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"Cap. II - Onde se conta como Petra se introduziu no mundo de Jaume"
Deves estar cansada da viagem.
N�o, parei em Barcelona, passei l� a noite.
Boa. Foi melhor. Sen�o a viagem � muito comprida.
- � por aqui? - Sim.
O quarto � este.
- Que bonito! - Sim, � grande.
Pus-te uma manta.
Agora n�o est� frio, mas � noite arrefece.
Al�m disso, este quarto � um bocado...
Esta zona da casa � mais h�mida.
Sim, nota-se.
- Se te incomodar, tiras. - Fant�stico.
Tens ali um arm�rio para guardar coisas, e tamb�m podes usar a c�moda.
- Posso us�-la? - Sim, claro.
A casa de banho � ali.
� s� para ti, mais ningu�m a usa.
- N�o recebemos muitos convidados. - N�o costumam ter convidados?
Normalmente n�o.
- Bom, eu fico durante uns dias... - Isso � muito melhor.
Gosto do teu nome.
- Gostas? - Sim, Petra. � muito bonito.
A minha m�e gostava de nomes antigos.
- E tu chamas-te...? - Teresa.
- Muito obrigada. - De nada, estamos aqui para isso.
Deixo-te � vontade.
Vou para a cozinha. Se quiseres, aparece e conversamos mais.
- Est� bem, j� vou ter contigo. - At� j�.
Ol�.
- Como est�s? - Bem.
Queres tomar alguma coisa?
N�o, estou bem.
Quando quiseres qualquer coisa, podes servir-te do frigor�fico.
Est� bem.
- Que casa fant�stica! - Pois �...
Tens alimentos preferidos? Coisas que n�o gostes, que n�o comas?
- Como de tudo. - A s�rio? Que bom!
Ali � a sala de jantar, a grande. Do Jaume e da Marisa.
Eles comem l�, se quiseres, podes comer l� com eles.
Est� bem.
E se n�o comeres aqui, e te lembrares, avisa-me.
Est� bem.
- Queres ajuda? - N�o, obrigada.
Vai l� para fora, est� um dia lindo. Eu j� te levo alguma coisa.
- Muito obrigada, Teresa. - De nada.
Ol�.
Ol�.
Como est�s? Sou a Petra.
Acabei de chegar.
N�o sei se te disseram,
mas vou ficar aqui umas semanas, numa resid�ncia art�stica com o Jaume.
Sim, j� me tinham dito, mas j� n�o me lembrava.
N�o me lembrava de quando era.
- A Teresa mostrou-me agora o quarto. - Gostaste do quarto?
Sim, � muito bom. A casa � muito bonita.
Um bocadinho grande, n�o achas?
A Teresa � fant�stica.
Sim, muito simp�tica.
Tu �s a mulher do Jaume, n�o �s?
Sim.
Chamo-me Marisa.
Muito prazer.
Muito prazer.
Acho que n�o se aprende nada com o Jaume.
- N�o se aprende nada? - Nada.
Bom, sim, uma coisa...
Pode aprender-se a ganhar dinheiro.
- Estou a ver... - Sim.
Sim, sim... dinheiro...
V�-se que ele tem dinheiro.
Tem, sim, tem.
At� bastante.
Isso n�o me interessa muito, � precisamente o que n�o...
- A s�rio? - N�o.
- N�o est�s interessada em dinheiro? - N�o.
Toda a gente se interessa por dinheiro, n�o?
Eu interesso-me, interesso-me at� muito.
- A s�rio? - Sim.
Porqu�?
Porque te d� acesso a muitas coisas!
Permite-nos fazer muitas coisas.
Sim, bom... Mas � precisamente...
Isso pode ser verdade, mas...
N�o � isso que procuro na arte.
E o que procuras na arte?
Bom...
A verdade.
A verdade?
Que verdade?
Uma verdade, n�o sei. Quero usar o meu trabalho para encontrar...
a verdade, a luz.
Mas achas que a arte n�o pode ser usada para mentir?
N�o, n�o! Acho que se pode mentir! H� muitos artistas que mentem muito.
Claro.
Mas isso n�o me interessa.
Nesse caso...
est�s no s�tio errado.
Talvez.
Onde est� o Jaume?
Anda por a�.
�s vezes, janta ou almo�a... Estamos
juntos, ou n�o. Ele aparece, n�o aparece.
Aqui, como v�s, est�o as obras mais em bruto.
Aqui, j� est�o pintadas e ali ao fundo, est�o mais acabadas.
E o Jaume disse para deixares as tuas coisas ao p� daquela poltrona.
Est� bem.
- Isto � t�o grande, n�o �? - Sim.
- E ele est� por a�? - N�o, agora est� na Alemanha.
Bom, vou buscar... as caixas.
Espera, eu ajudo-te.
Nem te ofereci nada... Queres um copo de vinho?
N�o abras por minha causa. Posso beber uma cerveja.
N�o, j� est� aberta. Olha, a garrafa est� a�.
Os copos est�o neste arm�rio.
- Tamb�m queres? - Sim, por favor.
- Deixo-to aqui? - Obrigado.
Estou a trabalhar num projecto de que gosto muito
- sobre as sepulturas da Guerra Civil. - Posso ver?
Esse n�o tenho, mas tenho...
Tenho outra s�rie...
que publicaram.
N�o sei onde a pus...
N�o sei onde...
Espera, est� aqui.
Tens aqui um.
- Qual deles � este? - Este � de retratos e de viagens em...
� bonito.
E tamb�m tenho este aqui.
� uma s�rie que fiz na Argentina.
Que fixe...
- Acho que lhe acertei. - A s�rio?
N�o vi nada.
Sim, sim...
Um coelho.
Voc�s t�m um viver um bocado estranho, n�o?
- Achas que sim? - Sim.
Cada um na sua vida...
A tua m�e come sozinha, n�o sei onde anda o teu pai,
tu tens esta casa...
Bom, suponho que � a �nica maneira de...
de nos entendermos, de aguentarmos...
Se pass�ssemos o dia juntos...
Sim, � capaz.
E a tua m�e? Queixa-se muito, mas est� aqui.
A minha m�e?
A minha m�e dantes tinha mais ilus�es, mais...
mais sonhos, mais energia, n�o sei... Agora sinto-a...
Agora est� mais apagada.
� tamb�m por isso que cada vez que...
sempre que parti, volto...
por ela tamb�m, percebes?
Mas d�o-se bem.
Sim, sabes como � com as m�es.
Um dia, damo-nos bem, no dia seguinte, queres...
Queres mat�-la!
� isso que acontece, n�o? Com as m�es. Sempre.
N�o � f�cil, �s vezes.
Mas compensa-te estar aqui.
Sim, n�o deixa de ser c�modo. Olha s� isto...
- Este s�tio � alucinante! - Como podia eu n�o estar aqui?
Ouve, como � o teu pai?
O meu pai? Boa pergunta.
� complexo.
� dif�cil de descrever...
Consegue ser encantador,
mas tamb�m sabe ser...
muito perverso, muito cruel.
- Cruel? - Sim, sim.
Mas tamb�m contigo? Ou seja, em geral?
Sim, comigo, ele...
Basicamente, desvaloriza-me muito.
Porque n�o sou como ele,
e ele n�o...
- n�o me respeita. - Gostava que fosses como ele?
Que fosse um artista do seu calibre, que fosse algu�m que...
lhe fizesse frente.
Mas eu n�o vejo interesse nisso, percebes? Em confront�-lo.
Cada um sabe de si, n�o �?
- Ent�o mant�m a dist�ncia. - Sim, sim...
Bom, j� tenho feito melhor, mas...
N�o, cozinhas muito bem!
- Defendo-me bastante, � verdade. - Tiras fotografias, cozinhas...
E � isso.
- O meu repert�rio acaba a�. - N�o est� mal.
Tamb�m me ajeito no minigolfe.
- No minigolfe? - O minigolfe, sim.
- Fant�stico! Que �til! - Sim, � super �til. E tu?
- O que fazes? - Gosto de dan�ar.
Que tipo de dan�as?
Dan�o � minha maneira.
Dan�o tudo e n�o dan�o nada.
Mas tens alguma t�cnica especial ou...?
Se quiseres, posso dan�ar um bocado para veres.
Dan�ares aqui?
Foi incr�vel!
E dan�as assim?
Sem aquecimento nem nada?
Deixas-me espantado! Deixa-me... Brindemos �s tuas... ao teu talento.
� tua!
Ol�.
- Tudo bem? - Sim.
- O que est�s a fazer? - Estava a trabalhar.
Certo, mas est�s a filmar um filme ou coisa assim?
N�o, n�o, n�o � um filme, � um... Nada.
Filmo os movimentos e depois uso-os como guia, para desenhar.
Que giro!
Posso experimentar?
O qu�?
Fazer qualquer coisa, e tu depois filmas e desenhas, se quiseres.
Bom...
� que a obra � sobre o meu corpo, mas...
- Sim, mas... n�o sei... - N�o, tudo bem. Experimenta l�.
A s�rio? Posso fazer uma...
Coisas assim, est� bem?
Est� bem, v�. Experimenta, se quiseres.
Est�s bem a�.
Quando quiseres...
Muito bem...
Sabes que sou famoso aqui na zona
por ter desmembrado...
mais de 500 mulheres?
H� um lago aqui atr�s
e inventei uma hist�ria...
Levo-as para o lago, invento uma coisa qualquer
e depois afogo-as.
- E os corpos est�o todos l�. - Fogo!
- Queres ir v�-lo? - Apetece-me imenso!
- Apetece, n�o �? - Sim, sim.
Claro. Eu sabia. � sempre assim.
Vou buscar os corpos delas.
Quero dizer, podes...
Podes catalog�-los, ver se encontras pormenores interessantes, � isso?
Bom, s�o muitas...
A n�o ser que acabes tamb�m no lago...
- Corro sempre esse risco, n�o? - O risco est� sempre l�.
- Tu � que sabes... - Est� bem. Vamos.
N�o?
N�o queres?
Disse-te alguma coisa que...?
Desculpa, desculpa...
� por causa da hist�ria do lago?
N�o, desculpa, � que n�o...
N�o pode ser, isso n�o pode acontecer.
"Cap. III - Onde se conta o suic�dio de Teresa"
Lucas?
- Juanjo? - Sim.
Ol�! Entra, entra!
Eu j� vou.
Que se passa?
Olha, queria pedir-te um favor.
- Diz l�. - � para o Pau, sabes?
Conhece-lo bem.
Sabes como � esperto e sobretudo muito talentoso de m�os, mas...
� que n�o se deixa encantar por nada, nem motivar...
Tamb�m n�o tem tido muita sorte.
E eu e a Teresa pens�mos que ele podia ser �til aqui para trabalhar no campo,
ou para arranjar coisas que se estraguem...
Mas, Juanjo, eu n�o tenho trabalho para lhe dar...
Nem sequer tenho como lhe pagar, nem tenho...
Foi por isso que eu e a Teresa pens�mos que talvez pudesses falar com o teu pai.
Com o meu pai?
Sim, talvez ele o pudesse ter como ajudante na oficina, por exemplo...
Juanjo, d�s-te conta do que me pedes? P�-lo a trabalhar com o meu pai?
- N�o temos mais alternativas. - Sim, mas...
Deix�-lo ir para Barcelona, com uma m�o � frente e outra atr�s,
e sem trabalho?
Vamos mostrar-lhe. Leva o carrinho para a esquerda.
Baixa, baixa, baixa...
Isso.
Olha, digo-te j�. N�o tem o volume que tem de ter,
porque o arco tem de ser mais alto.
- E se tentarmos esta parte? - Vamos ver... Tenta do outro lado.
O carro mais para a frente. Um pouco mais... isso.
Para a esquerda.
N�o, n�o, foi demais.
- Todo? - Foi demais, foi demais.
Tr�-lo para a frente.
Um pouco mais para a frente.
Deixa ver... Deixa-o a�...
- Agora baixa-o um pouco. - Baixa, baixa...
Isso! Para a esquerda!
� esquerda! Mais um bocadinho?
N�o, n�o, Juanjo.
N�o, n�o tem o volume que tem de ter.
Sim, mas n�o precisamos de ningu�m.
De ningu�m, Lucas.
O Juanjo tem trabalho a mais.
N�o lhe fazia mal ter algu�m que o ajudasse com o bosque, a oficina...
Olha, o Juanjo � um homem de rotinas.
Se lhas mudarmos, estragas-me o sistema todo.
N�o o podemos p�r noutro s�tio.
Ele trabalha muito bem e faz o que tem a fazer.
Ent�o f�-lo por eles, pelo Juanjo e pela Teresa.
Para n�o terem o rapaz em casa. N�o � f�cil encontrar trabalho.
Esse tema da solidariedade para com os outros...
N�o gosto, quando � �s minhas custas.
- Portanto, n�o. - Ele teria de ser pago.
Claro que teria de ser pago.
E o que lhe digo?
Claro que h� que pagar.
Olha.
Olha, sabes? Vamos dizer-lho directamente.
Se a Teresa quer um favor, ela que venha pedir-mo.
A Teresa? Porqu�?
� a m�e do Pau, n�o?
J� acabou, Sr Jaume?
- Terminei. - E que tal? Estava bom?
- Caramba! Cada vez melhor! - A s�rio?
Vou dizer na cozinha. Vindo de si, d�-lhes prazer.
Quer caf�, sobremesa...?
N�o, nem caf�, nem sobremesa. Tomo um digestivo.
- Muito bem, e o que h�-de ser? - Um Marc de Cava.
- Quer frio? - Frio, sim.
- Trago j�. - Obrigado.
N�o contas ao meu marido, pois n�o?
Ainda est�s muito bem, para a idade.
Tens passado bem?
N�o.
Eu sim.
Muito bem.
A verdade � que sexo por sexo...
n�o me interessa.
O sexo sem humilha��o...
n�o funciona.
S� quando senti a tua dor...
� que me consegui vir.
H� anos que isso n�o me acontecia.
N�o lhe contas, pois n�o?
Ao Juanjo?
Fica descansada.
J� tem preocupa��es que cheguem...
com uma mulher f�cil e um filho in�til.
Seja como for...
tive uma ideia melhor.
Vou contar ao Pau.
Isso h�-de despert�-lo.
Para ver o que uma m�e tem de fazer...
para dar um futuro ao filho.
Entra, entra...
Estou a tomar o pequeno-almo�o. Queres um caf�?
- N�o, obrigada. - De certeza?
Sim, sim.
- Outra coisa, uma torrada...? - N�o. Ouve, sabes da Teresa?
N�o, porqu�?
O Juanjo anda � procura dela.
Levou o carro ontem e n�o apareceu esta manh�.
- Desde ontem? - Sim.
Est� inquieto, disse que ela nunca fez isto.
- E n�o sabe dela. - Sim, � estranho...
Vou acabar o pequeno-almo�o e vou para l�.
- Est� bem. - Certo.
- At� logo. - At� j�.
- Que se passa? - Sabes alguma coisa da Teresa?
Da Teresa? N�o.
N�o a viste?
N�o.
Mas voc�s encontraram-se ontem, n�o foi?
Sim, estivemos em Can Rafalet.
E que se passou?
- Falaram do Pau? - Do Pau, sim.
O Pau j� trabalha connosco.
Assim, sem mais nem qu�?
Bom...
primeiro fodi-a.
Porque fizeste isso?
Nesta vida, os favores pagam-se com favores.
�s um porco.
Ela n�o resistiu muito.
N�o vi...
nada de especial.
E pronto? N�o aconteceu mais nada?
Bom, prometi-lhe n�o contar ao Juanjo.
E cumpro a minha palavra.
Ela vestiu-se e partiu.
Pode dizer, Z28, Controlo.
Encontr�mos o cad�ver, mas est� num penhasco de dif�cil acesso,
por isso solicito que liguem para o tribunal
para os notificar e solicitar autoriza��o para tirarmos o corpo.
Fico � espera da vossa confirma��o.
Quando a cerim�nia acabar, pego nas minhas coisas e vou-me embora.
- Vais-te embora? - Sim.
Para onde?
Vou-me embora daqui.
J� partiste 50 vezes e acabas sempre por voltar.
Essas coisas j� n�o me impressionam.
Mas olha que desta vez � para sempre.
A s�rio?
N�o acredito.
N�o acredites.
Vou-me embora, porque se ficar...
Se ficar, mato-te.
Essa � boa!
N�o tens tomates para isso.
Se j� sabes tudo, � escusado discutir.
Sabes que mais? Vai-te embora, vai.
Vai-te embora.
Obrigado.
"Cap. I - Onde se conta a doen�a e morte da m�e da Petra"
E agora o outro olho, est� bem?
Um momento...
- J� entrou, n�o j�? - Sim.
Que tal? Melhor?
Que queres que te diga, estou cansada.
� normal.
� normal, Julia.
Estou muito farta, farta de estar aqui.
Sempre disse que n�o... que n�o tinha medo da morte e...
teria gostado de...
sei l�...
tirar um curso,
viajar...
E ter netos. Gostava de ter tido netos.
E vais ter.
- Ol�. - Ol�, filha.
- Ol�, Petra. Est�s boa? - Como est�s, Tia?
- Como est�s? - Estou bem.
Mam�, como est�s?
Bem.
- Trouxe o que me pediste. - Que bom.
E mais uma coisa... Olha o que encontrei.
Conheces-me mesmo bem...
Pareces esgotada, queres ir tomar um caf�?
Sempre d�vamos uma volta e espairecias.
N�o, n�o, j� bebi tr�s caf�s.
Mesmo que n�o tomes nada. Vai dar um passeio com a Andrea.
Acho que te faria bem.
Sim, j� vamos daqui a um bocadinho.
Como te sentes?
Tudo isto me angustia.
Custa-me muito n�o poder falar com ela.
A minha m�e guarda tudo l� dentro...
A quest�o do meu pai...
� um tabu.
M�e, a Tia a ti nunca te disse nada?
- Nunca. - N�o acredito.
Quando engravidou, perguntei-lhe.
Mas ela nem sequer me disse que estava gr�vida.
Eu � que reparei e perguntei-lhe. E depois...
Pronto... fechou-se em copas e n�o me quis contar nada
e pediu-me para n�o voltar a perguntar-lhe.
E n�o podias falar com ela agora? Talvez seja a altura certa...
Acho...
dif�cil.
Muito dif�cil.
Podias tentar...
N�o quero que voltes a perguntar-me isso.
- Mas � a Petra que quer saber. - Vai dar ao mesmo.
N�o me fales disso.
Mas � important�ssimo para ela.
N�o me perguntes mais. Acabou-se a conversa.
Ent�o pronto...
Que se h�-de fazer...?
Queres comer mais alguma coisa, M�e?
N�o, n�o tenho apetite.
De certeza?
Sim.
N�o comeste nada.
N�o quero que a Tia Nieves venha c�.
Hoje?
N�o, que venha ao hospital.
Que venha ao hospital, como?
Que me venha chatear.
Porque dizes isso, M�e?
Cansa-me estar com ela.
Cansa-te estar com ela? E porqu�? O que aconteceu?
Nada.
Ent�o?
- Demorou-se muito, n�o me apetece... - M�e, o que dizes?
N�o quero v�-la mais.
Mas ela gosta tanto de ti! Esteve aqui desde o princ�pio.
Por isso mesmo, j� c� vem h� muito tempo.
Eu tamb�m a adoro, mas n�o...
N�o quero que venha mais.
Est� bem?
- Dizes-lhe tu? - N�o, n�o lhe digo.
Como posso dizer-lhe tal coisa?
Quero sair daqui.
Queres sair?
Sim.
O qu�, dar uma volta?
N�o, quero sair do hospital.
N�o sei, M�e...
N�o podemos sair assim.
Sim, podemos sair quando quisermos.
N�o � isso que os m�dicos acham.
Claro que �.
Posso pedir alta quando quiser.
Acho que n�o, M�e, isto n�o funciona assim.
Eu acho que sim.
E n�o quero morrer aqui.
- M�e! - N�o � por nada...
Mas prefiro sair daqui.
Talvez haja outras...
N�o sei...
Petra, n�o, eu quero ir.
Queres ir para casa?
N�o, quero ir para o campo.
Mas n�o para muito longe, para a serra.
Ent�o se queres ir, eu falo com os m�dicos.
O mais depressa poss�vel.
Mas n�o te zangues com a Tia, est� bem?
Eu pedi-lhe que falasse contigo.
Tenho imensa sede, trazes-me �gua?
A sandu�che estava boa, n�o estava?
Estava sim, deliciosa.
Queres dar um passeio daqui a bocado?
- Sim. - Por ali.
Sim.
- Isto d� a volta, n�o? Quero dizer... - O qu�?
Este cruza-se ali, n�o �?
Acho que sim.
Fico um bocado preocupada que n�o estejas bem...
Eu estou bem.
Gosto muito da tua cara.
- Sempre gostei, a s�rio. - Sim?
Ainda bem, M�e.
Imagina...!
Ainda queres saber?
Sim, sim... Sabes que sempre quis saber.
E agora, ainda mais.
Agora que a M�e partiu, ainda mais.
N�o sei, preciso...
Quero saber de onde vim.
Tem que ver com a minha identidade.
Pode fazer-te sofrer, claro. N�o sabes o que ter�s de enfrentar.
Logo se v� ent�o.
Mas isto � pior.
N�o te recordas de nenhum nome,
de nenhum s�tio?
Lembro-me do grupo de amigos que ela tinha.
Nessa �poca. Nos anos... No in�cio dos anos 80.
Mas j� n�o te sei dizer nomes...
Havia uma de quem ela era muito amiga,
e talvez possa perguntar
a outra rapariga que era amiga dela...
E dessa sim, tenho o contacto.
"Cap. IV - Onde Jaume conta a Petra que ele n�o � o seu verdadeiro pai"
Petra...?
O que achas de mim?
Enquanto artista?
Enquanto pessoa.
Como pessoa n�o te conhe�o bem, n�o sei.
N�o queres dizer?
N�o � que n�o queira, mas n�o tenho uma opini�o formada.
Olha...
Uma das coisas que mais odeio no mundo � a vitimiza��o.
Odeio-a.
Odeio-a, na vida.
Dizes isso por minha causa?
N�o, em geral.
Em geral...
E sobretudo, por causa do meu filho Lucas,
que � um exemplo disso.
Mas o Lucas n�o entrou numa de vitimiza��o, pois n�o?
Olha, eu...
Quando eu tinha 14 anos,
fiquei �rf�o e o meu irm�o expulsou-me de casa.
Isso obrigou-me a acordar.
Desde ent�o, fui criando tudo isto.
Com isto, ganhei dinheiro,
comprei a quinta dos meus pais ao meu irm�o,
pus o meu irm�o num lar e � assim que eu sou.
� assim que tu �s?
Gra�as ao meu irm�o, por me ter privado de tudo.
Vou � fundi��o, queres vir?
- Se quiseres que eu v�... - Sim, sim.
Assim vais aprendendo.
O profissionalismo � isso. O profissionalismo � isso...
Deves ter estado de f�rias no dia em que fizemos as contas,
porque n�o percebo como � que isto te pode ter passado tendo feito tantas.
- Fizemos oitenta. - E tinha de ser logo em Paris,
que � onde nos damos a conhecer ao mundo,
e falhar logo ali...
N�o h� coisa pior.
Olha, relativamente ao profissionalismo:
Se um arquitecto deixa que uma casa caia, ele n�o faz mais nenhuma.
Mesmo tendo feito 99 bem.
Sim, mas tu sabias que isso podia acontecer.
Dissemos-te que os c�lculos estavam apertados...
Tudo o que sai da oficina, sai da oficina.
Para todos.
N�o me venhas agora com c�lculos apertados e tal e coiso.
A responsabilidade � s� vossa.
- N�s sabemos, Jaume. - N�o me parece que seja s� nossa...
Tens de ir j� a Paris.
Iremos na segunda-feira.
Segunda? N�o, esta tarde. No m�ximo, amanh� de manh�.
As coisas pioram para n�s em Paris, a cada hora que passa.
N�s avis�mos-te, tu sabias que isto ia acontecer.
Olha, deixa estar.
A situa��o em Paris agrava-se, a cada hora que passa. Para mim e para voc�s.
N�o podemos perder nem cinco minutos.
Ol�.
Estou a ver os teus quadros.
E o que achas?
Acho que � fraco.
Fraco?
� excessivamente intimista.
Claustrof�bico, fechado.
Est�s fechada em ti mesma.
Olhas demasiado para o teu umbigo.
Isto n�o pode ter �xito.
Porque �s assim?
Que se passa contigo? Porque falas assim?
Acho que lhe falta algo... Falta-lhe garra.
Foi pensado como uma terapia para ti,
sem pensar... no p�blico.
Sabes porque estou aqui?
N�o.
Porqu�?
Porque acho que �s meu pai.
Teu pai?
O que te leva a pensar isso?
Sou filha da Julia Ram�rez.
A Julia Ram�rez?
A filha da Julia Ram�rez...
E foi por isso que vieste?
Sim.
- Ol�, Juanjo. - Ol�.
Como est�s?
Vai-se indo, mais ou menos.
E o Pau?
Pior, ele � que est� pior.
Ainda passou pouco tempo.
Sim.
Ainda � muito recente e o que aconteceu foi horr�vel.
Bom, n�o � o mesmo, mas...
eu tamb�m n�o recuperei ainda da morte da minha m�e.
Imagino que seja preciso tempo...
Posso dizer uma coisa?
Claro.
H� uns dias que ando a pensar dizer-te.
Acho que devias sair daqui o mais depressa poss�vel.
Porque me dizes isso?
N�o sei...
Acho que �s boa rapariga, mas...
daqui n�o levar�s nada de bom.
Do Jaume, n�o vem nada de bom.
- Desculpa, talvez... - N�o, n�o, tudo bem.
O que achas da Petra?
� simp�tica, n�o �?
N�o a acho muito inteligente...
Viste o meu chap�u castanho, aquele que tem uma faixa branca?
- N�o, n�o vi. - N�o?
Vou ver se a Nabila o tem. Pode ser que o tenha guardado.
Sabem porque vim comer convosco?
N�o fa�o ideia.
Esclarece-nos l�...
A Petra acha que sou pai dela.
N�o me surpreenderia.
Sempre gostaste de engates.
Mas n�o sou pai dela.
Eu acho que �s.
Porque � que achas?
Uma amiga da minha m�e deu-me o teu nome.
Voc�s davam-se na altura.
- Ela falou-me de ti. - E a tua m�e?
N�o, a minha m�e, n�o. A minha m�e nunca quis falar disso.
O assunto era tabu.
Mas eu n�o sou teu pai.
Conheci a tua m�e...
no Ver�o de '85, em Cadaqu�s.
E ela j� tinha um beb�.
- Tu. - No Ver�o de '85?
Quando nasceste?
- Em Novembro de '84. - V�s?
Ela j� tinha um beb�. Tu tens alguma irm�?
N�o.
Pois...
N�o sou teu pai.
Ter�s de o procurar noutro s�tio,
porque ela j� tinha um beb�,
que eras tu,
quando esteve comigo.
Bom, ele teve sempre muitos casos.
E eu tamb�m, claro.
Eram outros tempos.
Ol�, Lucas.
N�o, n�o aconteceu nada, estou bem.
Deixa estar. Ligo noutra altura, est� bem?
Est� bem.
Adeus, at� logo.
"Cap. VI - Onde se conta que Jaume mentiu
e as consequ�ncias que da� advieram".
Estou a pensar deixar o projecto dos t�mulos.
A s�rio?
Sim, porque n�o tenho respostas de lado nenhum
e feitas as contas, tenho de ganhar dinheiro.
Come�a a trabalhar mais no projecto e ver�s que v�m respostas.
- Sim, mas n�o sei se � assim t�o bom. - Sim, � muito bom.
Eu adoro, j� sabes.
E est�s numa etapa �ptima, como podes pensar em abandon�-lo?
Sim, mas se tiver de come�ar a trabalhar em qualquer outra coisa,
n�o sei se poderei dedicar-lhe o tempo que gostaria de lhe dedicar.
Ent�o faremos outra coisa.
Sei l�, o dinheiro h�-de vir.
- Achas que sim? - Claro.
N�o o abandones, � um projecto importante.
Talvez o teu seja um bocadinho grande, n�o achas?
Vamos cortar ao meio.
� um colar incr�vel.
Olha...
Partiu-se...
Podes apanh�-lo?
O que tens? O que tens?
Um "K"...
A tua irm� vem este fim-de-semana, n�o vem?
A tua irm� vem a�, n�o vem? Este fim-de-semana...
S�bado... S�bado, sim.
E o que vais fazer?
N�o sei, ela n�o fica muito tempo.
N�o sei o que vamos fazer.
Se quiseres, podemos organizar um jantar l� em casa.
- Sim? - Sim, n�o h� problema.
- Assim fico a conhec�-la. - O que � isto?
- O que nos trazes? - Um bolo.
Um bolo gigante.
Mas que seca...!
Ol�...
Conheces-me?
Ol�.
N�o...
n�o te apetece?
Estou cansada.
Um bocadinho.
Um bocadinho.
� s� que essas cal�as que tens s�o t�o... sugestivas.
Anda c�, vens?
- Bom dia. - Ol�, bom dia. Em que posso ajudar?
Tenho uma reserva em nome de Jaume Navarro.
Perfeito. Tem a� a sua identifica��o?
Obrigado!
Perfeito.
Tem o quarto 107.
Porque querias ver-me?
O Lucas vem?
N�o.
� uma pena, porque isto tamb�m lhe diz respeito.
Ele n�o vem, n�o vem...
Apesar de tudo, diz-lhe respeito, mas ele saber�.
Olha...
Eu vim c�, porque, Petra...
�s minha filha.
O qu�?!
�s minha filha.
O que me dizes agora?
A verdade.
- A verdade? - A verdade, sim.
N�o acredito em ti.
Quando a tua candidatura chegou,
a tua insist�ncia intrigou-me muito.
Andei a indagar
e descobri que eras filha da Julia Ram�rez.
Eu tive uma rela��o com a Julia Ram�rez h� 33 anos.
Sim, e disseste-me que ela j� tinha uma filha quando a conheceste.
- Menti-te. - Mentiste?!
- Foi uma op��o estrat�gica. - Estrat�gica o qu�? O que queres dizer?
Para saber mais de ti.
N�o acredito em ti.
Nem sei porque aceitei ver-te, n�o sei...
Tenho provas que talvez te conven�am.
Trouxe fotografias da �poca.
Do ano de '84.
Aqui, a tua m�e comigo.
Em '84.
A tua m�e...
� espera de beb�, � tua espera,
e mais duas da tua m�e daquela altura.
Olha bem para elas, Petra.
� imposs�vel, n�o acredito que seja verdade.
Tu acreditas?
N�o sei.
J� n�o sei o que pensar.
Vou para baixo, n�o me sinto bem.
Se quiseres, desce quando ela acordar.
Petra, espera...
Porque n�o descemos juntos quando ela acordar?
E depois discutimos isso.
Agora n�o quero falar de nada.
At� logo, est� bem?
Fant�stico, obrigado.
A Petra ainda pinta?
N�o.
Agora d� aulas.
- Acho que � melhor para ela. - Porqu�?
Pinta bem, mas duvido que viesse a ter �xito.
- A cadeira � da mi�da? - Sim.
- E onde est� ela? - N�o est�.
Porque me fazes isto?
Olha, quando a Petra quiser,
faremos testes de ADN e poder�s certificar a paternidade.
N�o te disse antes,
porque � dif�cil avaliar qual a melhor altura
para interromper esta felicidade falsa que voc�s criaram.
Sai da minha casa.
N�o te preocupes.
J� disse o que tinha a dizer.
Acabo o ch�
e volto para casa.
N�o tens tomates para me matar.
"Cap. V - Onde se conta o in�cio do namoro de Petra e Lucas"
- Ent�o correu bem em Berlim? - Muito bem.
Sim, apetecia-me ir e acabei por l� ficar dois meses.
Eu queria falar contigo daquilo do meu pai, que me pareceu uma loucura.
Loucura?
Bom, n�o sei...
Condizia com os pormenores que me deram.
Uma amiga da minha m�e falara-me dele e tinha-me mostrado a fotografia...
E era tudo o que eu tinha. Tinha de tirar a limpo.
Claro.
E o que vais fazer agora? Vais continuar � procura?
Vou continuar, sim.
N�o sei muito bem onde, porque, na verdade, n�o tenho muita informa��o,
mas quero saber quem ele �.
Pelo menos, j� sabes onde n�o procurar.
- � qualquer coisa. - Pois �.
Tamb�m acho que n�o posso esperar nada de grandioso... n�o �?
Sen�o, a minha m�e tinha-me falado disso.
Bom, nunca se sabe.
Na verdade, a parte boa foi termo-nos conhecido.
Sim, isso foi muito bom.
Lamento a forma...
como geri tudo isto.
J� passou, n�o faz mal.
Ningu�m ficou melindrado.
Sim.
Est� bem, est� tudo bem.
Como vai o trabalho?
- Vai bem, bem. - Gostas?
Sim.
Bom, � sossegado.
Basicamente, tenho de seguir as indica��es e as direc��es do Jaume.
- � risca. - Sim...
E se ele quer uma coisa, sabe como a quer e pronto.
- Tudo bem. - �s vezes, tenho saudades de estar l�.
O campo, a floresta, os passeios...
Devias vir, amigo.
- Se quiseres. - E a ca�a, sobretudo.
Eu tamb�m.
- N�o ca�as? - N�o, j� n�o ca�o.
N�o vou sozinho, porque...
- E o teu pai? - N�o, o meu pai n�o...
Porqu�?
N�o lhe apetece e...
Tamb�m n�o lhe quero perguntar.
Ele est� bem. Mas n�o faz...
Leva as coisas com calma, faz as suas cenas...
N�o tem grandes expectativas de nada.
Estagnou um bocado, n�o?
Sim, um pouco.
Mas est� bem. N�o estou muito preocupado.
Mas bom...
- E tu, como vais? Conta-me l�. - Estou bem, muito bem.
Sou feliz.
Ando com a Petra.
- A Petra? - Sim.
Sim, sim...
Fomo-nos telefonando, come��mos a encontrar-nos e...
Sei l�, foi a melhor coisa que me aconteceu nos �ltimos tempos.
- Fogo, isso � incr�vel! - Sim, sim...
- A Petra � fixe. - Entendemo-nos muito bem.
Est�s apaixonado?
N�o sei.
N�o funciona... amigo.
A verdade?
Sim. At� a pr�pria express�o...
A moda, no fim, que se tornou low cost e que de low cost n�o tem nada.
�low price, mas o custo � alt�ssimo, n�o �?
Para o planeta, para os trabalhadores...
E, bom... a beleza entre aspas.
Porque, efectivamente, se n�o h� verdade, n�o h� beleza.
- Sem verdade, n�o h� beleza. - Sem verdade, n�o h� beleza.
N�o h� verdade, sempre que isso acontece, claro.
Lucas, a Petra disse-me que �s filho do Jaume Navarro,
e eu sou uma grande admiradora dele h� muito tempo e queria...
Queria que o soubesses.
Tenho a certeza que todos to dizem, mas n�o podia evitar dizer-te.
N�o podia estar aqui contigo e n�o...
Eu disse-lhe que talvez n�o quisesses falar dele, mas ela n�o quis saber.
N�o, mas � um reconhecimento. Como � que... N�o resisti.
Gostei muito dos teus amigos.
Sim?
Acho que eles gostaram de estar contigo.
Achas?
Desculpa todas as perguntas que te fizeram sobre o teu pai e tudo isso...
N�o faz mal, � normal.
Importas-te que durma c� hoje?
Sim.
- Sim, sim. - Sim, importas-te?
O que � que achas? Adoro que fiques.
N�o, � s� por causa de...
� s� por causa da cama. N�o � pela companhia.
N�o, claro, sim, sim... Por causa da cama.
- Gostas mesmo dela, n�o �? - Gosto muito, sim.
� bonita.
Sim?
Precisas de dinheiro?
N�o, eu desenrasco-me.
Posso pedir ao teu pai que te mande algum.
N�o, obrigado. N�o quero o vosso dinheiro.
Porqu�?
Porque o vosso dinheiro me mete nojo.
Dantes, n�o metia.
Pois n�o.
Mas agora � diferente.
N�o gosto da Petra.
A que prop�sito vem isso agora?
N�o gostei da forma como ela se infiltrou l� em casa.
Ela n�o se infiltrou l� em casa.
Mentiu.
Ela e todos n�s.
Bom...
Ou n�o mentimos?
Mais ou menos.
Vinte e quatro...
Joelhos: 165.
Quinze.
Anota a�.
Metade...
de 227,4.
Indiv�duo 10.
Zona do hemit�rax esquerdo.
Coordenadas?
Vinte.
Cinco metros.
Vinte cent�metros, o "x", o "y"...
Olha, um pouco mais pequeno nesta direc��o... Ali...
- Um metro e dez. - Um metro e dez, isso.
- Olha, encontrei um anel. - A s�rio?
Espera, deixa-o.
� um anel tipo selo, n�o?
Sim, parece ser.
D�-mo.
Diz-me.
Gostavas...
de viver no campo?
- Viver no campo? - Sim.
Porqu�?
Porque estou a pensar que n�o me apetece continuar a viver em Madrid.
Mas queres que vamos para...
- Quando? - N�o sei.
Em breve.
Sabes a Luc�a, a minha amiga que tem aquela casa em Buitrago?
Ela disse-me que h� l� casas para alugar por um bom pre�o...
E que... sei l�... Estou um bocado farta de estar aqui.
Est�s o qu�? Est�s farta de qu�?
Quero fazer outras coisas, quero deixar isto, quero abandonar a arte.
- Queres abandonar a arte?! - Sim.
N�o podes abandonar a arte!
A arte � a tua vida!
Mas j� n�o... J� n�o sinto isso.
N�o falas a s�rio, pois n�o?
Falo, mas n�o faz mal. Quero fazer outras coisas.
- Mas o qu�, por exemplo? - Sei l�!
Procurar l� algo que me agrade...
Sei l�, mudar de ares, ter filhos... N�o sei.
- Ter filhos? - Sim.
Mas olha l�, isso � muito s�rio. Ter filhos �...
- Quero que tenhamos filhos. - � para sempre, n�o?
Gostas?
� lindo!
"Cap. VII - Onde se conta a nova vida de Petra com Julia"
Procura o pau.
Procura o pau.
Apanhas tu esse?
Toma!
Queres p�-lo aqui?
Aqui!
Anda, v�!
Tr�s!
Tr�s!
Eu apanho-te!
Eu apanho-te!
Eu apanho-te!
Acho que sim, tens raz�o.
Vamos eliminar esta aqui.
Esta, n�o �? Porque esta, na verdade, podia...
N�o achas? � um bocado confuso. Podia ser outro s�tio...
Sim, pod�amos estar no Egipto, n�o?
Tal e qual!
Tamb�m acho.
A quest�o � que hesito entre estas duas naturezas-mortas.
Porque a do sapato �...
Claro que � horr�vel mencionar a banalidade neste t�pico.
Por exemplo, eu deixaria este buraco.
Pela curva, pela forma...
- Sim, est� perfeito. - Sim?
O importante � que o conjunto tenha uniformidade
e que os olhos n�o sejam atra�dos a um ponto.
Isso � que � importante.
- Se v�o, tens de resolver isso. - Est� bem.
Tens namorada?
Sim. H� j� quase um ano.
Muito bem. J� a apresentaste ao teu pai?
N�o.
N�o quero que ela sofra.
N�o sei durante quanto tempo vou estar com ela, n�o sei como acabar�
e n�o quero que ela sofra.
Mas ama-la?
Sim, sim, amo-a muito.
Muito bem, ent�o j� sabes para onde vais.
A prop�sito, aquele m�rmore branco...
Sim, chega ter�a.
S� falta organizar a grua para o descarregar.
Digo ao meu pai que trate disso?
N�o, faz tu tudo.
Trata tu disso.
- Chamo a grua e... - Coordena tu isso.
Est� bem.
Este Pau...
Cada dia gosto mais dele.
Realmente...
Tem iniciativa, � trabalhador, ajuda-me...
E, verdade seja dita, alivia-me.
S� h� uma coisa... que eu n�o percebo.
Como � que ele conseguia ser t�o amigo do Lucas.
Uma pessoa com tanta iniciativa, e a outra t�o parada.
Realmente...
Vou passar uns dias a Madrid.
Acabas de chegar!
Mas est� bem, querida, faz como quiseres.
Este campo, depois de limpo, ganhou profundidade,
e, realmente, p�r ali uma escultura... ficaria muito bem.
Estou nervosa.
Tenho dormido mal.
E estou muito ansiosa com a visita da Marisa.
Porque n�o lhe dizes para n�o vir?
Bom, disse-lhe que era a �ltima vez, n�o sei...
Acho que isto ia acontecer mais cedo ou mais tarde...
E a Julia?
- Ela vai v�-la? - N�o.
Queria perguntar-te se podes ficar com ela quinta � tarde.
Ela � av� dela, n�o �?
N�o achas que devia v�-la?
S�o s� umas horas.
- Mas se n�o puderes, n�o faz mal. - N�o, n�o h� problema.
Ela pode ficar o tempo que for preciso.
Est� bem.
Obrigada.
Quero ver a Julia.
Lamento, mas n�o vais poder v�-la.
Preciso de a ver.
- � a �nica coisa que me resta. - Marisa, n�o.
N�o quero que ela tenha nada a ver com voc�s.
- Por favor. - N�o.
- Estou mal. - Est�s mal?
Muito mal.
- Tenho pouco tempo... - � a culpa. A culpa, sabes?
� a culpa.
� uma doen�a que n�o tem cura.
Que culpa?
Eu tenho culpa de tudo.
De tudo...
De que falas?
O Lucas n�o era filho do Jaume.
N�o era filho do Jaume, como?
N�o, juro que n�o.
Era filho de um advogado de Madrid.
Conheci um advogado em Madrid.
Tivemos um caso
e engravidei.
Quando me apercebi, voltei para o Jaume.
Ele nunca o soube.
Ningu�m sabe.
Excepto eu.
Compreendes?
O que est�s a dizer?
Queria dizer-te, mas n�o podia...
Vai-te embora.
- N�o podia viver com esta mentira. - Sai daqui, por favor.
Por favor!
Por favor, ouve-me, por favor!
Quero pedir um t�xi, por favor.
Sim, para agora.
Isso mesmo. Obrigada.
Pau, j� pensaste em dedicar-te � arte?
N�o, n�o.
Acho que serias bom nisso.
Mas eu n�o fa�o ideia do que � a arte ou a pintura.
Eu tamb�m n�o tinha, quando comecei.
O importante � ter determina��o.
Depois, vem o dinheiro.
A parte boa disto tudo � o dinheiro. Gostas de dinheiro?
Sim, sim.
Quem � que n�o gosta?
Se quiseres, ajudo-te a iniciares-te na arte.
Porque acho que tens talento.
N�o sei, n�o tinha pensado nisso, mas...
Obrigado, obrigado.
Pai, chama a pol�cia, matei o Jaume.
O qu�?!
Dei-lhe dois tiros, um no peito e outro nas costas,
deixei o filho da puta estendido.
O que dizes?
Est� no campo, depois dos pedregulhos.
Quando se passa aquela clareira, ele est� ali estendido, est� bem?
Chama a pol�cia para me virem buscar.
Eu vou para o meu quarto.
Tudo isso, sim.
E como tens dormido?
Mal.
Bom, sabes que sempre dormi mal, mas agora mal consigo dormir sequer.
Com tudo o que aconteceu, n�o sei como n�o enlouqueceste...
Bom, estou a pontos de enlouquecer um bocadinho.
N�o dormir � terr�vel, n�o?
� terr�vel, sim.
- Porque n�o vais ao m�dico? - Ao m�dico?
Para ele me dar comprimidos?
Comprimidos ou qualquer coisa.
Ele l� saber�.
N�o sei...
O que tenho n�o se resolve com comprimidos.
� uma coisa c� dentro.
Tenho de o resolver sozinha.
Falar disso n�o pode ajudar?
Sim, pode ser que sim...
- J� viste as alfaces? - Sim.
S�o enormes!
Leva umas quantas.
Sim?
Est� bem.
Devias montar um neg�cio.
Alfaces, imagina!
O que tens a�?
- Olha. - O que � isto?
Qual deles �?
Um gato?
Muito bem.
Vamos para o carro.
Vamos para o carro, sim.
Para o baloi�o, n�o. Para o carro.
Espera, meu amor.
Eu guardo-to aqui, est� bem?
Anda c�, anda c�!
Aonde vais?
Aonde vais?
Anda c�, vamos embora.
- Ol�, Nabila. - Ol�.
- A senhora est�? - Sim, est� l� dentro.
- Pedes-lhe que des�a, por favor? - Sim, um momento, por favor.
Ol�.
Trouxe a Julia.
Adormeceu, est� no carro.
- Queres v�-la? - Sim!
Tradu��o SARA DAVID LOPES
F I M
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