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Não Reconciliados ou Só a Violência Ajuda onde Reina a Violência
Baseado no Romance "Billard um halbzehn", de Heinrich Böll
"Em vez de querer mostrar que improvisa,
o ator deve, antes, mostrar o que é a verdade: ele cita."
Bertolt Brecht
Dizer o quê, garoto?
Por três vezes eu vi jogarem a bola
com toda força em seu rosto, em suas pernas, em suas costas.
Nettlinger arriscara nossas chances de vitória
só para que um dos oponentes tivesse a chance
de atingir Schrella com a bola.
E Vacano, nosso próprio treinador,
a quem a Escola Prinz Otto aceitou como árbitro,
devia ser cúmplice deles.
Por que faziam isso a Schrella?
Fazê-lo tropeçar enquanto descia as escadas no intervalo,
cair em cima dele na volta para casa, arrastá-lo porta adentro,
espancá-lo entre as latas de lixo e carrinhos abandonados,
empurrá-lo para o porão escada abaixo.
Poucos não participavam disso: Enders, Drischka, Schweugel,
Grew e Holten.
-Você é judia? -Não.
O que você é, afinal?
Somos Cordeiros e juramos nunca provar do Sacramento de Búfalo.
"Cordeiros"?
Quero saber direito o que é.
Vou lhe mostrar. Venha.
Acontecia lá embaixo nos antigos galpões perto da Wilhelmskuhle.
Vacano e Nettlinger,
chamavam-na de sua polícia auxiliar.
Pegaram-me durante uma busca por mendigos no distrito do porto.
Trinta e oito mendigos foram presos naquele dia.
Eu era um deles.
Fomos interrogados com um chicote.
Eles diziam: "Admita que você é uma mendiga."
E eu dizia: "Sim, eu sou."
Traga-me um conhaque, por favor.
Um conhaque para o senhor lá em cima.
Como vamos redimir o mundo?
Com lã de ovelha, couro de ovelha,
leite de ovelha e tricô.
Onde reside a salvação dos homens?
Nas ovelhas.
Por que não quer ser um Cordeiro de Deus
em minha nova religião, seu bobo?
Vou fazer de você um grande homem, rico.
Vão se ajoelhar diante de você nos corredores dos hotéis mais finos.
Vá embora, você é um bobo.
Pelo menos 17 mulheres, velhas e novas, estão esperando por você.
Acabe logo com isso, aí vem outro.
Amor, meu garoto, eu nunca soube o que é.
Teriam-me envenenado, se tivessem tido coragem.
Eles me chamavam de...
"aquela coisa que não devia ter nascido".
A história ainda continua?
Você quer ouvi-la?
"Ferdinand Progulske, aprendiz, nascido em 1º de maio de 1917, em Colônia,
foi decapitado hoje, às 7:30h.
O Primeiro-Ministro rejeitou o pedido de indulto,
alegando tratar-se de uma emboscada organizada pelo submundo comunista."
Ele esgueirou-se para dentro do apartamento de Vacano
e lançou a bomba aos seus pés.
Vacano queimou apenas os pés.
Você ainda está vindo para o Café Zons?
Está vindo ou não?
Eu o havia feito.
Havia ido com Schrella para o pequeno Café Zons na Rua Boisseree,
onde os Cordeiros se encontravam.
E havia jurado a uma jovem chamada Edith,
jurado solenemente,
nunca provar do Sacramento de Búfalo.
Então fiz um discurso no quarto escuro dos fundos,
com palavras obscuras que não se pareciam com as de um Cordeiro,
mas com sangue, rebelião e vingança.
Nettlinger esperava por mim do lado de fora,
e eles me levaram para Wilhelmskuhle.
Nettlinger bateu violentamente.
Veio até minha cela ao amanhecer e disse:
"Suma daqui. Fuja.
Mas só posso lhe dar uma hora.
Em uma hora vou denunciá-lo à polícia."
Corri ao redor da cidade até o porto.
Jovem, este caminho não leva a lugar algum.
-Para sua casa. -Venha até aqui.
Você é... Eu sei quem você é, mas esqueci seu nome.
Fähmel.
Claro, estão atrás de você.
Anunciaram nesta manhã, nas primeiras notícias.
Vocês tiveram que lançar bombas.
Tiveram que se organizar.
Ontem mesmo, eu escondi um de vocês
e o fiz atravessar a fronteira.
Ontem? Quem?
Schrella, ele se escondeu aqui,
e tive que forçá-lo a partir com o "Anna Katharina".
O que foi? O que você tem?
-Mais leite, garoto? -Não, obrigado.
Não se preocupe, Aloïs virá depois de amanhã.
Na segunda ou terça-feira você estará em Roterdã.
Eles irão matá-lo.
Não se esqueça de nós, jovem.
-O que posso fazer por você, senhor...? -Nettlinger.
Preciso falar com o dr. Fähmel.
Urgentemente. Agora mesmo. Oficialmente.
"Disponível apenas para minha mãe, meu pai, minha filha,
meu filho e para o sr. Schrella. Ninguém mais."
Sei que ele está aqui.
Quero falar com o gerente.
À esquerda, depois, a segunda porta à direita.
Gostaria de ser anunciado.
O senhor diretor, por favor. O porteiro falando.
Sr. diretor, o senhor... Qual é mesmo seu nome?
Nettlinger... desculpe, o dr. Nettlinger, deseja falar com você urgentemente.
Sim, obrigado.
O sr. diretor o aguarda.
-Você participou da guerra? -Sim.
O que fez?
Era especialista em demolição.
Isso lhe diz alguma coisa?
Eu vi explodirem rochas
na pedreira atrás do Denklingen.
Era exatamente o que fazia,
mas não explodia rochas.
Explodia pontes e blocos de apartamentos,
igrejas e viadutos,
casarões e cruzamentos.
E no fim da guerra, fui subordinado a um general
que só tinha uma coisa na cabeça: "campo de tiro".
Você sabe o que é "campo de tiro"?
Veja, se eu quisesse atingir agora a ponte
que está atrás da Sankt Severin,
a igreja também estaria no meu "campo de tiro",
e teria que ser explodida também.
Assim, eu poderia atingir a ponte,
mandando a Sankt Severin pelos ares.
Eu tinha uma boa equipe comigo, físicos e arquitetos,
e explodíamos o que quer que estivesse em nossa frente.
A última foi a Abadia de Sankt Anton, que fora construída por meu pai.
Ela estava bem entre dois exércitos,
um alemão e um americano.
Eu consegui para o exército alemão
o "campo de tiro", de que ele nem precisava.
O sr. diretor pergunta se você irá receber o dr. Nettlinger.
Você vai receber alguém chamado Nettlinger?
Não.
Colega de escola de Robert,
conselheiro ministerial, diretor, dirigente.
E você o mandou para o Hotel Prinz Heinrich.
Ele não gosta quando o incomodam, meu filho Robert.
Mas, minha criança, ele não vai lhe fazer nada por isso.
Venha.
Vamos comer.
E comemorar um pouco o meu aniversário.
“Prisão municipal”
Aonde você quer ser levado?
Para a estação de trem.
Você já está pensando em deixar esta cidade tão hospitaleira?
Não, ainda não estou pensando em deixar esta cidade tão hospitaleira.
Foi um acidente terrível
seu nome ainda constar na lista de procurados.
Tentativas de homicídios prescrevem depois de 20 anos.
Tentativas de homicídio?
Sim, o que você tentou contra Vacano é classificado assim.
Provavelmente você não sabe que não tive parte alguma nisso.
Nunca aprovei este caso.
Bom, muito melhor assim.
Tudo o que pude fazer foi testemunhar a seu favor
e conseguir sua liberdade provisória.
Agora, o resto é mera formalidade.
Você ainda é cidadão alemão?
Não, sou apátrida.
Uma pena. Se você pudesse provar que fugiu
não por motivos criminais, mas políticos,
poderia conseguir uma boa quantia como indenização.
Diga-me se precisar de dinheiro.
Você não vai muito longe com o que tem.
Obrigado, não preciso de nada.
Posso pelo menos convidá-lo para comer?
Certo, vamos comer.
Frango.
Vou querer o entrecôte.
E salmão defumado?
Não, obrigado.
Para mim, sim.
Está perdendo algo realmente muito bom.
Para beber?
-Vou querer Beaujolais. -Cerveja.
Ódio político impiedoso entre colegas de escola,
perseguição, interrogatório, ódio, sangue derramado...
Mas, 20 anos depois, é, de todos, o perseguidor atroz
quem resgata da prisão o refugiado que volta ao país.
É uma pena que você pense que duvido
da sinceridade de seus motivos e sentimentos.
Eu não duvido nem mesmo de seu arrependimento.
Mas o papel que você desempenhava naquela época é o mesmo de agora.
Talvez você não saiba o que fiz para sua irmã.
Você protegeu Edith?
Sim.
Vacano queria prendê-la.
Ele a colocou na lista várias vezes,
e em todas eu retirei seu nome.
Suas boas ações são quase mais assustadoras do que seus crimes.
E você é mais impiedoso do que Deus.
Não somos Deus,
e não podemos clamar por sua piedade
mais do que por sua onisciência.
Por acaso vai deixar levarem de volta esse salmão maravilhoso?
Claro,
mas você não pode.
Ouça o que o filho de um garçom tem a lhe dizer.
Um homem realmente distinto nunca cede à tirania dos garçons.
A propósito, Vacano ainda está vivo?
Claro, tem apenas 58.
E... é um dos incorrigíveis.
E você?
Se pudesse ao menos me entender...
Sou um democrata. E o sou por convicção.
-O que aconteceu a Trischler? -Trischler?
O velho Trischler que vivia lá embaixo, no porto.
Não se lembra nem de Aloïs, que era de nossa turma?
Agora eu me lembro.
Procuramos por Aloïs durante semanas, sem encontrá-lo.
E quem interrogou o velho Trischler foi o próprio Vacano.
Mas não lhe arrancou nada, nada mesmo.
Nem da mulher.
O distrito lá embaixo era bombardeado frequentemente.
Qual o problema, o que está fazendo?
Poderia embrulhar isto sem deixar que a gordura vaze?
-Claro. As batatas também, senhor? -Não, obrigado.
Você iria preferir que eu lhe matasse?
Não suporto mais.
A gordura não vazou. Está embrulhado em celofane.
Obrigado.
Quantos cafés da manhã no Café Kroner?
Dez mil, vinte mil? Nunca fiz as contas.
Bom dia, senhor. Café da manhã?
Sim, por favor. Uma jarra pequena de café,
com três xícaras de café, por favor.
Torradas, duas fatias de pão preto, manteiga,
marmelada, um ovo cozido,
e queijo de páprica.
"Queijo de páprica"?
Sim, queijo misturado com páprica.
Muito bem.
E ouça, garçom, vou tomar meu café da manhã aqui amanhã,
depois de amanhã, e no dia seguinte.
Por três semanas, três meses e três anos, ouviu?
E sempre na mesma hora, por volta das nove.
Muito bem.
Aluguei uma sala e um estúdio por meio ano, pagando adiantado.
"Anúncio de premiação. Sankt Anton. Projeto de Heinrich Fähmel."
Havia três na minha frente.
Toda as crianças sabiam os nomes deles.
Brehmockel, Grumpeter, Wollersein.
"Hoje, prazo final para o projeto de Sankt Anton.
"Nossos jovens arquitetos não estão com coragem?"
Dizia o jornal.
Quero entregar um projeto ao oficial.
Competição Aberta Sankt Anton.
A fama de apenas Brehmockel, Grumpeter e Wollersein,
terem me vencido bastaria para mim.
Mas o abade havia gostado de meu projeto.
Você vai sustentar isso?
Sim, vou sustentar, Reverendo.
Ele, meu senhor? Nada, a não ser trabalho.
Às 8h da manhã vai para a missa na Sankt Severin.
Café da manhã no Café Kroner até 10:30h.
Das 10h às 17h, fica em seu estúdio.
Não fala com ninguém.
Vive lá em cima à base de sopa de ervilhas,
que ele mesmo cozinha.
Recebe as ervilhas e a carne de porco de sua mãe.
Até mesmo as cebolas.
Das 5h às 6h, um passeio pela cidade.
De 6:30h às 7h, Clube dos Oficiais da Reserva.
“Queijo de páprica”? Muito interessante.
E ele desenha, até durante o café da manhã, como um possuído.
Eu ainda não conhecia minha esposa.
Vim pedir-lhe a mão de sua filha.
O imprevisto atingiu-me duramente.
Vamos encontrar o culpado.
"Fala do Imperador.
Não vejo mais partidos entre o meu povo.
Há apenas alemães dentre nós.
E qualquer partido que tenha se voltado contra mim,
eu o perdoo, de todo coração.
Agora devemos todos permanecer juntos, como irmãos,
para que Deus guie a espada alemã rumo à vitória."
Deixei meu filho Heinrich brincar com o capacete de soldado,
que seu tio havia lhe dado,
e aceitei o que o comandante da guarnição me dissera.
Sinto muito, Fähmel,
por ainda não podermos abrir mão de você,
e por você ainda não poder estar lá,
mas precisamos de alguém como você também em nosso País,
precisamos de gente exatamente como você.
Construção de quartéis, fortificações, hospitais.
A tolice imperial...
A tolice imperial, a tolice imperial...
Tribunal de Honra.
Eu não disse o que devia ter dito,
que concordava com minha esposa.
"Grávida, cavalheiro, faltam dois meses.
Uma filha pequena perdida,
dois irmãos mortos no mesmo dia:
Capitão Kilb, da Cavalaria, Oficial Kilb."
Eu não tive coragem
de rasgar o poema
que Heinrich tinha que decorar para a escola.
"Disse Peter, porteiro do Céu:
'Vou levar o assunto às esferas superiores.'
E não muito depois, ele voltou:
'Excelentíssimo Blücher, você está com sorte!
'Permissão por tempo indeterminado',
disse e abriu a porta do Céu.
'Vá, velho cavalo de batalha, e acabe com eles.
O bom Deus estará com você.'
Foi Blücher quem desceu
para guiar-nos rumo à vitória.
Avante com 'hurras' e Hindenburg!
Salvador da Prússia oriental e poderosa fortaleza.
Até onde se estendem os bosques alemães,
até onde flamulam bandeiras alemães, até onde..."
Eu deveria ter feito o que Johanna fez,
deveria ter falado com o garoto.
Em sua empolgação, ele juntou seus versos novamente.
"O bom Deus estará com você."
Johanna tentou tirá-lo de seu delírio,
chacoalhá-lo até que acordasse,
mas ele nunca mais voltou.
Avante com “hurras” e Hindenburg!
Só esse único e solitário verso estava vivo nele.
Robert não tinha dois anos, e Otto ainda não havia nascido.
Tem que me perdoar, Robert. Não pude suportar por mais tempo.
Tive que falar com Dröscher para conseguir a anistia para você.
Foi demais para nós. Seu pai, eu e Edith.
Seu filho já havia nascido.
Encontramos suas mensagens na caixa de correios:
"Não se preocupe. Estou estudando muito em Amsterdã.
Preciso de dinheiro. Entregue-o enrolado em um jornal,
a um homem chamado Groll,
garçom do 'Anchor', no porto de cima."
E, de repente, Otto não era mais Otto.
Levou para casa Nettlinger e o treinador.
Você conhece as condições que Dröscher conseguiu para você.
Nada de atividades políticas,
e ir direto para o serviço militar após os exames.
Klähm, da Estática, irá examiná-lo,
e poupá-lo de quantos semestres puder.
Mas afinal, por que quer estudar Estática?
Muito bem, como quiser.
Ele não é adorável, seu garoto?
Precisa adotá-lo imediatamente depois do casamento.
Vou providenciar um apartamento para você.
Você deve tentar reconciliar-se com Otto.
Por favor, tente. Vá, por favor.
Nem a notícia de sua morte trouxe uma reconciliação.
Morto em Kiev.
Filhos dos mesmos pais,
nascidos e criados na mesma casa,
tendo ido para a mesma escola.
E, de repente, nem estranhos são mais.
Por trás da testa larga e pálida de Otto
encontrava-se o poder em sua forma mais simples.
Poder sobre colegas de escola assustados,
sobre transeuntes que não saudavam a bandeira.
Teria entregado a própria mãe para a forca.
Você falou com Otto agora? Sem sucesso?
Eu sabia, mas devemos continuar tentando,
sempre e sempre.
Talvez haja apenas uma maneira de libertá-lo.
Eu hei de conseguir, Robert. Hei de ser o instrumento do Senhor.
Tenho paciência, o tempo não me pressiona.
Não é pólvora com papel,
mas pólvora com chumbo o que se deve usar.
Fogos de artifício não matam, meu garoto.
Você devia ter me perguntado.
Agora, ele se tornou chefe de polícia.
Não ache que esteja louca.
Sei exatamente onde estamos.
É a guerra.
O tempo é medido pelas promoções.
Você era Tenente quando saiu.
Depois de dois anos, Primeiro-tenente.
Ainda não é Capitão.
Desta vez não vão fazê-lo antes de dois anos,
talvez demore seis,
e você será Major.
Não vá muito longe com estas fórmulas em sua cabeça,
não perca a paciência,
nem aceite qualquer privilegio.
Não vamos comer nem uma migalha a mais
do que o que recebermos com os cartões de alimentação.
Edith está de acordo.
Eu não quis permitir que seus filhos
desfrutassem de qualquer privilégio.
Eles têm que experimentar a verdade em seus lábios.
Mas eles me separaram das crianças.
Vejo quanto tempo passou diante de mim.
Aquilo fervia, era chocante.
Pagam um milhão por um doce,
e deixam faltar três centavos para um pãozinho.
Eu não queria ouvir o nome do salvador,
mas ele deixou sua marca em suas canções,
e recitou seu cântico:
"Respeitável, respeitável, honrado, leal.
Derrotado e ainda invencível. Ordem.
Mudo como a terra, surdo como uma árvore."
E ele, meu pequeno David, dormia.
Acordou apenas quando percebeu como poderia custar uma vida
passar um pacote de dinheiro,
embrulhado em jornal, de uma mão para outra.
"Lealdade, honra, respeito", ele dizia.
Eu o adverti sobre Gretz, mas ele disse: "É inofensivo".
"Claro", eu disse, "você ainda vai ver
do que são capazes as pessoas inofensivas.
Gretz trairia a própria mãe".
Ele o fez, Robert.
Só porque ela dizia:
"É um pecado e uma vergonha". Ela não dizia mais nada,
sempre apenas essa frase.
Até que um dia, seu filho disse:
"Não posso mais suportar isso, é contra minha honra".
Arrastou a mulher embora,
e a confinou em um asilo.
Atestou sua insanidade, alegando salvar sua vida,
e foi exatamente isso o que a matou.
Deram-lhe uma injeção.
Vieram buscar Edith também,
mas não desisti dela.
Protegi Edith até que aquele pássaro a matasse.
Perdoe-me, não pude salvar o cordeiro.
Entre, traga-nos um pouco de felicidade, velho David.
Venha, vamos recitar o cântico “Weisst-du-noch?”,
e lembrarmos os anos em que vivíamos em Blessenfeld.
Você me libertou daquela casa horrível.
Eles já estavam lá,
aqueles a quem eu seria jogada:
homens de capacete, beberrões, guardiões da lei.
Vi suas mãos, seus olhos,
e orei por aquele que me libertaria,
Orei e o vi na janela do ateliê.
Se você soubesse o quanto eu o amava. Se pudesse imaginar.
Pegou os bilhetes?
Sim, mas ainda temos tempo. Sente-se.
Uma cerveja, por favor.
Gostaria muito de lhe dar um presente de aniversario, pai.
Para lhe mostrar...
Bem, talvez você saiba o que quero lhe mostrar.
Eu sei, não precisa dizê-lo.
Você contou a Ruth que queríamos ir até Sankt Anton?
Sim, ela está vindo. O abade ainda está lá?
-Qual? -Gregor.
Não, não suportou a destruição da abadia.
E você, conseguiu suportar?
Afinal, os prédios podem ser reconstruídos.
E para seu garoto, é uma grande oportunidade
para praticar um pouco,
ganhar coordenação.
Você sabe que ele tem uma namorada?
Não.
Não quero saber que tarefa Edith lhe deu,
apenas se você a cumpriu.
Sim.
Bom.
Eu ria de suas conspirações infantis,
mas o riso ficou preso em minha garganta
quando li que eles mataram o garoto.
E depois soube ainda que havia sido pouco humano.
Eu pensava ter amado e entendido sua mãe,
mas só agora a entendo e a amo,
e entendo vocês todos e amo vocês todos.
Só depois eu compreendi tudo,
quando, um dia, o comandante inglês
veio até mim para desculpar-se
por terem bombardeado a Igreja Honorarius
e destruído o crucifixo do século XII.
Eu teria dado todos os crucifixos,
de todos os séculos, até hoje,
só para ver o sorriso de Edith mais uma vez,
e sentir sua mão no meu braço.
O que importam as imagens do Senhor
comparadas ao sorriso de sua verdadeira enviada?
E para o garoto que trazia suas mensagens,
cujo rosto nunca vi, e nem mesmo soube seu nome,
teria dado a Sankt Severin,
mas sabia que seria um prêmio ridículo.
Podemos ir para a plataforma agora, pai.
Senhor Conselheiro, há anos não vem aqui.
Ah, Mull. Como você está?
Este é meu filho. Ainda não se conhecem?
Fähmel. Prazer em conhecê-lo.
Mull. Prazer em conhecê-lo.
Todos o conhecem por aqui, senhor Conselheiro.
Todos sabem que construiu a abadia,
e muitas avós ainda contam histórias a seu respeito.
Como você trouxe caminhões inteiros de cerveja para os pedreiros
e dançou na festa dos construtores.
Sua mãe ainda está viva?
Não, senhor, tivemos que deixá-la descansar.
Foi um grande funeral.
Ela teve uma vida intensa.
Sete filhos, trinta e seis netos,
onze bisnetos.
Uma vida intensa.
Eram pessoas esplêndidas.
E você não tem medo deles?
Medo de Mull? Agora?
Enquanto você esteve fora,
e esperávamos por notícias suas,
eu tinha medo de todos.
Você tem medo de Mull?
Eu me pergunto diante de cada homem se gostaria de ser entregue a ele.
E não há muitos a quem eu diria que sim.
Por aqui, pai. Por aqui.
Ele logo saiu da prisão e levou-nos para a cidade,
apesar dos protestos do vovô,
e disse que seria melhor não crescermos em meio às ruínas.
Nessa época, vivíamos todos na oficina do vovô,
porque nossa casa estava inabitável.
Havia um enorme mapa da cidade pendurado na parede da oficina.
Tudo o que havia sido destruído
estava marcado com uma caneta preta grossa,
e sempre escutávamos,
enquanto fazíamos a lição de casa, na mesa de desenho,
ele, nosso avô e outros homens parados em frente ao mapa.
Geralmente discutiam, porque ele sempre dizia:
"Tirem isso daqui. Expludam isso."
E fazia um 'X' próximo a uma marca preta.
E os outros diziam:
"Por Deus, não podemos fazer isso.
Aquilo é o que sobrou de um dintel do século XVI,
e ali, parte de uma capela do século XII".
E ele jogava a caneta preta no chão e dizia:
"Tudo bem, façam como quiserem, mas sem mim".
E os outros diziam: "Mas, senhor Fähmel,
você é nosso maior especialista em demolição,
não pode nos deixar na mão".
E ele dizia: "Pois vou lhes deixar na mão
se tiver que me preocupar com cada poleiro do Império Romano.
Expludam as coisas e espaços serão criados".
Nosso avô ria quando eles partiam e dizia:
"Meu Deus, você tem que entender seus sentimentos."
E nosso pai, rindo, dizia: "Entendo os sentimentos deles,
mas não os respeito". E, então, ele dizia:
"Venham, crianças, vamos comprar chocolates".
E ia conosco até o mercado negro.
Ele sempre comprava, mas nunca vendia.
Quando conseguíamos pão ou manteiga de Stehlingen ou Görlingen,
tínhamos que levar sua parte para a escola conosco,
e ele deixava escolhermos a quem os dar de presente.
Uma vez, no mercado negro,
compramos de volta a manteiga que havíamos dado.
A nota da senhora Kloschgrabe ainda estava lá.
Ela havia escrito: "Desculpe, esta semana, apenas um quilo".
Mas ele apenas riu e disse:
"Bem, as pessoas também precisam de dinheiro para os cigarros."
Você vai gostar dele, pequeno cordeiro.
Ótimo. Mas o que ele fez
para que você perdesse o gosto pela construção?
Por que não me conta?
Porque eu mesmo ainda não entendo o motivo.
Talvez possa lhe explicar mais tarde.
Aí vêm eles.
Outra limonada?
Não, obrigado. Seis cigarros, por favor.
Dá 90 ao todo, por favor.
Nós realmente não nos conhecemos?
Não, tenho certeza.
-Está procurando alguém? -Sim, os Schrella.
Eles não moram mais aqui?
Não, nunca moraram aqui.
Obrigado. Quer uma moeda?
Minhas palavras não terão o tom de acusação,
mas o de reconciliação.
Reconciliação também com aquelas forças
que, em seu zelo cego, destruíram nosso lar.
Permita-me, assim, estender a você o meu convite,
com a mais sincera esperança,
de que você nos dê a honra
de vir à inauguração.
Muito obrigado, padre.
Foi um prazer conhecer seu filho.
Eu pequei, pequei terrivelmente.
Não quis ver nenhum reconhecimento
brilhar nos olhos de Erika Progulske,
nem ouvir de sua boca o nome "Ferdi".
Sim, Huberts, tome um pouco de chá,
e sirva-se também de pão e frios.
Será que o jardineiro poderia trazer-me algumas flores?
Ele não está. Tem folga até amanha à noite.
E ninguém mais pode entrar na estufa?
Exatamente, senhora.
Ele é terrivelmente meticuloso quanto a isso.
Então suponho que eu deva esperar até amanha à noite,
ou ir eu mesma colher algumas flores lá fora.
A senhora deseja sair?
Sim, sem dúvida. Está uma tarde tão agradável.
Posso ir, não?
Claro, claro que pode.
Ou eu deveria telefonar para o sr. Conselheiro ou dr. Fähmel?
Eu mesma farei isso, Huberts.
-Boa noite, senhora. -Boa noite, Huberts.
Para a recepção, por favor.
"Marcha dos Combatentes
Reunião em frente ao Hotel Prinz Heinrich.
Saída às 19:00."
Hotel Prinz Heinrich.
Oh, sim, senhora.
Certamente, senhora. Quarto 212, com varanda.
Realmente acha que eles podem nos ser úteis?
-Tenho certeza. -Sem dúvida.
Mas não perderíamos mais eleitores do que ganharíamos
com uma demonstração de simpatia?
A Associação dos Combatentes é conhecida por não ser radical.
Nada a perder, só a ganhar.
Quantos votos existem lá?
Na melhor e na pior das hipóteses.
Na melhor, por volta de 80.000.
Na pior, por volta de 50.000.
O que os estrangeiros vão pensar?
Sim?
Sou eu.
Bom.
Demonstração de simpatia.
Vou descer e chamar a atenção do líder da marcha
para a sua sacada.
Vá para nosso quarto, garoto, e faça sua mala.
O que o velho vai dizer quando lhe apresentar, em seu aniversário,
um neto que traz o sorriso de Edith no rosto?
Você está certo. A voz do sangue é falsa,
só a outra é verdadeira.
Você quer morar conosco?
Não. O quarto do Hotel está bom para mim.
Desde que deixei tudo para trás,
esta cidade se tornou tão estranha quanto todas as outras.
Lá posso pensar que logo vou partir
e dar aulas de minha língua em algum lugar.
E as pessoas que conheci...
Eu estaria enganando a mim mesmo se achasse que elas são
menos más do que as que deixei para trás?
A lista de estereótipos agora é menor.
Ninguém teria pensado em chamar seu pai de comunista.
Nem mesmo Nettlinger seria tão idiota.
Hoje, eles não poderiam classificá-lo de outra maneira.
Você se lembra de Enders, o garoto ruivo?
Sim.
Tornou-se pastor.
Confinaram-no em uma cidade a que não se chega nem de trem.
Ele é suspeito porque sempre fazia do Sermão da Montanha
o tema de seus sermões.
Estava pensando em quem eu gostaria de ver novamente.
Mas fiquei com medo dos encontros,
depois de ter visto a irmã de Ferdi.
Você viu a irmã de Ferdi?
Sim, ela toma conta casa de bebidas no ponto final do número 11.
-Você nunca esteve lá? -Não.
O que gente como Schweugel faz agora?
Você está realmente interessado?
Sim, porque está perguntando se estou mesmo interessado?
Você pensa em Enders e Schweugel
nos seus quartos de hotel e pensões?
Sim, e penso em Grewe e Holten. Em Drischka também.
O que eles estão fazendo? Ainda estão vivos?
Holten morreu. Foi morto na guerra.
Mas Schweugel ainda está vivo. Ele é escritor.
Sempre fala de burgueses e não-burgueses.
Provavelmente vê a si mesmo como os últimos.
O porquê simplesmente não me interessa.
Ele também me perguntou sobre você algumas vezes.
E o que aconteceu com Grewe?
Ele é membro de algum partido, mas não me pergunte qual.
Não importa, de qualquer modo.
E Drischka está fazendo o "Drischkas AutoLöwen",
Uma patente que vai lhe render muito dinheiro.
Enquanto eu estava sentado lá embaixo esperando,
algumas pessoas tinham acabado de se reunir para um banquete.
E ouvi algo sobre "oposição".
Elas ficavam murmurando entre si, com medo,
o nome da estrela a quem esperavam, Kretz.
Kretz é uma espécie de estrela da Oposição de Esquerda.
Eu o vi, ele chegou tarde.
Se ele é a esperança,
gostaria de saber quem é o desespero.
Temos que ir logo até meu pai.
Ou você prefere não ir à celebração?
Sim, eu vou.
Temos que esperar pelo garoto.
Os Trischlers estão mesmo mortos?
Sim. Aloïs também.
Ele quis levá-los no "Anna Katharina" até amigos na Holanda.
O barco foi bombardeado.
Aloïs tentou tirar seus pais das amarras do barco,
mas foi tarde demais.
A água já entrava por cima, e eles nunca saíram.
Onde você ouviu isso?
No "Anchor".
Eu ia lá todos os dias,
e perguntei a todos os barqueiros até achar um que soubesse de algo.
Estou com medo.
Nem mesmo em 1935 ou 42
eu me senti tão estranha entre as pessoas.
Mas o que você quer fazer em relação a isso?
Quero atirar no homem gordo no cavalo branco lá embaixo.
Ainda se lembra dele?
Acha que eu me esqueceria?
Tanto faz, eu não atiraria nele.
Olhe lá, nosso velho amigo Nettlinger.
Eu atiraria nele mais do que em qualquer outro.
Mas talvez você considere isto:
o assassino de seu neto está sentado na próxima varanda.
Você o vê?
Vou me amparar no parágrafo 51, querido.
Talvez você não saiba que tudo isto
deve-se ao entusiasmo do pai com explosões.
Quando estavam explodindo a antiga prisão,
uma das abóbadas desabou.
Viva a dinamite!
Lembra-se de como o pai era feliz
quando ainda podia explodir as coisas?
O que acha dele, Marianne?
Você gosta dele?
Sim, gosto muito dele.
Estou faminta!
Tenho certeza de que nosso avô pediu algo bom para nós.
Então vocês ainda não sabem?
Algo terrível deve ter acontecido!
Seu avô cancelou a festa.
Acabou de ligar do Prinz Heinrich.
Não posso ajudar, crianças. Não posso ficar triste.
Ela vai voltar e ficar conosco.
Ele não foi ferido mortalmente,
e espero que o grande espanto
não desapareça novamente de seu rosto.
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