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Queremos os Beatles.
Queremos os Beatles.
Queremos os Beatles.
Queremos os Beatles.
Queremos os Beatles.
Queremos os Beatles.
Quando The Beatles irromperam no cen�rio mundial, em 1963,
transformaram a m�sica popular da noite para o dia.
Um fen�meno comercial como nenhum outro,
eles abriram caminho a todos os artistas que seguiram as suas pisadas.
Eles estavam a vender grandes quantidades de discos,
um quarto de milh�o por semana.
Ningu�m o tinha feito antes. Nem mesmo o Elvis ou o Lonnie Donegan.
Todas as semanas a vender um quarto de milh�o de discos.
Tivemos uma revolu��o, mesmo em termos de vendas.
Mas adicionalmente, n�o ter�amos tido The Rolling Stones.
N�o ter�amos tido The Byrds.
N�o ter�amos tido Dylan numa guitarra el�trica.
N�o ter�amos tido The Doors
e todas essas bandas que est�o associadas aos anos 60.
As hip�teses de terem existido sem os Beatles eram m�nimas.
Mas o impacto da banda alastrou-se muito para al�m da m�sica.
Como representantes de uma cultura juvenil que florescia,
a influ�ncia deles penetrou no cora��o do mundo p�s-guerra.
Eram agentes de mudan�a. Estavam a levar todos com eles.
Tudo parecia moderno, novo, fresco.
Para onde quer que olh�ssemos, o mundo come�ava a parecer diferente.
As cores come�aram a emergir,
o despontar de uma nova cultura.
A partir do momento em que os Beatles surgiram,
eles reinventaram a forma de se fazer cultura.
De repente, os adultos deixaram crescer os cabelos.
A mulheres usavam minissaias.
Subitamente, eram os jovens que estavam a determinar tudo.
Isso come�ou com os Beatles.
Na segunda metade dos anos 60,
a banda transformou-se no l�der da contracultura emergente.
Trazendo novas ideias sociais, sexuais e art�sticas
para a corrente dominante. Atrav�s da sua revolu��o pac�fica,
eles tornaram-se na voz incontest�vel de uma gera��o.
The Beatles foram a banda mais comercial do mundo.
Mas foram tamb�m os mais vanguardistas e experimentalistas.
Foi esse o papel deles. Com a sua m�sica, mudaram as mentalidades.
Eles ajudaram muitas pessoas que, sem eles, poderiam nunca ter avan�ado...
FIM � GUERRA DO VIETNAME
TRAGAM OS SOLDADOS PARA CASA
... com o que aconteceu entre 1966 e 1968.
PRENDAM O SECRET�RIO DA ADM. INTERNA
Eles eram inspiradores e influentes a este ponto.
Mas � medida que ficavam mais envolvidos na contracultura
e mais representativos disso, tornaram-se numa amea�a pol�tica.
V�O PARA CASA BEATLES
Este filme tra�a o caminho dos Beatles
atrav�s da d�cada mais extraordin�ria do s�culo XX.
Revela o impacto perdur�vel de quatro m�sicos de Liverpool,
que passaram da luta de classes a revolucion�rios culturais,
enquanto proporcionavam a banda sonora para uma gera��o.
Foram catalisadores para muitas coisas importantes.
Eles mudaram quase tudo.
Gr�-Bretanha, 1962.
Um pequeno e outrora dominante reino, finalmente a recuperar da austeridade
que se seguiu � Segunda Guerra Mundial.
Uma na��o de disciplina e ordem,
de cidades industriais e tranquilas aldeias verdejantes.
E embora exteriormente parecesse presa ao passado,
sob a superf�cie, desenvolvia-se uma nova cultura
que rapidamente iria transform�-la.
No final do ano, o Reino Unido foi atingido
por uma das maiores vagas de frio que j� tinha sofrido,
a vida quotidiana obrigada a parar, enquanto a neve cobria o pa�s.
Atravessando este amargo inverno, em 11 de janeiro de 1963,
foi lan�ado um disco que nos deu o primeiro lampejo
do mundo novo e corajoso que estava para vir.
"Please Please Me", o segundo single dos quatro rapazes de Liverpool, The Beatles,
rapidamente ascendeu ao n�mero dois dos tops brit�nicos
e o seu sucesso anunciou a chegada
de uma for�a revolucion�ria, tanto na m�sica como na cultura.
"Please Please Me" foi uma esp�cie de explos�o.
Eles apoderaram-se da impetuosa for�a do rock and roll dos anos 50,
que era um instrumento contundente, n�o h� outra maneira de descrev�-lo.
Musical e socialmente, foi um instrumento contundente.
E eles adicionaram a isso as harmonias
e toda a qualidade vocal lamuriosa dos coros de raparigas,
do in�cio dos anos 60.
Ningu�m tinha ouvido algo semelhante a isto, anteriormente.
Este foi um grupo que teve dois dos melhores vocalistas
da sua era, no mesmo grupo,
e creio que nunca tinha acontecido algo assim.
O som de John Lennon e Paul McCartney a cantarem juntos...
AUTOR - "CAN'T BUY ME LOVE: BEATLES, GRB E EUA"
... � um dos grandes sons da m�sica do s�c. XX.
Foram um choque para o sistema.
"Love Me Do" foi o primeiro single, e foi uma falsa partida.
"Please Please Me" � quando temos a banda em un�ssono.
COMPOSITOR E JORNALISTA
Eles cantavam: "Anda, anda."
H� uma sensa��o de antecipa��o e uma sensa��o de entusiasmo.
Era um som fresco. Parece t�o tradicional, agora.
Mas, naquela altura, a apar�ncia e o som eram completamente frescos.
Era positivo, edificante e moderno.
The Beatles... John Lennon, Paul McCartney,
George Harrison e Ringo Starr,
providenciaram o t�o necess�rio est�mulo � cena pop brit�nica.
Embora o rock americano tenha sido muito popular em meados dos anos 50,
a sua excitante explos�o inicial demonstrou ter uma vida curta.
Com as suas estrelas principais, a venderem ou a desaparecem da cena,
os m�sicos que vieram no seu rasto eram mais s�os e menos amea�adores.
Os artistas brit�nicos seguiram o exemplo
e a paisagem musical no Reino Unido foi dominada por imitadores talentosos
e pelos �dolos adolescentes da pop svengali de Larry Parnes.
Com o apoio de seu manager Brian Epstein e do produtor George Martin,
The Beatles ofereceram algo muito diferente.
Impulsionados pela incompar�vel parceria nas composi��es
de John Lennon e Paul McCartney...
EM POSI��O, PARTIDA!
... esta banda comp�s o seu pr�prio material.
A maioria do convencional mundo do espet�culo ingl�s
era um p�lido reflexo do mundo do espet�culo americano.
N�o foi sempre assim. Mas desde a guerra, certamente o foi.
Tivemos cantores como Matt Monro
que fez uma imita��o quase perfeita de Frank Sinatra.
Do mesmo modo, tivemos as famosas simplistas e presun�osas
estrelas da pop inglesa desse per�odo,
das quais Cliff Richard era, de longe, o mais conhecido e o mais bem-sucedido,
que era uma esp�cie de vers�o de terceira categoria do Elvis.
E n�o do Elvis de "Heartbreak Hotel", mas do Elvis de King Creole,
do Elvis estrela de cinema.
Era bastante profissional.
Cliff Richard and The Shadows eram bons artistas.
Era uma boa atua��o.
Mas era familiar.
E temos tamb�m personagens como Larry Parnes,
com os seus meninos bonitos que fizeram o que lhes disseram,
que cantaram o que lhes foi dito para cantar
e que n�o deram nenhuma contribui��o criativa em particular.
Ent�o, quando apareceu uma banda como The Beatles...
M�SICO E AUTOR - "THE ROUGH GUIDE TO THE BEATLES"
... que n�o s� tocava e cantava muito bem,
mas estava tamb�m a cantar as suas pr�prias composi��es,
foi algo incrivelmente raro, �quela data.
Os Beatles estiveram sempre interessados em escrever o seu pr�prio material.
Escreveram as can��es para o p�blico, dirigiram-nas ao p�blico.
Eles sabiam que 80% do p�blico eram raparigas adolescentes
e eles escreveram can��es que geraram a perfeita resposta delas.
E depois disso, seguiu-se o dil�vio.
Eles enviaram a mensagem de que todos podem escrever a sua pr�pria m�sica,
participar na a��o.
Em um ano ou dois, todas as bandas estavam a compor
ou a tentar faz�-lo.
N�o era apenas o extraordin�rio som
dos Beatles ou os talentos �nicos de Lennon e McCartney
que estavam a revolucionar a m�sica popular.
Ao chegarem a dominar os tops em 1963,
os seus sucessivos sucessos transformaram as fortunas comerciais
da pr�pria ind�stria discogr�fica brit�nica.
� medida que os Beatles se tornavam mais populares
e cada disco parecia vender cada vez mais,
houve uma revolu��o na ind�stria discogr�fica brit�nica,
mesmo em termos de vendas.
Nunca se tinha visto nada assim, quer na quantidade de vendas
quer no tempo em que os Beatles se mantiveram nos tops,
que foram diversos meses.
Al�m disso,
houve o impacto cont�nuo do sucesso ap�s sucesso,
sem nunca perderem qualidade.
Pelo contr�rio, a qualidade veio a aumentar
desde "Please Please Me" at� "From Me to You",
a qual era um pouco mais lenta, mas n�o menos astuciosa.
E depois, a surpreendente "She Loves You",
que explode do r�dio at� aos dias de hoje.
Pessoas como o Cliff, o Billy Fury e o Elvis...
S�CIO DOS BEATLES
... cada um deles estava a vender uma quantidade substancial de discos,
mas no in�cio de 1963,
por alturas de "Please Please Me", de "From Me to You"
e do �lbum Please Please Me,
estavam a vender uma vasta quantidade de discos.
Nunca se tinha visto algo assim na ind�stria pop.
De repente, era uma ind�stria fen�meno,
que n�o chamava a aten��o apenas dos jovens,
mas tamb�m dos investidores.
Ent�o, temos toda a gente a desbravar Birmingham para os The Moody Blues,
The Hollies em Manchester. E Liverpool, claro.
Todos os especuladores procuravam os pr�ximos Beatles.
Todos queriam uma fatia do neg�cio,
porque eles revolucionaram a ind�stria musical
em apenas alguns meses, em 1963.
Mas o impacto do grupo n�o se limitou meramente ao mundo da m�sica.
Eles tamb�m representaram e inspiraram uma mudan�a fraturante
no cora��o da sociedade brit�nica.
A forma como estes quatro jovens da classe trabalhadora de Liverpool
conseguiram liderar essa mudan�a
assenta nos Beatles e no passado do pa�s.
Nos dois s�culos anteriores � Segunda Guerra Mundial,
o Reino Unido liderou a Revolu��o Industrial
e governou o maior imp�rio do mundo.
Um dos fundamentos por detr�s desta superpot�ncia
era o seu sistema de classes,
que dividiu e ordenou os seus cidad�os.
Depois de sair vitoriosa da guerra, em 1945,
a elite deste sistema,
conhecida como o poder institu�do, que inclu�a a monarquia,
a aristocracia e os chefes das principais institui��es que governam a sociedade,
tentaram imediatamente refor�ar o seu poder
e, mais uma vez, esta cadeia de comando
moldou a vida dos brit�nicos, durante os anos p�s-guerra.
A Gr�-Bretanha era dominada por classes.
�ramos uma na��o de assuntos e n�o de cidad�os.
E enquanto tivermos uma fam�lia real...
ESCRITOR E AMIGO DOS BEATLES
... e um conjunto de nobres,
toda uma hierarquia de privil�gios,
obviamente, algu�m vai estar na base.
Ap�s a guerra, o poder institu�do tentou reafirmar-se, obviamente.
Ent�o, ainda t�nhamos os antigos valores crist�os, por exemplo.
Nada acontecia aos domingos.
At� os baloi�os dos parques infantis foram amarrados aos domingos.
Foi nos anos 60 que, pela primeira vez, se ousou contrariar estes costumes
e se come�ou a desafiar todos estes pressupostos tradicionais.
Na verdade, foi o mesmo grupo de pessoas da classe m�dia,
que assumiu ter o direito de dizer a todos como viver.
Tinham ainda muito poder.
Contudo, o poder da Gr�-Bretanha estava a diminuir e o seu imp�rio a desmoronar.
Quase falida, em resultado do seu esfor�o de guerra,
os anos de dificuldades que se seguiram viram todo o pa�s sofrer.
O Norte da Inglaterra, em particular, lutou para se recuperar
e a, outrora dominante, cidade portu�ria de Liverpool,
fortemente atacada pelos avi�es alem�es,
foi atormentada por danos generalizados e pelo desaparecimento da ind�stria.
Durante o s�culo XIX,
o norte desenvolveu um orgulhoso sentido de si mesmo.
O porto de Liverpool foi o maior porto do mundo,
porque a Inglaterra era a maior na��o comercial do mundo
e a maior parte das coisas entrava e sa�a por l�.
Mas ao longo do s�culo XX,
a Inglaterra passou por um fen�meno que � muito familiar
aos americanos do final do s�culo XX,
que � o decl�nio da industrializa��o, o decl�nio da ind�stria transformadora.
Na d�cada de 40, era muito evidente que Liverpool estava em decl�nio.
Como consequ�ncia, a gera��o dos Beatles cresceu neste lugar
que foi preenchido com os emblemas do poder imperial,
mas que estava a tornar-se num lugar muito mau para viver, em v�rios aspetos.
Havia escombros por toda a parte. As ruas estavam cheias de edif�cios bombardeados.
Todas as crian�as costumavam brincar nos pr�dios e em lugares desertos.
ESCRITOR E AMIGO DE JOHN LENNON
Os escombros ainda existiam 20 ou 30 anos depois.
N�o havia dinheiro e foi muito dif�cil.
O que tinham os jovens em Liverpool que lhes desse esperan�a no futuro?
Estava tudo a fechar. As f�bricas estavam a fechar.
Os tempos eram dif�ceis em Liverpool, naquela �poca.
E foi dentro desta paisagem estranha que os Beatles cresceram.
O fundador e membro mais velho da banda, John Lennon,
era o produto de um lar desfeito
e foi criado pelos seus tios numa �rea bastante rica da cidade.
Os seus futuros colegas, Paul McCartney e George Harrison, contudo,
vieram dos bairros da classe trabalhadora.
Apesar do abandono em torno deles
e dos tempos dif�ceis em que foram criados,
as perspetivas futuras dos tr�s foram impulsionadas
por um novo projeto educativo
que viu as crian�as mais brilhantes matriculadas em escolas de gram�tica,
fosse qual fosse a sua situa��o econ�mica.
John Lennon, Paul McCartney e George Harrison
fizeram um exame quando tinham 11 anos
que os certificou como inteligentes.
E em resultado de terem passado no que foi chamado de exame 11+,
qualificaram-se para as escolas de gram�tica.
As escolas de gram�tica foram projetadas para educar as crian�as
de modo a prosseguirem para alguma forma de ensino superior.
Era uma idade relativamente precoce, 11 anos,
particularmente para Paul McCartney e George Harrison,
que provinham da classe trabalhadora.
John Lennon era um pouco mais complicado. John estava numa posi��o interm�dia.
Mas em rela��o a Paul McCartney e a George Harrison,
aos 11 anos, estavam um pouco isolados
do mundo das habita��es em que cresceram.
Todos os dias iam de autocarro para o centro de Liverpool,
para irem at� um lugar chamado Liverpool Institute
e foram essencialmente moldados e educados a partir dos 11 anos
para transcenderem as suas origens.
Com uma educa��o muito melhor do que a dos seus pais,
estes futuros Beatles eram uma nova gera��o.
Criados no seio da orgulhosa classe trabalhadora de Liverpool,
mas serenos perante as elites cultas, supostamente acima deles.
E com a chegada do rock and roll, em 1956,
explodiu uma forma musical que falava diretamente � juventude
e ao seu sentido de diferen�a.
Foi no ano seguinte que John Lennon conheceu Paul McCartney
e o convidou a juntar-se � sua banda, The Quarrymen,
com George Harrison a juntar-se-lhes, pouco tempo depois.
� volta deles, em Liverpool,
um novo fen�meno encontrava a sua pr�pria voz de rebeldia...
Chegaram os adolescentes.
Os anos 50 tornaram-se a �poca
em que os adolescentes se tornaram independentes.
Est�vamos juntos no nosso amor pela m�sica.
At� ent�o, um jovem devia ser levado at� ao pub
pelo pai dele, na idade certa, para a sua primeira cerveja.
Ele vestia-se como o seu pai.
Entrava para o mesmo sindicato e para o mesmo trabalho do seu pai.
As raparigas estavam na cozinha a aprender a fazer o pequeno-almo�o,
a limpar e tudo o mais.
Mas, de repente, os jovens estavam a ganhar dinheiro
e queriam gast�-lo � maneira deles
e fazer as coisas deles e n�o queriam que lhes dissessem o que fazer.
Tinha sido aberto um fosso entre gera��es
e isso iria dominar a vida cultural da Gr�-Bretanha na d�cada seguinte.
E enquanto o rock fazia vibrar os jovens brit�nicos da classe trabalhadora,
outras influ�ncias americanas, dos poetas Beat, ao jazz e ao blues,
foram abra�adas por adolescentes da classe m�dia.
Se os futuros Beatles estavam no cora��o dos rebeldes do rock and roll,
nenhum deles o demonstrou melhor do que John Lennon.
Mas tendo reprovado nos exames em 1957,
encontrou um lugar no Liverpool College of Art,
onde foi atirado para uma desconhecida cultura estudantil bo�mia.
Embora isto se tenha mostrado vital para expandir os seus talentos,
aqui, Lennon era um estranho.
Eu conheci John Lennon no College of Art.
Eu estava sentado na cantina.
De repente, vi aquele tipo a passar.
E pensei: "Que roupas s�o aquelas?"
Ele estava vestido como um teddy boy,
com um estilo de roupa nada convencional.
Comparado com o dos outros estudantes.
Olhei � volta e estavam todos a usar casacos do mesmo tecido.
E camisolas de gola redonda.
Eu pensei: "Est�o todos a usar a mesma coisa,
s�o todos convencionais.
Ele � o rebelde. Ele � que � diferente.
Tenho de conhec�-lo."
Se estivessem na escola de arte na d�cada de 50, teriam sido expostos
ao radicalismo intelectual e � rebeldia de figuras
como Jack Kerouac e a Gera��o Beat,
que eram contra as religi�es e a favor da autoexpress�o
contra qualquer tipo de repress�o.
E os jovens revoltados do teatro, John Osborne, Arnold Wesker...
Estes tipos estavam revoltados, mas eram inteligentes.
S�BADO � NOITE E DOMINGO DE MANH�
Conseguiram direcionar a sua raiva, que pode ter sido uma ang�stia pessoal,
mas que quando � dirigida para o mundo exterior
pode criar uma eloquente voz representativa de uma gera��o.
Novecentos e cinquenta e quatro...
S�BADO � NOITE, DOMINGO DE MANH� REALIZADOR: KAREL REISZ
... malditos novecentos e cinquenta e cinco.
Podia acabar na metade do tempo, se fosse como um touro,
mas eles s� me cortam ao sal�rio para se poderem encher.
N�o deixes que os sacanas te desgastem, foi uma coisa que aprendi.
Este tipo de influ�ncia teria sido muito apelativa
para algu�m como John Lennon, que era, ele pr�prio, um jovem revoltado,
por v�rios tipos de raz�es pessoais.
Mas se puder ser um jovem revoltado
e cheio de ideias, isso � muito atraente.
No ver�o de 1960, o percurso letivo de John Lennon,
Paul McCartney e George Harrison tinha terminado.
No entanto, eles foram impulsionados para um outro tipo de educa��o.
Em agosto, a banda, que agora se chamava The Beatles,
partiu para uma temporada de concertos na vibrante cidade alem� de Hamburgo.
E ao longo do ano seguinte
foi aqui que ganharam a sua divisa de banda de rock.
Ap�s o retorno deles a Liverpool em 1961,
rapidamente subiram ao topo da cena musical da cidade.
No entanto, estavam isolados no norte
e o resto do pa�s prestava-lhes pouca aten��o.
Eu comecei a escrever para jornais como o The Daily Mail
a dizer: "O que est� a acontecer em Liverpool
� como Nova Orle�es na entrada para o s�culo XX,
mas com rock em vez de jazz."
Claro que ningu�m estava interessado.
Ent�o eu decidi faz�-lo sozinho e criei o Mersey Beat.
E claro que os meus amigos,
John e o grupo que ele formou, The Beatles,
eram o foco principal dos meus artigos.
Com uma audi�ncia adolescente �vida por informa��o
sobre este novo cen�rio do rock and roll,
Mersey Beat, o jornal de m�sica de Bill Harry, foi um enorme sucesso
no Norte de Inglaterra.
A celebrar The Beatles em quase todos os assuntos,
atraiu a aten��o de um dos subscritores,
o empres�rio local Brian Epstein.
O gerente de uma loja de m�sica de Liverpool.
Atrav�s de Bill Harry, Epstein agendou um concerto para a banda
no lend�rio Cavern Club e foi surpreendido pela atua��o deles.
Ofereceu-se de imediato para gerir a banda
e em janeiro de 1962, foi assinado um contrato.
Atento � abordagem controladora de managers como Larry Parnes,
Epstein estava ainda consciente das regras n�o escritas
do setor do entretenimento brit�nico.
Se os Beatles iam mudar o mundo,
primeiro tinham de mudar o seu visual.
Penso que ele teve a intui��o para perceber o modelo global
do funcionamento das coisas neste pa�s.
Eles eram os selvagens Beatles vestidos com couro preto
e a tocar rock and roll para prostitutas,
mafiosos e outros assim, em Hamburgo,
a consumir drogas e coisas do g�nero.
Eles eram os selvagens Beatles.
Eles nunca teriam sido aceites pelos media tradicionais.
E o avan�o dos Beatles no in�cio de 1963,
confirmou que os instintos de Epstein estavam corretos.
Ele introduziu com sucesso uma banda �nica de rebeldes
no centro da corrente dominante.
Mas ao contr�rio dos managers controladores
que dominavam o mundo do espet�culo brit�nico,
ele simplesmente os deixa � solta.
Desde o momento em que ascenderam ao topo dos tops brit�nicos,
a imprensa, os locutores da r�dio e apresentadores de televis�o
ficaram cara a cara com os Beatles,
e esses jovens perspicazes, confiantes e muito modernos
escolhem jogar pelas suas pr�prias regras.
No in�cio, o comportamento dos Beatles para com a imprensa
foi a coisa mais revolucion�ria de sempre.
Ningu�m da sua faixa et�ria,
e, at� certo ponto, com os seus antecedentes,
se tinha comportado daquele modo com os jornalistas.
Sabes que pareces o Matt Monro?
D�-nos Ordem para Matar.
Obrigado, rapazes.
Os Beatles eram audaciosos.
Quando eram entrevistados, viravam as mesas.
Quando Adam Faith, ou algu�m semelhante, era entrevistado,
era uma coisa do tipo senhor e servo.
Cliff, como foi a sua tourn�e?
ENTREVISTA EM 1962
Posso dizer que foi
a mais agrad�vel que j� tivemos, nos �ltimos tempos.
N�o apenas pelo p�blico,
mas porque tivemos algumas horas de folga e nadamos e estivemos ao sol.
Os Beatles tinham acabado de entrar e quase ridicularizaram tudo,
transformaram tudo numa com�dia dos Irm�os Marx.
O que foi fant�stico.
Ouvi dizer que v�o ser milion�rios no final do ano.
Isso � fixe.
T�m tempo para gastar esse dinheiro?
Que dinheiro? Disse ele.
- Ele n�o vos deu nenhum? - N�o.
J� viu o carro dele?
Foi muito semelhante � forma como os grupos
de rapazes adolescentes interagem uns com os outros,
de uma forma habitual.
Isto � o que fazem os rapazes adolescentes.
Competem uns com os outros.
Tentam deitar-se abaixo uns aos outros e coisas assim.
Os Beatles sempre tiveram a coragem de pegar nisto
e atuar em frente aos microfones e �s c�maras.
John, parece haver um rumor no jornal The News of The Beatles
sobre estar a sair do grupo.
Lixo, estou sob um contrato.
H� anos que tenho tentado sair.
- Tem escrito poesia. - Que jornal?
O The News of The Beatles.
- Nunca ouvi falar. - Quer v�-lo?
- N�o. - Deve ser americano.
Parte do seu sucesso se deve ao facto de eles n�o serem de pl�stico.
Eles eram aut�nticos. Eles sa�ram de uma cidade muito dura.
Estavam apenas a ser eles pr�prios e isso era surpreendente.
Isso era novo. Ser aut�ntico era novo.
Ao apresentarem-se genuinamente,
os Beatles conseguiram real�ar a afeta��o
e artificialidade exterior da vida cultural brit�nica,
num tempo em que j� mostrava sinais de fraqueza.
A atitude da sociedade para com todas as formas de comportamento,
particularmente, o sexo,
tem sido austera e opressiva h� s�culos,
mas no in�cio da d�cada de 60 as coisas estavam a mudar.
No in�cio da d�cada, o romance O Amante de Lady Chatterley
foi publicado com sucesso.
Escondido do p�blico em geral desde o final dos anos 20,
este conto er�tico de amor para al�m da divis�o de classes
tornou-se num fen�meno, ap�s a sua publica��o,
vendendo rapidamente mais de tr�s milh�es de c�pias.
Ao mesmo tempo, um esc�ndalo eclodiu
no seio da elite brit�nica,
com a exposi��o de um caso il�cito
entre o pol�tico John Profumo e uma modelo de 19 anos.
As discretas atitudes sexuais dos brit�nicos
estavam a ser confrontadas em p�blico.
E ent�o, aconteceu a Beatlemania.
No ver�o de 1963, o efeito esmagador da banda
sobre as adolescentes estava a tornar-se uma epidemia nacional.
Os cr�ticos avisaram que os rapazes de Liverpool
tinham desencadeado uma onda de frenesim sexual na audi�ncia feminina.
Mas a liberta��o que os Beatles ofereceram a estas raparigas
foi mais complicada do que pareceu � primeira vista.
O que todos queriam pensar, e ao mesmo tempo n�o queriam pensar,
era que isto tudo, de algum modo, se tratava de erotismo,
isto tinha tudo que ver com sexo. E que o que se estava a passar
era que estas jovens estavam a ter algo
que parecia simular uma experi�ncia sexual,
em resposta � vis�o e ao som dos Beatles.
Portanto, foi sempre falado e impresso
em termos freudianos de histeria,
o que, obviamente, � tamb�m um termo sexual.
Essas raparigas eram org�sticas? Isto era um orgasmo?
N�o era o que se estava a passar.
O rock and roll, na d�cada de 50,
foi um catalisador para muitos rapazes,
encontrarem um motivo para ser algo diferente de uma vers�o
dos seus pais, quando se tornavam adolescentes.
N�o era necessariamente uma conjuga��o espetacular
vestir-se como um teddy boy e ser barulhento na rua,
mas, pelo menos, estavam a encontrar uma identidade.
Penso que para uma jovem, n�o era assim t�o linear.
Algo como a Beatlemania,
a gritaria que cercava os Beatles,
� bastante tentador interpret�-la como uma esp�cie de uivo de frustra��o,
enquanto tentam encontrar a sua pr�pria identidade. E � t�o confuso,
com os teddy boys a aparecerem nos cinemas.
Voc�s tentam criar deliberadamente esta rea��o com gritos?
N�o, acab�mos de chegar, mas elas est�o sempre � espera.
Sempre que damos um concerto, a pol�cia aparece e diz:
"N�o olhem pela janela, porque as excitam."
Estas raparigas controlavam o espa�o p�blico
e ningu�m podia fazer nada a respeito.
� um exemplo perfeito do que chamar�amos de mau comportamento.
Berrar, gritar e chorar em p�blico.
� um mau comportamento, de qualquer forma.
No entanto, foi sancionado, n�o pelas autoridades,
mas pelos pr�prios Beatles.
O fen�meno The Beatles era impar�vel.
Em finais de agosto, o single "She Loves You"
tornou-se no mais r�pido recorde de vendas de um lan�amento, no Reino Unido.
Em menos de um ano, o sucesso da banda ultrapassou
o de qualquer artista que a precedera.
E a etapa final na conquista da Gr�-Bretanha
aconteceu a 4 de novembro de 1963,
quando, pela primeira vez, os Beatles se encontraram...
PR�NCIPE DE GALES
... com a mais alta autoridade do poder institu�do,
a fam�lia real.
A ocasi�o despertou o rebelde do rock and roll em John Lennon,
que viu na atua��o da noite uma boa oportunidade para se rebelar.
John, neste Royal Variety Show, quando estiver perante a realeza,
a sua linguagem ter� de ser cuidada, obviamente.
Esta coisa sobre Ted Heath a dizer que n�o distinguia...
- N�o percebo. - O ingl�s da Rainha...
N�o consigo perceber porque o Teddy diz isso...
N�o vou votar no Ted.
Mas n�o vai alterar a sua atua��o para o...
N�o, vamos manter o mesmo tipo de coisa, n�o vamos?
- Sim. - Sim, � isso.
Lennon sempre teve um relacionamento ambivalente com a forma como
o mundo do espet�culo estava a ser complacente com os Beatles.
Por um lado, o seu lado profissional adorava o facto
de estarem a ser um enorme sucesso.
Mas o seu lado rebelde considerava tudo isto dif�cil de aceitar.
Ent�o, por ocasi�o do Royal Command Performance,
ele provocou Brian Epstein ao insinuar
que iria dizer uma asneira em frente � Rainha.
Mas no fim, o seu profissionalismo prevaleceu.
Ele conseguiu criar um pouco de subvers�o,
mas foi cuidadosamente pensado.
Obrigado.
Para a nossa �ltima can��o, gostaria de pedir a vossa ajuda.
As pessoas nos lugares mais econ�micos podem bater palmas?
E os restantes podem apenas abanar as suas joias.
E isto � sentido como um momento de insurrei��o.
Mas, de facto, n�o era assim t�o radical, talvez
porque ao olharmos depois para a express�o do Lennon,
� como se ele estivesse a admitir � sua m�e
que tinha feito asneiras, ou algo assim.
Foi algo realmente humilde Ele sentiu-se muito envergonhado.
Mas ningu�m, exceto John Lennon,
teria a aud�cia de dizer aquilo.
O que pode ter parecido um momento revolucion�rio,
de insurrei��o, ao dizer: "Abanem as vossas joias",
num momento cheio de classe,
foi marcado pela sensa��o
de que os Beatles eram bons rapazes e que podiam dizer qualquer coisa.
Com os jovens da Gr�-Bretanha a seus p�s, os Beatles foram para novos territ�rios,
viajando para a Escandin�via no final do ano
e depois para a Fran�a.
O panorama pop interno, que deixaram para tr�s,
tinha sido transformado pelo sucesso deles.
E desde concertos em Liverpudlian com os Gerry and the Pacemakers
at� aos concertos dos Rolling Stones, em Londres,
emergiam novos grupos quase semanalmente
para disputarem nos bares e nos tops.
Mas os Beatles estavam a seguir em frente,
com o manager Brian Epstein, que tinha em vista
o maior territ�rio de todos... a Am�rica.
Olhando para esta digress�o pela Am�rica, j� houve rea��es?
T�m algum clube de f�s?
H� um que come�ou, supostamente.
Est�o a ter uma boa resposta, 12 000 cartas por dia.
Mas o movimento Beatle existe l�?
Sim, at� pode promover os Beatles, malta.
Devo dizer-lhe que a Universidade de Detroit
quer erradicar o movimento Beatle.
- Sim? - N�o.
Vamos erradicar Detroit.
Eles pensam que os vossos cortes de cabelo s�o antiamericanos.
Bem, isso � bem visto, porque n�o somos americanos.
Havia sempre o pensamento: O que acontece a seguir?
Ser� que a bolha dos Beat ir� rebentar?
Mas nunca rebentou. Apenas continuou.
Se a Gr�-Bretanha passava por um momento dif�cil quando os Beatles
agitaram os tops no in�cio de 1963,
quando "I Want to Hold Your Hand"
chegou � Am�rica no ano seguinte,
entrou numa na��o em luta com maiores infort�nios.
Tendo sa�do da Segunda Guerra Mundial
como uma superpot�ncia mundial,
a d�cada que se seguiu foi dominada
pela rela��o hostil com a Uni�o Sovi�tica
e a amea�a de uma guerra nuclear.
Mas os americanos desfrutavam de uma economia pr�spera,
desenvolveu-se uma cultura de consumo e a confian�a interna era elevada.
Em 1960, o presidente John F. Kennedy apareceu,
um pol�tico jovem e carism�tico que expressava confian�a
e que prometeu um futuro brilhante e otimista.
Meus caros cidad�os do mundo,
n�o perguntem o que a Am�rica far� por v�s,
mas perguntem o que podemos fazer juntos pela liberdade do Homem.
Tr�s anos depois, em novembro de 1963,
o seu assassinato chocou o pa�s por completo.
Havia uma inje��o de energia na vida americana que ele representou.
Ele era jovem, era bonito.
Representou uma mudan�a acentuada do Dwight Eisenhower.
REVISTA ROLLING STONE
O Eisenhower era uma extens�o da Segunda Guerra Mundial.
Era her�i de guerra, claro.
Era uma extens�o daquela gera��o para a Am�rica moderna.
Mas John Kennedy era a Am�rica moderna.
Todo aquele otimismo e juventude. O baby boom estava a acontecer.
Como que era representado por John Kennedy.
E o assassinato do Kennedy simplesmente
acabou com isso.
Os Beatles tamb�m representavam juventude,
tal como John Kennedy representou, e perspic�cia e intelig�ncia.
Certamente que para os jovens, as coisas mudaram imediatamente.
Os Beatles iluminaram a Am�rica.
Estou certo de que podia ter sido outra coisa.
Estou certo de que qualquer outra manifesta��o de alegria de algo
podia ter ocorrido, mas o que ocorreu foi uma can��o.
E � muito importante perceber
que na Gr�-Bretanha, as personalidades dos Beatles,
a maneira como respondem, a forma de estarem em p�blico,
foram uma parte importante no modo como chamaram a aten��o do p�blico brit�nico.
Na Am�rica, foi uma can��o.
Foi o ve�culo perfeito
para entrar naquela traumatizada atmosfera nacional.
Qual � a qualidade dominante da sonoridade
de John Lennon e Paul McCartney a cantarem juntos?
Alegria, alegria na atua��o,
alegria em ouvir as vozes uns dos outros,
alegria em qualquer tipo de apoio que existia ali.
Isso � uma pintura com tra�os muito amplos. N�o h� nada de subtil.
N�o h� d�vida de que os Beatles mudaram tudo de forma imediata.
E "I Want to Hold Your Hand" teve um impacto gigantesco.
Depois, � claro, as portas abriram-se,
n�o apenas com uma sucess�o de grandes m�sicas dos Beatles,
mas tamb�m com a invas�o brit�nica.
Quer dizer, The Beatles arrombaram as portas.
O que os Beatles tinham feito � Gr�-Bretanha, estavam a fazer � Am�rica.
Lan�ado no final de 1963, em dois meses,
"I Want to Hold Your Hand" vendeu mais de um milh�o de c�pias
e foi o primeiro single da banda a ser o n�mero um nos EUA.
Uma semana depois, lideravam os tops.
John, Paul, George e Ringo atravessaram o Atl�ntico
e chegaram a Nova Iorque
para encontrarem um novo grupo de f�s adolescentes aos gritos.
Foram tamb�m recebidos por membros da imprensa
ansiosos por entender este fen�meno estrangeiro
e o grupo apresentou-os � sua marca �nica de humor informal,
t�o raro na Am�rica como tinha sido na Gr�-Bretanha.
N�o h� d�vida de que a maneira como lidaram com a imprensa foi original.
Ficou muito claro que eles n�o eram como quaisquer outros.
Que inteligentes eles eram, como eram c�micos!
O John e o Paul em particular,
eram extremamente inteligentes, fluentes e originais.
E o George tamb�m era muito divertido.
E o Ringo era uma esp�cie de palha�o nato.
Quem era t�o r�pido e t�o esperto,
e era tamb�m uma estrela pop?
Devo estar a esquecer-me de algu�m,
mas maldito seja, se consigo saber quem possa ser.
Pensa nos seus discos como discos divertidos ou como m�sica?
N�o, pensamos que s�o bastante peculiares. � assim que devem ser.
Acha que s�o musicais?
� �bvio que s�o musicais, porque � m�sica, n�o?
Os instrumentos fazem m�sica.
- � um disco. - � musical.
� m�sica, n�o �?
Isso � m�sica, tamb�m.
Ele � bom. Ele percebe de m�sica.
Muito bem, mas o que lhe chamam? Chamam-lhe rock and roll?
Tentamos n�o a definir.
Tem sido tantas vezes erradamente classificada.
N�o vale a pena, chamamos-lhe apenas m�sica.
Mesmo que voc�s n�o chamem.
- Com um ponto de interroga��o. - Como?
- Com um ponto de interroga��o? - N�o.
Com um ponto de exclama��o.
A mensagem subjacente do humor dos Beatles
nas suas confer�ncias de imprensa era sobre um movimento juvenil
que n�o seria determinado por pessoas mais velhas.
Desde o momento em que surgiram, os Beatles
reinventaram completamente a forma de fazer cultura.
Antes disso, tudo... a moda, os filmes, a m�sica,
vinha de cima para baixo.
Tudo era como os adultos gostavam e depois filtrado para os mi�dos.
Ap�s um ano ou dois, de repente, eram os jovens
que determinavam tudo.
Isso come�ou com os Beatles.
Tendo batido todos os recordes de vendas na Gr�-Bretanha no ano anterior,
em abril de 1964, eles fizeram hist�ria na Billboard Hot 100,
ao tornarem-se os �nicos artistas de sempre
a ocupar as primeiras cinco posi��es dessa tabela.
Os Four Mop-Tops estavam agora a revolucionar a m�sica popular americana
e a Beatlemania alastrou-se por todo o pa�s como um inc�ndio.
CONCERTO DOS BEATLES DOMINGO, 30/08/1964
Depois, em julho,
seguindo a trajet�ria de carreira
de todos os artistas populares do p�s-guerra,
a banda estreou o seu primeiro filme.
Assim, A Hard Day�s Night foi, como era de prever,
diferente de qualquer coisa que a precedera.
COM WILFRID BRAMBELL
Os filmes musicais anteriores a A Hard Day�s Night
eram investimentos comerciais...
REALIZADOR: RICHARD LESTER, 1964
... destinados apenas ao p�blico adolescente,
de qualquer artista que se destacasse no momento.
A Hard Day�s Night mudou tudo isso.
Eles pegaram numa forma improvisada de um filme de rock
e tornaram-no algo espetacular.
Realizado pelo americano Richard Lester,
O filme criou uma linguagem nova para o cinema rock and roll.
Antes, os m�sicos faziam a sua transi��o...
ESTREIA NO NORTE
... para o cinema a representar personagens de fic��o
criadas pelos argumentistas.
Contudo, em A Hard Day�s Night,
os Beatles foram eles pr�prios, numa com�dia inspirada nas suas viv�ncias.
Era um fen�meno comercial e um fen�meno cr�tico.
Estavam a representar-se a si pr�prios num filme de fic��o.
Isso n�o acontecia.
Muito do que aconteceu na carreira inicial dos Beatles
nunca tinha acontecido.
Estavam a passar por tantos n�veis diferentes.
Diga-me, como descobriu a Am�rica?
Virei � esquerda em Gronel�ndia.
- O sucesso mudou a sua vida? - Sim.
Gostaria de manter a Gr�-Bretanha limpa.
� um modelo ou um roqueiro?
N�o, sou um "moqueiro".
Tem algum passatempo?
Na minha perspetiva, �, sem d�vida, A Hard Day's Night
que os consolida como algo completamente novo
e interessante, para al�m da imagina��o.
- Eu n�o ressono. - Ressonas, repetidamente.
Eu ressono, John?
Sim, at� estremeces as janelas, filho.
� apenas a tua opini�o. Eu ressono, Paul?
Com esse nariz enorme, seria estranho se n�o ressonasses.
N�o, Paulie, n�o zombas dos que sofrem.
Deixe l� isso. � apenas uma piada.
Pode ser uma piada, mas � o nariz dele.
Ele n�o tem culpa de ter um nariz hediondo,
e uma cabe�a pequena a tremer sob o peso dela.
N�o era o filme de rock
que esper�vamos ver, de modo algum.
E apesar da intelig�ncia deles,
ficou claro que eles sempre tinham piada diante de um microfone.
A irrever�ncia deles e irrever�ncia em rela��o a eles mesmos...
O SEU PRIMEIRO FILME HILARIANTE
... foi algo sem precedentes.
DOZE CAN��ES DOS TOPS
E � claro que os fez parecer ainda mais divinos.
E enquanto os Beatles partiam numa importante turn� pelos EUA,
no ver�o de 64, toda a Gr�-Bretanha
estava a evoluir.
Com os esc�ndalos sexuais do ano anterior...
WILSON NO LIMIAR
... o pa�s voltou-se contra o sistema
e votou num governo trabalhista do novo primeiro-ministro Harold Wilson,
um homem que parecia representar a voz
de um Reino Unido mais jovem e progressista.
Harold Wilson tornou-se l�der do Partido Trabalhista
ao mesmo tempo que os Beatles estavam a ter
os primeiros sinais do seu enorme sucesso.
Ele era do norte. N�o nos esque�amos disso.
Ent�o, isto foi tamb�m parte desta grande for�a do norte.
Temos os Beatles em termos da cultura popular
e temos o Harold Wilson que espelhava modernidade
em termos pol�ticos.
Est�vamos a ser empurrados para um novo mundo.
Nos anos 50, est�vamos atr�s da Europa. Os Tories tinham-nos dececionado.
Vamos modernizar-nos. Como os italianos, como os franceses, como os alem�es,
vamos trabalhar e fazer com que todos apreciem os frutos do sucesso.
E no centro desta nova e liberal Gr�-Bretanha estava a sua juventude.
O surpreendente sucesso internacional do cen�rio pop do pa�s,
injetou confian�a na gera��o mais jovem.
E impulsionada pela crescente prosperidade do pa�s,
emergiu uma nova cultura de consumo.
Sa�das do solo f�rtil das faculdades de arte
as novas ideias dos jovens designers brit�nicos foram desencadeadas.
Isto torna-se mais evidente na moda
e no seu centro nevr�lgico, a animada Carnaby Street, em Londres.
Era a primeira vez que os jovens tinham dinheiro
para comprar discos, roupas e para ir ao cabeleireiro.
Quase ao mesmo tempo, apareceu um mercado juvenil separado.
Carnaby Street prosperou.
At� ali, quando uma rapariga deixava a escola,
come�ava a vestir-se como a m�e dela.
Enquanto algu�m como Mary Quant fez vestidos que permitiam correr
dan�ar e fazer todas as coisas que os jovens fazem.
Claro que isso transformou a face da moda brit�nica.
Tudo era moderno, novo, fresco.
Para onde quer que olh�ssemos, o mundo come�ava a parecer diferente.
Tudo era a preto e branco quando surgiram os Beatles,
os Beatles eram a preto e branco,
at� A Hard Day�s Night era a preto e branco.
No espa�o de um ano, as cores come�aram a emergir,
o florescer de uma nova cultura.
Embora tenham desempenhado o papel central
ao cultivar este novo panorama cultural,
no final de 1964, os pr�prios Beatles estavam cada vez mais cansados
dos seus "oito dias por semana" de fama.
Numa tentativa de fugir � Beatlemania,
John Lennon e George Harrison
mudaram-se para o condado rural de Surrey, a 48 km de Londres,
e Ringo Starr juntou-se-lhes no ano seguinte.
Em dezembro, Beatles for Sale,
o quarto �lbum de est�dio da banda, foi lan�ado
e mostrou claramente sinais de fadiga.
Basta olhar para a capa.
S�o jovens realmente exaustos por alguns anos de Beatlemania.
Era �bvio que estavam a ficar desgastados
e que o incr�vel encanto da fama inicial,
em que eles se deixaram levar, como numa maravilhosa onda,
e do qual podemos ver e sentir a alegria nos discos e entrevistas,
por alturas do Beatles for Sale, est� a perder o seu brilho rapidamente.
No entanto, a progressiva marcha da cultura juvenil faz renascer a banda.
Enquanto as cores caleidosc�picas da Carnaby Street floresciam,
uma subcultura mais experimental estava a desenvolver-se
na parte ocidental de Londres, cujos l�deres se cruzariam com os Beatles.
Inspirados pela literatura, a arte e a m�sica de vanguarda,
estes artistas e artes�os n�o tinham um senso de comunidade.
No entanto, em junho de 1965, Barry Miles, o gerente
da famosa livraria independente Better Books,
organizou um importante evento de poesia no Albert Hall de Londres,
com Allen Ginsberg e outros grandes escritores da American Beat.
Foi muito importante,
unindo os v�rios cl�s criativos de uma contracultura brit�nica emergente.
A grande leitura de poesia no Albert Hall em 1965
foi a primeira vez que uma amostra do eleitorado foi vista em Londres.
At� ent�o, os atores, os poetas,
os cineastas e as pessoas que geriam lojas,
nenhum deles se conhecia.
Neste evento, que foi basicamente uma leitura da gera��o Beat
de Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti e Gregory Corso,
todas essas pessoas juntaram-se no Albert Hall, sete mil pessoas.
Foi uma gigantesca festa,
como a primeira sess�o de conex�o das massas, creio eu.
Neste evento crucial que ele ajudou a organizar,
Miles conheceu John Dunbar, um artista amigo
de Allen Ginsberg e Gregory Corso
que tinha casado pouco tempo antes com a jovem cantora Marianne Faithful.
Eles arranjaram um novo centro para as atividades underground,
a Indica Bookshop and Gallery,
e isso traria o Miles diretamente para o mundo dos Beatles.
N�s fomos ao Albert Hall e um amigo chamado Paolo Leone disse:
"T�m de conhecer este tipo."
FIGURA DA CONTRACULTURA
O Miles trabalhava na Better Books.
Ent�o, convers�mos.
N�o sei quantas pessoas cabem no Albert Hall,
alguns milhares, cinco mil, n�o sei.
Pens�mos: "Todos pagaram para ver isto,
ent�o, talvez possamos montar uma loja.
Decidimos unir esfor�os e come�ar por uma livraria com uma galeria de arte.
O seu melhor amigo era um tipo chamado Peter Asher,
que fazia parte de Peter and Gordon, um pequeno duo de folk rock
e foi o n�mero um dos hits da Am�rica e do Jap�o.
O Peter tinha algum dinheiro, ent�o, pedimos-lhe
para financiar este empreendimento.
Assim, fund�mos uma empresa chamada Miles, Asher e Dunbar, MAD.
Obviamente, conheci o Peter atrav�s disto.
Ele estava a morar com os pais.
A sua irm�, Jane Asher, tamb�m morava com eles.
Jane era uma personalidade da TV. Fazia entrevistas,
era a estrela de alguns filmes e trabalhava na r�dio.
Tamb�m l� vivia o namorado de Jane Asher,
o Paul McCartney, que vivia no �ltimo andar,
num pequeno quarto ao lado do quarto do Peter.
Ent�o, havia esta extraordin�ria fam�lia a quem me apresentaram.
E quando eu estava a montar a livraria,
todos os livros foram entregues na cave
porque ainda n�o t�nhamos uma loja.
Obviamente, por causa disto tamb�m conheci o Paul.
Ele chegava a altas horas da noite, folheava os livros
e deixava-me um bilhete a dizer o que tinha levado.
Ele foi o meu primeiro cliente da livraria.
Quando encontr�mos um local,
ele ajudou a colocar as prateleiras e a pintar as paredes,
ele ficou muito envolvido no projeto.
Foi maravilhoso conhec�-lo.
Enquanto os seus companheiros tinham sa�do de Londres, em busca da calma,
atrav�s do contacto com o mundo da arte progressista,
Paul McCartney logo se tornou o mais culto dos The Beatles.
Enquanto John Lennon estava casado h� anos
e a criar um jovem filho,
George Harrison vivia com a namorada, Patti Boyd,
e Ringo Starr era rec�m-casado,
McCartney procurava ativamente novos sons
e novos conceitos, com Miles como seu guia de vanguarda.
Ele dizia que costumava dar uma volta a Londres com as antenas ligadas.
Num dia ia ver um concerto de John Cage
ou de Luciano Berio ou ouvir alguma m�sica eletr�nica,
no dia seguinte, ia ver Tessie O'Shea
no Talk of the Town
ou algum cantor l�rico no The Blue Angel.
Estava tudo a ser sugado.
McCartney era o Beatle mais bem informado sobre o mundo cultural da cidade,
enquanto os outros tinham uma vida um pouco mais aconchegante
na �rea suburbana.
Ele ainda era curioso, ainda ansiava por algum est�mulo.
� por volta dessa �poca, 1965, 1966,
que McCartney realmente come�a a dirigir os Beatles.
Ele andou por Londres, a ser estimulado
e a trazer tudo isso para a mesa dos Beatles
continuando a dar-lhes uma vantagem art�stica.
Essa vantagem art�stica revelar-se-ia inconfund�vel
quando os Beatles se dirigiram ao est�dio em meados de 1965
para gravar o �lbum Rubber Soul.
Ao longo do ano anterior,
a onda de bandas inspirada no exemplo dos Beatles
n�o s� come�ou a alcan�ar os rapazes de Liverpool,
como, em alguns casos, amea�ou ultrapass�-los.
Ap�s a lideran�a de Lennon e McCartney,
os Rolling Stones conseguiram arrasar a Am�rica
e come�aram a escrever os seus �xitos.
O �cone do folk, Bob Dylan, tocava guitarra el�trica
e transformara-se num not�vel poeta do rock.
E surgiram novas bandas, desde os The Who aos The Byrds,
que apresentavam novos sons e perspetivas.
Mas os Beatles estavam prontos a abrir caminho mais uma vez.
Em busca do total controle criativo,
com Rubber Soul, o produtor George Martin agendou a banda
para o Abbey Road Studios, por um m�s,
trocando as regras de grava��o convencionais pelas suas ideias.
Antes de Rubber Soul, um dia de grava��o profissional
era supervisionado por engenheiros de grava��o com casacos brancos.
E eram tr�s horas da parte da manh�, uma pausa para o almo�o,
e tr�s horas da parte da tarde.
E era isto. Era um dia de grava��es.
Quando Rubber Soul surgiu, eles tinham influ�ncia suficiente para dizer:
"Queremos mais flexibilidade.
Podemos querer ficar e gravar durante a noite."
Eles tiveram a ideia de tratar a grava��o de um �lbum
como se fosse uma obra de arte.
� preciso tempo para fazer algo que valha a pena.
DECIB�IS
Ent�o, temos esta nova ideia,
a ideia do est�dio de grava��o como um laborat�rio de composi��o.
Esta foi a incr�vel e verdadeira revolu��o,
n�o s� na forma de fazer discos, como de fazer m�sica.
Rubber Soul parece o momento em que a m�sica pop
p�de tornar-se em arte popular.
Todo o �lbum parece ser uma declara��o art�stica.
O pr�prio Brian Wilson, dos The Beach Boys, disse:
"Quando ouvi o Rubber Soul,
soube que era assim que os bons discos pop podiam ser.
Podiam ser todo um mundo art�stico."
Rubber Soul era assim t�o bom.
De repente, John Lennon a escrever letras como:
"Foi-lhe dito quando era jovem que a dor levaria ao prazer?
Ela entendeu quando disseram
que um homem deve dobrar as costas para ganhar o seu dia de lazer?
Ela ainda acreditar� nisso, quando ele estiver morto?"
E isto numa can��o chamada "Girl".
N�o � a letra de uma can��o pop.
Isso deu a Rubber Soul uma atmosfera muito diferente.
Pod�amos ouvir que eles estavam a escrever can��es
como artistas e n�o apenas como uma banda pop.
Temos can��es como "The Word",
que � uma can��o extraordin�ria para 1965.
"Diz a palavra e essa palavra � amor."
Isto, dois anos antes do Ver�o do Amor.
O desespero em Beatles for Sale
e agora est�o � procura
de algo que captaram noutra coisa.
E assim como Rubber Soul restabeleceu a superioridade musical da banda,
os quatro jovens radicais do norte foram oficialmente reconhecidos
pelo sistema brit�nico.
Tendo j� recebido os maiores elogios
do mundo do espet�culo, em outubro de 1965,
foram convidados para conhecer a Rainha no Pal�cio de Buckingham.
Aqui eles seriam nomeados Membros
da Excelent�ssima Ordem do Imp�rio Brit�nico, ou MBEs.
Este tem sido uma das habilidades do sistema h� muito tempo.
Na verdade, isso � o que os MBEs, os Cavaleiros
e todo esse tipo de coisas s�o.
A certa altura,
os renegados t�m de ser trazidos para o n�cleo.
Mas � naquele preciso momento que eles
estavam continuamente a importar influ�ncias musicais
e tamb�m a tornarem-se num canal para as influ�ncias americanas
noutras �reas de interesse.
Miles est� a transform�-los na poesia de Ginsberg.
Robert Fraser est� a transform�-los em artistas pop americanos, coisas assim.
Tornaram-se cidad�os do mundo.
Ent�o, � perfeitamente apropriado que, nesse preciso momento,
o Poder Brit�nico diga:
"� tempo de virem ao Pal�cio de Buckingham
e serem certificados como membros do Imp�rio Brit�nico."
John, j� tinha estado com a Rainha?
N�o, foi a primeira vez.
O que ela pensou de si ao conhec�-lo? Ela disse-lhe?
N�o, ela n�o vai diz�-lo, de forma alguma.
Ela pareceu-me muito agrad�vel para n�s.
Fez-nos acalmar.
Agora que foi nomeado,
sente que est� a tornar-se parte do sistema, como � chamado?
N�o, n�o sinto qualquer diferen�a.
Continuo a sentir-me como antes.
- Sinto exatamente o mesmo. - Sente o mesmo.
Era um reconhecimento de que o mundo pop atingira a maioridade.
Eles eram a aristocracia do mundo pop,
da cultura pop, da cultura da classe trabalhadora.
Por isso, de certa forma, era inevit�vel que fossem recompensados
dentro do esp�rito da nova democracia.
Mas fechou tamb�m um cap�tulo, porque, desde ent�o,
eles foram e fizeram o seu caminho, que n�o era o do Poder Institu�do.
Na verdade, foi o in�cio de um per�odo
de grande antagonismo entre o sistema e a cultura pop.
E os Beatles, como habitualmente,
estavam bem no centro disto.
A posi��o dos Beatles no centro destes novos desenvolvimentos na cultura jovem
foi crucial para a sua evolu��o nos dois anos seguintes.
Com McCartney agora estreitamente associado...
ERVA � FIXE
... �s figuras centrais do meio art�stico underground de Londres
e a movimentos similares em Nova Iorque e Los Angeles,
a influenciar os m�sicos americanos,
est� montado o palco para ideias mais radicais...
JUNTA-TE � GERA��O UNDERGROUND
... entrarem no mainstream.
E � medida que isto se desenvolvia,
uma nova droga e um novo testa-de-ferro se destacaram
nos dois lados do Atl�ntico.
A mensagem � muito simples.
Tr�s palavras.
Liga, sintoniza, abandona.
O psic�logo Timothy Leary emergiu nos EUA como um defensor proeminente
do alucin�geno LSD, ou �cido.
Tendo conduzido experi�ncias psicad�licas
na Universidade de Harvard desde o in�cio dos anos 60,
com o poeta Beat Allen Ginsberg como principal apoiante inicial,
em 1965, Leary estava a tornar-se numa grande figura da contracultura.
Tim Leary era psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta.
Ele afirmava ter algo como sete doutoramentos.
Era professor em Harvard
e come�ou a trabalhar com a psilocibina, antes de passar para o LSD,
como forma de tratamento para prisioneiros e doentes mentais.
O que quero dizer � que Leary fazia parte do sistema.
Ele trabalhava sob as regras da psiquiatria.
Mas quando come�ou a tomar todas aquelas coisas,
ele contactou o seu eu interior a um n�vel celular
e percebeu que uma grande parte daquelas regras era um jogo e lixo.
Ent�o, ele basicamente sentiu que aquilo era uma chave espiritual
que lhe tinha sido entregue e a sua mensagem devia ser
encorajar as pessoas a abandonarem o sistema
e a descobrirem-se criativamente ou espiritualmente.
E os rec�m-nomeados MBEs, The Beatles,
estavam j� a caminho de abandonar o sistema
e a redescobrirem-se atrav�s dos alucin�genos.
John Lennon e George Harrison foram apresentados ao LSD no in�cio de 1965
e foram seguidos por Ringo Starr
na sua segunda experi�ncia com drogas, no final desse ano.
Combinado com o novo interesse de Paul McCartney
pela arte experimental atrav�s do c�rculo social de Londres,
a banda mais comercial do mundo estava pronta para um desvio inesperado.
Eles queriam descobrir quem eram.
Eles j� n�o tinham um sentido de identidade, creio eu.
Ent�o, estavam a pegar nas pe�as e a junt�-las novamente.
Como podia fazer sentido viver na gaiola dourada
onde os tinham colocado?
Desde tocar nas Casbah, em Liverpool, e no Cavern,
a serem aclamados em todo o mundo
e a verem a sua imagem refletida,
pessoas a vasculharem as suas vidas,
n�o sabendo realmente quem eram.
E creio que foi o compromisso da cultura pop,
representada pelos Beatles com a contracultura,
a qual crescia em confian�a,
e o fato das duas come�arem a unir for�as...
LEGALIZEM A ERVA
... em Londres, em S�o Francisco... Estimularam-se mutuamente.
Foi no fim de 1965
que McCartney tirou o sempre c�tico Lennon para fora do seu santu�rio de Surrey
e apresentou-o ao mundo urderground de Miles
e � Indica Bookshop and Gallery.
Pouco tempo depois de abrirmos, Paul McCartney apareceu com John Lennon.
Creio que foi a primeira vez que o John esteve na loja.
Ele estava � procura de um livro de "Nitzske".
N�o percebi o que ele queria dizer.
Levou-me cerca de 30 segundos a descobrir que era Nietzsche.
E isso foi tempo suficiente para ele ficar bastante irritado
por pensar que eu estava a armar-me em universit�rio, a goz�-lo.
Ent�o o Paul teve de fazer o seu habitual papel de apaziguador.
"N�o, ele andou na escola de arte como tu.
Foi s� porque n�o soubeste pronunci�-lo!"
Entretanto, lembrei-me que no dia anterior t�nhamos recebido
uma grande remessa de The Psychedelic Experience, de Tim Leary.
John aninhou-se no sof� com ele.
E, literalmente, na introdu��o de Tim Leary, antes de chegar ao texto,
ele diz: "Desliga a tua mente, relaxa
e flutua rio abaixo." Seja qual for o texto,
ele apareceu cerca de um m�s depois
em "Tomorrow Never Knows".
Esta can��o seria a composi��o mais inovadora
da carreira da banda at� �quela data.
Juntamente com as letras de Lennon inspiradas em Leary,
as contribui��es de Paul McCartney eram igualmente radicais.
Tendo-se juntado a Miles em v�rios eventos de m�sica eletr�nica de vanguarda,
o Beatle come�ou a trabalhar com entusiasmo
nas suas composi��es experimentais, usando loops de fita gravada.
Quando os Beatles entraram no est�dio para gravar "Tomorrow Never Knows",
George Martin convidou McCartney a trazer essas experi�ncias para as sess�es.
Ele tinha feito muitas delas
e trouxe-as para o est�dio num simples saco de pl�stico.
Prepararam o est�dio de forma a haver diferentes gravadores
em diferentes partes do complexo de est�dios de Abbey Road.
E eu estava numa sala com o Peter Asher
e est�vamos a tocar um longo loop que implicava segurar um frasco de geleia.
O loop girou em torno do frasco de geleia,
depois passou pela cabe�a do gravador e depois voltou.
Tinha de estar esticado.
Creio que havia oito ou talvez dez de n�s � volta do pr�dio,
todos a segurar em l�pis ou frascos de compota.
E toda essa informa��o ia para o gravador.
George Martin estava l� com os auscultadores.
Tudo o que ele fazia, obviamente, era imposs�vel reproduzir.
E pronto. E foi este o som mestre, assim que ele pressionou "gravar".
Quando ouvi a grava��o, era realmente surpreendente.
Eu pensei: "Meu Deus, isto � o futuro."
O est�dio era um instrumento.
H� muito tempo, era apenas esta consola quase invis�vel
que estava l� para absorver o que estava a ser tocado.
Agora, estava a ser usada como um instrumento.
E, de certo modo, era mais importante do que os instrumentos individuais.
Era algo sem precedentes. E a outra coisa interessante
sobre "Tomorrow Never Knows", � que foi a primeira grava��o para Revolver.
Foi feita em abril de 1966. Quer dizer, isto � extraordin�rio.
"Tomorrow Never Knows" �, sem d�vida, a can��o mais psicad�lica gravada
naquele per�odo. � incompar�vel.
A palavra �psicad�lico� n�o estava na linguagem popular.
Era o t�tulo de um livro que o John recebeu da Indica Gallery.
"Tomorrow Never Knows" � a primeira can��o psicad�lica do mundo.
O mais interessante �
que The Beatles n�o era s� a banda mais comercial
mas nessa altura era tamb�m
a banda mais experimentalista, o que � muito incomum.
Isso ficou patente quando o �lbum que se seguiu
a Rubber Soul, Revolver, foi lan�ado em agosto de 1966.
Tal como "Tomorrow Never Knows",
as faixas do �lbum estavam cheias de inven��es e originalidade.
Se Rubber Soul tinha sugerido que a m�sica pop podia ser arte,
Revolver confirmou-o.
Revolver foi realmente os Beatles a entrarem na quinta dimens�o.
"Ela disse, ela disse, Eu sei como � estar morta."
Os Beatles, Lennon, a cantar: "Eu sei o que � estar morta."
O que se passa?
Estiveram numa festa com os The Byrds
na Costa Oeste e consumiram �cido.
Agora, temos uma vis�o negativa sobre as drogas
e a forma como elas nos podem aprisionar, mas nos anos 60,
as pessoas pensavam o oposto.
Serviam para libertar das correntes do aprisionamento,
para nos darem a simples vis�o de quem somos.
E, de repente, t�nhamos estados mentais
e podemos ouvi-los em Revolver, com os diferentes sons de produ��o...
Tudo se resumia a estados alterados e perspetivas.
A ideia b�sica era transformar o rock numa forma de arte leg�tima.
E creio que conseguiram. Muitas das coisas que tentaram,
desde feedbacks, at� �s grava��es tocadas ao contr�rio e � sitar,
tudo o que faziam,
as outras bandas logo o experimentavam, em todo o mundo.
Eles eram �timos l�deres.
Brian Epstein estava preocupado
com o facto de estarem a ir al�m da sua base de f�s.
Mas eles eram muito sens�veis,
sempre quiseram que os f�s os acompanhassem.
Eles n�o queriam tornar-se num tipo extravagante
de banda de vanguarda, da qual s� 150 pessoas tivessem ouvido falar.
Os receios de Epstein de que a banda
come�asse a perder algum do seu p�blico eram infundados,
em rela��o �s suas cria��es musicais,
mas mostraram-se corretos em termos da pol�tica deles.
Com as composi��es dos Beatles a revelarem uma vis�o complexa do mundo,
os jornalistas come�aram a fazer-lhes perguntas mais relevantes.
Em entrevistas para o jornal brit�nico The Evening Standard...
COMO VIVE UM BEATLE? JOHN LENNON VIVE ASSIM
... os membros da banda foram questionados sobre as suas ideias acerca da atualidade.
A franca opini�o de Lennon sobre o cristianismo
mostrou-se incontroversa ap�s a sua publica��o na Gr�-Bretanha,
mas quando foi reimpressa na Am�rica,
eclodiu o primeiro esc�ndalo da carreira dos Beatles,
com uma cita��o a tornar-se infame, de imediato:
"Somos mais populares do que Jesus."
JESUS MORREU POR TI, JOHN LENNON
A primeira vez que tinham questionado John Lennon
sobre a sua vida e a sua filosofia.
E aquilo passou... sem...
Mas alguns meses depois, todas as revistas para adolescentes...
... publicaram aquilo... "Somos mais importantes do que Jesus."
O que causou muitos problemas.
Muitos problemas.
Amea�as de morte, discos a serem queimados, partidos e esmagados,
o Ku Klux Klan e concertos a serem cancelados.
Foi muito desagrad�vel para todos.
Inicialmente, estava a salientar esse facto, em rela��o � Inglaterra,
de que signific�vamos mais para os mi�dos do que Jesus
ou a religi�o, naquela altura.
N�o estava a criticar ou a deitar abaixo. Estava apenas a diz�-lo. Era um facto.
A cita��o de Lennon: "Os Beatles s�o mais populares do que Jesus",
que mesmo eu, sendo um mi�do, pude perceber o que queria dizer...
Quer dizer, ele n�o estava a dizer...
� o que ele disse nas suas desculpas, entre aspas:
"Eu n�o estava a dizer que �ramos melhores do que Jesus. Se � bom ou mau.
� apenas a verdade."
E para mim era totalmente verdade. Era inquestion�vel.
Aquilo teve um tal impacto.
BEATLES, V�O EMBORA
COMUNISTAS FORA DA AM�RICA
Tornou-nos conscientes de algumas das falhas da cultura americana.
Ou mostrou-nos mais uma vez, que o que nos parecia
uma cultura unificada, realmente n�o o era.
E foi duro. Foi assustador.
Estas lacunas na sociedade americana cresciam desde o in�cio dos anos 60,
e enquanto as campanhas dos direitos civis para a igualdade racial
expuseram mais claramente essas divis�es no in�cio da d�cada,
em meados dos anos 60, n�o houve quest�o mais urgente ou mais polarizante
que a guerra do Vietname.
Quando os EUA entraram no conflito, em 1962,
provocaram uma ampla oposi��o p�blica
e protestos organizados, tanto nos EUA como na Europa.
O movimento underground, no qual McCartney come�ou a envolver-se,
emergiu do movimento pacifista do in�cio dos anos 60, no Reino Unido.
Em 1966, na sua tourn�e pelos EUA,
em privado, ele e o resto da banda eram opositores � guerra.
Enquanto viajavam pela Am�rica a lutar j� contra a controv�rsia,
os honestos rapazes de Liverpool, voltaram a ser motivo de pol�mica
quando tornaram esta posi��o absolutamente clara para a imprensa.
Em 1966, a guerra estava, sem d�vida,
mais presente na mente dos americanos do que os Beatles.
Foi em 1966 que a guerra explodiu.
Foi em 1966 que o n�mero de recrutas
mais do que duplicou, neste pa�s.
Foi tamb�m em 1966
que a guerra ficou horr�vel no pr�prio Vietname.
Era uma coisa que crescia cada vez mais.
Havia cada vez mais destrui��o.
No auge do envolvimento americano no Vietname,
eles tinham 500 000 militares naquele pa�s.
Quer dizer, s�o muitos jovens.
Havia uma rejei��o nos Estados Unidos.
A guerra tinha voltado a casa de uma forma intensa.
N�o era uma quest�o abstrata sob nenhum aspeto.
E dos representantes dos jovens como os Beatles,
pessoas que faziam parte da cultura jovem,
era esperado que tomassem uma posi��o.
Creio que sempre foram bem-sucedidos
porque t�m sido honestos, francos e diretos
e este tipo de coisas.
� dif�cil para voc�s
que agora vos critiquem por essa mesma raz�o?
Sim, Richard.
- � muito dif�cil. - � dif�cil.
Mas � a liberdade de express�o.
Mas � poss�vel dizerem sempre o que pensam?
E sobre adolescentes de 14 anos que vos acham maravilhosos
e n�o suportam ser magoados?
Quando dizemos algo assim, n�o o dizemos,
como os mais velhos parecem pensar, como uma ofensa.
A nossa inten��o � que seja �til.
E se o que dizemos est� errado, pronto, est� errado.
As pessoas podem dizer que estamos errados sobre isso.
Mas muitas vezes, acreditamos que est� certo.
Somos muito s�rios a esse respeito.
Incomoda-os serem questionados?
Na Am�rica, continuam a fazer-vos perguntas sobre o Vietname.
- Isto parece-lhe �til? - Bem, n�o sei.
Se puder dizer que a guerra n�o � boa
e algumas pessoas acreditarem, ent�o, pode ser bom.
N�o se pode falar muito, esse � o problema.
Parece-me um pouco tonto estar na Am�rica e n�o mencionar o Vietname,
como se nada estivesse a acontecer.
Foi a primeira banda a ser questionada sobre pol�tica,
sobre o Vietname, sobre uma s�rie de quest�es sociais.
E, na verdade, embora Dylan tenha chegado um pouco antes,
tanto quanto sei, ele nunca emitiu publicamente a sua opini�o
contra a guerra do Vietname.
Ent�o, talvez The Beatles fosse a primeira banda famosa a faz�-lo.
Bem, isso saiu-lhes caro.
Houve adolescentes no Sul e na Regi�o Centro-Oeste,
que deixaram de gostar dos Beatles.
Penso que os Beatles s�o um grupo talentoso,
mas deviam ter cuidado com o que dizem,
porque est�o numa posi��o que leva muitos adolescentes a consider�-los
muito importantes.
Quando dizem coisas assim,
alguns adolescentes v�o acreditar em tudo o que disserem.
Em 1965, os Beatles eram adorados em todo o mundo.
Todos gostavam deles.
Eles eram maravilhosos, engra�ados
criativos e inofensivos.
� medida que foram ficando mais envolvidos na contracultura
e mais representativos dela,
eles perderam muitos f�s.
Ajudaram a impulsionar muitas pessoas que, de outra forma, poderiam n�o ter
entendido o que aconteceu entre 1966 e 1968.
Sem qualquer d�vida, eram inspiradores e influentes a esse ponto.
Mas tamb�m perderam muita gente.
Tornaram-se parte do que muitas pessoas na Am�rica,
provavelmente a maioria das pessoas na Am�rica,
considera uma inquieta��o...
A perda de valores e da moral.
E uma amea�a pol�tica.
E nesse exato momento,
os Beatles deixaram de atuar como uma banda tradicional.
Depois do seu regresso dos EUA,
anunciaram que iam deixar de atuar ao vivo
e o concerto final da tourn�e americana foi a �ltima atua��o deles.
Depois, as celebridades mais fotografadas do mundo
simplesmente desapareceram do olhar do p�blico.
- Ol�! Podemos falar? - Sim.
Os Beatles v�o separar-se em 1967?
EST�DIOS DE GRAVA��O
Podemos estar sozinhos ou juntos.
Estamos sempre envolvidos, n�o importa o que fa�amos.
Consegue imaginar um tempo em que n�o estar�o a trabalhar juntos?
Posso ver-nos a trabalhar separados por um per�odo,
mas vamos sempre estar juntos, por alguma raz�o.
Tamb�m precisamos das outras pessoas para ter ideias
e damo-nos todos bem.
Rumores sobre uma separa��o come�aram a circular.
Mas longe da ribalta, os quatro rapazes de Liverpool trabalhavam arduamente
na sua mais ambiciosa produ��o, at� � data.
O p�blico teria de esperar alguns meses at� que os Beatles reaparecessem.
E quando, em fevereiro de 1967, eles finalmente o fizeram,
a sua imagem e som tinham sofrido uma transforma��o surpreendente.
"Strawberry Fields" foi inicialmente projetado
como uma parte das sess�es de Sgt. Pepper.
Mas a imprensa continuava a dizer: "Os Beatles acabaram?
Eles desapareceram, ficaram sem ideias."
N�o percebendo que eles estavam a trabalhar na sua maior realiza��o.
E para mim, obviamente, n�o foi inesperado
porque estive em algumas das sess�es.
Mas penso que para o p�blico foi quase um choque.
"Strawberry Fields Forever" foi novamente not�vel.
Foi os Beatles a tornarem-se estranhos.
Foi o que as pessoas sentiram.
O que se passa com eles? Aquilo �...
"Deixa-me levar-te porque vou para Strawberry Fields."
A voz, n�o parecia a do Lennon.
Porque eles atrasaram a voz.
Nada soava normal naquele disco. Toda a produ��o.
Tudo tinha sido gravado atrav�s de efeitos.
Houve tamb�m um v�deo feito naquela altura,
filmado em Sevenoaks ou algures, e que foi a coisa mais estranha.
O Ringo parecia desencarnado. Eles estavam a cair das �rvores.
N�o havia nada como aquilo.
Tinha mais que ver com Salvador Dali, com os surrealistas ou o Dada�smo.
Todo este tipo de ideias de arte de alta qualidade,
que fora em tempos o apan�gio da elite mais culta.
Mas estes s�o os Beatles, agora a traz�-lo para todos.
O videoclipe de "Strawberry Fields" teve um impacto devastador
porque mostrou que eles tinham percorrido uma dist�ncia
que eu senti ser meu dever
percorrer tamb�m, como um jovem que acreditava neles.
Foi como: "Muito bem, isto � o que me � pedido agora."
N�o era apenas: "Eles s�o fixes."
Foi: "Tudo bem, este � o caminho."
E esse caminho tornou-se mais evidente, � medida que o ano passava.
No fim de 1967, a contracultura estava a ganhar for�a,
com um grande n�mero de jovens a gravitar em dire��o � nova Meca,
O distrito de Haight-Ashbury, em S�o Francisco.
Daqui, estava a desenvolver-se um forte cen�rio musical,
liderado pelas bandas psicad�licas, The Grateful Dead
e Jefferson Airplane,
e a mensagem de um novo fen�meno, o hippie.
No Reino Unido, a influ�ncia do underground aumentou,
com o seu pr�prio jornal The International Times,
um clube de m�sica ao vivo, UFO,
e as celebridades emergentes, os Pink Floyd
e o americano Jimi Hendrix.
Neste florescente cen�rio de paz, amor e drogas que expandem a mente,
surgiu o trabalho mais ambicioso dos Beatles at� � data,
que n�o s� captaria a ess�ncia desta nova sensibilidade,
mas tamb�m transformaria a ind�stria discogr�fica, mais uma vez.
Sgt. Pepper�s Lonely Hearts Club Band.
Apresentado como uma obra de arte,
com um conceito �nico a unificar o �lbum como um todo,
anunciava que a idade do pop tradicional
e das bandas pop tinha acabado.
Sgt. Pepper revolucionou a ind�stria discogr�fica.
De repente, os �lbuns vendiam mais do que os singles.
Sgt. Pepper vendeu milh�es.
Em simples termos comerciais, foi um lan�amento revolucion�rio.
Mas foi tamb�m revolucion�rio por deixar a ind�stria discogr�fica saber
o que poderia vender.
O que podia fazer era investir nas melhores mentes art�sticas
de uma gera��o e dar-lhes a liberdade para fazer a sua arte,
empacotada como um �lbum, e vend�-la aos milh�es.
Paul teve esta ideia: "Queremos deixar
de ser os quatro mop-tops e The Fab Four.
Ent�o, criamos este novo nome para n�s. Vamos ser um grupo diferente.
Vai dar-nos a liberdade de fazer o que quisermos."
Este � o conceito b�sico. As can��es...
Muitas dessas can��es poderiam estar em qualquer outro �lbum.
Elas n�o eram espec�ficas para aquele, em particular.
Mas o impacto foi surpreendente.
Os Beatles eram uma for�a a considerar.
Mesmo os Stones foram gravemente afetados por eles, naquela altura.
Toda a gente tinha de lidar com eles. Eram uma barreira.
Quem estivesse no neg�cio da m�sica,
tinha de lidar com este gigante � sua frente
e contorn�-lo da melhor forma poss�vel.
Sgt. Pepper�s Lonely Heart Club Band.
O pr�prio t�tulo era uma pe�a de arte
e algo que confundia as pessoas.
Peter Blake fez a capa,
e Peter Blake era o pai da Pop Art brit�nica.
Tudo era um enigma no Sgt. Pepper.
O facto de estarem a fingir n�o ser os Beatles,
mas uma outra banda.
O locked groove no fim do lado dois.
"Lucy in the Sky with Diamonds." L-S-D.
Mensagens secretas at� ao fim.
� como uma obra de literatura.
Foi como Ulisses, as pessoas estavam a pensar:
"N�o entendo muito bem, mas algo se est� a passar."
Esta combina��o da imagina��o com o mist�rio mostrou-se irresist�vel.
Com Sgt. Pepper, os Beatles transformaram-se
de �cones da cultura pop em m�sticos dos tempos modernos.
Quando os Beatles apareceram com a sua nova can��o,
as pessoas come�aram a pensar que eles eram pessoas
que procuramos para encontrar um prop�sito.
Por volta de 67, creio que o lan�amento de Sgt. Pepper na Am�rica
consagrou os Beatles como os l�deres da contracultura,
juntamente com alguns outros como Allen Ginsberg e Timothy Leary.
Mas os Beatles eram os l�deres musicais.
Por todo o mundo, eles eram vistos como deuses.
O pr�prio Leary disse uma s�rie de disparates a respeito deles,
que eram uma esp�cie de super-her�is, l�deres da humanidade e coisas assim.
N�o estou convencido de que a cultura juvenil, em meados dos anos 60,
estivesse bem informada sobre o LSD ou Timothy Leary
ou mesmo sobre as atitudes da contracultura.
Se n�o fosse atrav�s deste canal que foram os Beatles,
este tipo de coisas poderia ter ficado em S�o Francisco, na Calif�rnia.
A contracultura n�o foi chamada de underground sem um motivo.
Poucas pessoas sabiam disto.
Mas os Beatles estavam determinados a espalhar ainda mais a palavra.
No fim de junho de 1967,
menos de um m�s depois do lan�amento de Sgt. Pepper�s,
a banda foi convidada para representar a Gr�-Bretanha na primeira
transmiss�o televisiva internacional por sat�lite.
Por todos os EUA, Canad� e Europa,
o otimismo juvenil da contracultura
atingiu o seu pico durante o Ver�o do Amor,
com milhares de pessoas reunidas em grandes eventos.
Com a sua hist�rica contribui��o para a transmiss�o de One World,
os Beatles entregaram o hino oficial do acontecimento
a uma audi�ncia de mais de 500 milh�es de telespectadores em todo o mundo.
Os Beatles, fieis �s formalidades,
representantes do pa�s deles,
come�aram com o hino nacional.
O �nico problema � que � o hino nacional franc�s!
� um cl�ssico. � o imenso humor dos Beatles.
Foi divertido. Eu estava l�. Era como uma festa.
Eles convidaram muitos dos seus amigos.
The Small Faces e The Rolling Stones,
e estavam l� todos, tudo ao nosso estilo psicad�lico.
Sentados ali no ch�o,
parecia que tudo podia explodir a qualquer momento.
E houve uma impressionante onda de agita��o
e pessoas apressadas,
a tirarem os auscultadores e a falarem.
A inten��o era fazer a liga��o internacional,
porque nunca tinha sido feito.
Realmente foi transmitido ao vivo por todo o mundo.
Foi fant�stico.
Isto passa-se a umas escassas semanas do lan�amento de Sgt. Pepper.
Qualquer outra banda teria usado aquele momento
para promover Sgt. Pepper e tocar algumas das faixas do �lbum.
Certo? Em termos comerciais, isto faria sentido.
Mas eles aproveitaram a oportunidade para enviar uma mensagem ao mundo,
de que tudo o que precisamos � de amor.
Eles j� o tinham dito em Rubber Soul, a palavra � amor.
Mas este era o momento em que podiam diz�-lo ao mundo inteiro ao mesmo tempo.
Os Beatles estavam claramente a liderar o caminho.
Creio que h� um grande significado
na ideia de estarem sentados naquelas cadeiras altas,
com as lindas pessoas de Londres, incluindo Mick Jagger,
sentadas aos seus p�s, a olhar para eles
e a cantar uma can��o que acabavam de ouvir.
Isso � poderoso.
"All You Need Is Love" era um hino de esperan�a,
de um movimento juvenil, certo de que a velha ordem estava a desmoronar.
Os Beatles estavam a conduzir uma gera��o inteira
para um territ�rio inexplorado.
Contudo, n�o demoraria muito at� o sistema
responder a estes pac�ficos revolucion�rios.
No Reino Unido, a pol�cia come�ou a fazer uma s�rie de apreens�es de drogas,
que levou � pris�o n�o s� de figuras proeminentes do underground,
mas tamb�m de Mick Jagger, Keith Richards
e, mais tarde, Brian Jones dos The Rolling Stones.
No entanto, estes casos com famosos n�o perturbaram Paul McCartney.
Ap�s as deten��es, ele pagou
para p�r o seu nome num an�ncio de um jornal,
a pedir a legaliza��o da marijuana.
A LEI CONTRA A MARIJUANA � IMORAL COMO PRINC�PIO E INPRATIC�VEL
Semanas mais tarde, ele admitiu a um jornalista ter consumido LSD
e repetiu-o numa entrevista televisiva,
para espanto de Brian Epstein.
Brian n�o gostava que as coisas viessem a p�blico.
Ele era uma pessoa muito reservada, obviamente, devido � sua forma de viver.
O problema com as drogas � que n�o era
uma quest�o de eles serem boas ou m�s. Era ilegal.
Paul, com que frequ�ncia consumiu LSD?
Cerca de quatro vezes.
Onde a conseguiu?
Se eu fosse dizer onde a consegui... � ilegal.
� um disparate diz�-lo.
N�o pensa que esta � uma quest�o que devia ter mantido em segredo?
A quest�o � que me foi feita uma pergunta por um jornal
e tinha de decidir entre dizer uma mentira
ou dizer a verdade.
Decidi dizer-lhe a verdade.
Mas, na verdade, eu n�o queria dizer nada.
Se dependesse de mim, se fosse � minha maneira,
eu n�o o teria dito a ningu�m.
Porque n�o estou a tentar espalhar a palavra sobre isto.
Mas o homem do jornal � o homem da comunica��o social.
Manterei as coisas pessoais se ele tamb�m as mantiver, se ele ficar calado.
Mas ele quer espalh�-las.
Ent�o, a responsabilidade por t�-las revelado n�o � minha.
O Paul era sempre honesto.
Se o jornalista lhe perguntava: "J� consumiu LSD?"
Ele dizia que sim. N�o ia mentir.
Porque o faria?
Se fazem essa pergunta, obt�m uma resposta honesta.
Ele correu um risco, ao dizer aquilo.
Provavelmente, fez com que Brian Epstein tivesse um acesso de raiva.
Mas embora os Beatles tenham ganhado muito dinheiro,
nunca estiveram na m�sica por dinheiro.
Se tivessem o suficiente para viver realmente bem, bastava-lhes.
Creio que foi um sinal muito positivo.
Eles pagavam os seus impostos e diziam o que queriam.
Mas o sentido de seguran�a dos Beatles estava prestes a ser desafiado.
No final de agosto, a banda ficou chocada ao receber a not�cia
de que o seu manager, Brian Epstein, tinha morrido. O parceiro de confian�a.
Na sua aus�ncia, de s�bito ficaram sem a sua influ�ncia estabilizadora.
Ao mesmo tempo, a busca pelo crescimento pessoal e espiritual continuou.
George Harrison ficou fascinado com a m�sica indiana em 1965
e enquanto mergulhava nas suas t�cnicas,
sentiu-se cada vez mais atra�do pelos seus fundamentos espirituais.
Isto levou-o a descobrir o guru indiano Maharishi Mahesh Yogi
e os seus m�todos de medita��o transcendental.
Em meados de 1967, Harrison aparentava aos seus colegas as ideias de Maharishi
e os Beatles passaram a ter um novo conselheiro espiritual.
Quando o conheceram,
escrevi a perguntar a Allen Ginsberg o que se dizia sobre Maharishi, na �ndia,
porque Ginsberg tinha l� vivido muitos anos
e ele conhecia muitos gurus e mestres.
Ele respondeu a dizer que o Maharishi era muito comercial
e que estava a ser criticado na �ndia por cobrar dinheiro aos disc�pulos,
porque os ensinamentos devem ser gratuitos.
Comuniquei-o a John Lennon, que se saiu com esta maravilhosa frase:
"N�o � nenhum sacana �tnico que vai tirar-me os castelos dourados".
Apesar das reservas iniciais,
em fevereiro de 1968, Lennon e os seus companheiros
viajaram para a �ndia para um prolongado retiro com o guru.
Acompanhados pelas suas esposas e namoradas,
a sua ida para leste em busca da realiza��o espiritual
foi not�cia em todo o mundo.
A imprensa espalhou-se � volta do complexo de Maharishi, com cinco hectares,
intrigada e desconcertada com este �ltimo cap�tulo
da jornada imprevis�vel dos Beatles.
Esta exposi��o trouxe a religi�o oriental � aten��o de um enorme p�blico.
Num dia qualquer de janeiro, de repente:
"Sim, estamos fora com o Maharishi
a viver num campo de f�rias, na �ndia".
"Est� bem. Divirtam-se."
Mas eles escreveram imensas can��es
enquanto l� estiveram, produzindo-as em s�rie.
Os Beatles apresentaram ao mundo, especialmente ao mundo jovem,
coisas nunca dantes vistas,
se os Beatles n�o tivessem estado l�.
A filosofia por detr�s da medita��o transcendental, o budismo,
estavam a traz�-la para o exterior.
A medita��o estava no centro. Na verdade, � tudo o que importa.
� a alma. A realidade est� aqui.
Poucas pessoas tinham pensado nisso antes.
E se os Beatles, a banda mais popular do mundo,
o fen�meno cultural mais popular do mundo,
estavam a falar seriamente sobre esse assunto,
por mais que os mais velhos pudessem estar a rir,
pelo menos muitos jovens alinhavam com eles.
E as vendas de textos da sabedoria oriental
atingiram um alto n�vel no final dos anos 60.
As pessoas reuniam-se para ver o Maharishi.
Os Beatles foram esta porta de entrada para um outro mundo.
Embora a banda viesse da �ndia revigorada em termos espirituais e de criatividade,
esta sensa��o de calma duraria pouco.
Em fevereiro de 1968, eles criaram a sua pr�pria companhia, a Apple.
Esta empresa multifacetada foi criada para ampliar as atividades dos Beatles
e para manter o controle total sobre a produ��o.
Mas provou ser o primeiro de muitos projetos ambiciosos da banda.
No ver�o, quando entraram no est�dio para criarem o sucessor de Sgt. Pepper,
pela primeira vez, disputas pessoais e profissionais
infiltraram-se nas grava��es.
Uma particular fonte de tens�o era a presen�a di�ria
de um elemento estranho no santu�rio dos Beatles,
a artista conceptual Yoko Ono,
por quem John Lennon estava profundamente apaixonado.
Era uma rela��o que florescia em privado,
por mais de um ano.
Enquanto McCartney crescia em confian�a
atrav�s das suas atividades underground,
A sensa��o de isolamento de Lennon no rural Surrey tinha aumentado.
Encontrando uma liberta��o inicial atrav�s do LSD,
foi Yoko Ono quem lhe ofereceu um meio de fuga.
Uma artista relativamente desconhecida, quando chegou a Londres
com o marido, Tony Cox, em 1966,
foi atrav�s da Indica Gallery que ela entrou em contato com Lennon.
O dono, John Dunbar, cedeu o espa�o
para a primeira exposi��o de Ono, no Reino Unido,
e foi ele quem convidou o seu amigo Beatle a participar neste evento invulgar.
Ela era, claramente, uma mulher interessante e poderosa.
Na verdade, n�o expus fotos comuns.
Ela teve algumas boas ideias e eu gostei delas.
Ela queria organizar um evento.
Conseguimos arranjar algumas semanas em que n�o t�nhamos nada.
Yoko estava relutante em expor o seu trabalho
sem estar totalmente acabado e etiquetou tudo.
Ent�o, est�vamos a fazer isso.
Mas eu e Tony tivemos de lhe dizer:
"Olha, este tipo pode comprar algo, nunca se sabe."
Ele apareceu, gostou
da escada e depois olhou atrav�s da lupa.
E disse: "Sim." Ele gostou daquilo.
O relacionamento que se desenvolveu nos dois anos seguintes
foi consumado em maio de 1968,
mesmo antes dos Beatles come�arem a trabalhar no White Album.
Lennon surgiu como um homem modificado,
liberto de um casamento infeliz e liberto como artista.
A chegada de Yoko Ono na vida de John
transformou o Lennon completamente.
Ela era a m�e, a amante, a professora.
Ela era realmente tudo para o John. Ele precisava daquilo.
Quando ele conheceu a Yoko, ela era uma figura materna.
Ele costumava chamar-lhe m�e.
Ela, pelos seus pr�prios motivos, ficou com ele
e salvou-o, na verdade.
Enquanto a presen�a de Ono influenciava Lennon
e a liga��o entre os Beatles,
o mundo fora da banda come�ou a ficar sombrio.
� medida que a guerra do Vietname ficava fora de controlo
e sem fim aparente para o conflito � vista,
em todo o Ocidente, o movimento cultural t�o inspirado pelos Beatles
j� n�o acreditava que o amor era tudo o que bastava.
O n�cleo progressista e liberal da contracultura
foi intensamente criticado, com os assassinatos
do l�der dos direitos civis, Martin Luther King,
e, depois, do candidato presidencial Robert Kennedy, aumentando as tens�es.
Nos EUA e na Gr�-Bretanha,
as outrora pac�ficas manifesta��es tornaram-se violentas.
Os tumultos estudantis levaram Paris a uma paralisa��o
e imagens de conflitos nas ruas e brutalidade policial tornaram-se comuns.
Como as autoridades investiam implacavelmente contra a contracultura,
a revolu��o substituiu o amor como novo objetivo.
Em 1968, tudo explodiu.
Houve assassinatos nos Estados Unidos, a amea�a de uma guerra civil,
tumultos na Conven��o Democr�tica,
tumultos em Paris, em Londres, a viol�ncia nas ruas.
Na verdade, houve uma esp�cie de luta. O poder...
N�o nos d�o o poder, ele n�o vai ser distribu�do.
Tem de ser...
... � for�a.
Se olharmos para a hist�ria, tem sido assim.
A revolu��o dos Beatles foi benigna, atrav�s da arte e do amor,
mas em 1968, os tijolos voavam por todo o lado.
N�o era a doce utopia do Ver�o do Amor,
mas aut�nticos dias de raiva.
As manifesta��es na Conven��o Democrata em Chicago, em 1968,
eram uma esp�cie de linha divis�ria.
Via-se a pol�cia a agredir mi�dos
e havia uma sensa��o de: "Estamos num tipo de guerra, agora."
Enquanto esta brutalidade policial dilacerava Chicago, em agosto de 1968,
os Beatles lan�avam o single "Revolution",
abordando as lutas de uma cultura jovem amea�ada.
Mas ao contr�rio de "All You Need Is Love" do ano anterior,
a composi��o de John Lennon recusava-se a expressar a voz
deste movimento desiludido
ou a aceitar o chamado �s armas da esquerda radical.
Pela primeira vez, os Beatles tinham-se voltado para os seus pares.
Mas a relut�ncia de Lennon em pactuar com a viol�ncia
n�o s� levou a duas diferentes vers�es da faixa
mas tamb�m refletiu as lutas internas com que muitos jovens lidavam.
H� duas vers�es da can��o "Revolution".
Lennon avan�a e recua em "n�o sabem que n�o podem contar comigo?"
no que diz respeito � "Revolution".
Exatamente onde era suposto dar o seu apoio, era dif�cil faz�-lo.
Todos os jovens estavam a senti-lo.
Ir a uma manifesta��o? Sim, claro.
Ir a uma manifesta��o que talvez ocupe um pr�dio? Talvez.
Incendiar esse pr�dio?
Percebeu a diferen�a?
"Se � para falar de destrui��o",
Lennon a dizer: "N�o contem comigo." Depois a dizer: "Contem comigo."
Ele n�o sabe. Ele est� indeciso, naquele momento.
Por muito que Lennon pudesse ser uma ajuda,
ele tinha sido seduzido pelas ideias de paz e amor.
Ele tinha escrito o hino do ano anterior.
Sempre houve uma esp�cie de otimismo intr�nseco
nos Beatles, de algum modo.
O que n�o acontecia com Dylan,
n�o acontecia com os Stones.
Era quase como Martin Luther King.
As pessoas n�o dizem isto agora,
mas havia a impress�o de que muitos radicais negros
que estavam a aparecer, enquadravam-se mais no momento.
O Dr. King parecia fazer parte do sistema de protesto.
E de certo modo, os Beatles tamb�m pareciam ser um pouco assim.
Se a banda estava a perder alguma da sua import�ncia
como for�a cultural, atrav�s da influ�ncia de Yoko Ono,
John Lennon garantiu que continuariam a ser pioneiros musicais.
Enquanto "Revolution" poupou-se politicamente,
uma colagem experimental que criou com a sua nova parceira
reproduziu o caos de 1968, atrav�s da simples sonoridade.
Quando foi editado no LP com o nome da banda,
no final desse ano, a faixa "Revolution 9"
tornou-se na composi��o de vanguarda mais ouvida de sempre.
Foi uma afirma��o surpreendente de um homem que esteve
no Ver�o do Amor, h� apenas um ano.
Ele foi de um extremo ao outro.
Subitamente, Lennon viu que tudo tinha dado errado.
Virou-se para o outro lado
e o outro lado foi "Revolution 9",
que era uma vis�o extremamente diferente do futuro.
"Revolution 9" foi realmente o som
n�o apenas dos tumultos em Paris ou nas ruas de Chicago.
Isto � o som do apocalipse.
Esta � sua descri��o incrivelmente honesta
do pior medo de todos
que � uma sociedade e um mundo em turbul�ncia global.
� uma pe�a extraordin�ria,
e uma das m�sicas mais assustadoras que se podem ouvir.
No s�culo XXI,
"Revolution 9" � muito mais relevante do que foi em 1968.
Tendo feito a composi��o mais extrema
da lista dos Beatles,
as atividades experimentais adicionais de Lennon continuaram fora da banda.
No fim de 1968,
a primeira de uma trilogia de �lbuns com Yoko Ono foi editada.
Two Virgins, com uma capa a retratar a nudez do casal.
Ainda um membro da mais popular
e comercialmente bem-sucedida banda do mundo,
Lennon estava agora a quebrar todas as regras.
LEVANTAR O EMBARGO
Mas a f�ria de alguns quadrantes da contracultura,
contra a can��o "Revolution" levou-o a um maior envolvimento pol�tico.
Em 1969, enquanto Richard Nixon era declarado o novo presidente da Am�rica,
John Lennon e Yoko Ono emergiram
como os ativistas mais importantes do mundo.
Quando o Lennon apareceu e disse:
"Se est�o a falar em destrui��o, n�o contem comigo."
Ele foi severamente criticado pela extrema esquerda.
E parece-me que a sua rea��o
n�o foi mudar as suas ideias sobre a destrui��o,
mas, na verdade, dizer:
"N�o, eu n�o penso que a destrui��o seja a resposta.
Penso que a resposta � a paz."
Em mar�o de 1969, John Lennon e Yoko Ono casaram-se.
Com a sua lua de mel, o casal iniciou uma eminente campanha pela paz,
apresentada como uma s�rie de eventos de arte conceptual.
No esp�rito da atitude inicial dos Beatles para com a imprensa,
o primeiro destes eventos ocorreu na suite dos noivos,
onde convidaram jornalistas para discutir pol�tica abertamente.
Isto � pela paz mundial.
E estamos a pensar que, em vez de sair e lutar
e fazer a guerra ou algo assim, devemos ficar na cama,
toda a gente devia ficar na cama e desfrutar da primavera.
Ele arriscou a sua carreira pelas suas cren�as.
CABELOS DA PAZ CAMA DA PAZ
E devemos aplaudi-lo por isso, claro.
Isso trouxe-lhe persegui��es e problemas.
Enquanto est�o na cama
a dar confer�ncias de imprensa entre len��is,
est�o a rir-se de n�s? - N�o.
N�o mais do que se riem de n�s.
N�s rimos, pensamos que � engra�ado
que a not�cia de primeira p�gina seja o facto
de duas pessoas irem para a cama na lua de mel.
N�s vemos o lado engra�ado disto.
E que em Viena, que � um lugar muito genu�no,
haja aquelas lindas fotografias de microfones a serem presos a um saco,
� espera que o saco fale.
� muito agrad�vel.
Mas estamos a falar a s�rio sobre a paz.
Corajosos, audaciosos, eram tudo isso.
Mas quem mais teria feito aquilo?
Seriam not�cia de primeira p�gina se estivessem na cama a falar sobre a paz.
John n�o conhecia necessariamente os pr�s e contras
sobre a quest�o do Vietname.
Ele e Yoko sabiam que era errado lan�ar o napalm nas aldeias
e arrancar a pele �s crian�as.
Ele n�o estava errado ao pensar assim. N�o estava errado.
Quando a lua de mel do casal passou da Europa para o Canad�,
juntaram-se-lhes, no quarto de hotel, Timothy Leary,
Allen Ginsberg e uma s�rie de figuras da contracultura,
para gravarem um hino para a campanha deles.
E enquanto as suas grava��es experimentais
e os seus aparecimentos em p�blico confundiram muitas pessoas,
esta can��o conseguiu levar a sua mensagem a um p�blico global.
"Give Peace a Chance" foi a sua tentativa
de fazer algo � sua maneira que seria realmente �til
e penso que provou s�-lo.
Ele escreveu um hino. � um hino simplista,
mas que tem um bom cora��o e uma boa mensagem
e que as pessoas t�m cantado, desde ent�o.
Ele afastou-se cada vez mais
da elegante combina��o
entre escolhas musicais art�sticas e textos profundos
para discos que t�m apenas uma mensagem.
Ele tinha aquela capacidade de destilar algo
at� � sua ess�ncia mais pura, tornando-o comunicativo,
tornando-o inesquec�vel e ainda se repercute nos dias de hoje.
Enquanto Lennon insistia na campanha pela paz,
o fim da d�cada viu as primeiras grandes v�timas
do movimento juvenil,
com a morte de Brian Jones, dos Rolling Stones,
e os danos permanentes pelo uso de drogas
em Brian Wilson, dos Beach Boys, e Syd Barret, dos Pink Floyd.
A vis�o ut�pica de um mundo novo e corajoso estava a desmoronar
e isso refletiu-se nos pr�prios Beatles.
As tens�es que j� tinham surgido no est�dio
propagavam-se agora para o relacionamento pessoal entre eles
e quando McCartney casou com Linda Eastman, em 1969,
nenhum dos seus companheiros da banda foi ao casamento.
Quando o mundo entrou em 1970,
Paul lan�ou o seu primeiro disco a solo
com um comunicado de imprensa
no qual anunciou que estava a deixar a banda.
Era oficial. The Beatles j� n�o existia.
O desaparecimento da banda chocou os f�s em todo o mundo,
mas os que lhes eram pr�ximos
tinham visto a banda a desmoronar gradualmente, ao longo de dois anos.
N�o havia coes�o.
A velha bolha de Liverpool em que eles costumavam viver,
encontrar-se com frequ�ncia, amar-se mutuamente,
e serem tolerantes com as fraquezas e as diferen�as de cada um, tinha acabado.
Agora estavam a girar em diferentes dire��es
com novas ideias, novas fam�lias, novas namoradas, novas crian�as.
J� n�o funcionava mais. Era realmente �bvio
que The Beatles tinham chegado ao fim como grupo.
Algum grupo multimilion�rio do mundo do espet�culo
acabou porque...
... j� n�o era divertido?
Bem, n�s sabemos porque muitos grupos desse mesmo per�odo
continuam indefinidamente
quando, definitivamente, j� n�o tem piada h� muito.
Os Beatles acabaram porque as raz�es que os levaram a juntar-se
deixaram de ter valor para eles.
Disseram: "N�o vamos mais fazer isto."
� a declara��o mais poderosa sobre a integridade deles,
as suas inten��es e os seus valores, que eu posso imaginar.
Depois do fim dos Beatles, a cultura juvenil ficou mais dividida,
o rock ficou mais pesado e mais permissivo
e a pop virou-se para a sedu��o.
Quanto aos membros da banda,
apesar do cont�nuo ativismo de Lennon e da s�rie de singles de sucesso,
o �xito de McCartney atrav�s de sua banda, Wings,
e o sucesso emergente de Harrison numa carreira a solo,
o impacto das suas carreiras a solo nunca corresponderia
aos dias de gl�ria dos Beatles.
Mas embora a vis�o ut�pica deles n�o se tivesse materializado,
o mundo modificou-se para sempre com as inova��es dos Beatles
e os valores que expressaram.
Mesmo que ningu�m tenha conseguido competir com esse impacto,
a cada sucessiva gera��o de m�sicos
os Beatles continuam a ser a refer�ncia
para que os artistas populares possam interagir com um mundo mais vasto.
As mudan�as culturais e musicais, que foram, sem d�vida,
as maiores contribui��es, tiveram um efeito permanente
na forma como o rock se compreendeu?
Sim, um efeito permanente na forma como o rock se compreendeu.
Mesmo agora, nesta era do pop glamoroso,
as estrelas da pop veem como uma op��o,
que t�m de aceitar ou recusar,
serem conscientes, controversas...
... e umas escolhem uma op��o, outras rejeitam-na
e algumas s�o extremamente banais,
mas est� l�, em cima da mesa.
Est� sempre em cima da mesa, para toda a gente.
OITO DIAS POR SEMANA AMO-TE
E como as surpreendentes composi��es da banda
continuam a causar impacto meio s�culo depois,
o legado dos Beatles e da not�vel d�cada
em que eles brilharam continua incompar�vel.
A hist�ria �nica de quatro rapazes da classe trabalhadora de Liverpool
que mudaram o mundo.
Lennon disse algo como: "N�s n�o �ramos l�deres neste mundo.
�ramos apenas os tipos no mastro, a dizer 'terra � vista'.
N�s est�vamos a mostrar-vos o que pod�amos ver."
E sem os Beatles, entender os anos 60
teria sido uma experi�ncia completamente diferente.
Eles tocaram em tudo. The Beatles abarcaram tudo.
Se querem conhecer os anos 60,
ou�am os discos dos Beatles. Eles contam-vos... a hist�ria est� l�.
Parece um clich�, mas � realmente imposs�vel
exagerar sobre o impacto dos Beatles.
Parece que estamos a exagerar e para os mais jovens, que n�o estavam l�,
parece rid�culo.
Mas foi verdade. Eles mudaram tudo.
Legendas: Geny Pereira
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