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Original subtitles

TIO FRANK

Betty, saia da frente!

"Aí ele pôs as duas mãos no traseiro dela e a levantou."

-"Ela deu um pulo." -Como um coelho?

Oi, meninas.

O CHEFÃO MARIO PUZO

O que você quer, Betty?

Estão lendo sobre Lucy e Sonny no casamento?

-É tão sujo. -Não.

Mamãe e papai não iam querer que lesse isso. É muito nova.

Minha parte favorita é:

"A mão dela se fechou ao redor da enorme vara de músculo inchada de sangue."

Não é um músculo.

Janis, sua caçula é tão esquisita.

Betty, venha me ajudar com os feijões.

Dá pra acreditar nesses tolos?

Que tal picar aipo? Pode usar no seu assado.

O assado está pronto, Butch.

Despeje a gordura do bacon nessa lata aí.

A frigideira é muito pesada?

Tenho bursite no meu braço bom.

-Sério? -Eu faço isso, tia Butch.

Melhor não exagerar com o braço bom.

Obrigada, Neva, querida.

O que houve com o braço ruim?

Querida, não se lembra? Escorreguei no Natal retrasado.

Tive uma pequena fissura no metacarpo da mão direita.

-Eu me lembro disso. -Inchou feito um balão.

Tirem essas crianças daqui.

O forno está quente. Não quero ninguém queimado.

Bullet, Mae Ray, escutem a vovó. Vão lá pra fora.

-Betty, leve as crianças pra fora. -Venham, vamos sair.

O que é que deu nessa criança?

Bullet, quando acordar da surra, sua roupa vai ter saído de moda.

Perdi alguma coisa?

Se não querem passar mal, melhor não entrarem lá.

Que nojo, papai.

Já chega. Caramba.

Saiam da frente do meu jogo do Falcons. Vai.

Bullet, Mae Ray, saiam.

Vamos lá fora.

Fora!

Bullet, Mae Ray, pra fora.

Caiam fora daqui!

Caramba!

Vão apanhar de serrote.

Deus do céu.

Bullet! Mae Ray!

Eu sempre gostava quando o tio Frank vinha numa de suas raras visitas.

Sente-se.

Ninguém mais da família dava bola para mim.

Já leu Madame Bovary?

Mas o tio Frank era diferente.

Ele era professor universitário e morava em Nova Iorque.

Ele usava pós-barba.

Sempre cortava as unhas.

E usava corrente de ouro debaixo da camisa.

Eu podia escutá-lo o dia inteiro.

Bem, supostamente...

Era meu único conhecido adulto que me olhava nos olhos.

Eu gosto...

Ele tinha interesse pela minha opinião.

Eu gosto de fazê-lo rir.

E, no verão de 1969, quando eu tinha 14 anos,

aquilo era arrebatador.

Vou abrir este aqui. Prepare-se, lá vai.

Obrigado, Marcia.

Um homem sempre tem uso para outro par de meia.

De mim e do Tee Dub.

Feliz aniversário, papai Mac. Posso te chamar assim?

Se virar membro desta família, precisa me chamar assim.

-Abra outro! -Bullet! Chega, caramba.

Ei. É assim que se trata uma criança inquieta.

Obrigado.

Está tão bem embalado que deve ser do Frank.

Deve ser.

O que é?

Um lustrador de sapato elétrico!

Acha que estou velho para lustrar meus sapatos?

Que preciso de máquina pra isso?

Claro que não.

Eu tenho um.

Só é mais fácil e rápido.

Próximo!

Eu agradeço seu presente, Frank.

Já que sou eu que acabo lustrando os sapatos dele.

Obrigada, querido.

Aqui está, papai.

-É meu e da Kitty. -Olha só.

Vejam, uma chave de fenda pequenina.

É pra consertar óculos,

se cair um parafuso da armação.

Vou usar bastante. Sempre conserto os óculos de leitura.

Obrigado, Mike, Kitty.

E Janis.

-E Betty e Bullet. -É.

Feliz aniversário, papai Mac!

Não entendia por que papai Mac era cruel com o tio Frank

ou por que ninguém tocava no assunto.

-Muito bem. -Posso ir ao banheiro?

Sim, se prometer lavar as mãos.

Eu entenderia se o tio Frank fosse egoísta, grosseiro ou esnobe, mas não era.

Ele era inteligente, engraçado e atencioso.

Era o tipo de pessoa que eu queria ser.

Só que o papai Mac o escolheu pra azucrinar na frente de todos.

O tio Frank sabia esconder o quanto se magoava.

Mas eu via.

Tio Frank, como é a vida em Nova Iorque?

Eu adoro.

Se deixar uma cidade como Creekville,

verá como seu mundo era pequeno

e o quanto ele pode crescer.

De formas que nunca julgou possível.

Posso te visitar um dia?

Sim, é claro.

Se os seus pais deixarem.

Mas eles não vão.

Não deixam nem tentar ser baliza da banda.

Papai falou que filha dele não vai saracotear

seminua diante da cidade inteira.

Acabaria sendo estuprada e seria bem feito para mim.

Ele disse isso?

A mamãe diz que é por culpa da cerveja.

Como são suas notas, Betty?

Só tiro dez.

-Nenhuma abaixo de dez? -Não.

Ótimo. Continue assim.

Mande bem no vestibular

e pode ganhar bolsa de estudos para qualquer lugar.

Talvez eu vá pra Estadual, como a maioria da sala.

Ora, vamos.

Será a pessoa que decidiu ser

ou a que os outros dizem que é?

Você pode escolher.

Pode, sim.

Queria não me chamar Betty.

É nome de senhora e só tenho 14 anos.

Então, mude.

Não posso mudar de nome.

Pode fazer o que bem entender.

Que tal Liz?

Não?

Liza?

Betsy?

Talvez Beth?

Eu gosto de Beth.

E a Beth pode fazer tanta coisa além de ser baliza.

-Minha prima Marcia é baliza. -É, sim.

Por favor, não faça o que a idiota da prima Marcia fez.

Ela engravidou. Agora terá de casar com aquela besta.

A Marcia está grávida?

Se um dia precisar que eu finja ser seu pai

para arrumar pílula, ajudarei com todo o prazer.

Olhe para mim.

E, se descobrir que engravidou,

me ligue antes de falar com alguém da família.

Eu juro.

Muito bem.

Deixo a Madame Bovary para você?

Seria ótimo.

Obrigada.

QUATRO ANOS DEPOIS

Atenção, novos alunos.

Deixem que os alunos embaixadores mostrem o campus da universidade.

Bledsoe, prenome: Beth.

Elizabeth. Desculpe.

Obrigada.

Estava delicioso, não é?

Charlotte, que salada era essa?

O nome é tabule.

Nunca pensei em pôr arroz na salada.

Não, isso é triguilho.

Triguinho?

Triguilho.

É feito com trigo.

Estava interessante.

Que cheiro gostoso.

O que é?

É carne.

Cordeiro.

É esfirra.

-Isso? -Esfirra?

É tipo um pastel de forno.

Ela cozinha tão bem.

Ela ralou o dia inteiro.

Ralei.

E você é um namorado tão bom.

Charlotte, é tão bom te conhecer.

Ninguém na família do Frank

-ouviu falar em você. -Eu sei.

Que loucura, né?

Ainda mais que namoramos há quase cinco anos.

Não creio.

Sim, Charlotte, ninguém vai crer.

Deve ser pelo aspecto judeu.

Que aspecto judeu?

O Frank deve ter achado que vocês desaprovariam

que ele vivesse em pecado com uma judia suja.

Querida, não se lembra do que decidimos hoje?

Nada de política...

Nem de religião.

-Verdade. -Sim, é claro, desculpe.

Não passo de uma megera.

É assim que o Mike me chama.

Acho que vamos nos dar bem.

Diacho, ainda bem que não é preta.

Vamos lembrar por que estamos aqui.

À senhorita Elizabeth Bledsoe,

caloura da Universidade de Nova Iorque, turma de 1976.

O nascimento dos Estados Unidos.

É só o começo, Beth.

Mazel tov.

Mazel "top".

-Parabéns. -Parabéns.

Aproveite.

Posso me sentar aqui?

Claro, à vontade.

Eu sou o Bruce.

Oi, meu nome é Beth.

De onde você é, Beth?

Carolina do Sul.

Charleston?

Não, uma cidadezinha de que nunca ouviu falar, aposto.

Não, diga.

-Creekville. -Nunca ouvi falar.

Sou de Bismarck, Dakota do Norte, mas digo que sou de Greenwich.

Decidi que serei quem eu quiser

em vez de deixar decidirem por mim.

Outras pessoas ou fatos, ao que parece.

Autor preferido?

Não consigo escolher um só.

Certo. Autores preferidos?

Carson McCullers, Eudora Welty,

Harper Lee, Jane Austen, é claro.

-Charlotte Brontë. -Nenhum homem.

Mark Twain. E você?

Bem, Shakespeare.

Dickens, Mark Twain,

Ken Kesey, William Styron, Truman Capote.

Nenhuma mulher.

Grace Metalious. Jacqueline Susann.

Claro.

Quero fazer a matéria sobre autoras do século 19.

O professor se chama Bledsoe?

-Ele é incrível. -Frank Bledsoe?

Ele é meu tio.

-Sério? -Sim.

Pode me apresentar a ele?

Um dia, quer dizer.

Acho que vamos ficar bastante tempo juntos.

Tomara que sim.

Tudo bem?

Sim, é que...

Eu nunca...

-Mas eu quero. É que... -Não.

Não, melhor esperarmos.

Não, é...

-Tudo bem. Eu só... -Não.

Não quero estragar tudo

acelerando as coisas.

Gosto muito de você.

Podemos continuar nos beijando.

Está bem.

FRANK BLEDSOE PROFESSOR ASSOCIADO

Pode entrar.

Eu já atendo.

E... Sim.

-Beth. -Oi.

Estava querendo te ligar. Estou sobrecarregado.

Como vai?

Está se acostumando à faculdade?

-A Nova Iorque? -Adorando.

Este é o meu namorado, Bruce.

Muito bem.

É um prazer conhecê-lo, senhor. Sua aula é muito elogiada.

Muito prazer.

Infelizmente, não é uma boa hora.

Preciso preparar a prova e fazer cópias antes das 15h...

Tudo bem.

Mas eu te ligo, juro.

Claro.

Eu devia ter ligado antes.

Ei, Frank.

-Quando começa a festa? -Às 20h.

-Levo acompanhante? -Não.

-É bom mesmo. -Está certo.

A gente se vê lá.

Não.

Olá?

-Quem é você? -Oi.

Oi.

Sou Beth Bledsoe, sobrinha do Frank.

Sobrinha do Frank?

Ai, meu Deus, Beth.

Oi.

Muito prazer. Ai, meu Deus.

Meu nome é Wally. Como vai?

Implorei pro Frank nos apresentar.

Oi, sou o Bruce.

Ai, minha nossa.

Só não sei por que ele não disse que você vinha.

Porque ele não sabe.

Ele não sabe?

Pensei que ele queria me surpreender.

Vai ser emocionante.

Que emoção. Vamos entrando, por favor.

Feche a porta.

Não fume aqui. É ilegal.

-Não quero ser preso. -Por que não? É uma festa.

Calado.

Como você conhece o tio Frank?

É meu colega de quarto. Por quê?

Achei que ele morasse com a Charlotte.

E mora. Moramos os três juntos

porque é um apartamento grande e o aluguel é bem caro.

Olha só. Vou achá-lo

e você vai ficar aqui.

Não saia daqui.

É sério, Beth. Não se mexa.

-Está bem. -Está? Olha esse sorriso.

Vou procurar a birita.

O que você quer?

Surpreenda-me.

Ei, Frank.

Sério?

Você é assim? Transa na casa dos outros?

Não estamos transando.

Está bem.

Falando nisso, a sobrinha do Frank veio

e talvez precise bancar a namorada piranha. Outra vez.

Ainda está puto comigo por conhecer a família dele?

Nunca mais assuma o crédito pelo que cozinhei, Charlotte.

Falo sério.

Está bem, continuem.

Desculpe. Eu só...

Quer uma bebida?

Sim. Um martíni.

-Com gim ou vodca? -Vodca.

-Azeitona. -Claro, por que não?

Adorei seu cabelo.

Obrigada. Adorei o seu.

-Bom proveito. -Obrigada.

Ah, foda-se o Agnew. O Nixon é que precisa cair.

Ele é uma víbora.

Ele dará um jeito de ficar no poder.

Não sei, Bernard.

Tenho mais fé no sistema do que você.

Não é difícil, não tenho fé nenhuma.

Quem é você?

Bruce.

-Bruce. -Oi.

Oi.

Bernard.

-O que você... -Eu vim com a Beth.

-A Beth está aqui? -Não esquenta, Frank.

Somos mais descolados do que pensa.

Vou pegar outra bebida.

A Beth é um amor.

Sim, ela é muito querida.

Não sei de onde ela tirou que sou namorado dela.

Nem sequer transamos.

Nem acho que transaremos.

Ela não faz meu tipo.

Acredita mesmo que vou arriscar meu emprego,

meu relacionamento, minha vida inteira,

só para transar com você?

Quem precisa saber?

Acha que nunca transei com um gatinho, Bruce?

Diacho, eu era um gatinho.

Ainda é.

Anda, deixe pra lá.

Meus boquetes são poesia pura.

Como?

Como um boquete é poesia, Bruce?

Tem rima? Tem métrica?

Emprega características estéticas além de,

ou ao contrário de, seu conteúdo teórico e semântico?

Você bombou.

Não sabe o que é ser rejeitado,

não é, Bruce?

Fala sério?

Falo. Saia daqui.

Anda. Saia daqui. Vai logo!

-Aonde você estava? -Já bebeu demais.

Não, é um martini.

Escute, Beth. Preciso ir. Seu tio me escorraçou.

-Acho que está chapado. -De fumar?

Sabe Deus o que ele te dirá. Me ligue.

-Tudo bem, Beth. -O que disse pro Bruce?

Vamos tomar um café.

No tapete, não. Vamos.

Isso. Pronto.

Vai se sentir bem melhor depois isso. Acredite.

Ei, Frank, procurei você em todo canto.

Para avisar que ela estava aqui.

Ah, Beth.

-Ela está bem. -O que houve?

Coitadinha.

Onde você estava?

-Na escada de emergência. -Com?

-Bernard. -Bernard, o maconheiro?

Precisa ser na frente dela?

Não se preocupe. Ela não vai se lembrar de nada. Tome.

Fumou maconha?

Sim. É uma festa.

Sim, e você está sóbrio.

E maconha não é álcool.

Não, mas é ilegal,

e fumou lá fora, onde podem sentir o cheiro.

Ele deu em cima de você?

Ele é reprimido demais para fazer algo assim.

O namorado dela me cantou.

O baixinho? Não fui com a cara dele na hora.

O Bruce falou que você surtou. Por quê?

Beth, você sabe o que...

Sabe o que significa ser gay?

Bem...

Eu sou gay.

E o Wally também.

Moramos juntos há dez anos.

Eu surtei porque

o Bruce tentou inabilmente me seduzir

e não queria ouvir um não como resposta.

Espero que não goste muito dele

porque ele parece meio...

-Gay. -Não vale a pena.

Não, nada disso.

Não precisa pensar em nada disso agora.

É só apagar no quarto de hóspedes.

Depois eu limpo aqui.

Não se preocupe. Eu limpo.

Você se assumiu pra Beth hoje.

Eu sei.

Não esperava que fosse acontecer.

Até me deu tesão.

Também não esperava isso.

Tem café na mesa, duas aspirinas. Um copão de água.

Devia bebê-lo.

Por favor, diga que come bacon.

Que bom, porque o Wally detesta até o cheiro dele.

Mas sou um bom rapaz sulista e o bacon está no meu sangue.

Mudou de opinião a meu respeito?

Acho que não.

Nunca conheci alguém que fosse gay.

Claro que conheceu.

Você só não sabia.

O diretor do coral da Primeira Igreja Batista.

O Sr. Dickerson?

-Mas ele é tão... -O quê?

Religioso.

Beth...

eu agradeceria se não contasse a ninguém da família sobre mim.

Claro. Sem dúvida.

Somos de mundos diferentes agora, isso não...

Mudaria nada?

Você não os vê mesmo, Frank.

Oi, Beth. Como está se sentindo?

Quando foi a última vez que viu sua família?

Acho que em agosto do ano passado.

Bom dia, Barbara Stanwyck.

Costumo ir lá a cada dois anos, sabe disso.

Ele mostra fotos de uma esposa falsa

também interpretada pela Charlotte, aliás.

-Quer ovos? -Sim, por favor.

Se eu contasse que estou com um homem, eles se envergonhariam.

Não seria assim na minha família?

Honra não é coisa de americano, Frank.

Queria crer que minha família aceitaria, só que não.

Acho que sua família

-terminaria aceitando. -Pronto.

-Você não conhece minha família. -Obrigada.

Não, mas eles te criaram, não podem ser tão ruins.

Vamos fazer um acordo.

Conte pra sua família que eu conto pra minha.

Está brincando? Na Arábia Saudita?

Eu seria decapitado.

Seu bacon tem cheiro de morte.

-Morte deliciosa. -E essa música.

Corta essa, Wally.

Por favor?

Não.

Ai, não.

O que está fazendo?

É o seu telefone.

Então...

já conheceu a Barbara Stanwyck?

-Alô? -Não é uma graça?

-Oi, mãe. -Ela é uma gracinha.

Frank, seu pai faleceu.

O quê?

Como?

Infarto. Do nada.

Está bem.

Mamãe...

-Sua irmã está aqui, pode esperar? -Tudo bem.

Espere aí.

Que horas pousa em Greenville?

-Certo, mamãe. Eu juro. -É o último voo do dia?

-Também te amo. Tchau. -Voo 235 da Eastern.

Certo.

Ela não quer que eu vá de avião.

Ela tem medo, fica histérica.

Não é ela quem vai voar.

Ela me fez jurar que eu iria de trem.

Pode usar o carro.

Pode esperar um instante?

É mais rápido, e vão se conhecendo melhor.

Eu adoraria.

Pois é.

Está pensando mesmo em não ir?

Frank, não magoe sua mãe.

-Você precisa ir. -Não se meta nisso, por favor.

Não vai passar a vida inteira fugindo disso.

Por favor, tio Frank?

Porra.

Certo. Desculpe, mudança de planos.

A gente se reveza dirigindo.

Não, Wally, você não vai.

Está me afastando de novo.

-Justo quando mais precisa. -Não fui ao funeral do seu pai.

Eu não queria que fosse.

Sim, e respeitei seu desejo e não tentei convencê-lo do contrário.

-Não é igual. -Uma pergunta.

Há homem burro como você?

Claro. Olhe só com quem estou.

Escute, você precisa de mim.

Sabe disso.

Wally, agradeço muito que queira me apoiar.

Mas, sinceramente,

se você for, será muito mais difícil.

Está bem.

Obrigado.

Vou lavar a louça.

Que estranho.

Nunca mais verei o papai Mac.

Não conhece alguém que tenha morrido?

Um garoto do colegial morreu numa batida de carro.

Só que não o conhecia bem.

Garotos que nunca falavam com ele quando estava vivo,

passaram a bancar o melhor amigo,

para que pudessem chorar e tivessem pena deles.

As pessoas são idiotas.

-Nem me fale. -É.

O que o Wally faz?

É engenheiro aeronáutico.

Onde o conheceu?

No metrô.

Estava lendo Os Sete Pilares da Sabedoria do T.E. Lawrence.

Ele quis saber por quê.

Contei que tinha visto Lawrence da Arábia,

e ele disse que era árabe.

E...

Sei lá, ficamos conversando.

Muito bem.

Salvou a minha vida.

E você?

Algum namorado?

Além do idiota, Bruce?

Não, continuo virgem.

Não por querer.

Nenhum rapaz que conheço parecia valer a pena.

Quase transei com o Bruce, mas ele...

O quê? Que era muito cedo?

Não queria estragar a amizade?

Algo do gênero?

Acha que é porque ele é gay?

Uns 99% dos garotos héteros não te deixariam escapar.

Pensei que a culpa fosse minha.

Gente como o Bruce sempre te faz pensar assim.

Que otário.

Está pegando leve com ele.

Ele é um cuzão.

Pode chamá-lo assim, não?

-Que cuzão. -É isso aí.

-Que puta cuzão. -Isso.

"Veja o maior bule de chá do mundo."

Ou "a banheira externa de George Washington".

O que é a Casa Maluca?

Quê?

"Veja a inacreditável Casa Maluca."

Não precisamos ir lá.

Sempre soube que era gay?

Sempre soube que era diferente.

Desde sempre.

Mas tive certeza na puberdade.

Entenda, não se falava disso

como hoje em dia.

Não achava que existisse outro como eu.

Diacho, eu me sinto assim.

E você?

Já gamou numa garota?

Quê?

Eu não... Sério.

Uma vez, treinei beijar

com a Becky Eller quando dormi fora de casa,

mas fingi que ela era um menino.

E como foi?

Vergonhoso.

Quando foi a primeira vez que...

Eu tinha 16 anos.

Foi com quem?

Um menino da escola. Senhora? Pode trazer a conta?

Vamos, Sam.

Sam.

No cemitério de Parkesburg tem uma estátua que chora.

O quê?

Parece que concede desejos.

O que foi?

Fique aqui.

Olá?

Wally?

Oi.

Que porra está fazendo aqui, Wally? Quase me matou de susto.

Esqueceu a gilete e a gravata favorita.

Alugou um carro para me trazer gilete e gravata?

Não é estiloso?

-Veja, é um conversível. -Concordou em ficar em casa.

Admita que ficou feliz em me ver.

-Credo. -Qual é?

Não aja como se a morte do seu pai fosse insignificante.

-Claro que é, Wally. -Pode ser algo positivo.

-Precisa fazer parte da sua família. -Não quero fazer.

-Mentira. Sabe disso. -Wally?

Entre no carro.

Não fale com ela assim. Ela não é sua filha. Beth, fique.

Fique.

Olha, só quero ajudar da forma que for preciso.

E sabe que vai precisar.

Você me ajudou quando eu precisei.

Não pode conhecê-los, Wally, não pode.

Então, não vou.

Não pode ir ao funeral.

Mas pode me procurar. Sempre que precisar.

São dois quartos a US$ 14 cada.

Não precisamos de dois quartos.

Cabemos num só, se tiver uma cama extra.

Qual é a relação?

Entre vocês dois e a mocinha ali.

Ela é minha sobrinha.

Sou sobrinho dele.

Receio que a jovem precisará ficar num quarto dela.

Sim, faz sentido.

Tudo bem.

Eu fantasiava formas para o meu pai morrer.

Coisa que, é claro, me enchia de culpa.

Brancos protestantes adoram uma culpa.

Não é verdade. Detesto essa merda.

Não precisa sentir culpa de nada.

Intelectualmente eu entendo.

Só não acumule tudo dentro de si,

para um dia explodir.

Provavelmente em mim.

Você até parece ator de filme bíblico dos anos 50.

É mesmo? Pareço?

Bendito sejas tu, Samuel.

Aqui está ele. Davi.

Este é ele.

Ei, Beth.

Quer vir comigo?

Tudo bem por você?

Claro que sim? Por que não?

Está certo.

Ele está rabugento hoje.

Tchau.

Então, Beth.

Responda uma coisa para mim.

Por que seu tio é tão estranho?

-O que ele tem de estranho? -O que ele tem de estranho?

É o homem mais estranho que já vi.

Ele me parece bem normal.

Sério?

Ele é tão apático quanto uma mula, Beth.

Há uma barreira entre ele e o resto do mundo.

Está me entendendo?

Na verdade não. Não o conheço tão bem,

-mas sempre gostei dele. -Puxa vida.

É igualzinha a ele.

Deve ser hereditário.

Vocês sempre são tão gentis.

Não se cansa de ser legal o tempo todo?

Sei que o pai do Frank é o diabo e a mãe é uma santa.

A irmã dele parece saber de mim.

Ela sabe?

É a minha tia Neva. Ela é muito legal.

Beth, "legal" não me interessa.

O "legal" sempre esconde algo.

O que me interessa é o oculto.

E o irmão dele? Como é?

O irmão dele é o meu pai.

Ele nem sempre é tão legal.

-Como assim? -Diz coisas cruéis.

Tipo o quê?

Que sou uma petulante

e que "homem não gosta de boca suja".

É. Ele tem razão quanto a isso.

A maioria não gosta.

Acho que vou gostar do seu pai.

Acho mesmo.

E a sua família?

-São muito legais. -Certo.

São loucos.

Minha mãe é inteligente e meu pai não gostava mesmo disso,

mas ela tem tanto amor.

Ela é o meu coração.

Mas que...

Qual é?

O que fez com o carro?

Quanto tempo vai demorar?

O conversor de torque virá de Greensburg.

O mais cedo que consigo é na segunda.

-Não pode ser. -Não existe outra opção.

Deixe o carro aqui. Pegue na volta pra Nova Iorque.

J.B. não costuma fazer isso,

mas eu topo.

Porque se vocês voltarem,

poderei rever essa mocinha linda.

Estou mexendo com ela.

Vocês não se importam, né?

Não precisa da permissão deles para mexer comigo.

Só da minha.

Que eu nunca vou dar,

pois é presunçoso, desrespeitoso

e deve ser ainda mais burro do que parece.

E você parece bem burro.

Você me fez sentir pena do garoto.

Que nojento.

Olhe do ponto de vista dele, Beth.

É bonita, tem roupa e maquiagem bonitas.

É minha culpa se é um cretino?

Perdoe o Wally, Beth. No país dele,

gostam de embrulhar mulheres em lençóis e trancafiá-las

-por serem muito perigosas. -Foi por isso que saí de lá.

Isso e por executarem homossexuais.

Sério?

Sim.

Decapitação, na forca.

Às vezes, são apenas adolescentes.

Sabia que não encontraria o amor se ficasse lá.

Se encontrasse, poderia morrer por isso e não queria viver assim.

COMA SORVETE

Ei.

Sabe que ele não pode te ferir mais.

Não é ele.

É o Sam.

Venha, vamos tomar sorvete.

Não quero.

Meu pai nos levava para tomar sorvete todo sábado.

Mesmo se nos comportássemos mal.

Qual seu sabor preferido?

Água de rosa com lascas de creme.

É delicioso.

Parece uma sopa.

-Não parece, não. -Parece, sim.

Sorvete árabe é bem diferente. É mais espesso e pedaçudo.

É por causa da almácega...

Chegamos.

"Bem-vindos a Creekville."

Onde fica o riacho?

É parente do velho Mac Bledsoe que acabou de morrer?

Sou filho dele.

Mike?

Você mudou muito.

Sou o Frank, o mais velho.

O que fugiu para Nova Iorque.

Esse mesmo.

As chaves.

Olhe para mim.

Obrigado.

Precisa esperar dez minutos antes do check-in.

-Sei como funciona. -Não, Wally.

Dez minutos, é sério. Aqui é diferente.

Está bem, querido.

O velho safado vai chamar a polícia e seremos presos.

Preciso me aprontar para ir à funerária.

Pensei que nós iríamos à funerária.

Vai ser rapidinho.

Quer beber?

Não, obrigada.

Não diga ao Wally que estou bebendo.

Betty.

-Ah, Betty. -Beth.

Certo.

-Fiquei preocupada que vocês... -Oi, Kitty.

Pensei que tinham batido e estavam mortos numa vala.

Obrigada por trazê-la. Não aguentaria que viesse de avião.

O filho do primo do meu padrasto morreu num acidente de avião.

-Deve se lembrar disso. -Eu sei.

Acontece mesmo.

-Eu... -Certo. Sinto muito pelo seu pai.

Mamãe.

-Frank. -Ah, mamãe.

-Sinto muito. -Sem aviso.

Ele caiu morto na minha frente, entrando no carro.

Estávamos indo ao supermercado.

Está tudo bem.

Tudo bem.

Ah, Frank. Frankie.

Ele te amava.

Não, ele amava mesmo. Ele te amava.

Quer vê-lo?

-Sim. -A aparência está muito boa.

Oi, irmão.

Oi, Mike.

Ele era meu melhor amigo.

Sério?

É.

Só o convidei para padrinho de casamento porque tinha medo de não conseguir.

Após o jantar de ensaio, enchemos a cara.

Caramba, ele parecia outro homem.

Ele foi engraçado.

Contou que não se sentia à altura da mamãe.

E que a Kitty não prestava para mim.

E nisso ele errou.

Estávamos bêbados no casamento. Não reparou?

Achei que estava nervoso.

Pois é.

Tremia como cachorro velho tentando cagar caroço de pêssego.

Venho até aqui uma vez por semana

há mais de 20 anos

só para tomar o café com ele.

Ele perguntava se tinha notícias de você.

Claro que eu não tinha.

Mas também nunca mantive muito contato com você.

-Mike, é... -Espere aí.

E por isso...

Peço desculpas.

Não precisa se desculpar. Está tudo bem.

Alô?

Alô?

Alô?

Mãe?

Walid?

São 4h da manhã.O que aconteceu, Walid?

Nada, eu juro.

É só muita saudade.

Ficou louco?

Sabe o susto que me deu ao ligar esta hora?

Juro que não aconteceu nada.

Só queria estar aí com você.

Meu Deus, agora o canário acordou.

Não faz o menor sentido.

A Betty quer ficar sozinha num hotel

em vez de dormir em casa na própria cama.

É Beth e não estou sozinha.

O tio Frank também ficará lá. Com o Wally.

Quem é o Wally?

Um homem que conhecemos.

Eu e o tio Frank. Ele também está no hotel.

Isso não está certo.

Não, senhora. Está mais do que errado.

Quantos anos você tem, Betty?

Dezoito, e é Beth.

Dezoito e quer ficar sozinha num hotel?

Não se preocupa com a reputação?

Minha reputação? Com quem?

Homens se preocupam com isso.

Acredito. Sei o que digo.

São quase 21h. Deveríamos voltar.

Frank, não entendo por que a Betty tem...

A Beth precisa ficar num hotel

se pode dormir na própria cama. É dinheiro jogado fora.

Não sei se a decisão é sua, Kitty,

porque a Beth já é adulta e pode decidir sozinha.

É apenas a segunda vez num hotel, mamãe.

É divertido.

Só espero que ao menos seja limpo.

Frank, quem é o Wally?

Contei a elas sobre o homem que conhecemos no hotel.

O do trailer?

-O cara do cachorro? -Sim.

Estão cruzando os Estados Unidos.

Ele é uma graça, mamãe.

O cão mais esperto que já vi.

Cuidado com cachorros estranhos. Eles podem morder.

Ele é cego.

O cachorro, não o motorista.

Quando vamos conhecer sua esposa Carlotta?

Já se passaram dois anos. Quando será?

Prometo que acontecerá um dia, se Deus quiser.

Seu pai queria muito te ver casado e com filhos.

Ai, Deus, que saudade dele, Walid.

Eu também tenho, mãe.

Penso nele todo dia.

Desculpe, mãe, preciso desligar agora.

Por quê? Agora já acordamos.

E o canário não vai parar de cantar.

Eu ligo logo. Eu te amo.

Boa noite.

Também te amo, Walid.

Beijo na sua esposa, querido. Diga que a amo, entendeu?

Adeus, querido. Adeus.

Frank?

Frank?

Sinto o cheiro do álcool.

Se já tive motivo para beber, é este.

-Mentira. -Pode parar?

Não pegue pesado agora, Wally.

Espere até esta coisa terminar.

Pode fazer isso por mim? Concorda?

Não vou passar por isso de novo.

Não vou.

Estarei lá em cima se quiser falar.

Boa noite.

Mac Bledsoe era o tipo de homem que quase não se vê mais.

Marido dedicado, pai amoroso.

Bom americano, bom cristão.

Para ele, fazer a coisa certa não era uma opção.

Era seu dever.

Era seu dever ensinar aos filhos a diferença entre o certo e o errado.

E, agora, é o nosso dever.

É nosso dever percorrer

o mesmo caminho da virtude que o Mac.

Não quero que veja de novo o garoto dos Lassiter.

Se descobrir que viu, mato os dois.

Está apostando com a própria alma, filho,

abrindo-se para essa doença.

Quer ser uma bicha?

Um viado?

É perversão.

Deus dará as costas para você

e o jogará no lago de fogo.

É o que Deus esperava de Mac.

E é o que Deus agora espera de nós.

Oremos.

Pai nosso que estais no céu,

santificado seja vosso nome.

Venha a nós o vosso reino,

seja feita a vossa vontade

assim na Terra como no céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas

assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.

E não nos deixeis cair em tentação,

mais livrai-nos do mal.

Porque vosso é o reino,

o poder

e a glória

para todo o sempre.

Amém.

BÍBLIA SAGRADA

Todos falam como ianques por lá?

Nem todos.

Vê gente famosa em Nova Iorque?

Sim, Truman Capote.

Truman quem?

Acho que vi a mãe da Rhoda do Mary Tyler Moore Show.

E você? Como vai a vida?

Sinceramente, Beth, nunca estive tão feliz.

-Que ótimo, Marcia. -Pois é.

Adoro ser mãe.

Adoro estar grávida. A cada dia amo mais o Travis.

-Ele é um ótimo papai. -Espere aí. Travis?

Ele deixou de ser o Tee Dub, agora é um empresário.

Pois é.

E toda hora tem um rala e rola.

Ele foi abençoado nesse aspecto.

Que bom.

O que foi, macaquinho? Quer usar o sapato da mamãe?

Venha cá.

Ele adora fazer isso, não sei por quê.

E como está o Wally?

Bem.

Ele deveria estar aqui com você.

Ele está aqui.

Lá no hotel.

Vá buscá-lo.

Está brincando?

Quero conhecê-lo. Depois de todos esses anos?

No funeral do papai?

"Com licença, pessoal, vou fazer um anúncio."

Frank, estamos em 1973.

Beau aceitaria bem e Kitty provavelmente.

Quanto ao Mike, não sei.

Não brinca.

Quer um?

-Não, obrigada. -Certeza?

Toda.

É só por causa disto, eu juro.

-Jura por Deus? -Juro.

Que tipo de velório não tem bar?

Os desta cidade.

Só estou esperando a tia Butch perguntar:

"Novidades sobre a mulherada?"

Ela tem uma aranha no cabelo.

-Ela o quê? -Pois é.

Vim de carro com ela para o cemitério

e achei ter visto algo se mexendo no cabelo.

Olhei de perto e era uma aranha.

Contou para ela?

Não contou?

Não quis magoá-la.

Lembra como ela se irritou quando disse a ela

que a peruca estava ao contrário e a tia tinha passado o dia na igreja?

Foi por isso que parou de usar peruca.

Bem...

Meu bebê.

Oi, Frank.

Estava te procurando.

Tia Butch, não está uma belezoca?

Novidades sobre a mulherada?

Não.

Quantos anos você tem?

Já está ficando velho.

Tenho 46 anos.

Mexa-se, rapaz. Ou vai terminar feito eu.

Claro que é diferente para homens.

Ei, todo mundo precisa entrar na casa.

-Algo errado? -Não. O advogado chegou.

Sei que não é o momento mais ortodoxo,

além de ser um local bem incomum para a leitura do testamento,

mas eu queria garantir

a presença de todos os filhos dele.

Muito bem, então.

"Eu, Francis Mackenzie Bledsoe,

"em juízo perfeito e são,

"afirmo que este é o meu testamento.

"Primeiro, à minha esposa, Evelyn Caldwell Bledsoe,

"deixo minha propriedade e bens,

"excetuando os seguintes recursos.

"Ao meu filho, Michael James Bledsoe,

"e minha filha, Neva May Bledsoe-Henderson,

"deixo a soma de US$ 25 mil para cada um.

"À minha irmã, Florence Vivian Bledsoe,

"deixo a soma de US$ 500.

"Ao meu filho mais velho, Francis Mackenzie Bledsoe Junior,

"deixo apenas o desgosto pela perversão suja e anormal

"que realiza com outros homens

"e a vergonha por ele ter meu sobrenome."

Quê?

Frank.

Sinto muito, Frank.

Sinto muitíssimo.

Sinto muito.

Frank, por favor, não vá.

Não vá, por favor.

Frank!

-Ele nunca voltará. -Jesus.

Como vai a vida?

Um saco, Beth.

Tenho 22 anos, trabalho na padaria do supermercado

e ainda moro com mamãe e papai.

Deus do céu, não vão acreditar no que aconteceu.

Papai, me empreste o carro.

Papai, é uma emergência.

Que tipo de emergência?

Dê logo a maldita chave.

Frank.

O tio Frank está aqui?

-Não está no velório? -Não. Ele saiu.

Todos sabem que é gay. Papai Mac escreveu no testamento.

Mas o tio Frank pegou o carro e foi embora.

-Ele estava bêbado? -Acho que sim.

Meu Deus. Por que ele foi dirigir bêbado?

Não se aproxime.

Não podemos mais fazer aquilo.

-Frank... -Precisamos parar.

Se quisermos ser normais e não terminar como pervertidos.

Quer ser viado?

Uma bicha?

Quer ir para o inferno?

Porque isto é uma doença.

E Deus odeia.

Nunca mais se aproxime...

nem fale comigo.

NUNCA SEREI NORMAL. SOU UM PERVERTIDO, UMA BICHA.

ME PERDOE. SAM.

-Por que ele está no lago? -Sei o que aconteceu lá, Beth.

Sei como o Frank fica quando se embebeda.

Deve ter um portão à esquerda.

Porra.

Por aqui.

Será que ele foi nadar?

Nunca tiramos isso.

Frank!

Porra!

Por que está no meu quarto?

Frank?

-Seu babaca de merda. -Quê?

Sabe o que me fez passar?

Eu só fui nadar. Não consegui achar meu carro.

-Credo. -Porra, Frank, acorde.

-Não é o único que passou por isso... -Quieto!

-Tem gente que te ama. -As pessoas são idiotas.

Porra.

Ah, seu filho da puta.

Beleza.

Vai fundo, destrua-se.

-Nos destrua. -Nós.

Que porra somos? Eu nos odeio. Somos aberrações. Saúde.

-Vai se foder! -Tio Frank, não!

-Ele só quer te ajudar! -Pare.

-Vai se foder! -Pare!

-Cai fora! -Pare!

Filho da puta!

Seu viado! Seu cagão!

Viado!

Frank, está tudo bem.

Pare!

Wally, não vai atrás dele?

Não conseguia falar na minha cara, né?

Covarde.

SAMUEL J. LASSITER 14/05/1928 15/11/1944

O que foi que eu fiz?

Meu Deus.

Meu Deus.

Sam...

Me perdoe.

Me perdoe.

Ah, Samuel.

Sam.

Frank.

Eu não tenho família.

Você tem a mim.

Sou sua família e você é a minha.

Até a morte.

Você sabe, eu sei e Deus sabe.

Isso é tudo que importa.

Sinto muito.

Devia sentir mesmo.

Vovó me fez prometer que o levaria se o encontrasse.

Não quero vê-los, Beth.

Então, anos atrás,

quando me disse para eu ser o que quisesse,

não o que queriam para mim, era tudo mentira?

Aquela conversa mudou minha vida.

Agora vejo que só consegue ser quem é

se ninguém discorda de você.

Pensei que quisesse...

Que podia querer isso de volta.

Quer conhecer a merda da minha família?

Se você tomar banho antes.

Frank, até parece o esgoto de Sri Lanka. Credo.

Ela não bateu o carro.

Porra, quem é esse cara?

Oi, Mike.

Frank.

Direi duas palavras:

sem...

problemas.

Você é meu irmão mais velho.

Seja o que você for, sem problemas.

Oi, Mike.

Este é o Walid.

-Pode me chamar de Wally. -Está bem.

Sem problema.

Obrigado, Kitty.

Preciso te dizer uma coisa.

Isso me faz gostar ainda mais de você.

-Verdade? -Sim.

Meu cabeleireiro é gay.

E é a pessoa mais engraçada do mundo.

Quero te apresentar a ele.

-Devemos ter muito em comum. -Sim.

Esta é minha cunhada, Kitty.

Adorei seu nome.

Meu Deus! Que cheiro gostoso!

Vocês todos cheiram bem?

Sim.

Venha comigo.

Sinto tanto orgulho de você.

E este deve ser o Wally.

Neva.

É exatamente como imaginava.

Queria te conhecer há tanto tempo.

Eu também.

Bem-vindo.

Este é o Beau. Oi, Beau.

Frank.

-E Wally, certo? -Beau.

Se me derem uma licencinha.

Está tudo bem.

Quando eu era criança em Jacksonborough,

tinha um homem na cidade.

Era professor de dança.

Era latino ou mexicano.

O nome era tipo Carlos ou Antonio,

mas todos o chamavam de Mulherzinha.

Era um franguinho como você.

Você não é o único.

Dizem que em Charleston tem deles a dar com pau.

Vocês vão todos pro inferno.

Tia Butch,

eu sei

que isto é o máximo de que é capaz.

Frank!

Frank.

Você é meu presente precioso de Deus,

e nada...

nada mudará isso.

Está tudo bem.

Ah, meu filho.

Seu pai tinha medo disso.

Sempre teve.

Lembra o quanto ele odiava seu tio-avô Jasper?

Tio Jasper?

Ele era.

Eu achava que você era assim por isso.

Se cabelo cacheado passa de pai pra filho, por que não...

Você sabia?

As mães sabem.

Ah, bem.

Quem é esse?

Venha cá.

Venha cá.

Mamãe, este é o Wally.

Há tanto tempo desejo conhecê-la, Sra. Bledsoe, e...

Meus sentimentos.

Obrigada.

Ele é cabeludo no rosto e na cabeça, não?

Trouxe algo. Uma lembrancinha de Nova Iorque.

Que lindo.

É um prazer conhecê-lo, Wally.

O prazer é meu, senhora.

E, por favor, me chame de mamãe.

Mamãe.

É melhor...

Melhor ir se sentar.

Querido, pode ir. Saia.

Pode se sentar agora.

Ele é meu irmão.

-Nem por isso está certo. -Errado não está.

Bem...

A Bíblia diz que é pecado.

A Bíblia também autoriza ter escravos.

Não acredita mais na Bíblia?

-Como vai? -Bem.

E você?

A coisa de que mais me lembro do funeral do papai Mac

é de ficar sentada no quintal

depois que todos foram embora

e só nós ficamos.

O sol estava começando a se pôr.

Soprava uma brisa.

Eu me lembro de pensar que aquele era o meu lugar.

Não falo só de família, era mais do que isso.

Como se aquele fosse o lugar de todos nós,

naquele quintal, naquela tarde.

Eu percebi naquela hora,

que estávamos exatamente onde deveríamos estar.

Legendas: Leandro Woyakoski

Supervisão Criativa Verônica Cunha

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