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Chamo-me Joe Merrick, correspondente do Chicago Herald, em Moscovo.
Felizmente vou deixar Moscovo no pr�ximo m�s.
Penso deixar o jornal e escrever um livro,
um livro que termine neste p�tio,
onde me despedi da Oktyabrina.
Dizem que o Inverno russo mata at� as recorda��es.
Mas as recorda��es do ano que passei com ela,
ficar�o para sempre comigo.
A RAPARIGA DE PETROVKA
Ent�o, hoje n�o se trabalha?
Estou doente. Espasmos dolorosos no duodeno.
Baixa por doen�a.
A tua amiga enfermeira?
Quem mais havia de ser? A minha linda enfermeira!
Custou-me um par de meias e uma caixa de Tampax.
- E tu como est�s? - Melhor que nunca.
Ainda bem.
- Bem, estou preparado para a venda. - Estupendo! Ficaremos ricos.
Quem vai comprar aqui? O Esp�rito Santo?
- O professor de ballet. - Est� bem,
quem mais poderia comprar numa igreja?
- N�o est� ningu�m, s� as meninas. - Eu sei.
Viemos ver o Ignatievitch.
- Ol�! - Querido Kostya!
- Que tal estou? - Linda!
Um vestido marcante na vida de uma mulher inspiradora.
Usou-o na noite em que foi seduzida por Rasputin.
Joe, apresento-te a Oktyabrina.
O meu bom amigo Joe, americano e jornalista.
Sinto uma profunda emo��o.
Mas pensava que os americanos eram mais atraentes.
Bem, � que tive uma inf�ncia dif�cil:
fome, explora��o, luta de classes, sabe como �.
Claro, entendo.
Oktyabrina, estamos � tua espera...
para a dan�a da morte do cisne.
Devias ficar e ver-me dan�ar.
Ei, maestro. Maestro.
Kostya, faz o favor de n�o interromper a minha arte.
Por favor, senta-te.
Descobri de que morre o cisne: de frio.
Maestro, trago roupa para vender.
- Roupa americana. - Roupa americana?
- Ent�o abandona a sua arte? - "Ars longa, vita brevis".
A arte perdura, a vida � curta.
Deixa ver a roupa.
Ent�o, o que achaste?
Muito bem.
Muito bem. J� percebi que n�o entendes nada sobre ballet.
Efectivamente. Como sabes isso?
Porque no ballet os elogios equivalem aos aplausos,
devem ser sempre entusiastas. "Muito bem" � como um insulto.
- O que vende o Kostya desta vez? - Roupa.
- A roupa velha da minha mulher. - Oh, coitadinho!
Ela engordou e tens que lhe comprar um roupeiro completo?
N�o. Morreu h� dois meses.
Desculpa, lamento muito.
Est�s no per�odo de enxugar as tuas l�grimas.
- Per�odo de qu�? - � um velho costume russo.
Os quarenta dias depois da morte, � o per�odo do luto.
E se o morto for uma pessoa muito querida,
visita-se o seu t�mulo todos os 40 dias, sem excep��o.
� dif�cil, o t�mulo dela est� em Topeka, no Arkansas.
E o casamento foi enterrado no Reno, em Nevada, h� cerca de um ano.
Um velho costume americano.
Posso fazer-te uma pergunta muito �ntima e pessoal sobre a tua mulher?
N�o quero ser intrometida, nem abrir feridas, mas...
- Posso perguntar? - De que se trata?
Ela tinha algumas cuecas de seda preta?
- Sim, tinha. - Posso compr�-las?
Pergunta ao maestro.
Soa bem. N�o parece m�sica de ballet.
E n�o �.
- Tocas jazz em algum s�tio? - N�o.
- Oficialmente n�o. - E oficialmente o que tocas?
M�sica de ballet.
N�o s�o divinas?
E s� dez rublos! Nada mau, ele queria quinze.
Dez rublos? Foste roubada.
N�o me parece.
- N�o precisa disto. - O que faz?
Saldos de Inverno.
Uma oferta por cada compra. Outro velho costume americano.
� lindo! Obrigada.
Muito obrigada.
Gostava de falar contigo sobre o jazz na Uni�o Sovi�tica.
Uma reportagem para o meu jornal. Podemos falar em alguma altura?
Vai ser dif�cil.
- Gardner? - Sim.
Eu respondo �s tuas perguntas e tu gravas-me isso.
Combinado.
Fant�stico. Venham tomar o ch�.
O excelente ch� russo!
A R�ssia inventou a melhor forma de fazer o ch�.
E se n�o te apetecer tomar ch�, podemos ir � tua casa
buscar caf� americano, ou whisky, ou tabaco americano.
Por n�s tudo bem, n�o nos ofendemos por isso.
O ch� est� bem.
- Voc�s os dois vivem juntos? - Partilhamos o quarto...
com mais tr�s.
Ela n�o � minha namorada, se � o que est�s a pensar.
Mas tem um homem que a protege.
- Um homem importante. - Vamos, depressa!
- Ela trabalha? - N�o!
Nem sequer tem documenta��o para viver em Moscovo.
E � uma loucura viver aqui... sem documenta��o.
Tatiana Serdievna, temos convidados para o ch�.
Obrigada.
- Mais um piso e chegamos. - Ainda bem.
N�o � uma verdadeira casa de h�spedes.
N�o existem regras nem nada disso.
A dona n�o se atreve a reclamar porque amea��mos denunci�-la
por ter uma casa de h�spedes clandestina.
Aqui est� o grande favorito do ex�rcito vermelho.
Middleland, do inesquec�vel Fats Waller.
Credo.
Joe,
est�s louco?
Fats Waller, nunca ouviste falar dele?
Anos 40, Nova Iorque. Fabuloso.
Gostas?
A m�sica faz parte da minha vida.
A minha m�e tocava violino na orquestra de Kiev.
- Vamos tomar ch�. Kostya! - Americano doido.
Joe, tu sentas-te aqui. Anda.
� a minha poltrona favorita.
Kostya aqui. Leonid aqui. Vamos.
- Toma. - Obrigado.
Ent�o a tua m�e era violinista da orquestra de Kiev,
na �poca em que Vasili Iuskiv a dirigia?
Como � que sabes tanto sobre o meu pa�s?
Estudei russo na universidade.
Depois fui tradutor,
at� que fundei uma revista quinzenal sobre a R�ssia para a ONU.
E depois? Fugiste para o mar?
Depois consegui o doutoramento em Harvard e uma amante em Radcliff.
- Radcliff, o que � isso? - Outra universidade.
E a amante acabou por ser tua esposa?
Tr�gico.
T�o tr�gico...
Gostava de tocar algo para voc�s.
Sim, querido, faz isso.
Oh, Deus...
N�o fiques nervoso.
Nadya, tens que te levantar. O Leonid vai tocar.
Voloya, anda! O Leonid vai tocar.
Senta-te aqui.
Com licen�a, por favor.
Magn�fico.
Mas nunca interpretar�s em p�blico. N�o aqui.
Bem, ent�o e a entrevista?
Acabaste de a dar.
Tenho algo para te dar em troca daquele lindo chap�u.
- Para ti. - � lindo.
Domin�s.
- S�o de marfim. S�o valiosos! - Bem...
Tu est�s a limpar o teu s�t�o, e eu estou a limpar o meu.
Eu vendi as minhas coisas, n�o as dei.
Porque �s americano.
Escuta, hiena fascista da imprensa burguesa,
um homem convida o amigo para almo�ar, sem outro interesse.
No teu caso sim.
Prometo devolver-te �s duas da tarde.
Ela quer ver o teu apartamento. Ligou-me 4 vezes esta noite.
A Oktyabrina?
Kostya! Joe...
Que agrad�vel surpresa!
O que se passa?
� s� que a vida est� cheia de agrad�veis surpresas.
Tive uma ideia.
O que achas de voltarmos ao meu apartamento?
- A melhor ideia do mundo. - Imaginei que fosses gostar.
Estou t�o feliz!
O �nico problema � que as hienas fascistas costumam trabalhar em casa,
e portanto ter� que ser uma visita breve.
Ter� mesmo de ser breve. Tenho um dia muito ocupado.
Aqui n�o t�m porta?
Para as raparigas russas, n�o.
Sobretudo se n�o t�m documenta��o.
Queres que te expulsem do pa�s aos pontap�s?
Mas isto que fazemos n�o � contra a lei.
Pois n�o?
N�o � preciso violar a lei para te expulsarem deste pa�s.
Bem, oxal� valha a pena. Mais nada.
Sobes at� ao parapeito da janela e sais para a escada de inc�ndios.
Entendido?
Boris.
Acompanha a senhorita l� acima.
Esperem um minuto.
Segue o mapa e n�o olhes para baixo.
Isto � rid�culo.
Siga-me, por favor.
Apanhei-a!
Vitorio.
Ol�, Joe.
Chicago Herald Departamento de Moscovo
Muito rid�culo.
E perigoso.
Isto � uma confus�o dos infernos.
O �ltimo inquilino, Jean Talon, do Paris Match, deixou as cortinas.
Ao Kurt Weigner, do Dier Spiegel, devemos os tapetes,
e as manchas de vinho tinto.
As coisas modernas s�o do Helsinki.
A minha mulher divertia-se a fazer compras.
� um pal�cio!
E tens banheira?
Claro.
A casa de banho.
O triunfo do design sobre a limpeza.
Uma banheira com manchas de antes da revolu��o,
Um autoclismo que afogaria a abertura de 1812,
um arm�rio com um trinco nojento...
Os fundos de investiga��o do meu jornal.
Muitos dos teus compatriotas n�o me falam,
mas, v� s� com que gosto acolhem esta figura de George Washington!
O que � isto?
- O bid�. - Para que serve?
Para te lavares.
Ent�o e a banheira?
- Mais abaixo. - Ah, os p�s.
Mais acima.
Isto � da mais absoluta decad�ncia.
Queres dizer para lavar...?
Fant�stico, fant�stico!
Posso tomar um banho de �gua quente?
Bem... claro. Est� � vontade.
Obrigada.
Chama-me se precisares de alguma coisa.
Tal como a pintura abstracta n�o tem a considera��o que merece,
a m�sica de jazz progressista � pouco conhecida
e, claro, est� proibida.
A san��o � simples.
Se um m�sico sair da linha,
�-lhe retirada a licen�a de trabalho
e n�o pode voltar a tocar.
Esperaste muito, querido?
N�o. Aproveitei bem o tempo.
Trabalhei durante 5 mudan�as completas da �gua do banho,
3 duches, 2 descargas de autoclismo e 30 can��es de folclore russo.
Foi um belo banho!
Ent�o?
Onde vamos?
N�s n�o vamos a lado nenhum. Eu vou aos correios.
Fecham �s oito e meia, mas � preciso chegar at� �s oito.
Precisam de meia-hora para corrigir os erros ortogr�ficos.
Deixo-te em casa, est� bem?
� melhor assim. De qualquer forma tenho um encontro esta noite.
De certeza que n�o queres refrescar-te outra vez?
Espero que n�o planeies ter uma aventura comigo.
Porque dizes isso?
Para te avisar, sou infiel por natureza.
Aborre�o-me.
Foi sempre o meu problema, desde que era crian�a.
Bem,
onde iremos amanh�?
Quem te disse que vai haver um amanh�?
H� sempre um amanh�, agrade-te ou n�o.
Os arm�nios t�m um velho prov�rbio:
os gansos e o amanh� chegam sempre sem avisar.
Estaremos em contacto com os gansos.
O camarada Selinovitch,
respons�vel pela f�brica de maquinaria pesada agr�cola,
foi condecorado com a Ordem de Lenine de terceira classe.
Pr�mio pelo brilhante desempenho na Organiza��o da Frente de Trabalho
de Novosivitch, que permitiu que 28.000 camaradas
se dedicassem a outro trabalho.
Ent�o temos uma amiga em comum.
� muito vulner�vel.
Eu n�o diria isso.
Quer tomar alguma coisa?
- � muito am�vel por me convidar. - � muito am�vel por aceitar.
Brindemos com conhaque arm�nio.
Todos os motoristas s�o pagos pela KGB,
mas o Ivan � de muita confian�a.
Ele sabe que n�o o denuncio por ter um t�xi nas horas livres.
Ou por roubar gasolina no parque oficial,
roubar pneus, porque o meu carro muda muitas vezes de pneus.
Ent�o voc� deu-lhe
umas cuecas de seda pretas.
� verdade. Como lhe ficam?
Nenhuma mulher fica mal com cuecas de seda preta.
Sabe, a Oktyabrina fala-me muito de si.
Tamb�m me fala muito de si.
Ah, sim?
- A s�rio? - N�o p�ra.
Para onde me levam...?
Ivan, meu amigo, est�s s�brio o suficiente para conduzir?
Claro que sim. E b�bado o suficiente para andar.
Ele sabe duas piadas! Esta � uma delas.
E qual � a outra?
- Conta-lhe! - Sim, conta-me.
Anda.
Qual � o estado ideol�gico
que nos leva do socialismo ao comunismo?
- Diz-me. - O alcoolismo.
Valerie.
Envia estes diapositivos para o escrit�rio de Nova Iorque.
Diz-lhes que o coment�rio chega...
na pr�xima quinta-feira.
Mas como? Ainda n�o est�s pronto?
O ministro est� � espera. Temos um longo caminho at� sua casa.
O que raio � isso?
Poderias cuidar das minhas plantas por uns tempos?
Pobre Leonid, ele n�o pode, tem a febre dos fenos.
E aqui h� muita mais luz e ar.
N�o te preocupes, d�o pouco trabalho.
Anda, vamos! Est� um dia lindo!
Venho j�.
Este �s tu?
O qu�?
- Este. - Sim, fui eu que escrevi.
Que fotografia horr�vel. N�o pareces nada tu.
� sobre o qu�?
A tua juventude?
As tuas primeiras experi�ncias sexuais?
O movimento sindical na Am�rica do Sul.
Que chato! Aposto que ningu�m o leu.
Pelo menos os do j�ri do pr�mio Pulitzer leram-no.
Porque escreves hist�rias sobre isso?
Porque � que n�o escreves hist�rias de amor,
de paix�o, ou sobre mim?
- Porque n�o escreves algo sobre mim? - Eu n�o escrevo fic��o.
Vamos, anda.
S� uma vez...
Gostava de visitar Paris apenas por uma vez.
Ver as suas ruas e ilumina��es. Provar a gastronomia francesa.
E depois ir a um desses s�tios
onde as raparigas tiram a roupa.
Mas nunca irei.
N�o se queixe.
Tem um bom emprego,
um apartamento do governo, uma namorada...
e um carro.
Tudo o que qualquer americano sonha.
E tamb�m n�o tens problema com cr�ditos,
com o n�vel social ou fuga de impostos.
Talvez tenha raz�o. N�o temos preocupa��es.
Talvez seja isso que nos deixa t�o tristes.
Um, dois, tr�s e...
- Feliz anivers�rio. - Parab�ns.
Obrigado a todos. Muito obrigado.
Ao Joe pelas luvas, ao Kostya pelo conhaque...
e � minha maravilhosa pequena por tudo. Por tudo.
Faz hoje um m�s que tento ganhar coragem para vos contar.
Ganhar coragem para dizer a mim mesmo a verdade.
Falhei.
Fui transferido de Moscovo.
Mandam-te para fora de Moscovo? Porqu�?
Objectivos imposs�veis de atingir.
Nenhum do nosso departamento os poderia alcan�ar.
V�o mandar-me para Sveranska.
Um novo projecto.
Eles chamam-lhe promo��o.
Pobrezinho!
N�o tive coragem de te contar antes.
Oktyabrina!
Que surpresa maravilhosa. Kostya! Joe!
Sergei!
N�o sabem o quanto vos agrade�o por se terem vindo despedir.
Senhora, representamos a Comiss�o de Trabalhadores da sec��o 2, piso 4.
Viemos despedir-nos do nosso querido e admirado ministro.
Esta rapariga ganhou, com vota��o, a honra de lhe dar o beijo de despedida.
Bem, camarada, cumpre com o teu dever!
Sergei!
Vais perder o comboio, Sergei!
Vou chorar tanto amanh�.
- Baixa-te. Baixa-te! - O qu�?
- O que se passa? - Fica a� em baixo!
Estou a passar por tua casa.
- O que fazia ali a KGB? - � uma casa de h�spedes ilegal.
H� montes delas. Porqu� esta?
- Viste o Leonid? - N�o.
- Acho que n�o o levaram. - Por causa da sua m�sica?
N�o, porque ele quer sair do pa�s.
Diz isso a toda a gente. Pede ajuda a qualquer um.
� um est�pido!
Mas vai precisar de ajuda.
Joe,
acorda.
- Acorda. - O que se passa, criatura?
Venho pagar-te a renda.
O qu�?
Quero esclarecer as coisas. � um acordo de neg�cios.
Eu satisfa�o o teu desejo e dou-te o meu corpo uma vez por semana,
e em troca uso o teu apartamento, incluindo a casa de banho.
Vai para a cama! S�o quatro da manh�!
Est�o exclu�dos os fins-de-semana e as noites antes das aulas de ballet.
Aviso-te se surgirem outras alturas inconvenientes.
Ouve, sua russa escanzelada! Escolheste uma m� altura.
N�o quero acordo nenhum, s� quero dormir.
Boa noite.
Efectivamente, esta noite � a pior altura.
Imposs�vel, de facto!
Oktyabrina?
Olha...
Eu desejo-te.
Mas n�o te quero como renda. Qualquer homem te desejaria.
Eu sei, foi o que te tentei dizer.
Mas esta noite � imposs�vel, tenho aula de ballet de manh�.
Credo! �s insuport�vel!
Joe?
A pol�cia...
deve de ter levado o meu lindo chap�u branco.
As velhotas estiveram detidas dois dias
e depois passaram-lhes uma multa.
O Nikolai perdeu o visto de resid�ncia em Moscovo
e mandaram-no para Zarusk.
E o Leonid?
Dizem que n�o sabem nada dele.
O que significa que ainda n�o o apanharam.
O que tens?
Beijei-te. Uma pequena surpresa.
N�o estava � espera.
Desde quando se esperam as surpresas?
Desculpa se te incomodei.
N�o, n�o me pe�as desculpa.
Afinal de contas, n�o � a primeira vez que me acontece isto.
A segunda?
A primeira vez que me violaram...
Foi um homem que se chamava Dudnikov.
Tinha um bigode enorme.
Levou-me para as montanhas
e pass�mos um longo m�s de amor.
Foi uma aventura muito apaixonada.
Eu s� tinha 16 anos.
Talvez penses que era demasiado jovem para ser a amante de algu�m.
Suponho que n�o acredites em mim.
Oktyabrina, n�o precisas de inventar hist�rias.
N�o tens que dar-me explica��es de nada.
- N�o a quem gosta de ti. - Oh, Joe.
N�o inventar hist�rias para quem gosta de mim!
Nunca me tinha ocorrido fazer isso.
Joe...
tu �s maravilhoso.
A partir de agora contaremos tudo um ao outro.
A verdadeira verdade.
Est� bem.
� t�o triste, a verdadeira verdade!
Podes despachar-te? Tenho que fazer a barba.
Temos um velho ditado:
"A verdade � o p�o, os sonhos, a manteiga".
Vou ficar com o Ignatievitch pelo menos at� �s tr�s.
Depois tomarei ch� com a Raja e irei pagar-lhe a blusa.
S� me custou tr�s caixas de Gillettes.
Depois vou sair com a Helda, �s seis.
Tem um casaco de veludo novo que talvez troque por desodorizante.
Queres cerejas?
Podes compr�-las por um frasco de aftershave.
N�o quero cerejas.
A prop�sito,
ficaste sem l�minas de barbear, desodorizante e aftershave.
L�minas de barbear, desodorizante e aftershave...
Deus, ajuda-me!
Quem �?
Sovotchkia.
Josef Sovotchkia.
- Do C�ucaso. - �ptimo.
N�mero dois.
E ganhar� a medalha de ouro quando o Ilianovitch se retirar.
Diz-me,
como vai o caso?
O caso?
Na outra noite acordou-me �s quatro da madrugada
e ofereceu-se como renda.
Uma proposta t�o sexy como o t�mulo de Lenine.
Ouve, ela costuma confundir amor com piedade.
Se fosses um pobre ministro exilado
ou um poeta esfomeado, iria amar-te at� � morte.
Aceita a renda.
N�o, cobrei a renda � minha mulher durante tr�s anos.
Estou farto de ser o senhorio.
Pois se lhe dizes isso n�o tardar� a aparecer com um rival
bonito e alto, e ver�s o que � bom.
Diz-me uma coisa.
Sabes se o Leonid tem mesmo a febre dos fenos?
N�o! J� te disse: ela gosta de ti.
E a prova � que te confia as plantas dela.
Sim, as plantas.
As plantas.
Se te dissesse que me sinto como um estudante � espera de boas notas,
percebias o que queria dizer?
�ptimo.
H� que criar ambiente.
Onde te meteste nestes �ltimos dias?
Ballet?
N�o, acho que vou deixar o ballet, � contraproducente.
Eu s� ia para satisfazer o ministro.
Tenho um presente para ti.
O Instituto da Cultura vai passar um filme franc�s sensacional,
que de certeza vai ser proibido pela censura.
Tenho entradas para a �nica sess�o na Uni�o Sovi�tica.
Muito interessante.
Andas h� dez semanas a pedir-me que te leve a ver
um filme capitalista degradante!
Eu disse que � muito interessante.
O que est�s a ler?
Um livrinho.
Manual de Treino da Infantaria Sovi�tica.
N�o posso acreditar!
� mesmo verdade!
Importas-te de me dizer por que raios te interessa
o Manual de Treino da Infantaria Sovi�tica?
Acontece que a defesa da nossa na��o depende dele.
- Quem � este tipo? - O meu novo amante.
O que se passa?
Tu sabias que tipo de filme era, por isso fugiste.
- N�o gostaste? - � horr�vel!
E chato. Adormeci!
Quem � que gosta de tanta decad�ncia?
Est�s louca! Disseram-me que � muito divertido.
A �nica coisa boa foi ter encontrado o meu chap�u.
Que bonita!
- Onde o encontraste? - Usava-o a mulher de um oficial.
O ladr�o!
E quanto ela o p�s debaixo do assento... roubei-o de volta!
- Roubaste? - Roubei.
- � pol�cia? - Sim.
Vamos sair daqui.
Tenho que fazer uma entrevista.
Espero por ti na pra�a daqui a meia-hora.
O nosso povo eliminou a fome,
e as outras doen�as das na��es capitalistas.
Sou chefe da pol�cia de uma cidade
de oito milh�es.
As estat�sticas falam por si mesmas.
Joe Hammond, do Times.
- Sr. Valinikov... - Espere at� que termine.
As estat�sticas...
Teremos alguma oportunidade para fazer perguntas, Sr. Valinikov?
Joe Merrick, do Chicago Herald.
Talvez seja suficientemente am�vel para n�o interromper.
Estas declara��es est�o a ser feitas a seu pedido.
N�o, senhor. Solicitamos uma entrevista pessoal.
Isto � uma entrevista pessoal.
Alguma objec��o?
N�o disse uma �nica palavra verdadeira.
� disso que me queixo.
Posso at� perdoar os malditos que d�o voltas e mais voltas,
interminavelmente.
- Ol�, queridos! - Ol�.
Sabia que te interessaria.
Ouvi absolutamente tudo.
De qualquer forma, o que � que interessa?
Escreve o que quiseres, o Valinikov n�o se vai importar.
Ele nem deve saber que existem jornais em Chicago.
Bem pensado! Essa parte est� resolvida.
Mas ent�o e eu?
Ouve, � muito simples.
O teu jornal quer uma hist�ria sobre a terr�vel incompet�ncia sovi�tica.
Se � isso que agrada aos teus leitores, escreve o que quiseres.
Eu n�o sou um jornalista russo.
Sei a diferen�a entre factos, inven��es,
e a pura mentira.
Claro, o teu pa�s � muito melhor.
Sim, muito melhor em massacres de �ndios.
Em queimar povos no Vietname,
em linchar negros inocentes.
E sentem-se muito superiores nas vossas cozinhas resplandecentes
- e belos carros! - A� � que est�!
Os nossos jornalistas escrevem sobre isso e denunciam o que o governo
faz de errado.
Caso contr�rio, como saberias isso tudo?
- Eu estou aqui para contar a verdade. - A tua verdade!
Quanto mais feia, melhor.
Escavas o que podes no nosso lixo, para te sentires superior.
Oh, meu Deus...
Tiveram que morrer 20 milh�es de russos para que tu pudesses escrever
as tuas verdades sobre n�s.
Vai em frente, � para isso que te pagam!
- Mas isso chama-se prostituir-se. - Ei, espera um momento.
Se sou uma prostituta, quem � que vive � custa dos meus ganhos imorais?
Quando tiveres um trabalho, poder�s criticar o meu!
O orgulho com que tiras os teus benditos cigarros
e esperas que as pessoas se ajoelhem...!
- Eu n�o os escondo, tu � que os roubas! - Guarda os teus cigarros!
E fuma-os enquanto assassinam um milh�o de pessoas em Hiroshima.
Isso � rid�culo.
Lembra-te disso da pr�xima vez que disseres mentiras sobre o meu povo!
Oktyabrina!
Ianque Casa
Ouvi dizer que tens sa�do com aquela rapariga dinamarquesa.
- Sim, a Helga. - Helga!
Disseram-me que � sensacional.
- � simp�tica. - Simp�tica?
N�o me pareces muito interessado.
Tenho de me contentar com o que h� por aqui.
Sabes, talvez devesses tirar umas f�rias.
Porque n�o vais para casa por uns tempos?
J� fui...
E n�o estava l� ningu�m.
Ol�, Helga!
A minha beleza dinamarquesa!
Linda! Quem � o teu amigo? Encantado.
Roupa nova! Deve ser o teu anivers�rio...
Bem, um deles... Anda, vamos!
Tu tamb�m, Joe.
Escuta.
Est� aqui uma amiga tua.
- Ela est� aqui? - Sim.
Mas n�o vive aqui.
O ex�rcito est� a tratar disso. Ent�o pensei que talvez...
Bem, at� logo.
Ol�, Joe. Onde tens estado? Passaram-se semanas!
- Oktyabrina. Onde tens estado? - No c�u, querido!
E quero que conhe�as a raz�o disso.
- Est� aqui. - Olha, esta �...
Esta � a Helga Fandom e Oktyabrina Maddeyeva.
- Como est�s? - Encantada.
Muito prazer. Ela � perfeita para ti! Com licen�a!
Perd�o.
Sasha, esta � a Helga, e este � o Joe.
- Alexander Radienko. - Como est�s?
- Gostas de champanhe? - Adoro champanhe.
Eu tamb�m! Bem, pousa isso, porque temos que ir
seduzir o Kostya para conseguir outra garrafa. � muito mesquinho.
Sasha, queres acompanhar o Joe?
�s de que parte da Pol�nia?
Como? Sou de onde?
A Oktyabrina disse que eras polaco.
Quando entraste, disse: "� o amigo polaco do Kostya".
Ah, sim, claro.
De Vars�via.
Vars�via!
Estive em manobras em Vars�via. � uma cidade encantadora.
Eu tamb�m gosto. � a minha casa.
A s�rio que �s da Pol�nia?
Sim, claro que sim. Porqu�?
A Oktyabrina � t�o mentirosa, que n�o sei.
� capaz de dizer qualquer coisa de uma pessoa s� para que pare�a...
mais atractiva.
No outro dia disse-me que tinha um amante americano,
mas eu n�o acredito.
Um amante americano com quem ela vivia,
mas que se tornou ciumento, violento...
Ela teve de o deixar. N�o gosta de se prender a ningu�m.
Isso partiu-lhe o cora��o.
Eu acho que � treta.
Mas andava muitas vezes com Lucky Strikes e revistas americanas.
Bem, eu sou mesmo da Pol�nia.
- � bonita, n�o achas? - Sim, �s um homem de sorte.
� realmente especial.
Ias gostar dela.
- �s um homem de sorte. - Eu sei.
Mas n�o te deixes enganar pela sua magreza.
Ela � mesmo especial.
Tenho a certeza que sim.
Fant�stico.
Olha, gosto muito dos polacos.
Gostaria de te fazer um favor.
Aqui tens dez rublos. Porque n�o a levas a jantar?
Vais passar um bom bocado.
Ela � fabulosa!
Ela est� a causar-te problemas, n�o est�?
N�o consegues que te abra as pernas, pois n�o?
Ando a tentar h� semanas.
J� experimentaste todas as formas que conheces?
Sim...
- E nada? - Imposs�vel.
Praticamente tive de violar o meu querido Kostya para conseguir isto.
De que se riem?
O que tem tanta gra�a?
Uma rua de Moscovo com alguns autom�veis pretos. Ponto.
Ao apoiares-te sobre os carros indicas que est�s interessado,
e segundos depois aparece o traficante clandestino
para come�ar as negocia��es. Ponto e par�grafo.
Os pre�os...
Estou?
Vuludiev?
Chame o Vuludiev Midki, r�pido.
Aqui n�o existe ningu�m com esse nome.
Raios! N�o � do 2721511?
2721511? N�o, n�o �.
2721511?
Joe, espero por ti daqui a meia-hora. � importante.
Tenta 20 minutos.
20 minutos, est� bem. Estarei na loja de livros usados
do n�mero 44, da rua Petrovka. � muito importante.
Ol�, querido Joe! Ol�.
Estou morta de fome, leva-me a almo�ar.
- Onde est� o Kostya? - N�o p�de vir.
Vou ter de sair por um bocadinho.
N�o p�de vir. Pediu-me para te dizer que n�o era nada de importante.
Que fome!
Tive que arranjar um emprego,
depois das coisas cru�is e terr�veis que me disseste sobre ser um parasita,
sabendo que n�o podia ter trabalho porque n�o tenho documenta��o.
- E como � que conseguiste? - Subornando.
Ainda tinha alguns dos teus Lucky Strikes.
E gra�as ao Alex. Finalmente estou apaixonada de verdade.
Est� fora h� v�rios dias, e eu j� me sinto como uma vi�va inconsol�vel.
� uma situa��o muito dif�cil de suportar.
D�-me uma fatia de presunto?
- Queres presunto? - Sim. Estou a ver...
Duas fatias, por favor.
Estou a ver que a aus�ncia dele n�o te afecta o apetite.
A tristeza d�-me fome.
E duas fatias de queijo.
N�o suporto a ideia de que ande a descer e a subir colinas
no s�tio para onde disse que ia.
Schelinikov, quando estar� de volta?
Dentro de tr�s dias, uma eternidade.
Vamos ao parque Gorki?
- Bom dia. - Bom dia.
- S�o amantes? - Est�s com ci�mes!
- S�o? - Vamos, Leonidas � uma crian�a.
Chama-lhe o seu ratinho.
D�-lhe migalhas para comer, ajuda-o a sobreviver...
Ele tem uma grande d�vida para com ela.
Est� bem.
� s� que...
- Seria l�gico. - Quando � que ela fez algo l�gico?
Por exemplo, olha agora.
O soldado amigo dela vai-se embora, e o que � que ela faz?
Obriga-me a ligar ao seu amigo americano e a conseguir...
Como dizer? Um falso encontro numa livraria.
Passam o dia juntos, e depois fico a saber que ela voltou a levar
todas as suas plantas para o apartamento do americano,
porque tamb�m precisam de uma casa melhor.
Mas o que significa isto tudo?
Vim tomar um banho.
Com as tuas plantas?
Lembras-te daquele soldado rid�culo que te apresentei na outra noite?
Foi defender uma na��o subdesenvolvida.
E, bem...
J� me come�ava a parecer um grande chato.
- Que maravilha! Maravilhoso... - Ol�, Sergei!
- Como est�? - Ol� rapaz.
S�o t�o am�veis!
N�o est� com um �ptimo aspecto?
Est�s t�o bem!
Obrigado por me trazer a Oktyabrina, Joe.
Lamento n�o ter podido vir antes.
Ela est� maravilhosa!
Os luxos americanos ficam-lhe bem.
Tenho de ir � Am�rica daqui a uns dias.
- N�o por muito tempo, n�o? - N�o, volto no Outono.
O que � que fizeste?
Que banquete! Salame!
J� n�o como salame desde que sa� de Moscovo!
Caranguejo sim! Chegou-nos um vag�o inteiro por engano.
Era delicioso! Mas um vag�o inteiro era demasiado, n�o?
E temos bolo de sobremesa!
Oh, meu Deus! Esqueci-me das flores.
N�o lhe contes sobre mim...
Ir� ficar bem. Aqui respira ar puro.
Se eu fosse o �nico a dispor dela,
era a ti que a entregava.
Aqui tens. Flores.
Vindas de Moscovo.
Agora, por favor, conta-me tudo da tua vida como cavalheiro do campo.
Posso tomar mais um pouco de champanhe e de caviar?
Sim.
N�o te demores.
N�o vou demorar-me.
Francos franceses.
Marcos alem�es.
Libras esterlinas.
E os d�lares americanos?
D�lares.
Est�s contratado para actuar na orquestra do barco Tamara.
� mais f�cil licen�a para viajar se fores casado
sobretudo se sabem que a esposa ir� atr�s.
Escuta, o teu barco escalar� em Yalta, Odesa e por �ltimo em Istambul.
Tens uma dispensa de doze horas para descer a terra,
na Turquia.
Boa viagem.
Leonid, olha, estou casada.
Sinto-me diferente. A Sra. de Josef Valni.
Soa muito bem.
O sol do rom�ntico sul... Mal posso esperar!
Quando partimos?
Mas estes pap�is s�o para esta noite.
Fiz o melhor que pude.
Kostya...
N�o podemos ir amanh�?
Tenho que fazer umas coisas importantes.
Esta noite � especial. O Joe vai amanh� para a Am�rica.
Mas o que raio achas que estamos a tentar organizar?
Um passeio de metro?
Queres que pe�a � KGB que tire uns dias de f�rias,
enquanto te despedes do Joe? Vamos, acorda!
- O Joe sabe sobre isto? Responde. - Claro que n�o.
Sabe que te vais embora?
- Daqui a uma semana sim... - N�o me mintas!
O Joe n�o sabe nada, n�o lhe disse nada.
- Porque � que te deu o dinheiro? - Ele n�o me deu nada!
Eu roubei-o!
Est� bem.
Ouve...
O comboio parte �s onze da noite.
Compreendes?
� suposto seres... a mulher dele.
N�o pode atravessar a fronteira sem ti, compreendes?
Oktyabrina.
O que eu quero... Quero ir embora...
Porque nunca mais quero p�r a vida de ningu�m em perigo
por ser meu amigo.
Vou ter contigo � esta��o, �s dez.
Esta noite?
Querido, sabes que sempre quis ir ao Mar Negro.
E o Kostya tem uma moradia magn�fica. Vamos com um m�dico amigo dele...
J� tem os pap�is, e vamos com um grupo enorme...
E partimos esta noite, de comboio.
Ah, sim? Bem...
Ent�o n�o tens muito tempo.
� melhor fazeres as malas.
- Onde vais? - Ao clube embebedar-me.
Talvez encontre uma rapariga que se decida a vir comigo.
Isto se me restar algum dinheiro para me embebedar, claro.
Por acaso n�o sabes o que aconteceu ao dinheiro que estava aqui?
N�o, n�o...
� que me faltam quase 200 d�lares.
- Est�s a acusar-me? - Sim.
- � isso mesmo. - Muito bem, pois...
Fui eu! Sim, eu roubei o teu precioso dinheiro.
Mas porqu�? Bastava pedires!
Confias t�o pouco em mim que tinhas que roubar?
Eu digo-te porqu�. Porque n�o queria suplicar.
Vai.
Pelo amor de Deus!
N�o te ocorreu nada melhor que isso?
O que queres dizer com isso?
Come��vamos a estar bem os dois juntos!
Come��vamos a... Raios!
Depois pensaste melhor e agarraste a primeira desculpa para me deixar.
Diz.
N�o quero saber.
Bom...
Adeus, Joe.
Todos os visitantes para terra, por favor.
� a minha mulher.
Tenho que ir.
Mas um �ltimo beijo ao meu marido...
antes de nos separarmos.
Eu sei que esta viagem s� durar� uma semana, mas...
tenho a impress�o de que ser� para sempre.
Obrigado. Deus te aben�oe, Oktyabrina.
Tudo bem?
Triste?
Odeio ver como homens fortes se tornam cobardes.
Devia ter ficado a tocar a m�sica dele
at� que o tivessem obrigado a parar.
Est� a trair-nos.
Est� a trair-se a si mesmo.
- O que tens? - Nada.
Todo este choro �s 4 da manh� n�o � nada?
Volta para a cama!
Olha.
Vou dizer-te uma coisa.
O Joe
um dia vai sair da R�ssia, e para sempre.
N�o se vai casar durante muito tempo.
E quando o fizer, ser� com uma mulher americana
que saiba cozinhar numa cozinha el�ctrica,
e preparar martinis...
Ter� muitos criados negros.
Ele ficou enfeiti�ado por ti,
e parece-me que tamb�m tu por ele, mas...
Olha!
No mundo dele serias como um cosmonauta na lua.
N�o poderias respirar!
Sempre rodeada pela fria hostilidade reaccion�ria.
Mas isso n�o � verdade.
Isso j� n�o sei.
Mas o que � verdade, � que tu e o Joe t�m andado a jogar.
E talvez seja altura de deixar de jogar.
Oktyabrina, assenta a cabe�a. Cresce, ouve o que te digo.
Se esta noite de choro n�o te abrir os olhos,
continua a chorar.
E as l�grimas dar�o fruto.
Vamos.
V� se consegues dormir.
Dorme.
Kostya, obrigada pelo serm�o. Devias ter sido fil�sofo. Vou...
... para Yalta descansar e visitar uma antiga condessa
cuja m�e serviu o Czar. Com carinho e afecto,
Oktyabrina Maddeyeva.
A culpa � minha.
Procuraste nos s�tios do costume?
Ningu�m a viu todo o Ver�o.
Eu vou procur�-la.
Est� aqui algu�m?
Professor, � voc�?
Onde o enterraram?
Posso ajudar?
Ol�, Joe.
Morreu na semana passada,
e prometi vir todos os dias...
durante 40 dias. Um velho costume russo.
Eu sei, foi por isso que eu vim.
Bem...
Foste muito am�vel. Obrigada.
Vejo que ainda tens o teu chap�u.
Sim.
Porque n�o o p�es?
Isso mesmo.
Deixa-me ver. Vamos.
Fica-te muito bem.
Sabes, eu amo-te.
O que est�s a fazer?
A pintar um cora��o.
Amo-te, Joe.
Passes.
Passes. Passes.
Por favor, siga.
Oktyabrina!
Seu tonto! Eu disse-te que voltarias a Moscovo,
mas n�o sabia que ia ser por causa de um ataque card�aco!
Obrigado por vires! � maravilhoso! Mas como entraste?
- Tens passe de visitante? - N�o, � que...
o irm�o do Sasha � o guarda, n�o te preocupes.
- Est�s bem? - Sim, estou bem melhor.
Muito melhor. Mas e tu, como est�s? E o Joe?
- Muito bem. - A s�rio?
Pode fazer o favor de me acompanhar?
Onde vai? Volte aqui! R�pido, apanha-a!
Documenta��o.
Onde est� a sua documenta��o?
N�o tenho documenta��o.
Porqu�?
Porque � definida pelo evangelho Marxista-leninista como
um parasita.
Oktyabrina Maddeyeva,
cada parasita rouba o nosso pa�s
de uma certa maneira.
A sua era aproveitar-se de homens sem car�cter,
vendendo o seu corpo em troca de favores,
explorando russos decadentes
e membros sem escr�pulos da imprensa estrangeira,
que remexem na porcaria da nossa sociedade,
para tirar dela as suas reportagens.
� uma especuladora,
uma ofensora, que aproveita todas as oportunidades para ganhar dinheiro
atrav�s de manobras obscuras contra a lei do nosso pa�s.
O seu competente advogado leu-nos o pedido de clem�ncia
dirigido pela sua m�e a este tribunal.
A sua m�e � uma mulher simples,
cuja vida foi dedicada ao trabalho incans�vel
numa quinta do Estado.
A nobreza do seu pedido comoveu enormemente este tribunal.
Mas o contraste entre as vossas vidas:
a dela, honestamente dedicada � quinta;
e a sua, no precip�cio do parasitismo.
E infelizmente, este contraste
teve ainda mais for�a do que o pedido dela.
Oktyabrina Maddeyeva,
foi considerada culpada de todas as acusa��es,
e cabe-me a mim dar uma senten�a.
A senten�a que lhe imponho
h�-de servir fundamentalmente
para evitar que outros jovens de mente fraca
sigam a in�til e obscena forma de vida que escolheu.
Oktyabrina Maddeyeva, condeno-a a cinco anos numa col�nia penal
para criminosos do sexo feminino.
Esta senten�a n�o admite recurso.
N�o!
- Vamos, tem calma. - Tiraram o meu chap�u branco.
J� n�o estar�s aqui quando eu sair, Joe.
Nunca mais nos voltaremos a ver.
Amo-te, Oktyabrina.
Desde o princ�pio.
Oh, Deus, se n�o tivesse sido t�o est�pida...
Poder�amos ter-nos amado h� muito tempo.
E agora teria muito mais para recordar.
O ministro morreu seis semanas depois.
O Kostya chorou no seu funeral,
ainda que ache que n�o chorasse apenas pelo ministro.
Talvez fosse pelos tempos passados.
Eu e o Kostya n�o nos vemos com frequ�ncia.
H� demasiada dor no nosso sil�ncio.
Vou deixar Moscovo de vez no pr�ximo m�s.
Vou deixar o jornal para escrever um livro,
um livro sobre Oktyabrina Maddeyeva.
Talvez seja tudo o que tenho para recordar...
a rapariga de Petrovka.
Ripadas por: RicardoB/2019
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