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CLARA E CLAIRE
Sra. Millaud?
Sra. Millaud?
Da próxima pode ser mais tarde? O Valium à noite deixa-me mal de manhã.
Veremos isso no fim da sessão.
O Dr. Zimman sabia. Víamo-nos sempre depois do almoço.
Compreendo.
É uma pena o Dr. Zimman ter sofrido um AVC agora.
Temos de começar de novo? Parece que estou a repetir-me.
Não, não vamos repetir nada. Veremos tudo de outro ponto de vista.
As mudanças poderão ser úteis.
Parece-me que quer fazer perguntas sobre a minha posição, ou não?
Sobre o meu trabalho.
O seu nome é Catherine Bormans, é médica.
É especializada em psiquiatria e é psicoterapeuta.
Conta com vinte anos de experiência em diferentes hospitais
e poderá, a curto prazo, substituir o Dr. Zimman nesta clínica.
Foi o que encontrei no Google.
Imaginava-a de forma diferente.
Mais jovem.
Já sabe o essencial.
Por onde devo começar?
Por onde quer começar?
Pelo Ludo.
É melhor começar pelo Ludo.
- É um novo projecto? - Sim.
É um bar à beira-mar.
Que fotos lindas.
- Foi o Alex que as tirou. - O Alex?
- Mora comigo, é fotógrafo. - Achava que não querias visitas.
É diferente, eu já o conhecia. Jogamos rugby juntos.
Acabou de ser abandonado.
- Está boa, ficaste bem. - Achas que sim?
- Tenho de ir. Chamei um Uber. - Tens de ir já?
- O dono do bar quer encontrar-se comigo. - Íamos passar o fim-de-semana juntos.
Estás chateada?
Não és velha demais para isso?
Há pouco não estavas assim.
Não entendo o porquê disto.
O porquê de me ligares se não tens vontade de estar comigo.
Adoro estar contigo.
Pensavas apresentar-me aos teus filhos?
Eu podia ser irmão deles.
- Queres que deixemos de nos ver? - Não foi isso que quis dizer.
Diz-me como é.
Pode deixar-me lá à frente, por favor?
Vamos falando?
Que faz Laclos após a publicação escandalosa de "Relações Perigosas"?
Este escritor é principalmente um homem de acção.
Um militar, um engenheiro e um homem de convicções.
A Revolução Francesa é a ocasião perfeita para ele fazer história.
Por apoiar o Duque de Orleans, é preso repentinamente em...
Ele foi preso em...
Em 1793?
1793. Obrigada.
É enviado primeiro para a prisão da Força Pública e depois para Picpus.
Quem acham que, um ano mais tarde,
virá a ser enclausurado entre as mesmas quatro paredes?
Estou?
Bom dia, quem fala?
É o amigo do Ludo. Quem fala?
Será que... Poderia passar-lhe o telefone?
- Não, ele está a abrir ostras. - É a Claire.
Claire. Qual Claire?
- Conheces uma Claire, Ludo? - Não, não conheço nenhuma Claire.
- Desculpa? - Acho que está enganada.
Pode passar-lhe o telefone, por favor?
Eu sou o Alex, o assistente do Ludo. Ele entra em contacto assim que possível.
Certo, obrigada. Mas pode falar com o Ludo?
Ele não está aqui.
- Acabei de o ouvir. - Ele acabou de sair de casa.
Ouça, isto não tem graça.
LUDO NÃO ACEITOU O TEU PEDIDO DE AMIZADE
Tem redes sociais, doutora?
Para pessoas como eu tanto são...
Um naufrágio e uma balsa.
Pode flutuar-se no mundo digital.
Por vezes, é-se a aranha e, por outras, é-se o mosquito.
CRIAR UM PERFIL
Clara.
Clara Antunes.
DATA DE NASCIMENTO
Vinte e quatro, vinte e cinco...
FEMININO
VIVE EM CIDADÃ DO MUNDO
ENVIAR PEDIDO DE AMIZADE
PEDIDO DE AMIZADE ENVIADO
Eu não tinha o Alex em mente. Não o conhecia, não me disse nada.
Aproximei-me dele no Facebook para me aproximar do Ludo.
PEDIDO DE AMIZADE ENVIADO
Não tive de esperar muito.
GOSTO
GOSTO
ALEGRA-ME QUE GOSTES DAS MINHAS FOTOS.
SÃO MAGNÍFICAS.
UAU, OBRIGADO!
TENS MUITO TALENTO. BOA NOITE.
ESPERA! QUAL É A TUA PREFERIDA?
TODAS, NÃO CONSIGO ESCOLHER.
E TU, O QUE FAZES?
TRABALHO COM A MODA
ÉS MODELO?
VAI COM CALMA.
ORGANIZO EVENTOS LIGADOS À ÁREA DA MODA.
SOU ESTAGIÁRIA. PAGAM-ME EM MIGALHAS.
NÃO CONHECIA ESSA EXPRESSÃO.
O MEU PATRÃO É MUITO AVARENTO.
... É MUITO MESQUINHO.
O MEU PATRÃO É UM SOVINA, MAS FICA-ME BEM NO CURRÍCULO.
TENHO TEMPO. AINDA SOU NOVA.
Como correu?
Fomos sair.
Fizeram algo de especial?
Sim, fomos ao bowling.
Que porreiro, não?
Ela também lá estava?
Isso já não me incomoda!
- Claro... - A sério.
Por que perguntas? Eles pareciam gémeos siameses.
É verdade, até metem impressão.
Quem ganhou?
Ela, da primeira vez e o pai depois, acho eu.
E tu?
- Ele ficou em primeiro dos últimos. - Cala-te!
Podíamos falar francês, não? Se puder ser.
À mesa, não, Max.
"Menina, não invejes a nossa idade de dor em que o coração é escravo e rebelde
em que o riso é, por norma, mais triste do que os teus prantos.
Não te apresses a maturar o pensamento. Desfruta da manhã e da primavera.
Os teus dias são como flores emaranhadas.
Não colhas as folhas mais rápido do que o tempo.
Não é lá muito inspirador. Desculpa, mas isto é para velhos.
Percebeste de que fala. Já é alguma coisa.
E o que devo fazer eu agora?
Não sou eu que vou dar o exame.
AINDA ESTOU EM REUNIÃO
Que figuras de estilo são usadas?
Qual é o estilo de rima?
Isto é gentil.
Eu quero ajudar-te, mas tens de pensar por ti.
Certo, está bem.
Não fiques chateado.
É uma rima cruzada, ABAB.
Existem três figuras de estilo.
Já ouviste falar em metáforas?
Esta luzinha verde...
Indica que o outro também está online, assim como eu.
Também ele está à frente do ecrã..
O que sente ao ver essa luz verde?
Alívio, sobretudo.
Com um Ventolin, já conseguiria respirar melhor.
Eu sou...
... muito feia.
E muito velha!
A excitação...
E ENGRAÇADA TAMBÉM!
Talvez ele veja o que está a fazer,
as fotos que comenta, a música que está a ouvir.
É incrível o que se pode saber sobre uma pessoa.
NÃO TENS INSTA?
Insta?!
Rede social, partilha de fotos e vídeos, plataformas móveis.
Não faz o meu estilo fazer o que toda a gente faz.
Compras com antecedência pela Internet...
PERCEBESTE QUE NÃO PODES VIVER SEM MIM
Já nem tens de fazer fila.
Tudo bem, Claire? Passa-se alguma coisa?
Não. Quer dizer, sim.
Um tipo a incomodar.
Diz lá quem é.
Nada, é um miúdo que se entusiasmou.
- Um aluno? - Ele gosta de brincar com o fogo.
Não começaste a achar graça a putos novos, pois não?
Não acho graça nenhuma.
Isto é serio.
Mas as mulheres que fazem o mesmo que os homens são faladas?
É de homem, certo?
Sempre houve homens com mulheres mais novas.
Não é novidade nenhuma.
Não é igual, não mesmo. É um nível diferente.
O advogado do diabo!
QUERO SABER EXACTAMENTE O QUE É QUE QUERES.
DIGAMOS QUE ME INTRIGAS.
AI SIM? PORQUÊ?
O TEU COMPORTAMENTO.
COMO É O MEU COMPORTAMENTO?
INTRIGANTE.
Se quisermos escolher uma escritora independente do século XX,
é necessário analisar a personalidade de Marguerite Duras.
"Muito rápido", escreveu ela,
"já era tarde demais na minha vida. Aos 18 anos já era tarde demais."
"Entre os 18 e os 25 anos, a minha cara seguiu um rumo inesperado."
"Nunca me perguntei a toda a gente se lhes acontece o mesmo,
mas eu ouvi falar dessa passagem do tempo
que, por vezes, nos apanha
nas idades mais jovens e mais alarbadas da vida."
Cada palavra foi escolhida cuidadosamente.
Um pequeno erro da minha parte,
uma má escolha de palavras e...
a magia pode esfumar-se.
SABES DO QUE EU GOSTAVA?
DIZ LÁ!
UMA FOTO REAL TUA
Não pude recusar-lhe a foto.
Porquê?
Acho que ele iria suspeitar.
Não podia voltar atrás.
Isso excitou-me, acho eu.
Foi nessa altura...
... que a espiral começou.
Uma espiral?
Teria de dar uma cara real à Clara Antunes.
Olá?
É a Clara.
Estás a ligar em privado?
Quero certificar-me de que não és um psicopata.
Eu entendo.
E então...
- Não te pareço o Dexter? - Não.
A tua voz parece...
É estranho, é diferente do que eu imaginei.
Bem, eu...
Lamento.
Não lamentes, tu...
Tens uma bela voz.
Para te ser franco, acho a minha voz terrivelmente irritante.
A mim não me parece.
És muito amável.
Tens uma voz muito jovem.
Quantos anos tens exactamente?
És adulta, espero eu...
Tens mesmo vinte e quatro?
Quase vinte e cinco.
- Pareces mais jovem. - Estou habituada a ouvir isso.
Publiquei uma foto.
Não gostaste?
Sim, adorei.
Então gostas de mim?
Sim, pode dizer-se que sim.
Viste o meu comentário?
COMO NÃO GOSTAR DESTA SUBLIME CRIATURA?
Obrigada.
Mas bem...
Já me podes dar o teu número?
Certo. Para além de te esconderes, também és muda.
Clara?
Quem estava nessa foto?
Não faço ideia, escolhi à sorte.
Isto não a incomodou? O Alex não a viu nem imaginou a si,
mas sim a outra mulher.
Não, de todo.
Ele disse que gostou da minha voz.
Das minhas palavras, da minha maneira de pensar, isso é o verdadeiro eu.
Se contasse a verdade, ele ia expor-me no Facebook.
E nunca me aceitaria como amiga.
Não teria tido qualquer vontade de querer conhecer uma mulher como eu.
"Uma mulher como eu?"
Sim, uma mulher...
Com pálpebras pesadas e uma pele tão pálida.
É importante para si que as pessoas a achem bonita e jovem.
Não é?
Nunca quis renunciar a esse prazer.
Gosto de pensar que vão olhar para mim e achar-me bonita. Você não?
E, ainda assim, a este homem envia uma foto de outra mulher.
Sim, fiz o contrário.
Como se...
Não dei a mim própria a oportunidade de existir aos olhos dele.
JÁ PODES LIGAR-ME QUANDO QUISERES. CLARA, A MUDA.
Baudelaire faz uma análise da Marquesa de Merteuil,
uma personagem feminina sempre um passo à frente e superior a Valmont.
Mas o que mais lhe interessava não era a sua superioridade à Valmont,
mas a sua rebelião como mulher, a sua rebelião...
... contra uma sociedade hipócrita.
Abram os livros na página 81.
ALEX 9 CHAMADAS NÃO ATENDIDAS
Quando estava com ele, sentia-me viva.
A Sra. Merteuil decidiu cedo criar um eu único.
Nunca me sentira tão cheia de vida.
Não fingia ter 24 anos.
Eu tinha 24 anos.
Conheceste muitos homens?
No Facebook?
Não, refiro-me a...
- Homens que significaram algo para ti. - Só houve um assim.
Ainda não tens 25 anos. Tens muito tempo.
Ainda pensas nele?
Até gostava...
Gostava de me lembrar apenas dos bons momentos, mas é difícil.
Falavam de quê?
Sobre teatro, arte, literatura.
Certo, então ele era um intelectual?
- Sim. - Era mais velho do que tu?
Ligeiramente.
Deves entediar-te tanto ao falares com um homem como eu.
Dou a entender isso?
Totalmente.
Há muito tempo que...
Há muito que não me sentia assim tão bem com alguém.
Tu tranquilizas-me.
- Clara? - Sim.
Acho que algo se passa entre nós.
Isso não acontece assim...
Num dia.
Às vezes, sim.
Está aqui a prova.
- Olá, tudo bem? - Sim. Fica-te bem o corte novo.
- Obrigada. - Estás bem.
- Tu também, já agora. - Ando de olho em mim.
Dias 10 e 11 em Caluire, 12 em Lausanne, 14 em Genebra.
Estou-me a cagar para a tua digressão de teatro, Gilles.
Deixa-me explicar, Claire. Vou buscá-los logo de seguida.
Não vamos mudar o planeamento.
Vê isso com a tua nova gaja. Ela não trabalha.
A minha nova gaja? E diz uma professora de francês isto!
- Não os querias sozinhos com ela. - Mudei de ideias.
É bom ser-se egoísta.
Precisei de mais de vinte anos ao teu lado para me entrar na cabeça.
Não me perguntes porquê.
Conheceste alguém.
- Queres saber, não queres? - Só quero saber como estás.
Mas sim, conheci, se queres saber. É bonito e é meigo.
- E com ele tudo é diversão. - Os meus parabéns.
Começo a libertar-me de ti. É um verdadeiro prazer.
Então, como correu a festa?
- Foi terrível. - A sério? Porquê?
A média de idades era de 55 anos. Inacreditável.
- Estás a brincar. - Não estou nada!
Não acredito nisso.
Atraíste todos os olhares.
Talvez.
- Já estás em casa? - Já estou na cama.
O que tens vestido?
Uma camisola decotada.
E umas cuecas.
Não tens nada por baixo da camisola?
Não.
Levanta-a.
Pus-te a mão na barriga. Estás a senti-la?
Sim, estou.
Deslizo bem devagar.
Pelo teu peito.
- Sim... - Tens umas belas mamas.
Redondas e robustas.
- Eu quero beijá-las. - Beija-as.
Estou a beijar-te os mamilos.
Sentes-me a lamber-te os mamilos?
Sabes o que quero que faças enquanto te lambo os mamilos?
Que enfies a mão por dentro das cuecas.
Também tenho vontade.
- Tens muita vontade? - Sim.
Di-lo.
Tenho vontade de...
enfiar um dedo dentro das minhas cuecas e deixá-lo deslizar.
Então fá-lo.
Como te sentes?
- Quente. - Quente e molhada?
Muito quente e muito húmida.
Estás a tocar-te na rata?
Vá, toca-te.
Adoro que te excites. Continua.
Quero ouvir-te gemer.
Fiquei teso.
Estou a penetrar-te.
Continua.
Vem-te!
Vim-me.
É tão intenso...
Alex.
Meu amor.
Meu amor.
Tenho saudades de fazer amor.
Não apenas isso...
Mas os beijos, as carícias.
O tocar.
Mais até o ser tocada.
O que é o amor sem desejo?
Fale-me de si. Eu conto-lhe tudo, mas...
Nunca me diz nada de si.
Sou apenas a confidente temporária de uma mensagem que não é para mim.
- Então não é flexível? - Não, sou médica.
Sou sua médica.
Não sou sua amiga.
Nunca foi para a cama com um cliente?
Acontece muitas vezes.
Alguém desejar o seu terapeuta, não?
Pode dizer-se...
que isso às vezes faz parte do processo.
Faz parte do processo?
Do processo de cura.
Sim, mas isso é para o paciente. E para o médico?
Aprendemos algo de nós mesmos com cada paciente.
Por vezes temos um benefício teórico e noutras vezes...
... um benefício pessoal.
Isso excitou-a?
O episódio ao telefone no carro com o Alex.
Há limites que foram estabelecidos pelos códigos de conduta médica, Claire.
- Então não podemos ver-nos? - Na próxima semana, não.
- Tenho de tratar da minha sobrinha. - Tu prometeste.
Não tenho tempo, desculpa.
Não podemos continuar nisto. Eu quero ver-te.
A minha vida é complicada. Tenta entender-me.
Dou o meu melhor, mas, pelo menos, diz-me que também tens vontade.
O que está ela a fazer?
Será que se esqueceu de nós?
Amo-te, Alex. Mesmo. Sinto-me tão bem a teu lado.
Também desejo ver-te, sentir-te... Nada mais me importa.
Estou a conduzir. Depois ligo-te, está bem?
Era o vosso pai.
Vamos, vermelhos!
Vamos lá.
Falta!
Isto é falta!
Mas que árbitro! Compra a merda de uns óculos!
- Mãe, senta-te. - Ele fez cara feia, mas é verdade.
Tem filhos, doutora?
Deve ter um marido brilhante.
Ou então não.
Não é frustrante nunca poder dar a sua opinião?
Se soubesse o que às vezes me passa pela cabeça,
cairia da cadeira.
Falava das crianças.
Sim, os meus filhos.
Os meus filhos.
Quando estavam com o pai...
- Ficava tudo mais difícil. - Por que mais difícil?
Deixava-me levar.
Até onde?
Até agora.
Que me sinto mais Clara do que Claire.
Imaginas-me como qualquer outra miúda.
Clara...
Mas tu não me conheces.
Eu sei que és única.
Pois.
Não podemos pôr a carroça à frente dos bois.
Mesmo que seja difícil para nós.
Isto deixa-me louco.
Certo, aqui vai um presente para o sr. Impaciente.
Ainda não me disse de onde é que veio a foto.
Nem o vídeo.
Disse, veja nos seus apontamentos. Dei com eles por acaso no Google.
Foi mesmo por acaso?
Por que mentiria eu?
Esta é a cara que ele ama. A foto desta jovem.
É que...
Não faz sentido, não significa nada.
Era uma desconhecida.
Sim.
E tem acesso assim tão facilmente às fotos e vídeos de um estranho?
Em que mundo vive, doutora? Claro que é fácil.
Todos mostram a vida no Facebook e no Instagram. Está lá para se ir buscar.
Isto não é um interrogatório, Claire. Se não disser a verdade, não posso ajudar.
Raios!
Vou ser franca, então.
Era uma foto da minha sobrinha Katia.
Satisfeita? Que diferença faz?
Da sua sobrinha?
Uma loira linda. O Alex preferia as loiras, só isso.
- Só isso? - Sim, só isso.
Fale-me dessa sua sobrinha.
Não há muito para contar.
A Katia é filha do meu irmão.
Após ele e a esposa falecerem num acidente de moto,
ela ficou órfã de um dia para o outro. E é tudo.
- Não entendo onde quer chegar. - Trouxe a minha sobrinha para casa.
Tratei-a como uma filha, embora não a conhecesse há muito.
Ela sabe que utilizou esta foto?
Não, já não nos damos.
Depois de se resolver a herança, a Katia partiu para a Noruega.
Então, tem o rosto dela, a idade dela, a história dela...
O que procurava?
Uma outra vida?
Não outra vida, mas sim a minha própria.
Finalmente.
Não saí de casa ontem. Choveu o dia todo.
Aqui também.
Fiquei a pensar que...
Talvez tivesses tempo para me ligar.
Chorei.
Queres que eu fique?
Estou morta de cansaço.
Às vezes, pareces uma senhora a falar.
Continuarás a gostar de mim...
... quando eu envelhecer?
Até que idade?
Cinquenta.
50? Acho que sim.
Temos a vida pela frente ainda.
- Esperaste por mim? - Claro.
- Que gentil. E o que fizeste entretanto? - Preparei a minha viagem.
Qual viagem?
Vou a Goa no final do mês.
Sozinho?
Não, vou com o meu colega de quarto. Sabes, o Ludo, falei-te dele.
- Quanto tempo vais? - Dois meses.
Tens medo de não poder viver sem mim?
Clara? Clara?
Há quanto tempo sabes disso?
Há muito tempo.
E só agora é que me contas.
Apareceste sem avisar, linda.
Vem comigo.
- Não posso. - Podes, sai do estágio.
Só se vive uma vez.
O que vai mudar entre nós enquanto eu estiver em Goa?
Acho assustador pensar que estás assim tão longe.
Aqui também não podemos estar juntos.
Tens saudades minhas? Queres ver-me?
Claro.
Claro. E tu não?
Sim, mas...
Estou tão assustada.
- Tenho medo de decepcionar-te. - Mas não.
Eu sei que não.
Também tenho medo que te decepciones.
Clara...
O que está aqui a fazer?
Vamos lá para fora? Preciso de apanhar ar.
Certo, vamos lá.
Não consigo esquecer.
Não consegue esquecer o quê?
Ele era o centro do meu universo.
Quando ele foi a Goa, conversamos todos os dias, várias vezes até.
Se soubesse, teria desejado que tudo continuasse assim.
Quando ele voltou de Goa, começou a ficar muito exigente..
Cada vez era mais difícil acalmá-lo.
SURPRESA! ACABO DE CHEGAR DE GOA.
ALEX E CLARA ENCONTRAR-SE-ÃO DENTRO DE TRÊS MINUTOS
Eu estive aí.
Na mesma cidade que tu.
Hoje não dava para mim.
Espera, isto assusta-me.
Tu és psicopata. Andas a fazer pouco de mim.
- Tu és doida. - Não, eu...
Estou?
- O que estão aqui a fazer? - Hoje é domingo.
Claro, estava à vossa espera. Estava a ficar preocupada.
Deixa lá isso.
- O que se passa? - Eu vou pôr a mesa.
O que foi, o que se passa?
Chegaram uns amigos sem avisar.
- Estás a falar baixinho porquê? - Tenho de desligar, depois ligo-te.
Não, não é isso. Andas a enganar-me? Estou farto disto, Clara.
É sempre como tu queres e agora nem falar podemos. Qual é o problema?
- O congelador está vazio. - Vou fazer panquecas.
Não há ovos.
É que...
Preciso de te contar uma coisa.
O quê?
Sou comprometida.
Eu e ele moramos juntos.
Há quanto tempo?
Há uns meses antes de apareceres. Não sei bem.
Porra! E só me dizes agora?
- Não podias ter dito antes? - Eu tentei.
Ele sabe de mim?
Não.
O Gilles é muito ciumento e paranóico. As coisas não estão bem entre nós.
Não continues.
Agora entendo por que não querias ver-me.
- E eu a fazer figura de urso! - Desculpa, Alex.
Sinto-me mal.
Desculpa, Alex.
Tenho de desligar. Tenho de ir lidar com isto.
Desculpa.
Olá, Clara.
Não sei como estás, mas eu estou completamente perdido.
Também não sei o que viste em mim.
Não sei o que fazer. Estou a dar em louco.
Estarei em Paris na quinta-feira. O comboio chega a Montparnasse às 15:02.
Não me ligues nem envies mensagens.
Se queres mesmo saber de mim, aparece por lá.
Nem imaginas o quanto eu gostaria de te conhecer.
Era um nó impossível de desfazer que tinha de ser cortado.
Isso partiu-me o coração.
Mas, ao vê-lo no autocarro, tão jovem e vulnerável,
soube que era o momento certo.
Dava-me muita pena.
Ontem aconteceu algo inesperado, Alex.
O Gilles pediu-me em casamento.
Eu aceitei.
Vamos emigrar para o Brasil.
Ele aceitou um trabalho lá.
Sei que esta é a escolha certa.
Eu e tu vivemos dentro de um sonho de olhos abertos.
Foi maravilhoso.
Mas não passou de um sonho.
Não me guardes rancor, Alex.
Sempre haverá algo de ti em mim.
Retomei a minha antiga vida, tal como se fecha um romance.
Ferida.
Abatida.
Velha.
Quando quis entrar em contacto novamente, já era tarde demais.
A página dele tinha desaparecido.
E, ao desaparecer, o Alex tornou-se mais radical do que eu.
E mais forte também.
Estou?
Andei ocupada, só isso.
Pois.
Que sagacidade.
Não hesitei muito, pois era a única forma saber algo a respeito do Alex.
- Estás magnífica. - É muito amável da tua parte.
Este ano não parei. Entre as editoras e os cursos.
E tu, continuas com os projectos de construção?
- Tudo bem. - Pareces cansado. Como estás?
Tudo bem.
- Tem estado difícil. - Difícil?
Lembras-te do meu amigo Alex?
- O fotógrafo. - Sim, vagamente.
Teve um acidente de carro.
Atirou-se ao vazio.
Estás a ver?
Tudo por uma psicopata que conheceu no Facebook, mas que nunca viu.
A polícia viu que ele não travou.
Morreu.
Lamento.
Estou?
Se alguém morre,
o que fazemos à sua identidade virtual?
Deixamos ficar como está? Apagamo-la?
Que tipo de escolha temos?
Espere.
Pus-me a escrever.
É vital e necessário.
Quero saber a sua opinião. Para mim é importante.
Vou lê-lo.
AS VERDADEIRAS CONFIDÊNCIAS de Claire Millaud
Durante muito tempo,
a ideia que nada acontecera entre nós foi insuportável.
Acabar era como renunciar à vida.
Ao fim e ao cabo, andava louca por este homem.
Porquê acabar? Quanto me custaria tentar?
O medo de não poder substituir a Clara?
O Alex seria infeliz?
Mas eu poderia confortá-lo.
Desculpe, acho que o conheço.
- Perdão? - Acho que o conheço.
- Não é amigo do Ludo? - Do Ludovic? Sim.
Eu sabia que sim. Sou uma amiga do passado.
Não se recorda?
- Aquela das ostras ao telefone. - Pois, sim.
Ainda mora com ele no Somme?
Ele não me expulsou. Ainda.
Então deve ser boa pessoa.
É fotógrafo?
Mais ou menos.
Estou a trabalhar numa exposição.
O Ludo falou-me disso.
Ele mostrou-me fotos suas. Isto é, tiradas por si.
Gostei imenso delas.
Obrigado.
Tenho de sair na próxima.
Também faz retratos? Quer dizer, não só fotos de exterior.
Mas sim retratos de...
Sim, também faço. Retratos, álbuns fotográficos.
Faço de tudo, até casamentos.
Preciso de uma fotografia para o meu próximo livro.
Por norma, enviam-me um fotógrafo, mas já que estamos aqui...
É engraçado encontrarmo-nos. Talvez possa...
Sim, claro.
Ando à procura de trabalho, por isso vem mesmo a calhar.
- Posso ficar com o seu contacto? - Se quiser ficar com ele.
- Desculpe, não lhe perguntei o seu nome. - Claire.
Chamo-me Claire.
Principalmente está Nora, na "Casa de Bonecas" de Ibsen.
A boneca, a boa mulher.
A mãe responsável. Ela é assim.
A peça põe em cena o despertar da sua consciência.
A emancipação de uma mulher de um papel pré-definido pela sociedade.
E hoje, mais de um século depois, podemos interrogar-nos se
ainda devemos recusar conformarmo-nos
e submetermo-nos às normas dentro das quais estamos encerradas.
Como é que ele fez?
O quê? Quem?
O Ludo... Como ele fez para estar com uma mulher tão bonita?
És bastante fotogénica.
Certo. Talvez fosse melhor...
- Desapertares o primeiro botão. - Da minha blusa?
O livro é para estudantes universitários, não sei se...
Mais um motivo para seduzir o leitor.
Muito bem...
Muito bem.
- Chega-te para trás. - Um pouco mais relaxada?
- Desculpa, mexi-me. - Não faz mal.
- Casada, com filhos, divorciada? - Precisamente.
- Acertei nos três. - E pela ordem certa.
E tudo isso em menos de 30 anos? Estás a esconder-me alguma coisa.
Será que posso...
... tentar uma coisa?
- Tudo bem ou queres fazer uma pausa? - Não, continua.
Não tenho nada a esconder.
Casei-me há vinte anos com um homem que era tudo para mim.
Antes dele tive dois namorados. Mas foi há tanto tempo que os esqueci.
Tive dois filhos. Dois meninos.
Achei que seria uma boa mãe se lhes desse o peito.
Os meus seios e a minha barriga nunca se recuperaram.
O meu marido trocou-me por uma mulher que podia ser minha filha.
Quando isso aconteceu, pensei que morreria de tristeza.
Sou uma apaixonada. Esta é a palavra certa.
Sei que também posso ser muito feliz.
Por isso acho que...
Que sabes quase tudo.
É de loucos.
O quê?
O facto de nos termos conhecido. É de loucos.
Podes sempre cortar a fotografia. Para que seja mais nítida.
Gosto muito desta. Acho que está muito bonita.
Esta é igual, só que contigo a sorrir. É a minha preferida.
- Não? - Sim.
Fazíamos amor dia e noite.
Havia que recuperar o tempo perdido.
Rapidamente, fomos viver juntos. Ou melhor, ele veio viver comigo.
Tapa-me os olhos e, ainda assim, conseguirei ver-te.
Tapa-me os ouvidos e, ainda assim, conseguirei ouvir-te.
Mesmo sem pés, conseguirei seguir-te.
Mesmo sem boca, conseguirei chamar-te.
- Lê a seguinte. - Não, lê tu.
Vá lá, por favor.
Parte-me os braços e abraço-te com o coração, como se fosse uma mão.
Obstrói-me o coração e o meu cérebro vai ganir.
Queima-me o cérebro e levo-te no sangue.
Amo-te.
- Amo-te muito. - Eu também.
Sabes do que eu mais gosto?
É estranho, mas é a tua voz.
A voz da Claire é a da Clara.
É evidente que o Alex ainda pensava nela.
- Em Fevereiro vou a Paris. - Estarei em Milão.
Pensei tão ingenuamente que a minha cara iria substituir a dela.
Como poderia esquecer-me de que eu era um consolo por ele a ter perdido?
Pior ainda. Ele amava-a através de mim.
Não há rival maior do que aquela que não existe.
Alex, não consegui esquecer-te. Acabei com o Gilles.
Estou de volta a Paris. Amo-te.
Não sei de ti, mas se ainda me amas, vem ter comigo ao Café Français.
Estarei lá entre as 18h e as 20h. Não tentes ligar. Se não vieres,
nunca mais vais ouvir falar de mim. Juro. A tua Clara.
- Estás pronta? - Sim.
- Lá vamos nós. - Sim.
- Não queres mesmo ficar em casa? - Não, quero ir comer fora.
Eu prefiro comer-te a ti.
Talvez dê tempo de irmos ao cinema.
Com certeza.
Vê os horários.
Vou buscar uma camisola.
Tenho frio.
VOU VOLTAR A PARIS. AMO-TE E TENHO SAUDADES.
ALEX, NÃO CONSIGO ESQUECER-TE.
PERFIS RECENTES
BEM-VINDA DE VOLTA, CLARA.
OUVIU-SE UM GRITO, UMA TRAVAGEM E UM ESTRONDO.
E, POR FIM, O SILÊNCIO.
Num filme, podia acabar assim.
Pois, e na realidade?
Por que não pensa num final feliz?
Mesmo num mundo de fantasia,
não se permite ter sorte, como se quisesse magoar-se.
Uma e outra vez.
Quem a magoou, Claire?
Quem a magoou?
Sabe o que eu roubei à Katia?
Levei muito tempo a perceber, mas a atitude da Katia, a minha sobrinha...
Tornou-se mais hostil comigo.
Cada vez mais.
O Gilles é tio dela apenas pelo nosso casamento.
Foi-me dito com bastante frequência que não havia relação de sangue.
"Ela ama-a e eu amo-a."
"Não há circunstâncias agravantes, há apenas amor."
São as palavras dele.
Na verdade,
é a diferença de idades de 27 anos contra vinte anos de casamento.
A Katia não voltou para a Noruega. Foi morar com o meu marido.
Não podia contar-lhe.
Nem sequer podia escrever.
Eles destruíram-me. Ela destruiu-me.
Mas ela era a sua rival e escolheu encarná-la?
Sim.
Quis a beleza, a juventude dela...
Invejava a felicidade dela, já que ela roubou a minha.
Eu tinha ciúmes.
Tudo acontece como se recusasse a verdade, como se fugisse dela.
O desejo pela eternidade, a ilusão da eterna juventude.
Todos queremos afastar-nos
da perspectiva da nossa morte.
Não me importo de morrer.
Mas importo-me de ser abandonada.
Não há idade para se ser jovem.
Preciso que se preocupem comigo, que me confortem, ainda que com ilusões.
Há quanto tempo foi isso?
Entrou na clínica há cerca de nove meses.
Foi demasiado longe.
O Alex estava completamente caído por ela.
Ao ponto de um dia ele vir ter comigo e mostrar-me uma mensagem.
Reconheci imediatamente a voz.
Ao início, não quis acreditar.
Achei que fosse um jogo.
Um jogo algo perverso.
Não contei nada ao Alex, mas tentei chamá-lo à atenção
que essa miúda, a Clara...
... era perfeita demais.
E ele começou a duvidar de tudo.
Quando a Clara desapareceu, ele apagou o perfil dele.
Uns meses depois, ligou-me.
Eu disse-lhe que ele estava morto por causa dela.
Que se tinha suicidado.
O meu amigo enlouqueceu e eu...
Não gosto de ser corno.
Por isso menti-lhe.
Não estou a entender.
Ele não está morto?
Não.
Até se tornou pai.
Vive no sul de França.
E é casado.
Foi pai no mês passado.
De uma menina.
Por vezes, consideramos-nos culpados, mas não o somos.
Vim despedir-me de si.
Às vezes, um paciente leva algo nele que tínhamos e que perdemos.
Segui os seus conselhos.
Recomecei a escrever.
Fez-me bem perceber que tudo pode ser novamente possível.
E que não há apenas um final.
Não.
Não.
Adeus, Claire.
Adeus, doutora.
Um filme de
Produção
Fotografia
Música
Tradução e Legendagem darkdevil
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