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Assume a responsabilidade, por uma vez na vida!
Tu assinaste os pap�is!
Vamos, j� � tarde.
Leva s� o teu pai, porque eu n�o vou a lado nenhum.
Raios... V� l�!
Bom dia, amor.
Ol�, Pai.
D� c� isso.
- O que aconteceu? - Nada.
- Vamos chegar tarde. - N�o.
Chegamos a horas.
- Sen�o, eles que esperem. - Sim, eles que esperem.
Tem calma...
Deixa-me � porta, e eu ligo-te quando estiver despachado.
- Certo. - Prefiro entrar sozinho.
Ao menos, deixa-me ir contigo at� l�.
Ajudo-te a encontrar o gabinete e depois espero l� fora.
Est� bem, mas promete que n�o entras.
S� vou contigo at� l�, mais nada.
Fico � espera, levo-te ao La Quietud e vou-me embora, est� bem?
Est� bem, pode ser.
- Estamos quase l�. - Est� bem, certo.
Ent�o... deixas-me l�
e eu ligo-te quando estiver pronto.
Foi isso que combin�mos, j� percebi.
Acompanho-te l� acima, encontramos o gabinete e pronto.
- Perfeito. - Est� bem.
Prefiro esclarecer j� isso, para evitar quest�es depois.
Bom dia, este � o gabinete do Procurador Garc�a?
Tenho aqui o Dr Augusto Montemayor.
� aqui, pronto.
Vai correr tudo bem.
Leva-me isto. Se precisar dela, aviso-te.
Est� bem.
- Tem calma. - Certo.
- Bom dia. - Bom dia.
Sr Doutor, muito gosto.
- Muito prazer tamb�m. - Por aqui, por favor.
Entre, por favor. Obrigado pela colabora��o.
Bom dia.
Um im�vel na Avenida Libertador, n� 2024,
um im�vel na Calle Virrey Arredondo,
dois lotes de terreno,
devidamente cultivados, e tudo o que neles est�,
referidos pelas letras B e A,
um rancho chamado "La Quietud".
Sr Doutor, o que tem a dizer?
D�-me um copo de �gua, por favor?
O Doutor conhecia os indiv�duos
que lhe passaram a procura��o para os representar nestas transac��es?
Viu-os a assinar efectivamente a procura��o a seu favor?
Dr Doutor, responda, por favor.
Quem recolheu as assinaturas dessas pessoas?
Desculpe, Sr Doutor...
Pai?
Pai, o que �? Pai, o que �? Pai!
Pai, o que foi? Pai!
Pai! Chamem um m�dico!
Pai, ouves-me? Pai, o que foi?
Paizinho, o que foi? Pai!
Pai, ajudem, por favor! Socorro!
Pai, o que se passa?
Paizinho, responde-me!
Paizinho...
Pai, o que se passa?
Ol�, bom dia.
- Ol�. - Ol�.
Desculpa, desculpa... O tr�nsito estava um pavor.
Desculpa.
- Tive tantas saudades! - Estou aqui.
Est�s t�o bonita!
Euge!
M�e!
- Euge... - M�e.
Meu amor, h� quanto tempo!
Meu amor...
Um limoeiro...
um pessegueiro...
e framboesas!
Nem sabes como est�o boas!
Amanh�, vais provar a marmelada.
A nossa horta nova � maravilhosa, e os jardineiros s�o fant�sticos.
E ent�o?
Aquele teu rapaz continua bonito?
Cada vez mais. Odeio que os homens envelhe�am t�o bem!
Ficam com rugas e carecas, mas continuam bem-parecidos.
Eu n�o tenho nenhum desses problemas.
A s�rio. E sabes porqu�?
Porque deixei de fumar.
Devias orgulhar-te da tua m�e.
Muito bem, M�e.
Vamos brindar.
Vamos brindar.
Pode ser com �gua, estou exausta da viagem.
Ent�o bate duas vezes com o copo.
- � nossa! - � nossa!
Isto est� muito bom!
Pedi que te fizessem empad�o, com batatas da nossa horta.
Que bom!
�s t�o pateta.
O que �? Estou a dormir!
N�o est�s nada! Olha esta fotografia.
Olha como estamos queridas.
M�e, tu, eu e a Dona Richelieu.
E este aqui? Lembras-te?
- � o Luc. - O Luc, o canalizador.
Lembras-te como nos masturb�vamos a pensar nele?
A melhor altura da minha vida. Tenho saudades desses tempos.
S� pens�vamos em sexo!
Fala por ti!
Ora, vais dizer-me agora que fingias os orgasmos...!
Tu � que me causavas tes�o.
- Pois, ent�o a culpa � minha. - Sim.
Tu � que inventaste o jogo das escondidas.
Acho que ele sempre soube que a gente o espiava.
- Podia ver-nos dentro do arm�rio. - Achas?
Completamente.
Seja como for, eu gostava de estar no arm�rio.
A escurid�o dava-me tes�o.
A mim, era aquela voz que tu fazias.
- A minha voz? - Sim.
Luc agacha-se para verificar o cano.
Mas aquilo que ele quer realmente � mostrar-nos o rabo.
O seu rabo m�sculo. Firme.
Dir-se-ia ter sido feito para ser agarrado!
P�ra!
E agora, ele volta-se.
E olha-nos nos olhos.
Fixamente.
Aqueles olhos castanhos escuros...
E n�s sabemos o que ele quer.
Quer o mesmo que n�s.
- Despe a camisola... - P�ra!
Tem o est�mago perfeito.
H�mido. Ele aproxima-se.
E fica a tr�s cent�metros das nossas bocas.
E olha para n�s.
E respira.
Aproxima-se.
P�ra!
E agora abre a boca para nos beijar.
E n�s tamb�m.
Fica simplesmente ali.
E n�s estamos a morrer por ele nos beijar, mas ele n�o beija.
N�o sabemos o que � que ele vai fazer.
E, de repente, ele agarra-nos as mamas com as duas m�os.
E n�s pegamos-lhe na m�o...
para lhe mostrar como gostamos.
Assim devagarinho.
Devagarinho...
E de repente, n�o.
Ele � forte.
E usando a sua for�a, vira-nos.
E p�e a m�o l� dentro?
Bem enterrada.
Mesmo fundo.
E eu pe�o-lhe que a deixe l� para sempre.
E fa�o for�a para ele n�o a conseguir tirar.
E ele toca-me, e eu morro.
Pe�o-lhe que use a outra m�o para me tocar nos seios.
E vai cada vez mais fundo.
E quando parece que ele j� entrou o que podia,
ele volta a entrar.
Enterro-lhe as unhas na pele.
Puxo-lhe o cabelo... sim!
N�o pares!
Estou l�!
Estou t�o excitada!
Gosto disso! Gosto disso!
�s t�o est�pida!
� t�o bom estar aqui...
Tive tantas saudades disto...
O cheiro do campo, a luz...
A cor do c�u.
Sabes do que eu gostava?
Gostava de voltar �quela �poca em que �ramos pequenas,
antes de regressar a Paris.
Quando dorm�amos juntas
e plane�vamos tudo o que ir�amos fazer no dia seguinte.
Lembras-te?
V� l�, lembras-te?
Responde-me!
M�e...
O que �, meu amor?
- N�o me digas! - O qu�?
N�o me digas!
- O qu�? - N�o me digas, n�o me digas!
- O que �? - Que alegria, que alegria! Obrigada!
Meu amor, que bom!
Um neto, finalmente!
- A s�rio? - Obrigada, meu amor.
Estou t�o feliz!
O que achas que vai ser? Um netinho ou uma netinha?
N�o sei, M�e. S� soube h� umas semanas.
Eu sei o que vai ser.
Um neto! O meu netinho!
T�o bom! Obrigada! Que alegria!
E tu? N�o dizes nada?
N�o percebo... Porque n�o disseste quando chegaste, porque s� me contas agora?
Queria contar desde que desembarquei, mas n�o sei... n�o contei.
E como � melhor esperar at� ter a certeza de que � seguro, hesitei.
- Isso n�o � importante, M�a. - Ent�o?
Apanhaste-me de surpresa, desculpa. Parab�ns.
Nem imaginas como isso vos far� bem, enquanto casal!
Juro, � espantoso!
Tudo isto me lembra de mim mesma, mal acredito!
A s�rio?
Eu levei anos a engravidar.
At� consider�mos adoptar.
Mas o teu pai n�o queria,
preferia n�o ser pai a ter um filho que n�o fosse do seu sangue.
E n�s t�nhamos amigos que adoptaram, e estavam muito contentes.
At� conhec�amos algu�m que podia facilitar o processo.
Mas foi escusado, ele n�o queria.
E depois?
Da primeira vez que nos mud�mos para Paris...
aconteceu um milagre.
N�o sei se foi do tempo ou da comida,
se da nova posi��o do teu pai na embaixada,
mas apareceu um Augusto diferente.
E eu engravidei de ti, em Paris, sim!
Minha menina, minha menina!
N�o sinto nada.
Bom, ainda � cedo.
Sinto como se houvesse algo a borbulhar.
- � agrad�vel? - O borbulhar?
N�o, tudo!
� um sentimento um bocado estranho, a mudan�a do corpo...
Todos os dias apalpo as ancas...
e sinto que est�o a alargar.
- Nota-se, n�o? - Sim.
Porque � por l� que o beb� tem de passar.
Al�m disso, tenho super poderes. Nem imaginas como cheiro.
- Tens mais olfacto? - N�o, o cheiro do meu corpo.
Eu n�o chamaria super poder a isso.
N�o, seria prefer�vel ter mais cheiro...
Dizem que a ecografia � muito emocionante, n�o �?
N�o sei, nunca fiz nenhuma.
- A s�rio? - � muito recente.
E eu tive de vir logo para c�, por causa do Pai.
N�o est�s ansiosa?
Quando voltar, marco uma consulta.
Ol�, beb�.
Da outra vez, deram-nos um relat�rio m�dico.
Davam-nos muito mais informa��o do que nos Cuidados Intensivos, que era um bocado...
Ol�, Paizinho.
Olha quem eu trouxe.
Trouxe-te a Euge.
V� l�, d�-lhe um beijo.
V�, senta-te aqui.
D�-me a tua m�o.
Tens de lhe fazer perguntas a que ele possa dizer sim ou n�o.
Se ele te apertar a m�o uma vez, quer dizer que sim.
Duas vezes, quer dizer que n�o.
Pergunta-lhe qualquer coisa.
Ol�, Pai.
Est�s bem?
V�s?
� um sim.
Afinal tiveste sorte...
Se n�o fosse o AVC, teriam passado mais dez anos sem que a Euge voltasse.
Vou deixar-vos. Devem ter muito que falar.
Vais ser av�.
Est�s contente?
Pai, vais ser av�.
Est�s contente?
Est� tudo bem?
N�o sei, n�o percebo mesmo.
Claro que est� contente.
Quero brindar.
Quero dizer-vos que sabemos que est�o a passar um momento dif�cil.
E tamb�m queremos dizer-vos que podem contar connosco.
Queremos fazer-vos companhia e dar-vos o nosso amor e apoio.
E acima de tudo, quero dar as boas-vindas � Euge.
� tua, Eugenia. Bem-vinda.
- Obrigada. - � tua!
� vossa!
- Sabes do que me lembrei? - De qu�?
Lembrei-me de quando ela era pequena e corria nua no parque.
Tamb�m me lembro disso.
- P�ra, eu era nova. - Sim, eras nova.
Eu tamb�m era nova e n�o corria nua no jardim.
Sobretudo se tiv�ssemos visitas.
Sempre gostaste de te exibir, filhinha.
Eu achava o m�ximo!
Eu tamb�m achava, adorava.
N�o sei o que pensavam os diplomatas amigos do teu pai, mas eu adorava.
O qu�, Pai?
Uma coisa que ela fazia quando tinha a tua idade.
- Um bocadinho mais velha. - Era um jogo.
N�o, era uma aposta!
Toda a gente me picava, a dizer que eu n�o tinha tomates.
- Mas eu fiz e ganhei. - Ganhaste o qu�?
Um beijo dum rapaz de quem eu gostava.
E quem era? Quem?
- N�o me lembro. - Ela gostava de todos.
- N�o, n�o gostava de todos. - P�ra. P�ra! O Gustavo? N�o.
- O Gustavo tamb�m. - N�o! Eras assim t�o generosa?
N�o, n�o acredito!
Eras capaz de te despir por um beijo duma mi�da?
- N�o! - V� l�! N�o?
Bom, aqui, nestas...
maravilhosas praias de Perpignan, neste fim-de-semana maravilhoso...
Aqui est�o as meninas...
L� est� ela, a minha linda...
Euge, Euge.
A irm�. E os amigos.
M�e, porque tinhas de falar assim?
Em todos os nossos v�deos, ela � sempre a protagonista.
O tom dela � o mais estranho.
Eu gosto.
Deixa-me ouvir. Era assim que faz�amos dantes.
� mentira! Os v�deos das minhas amigas eram normais.
- Tu n�o tens amigas. - M�e...
De que ano � este v�deo?
De 1996.
N�o, de '97.
Foi em '96, filha.
- N�o, foi em 1997. - Em '96.
Foi no ano a seguir a nos mudarmos para Paris, da segunda vez.
Por isso mesmo, isso foi em '97.
Achas que eu n�o sei quando nos mud�mos para Paris da segunda vez?
- M�e, foi em '97. - Est� bem, p�ra.
M�e, '97. V�s aquele ali? � o Vincent.
- Conhecemo-lo em '97. - Em '96.
Foi o ano de finalistas da Euge. N�o foi, Euge?
N�o sei, n�o me lembro. N�o tenho jeito para datas.
Olha, olha como ele caiu na �gua!
Como � poss�vel que n�o te lembres do ano em que conhecemos o Vincent? Foi em '97.
- Por favor, p�ra. - Mas foi em '97, M�e.
- Foi em '97. - Em '96.
M�e, foi em '97!
- Em '96. - N�o, em '97.
- Que import�ncia tem isso? - Porqu�? N�o te lembras?
- N�o, n�o me lembro! - Foi em '96.
- Faz um esfor�o. Foi em 1997. - Meninas, meninas...
- Em '96. - M�e, em '97.
- Em '96. - Foi em '97.
- Em '96. - Em '97! N�o!
- Foi em '96! - M�e, n�o! Foi em '97!
- Foi em '97, n�o percebes? Em '97! - Em '96, em '96.
- N�o, '97! - Em '96.
- Foi em '97! - Em '96.
Mas foi em '97, M�e, n�o! Em '97!
Porque te custa tanto dar-me raz�o?
Quando tiveres raz�o, eu direi que tens raz�o.
N�o quero que digas que tenho s� por dizer.
Quero que penses que talvez haja uma hip�tese, por remota que seja,
de, pelo menos uma vez na vida, eu ter raz�o!
- P�ra com isso, M�a. P�ra! - N�o! Custa assim tanto?
- Chega! - Foi em '97! N�o percebes isso?
S�o horas da sobremesa. Vamos!
V� l�, v� l�! Adiante... Vamos l�.
M�a.
Enfia mais!
- Assim? - Sim.
- For�a. - Mais for�a?
Enfia um dedo.
- Sim! - Assim?
Enfia dois.
Mais for�a, mais for�a...
Mais! Enfia bem!
Mais fundo!
Foi a �ltima vez.
O qu�?
Esta foi a �ltima vez.
Ela n�o quer discutir comigo, por isso irrita-se com a M�e.
- Toma l�, Chino. - Ela n�o est� bem, coitada.
Ela foi sempre assim.
Obrigada, M�e.
Obrigada pelo qu�, meu amor?
Obrigada por tudo. Por toda a tua ajuda.
N�o me custa nada.
Mas � importante.
Fico t�o constrangida como quando punhas dinheiro no bolso da camisola da escola.
� para isso que aqui estou, filha.
E continuarei a ajudar-te, mesmo que isso te embarace.
� para isso que servem as m�es.
E n�o precisas de me pagar de volta.
Vais adorar esse beb� como nunca adoraste nada.
Quando te vi...
a minha vida mudou.
Ficavas a olhar para mim e mexias as m�ozinhas assim...
Foi algo...
Nunca imaginei que fosse poss�vel amar assim, sabes?
Nunca pensei...
Os primeiros filhos s�o especiais.
A verdade � essa.
Com a tua irm� foi diferente.
Este segundo AVC foi muito forte.
N�o podemos fazer nada.
Tenha cuidado, por favor.
� por ali...
- Cuidado com os m�veis. - Tem tr�s degraus atr�s...
- Devagar... - Quando eu disser tr�s...
- Um, dois, tr�s... - Cuidado.
- H� mais algum degrau? - Sim.
- Vamos l�... - Tudo a postos? Vamos.
Um, dois, tr�s.
Um, dois, tr�s, v� l�!
Espera l�...
- Mudamo-lo para cima? - N�o.
Pode rubricar isto?
- Pode assinar isto, por favor? - Sim.
- A�. - Aqui?
Muito obrigada.
- Obrigada. - N�o tem de qu�.
Saia um minuto, por favor.
Esta � a vista da casa de que tu mais gostas.
Vais ficar bem. N�s estaremos perto de ti.
Fique voc� aqui, vou dormir para o outro quarto.
Sim, minha senhora. Tudo bem.
M�a.
Assina aqui, por favor.
Obrigada.
Muito bem. Aqui t�m.
Isto � uma procura��o que o vosso pai fez antes do AVC.
Se for necess�rio, queira Deus que n�o,
voc�s podem assinar isto por ele e dispensa-se a habilita��o de herdeiros.
- Mesmo assim, temos de esperar. - Ol�, meninas.
Pai...
- � bom ver-vos aqui. - Bom dia, Nicanor.
Sobretudo as duas juntas.
Queria dizer-vos que lamento muito por causa do vosso pai.
Est� s� a descansar.
Um descanso bem merecido.
Ele �... rijo.
� como um Ford Falcon.
N�o lhe tenho prestado muita aten��o, coitado.
Tenho dado em doido com os tipos do gabinete do Procurador.
Quando me deixarem em paz, arranjo um tempo e vou l� v�-lo.
Pronto, meninas.
Quero que saibam que foi um grande prazer
ter-vos encontrado �s duas.
Est�o t�o bonitas e t�o simp�ticas.
Parecem-se tanto com a vossa m�e...
M�a, queria dizer que espero que o nosso pa�s
te tenha acolhido como mereces.
- Sou a Eugenia. - Desculpa.
- Ent�o tu... Espero que o nosso pa�s... - N�o, ela � que � a de Paris.
Bom...
Que Deus vos aben�oe e muitas felicidades.
- At� depois. - Adeus.
- Vamos beber um caf�zinho... - Acompanha-as � porta, por favor.
Desculpem o meu pai, j� teve dias melhores, est� velhote.
- Vou s� � casa de banho. - Est� bem, eu...
Ouve...
O que �?
Oito semanas?
- Tens a certeza? - Bastante. Um pouco mais do que oito.
J� que te custa record�-lo, lembra-te que estive em Paris h� pouco mais de dois meses.
E ent�o?
"E ent�o", o qu�? Eu...
Luz, eu j� assino esses pap�is, est� bem? J� l� vou.
Posso ser eu o pai.
- � o Vincent. - Como podes estar t�o certa?
Ouve, Esteban. Gosto sempre muito de estar contigo.
Adoro estar contigo sempre que podemos.
E at� penso nisso quando n�o estamos juntos.
Mas da� a querer que sejas o pai dos meus filhos
vai uma dist�ncia t�o grande como o oceano que nos separa.
Eu amo-te.
Amo-te desde que te conhe�o.
E quero estar contigo, quero que estejamos juntos, Eugenia.
Posso ser eu o pai do beb� e tu sabes bem que sim.
E mais, at� certo ponto, at� queres que eu seja.
N�o acredito nisto...
Acredita, porque � verdade.
O que foi?
N�o podias ser menos rom�ntico?
Aqui? Fazes-me uma declara��o de amor no consult�rio do teu pai?
Quantas vezes estivemos juntos em Paris?
N�o te parece um local mais adequado para declarares o teu amor?
Mas gosto muito da forma como decoraste o consult�rio.
Acho que est� simp�tico. Tem um toque L�pez Falbo.
Elegante e um bocadinho rom�ntico.
Sim, est� muito agrad�vel, parab�ns.
Obrigado, M�a.
- Vamos? - Sim.
- Adeus. - Adeus.
Bom...
Gostas dele, n�o gostas?
Que disparate!
Ele est� apaixonado por ti desde os 12 anos.
Apurou com a idade.
N�o o suporto, acho-o um est�pido. Olha para o Pai, t�o bonit�o!
- Olha a M�e... - Ela era t�o jovem!
- Como est�s? - Eu estou bem, e tu?
N�o era preciso incomodares-te. Eu podia ter ido de t�xi.
- N�o custou nada. - Ainda � uma bela viagem, n�o?
- Est�s cansado? - Sim, ainda estou.
N�o tive tempo suficiente em Paris para recuperar da viagem � China.
Estou aqui...
Estou estafado.
Como se diz "ol�" em chin�s?
- "Ol�"? - Sim.
Ni hao.
E "Ol�, como est�s?"
Ni hao ma.
E como � que eu respondo?
Wo hen hao, xi�xi�.
Est� bem.
Mas eu n�o falo puto mandarim. S� sei dizer umas tr�s frases.
Ol�.
M�a.
- Ol�! - Vincent!
Ol�, Vincent. Que bom ver-te!
Desculpa, meu amor, por n�o te ter ido buscar.
A culpa foi minha, n�o me sentia bem e ela ficou comigo.
- Desculpa. - Eu disse � M�a que n�o era preciso.
- Podia ter chamado um t�xi. - N�o me custou nada.
Al�m disso, distra�-me.
Desculpem n�o ter vindo mais cedo.
Como est�, Esmeralda?
Estamos t�o felizes por te ter connosco agora!
Nem sei como te agradecer por teres vindo.
A s�rio.
C� estamos...
J� c� estamos.
Estamos todos aqui.
A fam�lia.
Eu trabalhava h� algum tempo no not�rio.
E ser secret�ria do Nicanor era esgotante.
At� que um dia...
entrou o Augusto.
Sim, e eu esqueci tudo o resto.
Nesse mesmo dia, apaixonei-me por ele e ele apaixonou-se por mim.
Eu tinha de passar muitas procura��es.
- Estava sempre a cruzar-me com ele. - J� sabemos como conheceste o Pai.
H� algo que n�o compreendo.
Que liga��o temos n�s ao processo contra o Nicanor?
J� viviam em Paris nessa altura. Foi por isso que a Eugenia nasceu l�, n�o foi?
Mud�mo-nos para a Europa em 1979, n�o foi?
E volt�mos em 1984, quando a Junta Militar foi afastada.
- A ditadura, M�e. - M�a, outra vez?
N�o achas que isso � um pormenor importante?
N�o foi gratuito ir para Paris com todas as despesas pagas
por um governo que �, no m�nimo, question�vel.
Queres mesmo ter essa conversa agora?
- Quero ter esta conversa agora. - M�a, tu �s inacredit�vel.
Porque achas que � t�o revelador
algo que repetes desde os 20 anos?
Falar sobre as coisas � sempre revelador.
Queres ensinar-me o valor da verdade?!
Esta � mais uma das tuas cenas de menina mimada!
E desta vez, temos de estar unidos.
Entendido?
A fam�lia tem de estar unida.
Vais falar-me de uni�o, M�e? D�s-me vontade de rir, desculpa.
Ent�o p�ra de rir,
porque temos de estar unidos para poder reflectir!
Apercebes-te da gravidade do estado do teu pai?
- Est�s ciente disso ou n�o? - Estou ciente de tudo, M�e.
P�ra!
P�ra com isso!
Pe�o desculpa, Vincent.
Vou ter de me retirar, porque n�o aguento...
continuar a discutir com esta rapariga!
- Boa noite. - Boa noite.
Merda!
- Est� bom, n�o est�? - � insuport�vel, caprichosa!
O que se passa com a electricidade?
Foi abaixo. Est� sempre a acontecer.
- E volta depressa? - Depende.
Adoro-te, Paizinho.
- Bom dia. - Bom dia, Raquel.
- J� tomaste o pequeno-almo�o? - N�o.
N�o tens paz, estavas aqui sossegada com a M�e e agora aparecemos todos.
- Bom dia. - Bom dia.
Comprei...
queijo,foie gras e chocolate para as meninas.
E para ti...
a tua compota preferida.
Caf�, senhor?
Obrigado.
Obrigada.
N�o tens de qu�.
Ontem sonhei contigo e com o meu pai.
- Sabes o que sonhei? - N�o, o qu�?
Sonhei com aqueles passeios que faz�amos em Paris.
Quando t�nhamos 15 anos.
Aqueles passeios infind�veis.
No meu sonho, encontr�vamos o meu pai.
E eu apresentava-te...
como meu colega de escola,
como o meu amor,
como o homem que me tinha tirado a virgindade.
A Eugenia ficava furiosa quando...
quando o teu pai n�o te encontrava.
Porque tinha de inventar desculpas,
para n�o lhe dizer que tinhas fugido comigo.
- Lembras-te? - Sim.
Senhora...
Senhora...
O que �, Raquel?
Desculpe, minha senhora. Querem falar consigo, � urgente.
Eles que venham noutra altura, agora estou ocupada.
� importante, minha senhora.
Leva isto para dentro.
- O que �? - � uma intima��o, minha senhora.
Para comparecer no tribunal como testemunha.
- Onde � para assinar? - Aqui.
Isto � para si, muito obrigado.
Raquel!
Estou aqui, minha senhora.
Esta noite, sonhei contigo.
Sonhei que est�vamos em Paris.
Estavas bonito, jovem.
Apresentei-te ao meu namorado.
E tu ficaste um bocadinho ciumento.
Adorava voltar a esses tempos contigo...
E ter ficado em Paris.
Gostava de estar l� contigo.
Pode ir, eu fico com ele esta noite.
Sim, minha senhora.
Com licen�a.
Morre, filho da puta.
Muito obrigada.
Decidi que vamos fazer isto como deve ser.
O Pai queria um caix�o fechado, sempre disse isso.
Ele nunca disse isso.
O que ele dizia � que n�o gostava
que as pessoas tivessem de ver os mortos todos bem vestidos e maquilhados.
Exactamente.
N�o � boa imagem, lembr�-lo todo hirto, maquilhado, de olhos fechados.
Mas as pessoas querem despedir-se dele!
Abra��-lo, tocar-lhe. N�o compreendes?
Se acharem perturbador, desviem o olhar. E acabou-se.
Por favor.
M�a, vamos fazer o que diz a M�e.
Fa�am como quiserem.
� isso. Muito bem.
Com licen�a...
Est�s bem, M�a?
Sim.
Obrigada por tudo o que tens feito pela minha fam�lia.
N�o precisas de me agradecer, eles s�o amigos do meu pai
e est�o a ajudar para que tudo corra bem.
- Est� tudo muito bonito. - N�o te preocupes com isso.
Sim, vou ver o Pai.
Queres que te ajude, que v� contigo?
De certeza que est�s bem?
- Ol�, Raquel. - Ol�, M�a.
Anda c�...
Vamos dar um beijo ao meu pai, sim?
Olha, � o meu pai.
- D�-lhe um beijo. - N�o.
- V� l�, d�-lhe um beijo. - N�o quero!
Av�!
Est�s bem?
- Os meus sentimentos, Esmeralda. - Obrigada por teres vindo.
Muito obrigada.
Este � o meu genro, o Vincent.
- Muito prazer. - Como est�?
O Augusto trabalhou no consult�rio dele muito tempo.
O Augusto era um excelente homem.
Trabalhou para mim tantos anos e nunca faltou ao servi�o.
S� me pediu umas f�rias para se poder mudar para Fran�a.
M�a?
Ouve...
At� quando � que ele fica?
- O qu�? - At� quando � que ele fica?
Fica o tempo que for preciso.
Vais voltar ao mesmo tempo do que ele?
Que proposta � essa?
N�o � uma proposta, � uma pergunta concreta.
Acho que volto com ele, sim, para poder ter o meu beb� l�.
E se o beb� for nosso?
Desculpa?
Que se passa contigo, M�a?
Deixa-me em paz.
- M�a. - Quando me ias dizer?
Tive de saber pela Eugenia que voc�s iam ser pais.
Como querias que te cont�ssemos, com tudo o que se tem passado?
Al�m disso, ainda n�o vamos contar a ningu�m.
- E eu sou "ningu�m"? - N�o, n�o �s.
O que est�s a dizer? D�s-te conta de que vou ser tia?
- Calma... - N�o v�em que v�o ser pais?
Sim, sim, meu amor!
- O que querias que eu te dissesse? - Que me dissesses! Como pudeste n�o...?
Desculpa. Desculpa n�o te ter contado.
- Larga-me! - Pronto, pronto... Calma.
Calma... Por favor, meu amor, p�ra.
Desculpa.
Odeio-te!
M�a, por favor!
N�o pareces triste.
O qu�?
- � estranho n�o pareceres triste. - N�o percebo, Esteban. O qu�?
N�o estares triste.
Abra�a-me.
Desculpa?
Abra�a-me. Tenta parecer triste e abra�a-me.
O que est�s a dizer, Esteban?
Faz um teste de paternidade, ou conto ao teu marido.
Deixa-me em paz. O meu pai acaba de morrer! Larga-me!
Est� bem, fazemos mais tarde.
- Vai ter com a tua irm�. - Porqu�?
Ela n�o est� bem, vai ter com ela.
- M�a, o que se passa? - N�o me sinto bem.
- O que queres dizer? - Quero ir para casa.
- Bebeste muito? - N�o.
Est� bem, p�ra com isso. Acalma-te.
- Queres sentar-te? - N�o, quero ir para casa.
Sinto-me a morrer...
Acalma-te, acalma-te... Bebeste demais, foi isso.
N�o.
O que aconteceu? O que aconteceu?
P�ra com isso, p�ra! Eu levo-te.
Acalma-te.
Pronto, sentes-te melhor?
Sim.
V� l�, acalma-te.
Porque est�s assim?
Porque o Pai morreu, Eugenia, n�o achas raz�o suficiente?
- Porque me est�s a atacar? - N�o te estou a atacar.
N�o percebes que o Pai era uma pessoa incr�vel?
Uma pessoa maravilhosa?
O Pai era o homem da minha vida.
� estranho ouvir-te dizer isso, M�a.
- � estranho, como? - � muito estranho...
O que te d� o direito de me dizer quem � que eu tenho de amar
e quanto devo am�-lo?
N�o � isso que estou a dizer.
Eu vou amar sempre o Pai!
Mas o Pai morreu, M�a. P�ra com isso do Pai agora!
P�ra, eu quero voltar. J� me sinto melhor.
Quero voltar! Preciso de voltar antes que fechem o caix�o!
- Juro que me sinto bem. - N�o, n�o sentes.
- Acalma-te, por favor, p�ra com isso! - Quero voltar! Volta para tr�s!
Ainda por cima, acordas!
Tens a lata de acordar!
N�o tens vergonha.
Sabes o que �s?
Tu...
�s uma p�ssima filha!
E sabes o que mais �s?
Uma irm� terr�vel. �s uma pessoa de merda, M�a!
Se queres matar-te, f�-lo sozinha, est� bem?
Porque isto n�o foi um acidente.
Ningu�m acredita nisso. Sabes o que foi?
Mais uma tentativa de suic�dio! Mais uma!
Mais uma!
Lamento.
Vou fazer da tua vida um verdadeiro inferno at� ao fim dos teus dias!
- Esmeralda! - Desculpa, M�e.
Isto n�o te faz bem.
Calma. Queres �gua? Fica aqui.
- O que �, Esmeralda? - Sr Doutor...
Diga-me, como est� o beb�?
A minha filha est� gr�vida.
- A M�a Montemayor? - N�o, Eugenia.
N�o, minha senhora, n�o h� beb� nenhum.
Perdeu-o?
N�o, n�o h� sinal de aborto.
Ent�o est� bem.
- Quem? - O beb�.
Senhora, estou a dizer-lhe que n�o h� nenhum beb�.
Ent�o onde � que ele est�?
A sua filha n�o est� gr�vida.
Ent�o j� nasceu?
Obrigada pela tua ajuda, Vincent.
N�o, � um prazer estar aqui.
- Apesar de tudo, � um prazer. - Obrigada.
Lamento imenso.
- Obrigada. - E lamento muito pela Eugenia.
Todos esses anos a tentar sem sucesso,
disseram que ela n�o podia engravidar e mesmo assim...
Ela queria-o tanto...
Ela queria-o tanto...
Suplicava-me que continu�ssemos a tentar.
Tamb�m queria ser m�e por si.
Ela sabia que queria muito ser av�.
Est�vamos todos gr�vidos.
Est�vamos todos � espera desse beb�.
Uma trag�dia nunca vem s�...
A Euge teve uma gravidez psicossom�tica.
� uma doen�a, n�o � uma trag�dia.
N�o tens o direito de falar a esta mesa, entendes?
Muito menos das doen�as alheias.
- Obrigada. - Obrigada.
Boa noite.
Obrigada por tudo, nem sei como agradecer. A s�rio.
Muito obrigada.
N�o tens nada que agradecer, Esmeralda. Nada.
Tens de assinar este papel para o conservarem aqui.
Est� tudo bem com o Pai?
Sim, ainda est� na morgue.
Foram muito simp�ticos, conservam-no enquanto for preciso,
at� podermos prosseguir com a cerim�nia.
E n�o cobram mais, n�o t�m de pagar nada.
Talvez tenham s�... de lhe p�r alguma maquilhagem, s� isso.
Com licen�a.
Obrigada.
Lamento.
Obrigado. Eu tamb�m.
Obrigado.
Porque me agradeces?
Quero dizer, n�o tens de qu�.
Quando devemos ir busc�-lo?
N�o te preocupes, n�o h� problema. Ele est� ali bem.
Eles cuidam bem dele.
T�m excelentes arcas frigor�ficas. Ele fica bem.
A s�rio, nem sei como te agradecer.
Obrigada.
Puta que a pariu!
Raquel! Raquel!
Est� bom?
Muito bom.
- �s servido? - Para ser sincero, estou esfomeado.
- Serve-te. - Serve-te.
- Obrigado. - N�o tens de qu�.
E da Euge?
H� not�cias?
Bom... Parece estar melhor.
Amanh� j� vai para a enfermaria.
- Isso � bom. - � bom.
Gra�as a Deus!
Mas n�o percebo.
� poss�vel que uma falsa gravidez mostre um beb� numa ecografia?
N�o.
- Ela n�o fez nenhuma ecografia. - A s�rio?
N�o.
Ent�o como souberam que ela estava gr�vida?
A Eugenia fez um teste de gravidez.
E o teste deu positivo?
Foi o que disseram os m�dicos.
Se ela tivesse feito uma an�lise de sangue, teria dado negativo.
- Custa a perceber, certo? - Custa a perceber e custa a explicar.
Como qualquer outra perturba��o psiqui�trica.
N�o significa que a minha irm� esteja doida.
Posso fazer-te uma pergunta?
Claro.
De que falavas com a Euge no vel�rio, quando a M�a se come�ou a sentir mal?
O qu�?
� que eu vi-a a ir ter com ele
e come�ar a chorar no ombro dele.
Por acaso,
estava a partilhar uma das minhas mem�rias do Augusto.
E ela emocionou-se, coitada.
- Foi pateta da minha parte. - Deve ter sido isso.
O qu�?
Ela ainda n�o tinha chorado nada.
Chorou contigo?
N�o.
A minha filha � muito reservada.
Da� ter achado estranho ela ter-se aberto contigo.
Eu tamb�m achei esquisito.
Mas parecia ter vontade de chorar.
Quero fazer um brinde ao Augusto.
Ao Augusto.
� nossa!
� nossa!
Olha para mim.
Perdoa-me.
Perdoa-me, meu amor.
Perdoa-me.
Perdoa-me.
Olha para mim, olha para mim.
Quero perguntar-lhe se se sentia realmente gr�vida
ou se me esteve a mentir este tempo todo.
Como podia ela mentir com uma coisa dessas?
A Eugenia mente sobre muitas coisas.
Senti mesmo um beb� a crescer dentro de mim.
Mas n�o era real.
E nunca ser�.
Isto vai fazer-nos bem.
Sim, tens raz�o.
Mas que n�o nos divida.
O Vincent demora-se?
N�o sei, gosta de dormir.
Gosta?
Pergunto-te, porque tamb�m dormes com ele, n�o �?
N�o �?
N�o te metas, M�e.
� verdade, querida.
N�o te metas.
Ele vai perder o avi�o.
Ol�, meninas, bom dia.
Bom dia. Damos por aberta a audi�ncia. O seu nome, minha senhora.
Esmeralda J�uregui de Montemayor.
Foi convocada para testemunhar
no caso n�mero 40320,
em que se julga o Sr L�pez Falbo.
Informo-a de que o c�digo penal
sanciona as pessoas que incorrem em falsidades ou omitem a verdade.
De acordo com a sua cren�a, jura dizer a verdade?
Sim, juro.
Sr Procurador, a testemunha � sua.
Muito obrigado.
Pe�o licen�a ao Sr Dr Juiz para mostrar umas escrituras � testemunha.
Prossiga.
Est� a par da forma como foram assinadas as escrituras destes im�veis?
Sim.
Os vendedores deram ao meu marido uma procura��o
autenticada por Nicanor L�pez Falbo.
E as assinaturas na procura��o pertencem aos verdadeiros donos das propriedades?
Sim.
Ent�o os propriet�rios assinaram as procu- ra��es no gabinete do not�rio L�pez Falbo?
N�o.
Mas as escrituras foram assinadas no consult�rio do not�rio?
Sim.
Na presen�a dos donos dos im�veis?
N�o.
Porqu�?
Porque os propriet�rios...
estavam impossibilitados de ir ao consult�rio.
Da� terem passado uma procura��o,
para que o seu representante pudesse assinar por eles.
Porqu�?
Porque estavam detidos.
Estavam na pris�o?
N�o.
Ent�o onde estavam?
Na ESMA.
Na Escola Naval de Mec�nica.
Exacto.
Estavam na cave da ESMA.
E os detidos assinaram as procura��es de livre vontade?
N�o...
Foram coagidos a faz�-lo.
Disseram-lhes que se assinassem, lhes poupavam a vida e a dos seus familiares.
Minha senhora, como sabe tudo isso?
Porque eu era secret�ria do L�pez Falbo.
E ele mandou-a buscar os pap�is assinados?
De maneira nenhuma.
Sabe quem foi �s caves da ESMA recolher as assinaturas?
Sim.
Quem?
O meu marido.
O Doutor Augusto Montemayor?
Sim.
Porque inventaste aquela merda, M�e?
- Por favor, deixa-a em paz. - N�o deixo! Quero que ela diga a verdade!
- Porque aquela merda � a verdade. - N�o, M�e, n�o �!
- Chega! - N�o vou parar! Ou�amo-la!
H� muitas coisas que desconheces sobre o teu pai.
Ent�o conta-me.
O que vais contar? Que o Pai atirava pessoas dos avi�es?
- V� l�, diz-me! - Senta-te!
Estive calada durante d�cadas,
para te proteger desta merda que agora exiges saber.
D�cadas!
Esse pai...
que tu tanto veneras...
quando regress�mos de Paris pela primeira vez,
manteve-me ref�m na minha pr�pria casa,
no meu pr�prio matrim�nio, entendes?
Obrigava-me a fazer sexo...
contra a minha vontade.
Repetidamente.
- Violou-me! - O que dizes, M�e? Violou-te?!
Amarrava-te � cama? Violava-te como, M�e?
- Ouve o que ela diz. - Foi assim que engravidei de ti!
Ele obrigou-me a levar a gravidez a termo.
Desejei o tempo todo que acabasse.
Mas n�o podia faz�-lo sozinha, por isso...
J� n�o podia abortar-te.
E quando tu nasceste...
tive a ilus�o de que tudo mudaria,
que eu seria como as outras m�es...
com um amor especial pelo seu filho...
Mas nunca me senti assim, nem um dia, nem um instante. Nunca.
Oscilava entre...
sentir-me triste e odiar-me.
N�o sabia o que fazer, era horr�vel.
Era como se uma nuvem negra me perseguisse.
Foi uma tortura, M�a, uma tortura. A s�rio.
E depois o teu pai...
come�ou a cuidar de ti.
E a alimentar-te, porque eu n�o conseguia. N�o podia, porque...
N�o conseguia pegar-te, ter-te ao colo,
n�o conseguia dar-te de mamar, nem nada!
N�o te queria tocar!
E depois...
decidi conformar-me...
e deixar que a natureza seguisse o seu curso.
Mas isso nunca aconteceu.
Mal te conseguia amar, M�a.
Sabes qu�o terr�vel �...
pegar num beb�...
e sentir...
que n�o � ningu�m, que � como se n�o fosse nada?
E chamar "minha filha" a algu�m que mal conheces.
Tudo isso gra�as ao teu pai, ao teu adorado pai.
Tu e toda esta desgra�a... � tudo gra�as... ao teu pai.
E juro...
Juro...
Juro que tentei.
Mas...
Mas n�o consegui amar-te.
N�o consegui mesmo.
N�o sei... mas n�o consegui.
N�o consegui.
Mas eu amo-te.
Mas eu...
Mas... eu tentei.
ESCOLA NAVAL DE MEC�NICA
Naquela altura, a bondade manifestava-se em favores.
Pediam-se favores, retribu�am-se favores...
Havia favores que requeriam reconhecimento de assinaturas.
O meu pai tratava disso, e o teu pai ajudava-o.
Ela ia � ESMA ter com aquelas pessoas.
A tua m�e ia recolher as assinaturas.
Era ela.
- Mas o livro � verdadeiro? - Claro.
Claro.
O meu pai disse que estava no consult�rio, mas que tinha desaparecido.
Onde o encontraste?
Estava na pasta que o meu pai me deu antes de prestar declara��es.
Mas ele nunca me disse nada.
Isto coloca a tua m�e numa posi��o muito complicada.
Faz o que tens a fazer.
N�o percebo.
N�o percebo o que a tua m�e fez.
Sinceramente...
n�o percebo...
Est� aqui o nome dela,
o apelido,
a assinatura dela...!
Explica-me, porque n�o percebo.
Ela devia ficar ali, gozar a vida e parar de complicar.
Imagina a tua m�e na pris�o.
Imagina s�...
Sem ningu�m para lhe fazer nada!
Acaba-se a campainha, acaba-se a "Rachel"... Ningu�m!
Quero dizer...
O que fizeste?
O que tinha de ser feito.
Sem me perguntar?
Se te tivesse perguntado, o que terias feito?
- N�o sei. - Ent�o...?
J� percebeste que vamos perder tudo?
J� n�o �s uma crian�a, M�a. O que ganhas tu com isto?
- Defendo o Pai, Euge. - N�o acredito!
Como vais viver?
- Como vou eu viver? Diz-me! - N�o sei, Euge. N�o sei!
Esmeralda...
Temos de ir.
Deixa-me ajudar-te.
Mant�m a calma.
Se precisares de mim, diz-lhes que me chamem.
- N�o. - N�o, n�o.
Pancho! N�o! Anda c�!
Nunca percebi porque � que com tanto homem no mundo
tinhas de te meter com o Vincent...
Sabias como eu o amava.
Eu contava-te tudo.
Eu n�o me meti com ele.
O Vincent era meu colega de turma, meu amigo.
E tu come�aste a andar com ele.
E quando tiveste de voltar a Buenos Aires, porque tinhas 16 anos,
eu pude fazer uma escolha e escolhi ficar.
E as coisas acabaram assim.
N�o, as coisas n�o acabaram assim, Euge.
Algu�m decidiu que seriam assim.
Eu sei de voc�s os dois h� 15 anos, M�a. H� 15 anos!
Desde a primeira vez que se viram em Marselha,
quando ele voltou a cheirar ao teu perfume, soube logo.
Mas nunca o disse.
Nem a ele nem a ti.
Para qu�?
O que ganhava com isso?
Sempre que ele tinha de viajar, eu sabia que tu tamb�m ias.
Sempre que me foste visitar a Paris,
eu sabia que a dada altura voc�s estariam juntos.
Mas porque nunca me disseste nada?
Porque...
Porque nunca senti tristeza ou ang�stia...
Porque... sabes o que sentia?
Al�vio.
Saber que o partilho contigo alivia-me.
Saber que te posso dar aquilo de que tu precisas
faz-me sentir bem.
Nunca lhe pedi que te deixasse.
Tamb�m para mim � uma forma de estar perto de ti.
Sinto tanto a tua falta!
Eu sei...
A dist�ncia � demasiado real, demasiado dolorosa.
Perdoa-me.
Perdoa-me.
Est� tudo bem...
Calma...
Mesmo que falemos todos os dias, sinto na mesma a tua falta.
Penso em ti todos os dias.
Juro que quero estar bem.
Eu quero, mas n�o consigo.
N�o sei como se faz...
Coitadinha...
Coitadinha, tu.
Coitadinhas, n�s.
Estes s�o os �vulos fertilizados da Eugenia.
O resultado foi muito bom.
E a boa not�cia � que o �vulo da Eugenia est� bem implantado no �tero da M�a.
O embri�o tem oito semanas.
Agora vamos ver imagens do embri�o.
O som que ouvem � o cora��o a bater...
150 vezes por minuto.
N�o h� hematomas nem sinais de descolamento da placenta.
Correu tudo na perfei��o, meninas.
Est� tudo bem.
E agora, o que fazemos?
Temos de esperar mais duas semanas, para ficar descansadas.
Mas est� tudo bem.
Parab�ns, mam�s.
Obrigada.
UM SEGREDO DE FAM�LIA
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