permanentemente perdido.
100% FILME FALADO
Aquando do seu lan�amento, Master Vithal era muito popular.
Master Vithal era o her�i do filme, Jillo Bai interpretava a m�e,
Moti era atriz na altura. Ela interpretava a mulher fatal.
Prithviraj participava.
ATRIZ
O filme foi lan�ado.
Antigamente, quando os filmes eram lan�ados,
muita gente ia v�-los,
havia uma multid�o!
Calcut� inteira enchia-se de gente!
100% FILME FALADO
Era tipo: "O her�i fala, ela tamb�m fala. Como � que isso pode ser?
Costum�vamos ver filmes mudos
em que, fosse qual fosse a cena, de luta ou outra, uma legenda apareceria.
Tipo, se ele dissesse: "Porque vieste aqui? Vai embora!"
Depois apareceria uma legenda a dizer: "Afasta-te de mim!"
E o p�blico lia-o.
A sala enchia-se de murm�rios.
Quando percebemos que era falado, ningu�m podia acreditar!
Toda a gente foi v�-lo, mulheres e crian�as...
Para verem realmente de onde vinha o som.
O QUE ACHAM DOS FILMES FALADOS?
Nos anos 60, in�cio dos anos 70, vagueava pelos est�dios antigos,
� procura de grava��es em qualquer canto do est�dio ou nos seus armaz�ns
e, por vezes, fora de Bombaim.
Locais pequenos como Bhusawal, Amarawati, ou Kakinada e Beswada.
Locais assim, entende?
Tinha sabido pelo Dilip Sahib que ele n�o tinha visto Mughal-e-Azam.
Por isso, pedi �s pessoas. Disse: "Por favor!
Voc�s t�m as bobinas que mostram aos alunos dos filmes de Dilip Sahib.
ATORES
Ele ainda n�o viu Mughal-e-Azam! Portanto, exibam-no para n�s agora."
E n�o � que aconteceu mesmo.
Em poucas horas, foi tudo preparado
e pela primeira vez na sua vida, ele viu Mughal-e-Azam nesse audit�rio, comigo!
Dificilmente, uma ou duas pessoas comigo, na nossa comitiva.
Mas acredite, o filme estava a ser exibido � minha frente
e Dilip Sahib estava sentado ao meu lado.
Quem conseguia ver o filme? Eu s� olhava para Dilip Sahib!
Conseguimos obter alguns filmes desses est�dios,
dos que tinham fechado.
O QUE RESTA DO EST�DIO BOMBAY TALKIES
Tal como Modern Theaters, Salem do grande T.R. Sundaram
e os est�dios Pancholi de Lahore.
Apesar de Bombay Talkies ter entrado em liquida��o,
de alguma forma, eu consegui obter Achhut Kanya, Bandhan, Kangan, Jhula
e tamb�m Kismet, que tinha a maior dura��o.
E depois os cl�ssicos do New Theaters, gra�as ao Sr. B. N. Sircar,
Chandidas, Devdas, President, Vidyapati, Mukti
e at� o primeiro filme realizado por Bimal Roy.
N�o vim para ser um obst�culo, para me meter no teu caminho.
- Mas, tu... - Sim, eu.
Hoje, deixei toda a minha riqueza para tr�s
e vim fazer servi�o social, como tu.
"Vieste"? Diria que te chegaste � frente.
N�o deixaste a tua riqueza para tr�s. Mas h� riqueza diante de ti.
As pessoas por quem vieste,
encontrar�s verdadeira riqueza nelas.
Lembro-me de quando Ashok Kumar veio ao Instituto
para inscrever a filha Priti Ganguly, em interpreta��o.
Ele perguntou: "Tem Achhut Kanya no Arquivo?"
E eu: "Tenho Achhut Kanya, e tamb�m o seu primeiro filme, Jeevan Naiya,
que foi o seu primeiro com Bombay Talkies."
Ele ficou muito entusiasmado, quase que ficou chocado.
Primeiro, ele disse-me: "N�o, Achhut Kanya tamb�m est� perdido."
E eu: "N�o se preocupe com isso, est� bem seguro no Arquivo
e temos uma vers�o nova."
Uma das minhas vers�es a preto e branco favoritas.
Ele pessoalmente
recolheu v�rios filmes por toda a cidade...
REALIZADOR
... de antiqu�rios, de v�rias outras fontes
e construiu o Arquivo, tijolo a tijolo.
� realmente extraordin�ria, a quantidade de trabalho que Nair teve.
A �nica pessoa equivalente em que consigo pensar
� aquele grande homem que come�ou a Cinemateca em Paris.
O meu objetivo era mostrar sombras
dos vivos a coexistir com sombras dos mortos,
pois isso � a ess�ncia dos filmes.
FANTASMA DA CINEMATECA
Suplanta o tempo e o espa�o.
Vai para l� da quarta dimens�o.
Algu�m me levou � sess�o da noite
na Cinemateca.
Eles t�m uma sala de cinema na cave do Museu do Homem.
Um amigo meu levou-me l�,
e eu vi Langlois sentado num banco,
no foyer.
COURCELLES: SEDE DA CINEMATECA
Conheci-o e ele pediu-me que fosse � sess�o de exibi��o.
No dia seguinte, fui ao seu escrit�rio. Era um edif�cio antigo e hist�rico
e eu subi as escadas de madeira, ele estava no primeiro andar.
O ch�o era em madeira tamb�m.
O meu filme Bhuvan Shome foi exibido em 1969, em Veneza...
REALIZADOR
... e, nessa noite, muita gente estava l�,
� minha volta
e tive de falar sobre o filme.
E depois, a Madame Kawakita,
que � muito importante no cinema japon�s
e a respons�vel por
trazer Kurosawa ao cinema mundial,
ela perguntou-me em que hotel eu estava...
... e o n�mero de telefone.
Est� l�. Sim.
Quem fala?
Ou�a, se deseja falar com o Sr. Henri Langlois, volte a ligar
�s nove. Acho que ele estar� c�.
Bom dia, senhor.
Na manh� seguinte, fui acordado por um telefonema.
Estava no meu quarto de hotel.
A pessoa ao telefone disse: "Estou a falar com Mrinal Sen?"
E eu disse: "Sim, sou eu."
"Sou o Langlois de Paris."
De imediato, senti que o telefone me ia cair da m�o,
e quase caiu!
E eu disse: "Voc� � o Sr. Langlois?
Estou a falar com o Sr. Langlois?" "Sim, est� a falar comigo.
Ent�o, quando vem a Paris?"
E eu: "N�o, n�o tenho planos de ir a Paris.
De Veneza, eu irei para Roma,
de Roma, apanharei um voo para Calcut�, para a �ndia,
para Deli e depois para Calcut�."
E ele disse: "N�o, voc� tem de vir a Paris primeiro.
Altere os seus planos,
voc� tem de vir a Paris. E depois, quando vier a Paris,
venha com o seu filme."
Ele perguntou-me: "Quantos filmes tem no Arquivo?"
Por acaso tinha uma c�pia do meu cat�logo, na altura,
copiografado.
E ele folheou o cat�logo,
pegou na caneta e marcou alguns t�tulos.
Fiquei a olhar, demorou cerca de cinco a dez minutos.
Ele lia cada p�gina e marcava alguns dos t�tulos e...
... eu apenas olhava.
Finalmente, ele disse: "Muito bem,
voc� tem mais do que 40, 50 filmes do per�odo pr�-1950.
Entende?"
E ele disse: "�timo, voc� fez um bom trabalho."
Ent�o ele estava a marcar os filmes anteriores a 1950.
Por a�, eu deduzi,
ele confirmou o meu conceito de que a verdadeira for�a de um arquivo
n�o est� na quantidade de filmes existentes do ano anterior,
mas a quantidade de filmes do in�cio do cinema,
filmes com, pelo menos, 50 anos.
O Langlois era um artista
e era um homem muito grande e opulento,
que dizia o que tinha a dizer,
ao governo ou ao ministro ou a quem quer que fosse.
Ele era um ditador.
Ele arranjou muitos sarilhos com v�rios governos,
mas no final de contas, ele ganhou.
O Sr. Nair, por outro lado, era mais discreto
e t�o bom arquivista quanto Langlois.
Mas ele trabalhava discretamente e trabalhava...
... com um �nico objetivo.
E esse objetivo era o de preservar a heran�a do cinema indiano.
Pessoas assim n�o aparecem facilmente.
E mais tarde, quando ele disse isso:
"Tenho o filme Bhuvan Shome. Ele estar� comigo."
E depois recebi um telefonema de uma Marie... Como se chamava?
Uma senhora brit�nica?
- Marie Seton. - Marie Seton.
Marie Seton ligou-me:
"Mrinal, como � que o deu a Langlois?
Sabe que ele far� uma c�pia pirata do filme?"
E eu disse: "Olhe que sorte a minha,
o Langlois ter feito uma c�pia pirata do meu filme."
� verdade que voc� roubou filmes e que foi para o laborat�rio
para fazer c�pias desses filmes?
- N�o entendi... - Roubou filmes?
Creio que, quando um filme chegava para ser exibido
ou quando chegava para um festival de cinema,
voc� costumava fazer uma c�pia do filme.
Essa n�o � uma boa palavra para um arquivista.
� verdade que...
... obtemos filmes de arquivos estrangeiros...
... e...
... com um tipo de acordo, � quase um acordo pessoal em que...
... n�s realmente queremos um filme. Porque eu lembro-me
de The Hour of the Furnaces, o filme argentino de Fernando Solanas.
Ele veio para o festival e pedi-o emprestado para uma exibi��o,
para o mostrar aos alunos.
Por norma n�o se pode enviar filmes para fora sem permiss�o.
De alguma forma, obtive-o porque era preciso ser exibido,
pois � um grande filme.
Consegui que viesse para aqui e fiz uma c�pia.
� verdade. E devolvi-a, um dia ou dois depois.
Oficialmente, foi s� para exibi��o.
Mas n�s n�o...
... regist�mos que o fizemos.
Acho que um verdadeiro arquivista...
... deve ter imunidade para...
... ultrapassar esses problemas legais.
Uma hist�ria de que sempre ouvimos falar,
quando um filme chegava ao Instituto para exibi��o...
REALIZADOR
... de qualquer parte do mundo,
� que ele pegava nesse filme, que o levava para o laborat�rio
e que dizia: "Fa�am uma c�pia disto."
E que durante a noite, uma c�pia era feita e que o filme se ia embora,
para ele pelo menos ter uma c�pia no Arquivo.
N�o sei se � verdade, mas
s�o as hist�rias que ouv�amos em rela��o a ele.
Havia um filme fant�stico chamado A Batalha de Argel,
que chegou para o festival de 1974,
e que depois ele levou para o Instituto...
REALIZADOR
... e fic�mos impressionados e dissemos: "Nair Sahib, temos de ter este filme!"
E ele disse: "Deixem-me fazer um plano."
Acho que ele falou com os distribuidores do filme,
que tinham levado o filme, e disse:
"Podem deixar esta vers�o para tr�s?"
E eles: "Mas achamos que voc� tem uma boa c�pia de Pather Panchali..."
"Sim!"
Portanto, tenho a certeza de que a caixa que tinha A Batalha de Argel escrito,
voltou para Fran�a com um conjunto de bobinas chamadas Pather Panchali
e n�s fic�mos com A Batalha de Argel.
Quando eu estava no Instituto,
�ramos apenas quatro ou cinco raparigas em todo o Instituto.
ATRIZ
Eu era a �nica rapariga que podia ir �s sess�es da noite.
Era quando Nair Sahib via os filmes,
porque Nair Sahib disse � minha governanta da pousada
que eu me sentava mesmo a ver o filme.
Que eu n�o me punha a vaguear, mas
foi a� que aprendi tudo sobre cinema.
A ti, meu nobre filho.
Sim, finalmente diriges-te para as montanhas!
Dada, eu queria mesmo viver!
- Eu adoro viver! - O que aconteceu?
Dada, eu viverei!
- Dada, eu viverei! - O que est�s a dizer?
Dada, di-lo apenas uma vez, eu viverei!
Dada!
Dada, eu quero viver!
Dada, eu quero viver!
- De que est�s a falar? - Dada, eu quero viver!
- Eu quero viver! - O que se passa contigo?
- O que se passa contigo? - Eu quero viver!
Eu quero viver!
Eu quero viver!
Eu quero viver!
Eu quero viver!
Uma destas salas acabou por se tornar
na sala permanente de Ritwik Ghatak.
Acho que deve ser uma destas salas aqui.
�, novamente, um local hist�rico,
onde costum�vamos ter longas discuss�es sobre cinema,
at� tarde.
Ritwik costumava estar rodeado por pessoas como o Imperador Akbar.
Pessoas de diferentes meios.
E de certa forma, Nair Sahib era uma delas.
Ele era como se fosse um colega, naquela altura,
um colega nosso. Ele estava...
... a apanhar uma perspetiva sobre o cinema de um �ngulo de arquivo,
ao passo que n�s est�vamos, obviamente,
a trabalhar com a lente e com a luz e...
... com a interpreta��o, m�sica, etc.
Ele detestava Bergman, ele era um charlat�o, dizia ele!
Alguns dos seus grandes inspiradores eram pessoas como Dovzhenko.
Era uma rela��o de arrog�ncia
muito estranha de um lado e submissa do outro.
E tinha-se o Sr. Ghatak a perguntar: "Ei, Nair! Qual � o filme desta noite?"
Ent�o ele dizia o filme,
e Ghatak diria: "N�o gosto desse realizador. Outro filme!"
E depois ele diria: "Posso exibir ambos?"
E ambos os filmes eram exibidos numa s� noite.
Dois filmes. Para n�s era �timo que houvesse esse debate entre eles.
V�amos dois filmes, um a seguir ao outro.
Mas creio que o Sr. Nair percebeu a excentricidade...
... e a singularidade de um tipo chamado Ghatak,
e permitiu-lhe ter este tipo de controlo nas sess�es da noite.
Ele costumava dizer que Satyajit s� tinha feito um filme e meio,
o Pather Panchali e a primeira metade de Aparajito.
Claro, o exemplo de realiza��o de que ele deve estar a falar
deve ser a sequ�ncia de Benares em Aparajito.
Houve uma exibi��o do Double Suicide de Shinoda,
e fic�mos todos muito entusiasmados pois era uma vers�o nova,
vinda diretamente do Jap�o, dos arquivos japoneses.
Fomos todos chamados e Ghatak Sahib sentou-se connosco
e n�s �ramos cerca de 40 perto dele, � volta dele.
E depois o filme come�ou.
E o Double Suicide � uma esp�cie de demonstra��o na arte dos fantoches.
E devia ter visto Ghatak a zangar-se,
ele disse: "O que � isto?
Isto � um insulto ao teatro japon�s, aos fantoches japoneses.
O teatro deve ficar no teatro, n�o deve ser misturado com cinema.
Crian�as, levantem-se! Vamos!
Nair Sahib, n�o deves mostrar tais filmes no campus!"
E ele foi embora!
E depois de ter ido embora, Nair Sahib disse: "Bem, v�o ent�o,
eu vou continuar a ver o filme."
N�o, n�o acho que seja verdade. Deve ser imagina��o do Hariharan.
Lembro-me de ter encontrado Shinoda no Festival de Cinema de T�quio.
Imediatamente ap�s eu ter obtido Double Suicide para o Arquivo,
eu vi-o e fiquei impressionado.
Por isso, fiquei com muita vontade de obter os outros filmes dele tamb�m.
Porque vi que ele era um excelente realizador,
que estava a tentar encontrar uma esp�cie de s�ntese
entre o idioma teatral e o meio cinematogr�fico.
� a menina Tomioka?
Quase a acabar?
Quase, exceto a parte do suic�dio.
A sequ�ncia de suic�dio dos amantes...
Eles passam um cemit�rio.
Encontraste um local?
O Ghatak, sabe, deve ter bebido uns copos � noite,
e Jagat Murrari, o diretor na altura,
n�o gostava da ideia de algu�m beber dentro do campus do Instituto.
O Ghatak veio a saber disso e disse:
"Certo, eu n�o vou ficar aqui, eu vou sair."
Eu estava do lado de l� da rua noutro apartamento de um quarto,
e ele disse: "Vou ficar contigo."
Essa foi uma linda �poca.
N�s partilh�mos o mesmo quarto durante quase dois meses.
Durante a sua vida, o seu primeiro filme n�o foi lan�ado.
Nagarik. Mais tarde, exatamente um ano depois...
ESPOSA DE RITWIK GHATAK
... foi encontrada uma bobina no laborat�rio de cinema de Bengala,
que foi enviada para Pune. O Sr. Nair depois disse:
"Vamos preservar todo o trabalho de Ritwik Ghatak."
Ele depois fez um duplicado do negativo e uma vers�o que nos enviou.
Logo desde os irm�os Lumi�re a Griffith e aos pioneiros mais modernos,
eu procurava obter os seus trabalhos tamb�m,
e devo mencionar Ernest Lindgren do Instituto de Cinema brit�nico
que nos ajudou muito na constru��o do projeto para o Arquivo.
Troc�mos Sant Tukaram com o Arquivo brit�nico
pelo Chantagem do Hitchcock.
CHANTAGEM
Enviamos um filme com 12 bobinas, eles enviar�o
um filme que n�s queremos de igual comprimento,
� um acordo por troca. N�o h� dinheiro envolvido.
Na verdade, n�s recebemos muitos filmes do Arquivo russo como oferta.
Eles enviaram cerca de 20 filmes,
como parte de uma retrospetiva russa...
... de filmes mudos, com companhias de cinema
e ap�s circula��o, eles disseram: "Podem ficar com os filmes no Arquivo.
N�o os queremos de volta."
Continha filmes como O Coura�ado Potemkine, A Greve, Velho e Novo,
Alexander Nevsky, os grandes filmes de Eisenstein, Pudovkin,
e dos mestres russos, Dovzhenko.
Foi l� que vi o meu primeiro filme de Tarkovsky.
DIRETOR DE FOTOGRAFIA / REALIZADOR
Foi quando percebi
que n�o � o diretor de fotografia o capit�o da equipa,
mas sim o realizador.
Eu estava t�o envolvido com a parte visual tal como com a espiritualidade do filme.
E, praticamente, dessa forma,
o meu conceito de realiza��o come�ou com os filmes
que eram exibidos por Shri P. K. Nair.
Recebemos A Estrada do Arquivo jugoslavo.
De alguma forma, eles tinham uma c�pia.
E...
... por vezes, recordo-me, do Arquivo checo,
n�s recebemos filmes americanos com legendas checas.
E eu disse: "Afinal de contas est� em ingl�s.
Portanto podemos ficar com eles mesmo que tenham legendas checas."
Alguns realizadores como John Abraham estavam marcados pelo Sr. Nair.
Ambos gostavam muito dos filmes de Paolo Pasolini.
E uma noite, aparentemente, John Abraham foi a casa de Nair,
e exigiu ver de imediato O Evangelho Segundo S�o Mateus,
e eram tr�s da manh�!
E aparentemente, Nair Sahib levou-o ao cofre, tirou o filme,
montaram-no,
e esperaram que o projecionista, o Sr. Ramayan, chegasse...
DIRETOR DE FOTOGRAFIA
... e depois viram o filme at� de manh�.
E depois disso, sentaram-se e discutiram o filme deles,
o pr�ximo do John, Amma Ariyan, que eu filmei,
at� �s nove da manh�. Tomaram o pequeno-almo�o e ele saiu.
N�s t�nhamos um trabalho em que t�nhamos de estudar um realizador
e eu escolhi Hitchcock.
Lembro-me de me encontrar com Nair Sahib e de dizer que queria ver os filmes...
REALIZADOR
... e na altura n�o havia leitores, claro, ainda eram um sonho.
Ele disse-me: "Est� bem, estes s�o os filmes que temos."
T�nhamos no Arquivo cerca de uma d�zia ou mais de filmes,
e ele disse-me para ver o Psico,
O Desconhecido do Norte-Expresso e mais um filme, Difama��o,
e costumava sentar-me no Steenbeck e analisava-o, rolo a rolo,
e ele dir-me-ia...
Que � quase como se algu�m estivesse l� em cima a guiar-te para ver os filmes.
Devo t�-los visto umas dez vezes no Steenbeck,
e ter visto cada filme de tr�s para a frente, a estudar planos.
Acho que algures, isso ainda est� na minha cabe�a...
Quer dizer, ajuda-me. Quando estou a fazer um filme,
eu lembro-me bem dessas coisas.
V�amos todos aqueles filmes de pessoas de todo o mundo
e uma coisa que havia em comum nesses filmes eram os riscos.
Havia riscos no final da bobina.
Era algo muito interessante,
era tamb�m muito nost�lgico.
E recentemente, quando eu estava a filmar para o Meenaxi de M. F. Hussain,
quando eu estava a filmar para o filme... E quando o filme foi exibido,
M. F. Hussain ficou muito feliz por ver as cores e tudo isso.
Depois ele costumava dizer: "Mas, Santosh, o que aconteceu aos riscos?
Eles v�o aparecer? V�o acontecer?" Porque para eles � algo nost�lgico.
Acho que o cinema tem tantos significados diferentes para gente diferente.
E essa experi�ncia surge, basicamente, de o ver num cinema.
Que � sempre onde est� a magia, creio eu.
INTERVALO
O RIO SAGRADO
Consegui o filme O Rio Sagrado por acaso.
Eu conhecia o Sr. Amit Khanna na altura. Ainda o conhe�o.
E ele disse-me uma vez: "Olha, deparei-me com um filme, O Rio Sagrado."
REALIZADOR
"A s�rio, O Rio Sagrado? O do Renoir?"
Ele nem sabia quem era Renoir, ou o que era O Rio Sagrado!
Depois ele mostrou-mo. E eu perguntei ao Nair, conhecia-o bem.
Ele tamb�m estava entusiasmado. O filme tinha sido filmado na �ndia
pelo Renoir, e Satyajit Ray tamb�m participara.
Ele disse: "Isso ser�, definitivamente, uma bela aquisi��o."
Assim, peguei no filme e dei-o ao Nair. Ele ficou com ele.
J� que era uma organiza��o governamental,
acho que era, talvez, impl�cito que eles pagassem alguma coisa,
por isso, ele pagou-me 21 000 rupias.
Claro, eu fiquei com elas. Nunca as dei ao meu amigo,
ao Amit Khanna.
Um filme bengali, o Jamai Babu,
soubemos dele, gra�as ao Sr. Mrinal Sen.
Ele foi filmar Akaler Sandhane e encontrou uma bobina num edif�cio antigo,
e de imediato, obtive a informa��o e consegui a bobina.
7 de Setembro de 1980
Uma equipa de filmagem deixa Calcut� a caminho de uma vila.
Uma vila chamada Hatui.
O nome do filme...
Foi em 1980 que eu fiz um filme sobre...
... a grande fome de 1943.
Foi numa vila atacada pela fome, mesmo em 1980.
Ent�o fui l� e recriei 1943.
Est�vamos todos numa grande casa, agora em ru�nas.
E havia l� muita gente.
Havia 13 pessoas a partilharem a casa, o edif�cio.
Todos os quartos cheios. N�o havia quartos para solteiros.
Ent�o, um deles, de Calcut�, costumava vir uma vez por semana.
Ele disse-me: "O meu pai fez um filme h� bastante tempo.
Chama-se Jamai Babu, que significa cunhado."
- Os quartos s�o todos assim? - Grandes e pequenos.
Assim, de debaixo da mesa, de debaixo da toalha,
ele tirou-o. As bobinas,
havia v�rias bobinas, cerca de dez ou 12, n�o me lembro.
Voltei para Calcut�, liguei ao Nair
e disse: "Toma algum material."
CUNHADO DE UPEN BABU
Um dos filmes mudos indianos
obtivemo-lo do meu colega de Banguecoque,
do Arquivo da Tail�ndia.
O Dome, ele era um grande amigo meu, um tipo apaixonado,
e ele disse que quando foi ao camarote de um cinema de Banguecoque,
encontrou, nesse camarote, uma bobina antiga, olhou para ela
e viu... Savitri.
Ele achou que devia ser um filme indiano
e de imediato contactou-me a dizer:
"Encontrei um dos teus filmes antigos. Estar�s interessado?"
E eu disse que sim. Ele s� tinha uma condi��o. Disse:
"Por favor, envia-nos uma c�pia para o nosso Arquivo."
Ele veio a descobrir que havia tr�s rolos do primeiro filme em canarim
num entreposto em Hubli.
Hubli � uma cidade no norte de Karnataka.
Ele esfor�ou-se muito para obter essas tr�s bobinas.
E n�o � um filme completo, s�o s� tr�s bobinas.
Mas, sabe que mais, fiquei muito emocionado por isto,
porque esse � o verdadeiro esp�rito de um arquivista.
Qualquer pessoa teria dito: "O filme � significativo?
Ter� algum valor importante mais tarde?
Se n�o, n�o nos incomodemos." Ele nunca diria isso.
Porque ele sabia que, j� que era o primeiro filme em canarim,
o primeiro filme falado em canarim,
ele sabia a import�ncia hist�rica deste filme.
REALIZADOR K. SUBRAHMANYAM
O sul contribui com cerca de 60 por cento dos filmes indianos,
entre estas quatro l�nguas: t�mil, telugo, canarim e malaiala.
Um dos mais importantes filmes do sul da �ndia
que obtivemos foi o Thyagabhoomi de K. Subrahmanyam.
O sul especializava-se em mitologia e folclores,
mas tamb�m eram respons�veis por alguns
dos filmes socialmente relevantes
e o Thyagabhoomi foi um dos mais importantes.
Tamb�m tive a sorte de conhecer
outro realizador lend�rio do sul,
o grande artista S. S. Vasan dos est�dios Gemini.
Ele disse: "De todos os filmes que eu fiz at� agora,
considero que s� dois ou tr�s valem a pena ser preservados."
Depois disse-me que os filmes eram Chandralekha, claro,
que foi um dos marcos do cinema indiano.
E o segundo foi o Mr. Sampat, que era um filme hindi.
Era a vers�o hindi de um filme em t�mil
que ele tinha feito anteriormente, intitulado Miss Malini.
O terceiro foi Avvaiyar, o grande filme em t�mil sobre a grande poetisa.
Esses eram os tr�s filmes
e ele deu uma c�pia de Chandralekha,
como contributo da sua parte, sem qualquer custo.
Bom dia! Fala Nair de Pune.
Shivendra Singh est� a fazer um filme sobre mim, sabias?
Ele estava a tentar contact�-lo para gravar uma entrevista.
Eles ir�o a Trivandrum nos dias sete e oito.
De certa forma...
... eu fui respons�vel por salvar o �nico exemplar de Marthanda Varma.
O primeiro filme tinha sido totalmente perdido.
Tinha sido o segundo filme produzido em Kerala.
Foi a cria��o de uma pessoa chamada Sundar Raj.
Ele tinha trabalhado como assistente de um familiar seu,
que tinha sido o primeiro realizador, J. C. Daniel.
Claro, o primeiro filme,
quando falamos dele, n�o h� nada dispon�vel sobre ele,
exceto alguns fotogramas que conseguiram sobreviver.
N�o h� nada dispon�vel, nem sequer o gui�o.
Foi um amigo meu, um jornalista amigo meu,
que tinha um grande interesse em cinema, que me disse que havia...
... uma c�pia de Marthanda Varma, o segundo filme em malaiala...
... estava dispon�vel, algures.
Ele tamb�m sabia quem o tinha.
Era o entreposto de livros de Kamalalaya, mesmo no cora��o da cidade.
Muito perto do edif�cio do Secretariado.
Assim, aproveitei a dica,
e com alguns amigos meus, fui l� ver.
Estava na cave do edif�cio.
Na verdade, ningu�m se aproximava daquela caixa.
Eles tinham medo... Era tratada como dinamite.
Podia explodir � mais mera fric��o,
assim, n�s abrimos a caixa
e vimos que cheirava mal, mas isso n�o era problema.
O filme foi baseado num romance famoso, um romance malaialo de C. V. Raman Pillai,
e a editora era um entreposto de livros, um entreposto em Kamalalaya.
Eles publicaram-no.
Os realizadores que tinham feito o filme, em 1930,
fizeram uma exibi��o s� para convidados, antes da exibi��o ao p�blico.
E, como n�o obtiveram os direitos da editora,
foram processados e receberam uma provid�ncia cautelar.
O filme foi confiscado do cinema ap�s a sua estreia!
Por isso, nunca foi mostrado ao p�blico.
DEVOTOS FERVOROSOS NO TEMPLO DO AMOR
Verific�mos os registos
e vimos que esse filme n�o estava nos registos da censura.
Isso queria dizer que o filme nem tinha sido censurado.
Lembro-me de ter levado a caixa que continha o filme,
na mala do carro, e que a lev�mos para o escrit�rio.
E da�, foi enviada para Pune.
E, em Pune, eles descobriram que os pinh�es tinham desaparecido
e que era altamente inflam�vel. N�o podia funcionar num projetor,
assim, K. P. R. Nair, que era conferencista no Instituto,
criou um sistema
atrav�s do qual ele podia copiar o filme, fotograma a fotograma.
Quando o filme estava, finalmente, completo,
vimos que era material muito valioso,
al�m de apenas ser um filme.
Era um document�rio sobre a prociss�o Aarattu.
ELEFANTES DE ESTADO DECORADOS COM HOUDAS
� muito t�pico... A realeza, o maraj� do estado
vai para a prociss�o com...
NUM PALANQUIM ADORNADO
... toda a cavalaria, tudo o acompanha.
� uma prociss�o espetacular.
Basicamente, a ideia de Sundar Raj era tornar aquilo uma atra��o,
uma atra��o adicional para que o povo
assistisse no Capitol Theatre, onde estava a ser exibido.
Havia uma distribuidora chamada Krishna Pictures.
PRESIDENTE DA FEDERA��O DAS COMPANHIAS DE CINEMA DA �NDIA
Disse-me: "Vens � minha oficina, num entreposto."
Eles tinham uma oficina para carros.
"Est� aqui um filme h� muito tempo.
V�s o filme e, se estiveres interessado, podes exibi-lo."
E eu vi o filme,
era o Vasantasena de R. Nagendra Rao.
Um filme muito interessante e muito antigo.
Ent�o peguei nele e levei-o para o est�dio Chamundeshwari
e verifiquei o rolo.
Eles limparam o rolo e decidiram exibir o filme.
Assim, eu convidei a imprensa e tamb�m a sociedade cinematogr�fica
ao est�dio Chamundeshwari para uma exibi��o.
E depois da exibi��o, toda a imprensa, a imprensa canarim e outra,
deu muita publicidade ao acontecimento.
E o Nair leu sobre isso.
O Nair veio a saber e leu sobre isso. E ele ligou-me.
"Ei, Sr. Rao, parece que voc� encontrou um filme chamado Vasantasena.
Ajuda-me a obter o filme?" Disse-lhe que estava dispon�vel para isso.
Depois, fui � Krishna Pictures e disse: "Porque n�o d�o isto,
faremos umas c�pias, uns negativos extra, e preservamo-lo no Arquivo."
"Sem problema!"
Depois o Nair veio, um dia, e ajud�mo-lo a levar o filme.
Ainda est� no Arquivo.
Eu encontrei n�o s� filmes do meu pai, mas tamb�m encontrei folhetos...
... do passado. P�steres dos filmes do meu pai que estavam l�
e encontrei uma parte da minha inf�ncia que n�o estava no meu �lbum de fam�lia
ou em qualquer outra parte em que vivo.
Mas estava l�.
T. P. Kailasam fez um filme.
Soubemos dele, mas nem o vimos.
Desapareceram todos.
Por isso eu sinto frequentemente
que n�s temos um passado rico, mas uma hist�ria muito m�.
Enquanto o Ocidente tem um passado significativo,
n�o um passado rico, mas uma hist�ria muito significativa.
Ap�s ter ganhado o Pr�mio Nacional, eu levei o filme para l�.
Exibi-o aos alunos, � equipa e aos professores.
Nair Sahib tamb�m o viu.
Ap�s a exibi��o, Nair Sahib ligou-me e disse:
"Tem de vir encontrar-se comigo."
Fui e encontrei-me com ele no seu escrit�rio. Ele disse:
"Quantas c�pias do filme tem?"
Eu disse: "Com esta, mais uma."
REALIZADOR
Ent�o, ele disse: "Deixe esta c�pia aqui."
Eu disse: "Nair Sahib, n�o a posso deixar aqui."
"N�o", disse ele. "Deixe-a aqui.
Voc� pode fazer tudo com a outra c�pia,
deixe esta aqui." N�o me deixou levar a outra c�pia.
Ele disse: "Envie a conta.
Certificar-me-ei de que seja paga em uma semana."
Como combinado, foi o que aconteceu.
Ele era t�o �ntimo com os filmes.
Ele cheirava filmes, comia filmes,
ele...
... bebia filmes.
Ele era assim. O Nair.
Outra coisa fascinante era
quando vias o teu peso na balan�a antiga,
sa�a um cart�o
e no verso do cart�o estava sempre uma estrela de cinema,
especialmente estrelas de Hollywood,
com uma pequena biografia de duas ou tr�s linhas.
E lembro-me de recolher todas essas balan�as
que continham v�rias estrelas,
a grande Greta Garbo, Marlene Dietrich...
... Cary Grant e todas essas grandes estrelas.
Por isso, eu tinha este fasc�nio
por recolher coisas relacionadas com o cinema,
em qualquer forma, dentro das minhas possibilidades.
Ele estava t�o apaixonado pelo cinema,
apaixonadamente apaixonado pelo cinema...
REALIZADOR
... que, por vezes, eu costumava sentir
que talvez ele negligenciasse a fam�lia.
Costumava pensar nisso, na �poca e agora.
Talvez ele devesse prestar mais aten��o � fam�lia, aos seus filhos.
N�o era um emprego das 9:00 �s 17:00.
Ele sa�a de manh�...
FILHA DO SR. NAIR
... por volta das 9:00. Mas para ele,
n�o havia uma hora fixa para regressar a casa.
Ele costumava chegar muito tarde a casa.
Por vezes, depois da meia-noite.
Mas n�o havia dia em que chegasse �s 17:30, 18:00 ou 18:30.
Ele nunca comia a horas
e, na maioria das vezes, a minha m�e tinha de esperar que ele chegasse a casa.
Finalmente, ela decidia ir cham�-lo.
Assim, todos os dias, ela costumava ir a p� desde a casa
onde est�vamos, at� ao escrit�rio, que era relativamente perto.
Ela costumava traz�-lo para casa.
Se ela n�o fosse,
ele esquecia-se de comer e dormia no escrit�rio.
Uma vez, ele dormiu a noite toda no escrit�rio.
Ele acordou de manh� e voltou para casa.
Ele era muito descuidado com as suas refei��es...
... e as suas necessidades b�sicas,
e a minha m�e tinha literalmente de andar atr�s dele por tudo e por nada.
Depois da reforma, ele mudou muito.
Ele � ativo, mas sinto...
Pode dizer-se que, de facto, a nossa rela��o com ele mudou.
N�s passamos, mais ou menos... Passamos tempo um com o outro...
... e at� quando falamos,
n�s falamos sobre muitas coisas, ao telefone e quando nos encontramos.
Antes n�o havia tais conversas.
Depois da minha reforma, eu constru� esta casa, esperando...
... ficar em Trivandrum nesta linda paisagem.
Ap�s a morte da minha esposa...
Claro que tamb�m me envolvi em filmes em Trivandrum.
Iniciei as duas primeiras edi��es do festival internacional de Kerala,
tamb�m criei um festival de v�deo.
Ent�o, assim, mantive-me ocupado com filmes mesmo em Trivandrum.
Com os realizadores, com as companhias de cinema,
fundei uma companhia de cinema, aqui, chamada FILKA,
mas ainda me sentia um pouco solit�rio,
porque pass�vamos grande parte do nosso tempo em Pune,
a melhor parte da minha vida foi passada, em Pune,
e afei�oei-me muito a Pune.
Estou a regressar a Thiruvananthapuram depois de 20 anos.
FESTIVAL INTERNACIONAL DE KERALA
Tenho colegas muito antigos,
alguns realizadores idosos, cr�ticos de cinema,
gente que criou o cinema indiano
e que lhe deu estatuto internacional.
Os meus cumprimentos a...
... Adoor, Nair Sahib. Aprendi tanto com eles.
Essas duas pessoas especiais, Nair Sahib e Adoor,
quando eles est�o presentes, percebe-se que � um bom festival...
... percebe-se que � um festival leg�timo, sabemos que os filmes ser�o bons.
Muitas coisas estavam a acontecer no Arquivo ap�s a minha reforma,
algo que me magoou porque os filmes n�o estavam a ser tratados adequadamente,
os que eu obtive.
Ent�o sempre tive alguma �nsia de l� voltar
e ver o que se estava a passar
e, pelo menos, esfor�ar-me e convencer as pessoas
para que cuidem desta heran�a.
Porque havia tanta hostilidade contra o Sr. Nair?
Na verdade, ele nem sequer podia entrar no Arquivo.
EX-DIRETOR DO ARQUIVO NACIONAL DE CINEMA DA �NDIA
E lembro-me que, quando quis gravar com ele,
demorei quase 11 meses para, finalmente, obter permiss�o
para filmar com o Sr. Nair no Arquivo.
Uma raz�o que pude deduzir...
... foi o seu "narcisismo"...
... a sua...
... franqueza sobre as coisas e de ver defeitos em tudo.
Se havia algo de errado com alguma decis�o tomada no Arquivo,
ele costumava questionar isso. Mesmo como um cidad�o.
Algu�m pode ter ficado ressentido com isso.
Para al�m disso, n�o vejo outra raz�o.
O Arquivo tem de ser bem mantido.
N�o � bem mantido. Precisa de ser bem preservado.
Tem de ter uma temperatura espec�fica,
precisa de um n�vel de humidade espec�fico,
e n�o pode ter p�.
Para que as pessoas entrem e saiam.
O que eles fazem �... Temos o armaz�m,
quando retiram algo do armaz�m,
eles levam-no aberto para as duas divis�es.
Como se fossem locais interm�dios,
onde se leva o filme e se v� como est�.
As janelas est�o abertas, o ar entra, o p� entra.
Ningu�m se preocupa. O filme est� ali.
N�o, eles n�o conhecem a import�ncia de tudo isso,
porque n�s n�o temos uma cultura de arquivo.
O que aconteceu uma vez foi que a federa��o tinha
uma reuni�o do conselho central, em Bangalore.
Pedi ao Nair que desse tr�s pacotes especiais, filmes especiais.
Ele deu o Jules e Jim que � do Fran�ois Truffaut,
um filme maravilhoso que o povo de Calcut� queria ver.
Assim, consegui-o do Arquivo.
Levei-o a Bal Bhavan e exibi-o.
Infelizmente, ele tinha cortado as pontas da fita,
porque eu estava muito ocupado com a reuni�o, nem vi.
E o filme tinha sido enviado
e n�o havia bobina e as pontas da fita estavam cortadas...
N�o havia pontas da fita. Ele ficou enraivecido, digo-lhe.
Ele disse-me: "Sr. Rao, a minha amizade consigo desapareceu.
Tem de arcar com as consequ�ncias.
N�o, eu nem gosto de falar consigo!" Ele era t�o severo.
Eu fiquei t�o desesperado. Nem sabia o que...
A culpa era minha, n�o me interessei,
porque eu estava ligado a outra coisa.
Acredite ou n�o, na semana seguinte, a meu pr�prio custo, eu fui a Pune.
Eu implorei-lhe: "Estou a seus p�s, por favor, perdoe-me desta vez,
este erro � meu."
Todos os dias, ele ficava ansioso por ir trabalhar.
Ele costumava acordar de manh�,
lavava os dentes,
e a primeira coisa que fazia quando se sentava era
esperar uma chamada de algu�m que lhe era muito pr�ximo.
Algu�m do mundo do cinema.
Ele esperava pelo telefonema ou esperava que a campainha tocasse,
para que algu�m viesse a casa.
Entretanto, n�s est�vamos sempre ansiosos para que
ele falasse connosco sobre outros assuntos da fam�lia
e que discutisse o programa da noite e tudo
pelo que ele n�o tinha qualquer interesse.
Esta � a minha esposa com o Bijju, o meu filho mais velho,
com cerca de tr�s, quatro anos.
Esta � a irm� da minha esposa e o esposo dela.
Esta � tamb�m de uma reuni�o familiar.
Este � o Bijju e esta deve ser a Beena.
Esta � a nossa fam�lia.
Esta tamb�m � a Beena.
Foi s� depois de termos alguma idade e de crescermos muito,
� que percebemos que n�o era
porque ele n�o gostava de n�s,
ou porque ele n�o quisesse estar connosco,
mas era a sua paix�o pelo trabalho,
era o seu amor pelo cinema que o afastava de n�s.
E era por causa dos seus compromissos...
... que ele n�o tinha tempo para n�s,
e, lenta e gradualmente, n�s come��mos a perceber
e habitu�mo-nos � situa��o de casa...
... e agora somos, mais ou menos, como amigos.
N�o pensamos no que perdemos na nossa inf�ncia,
relacionamo-nos com ele mais a um n�vel de amizade,
em vez de uma rela��o entre pai e filhos.
Em grande parte, a minha m�e passou por toda esta adversidade,
porque ela teve de interpretar um papel duplo.
O papel de m�e e o de pai, para preencher a aus�ncia dele.
A aus�ncia dele foi t�o sentida em casa que nos aproxim�mos uns dos outros.
Eu e os meus irm�os, n�s somos muito pr�ximos,
�ramos ainda mais pr�ximos da nossa m�e.
Mas, ao mesmo tempo, sempre que ele vinha a casa,
era algo por que n�s ansi�vamos.
Est�vamos sempre ao lado dele e cada momento era-lhe dedicado.
Costum�vamos passar o nosso tempo com ele quando estava em casa.
E...
Vimos juntos o Ver�o de 42,
apesar de j� n�o termos idade para o ver!
Mas ambos gost�mos.
Esses momentos que s�o...
... agrad�veis tal como s�o embara�osos valem a pena partilhar.
Valem a pena partilhar num ponto de vista cinematogr�fico objetivo.
Esses s�o os lindos momentos que passei com ele.
ESC�NDALO SEXUAL: ATRIZ E FUNCION�RIO DETIDOS
COM BESSON, TAVERNIER E FUTEBOL, IFFI MUDA DE PERSPETIVA
Sabe, eu reformei-me em 1991.
E continuei em Pune durante mais uns anos,
porque a minha esposa estava sob tratamento.
Ela sofria de cancro.
Ent�o, finalmente, mudei-me para Trivandrum, em 1995.
E de certa forma, senti que me faltava qualquer coisa.
Faltava-me a intera��o
com jovens estudantes de cinema e com investigadores.
Depois, a minha esposa faleceu, e de certa forma eu senti-me...
... perdido em Trivandrum e...
... queria, desesperadamente, regressar a Pune.
Por isso, regressei a Pune por volta de 1998.
E decidi que iria continuar a ficar em Pune, porque...
... Pune � o lugar onde eu passei a melhor parte da minha carreira
e onde tamb�m constru� o Arquivo desde o in�cio.
Por isso, tinha uma rela��o emocional com a institui��o.
� como um beb� para mim e n�o quero estar longe dele.
Acho que em todo o mundo, quando h� arquivos
e quando h� gente que esteve envolvida
no processo de preservar o cinema indiano, Nair � uma esp�cie de nome lend�rio.
Ele � um homem que � muito respeitado,
porque muito antes deste disparate de Bollywood
e de o cinema indiano se ter tornado moda, ele sabia a import�ncia da preserva��o.
Que n�o se tem hist�ria se n�o se tiver passado e qual � o passado?
�, na verdade, guardar bobinas e rolos de filmes
e ser capaz de mostrar filmes genu�nos �s futuras gera��es.
Um dos grandes prazeres, prazeres pessoais, devo dizer,
� quando eu vejo um filme de que gosto, e que gostaria de partilhar com outros.
A forma como comecei as exibi��es do Arquivo ao p�blico...
... foi um dos meus desejos para que estes filmes fossem exibidos
para uma maior sec��o da sociedade.
Quando se fala de um grande homem como Nair,
� preciso falar de outros nomes, porque...
... eles surgiram todos num per�odo da hist�ria e um ajudou o outro,
um construiu o outro, um elogia o outro.
Satish Bahadur, por exemplo,
ele aparecia com filmes, obtidos atrav�s de P. K. Nair,
na nossa vila, em Heggodu,
e K. V. Subanna dirigia a Ninasam.
Que, agora, � dirigida pelo filho Akshara. Continua.
E havia um curso de an�lise de filmes
e Satish Bahadur falava imenso sobre os filmes que tinha exibido.
E as pessoas falavam sobre Bergman!
A pessoa por detr�s era K. V. Subbanna, que era um ativista do cinema.
Ele assistiu ao nosso...
Se bem me lembro, ao nosso curso de an�lise de filmes, em 1975.
Depois do curso, ele ficou muito inspirado.
Ele queria ter um programa de an�lise de filmes,
no seu cinema em Heggodu.
Ele usava o cinema como forma de chamar � aten��o
e, principalmente, para educar e...
... conferir um sistema de valores � gente local,
que n�o tinha exposi��o ao cinema porque n�o havia l� nenhum cinema.
N�s fornec�amos os filmes. Todos eles eram de 16 mm, na altura.
Fomos de comboio e depois tivemos de viajar de autocarro
durante alguma dist�ncia para chegarmos ao cinema.
Ele tinha um p�blico habitual que apadrinhava os programas de cinema,
os programas de dan�a Yakshagana, que ele costumava organizar.
E na primeira vez, exibimos filmes
como Ladr�es de Bicicletas, �s Portas do Inferno, Pather Panchali
e tivemos discuss�es profundas.
Bahadur Sahib costumava falar em ingl�s
e Subbanna traduzia depois de cada frase ou duas.
Assim, consegu�amos quebrar a barreira lingu�stica,
que era outra coisa que tent�vamos fazer...
Ach�vamos que a educa��o e a consci�ncia cinematogr�fica
devia chegar ao n�vel popular,
mesmo �s pessoas que n�o sabiam falar ingl�s.
No palco Heggodu, o festival costumava ocorrer durante uma semana.
AGRICULTOR DE NOZ DE ARECA
Os filmes que v�amos eram exibidos no palco Heggodu.
Caso contr�rio, n�s n�o conhec�amos filmes nenhuns.
No cinema, um filme muito importante para mim � o �s Portas do Inferno.
FUNCION�RIO ESCOLAR REFORMADO
E Ladr�es de Bicicletas, Pather Panchali,
n�s vimos esses filmes com interesse.
Pather Panchali, Charlie Chaplin, �s Portas do Inferno, O Mundo de Apu.
AGRICULTOR DE NOZ DE ARECA
Esses filmes eram exibidos e as pessoas costumavam v�-los.
Durante dez dias, at� ao fim do workshop,
as pessoas n�o pensavam em mais nada para al�m de filmes.
At� as pessoas nas estradas,
depois de verem o drama, n�o, depois de verem os filmes,
elas costumavam falar apenas de filmes.
No dia seguinte, quando vinham ver os filmes, elas falavam do filme anterior.
PROJECIONISTA
De tal forma que, durante dez dias, foi criado um novo ambiente.
Pather Panchali era muito bom,
a hist�ria por detr�s dos br�manes pobres, dos seus problemas,
mesmo hoje, lembramo-nos do final,
quando ele teve de deixar a vila
para comprar um sari para a mulher, coisas para os filhos,
ou quando a filha morre.
Nesses dias, pod�amos ver filmes assim. Somos afortunados.
Numa altura dessas, n�s pudemos ver filmes estrangeiros.
Na verdade, este filme n�o � estrangeiro, � totalmente indiano.
H� v�rios filmes, mas �s Portas do Inferno � o tipo de filme que fica no cora��o.
Depois disso, a hist�ria de um homem que se enforca e se afoga,
Owl Creek, � um filme que se recorda.
Eu gostei do La Rivi�re du Hibou.
Foi um filme t�o bom,
que nos levava at� ao c�u e n�s fic�vamos presos a ver.
No final, sent�amos que t�nhamos sido enganados.
"Onde aterr�mos?"
Quando a hist�ria come�a, ele estaria a sonhar.
N�o pod�amos adivinhar que estava a sonhar. Apenas o segu�amos.
Apenas o v�amos para ver se ele era salvo ou n�o.
Quando n�s exib�amos os filmes aqui,
Subbanna costumava sentar-se no andar de cima e fazia coment�rios.
Porque os filmes eram em ingl�s, as pessoas daqui n�o entendiam.
Quando ele falava, durante a exibi��o,
se ele falasse menos, eu costumava aumentar o som.
Logo que eu percebia que ele ia comentar,
eu costumava baixar o volume aqui.
Durante essa altura, ele explicava em canarim.
H� algo nos filmes, apenas atrav�s deles
podemos ultrapassar as l�nguas...
... e as culturas nacionais,
assim, o cinema �, dessa forma, um novo meio.
At� um romance, se ler um romance, um romance russo,
� muito dif�cil compreender os factos culturais.
Demora muito tempo para compreender um romance,
mas se for um filme russo e se o int�rprete for bom
e se for um filme antigo, ent�o lembramo-nos da R�ssia antiga.
Estava sempre a pedir filmes ao Nair.
A primeira coisa que pedimos foi o Ladr�es de Bicicletas.
CLUBE DE CINEMA DE ROURKELA
Exibimos esse filme num cinema de Meneka �s 7:30,
porque o filme da manh� era exibido �s 10:00.
T�nhamos de terminar a sess�o antes das 9:30.
Obtive o filme do Arquivo Nacional.
O Sr. Nair deu o filme, juntamente com muitas instru��es.
Como lidar com o filme e coisas assim. E exibimo-lo, em Meneka, �s 7:30.
Acredite ou n�o,
o movimento teve tanto apoio das pessoas,
que o �trio estava cheio nesse dia �s 7:30.
Come��mos as sess�es de s�bado a partir de 1970.
Escolhia nomes estranhos da lista telef�nica
e enviava-lhes um convite: "Estamos a exibir este filme,
se estiver interessado, apare�a."
E pedia-lhes que deixassem um envelope com morada,
caso quisessem ser convidados para o s�bado seguinte.
Ent�o, tornou-se muito popular e as sess�es eram apresentadas
e eu dizia-lhes: "Se n�o tiverem pressa, voc�s podem ficar mais tempo,
podemos falar sobre o filme, interagir convosco,
e falar sobre o que pensam do filme e tudo isso."
Era essa a atividade
de que eu mais gostava e desejava...
Nessa altura, n�o t�nhamos o nosso pr�prio cinema,
est�vamos a usar o cinema do Instituto de Cinema.
Um dos meus sonhos era que, quando o Arquivo tivesse cinema pr�prio,
houvesse sess�es di�rias.
Entende?
Esse era o meu sonho, diria eu,
diariamente, cinco exibi��es a come�ar �s 14:00 at� quase � meia-noite.
Eu fiz um filme intitulado Ghatashraddha. Esse foi o meu primeiro filme, em 1978.
O filme foi processado aqui, num laborat�rio, em Bangalore,
e, em meados dos anos 80, o laborat�rio fechou.
Assim, os funcion�rios pediram-nos que lev�ssemos os negativos.
N�o sab�amos o que fazer.
O meu produtor, o Sr. Sadanand Suvarna, era de Bombaim.
Ele levou-o e guardou-o num laborat�rio em Bombaim.
J� que n�o tinha sido processado no laborat�rio de Bombaim,
o que eles fizeram foi deix�-lo em algum canto.
Um dia, um amigo de Suvarna veio e disse: "Os rolos est�o expostos l� fora.
Porque est�o assim?"
Ent�o, recolhemos o filme e quando o abrimos,
tinha ganhado ferrugem e alguns negativos estavam estragados
e Nair Sahib veio a saber disso.
Ele recolheu, imediatamente, todos os negativos e guardou-os no Arquivo,
e, enquanto os revia, ele viu que, em tr�s bobinas,
o negativo do som tinha sido arruinado.
Por isso, ele arranjou uma c�pia algures,
duplicou o filme e guardou-o.
Se n�o fosse o esfor�o de Nair Sahib,
n�o seria poss�vel ver atualmente Ghatashraddha.
N�o havia ponto de corte. N�o havia cortes na sua vida.
Ele simplesmente continuava e os filmes tamb�m.
Come�aria �s 22:00
e continuaria at� � uma da manh� e, de repente, nessa altura,
haveria mais um filme que teria de ser visto
e ele diria: "Projetem-no." E todos aqueles excelentes projecionistas...
E deve dizer-se que Nair Sahib foi muito ajudado
por um excelente projecionista chamado Ramayan.
Ramayan era uma esp�cie de espinha dorsal.
Ele era incans�vel. Estava sempre a exibir filmes
e eu, por vezes, ia atr�s ver
que Ramayan tamb�m estava a ver os filmes com igual entusiasmo!
E esta dupla de arquivista
e projecionista � algo hist�rico para mim!
Ele estava envolvido no conte�do do filme e tamb�m nas personagens.
Isso � algo de suma. Quando lhe ligava �s 5:00 ou 6:00,
ele estava l� pronto com as bobinas no departamento de som.
Sem problema. Ele adorava o seu trabalho
e ele adorava o cinema e isso manteve-nos juntos.
Este � o cofre que eu planeei
e preparei no in�cio dos anos 90,
um ano antes de me ter reformado do Arquivo.
Nessa altura, se me lembro corretamente, t�nhamos 12 000 filmes,
dos quais 8000 eram indianos e o resto eram estrangeiros.
E grande parte eram c�pias positivas,
alguns positivos principais, alguns duplicados de negativos.
Assim, a temperatura era mantida, principalmente, para os positivos,
a cerca de 12 a 13 graus cent�grados,
porque os negativos e os duplicados necessitam de temperatura mais fria.
Sei que novos cofres foram constru�dos para isso
e decerto que este cofre cont�m alguns dos grandes filmes que consegui obter
para o Arquivo desde Raja Harishchandra de Dadsaheb Phalke,
Sant Tukaram de Prabhat, Duniya Na Mane, Achhut Kanya de Bombay Talkies,
Devdas de Barua...
Kalpana de Uday Shankar.
Sanjeev Kumar veio ter comigo e encontrei-me com ele.
Ele disse: "Consegui um contrato para atuar num filme de Satyajit Ray,
Shatranj Ke Khiladi.
Conhe�o o homem, mas nunca vi um filme dele.
Tenho vergonha de o conhecer, o grande homem,
sem nunca ter visto os filmes dele.
Por isso, vim c� para ver os filmes que puder mostrar-me."
Ele veio com a m�e dele, alugou um apartamento
e ficou aqui durante um m�s,
e todas as noites, eu exibia um filme de Satyajit Ray para ele,
por causa do interesse que ele teve...
Imaginem uma estrela de cinema popular de Bombaim
a vir a Pune e a passar um m�s aqui
para ver todos os filmes de Satyajit Ray.
Se n�o podemos lidar com as nossas vidas,
como podemos lidar com o Ex�rcito brit�nico?
Tens raz�o.
Ent�o, porqu� a preocupa��o?
N�o me preocupo com isso.
Ent�o preocupas-te com o qu�?
Com quem vou jogar xadrez.
Ele est� mesmo aqui, Meer.
E h� comida. Podemos comer e jogar ao mesmo tempo.
Quando escurecer, podemos ir para casa.
Precisamos da escurid�o para esconder os nossos rostos, Meer.
Se um filme for feito em 35 mm, temos de preservar o formato de 35 mm.
Se o filme for feito em Cinemascope, temos de o manter em Cinemascope.
Se for feito a cores, temos de o manter a cores.
E, qualquer que seja o seu formato,
tanto quanto poss�vel temos de manter o mesmo formato.
Suponha que o filme foi feito em 16 mm, � melhor mant�-lo em 16 mm.
Acho que esta � a abordagem certa de um arquivista,
manter o filme no formato original em que � feito.
Mas se o quer para promo��o ou distribui��o, ou uso mais alargado,
podem ser usadas outras alternativas.
Por exemplo, em 35 mm, se s� se tiver uma c�pia,
� poss�vel haver c�pias a 16 mm para distribui��o a companhias de cinema.
Ou, hoje em dia, em DVD.
No meu segundo ano, eu estava a ver A Viagem a T�quio de Ozu.
Estava a ver o filme A Viagem a T�quio.
Vi o filme e estava a subir os degraus para a pousada,
para o meu quarto...
... e, de repente, percebi...
... que n�o escrevia nada aos meus pais h� seis anos.
Andava a viver fora, estava casado,
e talvez tivesse falado com eles, mas n�o lhes tinha escrito.
Subi ao meu quarto, peguei num postal
e escrevi uma carta aos meus pais a dizer-lhes: "Como est�o?"
Agora, o que tem o filme que ver com isto?
A Viagem a T�quio fala do tempo que se passa com os pais.
� um filme t�o gentil, discreto e l�rico.
Mas levou-me a escrever um postal aos meus pais...
... e a simplesmente dizer: "Como est�o? N�o vos conheci realmente."
Acho que o postal � s� um s�mbolo. � apenas um aspeto de muito mais.
� um s�mbolo da capacidade de percebermos o mundo em que vivemos...
... e, estranhamente, acho que uma pessoa como o Sr. Nair...
... � muito respons�vel pela descoberta do ser pr�prio de cada aluno.
Eles encontram-se de uma forma estranha.
Eu encontrei-me, � minha maneira,
e tenho a certeza de que todos os alunos se encontraram de outra maneira
e come�aram a fazer os seus filmes.
Eles encontraram-se atrav�s do mundo
que Nair Sahib lhes deu, atrav�s do seu cinema
que ele t�o cuidadosamente anotava, para que nos alertou, nos mostrou.
Nunca me esquecerei da primeira vez que vi O Acossado.
E eu era muito jovem e havia alguns planos
que eu n�o conseguia perceber, a suavidade desses planos.
Ent�o, eu falei com o Sr. Nair
e ele disse-me, ele era muito reservado,
n�o era do tipo muito amig�vel, ele era muito calado e...
... e ele disse: "Muito bem, se queres mesmo estudar isso...
... eu vou dar-te a c�pia do filme durante duas horas
e podes estudar o padr�o de montagem do Acossado."
Nunca me esquecerei do momento
em que tive esse filme nas minhas m�os, vers�o de 16 mm,
fui para a sala de montagem, �s seis da manh�,
e percebi que tinha achado alguns planos suaves porque,
na cena anterior, Jean-Luc Godard tinha feito o seguinte:
quando Belmondo entra, em vez de um fotograma est�tico,
ele tinha subido a c�mara,
a c�mara sobe por dois ou tr�s fotogramas
e depois h� um corte. E quando se vai para o interior,
a c�mara sobe � mesma velocidade, novamente, por quatro ou cinco fotogramas.
E era por isso que o plano era t�o suave.
N�o consegui perceber isso no grande ecr�!
Coisas assim...
P. K. Nair adorava os seus filmes, n�o queria que nada lhes acontecesse,
mas quando via um aluno que era inquisitivo, que queria aprender,
ele tornava-se acess�vel. Dizia: "Leva o filme e estuda-o."
Se quis�ssemos ver algum filme,
�amos ter com ele: "Nair Sahib, podemos ver este filme?"
Ele olharia para n�s assim,
para nos avaliar. "Porque querem ver o filme?
Est�o interessados em ver apenas o filme
ou querem ver algo para l� do filme e aprender algo mais sobre ele?"
Se ele ficasse convencido de que quer�amos ver o filme para estudar,
ele n�o diria nada,
mas � noite ver�amos que o filme estava no quadro de aviso:
"A exibi��o de hoje..." O tal filme. Isto �...
Mas ele certificava-se de que as vontades dos estudantes eram satisfeitas.
Mas quem quisesse ver um filme apenas por pura divers�o:
"Senhor, eu quero ver o filme, mas n�o sei porqu�..."
N�o, ele n�o exibiria o filme!
Eu disse ao Sr. Nair Sahib: "Se eu acreditar que tenho de ser bom realizador,
eu devia ver um filme, pelo menos, 100 vezes."
E isso era dif�cil de acontecer, na altura,
porque n�o havia leitores de VHS e de discos.
Ele era atencioso o suficiente para dizer: "Fica com este filme."
O filme era O Coura�ado Potemkine.
O COURA�ADO POTEMKIN
� imposs�vel imaginar hoje que algu�m do Arquivo
dissesse a um jovem aluno:
"Podes ficar com este filme de 16 mm,
v� as vezes que quiseres e depois devolve-o."
E, sinceramente, eu devo ter visto esse filme mais que 100 vezes.
Recordo-me dele como uma figura paternal.
E gostaria de dizer-te diretamente, Shivi,
se eu sou o que sou hoje, 90 por cento � gra�as a Nair Sahib
e a Satish Bahadur Sahib. A esses dois professores.
Dois grandes professores que nos mostraram muito,
n�o s� do cinema indiano, mas do cinema mundial.
Se n�o fosse essa exposi��o ao cinema mundial,
n�s n�o estar�amos onde estamos hoje.
E desfrut�mos do privil�gio especial de ver cinema mundial
com Nair Sahib, logo de manh� cedo, �s 6:30.
Era a hora a que ele via as novas c�pias que vinham do exterior.
Porque, das 8:30 em diante, o Instituto entrava em funcionamento.
Assim, ele vinha �s 6:30.
Receb�amos uma mensagem secreta dele
a dizer que haveria uma exibi��o �s 6:30.
Eu ficava l� sentado, na sala de cinema,
a lavar os dentes e a ver um filme noruegu�s!
Era maravilhoso!
Eu pr�prio vim de uma fam�lia que n�o era abastada.
Por isso, tinha dito a Nair Sahib
que, financeiramente, era um problema para mim, se ele poderia ajudar.
Ele encontrou uma solu��o. Eu ofereci-me para limpar os filmes.
Todos os meses, costumava limpar dois ou tr�s filmes
e por filme, ele costumava pagar-me 50 rupias.
E isso desenrascava-me.
Mas o que foi mais tocante foi o gesto.
Acho que n�o foi feito em termos oficiais. E a forma como ele o fez, s� ele sabe.
Bobina n�mero quatro, can��o famosa: "Door hato, duniyawalon, Hindustan humara hai",
com Mumtaz Shanti no palco.
Entende...
E o fant�stico O Coura�ado Potemkine,
bobina n�mero seis, � a sequ�ncia na escadaria de Odessa.
Entende...
A Paix�o de Joana d'Arc, Carl Dreyer, um dos meus filmes favoritos.
Obtivemo-lo do Arquivo belga.
Esse tipo de...
Pyaasa, bobina n�mero nove!
"Aaj mohe ang laga do", a famosa can��o de Geeta Dutt,
que � tamb�m uma linda adapta��o ao cinema de Guru Dutt.
Este � do Awaara, bobina n�mero 14.
A famosa sequ�ncia de quando Raj Kapoor traz o colar...
... roubado do seu pr�prio pai para a sua amante, Nargis.
Lindo filme... Morangos Silvestres, Bergman,
Um cl�ssico. Aqui est� O Sacrif�cio de Tarkovsky.
Na �ndia, para honrar os convidados em ocasi�es especiais,
as mulheres decoram os pisos das casas com farinha de arroz e �gua.
Com este rangoli, damos-lhe as boas-vindas a este filme,
filmado inteiramente na �ndia.
M�os ao ar!
Costum�vamos ter uma sess�o inteira onde na v�spera do Holi,
n�s escolh�amos can��es de v�rios filmes.
Em hindi, t�mil, telugo, e exib�amos todas essas can��es.
E todos n�s fic�vamos sentados a fazer uma lista de can��es
e, finalmente, diz�amos a Nair Sahib quais as can��es que quer�amos.
E lembro-me que ele dava instru��es a algu�m
e que lhe dizia: "Certo, esta can��o, este filme, bobina n�mero tal,
esta can��o, bobina n�mero tal, tira-a deste filme."
Era algo muito divertido de se ver.
Ele era um homem que tinha milhares de filmes no seu Arquivo,
mas lembrava-se de todos os filmes,
em que bobina estava aquela cena ou can��o, o que � fascinante.
Quando penso nisso, se tiver de me lembrar dos meus filmes,
eu acho que n�o consigo...
Assim que a montagem acaba, n�o nos lembramos mais do nosso filme.
�s 7:00, domingo de manh�.
Ap�s uma noite de divers�o e de copos
e de falar de cinema! De mudar o mundo!
Vamos fazer obras-primas e tudo isso!
Depois de falarmos a noite toda,
�s 7:00, grande parte do Instituto estaria pronto para funcionar,
para irmos para a Sala Principal e ver os fenomenais cortes da censura!
Algo que os mi�dos de hoje em dia n�o saber�o do que estamos a falar.
Eram partes de filmes que tinham sido censurados
do filme, e esses cortes da censura
eram enviados num pequeno pacote em separado para o Arquivo
para serem restaurados nos filmes, assim, os cortes tinham de ser vistos...
... e de alguma forma ficou a saber-se
que Nair Sahib se sentava a ver essas coisas sozinho!
Ele permitia que alunos viessem ver.
Assim, tornou-se num ritual de domingo de manh�.
Eram v�rios filmes de todo o mundo, de todas as l�nguas,
que eram ligados para que os estudantes os vissem.
Alguns eram mesmo hilariantes.
Alguns deles eram absurdos, alguns eram de mau gosto!
Era muito divertido ver essas coisas antigas,
as mulheres sexy e os decotes, essas cenas!
DIRETOR DE FOTOGRAFIA
Tamb�m me foi dito que, quando algumas das bobinas eram abertas,
elas eram enchidas com pedras ou papel do lixo e coisas assim,
porque ningu�m pensava que podiam ser abertas de novo,
ap�s tantos anos.
Os cortes originais eram enviados para o Instituto de Preserva��o.
Eu n�o sei para qu�!
REALIZADOR
Assim, Nair Sahib exibia-os,
em sess�es supostamente muito secretas.
Elas n�o eram...
Porque era uma coisa censurada aquilo que est�vamos a ver.
Mas todos os alunos do Instituto queriam ver esses cortes!
Penso que a vida de uma pessoa � demasiado curta
para salvar a heran�a mundial do cinema...
... n�o s� a heran�a nacional.
N�s temos uma vis�o t�o alargada
do filme como uma parte hist�rica do mundo, da humanidade.
Por isso, n�s vamos al�m-fronteiras e...
... tentamos salvar o m�ximo poss�vel, daquilo que grava a hist�ria mundial,
em filme e sons.
H� uma cena em que eles desembarcam da viagem...
Sim.
... e ela est� de um lado, o Cary Grant est� do outro lado,
e eles est�o sempre a dizer: "Este, aquele..."
Conheces?
E eles est�o a percorrer o corredor, quer dizer...
- O cais. - N�o, a prancha.
Eles est�o a percorr�-lo e cada um tem de seguir o seu caminho,
porque os seus respetivos t�m de os ir buscar
e quando est�o a ir embora, o Grant beija a m�o
que ela estava a dar ao outro ator.
- Ao noivo dela. - Ao noivo dela. Foi t�o inovador.
Uma das minhas mem�rias � de um filme de compila��es de Harold Lloyd,
Harold Lloyd�s World of Comedy. Vi-o em Udvada.
- Onde? - Udvada. Foi mesmo.
Fica em Gujarate.
� um local de peregrina��o para os zoroastrianos.
Sabe, nesta vida, eu queria ter-me tornado realizador
e acabei por me tornar num colecionador de filmes. N�o me arrependo.
Na verdade, acho que
o que acabei por fazer foi a coisa mais acertada.
Nunca me arrependi de n�o ter realizado um filme,
apesar de, enquanto aluno, ter querido tornar-me num realizador.
Mas tendo entrado neste...
... meio da preserva��o e do arquivo...
... acho que h� muito trabalho a ser feito.
� pena que n�o haja muita gente envolvida nesta atividade,
em oposi��o � realiza��o de filmes, onde h� muita gente.
Aquilo de que mais sinto falta
� da alegria de ver filmes todas as noites como uma rotina,
algo que fazia, n�o s� durante o Arquivo, mas antes at�.
Eu via um homem a andar t�o rapidamente para o Arquivo,
para a sala de exibi��o.
Um homem apressado e jovem. Conhecia-o assim.
E agora vejo-o a ficar velho,
a idade come�a a afet�-lo.
Mesmo assim, a chama ainda l� est�, a chama pelo cinema.
E acho que � o que o faz continuar.
"Algumas pessoas aprendem a fazer m�sica, algumas pessoas n�o conseguem aprender.
� imposs�vel! Imposs�vel!
Contratei-o n�o para fazer coment�rios, mas para ensinar."
"Senhor, mas o que v�o as pessoas pensar! Serei alvo de chacota!"
"Sabe o que as pessoas v�o pensar? Eu digo-lhe.
Eu sou diretor de v�rios jornais,
v�o pensar aquilo que eu quiser que pensem!"
Se n�o fosse por ele, n�s n�o ter�amos nada.
N�s n�o ter�amos tido nada.
Mas a trag�dia � que houve um P. K. Nair e depois dele mais ningu�m.
Infelizmente, n�o temos pessoas nem com o sentido de miss�o
que ele tinha,
nem com o conhecimento profissional
para poder cuidar de um arquivo de cinema.
Do que eu sinto mesmo falta, hoje em dia,
� do prazer do cheiro da fita
e do entusiasmo de a tirar da bobina
e de olhar para cada fotograma
e de ver o seu estado.
E de a colocar na mesa Steenbeck
e de andar de tr�s para a frente, parando e tomando notas.
� disso que sinto mesmo falta...
E agora que sabemos que a fita em celulose est� a extinguir-se,
tenho pena disso porque as imagens com que crescemos,
no cinema, foram sempre as da imagem �tica
que � projetada no ecr�, as lindas e maravilhosas
imagens a preto e branco dos anos 30 e 40.
E,
de certa forma, hoje em dia, quando eu vejo filmes,
eu n�o vejo o mesmo gosto ou entusiasmo em olhar para uma imagem.
Porque, apesar de toda a nova tecnologia e desenvolvimento,
eu n�o consegui aceitar
a qualidade da imagem que n�s vemos na nova era digital.
De certa forma...
... acho que falta algo nessas imagens.
� muito triste para n�s, mais idosos, os arquivistas.
Mas temos de viver com estas mudan�as que acontecem � nossa volta,
em todos os aspetos da vida.
Portanto...
N�s temos
de enfrentar a realidade da situa��o.
FIM
Legendas: Jo�o Braga
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