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Zulu
Ei!
Pode abastecer?
Completa, por favor.
O que foi?
Olha, põe 150 e limpa o para-brisas.
O quê?
Tá arrancando!
Tá solto.
Não tá solto, para aí!
Deixa assim!
Quero pagar.
150.
Sim, já sei.
Não posso pagar agora.
Que novidade.
Vamos ver se esta peça funciona.
O problema não são as peças que eu te trago...
É a “peça” que mexe no motor.
Quer um mate?
Não, experimenta logo essa merda aí.
Vamos ver.
Caralho!
Atenção, passageiros.
Ônibus para Santiago sai em cinco minutos.
Atenção, passageiros.
Último chamado do ônibus para Santiago.
Sinto muito, mas daqui não saem ônibus.
Não vendemos passagens.
Oi, pai! Como vai?
Ele não fala, vó.
Bom, pai, eu vou desligar. Tchau.
Parece que "Defunta Correa" me deu um presente.
Sabe quem é "Defunta Correa"?
Não tem nem ideia de quem é "Defunta Correa"?
Pra onde vai?
É a pergunta que estou te fazendo: pra onde vai?
Parece que, quanto mais longe do Brasil, melhor, não é?
Mas o que faz uma mulher tão linda como você...
Sozinha aqui?
"Indo pra Santiago"... Você ganhou na loteria comigo.
Sabe por quê?
Primeiro, porque nesta estrada...
Ninguém dá carona pra ninguém.
Todos têm problemas com as companhias seguradoras...
Estão fodidos.
Eu não!
Este caminhão é meu e carrego quem quero.
E segundo...
Porque aonde estou indo?
A Santiago!
Direto pra Santiago.
Descansa tranquila!
Temos duzentos quilômetros até Ponte Del Inca.
Descansa que eu te aviso.
Acorda!
Vai te foder.
Levanta, vagabundo.
Tem café?
Vai fazer.
Você tá jogado, hein?
Não enche o saco!
Trouxe a peça?
Amanhã.
Tô só de passagem.
Faz um café!
Vai à merda.
É um desvio, vou passar em um posto de gasolina...
E já voltamos para a Rota 7.
É o mesmo caminho.
Para! Para! Fecha a porta!
Eu paro! Eu paro, mas fecha a porta!
Te acalma! Te acalma, não aconteceu nada!
Vai ficar aqui sozinha?!
Aqui é um deserto!
Quando chegar a noite, vai congelar!
Sabe de uma coisa? Tô indo.
Quase me faz virar o caminhão! Vai te foder! Tô indo!
Tá bom...
Não te acostuma.
Não sendo eu quem faz, já gosto.
Põe 50... 50 litros.
"25"?
Leon?
Lembra de mim?
Tenente Javier!
Sim.
O que faz aqui, Leon?
O que faz aqui?
- Tudo bem. - Te encontrar aqui!
Tem visto alguém mais do pelotão?
Não, ninguém.
Tá bem assim!
E aí, casou? Teve filhos?
O que faz aqui? Por quê?
Por que o quê?
Por que veio pra cá? No meio do nada!
Eu tô bem.
Você tá bem?
Sim, sim.
Tem certeza de que tá bem?
Aos sobreviventes!
Vou pegar uma carga em Santiago...
Mas já é um pouco tarde.
Tem algum lugar para dormir?
Sim, pode ficar aqui.
Serviço completo!
Não sei se tá bom, mas é o que temos.
As coisas andam difíceis pra todo mundo...
Não é nem um nem dois que se ferraram.
Eu terminei com este caminhão e você aqui.
Quando voltamos, não podia nem...
Nem chegar perto do quartel.
Mandei tudo à merda.
Até minha mulher.
Mudei tudo...
Deixei o exército...
E comprei dois caminhões novinhos.
Depois as coisas não andaram bem...
Tive que vender um caminhão...
E fiquei com este.
E você, como veio parar aqui?
Meu velho morreu no Uruguai.
Claro, você é uruguaio...
Mas não nasceu no Uruguai...
Senão...
Não teria ido pra aquela merda.
Vendi o que ele me deixou e comprei este posto.
Eu acho que tenho uma surpresa pra você.
Lembra?
O caralho do frio que tava este dia?
Gonzalo.
Coitado.
Um bom garoto.
Já vão pra mais de trezentos que se mataram...
É sua.
É sua.
Não, obrigado.
É sua!
Quantas você tem?
Nenhuma.
Então? Fica, é sua, faço questão.
Obrigado.
Preciso de uma cama.
Não vai me ajudar a terminar esta garrafa?
Termina você.
Depois fecha as janelas e a porta quando for dormir.
Obrigado, Leon.
Perdoa-me, companheiro, mas esses são tempos difíceis.
O que tá fazendo aqui?
Ali.
Não, aí não. Lá.
Tudo bem, mas agora vai.
Você é que não entende.
Já tomou água, agora vai.
Eu não tô entendendo nada do que você diz.
O que tá fazendo? Tem que ir!
Já tomou água, agora cai fora!
Quer mais água?
Se quer, pode vir pegar!
Já comeu?
Pode ficar, se quiser...
Mas só por esta noite.
Amanhã, você vai.
Não, não sei.
Quer comer?
Como vai fazer pra ir?
Como vai fazer pra ir?
“Carona”?
Experimenta esta.
Ontem, queimei a “junta do motor”.
Caralho...
Se não sabe...
Pra que merda se mete?
É brasileira como você.
Tá frio.
Tá bem, vou esquentar a água...
Pra que a "senhorita" não reclame.
Faz um novo.
Esta erva tá lavada.
Alguma "coisinha" a mais?
Me faz gastar erva pra nada...
Esta erva asquerosa, caralho.
Fica com esta peça.
Amanhã trago o que falta.
Precisa alguma coisa da cidade?
Quer almoçar?
Nem louco.
Quer almoçar?
É muito difícil pra você falar em espanhol?
Silas.
O nome dele é Silas.
Como? Quando? Onde? Por quê?
Tá fazendo muita pergunta, "brasilera".
Completa o tanque?
Não.
Sim, era.
Olha.
Tá tudo bem.
Você fez a comida, ficou boa...
Mas amanhã tem que ir.
Eu não te fiz nenhuma pergunta...
E você não para de me fazer perguntas...
E ainda insiste em falar em português...
Caralho.
E hoje, queimou o quê?
Vai te foder.
Vou experimentar.
Não tem comida, nem mate pra você hoje.
Já que insiste...
Almoço!
Claro, linda, te levo aonde você quiser...
Não, "gracias".
Lava estas mãos! Parece um porco.
Não fode.
Esta comida é igual aos teus mates.
Tua conterrânea gosta.
Puta que pariu...
Chama esta mulher, caralho.
Dá um prato de comida...
Vai que ela fica.
Tá ficando tempo demais.
Já te disse: nem todas as mulheres são como a...
Tô bem assim!
Cala a boca!
Experimentou?
Sim, tá funcionando, mas...
Pode ficar até amanhã, se quiser...
E esperar uma carona.
Tá quente ainda.
Quer mais?
Tchau, pai.
Um beijo.
Ana, este posto não tem trabalho nem pra uma pessoa.
Não.
A borracharia fechou há anos.
Existirá alguém no mundo...
Neste momento, pensando em nós?
Em dois "losers"?
Dois "perdedores"?
Sim, assim os ingleses nos chamavam...
E isto é o que somos:
Os “perdedores” da cordilheira... Da "Garganta Del Diablo"!
Quê?
É como você diz, Ana.
Aquelas coisas que a gente faz...
Não sei.
Filhos, família, mulher...
Guerra...
A volta foi difícil, sabe?
Eles disseram que fomos nós que perdemos a guerra.
Nós éramos jovens, mal sabíamos de guerra...
Nem quem eram os ingleses. Não sabíamos de nada.
A única coisa que tínhamos era fome.
Tínhamos fome de tudo.
De comida, de cigarros, de roupa...
Sabe o que eu sinto?
Que me tiraram a dignidade, entendeu?
Me tiraram o direito de me sentir um ser humano.
Depois tudo foi pior.
Tudo foi pior.
Casei com uma louca de merda...
Que me abandonou com meu filho...
E eu não sabia como cuidar dele.
Deixei ele com a minha mãe...
E agora...
Sinto uma coisa aqui dentro de mim que...
Não sei o que fazer com isso que sinto, entende?
Eu tento falar com ele, tento, mas não sai nada...
Não me sai nada...
Posso entrar?
Deixei o óleo.
Eu quero fazer uma surpresa pro meu filho.
Vou ligar.
Não sei, me parece que...
Agora tenho força pra falar com ele. Coisas pra contar.
Ele nem sabe que houve uma guerra.
Ele não sabe que eu estive lá...
Mas eu vou dizer.
Eu tinha um companheiro.
Gonzalo.
Era um bom cara, meu único amigo na guerra.
Naquela merda todo mundo estava...
Cuidando de si mesmo.
Estávamos em uma trincheira e nos bombardearam.
Não posso esquecer do medo.
Estava desesperado, porque queria ir e fui, escapei.
Gonzalo ficou.
Encontraram cinco dias depois...
Congelado.
Cesar tem que saber sobre isso.
Eu não tenho país.
Só falo este idioma porque não sei falar outro.
A última coisa que sobra da pátria é a língua...
Nada mais.
É uma lenda.
Ela seguiu seu marido na guerra com um bebê nos braços...
E no meio do deserto, perto de San Juan...
Terminou a água e ela morreu de sede.
Dizem que o bebê se salvou tomando leite do seu peito.
É só uma história velha.
Uma lenda, Ana.
As pessoas põem garrafas de água...
Nas cruzes que tem na beira das estradas.
É coisa de caminhoneiros.
Como está?
É difícil falar, não?
Pai, é você?
Sou eu, Cesar! Tudo bem, pai?
Sim, eu também estive tentando te ligar, mas não dava...
Tudo bem, pai, te entendo.
Que bom que me atendeu...
Atendeu, vó!
Manda um beijo pra tua avó também.
E o posto, vai bem?
Com muito trabalho?
Vai bem, vai bem...
Às vezes para um caminhão aqui.
E você...
Como vai com os estudos?
Bem...
Estudando bastante.
Fico feliz.
Bem, pai, tenho que ir fazer umas compras com a vó.
Sim, tá bem.
Sim, tá bem.
Gosto muito de você.
Eu também.
Um beijo.
Tá pensando mesmo em ir?
O que faz a tua família no Chile?
E por que vai?
Por que não fica aqui?
Aqui pode recomeçar...
Pra que vai, pra recuperar tua vida medíocre?
A vida que tu tinhas?
Grosseiro não.
Sincero.
Eu pensei que nestes dias alguma coisa havia mudado.
Como foi?
Então, vai mesmo?
Oi.
Oi, pai.
Filho, o que aconteceu?
Nada, só queria ver se você me atendia...
E se está bem.
Tô bem sim, muito bem.
Te liguei pra saber se estava bem, então...
Não, não, espera!
Não desliga.
O que você comeu hoje?
Não sei, não lembro, por quê?
Sabe que eu também não me lembro?
E que calça você usou ontem?
Não tenho a menor ideia.
E que sapato você usou?
Tênis, pai.
Que tênis?
Sabe que também não lembro?
Acho que o de sempre.
Te lembra deste jogo?
Sim, lembro.
É incrível...
Era tão pequeno...
Bem, pai, vou desligar. Tenho que sair.
Tá bem. Tá bem.
Te amo muito, sabe?
Eu também te amo muito.
Te cuida.
Há manchas que não saem nunca.
Você sabe que é uma viagem só de ida, não?
Soube que te levo a Uspallata.
Pai. É feriado posso ficar com você até segunda?
Posso, vó?
Claro.
Por favor, vamos.
Nunca mais viu a tua mãe?
Não e nem quero.
Por quê?
Porque ela nunca me deu seu número...
E você prefiro ligar pra você, que...
Se não fala, ao menos me atende.
Filho...
É verdade. Você é meio doido...
Mas eu sei quem é, entende?
Olha, prometo uma coisa:
A partir de agora...
Cada vez que me chamar vou atender, está bem?
E tua avó?
Ela está meio magoada com você, porque...
Sim, porque sumi.
Porque me fui, mas não fugi, não fugi...
Só me pareceu que ela era a melhor pessoa...
Pra cuidar de você.
Ela não fala, ela não diz, mas ela te ama muito.
O que tá fazendo aqui?
Vamos atrás dela?
O quê?
Te acompanho.
Em quatro horas estamos em Santiago.
Não, ela nunca me ligou.
E você? Ligou?
De moto?
Sim...
Amanhã, às oito.
Não sei aonde ir. Você tem o endereço?
Vamos encontrar na vinícola...
Eu passo às oito.
O Silas?
Sim, Silas. Um contrabandista de peças de moto.
A última coisa que sobra da pátria é a língua.
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