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Espanha.
De uma vista aérea única,
iremos visitar uma nação famosa pela história intensa e a paixão,
onde as tradições milenares convergem com tecnologia inovadora
para formarem um país...
... incomparável.
Nesta série, faremos uma viagem aérea pela Europa,
vendo as suas atrações sob uma nova perspetiva.
Filmada de cima, no decorrer de apenas um ano,
à medida que a paisagem se transforma,
com a mudança das estações.
Vamos descobrir a cultura,
história e engenharia
que construíram as grandes nações europeias que hoje vemos.
EUROPA VISTA DE CIMA
ESPANHA
Espanha,
a fronteira sul da Europa.
Rodeada pelo frio Oceano Atlântico a norte
e pelo quente Mar Mediterrâneo a este.
A Espanha é uma terra de cor e paixão...
... onde festivais e celebrações são a força vital da comunidade.
Mas é também um lugar de história e conflitos
onde, ao longo de milhares de anos, uma série de civilizações
lutaram por supremacia.
Os romanos foram uma das primeiras superpotências estrangeiras
a deixarem a sua marca na cultura espanhola há dois mil anos.
Depois, na Idade Média,
um império muçulmano vindo do sul e reinos cristãos a norte
lutaram pelo direito de governar o território.
Marcos e fortalezas históricos dessas civilizações
são visíveis um pouco por todo o país.
Do ar, é notável ver o estado de preservação de muitos deles.
Como o Castillo de Malpica,
uma fortaleza árabe do século X.
E o Castillo de Consuegra do mesmo período,
um bastião que foi alternando ao longo dos anos
entre o domínio muçulmano e cristão.
Mas talvez em nenhum outro lugar o passado cosmopolita de Espanha
seja melhor visto do que numa das suas cidades mais belas.
Mesmo a norte de Madrid,
fica um local tão rico em arquitetura histórica
que toda a cidade está classificada Património Mundial da UNESCO.
Estamos em Segóvia.
Aqui, três dos marcos mais significativos de Espanha
amontoam-se lado a lado numa pequena cidade.
É verão.
VERÃO
O sol quente bate nos tesouros históricos de Segóvia.
Uma grande catedral gótica dedicada à Virgem Maria.
O seu pináculo de 88 metros já foi o mais alto de Espanha.
Um aqueduto romano.
Tão antigo, que é difícil acreditar que ainda está de pé.
Um castelo medieval do século XII,
situado no alto de um penhasco rochoso.
Pensa-se que a mistura de estilos
tenha servido de inspiração
para o Castelo Encantado de Walt Disney.
O historiador local Néstor Marquez é o anjo da guarda de Segóvia.
Documenta, regista e monitoriza
os famosos edifícios antigos da cidade.
Sempre fui apaixonado pela minha cidade
e é um prazer trabalhar na conservação do seu património.
O famoso aqueduto de Segóvia divide a praça central da cidade.
Parece uma ponte ferroviária vitoriana,
mas tem perto de 2000 anos.
Visto de cima, parece impossivelmente fino.
Os romanos construíram-no para transportar água fresca
das colinas circundantes até ao coração da cidade
ao longo deste canal de pedra estreito.
É um dos aquedutos romanos mais bem preservados
a nível mundial.
A engenharia romana é tão boa que ainda temos este aqueduto.
O aqueduto é um dos poucos exemplos que temos deste tipo de construção.
O aqueduto é icónico para os habitantes de Segóvia
e usaram-no para transportar água até ao início de 1900.
Atualmente, falta uma parte muito amada da estrutura.
Durante 500 anos, uma estátua da Virgem Maria
permaneceu neste pedestal, a proteger a cidade.
Mas o vento e a chuva desgastaram tanto as suas feições
que foi retirada para restauro.
Néstor e os seus colaboradores passaram os últimos três meses
a criar uma réplica quase perfeita da estátua.
Hoje é o dia em que a réplica sai da oficina,
pronta para a sua viagem até ao topo do aqueduto.
É fantástico voltar a ter a estátua no seu lugar
e ter contribuído para um projeto tão incrível.
Néstor desembala a réplica na base do aqueduto
e faz uma última verificação.
A estátua antiga foi feita em calcário macio
e ficou seriamente afetada pela erosão climática.
A nova é feita em pó de mármore misturado com resina,
um material superresistente e moderno
capaz de aguentar a passagem do tempo.
Trabalhar neste enorme monumento histórico
é uma responsabilidade tremenda.
A réplica da estátua da Virgem com o Menino
ergue-se na plataforma hidráulica
a uma altura de 23 metros.
Uma multidão junta-se para testemunhar
o momento da verdade.
A Espanha é um país católico
e a Nossa Senhora é, há séculos, a guardiã de Segóvia.
As pessoas vieram vê-la regressar ao seu lugar.
É um momento importante para o Nestor,
à medida que a estátua encaixa na perfeição no seu nicho.
Foi um sucesso e um enorme esforço de equipa para chegar até aqui.
É uma sensação incrível ver toda a gente à volta do aqueduto
para assistir ao regresso da estátua.
Significa que se preocupam com o património e com a sua cidade.
Embora o centro de Espanha abrigue alguns dos edifícios mais antigos,
a costa mediterrânica é igualmente rica em arquitetura,
mas com um toque distintamente moderno.
Na parte mais a norte desta costa famosa,
situa-se a Catalunha.
Uma região com um intenso sentido de identidade
e uma história que remonta a mais de mil anos.
Porém, é também rica em tesouros arquitetónicos muito mais modernos.
Em Figueres, o museu do pintor surrealista Salvador Dalí
destaca-se intensamente entre os edifícios bege da cidade.
Mas talvez a vista aérea mais espetacular nesta região
não seja um simples edifício.
Mas o coração da capital da região, Barcelona.
Sobrevoar Barcelona revela uma vista impossível de ver a partir do solo.
Uma grande parte da cidade é composta por filas e mais filas
de 800 quarteirões aparentemente idênticos.
De cima, o enorme sistema em grelha de Barcelona
estende-se como um xadrez de terracota gigantesco.
Os urbanistas construíram esta metrópole moderna
em meados do século XIX
como um suplemento aos caóticos e apinhados
bairros medievais da cidade.
Cada quarteirão na parte moderna da cidade
é caracterizado pelos distintivos cantos cortados a 45 graus.
Uma solução engenhosa que permite que os condutores de elétricos
tenham visibilidade nas curvas.
De cima, o centro de Barcelona parece perfeitamente geométrico.
Com uma exceção incrível.
Mesmo no meio de Barcelona,
está a famosa catedral inacabada da cidade,
A Sagrada Família.
A maioria das catedrais europeias é rigidamente geométrica
mas, aqui, raramente se vê uma linha direita ou um ângulo reto.
As linhas orgânicas da cantaria
derretem e fluem como cera quente.
Esta catedral revolucionária
é fruto da imaginação rebelde do arquiteto espanhol,
Antoni Gaudí.
Ainda hoje, os projetos não-conformistas de Gaudí
servem de fonte de inspiração
a arquitetos modernos como Benedetta Tagliabue.
Barcelona é uma cidade especial
porque é muito racional mas, ao mesmo tempo,
é possível encontrar coisas especiais e loucas.
A Sagrada Família, por exemplo, é uma dessas coisas loucas.
Não obstante a sua incrível estética não convencional,
a Sagrada é provavelmente mais conhecida por estar inacabada.
Os trabalhadores constroem-na minuciosamente há mais de 130 anos.
Mas o final deste projeto de construção gigantesco
poderá estar para breve.
Nos próximos seis anos, as últimas cinco torres
vão erguer-se e rodear um pináculo central
que se eleva a quase 200 metros de altura,
mudando para sempre o horizonte de Barcelona.
A visão inovadora de Gaudí
fez muito mais do que transformar o coração urbano de Barcelona.
Inspirou os arquitetos modernos
a criarem as suas próprias formas geométricas arrojadas,
incluindo o espantoso Mercado de Santa Caterina, em Benedetta,
com a sua cobertura fluida e colorida.
Não sabíamos se iria ser aceite em Barcelona
e, depois de terminado, ficámos muito felizes
por ver que as pessoas adoraram.
Talvez estivessem preparados para receber algo orgânico, colorido,
porque a própria cidade de Barcelona é um pouco assim.
A Sagrada Família é uma maravilha arquitetural
que define o horizonte da cidade e, talvez, o espírito da região.
De cima, a Espanha é uma nação dividida por cores.
O sul é uma combinação árida de castanhos e amarelos.
Mas no norte, as montanhas recolhem água,
que as pinta de um verde brilhante.
Uma série de longos afluentes
confluem aqui para formarem o poderoso rio Ebro.
Juntos, estes cursos de água alimentam a terra à sua volta
para ajudar a cultivar uma das culturas mais famosas do mundo.
Esta é a região vinícola de La Rioja.
Todos os anos, os seus muitos vinhedos
sofrem uma das transformações mais dramáticas de Espanha...
... quando o sol quente do verão dá, por fim, lugar ao outono.
OUTONO
María Urrutia pertence a uma dinastia familiar
que produz os mundialmente famosos vinhos de Rioja
há mais de 140 anos.
O vinho é a minha essência, o meu sangue.
Percorrer as vinhas, apanhar e comer uvas.
É família, alegria, felicidade.
Durante os meses de verão,
os seus muitos hectares de vinhas adquirem nova folhagem
para que as plantas absorvam a luz do sol,
acelerando o crescimento dos seus frutos.
Mas, com a chegada de setembro,
ocorre uma metamorfose espantosa,
quando as folhas verdes se tornam douradas e vermelhas.
As uvas inchadas amadurecem.
Estamos no final da tarde
e María leva o colega, Valentín, ao vinhedo,
para ver se as uvas premium da propriedade
estão prontas para serem colhidas.
Devem ter açúcar suficiente para produzir álcool no vinho,
mas não demasiado, já que isso estragaria o sabor do vinho.
O teor de açúcar parece o ideal.
María vai começar as vindimas bem cedo na manhã seguinte.
Quando o sol nasce na manhã das vindimas de María,
a equipa destacada reúne-se.
Hoje, os vindimadores vão colher as uvas
de um dos vinhos mais exclusivos da propriedade.
Apanham-nas à mão para garantir que não danificam o delicado fruto.
É um trabalho duro,
pelo que é importante ter as pessoas certas,
a equipa certa para produzirmos o melhor vinho possível.
María e a sua equipa
devem colher 50 mil quilos de uvas antes do final do dia
e o relógio já está a contar.
Uma vista aérea revela a extensão
da vasta propriedade familiar de María.
Abrange mais de 500 hectares.
Este ano, ela espera produzir seis milhões de garrafas de vinho,
mas apenas 800 mil garrafas do vinho selecionado
que hoje vindimam.
Este vinho de alta qualidade
envelhecerá em barris de carvalho durante dois anos,
para gerar os suaves sabores de frutos vermelhos e baunilha,
sinónimo dos melhores vinhos de Rioja.
Nos campos,
os trabalhadores de María terminam as filas finais
e depositam os últimos cestos no atrelado.
Para os vindimadores, é hora de celebrar
mas, para María, é um longo jogo de espera
para ver o que lhes dá a safra deste ano.
A vindima é o momento mais desafiante,
mas também o que dá mais adrenalina,
querer ir em direção ao futuro.
Para além dos bons vinhos,
a temperada fértil da região norte de Espanha
é também sinónimo de especialidades culinárias.
A cidade basca de San Sebastián
é conhecida como um local de bons restaurantes.
Mas no interior deste centro gastronómico,
existe algo muito estranho.
Uma indústria típica de litoral,
muito longe da costa mais próxima.
O fértil País Basco
é um mar de campos amarelos e florestas verdes.
Mas, a apenas 60 km de San Sebastián,
nas estradas sinuosas do Vale de Añana,
emerge um mosaico de quadrados brancos na superfície da paisagem.
Estas são as famosas salinas do Vale de Añana.
Uma fábrica de sal como nenhuma outra no mundo.
A maior parte das salinas evapora água do mar
para lhe extrair os preciosos cristais.
Mas Añana fica a dezenas de quilómetros do mar.
Então, de onde vem todo o sal?
Sobrevoando as salinas do Vale do Añana,
descobrimos o seu segredo incrível.
Uma nascente salina subterrânea.
Bem no fundo do vale,
a água brota do que resta
de um leito do mar com 200 milhões de anos.
Quando aparece à superfície aqui em Añana,
a água é tão salgada como as águas do Mar Morto.
Edorta Loma descende de uma família de salineiros,
ou marnotos.
A forma como trabalha é igual à do seu avô e bisavô antes dele.
Tanto quanto sei, a minha família faz isto desde 1500.
Sempre sal e mais sal.
Quando morrer, quero que me enterrem com uma pitada de sal.
O sal de Edorta
é muito apreciado pelos famosos chefs da região basca
e pode custar mais de 20 euros por quilo.
Para a sua produção, a água salgada de nascente
corre por um canal de madeira.
A gravidade conduz então a água ao longo de três quilómetros
de tubos e canais ramificados até aos poços de armazenamento,
pronta a ser introduzida nos enormes terreiros
que dão ao vale a sua aparência de manta de retalhos.
É aqui que tem início o trabalho árduo e difícil,
porque a água salgada só pode ser convertida em cristais de sal
durante a parte mais quente do dia.
Trabalhamos com o nosso melhor colega de trabalho, o sol.
Enquanto a maior parte do país se abriga do sol do meio-dia,
Edorta e a equipa espalham a água salgada em alguns
dos mais de 5000 terreiros de secagem da área
e, quando o sol do início do outono incide neles,
a água dentro dos terreiros evapora-se,
concentrando os sais no interior.
Reviram cuidadosamente cada salina,
até restar tão pouca água
que os finos cristais de sal se começam a formar.
Então, terão de contar com o sol para fazer o resto.
Ao final da tarde,
os raios de sol evaporaram toda a água.
Os marnotos podem recolher os cristais secos de sal à mão.
É um trabalho árduo,
mas Edorta e os colegas terão, em breve, o merecido descanso.
Apenas podem apanhar o sal quando o sol brilha
e a chegada do inverno porá fim ao seu trabalho de um ano.
À medida que os meses avançam, os dias ficam mais curtos.
Um manto de neve cobre as terras altas de Espanha...
... e ventos fortes transformam a sua fria costa atlântica
num turbilhão de ondas e uma espessa neblina marítima.
Chegou o inverno.
INVERNO
Aqui temos a Galiza,
a região mais a noroeste de Espanha,
famosa pela sua costa atlântica traiçoeira.
A Costa da Morte.
Vista de cima, são óbvias as razões para o seu nome.
Estes muitos quilómetros de rochas escarpadas
são um cemitério para navios varridos por tempestades.
Mas as adversas condições atlânticas
são o paraíso para uma iguaria de marisco:
os percebes.
Estes crustáceos estranhos
são vendidos pelo triplo do preço da lagosta
e os pescadores fazem esforços extraordinários para os apanhar.
Juan Carlos e Manuel são "percebeiros",
apanhadores profissionais de percebes.
A apanha de percebes é uma arte muito antiga aqui na Galiza,
porque dependemos das marés, não podemos trabalhar todos os dias.
Talvez tenhamos cerca de 15 dias por mês.
Os melhores percebes habitam nas zonas de maior rebentação,
pelo que Juan e Manuel
nadam até às rochas exteriores para os encontrar.
Só podem alcançar o molusco quando a maré está muito baixa
e têm apenas uma hora
para apanharem o máximo que puderem.
No inverno galego,
os ventos fortes batem nas ondas num frenesim branco gelado.
A ondulação é tão forte
que Juan e Manuel são os únicos "percebeiros"
que trabalham nesta parte da costa.
O que lhes é conveniente.
Para nós, é melhor quando o mar está bravo,
porque sabemos que teremos os percebes só para nós.
Os "percebeiros" usam uma barra de ferro afiada
para cortar a base dos percebes.
Sempre atentos às ondas traiçoeiras.
É preciso ter cabeça.
Ser corajoso e saber o que se está a fazer.
Muitos "percebeiros" morreram na Costa da Morte.
Mas, para homens como Juan,
os perigos sempre presentes fazem parte do fascínio.
Para mim, é viciante.
Porque nos dá adrenalina
e é um trabalho muito gratificante.
Eventualmente, a maré alta
obriga os corajosos pescadores a regressarem à costa.
Mas saíram-se bem.
Têm 16 quilos de percebes para levar para a lota,
onde os comerciantes se reúnem para selecionar
o melhor marisco para os exigentes clientes da restauração.
São os únicos pescadores com percebes para vender,
conseguindo assim um bom preço:
600 euros por um dia de trabalho.
A minha relação com o mar é a que teria com a minha mulher.
Há momentos bons, mas outros mais difíceis.
Para mim, é a vida.
Durante séculos, os marinheiros temeram a Costa da Morte,
mas para os especialistas que ousam saquear as suas riquezas,
as recompensas são ótimas.
Na ponta mais oriental da faixa verde de Espanha,
a terra ergue-se para formar alguns dos picos mais altos do país.
Em pleno inverno,
esta cordilheira transforma-se num recreio para os aventureiros.
Os esquiadores vão para as encostas
e os montanhistas atacam os picos irregulares.
Estes são os impressionantes Pirenéus.
Separam a Espanha ao sul e a França ao norte.
O pico mais alto tem mais de 3000 metros de altitude.
Mas um olhar mais atento
revela uma misteriosa estrutura gigante,
escondida no sopé das montanhas.
Esta é a Canfranc International,
uma das maiores e mais grandiosas estações ferroviárias da Europa.
De cima, é simplesmente enorme.
O edifício principal tem 241 metros de comprimento,
365 janelas e 150 portas.
Mas esta megaestrutura esconde um segredo bizarro,
porque está abandonada há mais de 40 anos.
No seu auge, na década de 1930,
Canfranc serviu a lucrativa linha ferroviária
que atravessava os Pirenéus entre Espanha e França.
Mas a linha foi sendo abandonada progressivamente
e, na sequência de um descarrilamento em 1970,
as autoridades francesas acabaram por encerrar a linha.
Fernando Sánchez Morales é o presidente da autarquia.
Integra um projeto de 27 milhões de euros
para reabrir a estação.
A estação englobava todos os serviços.
Costumava vir aqui aos correios, ao médico, à cantina, ao hotel.
A estação era a vida da cidade.
Fernando quer trazer a estação de volta à sua antiga glória
e voltar a pôr Canfranc no mapa,
criando um polo turístico que incluiria um hotel,
um novo edifício da estação e uma linha férrea internacional.
Mas os planos de Fernando são controversos,
uma vez que Canfranc esconde uma história sombria.
O local teve um papel vital na Segunda Guerra Mundial,
impulsionando o esforço de guerra nazi.
Espanha foi a porta de entrada de Hitler em todo o mundo.
Durante a guerra, Canfranc tornou-se um centro de transporte chave
para Hitler importar ferro e tungsténio para a Alemanha,
construir armas...
... e, em troca, transportar ouro nazi.
Mas, debaixo do seu nariz, essas mesmas carruagens
ajudaram os judeus a fugir da Europa ocupada pelos nazis.
Era o comboio da liberdade.
Mas, por outro lado, dava vantagens a Hitler
com o apoio de Franco.
Prolongou a guerra e forneceu mais materiais aos nazis.
Apesar do seu passado conturbado,
Fernando está otimista
que Canfranc volte a trazer prosperidade à região.
Estou muito entusiasmado por poder terminar o projeto
e desfrutar do que vai acontecer aqui quando estiver pronto.
À medida que o ano avança,
o frio do inverno começa a recuar.
Os sopés dos Pirenéus irrompem num motim de flores silvestres
quando a primavera chega a Espanha.
Com as temperaturas mais amenas a invadirem todo o país,
no coração da nação,
campos de girassóis dourados explodem de vida.
De regresso a Segóvia, o historiador Nestor
continua ocupado a salvaguardar o futuro
das joias arquitetónicas da cidade.
Hoje, prepara-se para terminar um projeto
em que tem trabalhado nas últimas semanas.
Este é o Alcázar de Segóvia,
um dos castelos mais invulgares do mundo.
Grande parte da estrutura central do castelo remonta à Idade Média,
quando foi sede da corte real espanhola.
Cristóvão Colombo conheceu aqui a Rainha Isabel de Espanha,
antes de partir para descobrir o Novo Mundo.
Nestor faz parte de um projeto que visa garantir
que o modelo deste castelo único
é preservado para as gerações futuras.
Durante a última semana, tem usado um drone
para fotografar o Alcázar de todos os ângulos.
De seguida, irá reunir as imagens
para criar um mapa tridimensional de grande resolução.
Se o castelo for danificado por um desastre natural,
esta planta digital poderá ser usada para o reconstruir.
A documentação em vídeo é a melhor forma possível
de preservar este castelo e património durante séculos.
É a melhor forma de assegurar que toda a estrutura é preservada,
caso venha a ser danificada no futuro.
A peça final do puzzle 3D gigante do Nestor
é a imponente secção frontal do Alcázar.
Construtores medievais construíram esta muralha escarpada
para tornar o castelo inexpugnável,
mas a sua posição tornou também quase impossível
que os historiadores o estudassem de perto.
Até agora.
Conseguimos obter uma reconstrução 3D muito precisa
de qualquer detalhe que a estrutura tenha.
Os drones modernos revelam a verdadeira dimensão do Alcázar
como nunca antes.
As suas torres erguem-se 80 metros em direção ao céu
por cima do seu penhasco.
Tem 12 pináculos cónicos revestidos por ardósia,
mas estes picos característicos são relativamente novos.
Foram adicionados quase 400 anos depois do castelo ser construído
e imitam o estilo romântico dos castelos da Europa Central.
O Alcázar é uma combinação única
de arquitetura espanhola e alemã.
Com a secção remanescente da pesquisa concluída,
Nestor consegue, por fim, visualizar o mapa completo.
Espera que, no futuro, este mapa não permita apenas
que os historiadores reconstruam o Alcázar.
Pode também ajudá-los a descobrir os seus segredos escondidos.
Vemos coisas que nunca seríamos capazes de ver a olho nu.
É muito melhor ver os detalhes e aqui, no Alcázar,
conseguimos ver toda a estrutura,
bem como os detalhes das pedras e decorações do edifício.
Graças a Nestor e ao seu drone,
uma das principais paisagens históricas de Espanha
fica a salvo para as gerações futuras,
independentemente do que o futuro lhe reservar.
No outro extremo do país, na Andaluzia,
o sol do início da primavera nasce na região mais árida de Espanha.
A Andaluzia estende-se desde o Atlântico, a oeste,
até ao Mediterrâneo, a leste
e fica a apenas 13 km da costa de África.
A Andaluzia é uma terra de calor e paixão.
Casa da música flamenca
e de uma indústria cinematográfica outrora próspera.
O cineasta italiano Sergio Leone
veio para cá na década de 1960
filmar os famosos westerns-spaghetti.
Era a paisagem mais idêntica ao faroeste americano
que podia encontrar na Europa.
Mas um olhar mais atento
revela algo muito estranho em relação à paisagem.
Uma estrutura enorme e perfeitamente circular
parece brilhar como uma pérola gigante.
Esta visão de ficção científica é uma central elétrica futurista.
Foi concebida para captar a energia do sol,
mas não se trata de painéis solares. São espelhos.
Mais de 92 mil espelhos
são montados em plataformas motorizadas chamadas helióstatos.
Estão dispostos para concentrar os raios solares
no topo de uma torre de 147 metros de altura,
aquecendo a sua extremidade.
No interior da torre,
as bombas introduzem fluido frio na extremidade quente.
O líquido aquece a mais de 500 graus Celsius
e retorna à base onde é usado para acionar turbinas a vapor
e produzir eletricidade.
Usando apenas o calor do sol,
esta central gera energia suficiente
para abastecer 25 mil lares espanhóis.
A tarefa de manter em funcionamento esta megacentral de energia solar
recai sobre o diretor de obra, Raúl Mendoza Ruiz.
A Andaluzia é das regiões mais ensolaradas da Europa,
com 3000 horas de sol por ano.
Temos uma área de espelhos equivalente a 30 campos de futebol.
Para que a central funcione com eficiência máxima,
os espelhos devem estar limpos e perfeitamente alinhados.
Mas não é tarefa fácil
numa das regiões mais áridas e poeirentas de Espanha.
Raúl e a sua equipa monitorizam os espelhos na sala de controlo.
Estás a ouvir, Raúl?
Recebem um alerta.
Um sensor está a reportar um problema com um dos espelhos.
A minha missão num dia normal é produzir energia,
por isso, tenho de verificar se os espelhos estão limpos.
Se o espelho estiver sujo,
terá de ser removido para limpeza.
Mas primeiro, Raúl terá de o encontrar
e isso não é tarefa fácil numa área do tamanho do Mónaco.
O diretor de obra Raúl vai inspecionar o alarme.
Verificar a condição do espelho e ver se deve ser substituído.
Quanto mais tempo estiver avariado,
menos eficiente é o funcionamento da central,
portanto, Raúl tem de se despachar.
Acaba por localizar o espelho problemático
e usa um refletómetro para projetar
a luz no espelho e avaliar a sua sujidade.
Surpreendentemente, verifica que está limpo.
Outra coisa deve ter disparado o seu sensor ultrassensível,
talvez um pássaro a voar.
É um golpe de sorte para Raúl.
A sala de controlo volta a pôr o painel do helióstato em posição
e a central retoma a eficiência máxima.
A localização meridional de Espanha
torna-a ideal para recolher a energia do calor do sol.
O local de trabalho de Raúl
é apenas uma das 50 centrais solares térmicas em todo o país.
Espanha gera mais energia desta forma
do que qualquer outra nação no mundo.
Estou orgulhoso pelo facto da Espanha
ser um dos líderes em matéria de energias verdes.
As centrais solares de vanguarda da Andaluzia
são um fenómeno moderno.
Mas esta região de Espanha
acolhe também uma indústria que remonta 5000 anos no passado.
A apenas 100 km a oeste da central solar,
a paisagem muda drasticamente.
Quando nos aproximamos, vemos algo surpreendente,
um rio de leito vermelho vivo.
Este é o Rio Tinto.
O seu nome é sinónimo de "rio vermelho"
e dezenas de milhares de turistas visitam o local anualmente
para admirarem esta maravilha natural.
Estas cores são criadas por riquezas minerais.
Minérios de ferro, cobre e metais preciosos
destacam-se na paisagem.
Para completar esta visão de outro mundo,
as ruínas abandonadas de minas centenárias
estão espalhadas por todo o parque.
José Francisco Dominguez
transporta turistas aventureiros por este lugar extraordinário.
O que mais atrai a atenção dos visitantes nesta paisagem
é a variedade de cores.
Os cinzentos, os ocres,
é isso que chama a atenção das pessoas.
Talvez possa ser comparada a uma paisagem lunar
e muitos dos visitantes do comboio comentam que se parece com Marte.
Pensa-se que os primeiros mineiros
a chegar aqui deram início à Idade do Bronze há 5000 anos.
Muito mais tarde,
os romanos vieram extrair metais preciosos para moedas.
No século XIX,
engenheiros britânicos expandiram o local
a uma escala industrial.
Construíram esta linha ferroviária
e escavaram uma enorme mina de cobre.
Hoje, a indústria mineira desapareceu
e prevalece uma indústria muito diferente.
Cientistas espaciais usam o ambiente marciano do parque
para testar o equipamento da missão que, um dia,
poderá aterrar no planeta vermelho.
Astrobiólogos estudam estas águas ricas em ácido
para entender como a vida alienígena
poderia prosperar em mundos distantes ricos em químicos.
É incrível pensar
que esta paisagem multicolorida espanhola
possa um dia desvendar
o mistério da vida para além das estrelas.
A Espanha é uma terra de paixões e contradições,
onde as tradições antigas prosperam
lado a lado com as inovações mais modernas.
A paisagem e o clima proporcionam riqueza de recursos naturais
e uma cultura de criatividade
está a construir um futuro sustentável.
A capacidade desta nação
transformar o contraste em harmonia
faz dela a grande nação europeia que vemos hoje.
Legendas: Maria Joaquina Marques
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