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Original subtitles

UMA SÉRIE ORIGINAL NETFLIX

Repousámos, o meu amor e eu...

...sob o salgueiro-chorão.

Mas agora repouso sozinha...

...e choro junto à árvore que bendigo.

Canto "Ó salgueiro das lamúrias"...

...junto à árvore que chora comigo.

Canto "Ó salgueiro das lamúrias"...

...até voltar o meu amor antigo.

NORTE DA CALIFÓRNIA

A vossa atenção, por favor.

Poderão comer em breve, mas primeiro,

a noiva pediu-me para falar. Julguei que estivesse a brincar.

Porquê atrair tamanha catástrofe

para o seu casamento?

Mas, como ela explicou: "Não, céus. Não é para o casamento,

é para a prova."

Jantar de ensaio, por amor de Deus!

Reclamo o meu direito como inglês ligeiramente bêbedo, cheio de jet lag,

de dizer aquilo que me vai na cabeça.

Quero avisar-vos a todos.

Vocês, jovens, não fazem a mínima ideia

do que vos espera.

Uma estatística terrível:

sabiam que quase metade dos casamentos atuais

não acaba em divórcio?

Ou seja, há uma forte probabilidade de assistirem à morte um do outro.

E esse é o final preferível.

Amar verdadeiramente outra pessoa

é aceitar que o trabalho de a amar

vale a dor da sua perda.

E pronto.

É tudo.

E, se isto vos assusta tanto quanto me assusta, sugiro que fujam.

Vão drogar-se numa praia em Bali,

tenham uma vida introspetiva!

Fujam enquanto podem! São jovens, são fortes.

O mundo é...

Não, a sério, recusámos ficar aqui.

- Ela recusou. - Nem sabia que podíamos ficar aqui.

Há três suites no castelo, e o Jack queria ficar aqui.

- Só uma noite. - Antes da lua de mel.

Só amanhã, após o copo-d'água, para podermos dormir lá em cima.

Mas não quis, não depois daquelas histórias.

Espera, só as histórias?

- Não a viste? - Não! Céus, não a vi.

Se visse uma freira morta a chorar pelos cantos,

não nos casaríamos aqui.

É só uma história. Isto foi um convento durante umas décadas, desde os anos 40.

Faz parte do pacote de vendas. Cobram mais pela história do fantasma.

Adoro uma boa história de fantasmas, mas não quero dormir numa.

A nossa lua-de-mel foi na Irlanda.

Mandaram-nos ter cuidado com o Seamus, o rapaz da estrebaria.

Ó Seamus.

Dizem que levou um coice de um cavalo e ficou com a cabeça esmagada.

- É pior se o fantasma for uma criança. - Acrescenta algo, não é?

Eu tenho uma história.

Bem,

não é propriamente minha.

É de uma pessoa que conheci.

E não é propriamente curta.

Parece que temos tempo suficiente e vinho suficiente.

Porque não?

Muito bem.

História de fantasmas.

Repito, esta história não é minha,

mas está repleta de todo o tipo de fantasmas.

E, se uma criança causa mais frisson,

torna tudo mais arrepiante...

...o que dirão de duas?

LONDRES

A professora era, por opção, uma jovem solitária.

Apreensiva, foi a Londres responder pessoalmente a um anúncio

de um tal lorde Henry Wingrave, em relação ao seu sobrinho e sobrinha,

que precisavam de uma au pair.

Um trabalho a tempo inteiro. Interna, ainda por cima,

na antiga casa de família do lorde, em Essex.

Uma ótima casa grande,

isolada no campo.

- Mna. Clayton, certo? - Trate-me por Dani. Olá.

Por favor, sente-se.

- É professora? - Sim.

Melhor, era.

Dava o quarto ano.

Nos Estados Unidos.

Está em Inglaterra há muito?

Há uns seis meses.

Seis meses? Durante esse tempo...

Bem, apaixonei-me completamente por Londres.

Céus.

Chá? Café?

Não, obrigada. Ainda não sei fazer chá.

Estou habituada a servi-lo de um jarro. Cheio de cubos de gelo.

E limão partido em quartos.

Aqui é completamente diferente.

Sim, é.

Não tem qualquer experiência como au pair.

Bem…

Tenho muita experiência com crianças, Sr. Wingrave.

Numa sala de aula, mas este é um trabalho a tempo inteiro.

Eu sei, foi por isso que respondi ao anúncio.

As crianças são maravilhosas. Excecionais. A minha sobrinha e o meu sobrinho.

Crianças excecionais, como eu disse.

Mas são ambas um desafio.

O Miles, o meu sobrinho, voltou mais cedo do colégio interno.

Precisa de estrutura,

disciplina, mais do que nunca.

Porque o mandaram para casa? O segundo período...

Teria de lhe dar aulas, para ele não ficar para trás.

Nesse aspeto, a sua experiência como professora pode ser útil.

O mesmo se passa com a Flora, a minha sobrinha.

Também teria de ensiná-la.

O seu anúncio mencionava que teria de viver no campo.

Em Bly,

na casa de campo da minha família.

As crianças estão habituadas a Bly, elas... passavam lá as férias com os pais,

antes de eles morrerem.

A mansão é uma ótima casa grande.

Trabalham lá outras pessoas.

Um cozinheiro, uma jardineira. Esses vivem na vila.

Há uma caseira, mas as crianças seriam responsabilidade sua,

exclusivamente sua.

Não me procure, a menos que seja uma emergência.

Sou uma pessoa muito ocupada.

Compreendo.

Sabe, uma das tarefas mais especiais que me deram na escola

tinha que ver com crianças com maiores necessidades. Uma até perdeu os pais...

Qual é o senão?

Perdão?

O senão. Tem que idade?

Trinta?

Vinte e poucos?

Pergunto-me

qual será o senão.

É mais nova do que a maioria das candidatas.

O que leva uma mulher da sua idade

a querer desistir da vida dela para cuidar dos filhos de outra pessoa?

Uma vida na América, ainda por cima. E a tempo inteiro.

Eu acho estranho, para ser franco.

Eu também acho.

O anúncio.

Trabalho a tempo inteiro, numa casa de campo linda, e duas crianças incríveis.

Mas vi o seu anúncio há seis meses.

Quando cheguei a Londres. E vi-o todos os meses desde então.

Parece-me uma vaga fácil de preencher.

Pelo menos, como a descreveu.

Deduzo que tenha razão.

Qual é o senão?

De facto, é essa a questão.

Obrigada.

Olá, James.

Sei que não consegui o trabalho e isso não faz mal.

Mas nunca tive uma entrevista tão constrangedora.

Acho que devíamos fazer um brinde, Sr. Wingrave.

Ou prefere no chá?

Então, já me pode contar, não pode?

Sinceramente, estou muito curiosa.

Sobre o quê?

O senão.

- Não. - Não, vá lá!

Bem…

É imaginação, deduzo.

Ninguém quer o trabalho.

Ora, ninguém?

Encontrámos alguém durante algum tempo.

No verão passado.

Uma jovem promissora.

Os meninos gostavam dela.

E depois ela...

Bem, a verdade é que morreu.

A culpa foi dela, sinceramente.

Foi escolha dela, para ser mais claro, mas morreu na propriedade.

As pessoas são supersticiosas, especialmente no campo.

E agora falam disso.

Uns miúdos naquela casa enorme, cujos pais morreram.

E, agora, a governanta morreu também.

Não lhes interessa que os pais morreram no estrangeiro e a governanta se suicidou.

Portanto, sim, a história precede o trabalho,

pelo menos, em todas as agências. Agora, ninguém quer o trabalho.

Superstição,

imaginação.

E a menina?

Qual era o seu senão?

Eu...

...tinha de sair de casa.

Alguma vez deu aulas a 25 crianças?

Não, com certeza que não, infelizmente.

Bem,

apegamo-nos a elas.

Adoramo-las.

Até as piores.

Adoramos mesmo.

E tentamos ajudar…

...mas são muitas.

E eu sou só uma. Por isso, acabamos...

O anúncio dizia duas crianças.

Não sei os detalhes, mas sei lidar com crianças.

Talvez faça diferença.

A sério. Podia fazer diferença. Uma verdadeira diferença.

Com apenas duas.

Depois, reparei que o trabalho era a tempo inteiro, como interna.

Então, percebi. Eles perderam alguém.

Eu sei o que é a morte.

Sei o que é perder alguém.

Vou ficar mais algum tempo em Inglaterra. Muito tempo, na verdade.

Arranjei emprego.

Sim, vou ficar à experiência, pelo menos, até ao fim do verão.

Mas pode durar...

Sim, é mais tempo do que disse, mas arranjei um emprego.

Não estou.

Não estou a fugir de nada.

Magoa-me quando dizes isso.

Sabes que isso me magoa.

Enfim...

...podes contactar-me quando chegar à casa.

Ligo-te quando tiver o número.

Adoro-te, mãe.

- Mna. Clayton? - Sim.

- Owen. - Olá.

- Muito prazer. - Igualmente.

- Eu ajudo. - Sim.

- Tenho umas malas. - Não há problema. Obrigado.

Obrigada.

Desculpe lá. Estradas rurais.

- Quanto tempo dormi? - Algum.

- Ainda está no fuso dos EUA? - Não.

Não tenho dormido muito ultimamente.

Os albergues não são muito tranquilos.

Aqui é muito mais sossegado.

- É lindo. - Acha?

- O quê? - Sinceramente, já nem sei.

Nasci em Bly.

Na vila, não me refiro à mansão.

Estive uns tempos fora, em França.

- O quê? - Estudei culinária.

Pensei que era um mero motorista.

Não, só às vezes, quando o Henry me pede.

Para ser sincero, sou péssimo motorista.

Mas cozinho bem.

Porque voltou?

- De França? - Pela família.

E este trabalho paga as contas, enquanto estou aqui. E estou perto.

Há fins do mundo piores, garanto-lhe.

Nunca gostei de Bly.

As pessoas daqui, a maioria delas,

nascem e morrem aqui.

A vila é um poço gravitacional.

E é fácil ficarmos presos.

Céus, aquilo...

É como disse, há muito para apreciar.

Posso fazer o resto do caminho a pé?

Canto "Ó salgueiro das lamúrias"

Junto à árvore que chora comigo

Canto "Ó salgueiro das lamúrias"

Até voltar o meu amor antigo

Que canção tão linda!

Qual canção?

- A que estavas a cantar. - É a Mna. Clayton!

Só pode ser. É tão bonita.

Disse ao Miles que seria bonita.

Tão perfeitamente esplêndido!

Deves ser a Flora.

Espero não te ter assustado.

Nada disso, eu esperava-a. Estou tão feliz por estar aqui.

A Sra. Grose vai querer vê-la, e o Miles também.

E o Owen e a Jamie.

Já conheci o Owen.

- Quando o conheceu? - Na viagem para aqui.

O que é isso?

Isto?

Uma patetice.

Só um momento.

- Que lago lindo. - Não diga isso.

Não passa de um charco fedorento.

E tem sanguessugas.

Coisas horríveis, como lesmas-vampiras e escaravelhos.

Quem precisa desta poça velha? Há tanta coisa muito melhor.

É mesmo perfeitamente esplêndido conhecê-la.

Miles!

Ela chegou!

- É ainda mais bonita do que eu imaginava. - É ela!

Olá, Miles.

É um prazer conhecê-la, minha dama.

Vejam só, que cavalheiro.

E esta deve ser a Sra. Grose.

- Olá! - Desculpe.

Céus, estava tão distraída.

Sou a Dani.

É um prazer conhecê-la. Hannah Grose.

Vejo que chegou sã e salva.

A viagem foi boa?

Foi perfeita.

- Maravilhoso. - Sim.

O Owen é um ótimo rapaz.

Tem bom coração.

Certo, vamos lá entrar. Tenho a certeza de que a Mna. Clayton quer ver a casa.

- Sim. - Certo, vamos lá.

- Bom... - Pode tratar-me por Dani.

Disparate. Meninos, vão chamar-lhe Mna. Clayton, como combinado.

Não sentiu desconforto nem teve presságios na primeira vez que viu Bly.

Era exatamente como o lorde Wingrave descrevera.

Uma ótima casa grande.

E acordou do seu marasmo para lhe dar as boas-vindas.

Este é o átrio

e é perfeitamente esplêndido.

- É lindo... - Venha!

Aqui é a cozinha

e é perfeitamente esplêndida.

E este é o Owen.

É o cozinheiro

e é esplêndido.

Perfeitamente.

Olá a todos.

Olá de novo.

Olá!

Olá, Flora.

Por aqui.

Os quadros são todos originais, o que significa que foram pintados à mão,

e são perfeitamente esplêndidos.

Esta é a sala de aula.

Não...

...tem grande piada.

Estas são as nossas belas escadas, mas não deve correr nelas.

Se cair, magoa-se, e as escadas são terríveis.

Mesmo terríveis. Está a ver?

A Sra. Grose diz que dão cabo dos joelhos, mas eu não tenho problemas.

- Deslumbrante! - Sim. É ótimo, ideal para os miúdos.

Mas atenção às escadas, dão cabo dos joelhos todos.

E era aqui que os nossos pais viviam.

- Já não entramos aqui. - Já não entramos aqui.

- Está tudo tapado. - Esta ala está fechada, de momento.

E tapada, mas, lá no fundo,

é tudo perfeitamente esplêndido.

Vamos deixar a Mna. Clayton recompor-se.

Claro.

Mas temos de lhe mostrar o jardim das estátuas.

- Vai acabar por ver tudo, Flora. - Vemo-nos depois de se instalar.

E, então, mostramos-lhe o resto.

Flora!

Já vou.

Desculpe. Posso entrar?

Sim.

Claro.

A partir de agora, bate à porta.

Claro.

Só queria dizer que estamos felizes por tê-la aqui.

E dar-lhe isto.

Não é muito, eu sei.

É uma coisinha para se sentir bem-vinda.

Obrigada.

É muito bonito.

Vou despachar-me e já vou ter convosco, sim?

Claro.

Obrigada.

Espero que esteja bom.

Ainda não sei fazer chá...

Está bom, querida.

O jantar está na mesa.

- Toma, amigo. - Obrigado.

O Owen faz jantares fabulosos.

Fez-me uma sandes de macarrão com queijo

que estava divinal.

O que traz uma jovem americana a Inglaterra?

E a Bly, ainda por cima.

Sabe, só queria ver o mundo.

E o que acha até agora?

- De Bly? Ou do mundo? - Quero ir à Austrália.

Ou à Florida, porque é parecido com o meu nome.

Pois é.

- É tão lindo aqui. - Sim.

Sei que estou sempre a dizer isto, mas não há outro adjetivo.

- Lembro-me de alguns. - Cala-te, Owen.

- Ele gosta de me irritar. - Ela gosta que a irritem.

Não comes connosco?

Hoje, não, fofinha. Tenho de ir ter com a minha mãe.

Dececionante.

Pareces a minha mãe a falar.

Ela está melhor?

Muito melhor.

A cada dia que passa.

Muito bem.

Boa noite, minha menina linda.

E boa noite para ti também, Flora.

- Deus me valha, este homem. - Bom proveito.

Ele vive com a mãe?

Vive para ela, é mais isso. Por isso voltou de Paris.

Ouvi dizer que ficou muito doente.

- Lamento. - Pois.

- Ele disse que ela está melhor. - A cada dia que passa.

Ele diz isso, mas cada dia sai mais cedo.

Costumava jantar sempre aqui.

Talvez ela já consiga comer,

por isso, ele tem de ir cozinhar para ela.

Deves ter razão, fofinha.

Então? Não vai comer?

Sim.

- Como depois. - Está bem.

Eu dou-lhe umas dicas.

Obrigada.

Quero parecer um gnomo.

Um gnomo de bolhas.

Bom, está quase.

O que foi?

É uma grande tontice, não é?

Sim, és uma menina muito tontinha.

Onde arranjou isso?

- O quê? - O pente da borboleta.

Foi o Miles que me deu.

Não devia ter feito isso.

Porquê?

Porque não lhe pertence.

A quem pertence?

- À Mna. Jessel. - Quem é essa?

A outra.

- Antes de si. - Eu...

Lamento imenso.

Eu... lamento imenso.

Eu é que errei, não faz mal.

Posso sair?

- Posso brincar com as bonecas? - Sim, 15 minutos.

Andei em todos os tipos de escola que possas imaginar.

Ai sim?

Até num colégio interno, como tu.

Sei como pode ser difícil.

Não é assim tão mau.

Bem,

agora estás em casa, não estás?

Podes falar comigo sobre o que quiseres.

Sobre a escola.

Tudo o que aconteceu lá.

Garanto-te, já ouvi de tudo.

É muito amável.

Boa noite, Dani.

Boa noite.

A Sra. Grose entende que me devias chamar Mna. Clayton.

Não gostou?

Desculpa?

Da borboleta.

Eu...

A Flora... ficou um pouco aborrecida.

Está sempre assim.

Quer o admita ou não.

Mas está feliz por tê-la aqui.

E eu também.

Obrigada por me receberem tão bem.

Hora de dormir!

Já acabei.

Mesmo a tempo.

Essa sou eu?

Não, tontinha. Você é você.

É só uma bonequinha.

Touché.

O que é isto tudo?

São bonecos, claro.

A menina tem muitos bonecos,

e vamos aprender a arrumá-los todos antes de irmos dormir, está bem?

Ponha onde estava.

Ela fica...

...aí.

E tu ficas aconchegada na cama.

Está na hora de dormir.

É tão bom tê-la aqui.

Obrigada, Flora.

Mas tem de me prometer uma coisa.

Claro.

Tem de me prometer

que fica no seu quarto.

Não saia do quarto à noite.

Fique na cama até de manhã.

Acho que não posso prometer isso.

Mas é uma boa regra para ti e para o teu irmão.

Tem de prometer.

Está bem.

Pelo menos, esta noite.

Agora, dorme.

A au pair não conseguiu dormir.

Era como a Flora dissera.

Os quartos eram maiores à noite,

como se a casa, ao anoitecer, tivesse inspirado profundamente,

expandindo-se ao suster a respiração até à alvorada.

Essa sensação de expansão não era só dentro de casa.

Ao olhar para fora, ela descobriu que o terraço e toda a mansão,

o relvado e o jardim,

e tudo o que ela via do parque estava deserto, com um grande vazio.

Um vazio que pedia para ser explorado.

Eu acho bom.

Que dia lindo.

Nunca me fartarei deste lugar, juro.

- O que se passa? - Estou muito zangada consigo.

Mna. Clayton! Veja o que encontrei!

Saiu do quarto ontem, apesar de ter prometido que não sairia.

- Mna. Clayton! - Como sabes?

Tem de ficar no seu quarto.

Venha ver!

- Porquê? - Para ela não a ver.

Quem?

A senhora.

Qual senhora?

- A senhora do lago. - Flora.

Flora, olha.

Mna. Clayton,

veja!

Sou professora há nove anos, Miles.

É quase a tua vida toda.

Nesse tempo, muitos miúdos tentaram assustar-me de muitas formas,

e sabes o que aprendi?

Sou muito mais corajosa do que julgam.

Incluindo eu.

Não a queria assustar, Mna. Clayton. Sabia que não teria medo.

Ai sim?

Claro, percebi isso quando a conheci.

Costumavas fazer isso na escola?

Pregar partidas?

Traquinices.

Nunca entendi as traquinices.

O teu tio falou-me dos teus problemas na escola.

Falou com o meu tio?

Claro, ele contratou-me.

Ele perguntou por nós?

Passou o tempo todo a falar de vocês.

Tem saudades vossas.

Muitas.

Não, não tem.

Claro que tem.

Telefonamos-lhe a perguntar?

O coração da au pair ficou apertado com a dor do rapaz.

Mas, tal como o tempo em Bly, o humor dele mudou rapidamente.

Tal como o sol, as nuvens e a chuva apareciam sem aviso,

também o humor dos meninos mudava.

Como se o tempo e a natureza tivessem... leis secretas,

só para eles.

Aqui está ela.

Fugiram-me.

Não, eu atendo. Sente-se.

Descontraia.

Se é que é possível.

Estou?

O que é o almoço?

- Salsichas com puré de batata. - Sim?

Estou?

Flora, não.

- Quem era? - Não sei, desligaram.

- Outra vez? - Outro?

Têm telefonado e desligado.

- Deve ser engano. - Obrigada.

De nada.

Mna. Clayton.

Obrigada.

A jardineira nem se apresentou à nova au pair.

Mal lhe prestou atenção.

Tratou-a como se sempre lá tivesse estado.

Os presentes na cozinha deduziram que já se conheciam,

o que, na verdade,

foi o que a au pair sentiu quando viu a jovem pela primeira vez.

Quem achou boa ideia alimentar estes Gremlins?

Não somos Gremlins!

Somos meninos muito bons!

Ai são?

Eu tenho dúvidas.

Owen, o que achas?

Não sei. Temos de molhá-los para ter a certeza.

Assim?

Toma.

- Aqui tens, querido. - És uma joia, obrigado.

Estava alguém... a trabalhar na propriedade hoje?

Talvez um faz-tudo.

Não, não creio.

Porque vi um tipo,

na varanda, quando entrei.

Na varanda?

Sim.

- Não estou a ver. - Eu não fui lá.

Porque haverias de ir? De certeza que viu lá alguém?

Certeza absoluta. Eu acenei, mas ele não respondeu.

Às vezes, temos intrusos. Pessoas que querem ver os jardins.

- São abusadores, mas se algum subiu lá... - Só conseguem subir entrando na casa.

A entrada é pela ala antiga. E aonde é que não vamos?

À ala antiga.

Deve ter imaginado, querida.

- Não vai comer nada? - Não, já comi.

Vim pela companhia.

Tens de provar isto.

Flora, não.

Encontrou alguém?

Não.

Não encontrei.

Mas encontrei...

Desculpe, estou a interromper?

Não, de todo.

O que encontrou?

É a Flora.

- Flora... - Já vi alguns destes bonecos.

Não os podemos censurar.

Não depois do que passaram.

O Sr. Wingrave falou-lhe dos pais deles.

Apenas que faleceram.

Há dois anos.

O Miles só tinha oito anos. A Flora, seis.

E, como se não fosse azar suficiente para duas crianças,

não ficou por aí.

A sua antecessora.

- A Mna. Jessel? - Sim.

A Rebecca.

Santo Deus!

A Rebecca. Pobre Rebecca.

Ela era...

Era uma jovem perspicaz.

Era ambiciosa, inteligente.

Bondosa.

Mas...

...havia um homem. É a única coisa que deita abaixo uma mulher como ela.

Todos os vícios do mundo disfarçados de graças.

Quanto menos falarmos dele, melhor.

Sabe que fugiu?

Com muito dinheiro do Henry e o coração da pobrezinha.

Fartou-se de roubar, o larápio.

E como ela estava nas vésperas do sucedido.

Tão destroçada.

Tão vazia.

Perdemo-la muito antes de entrar no lago.

A Flora encontrou-a.

E a Jamie encontrou a Flora.

Ouvi-la contar...

O corpo da Rebecca na água.

De barriga para baixo.

E a pequena Flora...

...completamente imóvel,

a olhar.

Eu...

Pensar que me arrepiava quando ouvia os meninos

a correr pela casa, a gritar e fazer banzé.

Mas, nas semanas após a morte da Mna. Jessel...

O silêncio nunca me desagradou tanto.

E agora...

Agora, quando os ouço chorar ou...

...gritar ou berrar...

É o som mais maravilhoso do mundo.

- Peço imensa desculpa. - Não.

- Não faz mal. - Que figura a minha.

É um talismã.

Uma brincadeirinha da Flora para nos manter a salvo.

A nós. Céus. Meu Deus, estes meninos.

Acho que ambos tentam à sua maneira.

É melhor voltar.

O Owen e a Jamie estão quase a sair.

Posso ficar com os meninos agora, se quiser ficar sozinha.

Para que são as velas?

Pelos mortos.

Com o tempo, são mais do que eu gostaria.

- Lamento. - Céus, não.

Fui e continuo a ser uma mulher muito feliz.

Boa noite, Mna. Clayton.

Está na hora de dormir.

Está?

Acho que não.

Chega de jogos, Miles.

Gosta de jogos, Dani?

Não à hora de dormir.

É a melhor altura para jogar.

Para de ser esquisito, Miles!

Às vezes, é tão esquisito.

E tu,

meu docinho.

Imaginação.

Eu adoro

a tua imaginação.

E todos nesta casa têm imensa sorte

por usares a tua imaginação para nos manteres seguros.

Promete-me que, enquanto nos manténs seguros,

te manténs a ti segura primeiro.

E nada de subir à varanda.

Está bem.

É mesmo, sabe?

O quê?

Perfeitamente esplêndida.

Boa noite, docinho.

Desculpa!

Tens de te certificar que arrumas isto. Não queria nada...

Onde queres que a ponha?

Na casinha ou debaixo da cómoda?

Mna. Clayton?

Ia agora aconchegar-te.

Há uma ventoinha no guarda-fatos da Flora.

Não consigo dormir sem ela.

Pois é, o meu guarda-fatos.

Pode ir buscar? Peço imensa desculpa.

Claro.

Bom,

aqui tens.

Pode dormir contigo hoje.

Pronto, vamos lá ver.

Não a vejo!

Deve estar debaixo de roupa.

Está bem.

Meninos.

Já mandei parar com os jogos. Abram!

Abram a porta!

Abram!

Estou a tentar!

Miles!

Estou a tentar!

- Flora! - Está encravada. Estamos mesmo a tentar.

Vá, não tem piada. Abram a porta.

Temos de procurar a chave. Está mesmo encravada.

- Lamentamos muito! - A chave está na fechadura, Flora.

- Roda a chave. - Não está! Não encontramos.

Estou a falar a sério.

Abram a porta!

Miles?

Flora?

Abram a porta!

Abram a porta!

Abram a porta!

Não!

Abram a porta!

Meninos!

Deixem-me sair!

Deixem-me sair!

Deixem-me sair!

Deixem-me sair!

Deixem-me sair!

Peço desculpa.

Pedimos imensa desculpa.

Cama!

Foi um acidente.

Para a cama!

Já!

Peço desculpa.

- Por favor, não fique zangada. - Falamos amanhã de manhã.

Foram à rua?

Legendas: Georgina Torres

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