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UM FILME NETFLIX
Esta é a história do meu último desejo.
Um sonho que quero compartilhar com meu filho.
Por isso tenho este caderno.
Para que ele saiba a importância de ser ele mesmo.
E para ele conhecer a sua história.
Só espero poder terminá-lo.
Desça por aqui.
Desculpe.
Aguarde na recepção, já irão buscá-lo.
Leve a bolsa dela…
EMERGÊNCIA
Obrigado.
Federico, não quero ficar aqui.
Se o plano de saúde não resolver, terão que nos dar um quarto.
Ótimo, mas encha o saco deles. Serão seis meses, preciso de uma cama.
Vou ligar e encher o saco deles.
-Encha o saco deles. -Sim, fica tranquila.
-Você falou com Tomy? -Sim, já estava acordando.
Avisei ao seu pai que vou buscá-lo mais tarde.
-Já falou com os médicos? -Já.
Então?
Eles te darão "lactose" ou "lactulose", algo assim.
Ajuda na obstrução intestinal.
Terei que ficar aqui?
Só até fazer efeito.
Fala sério. Eu não sou idiota.
Eles tiraram meus ovários, não meu cérebro. Qual é?
Não me internariam só para me fazer cagar. O que foi?
Então…
A frase "Precisamos conversar", geralmente vem antes de algo ruim.
Mas, dessa vez, foi algo bem pior.
Dois dias após a cirurgia de retirada do meu útero, ovários,
e outras coisas para analisarem, sabia que algo ruim estava acontecendo.
Mas nem o cirurgião teve coragem de me contar.
Tudo é mais intenso e vívido quando estamos morrendo.
Você quer sentir, provar, amar.
Ao mesmo tempo, essa intensidade é insustentável.
Nenhum corpo doente aguenta.
É preciso procurar formas de se distrair, fugir da realidade.
Aí entram as redes sociais. Melhor dizendo, Twitter.
Serve para exagerar e brigar sobre coisas
como absorventes internos ou comuns.
Mas também para contar a minha história.
Ter câncer é como ter gripe.
Não precisa se envergonhar, mas, é algo realmente pior.
Escondê-lo, é como aceitar quando dizem que é:
"Uma longa e dolorida doença."
Quando eu tuitei sobre isso, recebi mensagens de amor
de pessoas que nem conheço.
Mas, sem ofendê-los,
contarei para vocês a frase que odeio ouvir:
"Vai dar tudo certo."
Tudo certo é o caralho.
Falar isso para alguém com câncer
é como dizer para quem está no deserto
que há um oásis lá no horizonte.
Amanhã ele tem jardim.
Bem, vamos para a cama.
Devagar.
Muito bem.
Tire os chinelos.
Cuidado com o soro.
Pode me dar o controle, Luís?
Olha, com este botão, pode pedir um chá, para ir ao banheiro, coisas assim.
Este botão é para pedir resgate de morfina.
Sentiu dor, aperte o botão.
Não espere até sentir muita dor. Está bem?
Se precisar de algo, é só me avisar.
Obrigado.
-Até logo. -Até mais.
Então? O que você achou do quarto?
É legal, não acha?
Tem vista pra rua.
O que dá pra ver?
Nada de mais.
Na verdade, é bem feio.
Você vai dormir aqui?
Vou, sim.
E Tomy?
Já resolvi isso.
Seu pai ou minha mãe o levarão ao jardim.
Eu vou buscá-lo,
ele fica umas horas aqui, e depois o levo de volta.
-Você vai dormir no sofá? -Vou.
Não vão arrumar a cama.
Pedirei um saco de dormir ao Adrián.
Vão nos expulsar daqui.
Não, só vou usá-lo à noite, de manhã eu tiro.
Não se preocupe.
-Federico? -Sou eu.
Tudo bem? Sou Diego Vigna, médico-chefe.
-Como vai? Prazer. -Bem.
Não uso jaleco aos domingos, mas sempre venho ver os meus pacientes.
-Não existe feriados para as doenças. -Claro.
Eu fui ver María, e queria te informar de tudo.
Não há obstrução intestinal.
O tumor pélvico está pressionando o duodeno.
Os exames não estão bons, seria melhor a María continuar internada.
No estado dela, não pode fazer cirurgia nem fazer a quimioterapia.
O que podemos fazer?
Podemos tentar melhorar a qualidade de vida dela.
E sugiro administrar corticoides para tentar controlar o tumor.
Mas isso seria apenas temporário.
Não pode fazer nada quanto a doença?
Podemos fazer muita coisa.
Por exemplo, diminuir a dor que ela sente. Isso é importante.
Ficar ao lado dela. Isso também é importante.
Olha, nestes casos, as minhas prioridades são:
que o paciente não sofra
e que volte para casa logo.
É sempre melhor esperar em casa,
em um ambiente conhecido e com seus entes queridos.
Algumas aranhas têm dois olhos, outras têm mais.
Quantas patas têm?
Não sei direito,
mas vou pesquisar.
Mamãe!
-Oi! -Olá.
Oi!
-Oi. -Me dê sua mochila.
-Pronto. -Que bom ver você aqui!
Está tudo bem? Como foi no jardim?
Hoje eu não…
-Não fui ao jardim ainda. -Sério?
Que bom que você veio me visitar!
Vou passar pelo jardim perto de casa e perguntar se eles têm vagas.
Cuidado! A cama é alta.
Esta cama não é como a nossa, sabia? É uma cama-robô.
Isso. Me levante, por favor.
Quero pôr meus pés lá em cima e minha cabeça lá embaixo.
Bem aí.
Tchauzinho!
Vou ficar toda dobrada!
Continua.
Tchau.
Quando toco neste botão, explode.
É como se caísse uma bomba do céu e explodisse.
Adorei isso, Tomy! Vamos explodir a cama.
Não!
Amor?
Quero que você me traga um caderno.
Pede à Lourdes. Ela faz cadernos artesanais.
E tem um lindo com um lobo na capa.
Quero escrever para Tomy.
Está bem.
Tínhamos combinado às 10h. Que horas são?
Já são às 10h20.
Vamos perder o horário de visita.
É até o meio-dia, Maru.
-Oi, como vai? -Bom dia.
-Até que horas é o horário de visita? -Até o meio-dia.
Obrigada.
Até que horas ela disse?
Elas estão chegando.
Aquelas safadas! Combinaram para virem juntas.
Relaxa.
Nem avisaram que iriam se encontrar antes.
Queríamos trazer um presentinho para ela.
Presente? A gente não trouxe nada.
Tudo bem, podemos dividir.
Ei! É um presente do grupo.
-Isso não. Vai comprar algo. -E onde posso ir comprar?
Sei lá. Compra qualquer coisa.
Olha, tem um shopping aqui perto.
-Está falando sério? -Ué.
-Cadê as chaves do carro? Eu vou. -Fica aqui. Eu vou.
Eu vou com você.
-Qual o quarto dela? -Quarto 216.
No 216. Por que ela fica tão chateada?
Deixa pra lá.
Olha, não podemos entrar lá todas juntas.
-Entramos por grupos. -Vamos com calma.
-Para a direita. -Federico.
Olá. Tudo bom?
-Beleza? -Como estão?
-Oi. -Como vai?
-Tudo bem? -Ótimo.
-Tudo bem? -Sim.
Vocês vão ter que esperar. O médico está lá dentro.
-Tá. -O resto do pessoal está vindo.
Veio todo mundo?
-É. -Todos.
Poderemos entrar todos juntos?
Não sei, podemos tentar.
-Quer se sentar? -Não.
Como ela está?
Está bem. Está tranquila.
Ela está sentindo dor?
Parece que não muita, diz que é suportável.
Sabem como ela é.
Consegui um quarto bem bacana. Bom mesmo, tipo de hotel.
Que bom!
Excelente.
-Como está se sentindo? -Péssima.
Novamente internada, já vi vinte médicos, e ninguém pode fazer nada.
Estou cansada de estar na cama.
Entendo você. E a dor?
Não muita, ainda posso suportar.
-Já conseguiu evacuar? -Não.
Então teremos que monitorar isso.
Vou levantar a sua cama para podermos falar melhor.
Prontinho.
Como vai?
Estou bem.
Eu estou ótima.
Uma pergunta:
Quando isso ficar bem feio, vão me desligar, né?
Já conversaremos sobre isso,
e será somente uma vez, mas ainda não é o momento.
Mas quanto tempo falta?
-Para quê? -Para esse momento chegar.
Não tenho como saber isso.
Mas ninguém vai embora antes da hora.
E eu não posso fazer nada para acelerar isso.
-Você está confortável aqui? -Estou.
O importante é que esteja confortável.
Por que você acha…
que eu peguei isso?
Você não "pegou" isso.
Já tinha isso em você.
Não é um vírus ou uma bactéria que entra e a ataca.
Se fosse assim, seria contagioso.
Esse câncer é…
ele faz parte de você.
Podemos chamá-lo de María.
Não vamos chamá-lo assim.
-É, melhor não. -É.
É genético.
Há alguns tipos de câncer
que estão relacionados ao seu estilo de vida.
Se você fumasse três maços por dia,
provavelmente teria câncer de pulmão.
Mas, geralmente, eles estão relacionados à sua genética.
Eles podem entrar?
Isso é uma manifestação?
São os nossos amigos.
Eles podem entrar.
-Podem entrar. -Oi!
-Obrigada. -Como vai?
E como ela está?
Ela já sabe de tudo.
Ela soube na hora. É esperta.
E vou entendendo como é o relacionamento de vocês.
É uma simbiose saudavelmente patológica.
Mas tranquilo, sou assim com minha esposa.
Olha, Tomy. Sua mãe está ali,
neste quarto importantíssimo e VIP.
Eu que consegui este quarto, sou o cara.
Tem até móveis de design.
Olhe só este chão.
Agora, meu filhinho,
vou te mostrar o banheiro.
Olha só. É de mármore.
De mármore.
É incrível.
Muito bacana.
E aqui está sua mãe,
como sempre, quase não me dá atenção, depois se faz de boba e fica no celular.
Vai tuitar sei lá o quê…
Ela sempre faz isso.
-E estamos aqui… -Faça algo.
…com todos nossos amigos,
vou apresentá-los para você.
-Veja, ela é Shoy. -Pé.
Uma ilustre psicóloga lacaniana.
Não, apaga isso.
-O que foi? -Não sou psicóloga.
-O que é então? -Psicanalista.
-Ela vai te bater. -Não…
Bom, ela é psicanalista lacaniana. Foi mal aí.
Isso é bem pior.
-Ela é a Paula. -Oi, Tomy.
-Ela é escritora. -Isso aí.
Você vai ler o livro dela, porque ela fala da sua mãe nele.
Ele é Charlie.
Oi, Charlie.
Senhoras e senhores.
-Ele não é apenas um amigo. -É como uma irmã!
-Irmã, é mesmo. -Totalmente.
Cuidado com o que vai falar, cara.
Ela é Brenda, é artista com A maiúsculo.
E sabe por que é com A maiúsculo? Porque está afadigada com a gente.
Olha ela aí. É designer e ilustradora.
Ela é demais.
Senhoras e senhores, essa é Vera.
Não parece, mas ela é CEO de uma companhia de seguros.
-E nunca perde esse bronzeado aí. -Dá para acreditar?
-É demais. -Ela é Letty.
E trabalha na prefeitura.
Filho, se você fizer alguma besteira, é só ir falar com ela.
Dou um jeitinho.
Olha aqui.
Ela é Agus.
Ela é professora de jornalismo e dançarina de tango.
-Excelente! -Olha só!
Mostre o que você sabe.
-E ela é Roxy. -Pois é.
Bem, ela é dona de casa.
Não sou apenas dona de casa.
-O quê? -Sou assistente social.
Mas nem se formou. Você já terminou a faculdade?
Manda ir pastar!
Assistente social, foi mal!
E ela é Maru.
Nem quero apresentar essa doida, senão terá que suportá-la para sempre.
Igual o coitadinho de Hernán que tem que suportá-la.
Hernán vende e compra apartamentos. Como se diz?
Sou broker.
-Claro. -É broker imobiliário.
-Corretor. -Isso.
Então é isso.
Estamos decidindo se ficamos aqui ou vamos para casa.
O bom daqui é que fazem faxina. Parece uma lua de mel.
-Quase isso. -Olha só, filho.
-Temos esta vista panorâmica. -Uma maravilha!
-Só cimento, cimentão. -Olha só as árvores lá longe.
Enfim, estamos aqui…
Com nossos amigos, nos divertindo muito.
Do jeito que sua mãe…
A sua mãe é assim, desse estilo.
Aquela ali.
E por isso sou louco por ela.
Até mais, filho.
Dizem que sou corajosa e forte. Será?
Na verdade, o que faço é minha única opção.
O que mais posso fazer?
Entrar num mundo de autopiedade?
É melhor fazer o show do câncer no Twitter.
Na verdade, estou a cada dia pior.
É como ter sucesso sem parar, mas ao contrário.
Mais um olho.
E…
Eu prefiro fazer as pizzas mais tarde,
porque gostei de ficar fazendo olhos.
Este está feliz. E este está com raiva.
-Este está muito feliz. -Este aqui?
Esse está triste.
-Por quê? -Porque são as felicidades.
-A cor da raiva é…? -Vermelho.
-E a cor da tristeza? -Esta.
Tem três felicidades e uma tristeza?
Muito bom.
Essa daqui está feliz?
-Não. -É a que está triste?
São três felizes e um triste.
Não, esta… daqui está com raiva.
E essa está feliz, e feliz.
Por que essa está com raiva?
Porque a outra está fe… esta daqui está com raiva.
Esta é a cor da raiva.
-Claro. -E esta é…
Esta é a cor azul que é…
que é a cor da tristeza.
É mesmo.
Que azar ficar doente assim…
Sinto falta de sair para passear com você e ficar meia hora em cada coisa,
às vezes saímos sem rumo para comprar comida, tomar sorvete,
e você empaca e não quer andar…
ou quer sair do carrinho no meio de uma avenida…
Sinto falta disso. E quero que você saiba que foram os momentos
mais felizes da minha vida…
e que te amo.
-Oi, María. -Com licença.
Ela é Marina, a nova médica-residente.
Chegou esta semana, vai ficar uns meses aqui no hospital.
-Oi, Marina. -Oi. Como vai?
-Bem. -Como foi a sua noite?
Não foi boa. Tive algumas dores.
-Teve náuseas? -Sim, eu tive.
-Não se preocupe. Vamos melhorar isso. -Ótimo.
-Faz tempo que se formou? -Não, em dezembro.
-Que legal! -É.
-Em que especialização? -Cardiologia.
-Olá. -Oi, doutora.
-Como está hoje? -Não muito bem.
Ela está com um pouco de dor.
Vamos ver isso.
Vamos ver.
-É aí? -É, sim.
-Parece que puxa? -É, como se puxasse.
Se a dor ficar mais forte teremos que lhe dar morfina.
Não podemos esperar um pouco mais?
Para quê? Vai ajudar a diminuir a sua dor.
Sei lá. Não é tão insuportável.
Mas você vai se sentir melhor. Não se prive.
Temos que organizar as coisas, Federico.
Não sabemos quanto tempo ela ficará aqui.
Deve ser até o corpo dela aguentar.
Mas vocês a conhecem.
Um dia ela vai dizer: "Já chega."
E vai querer organizar até a hora.
Sei, mas não falo dela, e sim de você e de Tomy.
Já organizei com minha mãe e meu sogro sobre o jardim de Tomy.
Não é só isso. Vocês precisam se alimentar bem.
Não podem viver de sanduíches.
O que vão fazer se ficarem muitos meses aqui?
Convidaríamos vocês, mas moramos longe.
Claro, valeu mesmo. Eu darei um jeito.
E acho que você deveria trocar de roupa e tal…
Porra, Maru. A situação é complicada.
-São duas semanas sem tomar banho! -Precisa falar isso?
-Isso é nojento. -Maru está certa.
Precisamos nos organizar.
Por exemplo, as visitas.
Não pode ficar o dia inteiro aqui.
Beleza.
Criarei um grupo sem Marie,
com aquelas 12 loucas e Charlie,
e podemos organizar as visitas para a semana.
Alô?
Quem fala?
Sim. Tudo bom?
Ela já recebeu, sim.
Ela amou.
Muito obrigado.
Tchau.
É Lu, que fez o caderno.
É a amiga de Marie, né? Do outro grupo?
De artesanato, bordados e tal. Dessas bobeiras.
É bem simpática.
Faz bordado, mas é legal.
A cada dia dói em algum lugar. Agora, são as minhas costas.
Você fica muito tempo na cama.
Pediremos um colchão de ar para você.
-Ontem não tinha essa dor. -Devagar.
É que seu corpo está mais fraco, e você está mais sensível.
Segure o soro para mim.
Hoje o dia está bonito?
Sim, está fazendo sol.
Quero ver.
-Consegue ir sozinha? -Sim.
Tudo bem?
Estão pondo um guindaste enorme ali.
Você sabe o que irão construir?
Dizem que vai ser um shopping.
É difícil entender que a vida continua mesmo sem a gente,
mas devemos aceitar isso.
Ou não.
Somos tão irrelevantes para o universo
que ele está nem aí se aceitamos ou não.
Mesmo você querendo descer, subir
ou frear um carcinoma metastático de nível 100 para…
Sei lá! Ver seu filho acabar o primário,
a vida continua, e parece que cada dia passa mais rápido.
O que foi, María? Precisa de alguma coisa?
Preciso ir ao banheiro, acho que vou vomitar.
O que é isso?
Venha comigo.
Eu disse que não era boa ideia você dormir aí.
Se você continuar vomitando, teremos que pôr uma sonda.
-Tudo bem. -Sim?
-Melhorou? -Sim.
-Está melhor? -Sim.
Se precisar de alguma coisa, me avise.
-Está bem. -Certo?
Finja que não vi. Pode voltar a dormir.
Obrigado.
Por que você não me acordou para te levar?
Você dormia de babar e precisa descansar.
Além disso, não aceito o fato de não poder ir ao banheiro sozinha.
Não acredito.
Sou apaixonada por suas coxas gordinhas,
seu cabelo ao estilo Mick Jagger, sua boca que é igual a minha.
Você é igual a mim quando criança. Mas sinto que é mais feliz.
Será que desejo tanto que vejo isso?
Eu gostaria de ir para um lugar distante, num campo onde você possa correr e gritar.
Parabéns pelo artigo sobre sua esposa.
Qual artigo?
-No jornal Clarín. Não viu? -Não sabia de nada.
Vou buscá-lo.
Olha só.
UMA MULHER COMOVE TWITTER
-Quando publicaram? -Hoje.
CONTANDO SUA LUTA CONTRA O CÂNCER
Pode levar.
-Eu devolvo depois. -Tudo bem.
Marie.
-Diga? -Olha o que publicaram no jornal.
O que é isso?
Você conhece a autora?
Não conheço. Já leu a matéria?
Já li, está ótima.
-Sério? -Estou falando sério.
Oi, Maru. Beleza?
Não, eu não sabia de nada.
Ela disse que sua matéria está na capa da versão digital.
Uma página inteira.
Certo. Fala com ela.
Oi. Tudo bem?
Eu não sei de nada.
Pergunte para as meninas.
Viu?
Sou famosa. Antes tarde do que nunca.
Tudo bem.
Está bom. Até mais tarde. Beijos.
Será que vão nos incomodar para dar entrevistas?
-Que loucura, menina. -Viu?
Virou celebridade, foi?
-Oi. -Eu nem acreditei.
Viu?
Não é justo ser famosa por causa do câncer, e não pela sua bunda.
Não consigo acreditar!
-Com uma bunda lindona. -Chega! Minha barriga dói.
Quer ajuda para subir? Nossa, ela subiu sozinha.
Hernán, pode levantar a cama para mim?
Ligaram de outros jornais?
Já, mas não quero me meter nisso.
-Quem ligou? -De um programa matinal da TV.
-Qual? -Do canal 11.
O programa de Vero Lozano?
Esse mesmo. De Vero Lozano.
-Imagino que vai aceitar, né? -Não. Para que vou fazer isso?
-Por quê? -Todo mundo assiste a esse programa!
E daí? Isso não vai mudar a minha vida.
Tudo bem, ué. Só estou falando.
-Trouxe comida para mim? -Não.
Depois daquele dia, não vou mais trazer comida.
-Mas Hernán trouxe outra coisa. -O quê?
É mesmo.
Uma caixa de som.
-Obrigada! -Para ouvir música.
Muito obrigada.
Não, mas é a sua. Você leva para o trabalho.
Não tem problema. Agora é sua.
Obrigada.
-Oi, como vai? -Bom dia. Tudo bem.
-Sabe onde está Dr. Vigna? -Ligarei para ele.
Dr. Vigna, por favor, ligue para o balcão de informação.
Obrigado.
Guardamos umas coisas para sua esposa lá na recepção.
-Que coisas? Como assim? -São presentes.
-Ótimo. Vou pegá-los depois. -Tudo bem.
Alô? Oi, doutor.
O marido da paciente 216 precisa falar com o senhor.
Claro. Você pode subir. Ele está no escritório.
-Tá. Depois pego os presentes. -Avisarei à recepção.
Oi.
-Entre, Federico. -Com licença.
-Que legal a matéria do jornal. -Pois é.
Obrigado por mencionar o hospital.
A gente não fez nada nem sabemos quem a escreveu.
Sente-se.
Doutor, o Canal 11 quer entrevistar à María.
-Ao vivo? -É.
-Com câmeras? -Isso.
Não podem entrar com câmeras aqui.
Eu sempre tento dar um jeito.
Mas não podem entrar plantas, crianças ou grupos de pessoas.
Eu deixo vocês fazerem tudo isso.
Mas com as câmeras não dá. Terei problemas com o comitê.
-Entendo. -Pode ser uma entrevista por telefone?
Boa ideia.
Talvez seja bem melhor. Assim não veem como ela está.
Ela não se importa com isso.
Entendo. O importante é o que ela tem para falar.
Falta muito para eles ligarem?
Três minutos.
-Ainda está com dor? -Um pouco.
-Então vou pedir morfina. -Não, espera.
-Não pode dar a entrevista assim. -Posso aguentar.
Não quero tomar morfina. Ficarei babando como uma idiota.
Não quero.
Não quero isso.
Veja. Achei o canal do programa.
As redes sociais são uma fonte inesgotável,
não apenas para desabafar, dizer como você está, protestar…
-Já começou? -Ainda não.
…em 140 caracteres, mas também para falar sobre doenças.
Para se identificar com alguém que esteja passando pela mesma situação.
Conhecemos a história de María Vázquez. Uma história especial.
Ela tem câncer e está em tratamento, lutando contra um câncer de ovário
e já no final de sua quimioterapia.
E, no Twitter, ela conta tudo. Leo vai ler para a gente.
Alguns tuítes, em breve, conversaremos com ela.
MARÍA VÁZQUEZ, SUA LUTA CONTRA O CÂNCER
Ela está no telefone.
Tudo bem, María Vázquez? Somos Leo e Vero. Um prazer.
Oi, Leo. Olá, Vero.
Tudo bom com vocês? Obrigada por terem me ligado.
-Assim não vou ouvir! -Mas dá retorno!
Há sete meses, me fizeram uma cirurgia muito radical,
uma histerectomia.
Onde retiraram o meu útero. Eles me deixaram sem nada.
Fiquei totalmente oca.
Mais oca do que eu já era.
E, depois disso, comecei a receber a quimioterapia.
Que tinha dado certo, só que agora não serve mais.
E é isso…
Agora não há mais nada a fazer.
Estou aqui, esperando que seja a hora.
Esperando a hora…
É difícil ouvir você falar isso…
Da minha morte.
Precisamos dizer as coisas como são.
É isso. Esperando a minha morte.
Esperando a sua morte. Não há mais nada a fazer?
Minha saúde já está muito frágil.
Não podem fazer outra cirurgia,
também não posso receber mais quimioterapia, estou muito fraca.
Apesar disso, o hospital cuida muito bem de mim.
É excelente, eles me tratam muito bem.
María, ao ler os seus tuítes,
vejo que você passou por várias mudanças de humor.
Você fez piadas, depois ficou com raiva, também foi irônica.
Qual seria o seu humor atual?
Hoje seria o engraçado.
Quando eu recebo visitas, faço uma espécie de stand-up sobre o câncer para elas.
Sabe? A não ser que cheguem na hora que estou vomitando no balde,
posso dizer que estou cercada de alegria.
Você tem um filhinho de três anos, María.
Você pensa nele nessa situação…?
Eu penso muito nele, e conversamos muito.
Estamos fazendo vídeos para ele.
E sempre falo a verdade.
O que você disse?
Diremos a ele que daqui a pouco a mamãe não vai estar aqui,
mas que sempre estarei no coração dele.
Acho que ele vai entender.
E seu marido? Você é casada?
Estamos vendo a foto de vocês.
Essa foto aí é do nosso casamento.
Somos uns pecadores, estava grávida de sete meses no nosso casamento.
E o homem da foto é Federico.
Meu marido… ele me faz companhia,
cuida de mim, ele não sai do meu lado.
Quando você soube que tinha câncer de ovário,
achou que iria superar essa doença?
Na verdade, eu não soube. Adivinhei que tinha.
Como assim?
Eu fui fazer um ultrassom,
porque estava com uma barriga de grávida, tipo de seis meses.
E o médico…
os médicos conversam sobre isso,
acham que a gente não vai perceber.
-É, eles acham que não entendemos. -Isso. Acham que não sabemos de nada.
Então o médico falava com o radiologista:
"Em uma escala de sei lá o quê,
e o 45 sendo o mais alto, o que você acha que é isso?".
E ele responde:
"Para mim, seria um 100".
María, quantos anos você tem?
Tenho 42 anos. E daqui a dois dias farei 43 anos.
-Vai fazer 43 anos daqui a dois dias? -Isso. Se eu conseguir…
farei 43 anos.
Vejo que sempre usa humor e ironia ao falar.
Não sei se isso a ajuda ou é um escudo,
mas sai naturalmente de você.
Eu não acho que isso me ajude.
E também não é um escudo.
Eu sou assim.
É o meu jeito de ser.
As minhas amigas até acham engraçado,
porque quando elas vêm, acabam sendo mais dramáticas do que eu.
Para mim, eu vejo isso como aceitação.
Você tem que aceitar que…
a morte faz parte da vida.
Seis. Quatro, cinco, seis, sete.
É sete.
Tanto?
Sete são bastante.
Um, dois, três, sete, onze,
quatorze, sete, onze, quatorze, sete.
Você é muito engraçado, Tomy. Você fala coisas muito divertidas…
Coma pelo menos um. Estão na época.
Não posso. Meu corpo não o aceita, Maru.
Por favor, só um.
-Só um. -Tá bom.
E isso?
-Eles trocaram o meu colchão. -Por quê?
-Transei tanto que quebrou. -Sei.
Olha, eu e o grupo falávamos sobre isso. Pega leve, viu?
Há rumores que vivem de festa aqui dentro.
Escuta, Maru…
Consiga uma namorada para Federico, por favor.
Que ele possa transar, se casar.
Olha o que te peço.
Ele demorou 18 anos para se casar contigo. Se ele puder transar, já é muito.
Estou falando muito sério.
Não quero que ele viva triste.
Que ele possa transar,
ser feliz e viver a vida dele.
Já sei que estou ficando sem meus cílios, que coisa horrível…
Com licença. Trouxeram mais presentes para sua esposa.
-Mais? -Pois é, por causa do programa.
Fiquei sem bunda, emagreci 12 quilos
e tenho menos músculos do que uma lesma.
Mas eu me sinto linda, mesmo sem cabelo e magrela.
Colocamos tudo na caixa para não perder.
-Obrigado. -Tem mais.
-Sério? Volto mais tarde. -Tá.
Pode parecer bobagem escovar os dentes e passar creme,
mas isso me ajuda a sentir que ainda sou eu.
A vaidade não some com o câncer.
Fiquei bonita?
Você está ótima hoje.
Estou. Como não estaria?
Me deram três injeções de morfina.
Parece que estou voando.
Essa não! Todo mundo tem este gato agora.
É um Maneki neko.
É um gato da sorte.
E o que mais me mandaram? Quero ver.
Creme, outro creme, mais cremes.
-Oi! -Olá.
Tem mais presentinhos aqui.
Como mandaram comida, botamos na geladeira.
Quantos presentes, María.
Não, fiquem com isso. Eu não posso comer.
Veja se você quer algo, amor. Senão, podem levar.
Mandaram vitel toné.
Palitos de muçarela.
-Nossa. -Nem acredito.
-Bolo de cenoura. -Caramba.
-E esse? -O que é?
Bolo de morango com creme.
Tomy pode gostar.
Acho que é mais para você.
Podem ficar com tudo, menos o bolo, ele vai comer.
Obrigada.
Vamos dividir entre as enfermeiras.
-De nada. -Obrigado.
-Tchau. -Até mais.
-Marie? -Quê?
Querem fazer mais três entrevistas.
Não, já foi o suficiente.
Não, isso não. Invente alguma coisa para eles.
Não quero mais.
Tá bom.
Fala sério. Escolheu o melhor momento para virar famosa.
Parece piada.
Vou falar com Nestor, da prefeitura. Lembra-se dele?
Vou pedir um adesivo para deficientes,
assim evito ficar procurando lugar ou ter que pagar o estacionamento.
-Está bem. -Tchau.
-Vai descer do carro mancando? -Vou.
Desse jeito.
Pode trazer o Tomy?
Maru vai trazê-lo.
A gente se conheceu em dezembro de 1991 e nunca mais nos separamos.
Que viva o amor!
Não posso te desejar nada melhor, meu filho,
que encontrar um amor assim na vida.
Beijo!
É um contra dois. Acredita?!
Especial, apaixonado, tempestuoso…
Faz gol!
único, amoroso.
Você teve uma boa noite?
Mais ou menos. Vomitei algumas vezes.
-O que você comeu? -Morango.
-Errei aí. -Errou.
Mas tudo bem.
O problema ao vomitar,
é que pode aspirar, e ele entrar nos pulmões.
Pediremos para colocarem uma sonda nasogástrica.
Tudo bem.
Pode incomodar um pouco, mas depois você se acostuma.
Você estava me contando ontem sobre sua viagem à Europa.
Falta pouco para me sedarem, não?
Acho que sim.
Você vai sentir quando chegar a hora.
Estou terminando o caderno para Tomy.
Ainda tenho algumas folhas. Deve ter umas dez.
Pode ser na semana que vem.
Certo, você me avisa, e marcamos o dia.
Como vai ser isso?
Como se fosse um dia normal, você nem vai perceber.
Aumentaremos a dose de morfina,
adicionamos midazolam, que é um hipnótico puro, e você dormirá.
E não vou mais acordar?
A monitoraremos
para administrar a dose certa para você não acordar.
Comece a se despedir das pessoas.
Nem tinha pensado nisso.
Vai ficar bonito de noite com as velas acesas.
Vai mesmo! Podemos tirar fotos e postar, né?
Seria um exagero?
Não…
Pode entrar.
-Preciso falar com você. -O que foi?
Como ela está?
Quê, Charlie?
O que o médico dela disse?
Nada. O que ele diria?
Mas é que tem vezes que eles pedem conselhos e tal.
Isso é um presente?
-É, sim. -Ela não quer ganhar presentes.
São dois livros para completar a coleção da Puck.
Tudo bem. Vamos entrar.
Ela dormiu.
Com tantos medicamentos…
Vamos na lanchonete para ela poder descansar.
Eu já vou, então.
-Até daqui a pouco. -Oi.
-Pensei que estava dormindo. -Não.
O que você trouxe?
Um hambúrguer.
Como lá fora para você não ficar com vontade.
Não precisa, nem fico com fome.
Oi.
Pode comer aqui.
-E trouxe as coisas que você me pediu. -Obrigada.
Estava lendo o livro que Charlie me deu de presente.
Os que faltavam da coleção da Puck.
Não acredito que ele se lembrou.
Ele é demais.
-Você foi lá em casa? -Fui. Rosa foi lá hoje.
Já pagou a ela?
Não, disse para pagar tudo na semana que vem.
Ela te mandou um beijo.
Tem algo mais.
Paguei a conta dos celulares.
Como estavam atrasadas, paguei com juros.
A janela no quarto de Tomy não veda bem.
Vou consertá-la assim que eu tiver um tempinho.
Tá bom.
As plantas continuam vivas e mandaram beijos.
-Tire uma foto delas depois. -Pode deixar.
Levei um presente à diretora do jardim.
Ela ajudou muito com o lance da vaga.
Amor, vamos marcar a data?
-Você falou com Vigna? -Falei.
É para marcar a data que eu quiser.
Tá bom.
Podia ser na sexta-feira.
O que você acha?
Tá bom.
Precisamos falar com Tomy primeiro.
Amanhã ou depois de amanhã.
Tá.
Todos os contratos têm suas armadilhas.
Federico aceitou ficar comigo até que a morte nos separasse.
Federico!
Mas ele não leu as letras miúdas.
Tudo bem?
Quero lhe pedir que traga um tabelião para certificar que María quer a sedação.
-Teve algum problema? -Não.
-Mas é melhor ter tudo por escrito. -E onde tem um tabelião?
Pergunte na recepção, elas podem te indicar um.
-Ele virá aqui? -Eles sabem o que fazer.
-Vou agora que é melhor. -Eu vou estar por aqui.
Ele nem deve ter pensado que esse momento aconteceria tão cedo.
Mas para mim chega.
Onde fica o cartório?
-No terceiro andar. -Obrigado.
Teria preferido fazer uma viagem a Paris,
mas, agora, o melhor presente que ele pode me dar
é cuidar da minha morte.
Olá.
-Boa tarde. -Estou procurando o tabelião Ceruolo.
O pai ou o filho?
Tanto faz, só preciso de um certificado.
Sente-se, por favor. Irei avisá-lo.
-Obrigado. -Já volto.
E acho que nunca testemunhei um ato de amor tão grande assim.
-Entre, por favor. -Obrigado. Com licença.
-Boa tarde. -Boa tarde.
-Tudo bom? Sente-se, por favor. -Obrigado.
Como posso ajudá-lo?
Minha esposa está internada no hospital, precisamos certificar uma autorização.
-Trouxe o escrito contigo? -Não tenho nada.
É como uma escritura, preciso ter o escrito.
Entendi. Só que ninguém me avisou isso.
Certo, faça o seguinte,
peça ao hospital que lhe forneça um texto de exemplo.
Entendi. Eu já volto, então.
Não volte hoje, já está tarde.
-Volte amanhã. -Não pode ser fora do expediente?
Qual é o assunto? É uma emergência?
Minha esposa está morrendo, precisamos dessa autorização para que possam sedá-la.
Entendo. Ficarei esperando por você.
Vou deixar o meu cartão contigo. Faça tudo que você precisa fazer.
Estarei por aqui, se você se atrasar, é só me avisar.
-Muito obrigado. -Não há de quê.
Vá com calma.
Darei as minhas roupas para você.
Mas antes faça uma limpeza. É tudo seu.
O vestido de casamento de minha mãe,
as bolsas e as joias antigas dela. É tudo seu.
O resto você pode doar, dar de presente
ou jogar fora.
Faça o que você quiser.
Dê os bordados para Vera. Ela vai saber o que fazer.
Minha maquiagem, escolha o que quer fazer.
Dê a coleção da Puck para Agus, a filha de Paula.
Uma coisa. Jogue coisas inúteis fora.
Nem pense duas vezes. Federico não vai conseguir fazer isso.
E preciso que você jogue coisas fora.
Este é bem importante.
Há um CD do Trío Los Panchos: "História de um Amor".
Essa é a nossa música.
Ele me fez ouvi-la quando nos conhecemos.
Desapareça com esse CD.
Porque se Fede achar esse CD, vai querer ouvir e ficará deprimido.
Pensei que era a "Contigo Aprendi"?
-Não. -A música do Manzanero?
Não, por favor, não jogue fora o CD errado.
Tranquila, já entendi. "História de um Amor".
Compre um presente lindo para Dra. Molina.
Tá.
Molina.
Compre presentes para as enfermeiras também.
Charlie ficará com a máquina de secar roupa.
Ele está megafeliz.
É um presentão.
Já não está mais ao meu lado, amor
E, na minha alma, eu só tenho solidão
Não faça isso, você vai se deprimir.
Já organizei tudo. Era só isso.
Tá bom?
Dr. Vigna, compareça ao balcão de informações.
-Ele já vem. -Obrigado.
Como vai, doutor?
Doutor!
Preciso do texto para María assinar.
Deixe isso de lado. O diretor quer nos ver.
-O que houve? -Nada que não consigamos resolver.
Algum problema?
Não se preocupe. Eu vou resolver isso.
Só responda "sim" a tudo.
Federico, você sabe que adoramos María e todos vocês.
E admiramos a força de vocês em uma situação como essa.
Por isso, queremos que se sintam à vontade aqui.
-Não é mesmo, doutor? -Claro.
Estou realmente agradecido.
Mas há uma questão muito delicada aqui.
Há uma linha tênue entre a eutanásia e a sedação paliativa,
ocorrendo alguns mal-entendidos.
Aliás, há muitos profissionais que não aprovam a sedação paliativa.
Eu acho que, na verdade, por semântica,
deveríamos chamá-la de "sedação compassiva", não "paliativa".
É verdade.
A Lei de Morte Digna diz
que a sedação paliativa deve ser sugerida pelo profissional
em consenso com o paciente ou com os familiares,
caso ela não consiga decidir,
no dia em que a dor se tornar insuportável
ou se os métodos para aliviar essa dor não servirem mais.
Mas não podemos dizer: "Faremos isso em cinco dias."
Pois isso sugeriria que a paciente ainda pode suportar a dor,
que essa dor não é tão insuportável e que os métodos mais simples servem.
Na verdade, é uma prática comum na nossa clínica, Federico.
-Não é mesmo, doutor? -Sim, é.
Mas, como María é uma pessoa pública,
devido ao artigo no jornal e a entrevista,
as redes sociais viralizaram sua história, e as pessoas tendem a confundir tudo.
Não seria estranho que elas achem que iremos realizar uma eutanásia.
Perdão. Preciso atender a chamada.
Federico.
Se fosse minha esposa,
a levaria para casa e buscaria alguém para lhe dar a sedação paliativa.
Não lhe digo isso como diretor.
Sabe o que vai fazer? Vai levá-la para casa?
Foi o que ele disse.
Que seria melhor levá-la para fazer a sedação em casa.
Bem…
Parecia mais que ele queria impressioná-lo.
E o que Vigna disse? Que a decisão é toda sua?
Ele é o médico-chefe, deveria poder decidir.
Deixe Vigna cuidar disso.
Vou ligar para Adrián.
Adrián?
Ele é nutricionista.
O que acha que ele pode fazer ou dizer a respeito?
Sim, mas ele é médico.
Não tem nada a ver isso.
Perguntar a um nutricionista…
Por que não querem sedá-la no hospital?
Por aquilo que te falei no telefone.
Marie não merece isso.
Não mesmo.
Vai levá-la para casa?
Sim, estamos pensando nisso.
Vamos nos sentar ali.
Onde você vai com esta carcaça?
Vou passar o verão no Norte, lá em Jujuy.
-Nem vai conseguir sair da cidade. -Você acha?
Daqui a alguns meses vai estar supimpa.
Duvido muito.
Olha, amigo,
fazer a sedação em casa não é tão fácil como parece.
Não é apenas sedá-la, e pronto.
Precisa estar do lado dela, monitorá-la.
Administrar os medicamentos.
Terá que mantê-la dormindo, e ir reduzindo os níveis de hidratação.
Entendeu?
E pode demorar cinco, seis ou sete dias. Ou muito mais.
Que merda tudo isso.
-Não há outra forma mais rápida? -Só a eutanásia.
Posso te arranjar um médico para ajudá-lo.
É melhor não.
Quando soubemos disso,
prometi à Marie que eu mesmo a sedaria.
-Me diga o que fazer. -Tudo bem.
Olha só, se quer levá-la para casa,
peça ao hospital que implante um cateter venoso central nela.
O cateter estará em uma das veias grandes que vai direto ao coração.
-Ela não tem isso? -Acho que não. Por que teria?
Eles saberão para que vou pedir isso.
Não tem nenhum conhecido no hospital?
Para fazer isso, não.
Sei lá.
Deixa que eu…
E depois que já tiver o cateter?
Já tendo o cateter, vá à farmácia e compre cloreto de potássio.
-Cloreto de potássio… -Oi, Federico.
Como está a Marie?
Oi, Estela. Ela está aguentando.
Tenho que ir visitá-la.
Vou tentar passar por lá esta semana.
Vou na casa da sua mãe.
-Eu vou lá te buscar. -Tá.
-Mande beijos para ela. -Mandarei.
-O que tenho que comprar? -Cloreto de potássio.
-Eles vendem sem problema? -Sim, não precisa de receita.
Serve para diarreia e vômito. Poderá comprar fácil.
Assim que comprar, traga para mim, e eu preparo a injeção.
E depois, só precisa inseri-la no cateter.
-Vai conseguir fazer isso? -Vou, sim.
Podem saber o que houve fazendo uma autópsia?
Sim, vai aparecer na autópsia.
Mas quem fará uma autópsia de alguém que morreu de câncer?
E se o hospital não quiser pôr o cateter?
Então terá que injetar o potássio diretamente no soro.
E será mais devagar.
Veja se alguém pode inserir o cateter.
É mais rápido, porque vai direto ao coração.
Doutora!
-Oi. Como vai? -Posso falar com a senhora?
Leve para o laboratório. Depois eu vou.
-Diga-me. -A gente decidiu ir para casa.
Fale antes com Dr. Vigna.
Claro, mas preciso que ponham um cateter venoso central na María.
Um CVC? Para quê?
Eu acho que é para administrar os medicamentos.
Quem pediu isso?
O clínico geral dela, faz anos que a atende.
Peça para ele nos ligar, não vamos inserir um CVC
sem um motivo específico.
Avise a ele.
Certo.
Obrigado.
O que Adrián disse?
-Se lembra do que a gente conversou antes? -Lembro.
Que se fosse necessário, eu faria isso.
Lembro, sim.
Só preciso de potássio.
Será rápido.
Adrián vai preparar a injeção, e eu injetarei no seu soro.
E se alguém descobrir?
É impossível, Marie.
O Adrián…
Ele já me falou.
Não farão uma autópsia em alguém que teve câncer.
-Não acha melhor ir para casa? -Eu acho.
Faremos isso em casa.
Mas não posso morrer logo após chegar em casa.
Eles não são idiotas.
E Tomy poderia ficar sem os pais, se você for preso.
Não rola.
Você está bêbado, é? Bebeu todas?
-Você não pode matá-la! -Sim, eu farei isso.
Já tínhamos combinado isso.
Vai viver mais cinco meses. Quantas vezes nos despediremos?
Quem falou que viveria mais "cinco meses"?
Cinco ou dez dias. Tanto faz. Isso é um suplício!
Ela está farta. A colocam para dormir, e ela acorda.
Que alguém lhe dê essa porra do potássio.
Diga que estou certo,
que não enlouqueci. Não posso vê-la sofrer.
Eu sei! Sei que você precisa fazer isso, mas ouvi-lo falando, me chocou.
Você falou com Dr. Vigna, o médico-chefe?
Não quero envolvê-lo.
-Mas ele disse que daria um jeito. -Ele queria se livrar de mim.
-Federico, estava procurando por você. -Oi.
-Vou ver a Marie. -Beleza.
Dr. Vigna disse que María precisa assinar este formulário
se recusando a receber tratamentos para prolongar a sua vida.
Depois que ela assinar, ele ordenará a sedação para a sexta-feira.
Finalmente!
Que pesadelo isso!
Precisa de firma autenticada?
Não, a assinatura dela é o suficiente.
Mas não digam nada nas redes sociais.
-Não faremos isso. -Ótimo.
-Obrigado. -De nada.
Marie? Amor?
Você tem que assinar isto aqui.
-Onde? -Aqui.
Bem aí.
Assine aí.
Assim eles lhe darão a sedação na sexta-feira.
E acabou.
Quem foi que autorizou?
Dr. Vigna.
Assinou?
Tô indo. Vai que ele se arrepende.
-Vai tranquilo. -Estou com pressa, eu hein.
Pode organizar a minha despedida?
Olha, é Roxy.
-Oi. -Olá.
Oi.
-Eu sou a primeira? -Não, Letty já entrou.
-Como foi? O que vocês falaram? -Sei lá. O que iria falar?
-E você? -Quero ser a última a entrar.
E ainda não sei se vou ou não.
-Sei lá… -Tá bom.
Então, eu não sei…
Que merda, meu Deus!
Toma isto.
-É clonazepam. -Obrigada. Pode me dar outro?
Não, senão você vai entrar babando lá.
Mas como ela chora muito, acho que pode tomar dois.
-Deixe um para tomar quando sair. -Ou talvez para mais tarde.
-Eu prefiro… -Está exagerando.
-Depois eu te dou mais. -Tudo bem. Então vou lá.
Boa sorte.
Oi, Roxy.
Oi, Marie.
Que idiota que eu sou!
Eles me pediram para não chorar!
-Eu sinto muito. -Está tudo bem, Roxy.
Está tudo bem.
Eu não…
É a primeira vez que preciso dizer adeus nessa situação.
Relaxa, tá?
Também é a primeira vez que eu morro.
Você não muda.
Olha só.
Eu fiz uma tatuagem.
Para sempre me lembrar de você.
Na hora que eu trocar de roupa, tomar banho, até quando eu transar.
Os dias que você puder, leve Tomy para passear.
Tá? Para ele dar umas voltas.
-Não se esqueça. -Tá.
Mande beijos à sua mãe.
Com licença.
Pode entrar, Charlie.
Eu não sei como me despedir. O que digo?
Foi um prazer conhecê-la.
Sei lá. Acho que é assim.
-Como está a construção? -Está parada.
Vou precisar de mais dinheiro.
Você tem que se esforçar. Tem que trabalhar sem parar
e ganhar muito dinheiro. Um montão.
Eu queria te agradecer por…
por todos esses anos juntos.
Você é a única pessoa com quem pude ser realmente eu.
Sou ateu como você,
mas…
se existir vida após a morte,
me avise, me mande um sinal.
Sei lá…
Escreva alguma coisa…
no espelho do meu banheiro.
Ou no bloco que você me deu, aquele feito com tecido?
Escreva ali.
Me escreva.
Charlie, se tiver que fazer alguma coisa, pode ir.
Não, eu cancelei a minha agenda.
Bem, chegou o momento…
-Lucho. -Oi.
Oi, mãe. Como vai?
-Bem. -Oi, filhão.
-Oi. -Quer que a gente vá com você?
Não, vocês entram depois.
Quero deixar Tomy e Marie sozinhos.
Vão se sentar.
Aquele botão é se, por acaso, você precisar de ajuda.
Ao apertá-lo, tocará uma campainha,
assim alguém sabe que precisa consertá-lo.
-Ele ficou doido? -Só um pouquinho.
-Um pouco? -É.
Não ficou muito doido?
Oi!
-Oi. -Oi!
Oi!
-Oi, amor. -Vai lá.
Olá.
Oi, meu amor.
-Vou ficar esperando lá fora. -Tudo bem.
-Oi. -Quem é aquela caveira?
-Viu? -Parece…
Quem tem esta cara?
Essa cara?
Cara de ovo frito!
Cara de tangerina?
Adivinhei!
É a minha vez.
Concentre-se.
Tente adivinhar o que é. É uma fruta bastante difícil.
Tá.
É…
É uma cara de banana!
Banana. É a sua vez.
Que cara é essa?
É amarga?
É pomelo?
-Sério? -Você tem uma estrela.
-Ganhei uma estrela! -Não, não tem estrela.
Não tenho nem uma? Nada?
-Porque você perdeu. -E, ao perder, para onde vai?
Nenhum lugar, você fica aqui… jogando.
Nunca, jamais, eu poderia te explicar o quanto te amo,
a felicidade de ver suas expressões…
e a raiva de partir tão cedo.
Mas viver inclui morrer
e, muitas vezes, de forma…
injusta, desnecessária.
Bem, há mortes piores,
de vidas sem amor, sem alegrias, sem paixão nem nada,
sem Fede, nem Marie, nem Tomy.
Esta é uma morte triste e doce.
Pense nisso.
Você vai entender. Meu filhinho, meu okapi.
Olá, boa tarde.
Poderiam esperar um pouco? Ela está com o filho.
-Claro! -Voltamos mais tarde.
Muito obrigado mesmo.
Obrigado.
Que horas são?
São quase 17h00.
Nossa, retuiraram duas mil vezes.
-Oi. Como vai? -Tudo bem e você?
-Tudo bem? -Sim.
-Uma pergunta. -Pois não?
Com esta dose já tem algum efeito?
-Dose de quê? -Da sedação.
Não, eu lhe darei a dose habitual.
Quê? Assinamos para ela poder ser sedada.
Não me avisaram nada.
Ela assinou a autorização!
Fale com Dra. Molina.
-Onde ela está? -No segundo andar.
Eu já volto.
Doutora, escute bem. Por que não querem sedá-la?
Escute bem, você. Não ultrapassarei certos limites.
-Que limite? -Os limites dos meus princípios.
Então vou falar com Dr. Vigna.
Que ele mande alguém disposto a fazer a coisa certa.
Ótimo. É a sua escolha.
Entendo e respeito os seus princípios, doutora.
Eu realmente entendo.
Mas você precisa me entender também. María não pode continuar vivendo assim.
Ela vomita o pouco que consegue comer, tem dores insuportáveis.
Se houvesse esperança,
não sei, uma mínima chance, eu concordaria com a senhora.
Mas sabe que não é o caso.
Para mim, a vida é sagrada, mesmo nas condições dela.
Eu posso matar a dor dela, mas não ela.
Por isso escolhi ser médica.
Só um minuto.
Federico.
-Como vai? -O que foi?
Venha comigo.
Alguém abriu a boca. Não foi culpa minha ou do diretor.
O advogado do hospital foi categórico:
não podemos dar a sedação paliativa à María.
Se fizermos, e pedirem a ficha médica dela, eles saberão.
Mas não é ilegal!
Entraram em pânico por causa dos jornais.
Tem medo de que algum jornalista acuse
o hospital de encobrir uma eutanásia.
Pense: "Hospital mata uma paciente." Essa manchete vende.
-E o que vamos fazer? -Não se preocupe.
Só vai demorar mais. Antes faríamos em dois dias,
agora vai demorar sete ou oito dias.
Para ninguém suspeitar.
Ela vai sofrer?
Não, vamos inibir seus receptores de dor.
-Mas estará consciente? -Não.
Ela não vai estar consciente nem vai sofrer.
Suas lindas sobrancelhas são iguais da sua mãe?
-Não. -Como as do seu pai?
Não.
São suas?
Eu comi um homem!
-Você sabia? -Sabia, sim.
Eu estava com fome e comi ele.
Agora comi um peixe.
Eu comi uma mulher!
Eu comi uma mulher
e um peixe.
Agora comi mais um peixe.
Fugiu…
Estou comendo todos.
Não! Eu morri!
Eles me mataram!
Eles me mataram! Não acredito.
-Eles mataram você? -Sim.
-Que droga! -Eles me mataram.
Eles são malvados.
Que azar!
Que azar!
Puxa, que azar!
Nem o sorvete, nem os filmes,
nem a beleza, nem a feiura,
nem as folhas das árvores…
Mas vou estar no seu coração, aqui, até que você não dure mais,
mas esteja em outros corações…
E desse jeito nada morre nunca…
e alguma coisa permanece para sempre.
Já não está mais ao meu lado, amor
E na minha alma só tenho solidão
E se não posso mais te ver
Por que Deus me fez te amar? Para que eu sofra muito mais?
Você é a razão do meu viver
Te amar era minha religião
E nos seus beijos Eu encontrava
O calor que você me dava Seu amor e sua paixão
É a história de um amor E não existe outro igual
Que me fez entender Sobre o bem e o mal
Que iluminou a minha vida
E depois a apagou
Que vida tão sombria
Sem o seu amor Não poderei viver
É a história de um amor
Legendas: Simone Campbell
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