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AGATHA CHRISTIE - O ADVERSÁRIO SECRETO Não é bem verdade.
Estavas mais limpa do que era costume.
Bem, daí a um mês mandaram-me de volta para a guerra. 1916...
Até parece que foi noutra vida.
Quando eu lhe disse que não podia ficar com a casa... Foi uma pechincha,
como aquele que a Mable Lewis trouxe de Paris.
As pessoas têm conversas tão ridículas.
Ontem ouvi na rua uma pessoa a falar de uma tal Jane Finn.
Já ouviste algum nome tão disparatado?
E empregos? Tens planos?
Não há empregos. E se houvesse, não mos dariam a mim.
Nem tinham razões para o fazer. Sou um ex-combatente sem habilitações.
Passo a vida a pensar em dinheiro. De manhã, à tarde e à noite.
Também eu. Já experimentei todas as vias legítimas para enriquecer.
E as ilegítimas?
Se nos tornássemos conhecidos,
as pessoas podiam contratar-nos para cometermos crimes por elas.
E como é que contactaríamos com os nossos presumíveis clientes?
Com um anúncio. Tens lápis e papel?
Sim, por acaso até tenho.
Estão aqui algures.
- Óptimo. - Toma.
Que tal "Jovem oficial... ferido na guerra."
"Ferido duas vezes na guerra."
Cá está: "Dois jovens aventureiros, disponíveis a fazer qualquer coisa"
“e ir a qualquer parte. Remuneração substancial.”
“Não recusamos ofertas razoáveis.”
Penso que quaisquer ofertas serão pouco razoáveis.
És um génio, Tommy. Isso é muito mais "chique".
"Não recusamos ofertas pouco razoáveis."
Posso dar-lhe uma palavrinha?
Se me veio incomodar,
aviso-o já que grito.
Não quero faltar-lhe ao respeito.
Ouvi bocadinhos da sua conversa com o jovem cavalheiro, no salão de chá.
- A sério? - Julgo que os posso ajudar.
Foi por isso que me seguiu?
Garanto-lhe que foi só por isso.
Chamo-me Whittington.
Se for ao meu escritório amanhã às onze,
exponho-lhe em pormenor a minha proposta.
Um adiantamento de cem libras e despesas pagas?
É essa a minha proposta.
E qual é... a natureza do trabalho?
Digamos que se trata... de uma viagem de recreio.
- Para onde? - Para Paris.
Haverá algo melhor que voltar para trás uns anos...
Muito poucos anos, decerto.
E reentrar num dos "pensionnats de jeunes filles" que abundam em Paris?
- Um colégio privado? - De carácter informal.
- Durante quanto tempo? - Depende.
Três meses, possivelmente. Teria de se fazer passar por minha protegida,
e exijo sigilo absoluto.
- E não há outras condições? - Não, de todo.
Não irá recusar, pois não? É uma oferta generosa, Miss...
Finn. Jane Finn.
É muito esperta, mas pouco sensata.
Quem andou para aí a comentar? A Rita?
A Rita? Não, ela não sabe nada sobre mim.
Para o seu bem, não se faça de parva! Diga-me o que sabe.
- Muito pouco. - E quanto quer?
Em dinheiro?
Suponho que me estava a chantagear. Ou pretende outra coisa?
Entre!
Uma mensagem para si.
Está entregue, Brown. Pode sair.
Volte amanhã à mesma hora. Estou ocupado.
Tem aí 50 libras, para começar.
Não usei o meu nome verdadeiro por causa do coitadinho do pai.
Inventei um nome falso, para o caso de nos metermos em manobras ilícitas.
- Até pode ser, mas não o inventaste. - Não?
Não. Obrigado.
Fui eu que te falei nesse nome. Não te lembras?
Ontem disse-te que ouvira dois homens a falar de uma tal Jane Finn.
- Foi aí que foste buscar a ideia. - Pois foi, já me lembro.
- Tommy? - Diz.
Como eram esses homens que passaram por ti?
Um era grande e moreno. Era corpulento.
Um homem atraente, penso eu.
Deve ser ele. É incrível. É o Whittington.
- E o outro, como era? - Não reparei.
Aquele nome tão bizarro é que me chamou à atenção.
E ainda dizem que não há coincidências...
Tuppence... Onde é que isto nos vai levar?
Quem sabe? Se calhar ainda recebemos mais 50 libras.
Se insistes em comemorar a nossa sorte em sítios destes,
temos mesmo de as receber. Tinhas fome, não tinhas?
- Sim. - Então...
Mas diz lá, Tuppence: O Whittington estava...
- ...zangado, não estava? - Muito.
Amanhã ainda deve estar mais. Não podes fazer bluff para sempre.
Mais cedo ou mais tarde, vais descair-te.
O que aconteceu ao teu espírito de aventura?
- Foram-se embora. - Foram?
Ontem à tarde. Parece que dissolveram a sociedade.
Obrigada.
Não tem o endereço do Whittington, pois não?
Infelizmente, não. Eles saíram com pressa.
Pois saíram, não foi?
Anima-te. Não podemos fazer nada.
É aí que te enganas.
Isto não é o fim. Estamos agora a começar.
O homem desapareceu, Tuppence. Não estamos a começar nada.
- Come um bolo. - Não quero.
Não percebes, Tommy? Se estão assustados a ponto de fugir,
esta história da Jane Finn deve ser importante. Tens um lápis?
Outra vez, não!
Quando descobrirmos o que se passa, seremos detectives a sério!
Mas já não temos ninguém para seguir.
É por isso que temos de começar do zero.
"Procura-se qualquer informação respeitante a Jane Finn."
O que mais me custa é esperar.
Só entregámos o anúncio hoje de manhã.
Por vezes, Thomas Beresford, a tua lógica irrita-me.
- O que é aquilo? - O quê?
Aquilo ali, na relva.
Alguém o deve ter perdido. É bonito, não é?
- É mesmo. - Devíamos entregá-lo.
- Não vale nada. - Como é que sabes?
O fecho é de má qualidade.
É um sinal de que a nossa sorte vai mudar.
Espero bem que sim. Cinco libras não duram para sempre.
Já pensaste na hipótese de ninguém nos responder, Tuppence?
A um anúncio no "The Times"? Não digas disparates.
Lamento desiludir-te. Deitámos o dinheiro à rua.
- Tommy... - É mesmo assim.
- Só tivemos duas respostas. - Malandreco!
O papel é grosso. Deve ser gente com dinheiro.
Abrimos primeiro a outra.
Muito bem.
“Caro senhor, em resposta ao seu anúncio no jornal de hoje,”
“talvez o possa ajudar,”
“se me puder visitar no endereço acima referido às onze horas.”
“Cumprimentos, A. Carter.”
“Carshalton Gardens 27.”
Se formos de táxi ainda temos muito tempo.
Se formos de metro, também temos.
É do Ritz! “Caro senhor em resposta ao seu anúncio,
“gostaria imenso que me visitasse por volta da hora do almoço.”
“Cumprimentos, Julius P. Hersheimmer.”
A ideia agrada-me.
Encontros à hora do almoço devem incluir comida à borla.
Mas primeiro vamos aos Carshalton Gardens.
Pretendemos que nos diga o que sabe sobre a Jane Finn.
E eu pergunto o que sabem vocês sobre a Jane Finn.
Não acho que isso venha ao caso.
Mas vem.
Se publicaram esse anúncio, é porque sabem qualquer coisa.
- Podem dizer-mo? - Não podemos, pois não, Tommy?
O pouco que sabemos não o ajudará muito.
Mas podemos contar-lhe tudo.
Tommy!
- Sabe quem eu sou? - Reconheci-o mal o vi.
Vi-o em Franca, quando trabalhava nos Serviços Secretos.
Começa a falar, Tuppence.
Tudo começou quando eu e o Tommy nos reencontrámos.
Quando lá fomos, o Whittington já lá não estava.
- Foi por isso que pusemos o anúncio. - Estou a perceber.
São um casal invulgar, se me é permitido dizê-lo.
Se procuram aventura... Não querem trabalhar para mim?
Não de forma oficial, claro.
Pago-vos as despesas e um salário moderado.
O que temos de fazer?
Continuem o que têm feito. Encontrem a Jane Finn.
Sim, mas quem é a Jane Finn?
Nos primeiros dias de 1915,
foi elaborado um tratado secreto na América,
que na altura mantinha a neutralidade.
Enviaram-no para Inglaterra, para ser assinado.
O mensageiro era um jovem chamado Danvers.
Ele veio para cá no Lusitania.
Transportava os papéis inestimáveis num embrulho de oleado,
que trazia junto à pele.
Foi nessa viagem que o Lusitania foi atingido por um torpedo, e se afundou.
Porém, durante o lançamento dos salva-vidas,
o Danvers foi visto a falar com uma jovem americana.
Ninguém o viu a entregar-lhe nada,
mas é possível que o tenha feito.
Quando o corpo dele deu à costa e foi identificado sem margem para dúvidas,
vimos que já não trazia o embrulho. Essa rapariga era a Jane Finn?
Julgamos que ele lhe confiou os papéis. Sendo mulher,
achou que ela teria mais hipóteses de os salvar.
- Mas a Jane Finn desapareceu. - E o tratado?
Pelos vistos, o tratado não se perdeu,
e agora assumiu um carácter... de extrema gravidade.
A sua publicação envergonharia o nosso Governo,
e contribuiria para a ocorrência de uma greve geral.
Uma greve geral?
Que levaria a uma revolução,
- e, talvez, a uma guerra na Europa. - Uma pessoa no seu perfeito juízo...
Não sabemos se esse homem está no seu perfeito juízo.
É conhecido apenas por “Sr. Brown”.
E supõem que ele tem o tratado.
Supomos que ele saiba da sua existência. Se o obtivesse,
- iria usá-lo. - E a Jane Finn?
Talvez esteja morta,
mas eu acho que não. O mais estranho de tudo...
é que eles querem descobrir o que nós sabemos sobre a rapariga.
Mas para quê? O que pretende o Sr. Brown?
Poder absoluto, de uma natureza nunca vista.
- Sabem de quem se trata? - Ninguém faz ideia da sua identidade,
nem mesmo os seus seguidores.
E tem uma característica única: Nunca faz de “personagem principal”.
Quando lhe apanhamos o rasto, está lá sempre, em segundo plano.
Pode ser o amanuense,
o empregado de mesa, o cocheiro...
Uma vez, até se disfarçou de sacerdote.
E usa sempre o nome Brown.
O amanuense do Sr. Whittington chamava-se Brown.
Consegue descrevê-lo?
Uma pessoa normal, como todas as outras.
É sempre essa a descrição do Sr. Brown. É uma pessoa simples.
Mas aviso-vos:
Irão enfrentar uma organização temível.
E quanto ao lado... prático da proposta?
Uma quantia razoável. Informações detalhadas e completas.
Mas o Governo não os reconhecerá.
Quanto?
Tuppence...
O que acham de 300 por ano?
Para cada um?
Para cada um.
Belisca-me, Tommy. Nem acredito que seja a sério.
Sim, não estamos a sonhar. Arranjámos um emprego.
E que emprego!
Começámos a nossa parceria.
- É curioso... Isto deu-me fome. - A ti tudo te dá fome.
Deve ser quase hora do almoço.
- O Julius P. Hersheimmer... - Não falámos dele ao Sr. Carter.
Não há muito para contar enquanto não tivermos ido lá, mas...
é melhor irmos de táxi.
Afinal, quem é o esbanjador?
- A Jane Finn é sua prima?! - O meu pai e a mãe dela eram irmãos.
- Então sabe onde ela está? - Não faço ideia. Vocês não sabem?
Publicámos o anúncio para obter informações, Sr. Hersheimmer
e não para as dar. Sim, eu sei ler.
Mas pensei que estivessem interessados no seu passado
e soubessem onde ela está agora. Estão a dizer-me a verdade?
- Não sabemos onde ela está. - Eu sei o que me leva a procurá-la.
E vocês, procuram-na porquê?
Porque a procura o senhor?
Quando eram novos, os nossos pais davam-se bem.
Mas depois tiveram uma discussão muito feia.
A minha tia Jane, a mãe da Jane,
quis a todo o custo casar com o homem que amava. Só que ele era pobre.
- Os homens são todos pobres. - Importam-se?
Obrigado.
O meu pai ficou fulo. Disse que se alguma vez descobrisse petróleo...
Isto em sentido figurado, claro.
Não lhe daria um cêntimo. E depois descobriu petróleo.
Literalmente?
Sim, o meu pai tornou-se no terceiro homem mais rico da América.
Morreu no Outono, e eu fiquei com o dinheiro todo.
E agora é o senhor o terceiro homem mais rico da América?
Queria partilhar a fortuna com a única familiar que me resta,
a prima Jane. Mas quando fui atrás dela descobri que tinha desaparecido.
É por isso que a procuro. E vocês?
Somos uma espécie de detectives particulares.
Não somos “uma espécie”. Somos mesmo detectives.
Fomos contratados para a encontrar. Na altura em que desapareceu,
ela ter-se-á envolvido, sem o saber
num enredo político.
Talvez esteja presa algures.
Faz sentido.
Sempre que tento investigar, barram-me o caminho.
A Scotland Yard mostrou-se prestável.
Mandaram um homem lá a casa, hoje de manhã, para levar uma foto dela.
Era uma pessoa muito simples.
Não se lembra do nome dele, pois não?
Sim, lembro-me...
Não, não me lembro.
Mas tenho-o aqui escrito. Só um bocadinho.
Cá está.
Inspetor Brown.
Tem certeza?
Absoluta?
Então devo ter-me enganado.
Obrigado. Adeus.
A Miss Tuppence tinha razão. Não há nenhum Inspetor Brown.
- Lamento. - Não percebo.
Qual o interesse de roubar uma foto da prima Jane?
- A foto tinha algo de especial? - Para mim, tinha.
Não conheço mais nenhuma fotografia dela.
O que faço agora?
Temos de lhe contar. Não é justo.
- Concordo. - Eu conto-lhe.
Tu reservas os quartos.
O Governo não vai achar isso um exagero?
O Governo? Esperem lá... Quem são vocês?
- Ele disse “quantia razoável”. - Pois,
mas não sei se isso inclui o Ritz.
Assim mantemo-nos em contacto com o único familiar que resta à Jane.
- Se me dão licença... - Claro.
Vemo-nos mais logo.
Vou investigar um pouco, por minha conta.
Vou discutir com o meu colega os factos conhecidos e por indagar.
De seguida, gizaremos o plano.
Óptimo. Estejam à vontade.
Obrigado.
Queria apenas que soubesse...
que me agrada imenso tê-la por cá.
Não sabia que havia milionários simpáticos.
Ninguém resiste ao dinheiro.
Vamos concentrar-nos. Temos algum ponto de partida?
- Nada de nada. - Errado. Temos duas pistas.
- Temos? - Para começar,
conhecemos um membro do gang. O Whittington.
- Reconheço-o sem problemas. - Isso para mim não é uma pista.
Deixa lá. A outra pista promete.
- Espero que sim. - É a Rita,
o nome que o Whittington referiu.
Propões então que coloquemos um terceiro anúncio:
“Procura-se criminosa. Dá pelo nome de Rita.”
Não, proponho apenas que raciocinemos de forma lógica.
O Danvers foi seguido quando veio para cá, não foi?
Deve ter sido por uma mulher, e não por um homem.
- Não percebo. - É óbvio.
As mulheres e crianças saem primeiro do navio. Ela foi salva.
Como é que concluíste isso?
Se não se salvou, como é que sabiam que a Jane Finn tinha os papéis?
Tens a simplicidade das mentes brilhantes, Tuppence.
Obrigada.
Há uma hipótese, e admito que é apenas uma hipótese,
- de que essa mulher seja a Rita. - E então?
Temos de procurar os sobreviventes do Lusitania até a encontrarmos.
Percorremos meia Londres nestes dois dias
e só falámos com uma Freda, quatro Marys e duas Berthas.
Começo a perder o ânimo. Gosto de descobrir estas coisas depressa.
Não andes sempre à procura de sensações banais, Tuppence.
Se o Sr. Brown for como se diz por aí,
acho estranho que ainda não nos tenha morto.
Mas cá estamos, sem um arranhão. Se calhar não se preocupa connosco.
Temos de lhe mostrar que se devia preocupar.
Quem é a próxima?
Vive no m20. É a Sra. Vandemeyer.
Muito bem, Sra. Vandemeyer. Cá vamos nós.
- Qual é o primeiro nome? - Marguerite.
M-a-r-g-a-r...
Não.
É “g-u-e”.
Marguerite.
Pois, é francesa.
No último recenseamento ficou registada como Rita Vandemeyer.
Tratam-na por Rita, mas chama-se Marguerite.
Pelo menos, é o que ela diz.
Obrigado. Muito obrigado.
Adeus.
- Ouviste? - Tommy!
Eu sei, querida. Sinto o mesmo.
É tão bom pensarmos nas coisas e elas acontecerem... mesmo.
Mas que diabo...
Segue-os. Não posso ir contigo, senão reconhecem-me.
Quem são eles?
Não conheço o loiro, mas o moreno é o Whittington.
Para Waterloo, depressa.
- Está ocupado? - Quanto me dá?
- Meia coroa? - Lamento. Tenho uma entrega urgente.
Bem, não é assim tão urgente. Suba lá.
Siga aquela carruagem.
- As coisas não são assim, filho. - Não?
Os bons, os maus, os bons polícias, os maus polícias...
Não é assim tão simples.
Mas aqui é, Miss. Se tiverem cabelo escuro,
forem morenos e não fizerem bem a barba, são maus.
- Mesmo os polícias? - Sobretudo os polícias.
Pareces um rapaz esperto, William.
Chamo-me Albert, Miss. O que lhe aconteceu à voz?
À minha voz? Qual? Tenho tantas vozes.
- Ainda há pouco era americana. - E agora sou francesa.
- E daqui a pouco sou russa. - Deve tornar-se confuso.
Não são as vozes que confundem, Herbert.
- Albert. - São os disfarces.
Somos uma pessoa de manhã e outra à noite.
É atriz, ou coisa do género?
Quem me dera.
Sabes o que é isto? É dos Serviços Secretos.
Não me devia dizer isso!
Nós sabemos em quem podemos confiar.
E nunca nos esquecemos... de um amigo.
Sabes de quem ando atrás?
- Alguém que vive cá. - No m20.
Chama-se Vandemeyer.
- É criminosa? - Chamam-lhe “Rita Maldita”.
A Annie sempre disse que ela era má rês.
- A Annie? - É a criada de sala.
Ela vai-se embora. Houve ali uma chatice.
Ela dizia que a Annie lhe lia o correio.
Vai ter dificuldade em arranjar outra.
E se dissesses que a tua prima, ou a prima de um amigo teu,
podia ocupar o lugar dela?
Deixe comigo. Trato disso enquanto o diabo esfrega um olho.
És um bom rapaz. Vemo-nos amanhã às onze.
Vem disfarçada?
"Au revoir".
O jornal, por favor.
Obrigado.
- Bournemouth. Primeira classe. - Só um minuto.
- É só um. - Raios...
O seu comboio só parte às três e meia. Ainda temos 20 minutos.
Um bilhete para Bournemouth, por favor.
Terceira classe.
Obrigado.
- Para que número deseja falar? - Hyde Park 8181, por favor.
- Espero que o Julius lá esteja. - Rik. Posso ajudá-lo?
Queria falar com o Julius P. Hersheimmer.
O trânsito inglês é do pior que há. Qual é o meu?
É o Whittington, aquele sujeito moreno que está a entrar.
Tem aqui o bilhete. Só tinha dinheiro para um de terceira classe.
Vá, despache-se!
- Nenhum deles?! - Não, Miss.
Ninguém vê o Sr. Beresford desde que saiu consigo.
Podia ter mandado um telegrama.
Abres-me isso?
- E o Sr. Hersheimmer? - Ligaram-lhe às três e dez.
Depois saiu.
São mesmo mauzinhos.
Cá estou eu com grandes novidades e não tenho com quem as partilhar.
Os homens são uns insensatos, Harry.
Chamo-me Henry, Miss.
Sr. Brown.
Diga lá.
Sr. Brown?
Lá em cima, segunda à esquerda.
- Sr. Brown. - Lá em cima, segunda à esquerda.
Entre.
- Qual é o seu número, camarada? - Sou o número um.
É uma grande honra.
Julgávamos que lhe seria impossível vir cá.
Era fundamental vir a uma reunião, para definir as minhas diretrizes.
Prossigamos.
Raios...
Em relação ao empréstimo para o jornal inglês,
tratou de tudo como mandam as regras?
- Penso que sim. - Óptimo.
Se for necessário, Moscovo emite uma negação oficial. E a data?
Dia 29.
É mais cedo do que prevíamos.
O Sr. Brown informou-nos que o Governo pretende alterar a Lei.
Temos de agir depressa.
Se bem percebi, existia um determinado documento.
É verdade.
Se ele fosse apresentado aos líderes dos sindicatos,
eles publicavam-no imediatamente, transmitiam-no por todo o país
e declaravam a revolução sem hesitar.
Seria a queda total e absoluta do Governo.
E que mais desejam?
O documento em si.
Não está em nosso poder?
- Não. - Mas sabe onde se encontra?
Há uma pessoa que talvez saiba. Não temos a certeza...
- Quem é? - Uma rapariga.
Uma rapariga? E não a obrigaram a falar?
- Onde está essa rapariga? - Está...
Como foi que entrou aqui?
- Pergunte ao seu cão de guarda. - Deixou-o entrar?
Ele sabia a senha. O que podia eu fazer?
Nega que estava a ouvir a conversa?
Eu sei que é má educação, mas a conversa era tão interessante...
Infelizmente, não lhe cabia ouvi-la.
É por isso que terá de morrer.
Esperem.
Acham que eu julgo que me matariam?
Tentem descobrir o que me leva a estar tão confiante,
cavalheiros.
Posso propor um acordo, tendo em conta o que sei.
Um acordo?
A minha vida e liberdade em troca dos papéis que o Danvers trouxe dos EUA.
O Danvers. Estou a ver... Tem esses papéis?
Mas sabe onde eles estão?
Julgo saber onde os podemos encontrar.
E relembro-vos, cavalheiros,
de que já nem faltam duas semanas para o vosso grande dia, o dia 29.
Aceitamos, mas com uma ressalva:
Só o libertaremos depois de recebermos os papéis.
Não seja idiota! Como é que os posso procurar aqui fechado?
- Então o que pretende? - Tenho duas exigências.
Preciso de liberdade para investigar e tenho de interrogar a rapariga.
Qual rapariga?
A Jane Finn, claro.
Será que o meu amigo sabe tanto quanto quer que julguemos?
Vê esta porta? Não se esqueça: Estamos lá fora.
CASA DE SAÚDE “THE MANSE”
- A doente já está pronta? - Sim, com certeza. Vou chamá-la.
Apesar dos estragos que fez aos arbustos, não partiu osso nenhum.
Tem apenas uma ligeira entorse, mas não é grave,
desde que não se apoie nessa perna.
- Então não posso andar? - Exato.
Mas não se preocupe. Daqui a uns dias já sai da cama.
- Lamento imenso, S.r... - Dr. Hall.
- Esta é a minha casa de saúde. - Julius P. Hersheimmer.
Prazer em conhecê-lo, Doutor.
Deve estar curioso em relação ao que eu fazia naquele tubo de escoamento.
A explicação poderá proporcionar-me um momento de jocosidade.
Foi assim, Doutor:
Conheci uma rapariga muito especial no navio, quando vinha para cá.
Dava para ver que ela também gostou de mim,
mas o guardião dela não. Fechou-a na cabine
e inventou que ela era doente mental.
Um diagnóstico acertado para uma pessoa apaixonada, não concorda?
Como sabia que vinham para Bournemouth,
decidi visitar todas as casas de saúde da zona.
Subi pelo tubo de escoamento para dar uma olhada e...
Pode não acreditar,
mas pareceu-me ver alguém que conhecia a falar com uma enfermeira.
- Presumo que fosse o Sr. Whittington. - Esse mesmo.
Uma sobrinha dele trabalha cá. Ele veio cá vê-la.
- Ainda está por cá? - Não, voltou logo para a cidade.
- A sobrinha pode dar-me a morada. - A Enfermeira Edith também saiu,
com uma doente.
Lamento imenso.
Confundi-a com um amigo meu.
O pequeno-almoço, por fim.
Dou graças a Deus pelo pouco que vou receber.
Não se vá embora. Ainda não.
Só lhe quero perguntar uma coisa. É a Jane Finn?
- Chamo-me Annette, Monsieur. - "Français"?
- Sabe francês? - Pouco ou nada.
Já tinha ouvido falar na Jane, Annette?
- Ouvi falar dela. - Quem é que falou?
Tenho de ir. Estão à minha espera.
Não vá já...
Isso é que é um disfarce. Nunca daria por si.
É a experiência, Cuthbert.
Chamo-me Albert, Miss.
Sou tua prima ou não sou?
Pode sentar-se.
Como soube que eu procurava uma criada de sala?
O meu primo, o rapaz do elevador, achou que eu servia para o cargo.
Parece uma rapariga com estudos.
E sou, mas mesmo assim é difícil arranjar emprego.
- Como se chama? - Prudence Cooper, minha senhora.
Tem disponibilidade imediata?
Posso vir já hoje, se quiser. Trago aqui as minhas referências.
Muito bem.
Vai ver que não terá muito trabalho.
Tem duas tardes de folga por semana, à sexta e ao domingo.
Hoje vou almoçar fora, Prudence,
mas recebo um convidado muito especial, ao jantar.
- A rapariga é nova? - Veio hoje.
- De certeza que não há perigo? - Foi recomendada pelo porteiro,
- ou coisa assim. - Como sabe que ele não foi subornado?
Porque haveria alguém de suborná-lo?
Por vezes, a sua desconfiança roça o absurdo.
Que maçada...
- Está a exagerar. - Não, não estou.
O Sir James Peel Edgerton é um advogado de sucesso,
um político distinto...
E um conviva muito agradável.
A Rita é muito inteligente, mas, como muitas mulheres inteligentes,
é uma tonta no que diz respeito aos homens. Tem de desistir dele.
O Boris Ivanovitch esquece-se de uma coisa.
Só recebo ordens de uma pessoa: O Sr. Brown.
E eu dir-lhe-ei o que o Sr. Brown lhe diria.
O Peel Edgerton estudou o crime mais a fundo que qualquer inglês.
Ele até cheira os criminosos! Pensa que o consegue enganar?
Não preciso de o enganar. Sou uma mulher bonita, Boris.
É só por isso que o Sir James se interessa por mim.
Para além do mais,
ele é riquíssimo.
O dinheiro... É aí que a Rita se torna perigosa.
Até vendia a sua alma.
A minha alma? Mas que ideia tão bizarra, Boris.
Creio que até nos vendia a nós.
Pode ficar descansado.
Só um homem mais rico que o Sir James poderia pagar o vosso preço.
Vamos jantar?
Bem, as coisas velhas e familiares têm um certo encanto. Annette...
Olhe para mim, Annette.
Ajude-me a sair deste sítio.
Ajudava-me, se pudesse?
Ouviu a conversa deles. Eles fazem bem em mantê-lo aqui.
Não gostaria de ajudar outra rapariga, que tem a sua idade?
Está a falar da Jane Finn?
Veio cá à procura dela, não foi?
Estou sempre a ouvir esse nome. Jane Finn...
Então sabe alguma coisa sobre ela...
Não sei nada. Só o nome.
Nada? Nem uma palavra? De nenhum deles?
Não, Miss. Encontrei o rapaz, como me pediu.
- O Billy? - Henry. Diz que não sabe de nada.
Já passaram quase dois dias.
- Vou ser sincera contigo, Wilbert. - Albert.
Estou preocupada.
Tenha mais cuidado. Estas escadas ontem estavam uma desgraça.
O quê?
Claro. Não volta a acontecer, Miss. Bom dia, Sir James.
Bom dia, Albert.
- É a nova empregada, não é? - Sim.
Não trabalha nisto há muito tempo, pois não?
Era enfermeira?
Sim, senhor.
- Acha que é um bom emprego? - Espero que seja.
Mas lembre-se de que há outros bons empregos.
E mudar não faz mal a ninguém.
- Mas ainda agora... comecei. - Foi só uma sugestão.
Diga à senhora que eu cheguei, está bem?
“Caro Sr. Carter, estou preocupada. O Tommy desapareceu.
Não o vejo há dois dias, desde que vimos o Whittington e outro homem...”
- Por onde é que andou? - Já explico.
Os tolos dos empregados dizem que não se sabe do Beresford desde quarta.
- É verdade? - Não sabe onde ele está?
Não sei nada dele desde que nos separámos, na estação.
- Na estação? - Em Waterloo.
Mas o que foram vocês fazer a Waterloo?
O Beresford disse-me que andava a seguir dois vigaristas.
O Boris e o Whittington.
Eu fiquei com o grande, aquele que você enganou.
O Beresford deu-me o bilhete e mandou-me entrar no comboio.
Disse que ia seguir o outro.
Não sabe nada sobre isto?
Sei qualquer coisa.
Esse Boris jantou ontem em casa da Sra. Vandemeyer.
- Qual senhora? - A Rita Vandemeyer,
que veio no Lusitania com a sua prima, a Jane Finn.
Tentou travar amizade com ela. Agora sou empregada da Rita.
É criada?
Sou uma agente especial disfarçada de criada.
Acha que esse Boris ainda volta a casa dela?
Não sei. Se calhar.
Temos de nos preparar. Vou comprar um carro,
visto-me de "chauffeur" e fico à espera lá fora.
- Isso não levantará suspeitas? - Temos de correr esse risco.
Que modelo de carro deseja, Miss Tuppence?
- Como é que conseguiu? - Conhece o Ministro das Finanças?
- Pessoalmente, não. - Fui a casa dele, em Downing Street,
e disse que esta máquina valia 20 mil dólares.
Depois disse que lhe dava 50 mil se ele mo desse.
- E então? - Ele deu-mo.
É por isso que é Ministro das Finanças.
Talvez. Entre.
Gostava de ir ver as vossas mansões da South Audley.
Devíamos concentrar-nos no outro conviva da Sra. Vandemeyer,
o Sir James Peel Edgerton. E quem é esse?
É advogado, deputado e perito em investigação criminal.
Ou seja, é um profissional. Até eles parecem ter medo dele.
Ele falou comigo hoje. Parecia querer dizer-me alguma coisa.
Avisar-me.
Minha cara,
só me lembro de lhe ter dito que havia situações igualmente vantajosas,
noutros sítios.
Mas foi uma sugestão, não foi?
Talvez.
Não esperava que viesse cá horas depois, completamente irreconhecível,
para me interrogar sobre isso. Sir James,
quero saber o que o levou a dar-me essa sugestão.
Bem...
Se eu tivesse uma irmã mais nova que trabalhasse para viver,
não gostaria que fosse empregada da Sra. Vandemeyer.
- É tudo o que posso dizer. - Estou a perceber. Obrigada.
- Muito obrigada. - Podia dizer-me o que a perturba.
- É o Tommy. - Quem é o Tommy?
É o amigo de infância da Miss Tuppence.
- O que nos preocupa é... - Onde está o Tommy?
Até agora saíram-se muito bem!
Mas é uma pena que o... Carter, como disse,
os tenha metido à força num assunto destes.
Esperemos que o seu amigo ainda esteja vivo, e que o encontremos.
- Mas como? - Através da Sra. Vandemeyer,
a única pessoa que saberá, provavelmente, onde ele está.
- Mas ela nunca o dirá! - Prometo-lhe que mo contará a mim.
- E se não contar? - Recorremos ao suborno.
Ela gosta de dinheiro.
- É esse o meu papel. - Estava mesmo a pensar qual seria.
A Jane Finn é minha prima.
Pode contar com um milhão de dólares, se for preciso.
É uma soma muito avultada, Sr. Hersheimmer.
Acho que não podemos oferecer uma bagatela a esta gente, pois não?
Ele não o está a enganar, Sir James. A fortuna dele é obscena.
Então vamos lá tratar disso. Qual é a sua ideia, Sir James?
Miss!
Graças a Deus que apareceu. Ela vai-se embora.
- Quem? - A criminosa. A “Rita Maldita”.
Está a fazer as malas e mandou-me chamar um táxi!
És um bom amigo, Cuthbert. Anda.
- Há aqui um telefone? - Só nos apartamentos,
mas há uma cabina aqui perto. Liga para o Hotel Ritz
e fala com o Sr. Hersheimmer. Quem?
Hershminor. Ele que peca ao Sir James para vir cá já,
porque a Sra. Vandemeyer vai pôr-se a andar.
Hershminor, Hershminor...
Dói-me um dente, minha senhora.
Achei melhor vir para casa...
descansar. É melhor ir para a cama.
- Eu fico bem na cozinha. - Parvinha!
Julgava que eu não sabia?
Se tentar fugir ou gritar, eu disparo. Sente-se.
Ponha as mãos sobre a cabeça.
Se dá valor à sua vida, não as mexa.
Lá esperta é você, tenho de o admitir.
Não desconfiei de nada.
Mas agora pusemos os pontos nos “is”, não foi?
- O que é isso? - É para a pôr a dormir.
Não me vai envenenar, pois não?
Talvez.
Ou talvez não.
Então não bebo. Prefiro levar um tiro.
Recuso-me a morrer de forma silenciosa.
Acha que eu quero ser procurada por homicídio?
É só para dormir.
É veneno. Eu sei que é veneno. Por favor, não me obrigue a beber.
Deixe-se de lamúrias! Vai acordar amanhã, de boa saúde.
- Jura? - Juro.
Muito bem.
Pusemos os pontos nos “is”, não foi?
Então vamos sentar-nos.
Encontramo-nos numa situação disparatada e melodramática.
Não, na cama não.
Aqui.
Isso mesmo.
Óptimo.
Vamos lá conversar.
- Sobre o quê? - Sobre dinheiro.
- Dinheiro? - Dá sempre jeito, não acha?
Sobretudo quando é muito.
Acha-me capaz de vender os meus amigos?
- Por um preço alto. - Você não tem dinheiro para isso.
Eu não, mas um amigo meu tem.
Digamos... cem mil libras?
Pode confiar em mim. Não a estou a enganar.
O que pretende saber esse seu amigo?
O paradeiro da Jane Finn. Sabe onde ela está?
Sim.
- O que foi isto? - O quê?
Está alguém a ouvir-nos.
- Mas como? - Você não o conhece.
Quem?
O Sr. Brown...
Deixe-o lá. Pense nas 100 mil libras.
Ele nunca permitirá que eu as receba. Não o conhece. Ele é...
Julius...
- Traga um brandy, depressa! - Deve ser o coração.
Não, aí não. Está na licoreira da sala de estar. Deixe, eu vou lá.
Abra esta janela, Sr. Hersheimmer.
Dê cá.
- Sir James... - Obrigado.
- A Miss Tuppence pode ajudar-me? - Sim, claro.
- Céus... - Deixe-me tentar.
Beba. É só brandy. Juro.
É o meu coração. Não posso falar.
Temos de a deixar descansar.
- Podem levá-la para a cama? - Sim.
O que aconteceu, Miss Tuppence?
Ofereci-lhe 100 mil libras para me dizer onde está a Jane Finn,
e ela de repente ficou apavorada. Pareceu-lhe ouvir qualquer coisa,
mas eram só vocês.
Não foi a melhor altura para vir cá, é um facto,
mas o jovem Albert chamou-nos. Disse que a Miss Tuppence corria perigo.
E corria. Mas como foi que entraram?
Felizmente, o porteiro tinha uma chave mestra.
Ela não nos dirá nada até amanhã,
mas é melhor ficarmos no apartamento.
Ela não ia fugir das 100 mil libras.
Nunca se sabe. Parecia ter muito medo do Sr. Brown.
A Miss Tuppence tem razão.
Ele poderia apanhá-la esta noite? Mas como é que ele sabe?
O nosso adversário é um portento, Sr. Hersheimmer.
E temos uma testemunha importante.
Há que protegê-la.
Gostava de saber uma coisa: Quem foi que lhe deu vontade de fugir?
Deve ter sido o Sr. Brown.
Ela estava prestes a dizer-me quem ele era.
O Ritz é um pouco diferente, não é?
Não saia...
Tenho sono...
Estou cansada...
O Sr. Brown...
Eu não saio do apartamento. Vou passar a noite a vigiar.
Tire a chave, Miss Tuppence.
E feche a porta.
Tem bolso?
- Sim, Sir James. - Então guarde lá a chave.
Ninguém pode ter a possibilidade de entrar nesse quarto.
- Deixa-o, Annette! - Queria vê-lo pela última vez.
Está muito bem amarrado.
Annette!
Vou já!
Durma bem.
A Miss Tuppence sente-se bem?
Desculpe...
Ele está aqui.
Está algures no apartamento.
Eu sei que está.
Mas a senhora trancou a porta. A chave está no seu bolso.
Não há outra maneira de entrar no quarto.
O Sr. Brown está aqui.
Sinto a presença dele.
- Annette! - Por aqui. Depressa.
Dê cá a chave.
Ele fugiu! Ele fugiu!
- O que se passa? - O inglês fugiu!
Meu Deus! O que se passa? Está aqui a chave.
Quero voltar para a Marguerite!
Bom dia, Sra. Vandemeyer. Trouxe-lhe chá.
Abra a outra cortina, Julius, por favor.
Sra. Vandemeyer...
Sra. Vandemeyer...
Morreu.
Já deve ter morrido há algum tempo.
É impossível. Ninguém pode ter cá entrado.
Estava prestes a trair o Sr. Brown e morreu. Será uma coincidência?
Mas como?
É o que temos de descobrir. Entretanto, chamamos um médico.
Antes disso, há neste quarto alguma coisa que nos possa ser útil?
Há aquilo. Ela guardava ali as suas joias.
Deixou a chave na fechadura.
Ela estava prestes a sair.
Deve ter queimado uns papéis.
Infelizmente, queimou-os bem.
- Está aí alguma coisa? - Nada. Está vazio.
Vazio?
SINDICATOS IMPACIENTES “Instigador do Bolchevismo em Londres”.
- É o número um. - Sim, é o camarada Kramenin.
Quem é ele?
Para muitos, foi o verdadeiro instigador da Revolução Russa.
Mas só chegou ontem ao nosso país.
Sou capaz de jurar que o vi na reunião, na quarta-feira.
Se ele trabalha para o Sr. Brown, tudo é possível.
Talvez seja ele o Sr. Brown.
Infelizmente, uma das poucas certezas que temos
é a de que o Sr. Brown não é estrangeiro.
É um traidor? Ainda agora saímos de uma guerra...
Há pessoas que preferiam que não a tivéssemos ganho.
- Dia 29, portanto? - Exato.
Dá-nos pouco mais de uma semana.
Podemos lidar com a ameaça de greve geral,
mas se o tratado aparece, estamos tramados.
A Inglaterra sucumbe à anarquia.
Diga-me uma coisa, Dr. Hall: Conhece a Sra. Vandemeyer?
Conheço-a mal.
Creio que ela internou uma familiar na sua instituição.
Foi a sua sobrinha, Janet Vandemeyer.
E quando ocorreu isso?
Se bem me lembro, em Junho ou Julho de 1915.
Ela tinha problemas mentais?
Não era louca, se é isso que quer dizer.
A Sra. Vandemeyer disse-me que ela viera com ela no Lusitania,
quando o desditoso navio se afundou.
Desde então, está em estado de choque.
De que natureza?
A Janet Vandemeyer perdeu, por completo, a memória.
- O quê? - Não se lembra de nada?
Nada.
- Se ela vir alguém da terra dela... - Desculpe, Sr. Hersheimmer,
julguei que percebera. Ela já não está ao meu cuidado.
Quando é que saiu?
No dia em que o senhor caiu do meu tubo de escoamento.
A tia dela mandou uma mensagem urgente,
e a rapariga e a sua enfermeira partiram de comboio.
Já me lembro...
Disse-me que a Enfermeira Edith saíra com uma doente.
Meu Deus... Estive tão perto.
Muito bem.
Já calculava. Eles bateram as asas. “Limparam” a casa do Soho e partiram.
Há um pormenor que me intriga:
Quando as coisas deram para o torto, e eles me amarraram,
o Conrad disse: “O Ritz é um pouco diferente, não é?”.
Como saberiam eles?
A Miss Tuppence acha que vou encontrar a Jane?
É claro que sim.
Até quando podemos viver de sonhos? É isso que me pergunto.
- Só me apetece voltar para os EUA. - Não pode!
- Temos de encontrar o Tommy! - Esqueci-me do Tommy!
- Posso perguntar-lhe uma coisa? - Força.
A menina e o Beresford... Em que ponto estão?
Eu e o Tommy?
- Somos apenas bons amigos. - Se não o encontrarmos, e...
Se ele tiver morrido? Pode dizê-lo, eu aguento.
Se isto tudo acabar mal, a Miss Tuppence pode ficar sozinha.
Eu fico bem.
Tenciono casar-me, claro,
se encontrar um homem suficientemente rico.
- Estava a pensar em que valor? - Valor?
- Quer dizer, valores morais? - Não.
Refiro-me ao rendimento.
Então e eu?
- O senhor o quê? - Admiro-a muito.
Muito obrigada...
Estou a pedi-la em casamento.
Quer casar comigo?
Lamento, mas não posso.
- Por causa do Beresford? - Não, não.
Não é isso.
Bem... Agradeço-lhe imenso, e tudo isso,
mas tenho de recusar.
Ficar-lhe-ia grato se me fizesse o favor...
de pensar nisso até amanhã.
- É um pedido curioso. - Os amigos são para as ocasiões.
Já me ajudou muitas vezes, no passado.
- Está com um ar cansado, Anthony. - Falei agora com o Primeiro-ministro.
A situação é dramática. Há seis meses, uma greve geral seria inconcebível.
Mas agora não é. É uma realidade.
O seu problema, seja ele qual for, pode ajudar a aliviar a pressão.
O que pretende descobrir?
Há três semanas, foi encontrado um cadáver nas docas de Nova lorque.
Um telegrama para si, Miss.
Para mim?
O Tommy.
Traz-me uma enciclopédia, Henry.
O táxi está à espera, Miss. Para onde deseja ir?
Para Charing Cross!
Desculpe... A Miss Cowley está no quarto?
- Lamento, mas acabou de sair. - Beresford!
- Meu Deus! É mesmo você? - Não havia de ser porquê?
- Já o deram por morto. - Quem?
A Miss Tuppence.
Ela lembrou-se do adágio: “Deus leva os que mais ama”.
Mas restou-me algo do pecado original, e por isso sobrevivi.
- Tive saudades dela. Ela saiu? - Deve ter ido às compras.
À hora do almoço? Não parece dela.
Gostava de saber onde esteve metido este tempo todo.
Importa-se que falemos disso durante o almoço? Tenho uma certa fome.
- Perdeu a memória? - Foi o que ele disse.
Isso explica a reação deles quando eu disse que a queria interrogar.
Não lhe deram ideia nenhuma do paradeiro dela?
Eu sei que sou uma besta.
Devia ter-lhes sacado isso,
mas quando acordei só me lembrava de que o Kramenin não estava lá.
Quem é o Kramenin?
Segundo o Sr. Carter, foi o instigador da Revolução Russa,
Mas penso que é o porta-voz do Sr. Brown,
e não o verdadeiro cérebro.
É a voz desse cérebro, se me entende.
Desculpe...
A senhora pediu-me para lhe dizer que saiu.
- Saiu? - Sim. Mandou chamar um táxi.
Foi para Charing Cross.
- Como ela pediu uma enciclopédia... - Isso foi quando?
Quando lhe entreguei o telegrama.
Telegrama?
“Vem depressa. Moat House.”
“Ebury, Yorkshire.”
“Novidades espantosas. Tommy.”
- Não o enviou? - É claro que não.
Então apanharam-na. Raios! Apanharam a Miss Tuppence.
Então temos de a salvar, não é?
Beresford?
Não lhe ia dizer isto, mas tendo em conta o sucedido, acho que é melhor.
Hoje de manhã pedi a Miss Tuppence em casamento.
Quero que saiba que me certifiquei, antes de mais,
que não me ia meter entre vocês os dois.
Eu e a Tuppence somos amigos.
É só isso.
As raparigas recusam sempre uma vez, não é?
- Faz parte do protocolo. - Recusam?
Disse “recusam”?
Sim, eu não lhe disse?
Ela saiu-se com um “não” sem justificação nenhuma.
E deixou-me um bilhete. Encontrei-o quando fui fazer as malas.
E o que dizia o bilhete?
Está aqui. Tenho-o aqui mesmo. Leia.
“Meu caro Julius, é sempre melhor que fique tudo bem claro.
“Não posso pensar em casar-me enquanto...
“... o Tommy não for encontrado.
Depois falaremos disso. Com afecto, Tuppence.”
Quero que saiba que tenho os meus motivos para a encontrar.
Obrigado.
Julius?
O Henry disse que a Tuppence pediu ao taxista para ir a Charing Cross.
E então?
Os comboios para Yorkshire partem de King's Cross.
Penso que a Miss Tuppence nunca cá esteve.
Veio cá, com certeza. É a Moat House.
- Talvez tenham um caseiro. - Está a brincar?
Isto está votado ao abandono.
Aquela camada de pó é bem grossa. Não se vê uma pegada.
Vamos dar uma olhadela por aqui.
- É da Tuppence. - Tem a certeza?
Absoluta. Encontrámos isto no parque.
Então não restam dúvidas.
Ela veio cá.
Alguém a deve ter visto. Não saímos daqui sem ela.
Já viu que estamos aqui há dois dias?
Não sabemos onde ela para e o próximo domingo é dia 29.
Temos de a salvar antes desse dia.
Depois, a vida dela não vale nada.
Precisamos de ajuda profissional.
Vou fazer o que devíamos ter feito quando encontrámos o broche:
Ir à Scotland Yard.
- Então e o Sir James? - O que tem ele?
Você disse que a Tuppence confia nele.
Pois, mas eu não.
Onde é que encontraste estas roupas?
Eu trato disto, Beresford. Está a assustá-la.
Está tudo bem, querida. Só queremos saber onde as encontraste.
Ali, ao pé das rochas.
Foi o mar que as trouxe. Estavam molhadas e cheias de areia.
Pensávamos que não eram de ninguém.
E não viste mais nada?
De certeza?
Ninguém se zanga contigo.
Havia uma coisa neste bolso.
O embrulho de oleado.
O tratado?
Tem um canivete, Tommy?
Tenho.
“Cumprimentos do Sr. Brown”.
Caro Beresford,
nunca nos conhecemos, mas já ouvi falar muito de si.
O meu amigo Carter deu-me a trágica notícia da morte da Miss Cowley.
Não o tentarei consolar com lugares-comuns.
Era uma jovem inesquecível, e não será esquecida.
O tempo sarará as feridas,
mas uma mudança de ares poderá acelerar a cura.
Tenho negócios no Arizona.
No Arizona?
É um rancho que precisa de um bom homem, que o saiba gerir.
Se estiver interessado, venha ter comigo. James Peel Edgerton.
Obrigado pela sua carta, Sir James. Agradeço a intenção,
mas tenho de ficar por cá, até encontrar...
Julius! Julius!
Olhe, Julius, desculpe lá...
Julius?
Raios!
Era uma fotografia da Annette, a rapariga que me salvou a vida.
Aceite o meu conselho, jovem. Deixe esta batalha secreta para os outros.
Já é mau que tenhamos perdido uma vida. Perder duas seria imperdoável.
Aceite a minha oferta. Vá para o Arizona e concentre-se no seu futuro.
Os outros, como eu e o Carter que já não têm muita vida pela frente,
que se preocupem com o país. Não quero parecer ingrato,
mas tenho de descobrir o que aconteceu à Tuppence.
Se ela... Se o que dizem é verdade, então terei de a vingar.
- Então e o telegrama? - O telegrama?
O Carter disse que ela recebeu um telegrama, antes de sair.
- Não percebo. - Talvez o telegrama que leu
não fosse o que foi enviado.
Se calhar foi por isso que ela se dirigiu para Charing Cross,
quando devia ter ido para King's Cross.
É possível confirmar isso?
Há quem tenha mais poder fora do Governo do que dentro.
Pode demorar uma hora, ou assim.
Trouxe-o pela escada de serviço.
Espero ter feito bem.
Foi ele que trouxe a mensagem para a Miss Cowley, que ainda não voltou.
Não está ninguém no apartamento da Rita. Ele está preocupado.
Manda-o entrar, Henry.
Chegou isto para si.
Obrigado.
Venha de imediato. Astley Priors. Gatehouse, Kent.
Novidades espantosas, Tommy. Boa sorte. James Peel Edgerton.
Entre.
Bom dia.
- Chamo-me Albert. - Conhecias a Miss Cowley, Albert?
- Ela ia recrutar-me. - Recrutar-te?
Para os Serviços Secretos.
Os patifes não a apanharam, pois não?
Infelizmente, apanharam-na.
No submundo?
Não, que diabo! Neste mundo!
Preciso de um bom homem, em quem possa confiar.
Podes dizer que a tua avó está doente, e pedir dois dias de folga?
- Conte comigo. - Óptimo.
Vou escrever umas cartas, Henry,
mas só as entregas quando eu e o Albert já estivermos bem longe.
Conte comigo.
Caro Hersheimmer, tentei ligar-lhe, mas você não estava em casa.
É incrível: Ofereceram-me um emprego no Arizona.
Tendo em conta as circunstâncias, resolvi aceitá-lo.
Vou partir de imediato. Adeus. Tommy Beresford.
Idiota de um raio.
Quanto ao cadáver em Nova lorque, não soube grande coisa.
Era um jovem de 35 anos, mal vestido, com o rosto extremamente desfigurado.
- Ainda não foi identificado. - Eu posso identificá-lo.
Por ora não o posso provar, mas sou capaz.
Você é um grande velhaco. Nem sei porque nos damos tão bem.
As amizades dos bancos de escola nunca acabam.
É verdade.
Sempre achei que só você poderia descobrir o fugidio do Sr. Brown.
E garanto-lhe que será o primeiro a saber. Adeus.
Adeus.
Entregaram-me isto em mão.
Obrigado, Watson.
I Caro Sr. Carter
descobri algo que me deixou de sobressalto.
Julgo saber onde está a verdadeira Jane Finn.
E descobri que a Tuppence está tão morta como eu.
Vou tentar encontrá-la.
Até faço uma ideia de onde estarão os papéis. Pode ser só um palpite,
e posso estar a fazer figura de parvo, mas envio-lho num envelope selado.
Peco-lhe que não o abra até ao último minuto: A meia-noite do dia 28.
Eles estão desesperados para encontrar o tratado.
Se pensarem que o recuperámos,
a vida da Tuppence não valerá um tostão furado.
Só mais uma coisa:
Vigiem a casa do Soho dia e noite.
Atenciosamente, Thomas Beresford.
Parece muito sossegada.
Pois é. Até demais.
Terei de atrair o fogo do inimigo.
Fica aqui e aprende.
Deseja-me sorte.
Boa sorte.
E quando me disseram.
Como eras linda.
Não acreditaram.
Volte para o bar de onde saiu!
Quando o expulsaram, alguém abriu uma janela e atirou isto.
Vinha a embrulhar um pisa-papéis.
“Amanhã à mesma hora.”
Viste quem o atirou, Albert?
Não consegui ver, chefe.
Deve ter acontecido alguma coisa, porque eu respondi.
- O quê? - Escrevi uma mensagem
e atirei-a lá para dentro.
E o que dizia essa mensagem?
Que essa pessoa, seja ela quem for, pode encontrar-nos aqui na estalagem.
O teu empenho pode vir a ser a nossa perdição.
É este o fulano.
“Leve isto ao cavalheiro da estalagem. Ele dá-lhe 10... xelins.”
“Caro Tommy, eu vi que ontem eras tu.
“De manhã levam-nos daqui. Ouvi falar em Gales. Holyhead, acho eu.
“Se puder, entrego isto pelo caminho. Da tua amiga...”
“... Twopence.” - Encontrámo-la!
E os meus dez xelins?
Tome um xelim. Era uma mensagem curta.
Muito obrigado.
Passa-se alguma coisa?
Como é que se escreve Tuppence, Albert?
T-u-p-p... e-n-c-e.
Pois, era assim que ela escrevia. Olha para isto.
“T-w-o-p-e-n...” Não é assim, pois não?
Alguém cometeu um erro. E já sei quem foi.
Mas que infâmia! Pretende matar-me?
Não se preocupe, Kramenin. Não o tenciono matar, por enquanto,
se não fizer nenhum disparate.
Quer o quê? Dinheiro?
Não. Quero a Jane Finn.
- Nunca ouvi falar dessa Jane Finn. - Diga-me já,
agora mesmo, onde a posso encontrar.
Não o farei. O que me pede é impossível.
Tem medo? De quem? Do Sr. Brown?
Ele matava-me.
Folgo em sabê-lo. Já somos dois.
Vou contar até cinco.
Se me deixar passar dos quatro,
não precisa de se preocupar com o Sr. Brown.
Um, dois,
três,
- quatro... - Não dispare!
Eu faço o que me pediu.
Onde está ela?
Na Gatehouse, em Kent.
Escute com atenção.
Vou dizer-lhe o que tem de fazer.
Bata à porta da casa e pergunte pelas raparigas.
- Eu não concordei... - Escute lá!
Vai perguntar pelas raparigas. Acho bem que o faça.
Descontraia-se.
Vou contar-lhe a história de um homem que matei, no Alasca.
O que está aqui a fazer?
Traga já as raparigas. Não há tempo a perder.
- Já sabe que o plano... - O plano mudou!
Fomos traídos. As raparigas! É a nossa única hipótese!
- Ele deu-lhe essa ordem? - Se não fosse ele, eu não viria cá.
Despache-se!
Mexa-se!
Por favor... Não é preciso...
- Quietos! - Julius!
Leve-nos daqui, Miss Tuppence.
Saia daí, Kramenin. Quietos!
Eu disse “quietos”!
Apanhem-nos, idiotas!
Não os deixem fugir!
- A Miss Tuppence está bem? - É claro que estou!
Onde está o Tommy? E quem é este?
O Tommy vai a caminho do Arizona.
- O quê? - Pensou que você tinha batido a bota.
Encolham-se.
Apresento-lhe o Monsieur Kramenin.
Convenci-o a vir connosco, para bem da sua saúde.
Eles sabem que os traí. Não duro uma hora neste país.
Aconselho-o a partir para a Rússia. E bem depressa!
Pare, Miss Tuppence!
Parem!
Parem!
- A Annette está bem? - Chama-lhe Annette?
- Ela não se chama Annette? - Esta é a verdadeira Jane Finn.
Deixem-me sair. Eles andam atrás de mim. Assim vocês não correm perigo.
Não tem problemas de memória, pois não?
Andou a enganá-los. Escute bem, prima Jane:
Vim à Europa para a tentar encontrar, e não me vou embora sem você.
Para a esquerda ou para a direita, Julius?
Para a direita.
- Desculpe lá. - Tommy!
Olá.
- De onde saiu você, Beresford? - Estava nos arbustos.
Vim agarrado ali atrás. Iam tão depressa que não vos pude avisar.
Eles não têm pontaria nenhuma. Saiam lá, meninas.
- Sair? - Há ali uma estação.
Não basta deixar aqui o carro. Eles não caem nessa.
Não o vamos deixar.
Está doido. Elas não podem fugir sozinhas!
Leva-a contigo e faz o que te digo. Apanha o comboio para Londres.
Vai ter com o Sir James Peel Edgerton. Ficas em segurança com ele.
Enlouqueceu. Não saia daí, Jane!
Saiam, senão eu disparo!
Venha. Está tudo bem. Se o Tommy tem a certeza,
tem mesmo a certeza.
- Mas que raio... - Pouco barulho, Hersheimmer.
Quero dar-lhe uma palavrinha.
De início não desconfiei de nada,
mas comecei a ter medo quando ia de barco para Holyhead.
Aquela mulher, a Sra. Vandemeyer...
A Rita.
Ela tentou travar amizade comigo,
mas qualquer coisa me deixou de pé atrás.
E ela estava ao pé de mim no Lusitania,
quando o Sr. Danvers me deu os papéis.
Rasguei o embrulho de oleado,
tirei as duas páginas do tratado
e meti-as dentro de uma revista.
Porém, acabei por ficar
na carruagem da Sra. Vandemeyer.
Após uns instantes, comecei a sentir-me inquieta,
e decidi sair da carruagem.
Quando tentei sair, senti uma forte pancada na nuca...
Quando acordei
estava deitada num quarto imundo, sem janelas.
Estavam duas pessoas a falar.
Uma delas era a Sra. Vandemeyer.
Ainda não tinham encontrado os papéis,
e diziam que me iam torturar para saber onde estavam.
De repente,
tive a ideia de fingir que tinha perdido a memória.
Abri os olhos e comecei a balbuciar em francês.
Não sei onde estou...
A Sra. Vandemeyer chamou o homem com quem tinha estado a falar.
Ele perguntou-me o meu nome, em francês.
Eu disse que não sabia, e não me lembrava de nada.
De repente, ele pegou-me no pulso e começou a torcê-lo.
Não sei se aguentaria muito mais tempo, mas, felizmente, desmaiei.
A Sra. Vandemeyer tratou-me com toda a doçura.
Disse-me que eu tinha sofrido um grande choque, e estava muito doente.
Depois saiu do quarto.
Eu vi o meu casaco, na cadeira.
A revista continuava ali, no bolso.
Levantei-me sem fazer barulho.
Com todo o cuidado, peguei num dos quatros,
o da Marguerite com o guarda-joias.
A parte de trás do quadro estava solta.
Tirei o tratado da revista
e enfiei-o entre a tela e a parte de trás do quadro.
Então os papéis continuam nesse quadro. Temos de os ir buscar.
- Hoje? - Amanhã pode ser tarde demais.
E, se formos hoje, talvez possamos capturar o Sr. Brown.
Ele deve estar à espera que o levemos ao tratado.
Deve pensar que não corre grande perigo,
pois faz-se passar por um amigo nosso.
Sabe quem é o Sr. Brown, não sabe?
Há já algum tempo que não tenho dúvidas.
Desde a morte misteriosa da Sra. Vandemeyer.
A lógica deixou-nos duas hipóteses.
Ou ela tomou o hidrato de cloral ou então...
- Sim? - ...deitaram-lho no brandy.
Só três pessoas tocaram no brandy.
A Miss Tuppence, eu e...
outra pessoa.
O Julius!
Quer dizer que o Julius é o Sr. Brown?
- O Julius, o meu primo? - Ele não é seu primo.
O homem que se faz passar por Julius Hersheimmer não é seu parente.
Não acredito.
O verdadeiro Julius veio à sua procura, sem dúvida.
Mas o seu corpo foi encontrado em Nova lorque, há três semanas,
mal vestido, com o rosto desfigurado para que não fosse identificado.
O Julius Hersheimmer deixara de existir.
O Sr. Brown tomou o lugar dele.
Lá em cima.
A Polícia está certa de que ainda ninguém entrou na casa.
E quem tentar entrar depois de nós será imediatamente preso.
Já o temos. Por fim...
Pois é.
Conseguimos.
A nossa jovem amiga esteve aqui presa imenso tempo, não foi?
É um quarto sinistro.
Repare que não há janelas, e a porta é muito grossa.
O que teve lugar aqui nunca seria ouvido lá fora.
A Miss Tuppence pressentiu o perigo.
E a Miss Finn também.
Sentem-se...
como todos nos sentimos...
na presença do Sr. Brown.
Nesta casa?
Neste quarto.
Você!
É verdade, Miss Tuppence. Sou o Sr. Brown.
Acabou de dizer “Conseguimos”, mas quem conseguiu fui eu.
O tratado é meu.
E, daqui a dois dias, este país será meu.
Isso é de loucos.
Poder absoluto. Será um sonho assim tão tresloucado?
Muitos homens sonharam com isso. Eu serei o primeiro a concretizá-lo.
Nunca o vai conseguir.
As pessoas confiam em mim.
Você confiou, e o seu amigo Tommy também.
Só o americano é que não, mas trataremos dele em breve.
E nós?
Não sairão deste quarto com vida.
Quer saber como tudo se passará?
Mais cedo ou mais tarde, a Polícia dará com as três vítimas do Sr. Brown.
Três, e não duas.
Felizmente, a terceira estará apenas ferida,
e poderá descrever pormenorizadamente o ataque.
E o tratado, como é óbvio, está nas mãos do assassino, o Sr. Brown.
Levou-me à certa uma vez.
Não o voltará a fazer!
Você!
Ave Caesar. (Salve, César)
Te Morituri Salutant. (Os que vão morrer te saúdam)
Beresford, Beresford... Quando foi que pensou que o vilão era eu?
Percebi, tal como você, que se a Sra. Vandemeyer não cometeu suicídio,
só duas pessoas a podiam ter morto: O Sir James,
uma pessoa, à partida, acima de qualquer suspeita;
E você, de quem sabíamos muito pouco.
Sabíamos que era o terceiro homem mais rico da América.
Sabíamos que dizia sê-lo. Desculpe lá, Julius.
E então encontrei a foto da Annette na gaveta,
e vi logo que tinha de ser a Jane Finn, mesmo que você não o soubesse.
Mas disse-me que a fotografia fora levada pelo Inspetor Brown.
- E foi o que aconteceu. - Então como é que a recuperou?
- Pode não acreditar, mas encontrei-a. - No cofre da Sra. Vandemeyer?
- Exato. - Vi logo que tinha encontrado algo.
O que sempre me intrigou foi o facto de me terem associado ao Ritz.
À partida, só três pessoas sabiam que eu lá estivera.
A Tuppence, o Julius e o Sr. Carter.
Só quando fui libertado é que percebi que outra pessoa o sabia: O Sir James.
E foi logo após lhe terem contado que deram a ordem para me matar.
Não conseguia decidir: Seria o Sir James ou o Julius?
Eu tinha uma vantagem clara. Sabia que não era eu.
Pois, mas eu mantive as opções em aberto.
Deixei-lhe a mensagem sobre o Arizona para você pensar que estava à vontade.
Depois fui ter com o Sir James e contei-lhe tudo o que sabia.
Tudo?
Não lhe disse onde supunha que o tratado se encontrava.
Quando é que percebeu que o Julius estava inocente?
Quando recebi o bilhete falsificado. Vinha impresso, e não escrito à mão,
mas foi a assinatura que me convenceu. Tuppence...
Bem pensado, Tommy.
É assim que se escreve: “T-w-o-p-e-n-c-e”.
Mas só alguém que nunca viu a tua assinatura é que o escreveria assim.
O Julius já a vira. Mandaste-lhe um bilhete, uma vez.
Como é que sabes?
Há muita coisa que tu não sabes que eu sei.
Se sabia que não era o Julius, por que razão lhe apontou a arma?
Se o Sir James não fosse apanhado em flagrante,
o Sr. Carter não acreditaria na minha palavra.
É verdade. Envergonho-me desse facto, mas tem razão.
As raparigas tinham de levar o Sir James àquela casa
e ao quadro da Marguerite. No caminho para cima,
expliquei tudo ao Julius.
Disse que eu não acreditaria que o Sir James era culpado
a não ser que fosse apanhado em flagrante.
Ele era um velho amigo, muito chegado,
mas eu não sabia que era, também, um louco.
Estão aqui, no diário dele,
os pormenores do golpe que a vossa coragem evitou.
Já não vai haver greve geral nem revolução,
muito embora essa ameaça tenha pairado sobre este país.
Bem... Proponho um brinde.
À nossa parceria,
cuja justificação encontramos na vitória.
- À parceria. - À parceria.
Obrigada.
- Foi divertido, não foi? - Bastante.
- Eu gosto do Julius. - Não te podes casar com ele, ouviste?
Proíbo-o. Nem pensar. Percebes?
Ele não se quer casar comigo. Só me pediu a mão por delicadeza.
- A sério? - É isso mesmo.
Está doidinho pela Jane.
Deve estar agora a pedi-la em casamento.
Ficam muito bem um para o outro.
Não achas que ela é a criatura mais encantadora do mundo?
Suponho que seja.
Mas eu suponho que tu preferes a “prata da casa”.
Eu...
Que se dane, Tuppence. Tu sabes bem...
E o que vais fazer agora?
Como o teu tio te vai dar uma mesada,
vais aceitar a oferta do Carter
ou o convite do Julius para trabalhar na América?
Vou ficar aqui pelo Velho Mundo, mas o Hersheimmer foi muito amável.
E acho que te vais sentir melhor aqui em Londres.
O que tenho eu a ver com isso? Não percebo.
Percebo eu.
Tuppence...
Meu velho...
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