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A GAROTA DE LUGAR NENHUM
"Oh, Deus, abra para mim os Port�es da Noite..." Victor Hugo
Sonhos...
...s�o para...
...aqueles que dormem.
N�o se preocupe. Chamarei um m�dico.
- N�o. - Como assim, n�o?
Eu ficarei bem.
Est� vendo?
- Primeiro um m�dico e depois a pol�cia. - Por favor, n�o fa�a isso.
Fazer o qu�? Chamar um m�dico ou chamar a pol�cia?
Ambos.
Percebe que est� protegendo o homem que bateu em voc�?
- Como voc� se chama? - Dora.
Dora de qu�?
Que diferen�a faz?
Onde voc� mora?
Por a�.
Quer que eu ligue para algu�m?
N�o tenho ningu�m para ligar.
Simplesmente n�o posso deix�-la assim.
Apenas me deixe dormir um pouco e eu ficarei bem.
N�o aproveite para chamar ningu�m enquanto eu estiver dormindo.
- Eu deveria. - Prometa-me que n�o o far�.
- Sen�o, vou embora. - Eu prometo.
Passa pelo seu cora��o a esperan�a de morrer?
- Vamos, me diga. - Passa pelo meu cora��o a esperan�a de morrer.
Pronto.
Agora, seja uma boa garota.
Voc� ir� dormir
e descansar.
Voc� n�o pode deix�-la aqui desse jeito.
Vou ligar para o hospital.
Qual o problema?
Ela est� muito machucada?
Voc� viu os golpes que ela recebeu.
Em sua idade, ela logo se recuperar�.
Ao mesmo tempo, ela precisa de aten��o m�dica e tudo mais.
O que acontecer� quando ela for para o hospital?
Ela deve ter amigos ou parentes.
N�o.
Ela vai acabar perdida pelas ruas.
Isto n�o � raz�o para deix�-la assim.
Voc� deseja dormir com ela?
- N�o seja est�pido. - Esta garota n�o significa nada pra voc�.
Nem sequer a conhecia uma hora atr�s.
Ela pode roubar suas chaves
para voltar e assalt�-lo.
- O que vai fazer quando ela acordar? - Livrar-me dela.
� o melhor a se fazer.
Tome.
N�o seja est�pido.
Sou o �nico est�pido aqui.
Eu deveria faz�-lo pagar. De fato, faz�-lo pagar em dobro.
Isso poderia desencoraj�-lo neste comportamento insensato.
Ent�o, adeus.
Deixe-me a par de tudo.
Obrigado.
- Adeus. - Adeus.
Seu traidor! Prepare-se para uma longa descida ao inferno.
Do que est� falando?
Estou avisando que voc� est� amaldi�oado.
Amaldi�oado como?
"Passa pelo meu cora��o a esperan�a de morrer." Voc� prometeu, lembra?
Al�m disso, voc� tentou pagar o seu c�mplice.
Se eu fosse voc�, evitaria lugares onde h� notas de banco.
Bancos, correios, caixas eletr�nicos...
Nossa, voc� est� maluca.
Estava apenas brincando.
Provavelmente.
Voc� tem uma m�quina de lavar?
Voc� ainda topa me ajudar?
Agora, volte e durma mais um pouco.
Aqui est�, eu lhe trouxe um roup�o de banho,
uma camiseta,
e isto para lhe ajudar a andar.
Por que n�o muletas, j� que insiste nisso?
Porque eu n�o tenho.
Por que est� me olhando assim?
Lamenta por n�o ter chamado a pol�cia?
Voc� est� tentando ler a minha mente.
Talvez eu seja m�gica.
N�o se engane. Voc� � um livro aberto.
Ali�s, estava delicioso. Onde voc� aprendeu a cozinhar?
Eu encomendei.
Obrigada.
N�o s� pela comida. Por tudo, por me ajudar.
N�o precisava fazer isto, Sr. Devilliers.
Ent�o voc� sabe o meu nome?
- Como pode ver. - E como voc� sabia disso?
Eu vasculhei sua mente.
Eu lhe disse, sou uma bruxa.
Voc� n�o tem medo, tem?
Ora, vamos. Eu apenas li o seu nome em seu interfone.
Quem agrediu voc�?
Aquele cara estava me seguindo pelas ruas.
Eu decidi procurar abrigo em seu pr�dio.
Ele continuou atr�s de mim ent�o corri pela sua escadaria.
Voc� n�o apertou meu interfone. Eu teria escutado.
Eu apertei dois interfones. Algu�m me deixou entrar.
Voc� deve ter interfonado para alguma outra pessoa.
E da�?
Voc� estava fugindo. Estava em p�nico.
Ainda assim encontrou tempo
para ler o meu nome, que n�o lhe era familiar,
e se lembrar dele.
Como pode explicar isto?
Obviamente eu tenho um excelente reflexo de mem�ria.
O que voc� chama de reflexo de mem�ria?
Uma mem�ria com reflexo.
Minha jovem,
eu n�o acredito em uma palavra que me diz.
Est� correto em n�o faz�-lo.
V� at� o seu terra�o e olhe sua campainha.
Ir� ver que seu nome est� escrito ali.
Sempre costuma fazer tanto barulho por nada?
Tudo bem, faremos isto.
Posso ver que est� se esfor�ando para avan�ar.
E eu posso me recuperar sozinha.
Tudo bem.
Levante-se e ande, ent�o.
Isto n�o prova nada.
Eu cuido de mim mesma h� muito tempo.
Dificilmente conseguir� mudar isso.
� claro que cuida.
Posso v�-la muito bem, sozinha na noite, pelas ruas,
dormindo pelos degraus, como Edith Piaf quando teve um filho.
Como � que cuida de si quando fica doente?
Eu nunca adoe�o.
Agora voc� n�o parece uma imagem da sa�de.
Voc� n�o examinou minhas contus�es corretamente.
Cubra-se.
Voc� mora s�?
Sim, desde que minha esposa morreu,
29 anos atr�s.
- N�o tem nenhum filho? - N�o.
- Acho que est� muito curiosa. - Desculpe.
Gostaria de saber se faria a gentileza de me deixar passar a noite aqui.
N�o se preocupe. N�o vou dar um golpe em voc�.
Voc� nem teria for�as.
Mas voc� n�o tem medo de passar a noite
sozinha em um apartamento com outro homem?
Est� me perguntando se tenho medo de voc�?
Ent�o pensa que sou muito velho para isso, n�o �?
N�o se ofenda. N�o foi o que eu disse.
Ent�o?
- Ent�o? - Ent�o, o qu�?
Posso ficar aqui esta noite?
- Sim. - Obrigada.
Aqui, tome isto.
Estou aqui.
Pronto.
Ol�.
� bom que tenha vindo. Espero que seus alunos o poupem.
Eu me aposentei h� dois anos.
Ent�o voc� o fez. Lembro-me que havia me dito.
O que ela lhe disse?
Ela me pediu para manter a calma, n�o importa o que acontecesse.
Deixarei que cuide disso.
- Como vai voc�? - Cada vez melhor.
Poderia lhe dizer que estou perfeitamente bem.
Pode perguntar ao psiquiatra quando poderei ir pra casa?
� claro.
- Dever�amos usar a cama? - N�o, eu prefiro ficar em p�.
Vai se arrepender. Eles voltar�o.
Quem s�o 'eles'?
Eles s�o muito espertos.
Est�o escondidos nas paredes, nos espionando enquanto conversamos.
Ali, veja.
Voc� pode ver os seus olhos. Est�o por toda superf�cie.
Est�o em suas faces e por todos os seus corpos.
Est�o olhando pra n�s.
- E se voc� ficar... - Quem est� na parede olhando pra n�s?
Os dinossauros. Eles s�o pequenos dinossauros.
Uns beb�s.
Se voc� ficar ali, ir� perturb�-los.
N�o se mexa. Eles n�o ir�o machuc�-lo.
Veja. Eles est�o descendo.
Est� bem aqui, a um metro de voc�.
Veja.
Aquele � seu pai, seu pai e sua m�e.
Ali.
Viu?
Eles cresceram bastante.
Est�o enormes agora.
Veja.
Voc� me mordeu, seu dem�nio!
Eles est�o me comendo!
Mas...
Mas isto � culpa sua.
Voc� fez que isto acontecesse.
Voc� � o dem�nio. � voc�!
Voc� fez isto!
- Quem � ele? - Um antigo colega.
Professor de filosofia.
E um pintor, quando tinha humor pra isto.
Por que voc� tem este v�deo?
� para o livro que estou escrevendo.
Fiz uma c�pia das sequ�ncias de v�deos do hospital.
Toda hora eu assisto
e sinto-me p�ssimo por este pobre rapaz.
Ele tem algo a ver com o que voc� est� escrevendo?
Toda hora ele se recupera de uma crise
e se acalma novamente...
Ele me contou que os dinossauros eram reais,
que tudo o que ele ouvia e via durante suas alucina��es era real.
- N�o haveria algo mais? - O que quer dizer?
Que seu dinossauro era mais real do que a realidade.
Que o senso das coisas seja mais real do que a realidade,
isto � comum a praticamente todos que deliram.
Voc� n�o acredita que seu pobre amigo apenas procurava
substituir a dura realidade da vida por outra mais adequada a ele?
� claro.
Mas ele se submeteu completamente ao del�rio.
- Todos fazemos isto, �s vezes. - � verdade.
Talvez as nossas cren�as mais profundas
sejam basicamente dessa natureza, em outras palavras,
privadas ou coletivas desilus�es.
Ent�o o seu livro � sobre isto?
Por que eu deveria lhe contar?
O que lhe d� o direito de sondar meus assuntos particulares?
Como podem ser particulares se est� escrevendo um livro sobre eles?
Justamente por isso. � tudo apenas um esbo�o.
Eu n�o deixaria ningu�m ler, nem mesmo o meu amigo doutor,
muito menos voc�.
Isto cont�m meus pensamentos privados.
Perdoe-me.
Honestamente n�o sei por que ainda n�o a mandei embora.
- Desligue isto. - Estou desligando.
N�o precisa me dar uma patada.
O que fazia antes?
- Voc� ensinava? - Sim.
- Filosofia? - N�o, matem�tica.
Vai me contar um pouco mais sobre o seu livro?
Eu apenas a chatearia.
Sei que n�o quer fazer isto,
mas � um assunto que normalmente me interessa.
O que quer dizer com 'normalmente'?
Pare de bancar o dur�o.
Fale a respeito. Finja que sou sua aluna.
Tudo bem.
Mas depois n�o diga que eu a obriguei a isto.
A ideia nasceu em Maio de 68.
Eu era sindicalista e participante ativo
em um movimento que encar�vamos como revolucion�rio.
Eu fiz um grande amigo entre os manifestantes companheiros,
um trabalhador comunista.
Ele, como eu, como todos n�s,
pensava que uma nova era estava come�ando.
Ele tamb�m acreditava que a sociedade capitalista
estava chegando ao fim.
Quando De Gaulle empunhou sua autoridade
para fazer com que todas as esta��es de petr�leo reabrissem
e as lojas de apostas funcionassem novamente.
Como resultado, toda a Fran�a saiu para celebrar
e as elei��es resultaram numa maioria de votos para a direita.
Meu amigo viu o colapso mundial
e se enforcou.
O coitado do seu amigo poderia estar com profundos problemas pessoais
que n�o tivessem nada a ver com Maio de 68.
Foi nisto que eu pensei inicialmente.
Mas refleti e conclu� que n�o era o caso.
Era bastante simples.
Seu sonho fora frustrado.
Sua vida n�o tinha mais sentido.
Ent�o ele p�s um fim nela.
Foi quando eu comecei a me perguntar
sobre a import�ncia da desilus�o em nossas vidas.
� por isso que voc� tem todas aquelas pinturas em seu computador?
Agora estamos entrando na esfera da religi�o.
- J� � o bastante. - Que pena.
- O que quer dizer? - Voc� tem um editor?
Se eu seguir com isto, publicarei por mim mesmo
ou nada feito.
Todo esse trabalho pra nada?
Minha jovem,
do amanhecer ao anoitecer as horas s�o muito longas, e as noites tamb�m.
- Como se sente esta manh�? - Muito melhor, como pode ver.
Eu estava certa, sobre n�o chamar um m�dico.
Voc� certamente � muita segura de si.
Minhas roupas j� devem estar secas.
Voc� n�o pode partir. Para onde iria?
Quer dizer que est� sugerindo minha perman�ncia por alguns dias.
Apenas at� que esteja completamente recuperada.
Em troca, voc� pode me dizer o que pensa
do meu livro.
H� tempos eu n�o tinha uma conversa t�o estimulante.
Dificilmente pode ter sido uma conversa.
Foi mais como um mon�logo.
"Uma An�lise Cr�tica de Nossas Cren�as."
- Planeja manter esse t�tulo? - Por qu�?
- N�o chama muita aten��o. - Talvez n�o.
Mas este � o assunto de meu ensaio.
Seu apartamento � enorme.
Voc� n�o pode ter conseguido isto com um sal�rio de professor.
N�o, eu herdei de minha esposa, e ela, de sua fam�lia.
Eu nunca me acostumei com este lugar.
Sinto-me solit�rio e adoe�o f�cil aqui.
O que foi isto?
Provavelmente o apartamento se vingando de voc�.
No entanto, nunca ouvi em minha vida um ru�do t�o estranho.
Afinal, voc� tem uma vida t�o longa.
Francamente, voc� j� ouviu ru�dos estranhos como este por aqui?
Jamais.
Venha comigo.
Eu quero ver o que foi isto, mas n�o quero ir sozinha.
N�o seja tola.
Creio que alguns ratos encontraram passagem aqui.
Ratos? Ratos n�o fazem esse barulho.
O que voc� vai fazer? Colocar armadilhas?
Pode pensar em solu��o melhor?
Bom dia.
O que est� fazendo? Ficou louca?
Ent�o fazer servi�o dom�stico � loucura?
Estou apenas me exercitando.
Vejo que voc� j� cuidou de minha limpeza.
E voc� limpou as janelas.
E todo o resto. Seu flat estava um monte de p�.
Abra as cortinas e ver� a diferen�a.
Ent�o voc� gastou toda a noite limpando o apartamento.
Voc� me impediu de fazer durante o dia.
Mas voc� deixou um resto de cigarro no balc�o.
Ora, como � melindroso!
Isto n�o � meu.
Se eu tivesse visto, teria jogado fora.
Algu�m deve ter atirado de seu balc�o, um andar acima.
- Eu n�o acredito. - O qu�?
Veja.
O cigarro se mexeu por vontade pr�pria.
Agora voc� est� ficando paranoico.
Minha jovem,
voc� viu o cigarro antes e depois.
Nenhum de n�s tocou nele.
Ent�o como explicar o seu movimento assim?
Talvez tenha sido o vento.
Veja as nuvens.
Como pode ver, est�o se movendo
numa dire��o exatamente oposta a que o cigarro tomou.
E tem mais,
eu n�o senti nenhuma brisa e tenho certeza que voc� tamb�m n�o.
Finalmente, aquelas duas p�talas continuam bem ali
mas o cigarro se moveu.
N�o diga mais nada. Voc� me convenceu.
A �nica explica��o � que um fantasma o empurrou.
Ou o dem�nio. Mas uma coisa me incomoda.
Por que o dem�nio se daria este trabalho?
- Minha jovem. - O qu�?
Dora.
Depois de 29 anos vivendo sozinho eu comecei a me tornar um velho chato.
Mas sua presen�a aqui
me fez encontrar alguma divers�o novamente
com voc�.
Obrigado.
Agora teremos um bom almo�o.
Eu vou me banhar para sair com voc�.
Vai me levar pra onde?
- Um shopping. - Mas sua geladeira est� cheia.
- Mas eu vou comprar algumas roupas. - Voc� n�o precisa disso.
Por qu�?
Venha ver.
Eu tenho tudo o que preciso aqui.
Diga-me, onde e quando voc� conseguiu isto?
Na �ltima noite, de uma garota com quem eu morava antes.
E esta garota milagrosamente sabia
que voc� apareceria em sua casa
no meio da noite?
Eu usei o seu celular para avis�-la.
Al�m do mais, ela n�o passa de uma colega.
Encontrei minha mochila no degrau com a porta fechada.
As coisas que acontecem numa noite!
Aonde pensa que vai? Sente-se.
Voc� parece levar um estranho tipo de vida.
Em primeiro lugar, onde moram os seus pais?
No cemit�rio Saint-Ouen.
O qu�?
Morreram quando eu tinha 17 anos
num acidente de carro.
No in�cio eu permaneci em seu flat,
para cuidar de seu gato, mas o gato morreu de tristeza.
E ent�o eu n�o pude mais pagar o aluguel.
De qualquer forma, eu n�o queria ficar, ent�o fui embora.
Eu morei por aqui, por a� e em todo lugar.
Seus pais n�o lhe deixaram nada?
O sal�rio de meu pai n�o bastava nem mesmo para suas contas.
- Quantos anos voc� tem? - 26.
E voc� tem vivido assim,
dia ap�s dia, � deriva, por todo esse tempo?
Pode falar assim!
Para onde voc� pretende ir agora?
N�o se preocupe comigo. Um amigo est� vindo me buscar.
Um amigo?
Um conhecido.
Quem poder� cuidar de voc�
dando-lhe cama e comida sem querer nada em troca?
Eu n�o posso ficar com voc� pra sempre.
Voc� poderia ter esperado at� que se recuperasse completamente.
Tarde demais.
Adeus.
Ent�o...
eu a verei novamente?
Quem sabe?
Como poderei saber de voc�?
- Apenas para o caso. - O caso de qu�?
Voc� n�o pode.
Mas eu sei onde encontr�-lo.
Quanta bobagem!
Sim?
- Al�. - Al�.
Estou ligando para saber novas da sua garota.
E voc�? Est� bem? Como vai o seu livro?
Estou bem.
Posso ouvir pela sua voz que algo n�o est� bem.
Diga-me.
Ou�a, por que n�o sa�mos para comer algo mais tarde?
- Ol�. - O que vai querer?
- Eu prefiro caminhar se estiver tudo bem. - Certo, eu j� vou.
Ela s� ficou comigo por uma semana.
Isto � mesmo surpreendente.
N�o se esque�a de que aquela garota recusou chamar a pol�cia ou um m�dico.
- Ela n�o tinha resid�ncia fixa. - E ainda n�o tem.
Ela deve ser alguma delinquente que seduziu voc�
para que ficasse com ela.
Aquela jovem pode ser incomum mas ela n�o � uma delinquente
e ela n�o pertence a nenhuma gangue.
Como pode ter certeza? Pense nisso.
- O que ela disse pra voc�? - Nada.
J� nos conhecemos h� uns 30 anos.
Eu tenho uma esposa
e um filho que vejo regularmente.
Eu ainda me envolvo com pol�tica e ainda pratico algum esporte.
O partido me indicou para vereador.
Apesar de eu andar t�o entediado.
E isto me deixou triste,
talvez francamente miser�vel.
Como voc� consegue, morando s� h� tanto tempo?
A solid�o acabou se tornando minha amiga.
Voc� sabe, recentemente,
todos os objetos que eu carrego pela rotina
foram se tornando pesados,
o ch�o, o piso, as escadas mais baixas e mais altas.
Somente os meus desejos n�o se modificaram.
Voc� viu estas duas garotas que acabaram de passar?
Por causa da diferen�a de idades
eu n�o tenho nenhuma chance
e isto me deixa triste.
O velho pai Plat�o disse
que a velhice era uma b�n��o,
que ela traz a serenidade resultante da perda dos desejos carnais.
Bem, para mim n�o houve a perda.
Gra�as a Deus.
Minha salva��o psicol�gica era
que eu nunca tinha enlouquecido por uma saia.
Mas a solid�o, sua amiga,
voc� deve ter compartilhado seu peso, �s vezes?
Sim, eu tinha de pass�-la pra frente.
Mas quando a jovem Dora apareceu,
eu juro que n�o foi como voc� pensa.
Talvez no subconsciente?
Dane-se o seu subconsciente!
De repente voc� parece um fracassado.
Por que n�o se casou novamente ou n�o morou com mais ningu�m?
Eu n�o acredito que est� me perguntando isso.
Eu fiquei t�o chateado ao perder minha esposa
que eu precisei de mais do que dez anos para me recuperar.
E ainda n�o estou certo de ter superado.
Pegue Victor Hugo.
Ele precisou de quatro anos para ser capaz de escrever novamente
ap�s a morte de sua filha L�opoldine.
Ele deve ter se apaixonado por ela sem que isto se concretizasse.
Tenho certeza de que sua afei��o n�o era sexual.
Leia o final de "Os Miser�veis" novamente
e reflita sobre a rea��o de Valjean,
ou o �dio de Hugo,
quando Cosette parte,
Cosette era como uma substituta para L�opoldine.
Se ele n�o estava com o cora��o cortado
ent�o eu fiz um mal entendido e tomei uma interpreta��o errada.
Ele tinha um tipo diferente de afei��o.
Mas voltemos a sua Dora...
Ela n�o � minha Dora. Ali�s, seu nome � Doroth�e.
Certo, mas voc� ficou triste quando ela partiu.
Foi por isso que quis me ver.
Sim. Ali�s, ela j� se foi.
Bom dia.
- Bom dia. - N�o me reconhece?
Lise Villers. Fui sua aluna quando tinha 15 anos.
- O que faz agora? - N�o importa.
Voc� n�o mudou nada. Ainda carrega um livro em seu bolso.
E se parece muito triste.
Voc� sempre pareceu triste, exceto em algumas aulas
e nas tardes de quarta-feira em seu cineclube.
Eu me lembro de suas aulas sobre 'Psicose' e John Ford.
Voc� abriu meus olhos, saiba disso.
Especialmente sua abordagem
sobre as mensagens transmitidas pelos cineastas americanos.
Todos o admir�vamos, pois voc� ensinava matem�tica, n�o cinema ou filosofia.
Voc� mudou a minha vida,
minha vis�o das coisas e do mundo.
E voc� me mostrou como ampliar as regras pela imagina��o.
Tudo isso � muito bom,
mas n�o ajuda a pagar o aluguel.
Bem, isto formou a minha percep��o.
- Voc� mora aqui perto? - N�o.
Eu o vi no final da rua e corri para alcan��-lo.
Estou apenas de passagem por Paris.
Estou entre voos.
Para onde vai?
Noruega.
Eu pensei muito em voc� nos �ltimos 20 anos.
Talvez possamos nos reencontrar em sua pr�xima visita a Paris.
Ficar� fora muito tempo?
Eu preciso ir. Me permite?
O que est� fazendo no ch�o?
Procura uma posi��o para ajud�-lo a se inspirar?
Eu me lembro de ter fechado os olhos.
Devo ter desmaiado.
Quer ajuda para levantar?
Por favor.
O que est� fazendo aqui, afinal?
E como entrou?
Eu fiz uma c�pia da chave antes de partir.
Vejo que continua presun�osa como sempre.
- Onde est� seu amigo motociclista? - Ele me deixou.
Eu dei o fora antes que ele se apaixonasse por mim.
Voc� deveria acrescentar o amor em sua lista de coisas que nos desiludem.
Eu j� fiz isto. E voc� chegou na hora certa.
Mas diga-me, o que a fez voltar para me ver?
Provavelmente senti saudade.
Eu tive um sonho com voc�.
Voc� estava gritando,
cercado por maus esp�ritos.
Como voc� pode ver esp�ritos, inclusive em seus sonhos,
e dem�nios tamb�m?
N�o fa�o ideia.
Todos os seus problemas ir�o passar.
Vou fazer algo para comer.
- N�o, espere um segundo. - Fique a�.
Espere.
O que est� fazendo aqui? Disse que ficasse l�.
Aqui, isto ir� anim�-lo.
Me deixa ver o seu rosto?
Deveria chamar um m�dico. A quem voc� v�, normalmente?
Meu amigo Denis.
N�o se incomode. Voc� sabe que m�dicos n�o est�o em uso.
Cale-se! Ao menos voc� tem um seguro m�dico.
Diga-me, o que foram todas estas suas vis�es?
Eu n�o estou inventando. Realmente quer saber?
Sim.
Um dia eu estava andando na rua
quando de repente ouvi aquele ru�do.
Como se fosse o motor de um carro engrenando.
Senti que era transportada para dentro do carro
e eu via meus pais no banco da frente.
Ent�o era o acidente.
Eles estavam l�, t�o claramente como voc� est� aqui,
mas eles estavam mortos, com todo o sangue pelo carro destru�do.
Ent�o, de repente eu voltei ao mundo real.
A pol�cia me disse depois que eles tinham morrido como em minha vis�o
exatamente do mesmo jeito.
- Estou assustando voc�? - Nenhum pouco.
Voc� testemunhou outros fen�menos similares?
A morte dos meus pais n�o foi um fen�meno.
Me perdoe.
Mas se eu testemunhei algo similar,
sim, testemunhei.
Algumas vezes, mas agora n�o � hora de discutir isto.
- Por que n�o? - Haver� tempo mais tarde.
- Eu decidi me mudar pra c�. - S�rio?
N�o pare�a chocado. A ideia foi sua.
Ali�s, voc� precisa de algu�m
para proteg�-lo dos maus esp�ritos que est�o pairando por aqui.
Concorda?
Tudo o que eu sei, � que desde sua chegada
coisas estranhas come�aram a ocorrer neste apartamento.
Voc� prefere que eu v� embora de novo?
Eu me recordo que voc� me fez uma proposta.
Que proposta?
Que em troca eu poderia ajudar com seu livro.
Vamos comprar algumas roupas?
Voc� realmente guardou a p�gina que diz
que os patriarcas da B�blia,
o �xodo, Mois�s e a Terra Prometida,
s�o hist�rias lend�rias?
Muito provavelmente escritas em 7 a.C.
sob autoria de Josias,
que era rei, na �poca, pela unifica��o dos hebreus.
Onde voc� leu isto?
Minha an�lise � parcialmente baseada nas conclus�es de estudiosos,
especialmente da Universidade em Tel Aviv,
� luz de recentes descobertas arqueol�gicas.
Al�m disso,
a menos de um s�culo
Freud tamb�m pensou
que se Mois�s existisse ele teria sido eg�pcio.
Se eu entendi corretamente, voc� acaba de dizer
que o Rei Davi existiu
mas que ele era apenas um l�der de gangue morando num vilarejo.
Pense nas consequ�ncias desta descoberta
se for provada como correta.
Jesus, o Cristo Messias, era descendente dele.
- De Davi? - Isso mesmo.
Agora, digamos que Cristo n�o parava de falar
sobre Davi e Mois�s, sobre seu pai, Deus.
E da�?
Ent�o Jeov� e Cristo eram ignorantes?
Ou pior, mentirosos?
Mas isto n�o � tudo.
Consideremos a ascens�o de Cristo.
Jesus sobe aos c�us diante de seus ap�stolos.
Mas para onde ele foi?
Para a lua? Para o planeta Marte?
Para J�piter?
Como um p�ssaro,
um aviador,
um astronauta,
fechar o reino do para�so
para os verdadeiros crentes?
Voc� vai me dizer que tudo isto � simb�lico.
Mas olhe as pinturas em meu computador
e veja por si mesma.
Mas se voc� deixar todos ir�o alcan�ar o c�u.
Mas j� o fizeram.
Eu os compreendo e tudo mais
eu, que nem sou cat�lico nem um crente,
estava t�o perturbado pelas quest�es do Antigo e do Novo Testamento
que cheguei a negar qualquer evid�ncia cient�fica que n�o gostasse.
Ent�o como deve ser para os verdadeiros crentes,
especialmente os mais ardentes deles?
Voc� realmente questiona as religi�es?
Dora, voc� est� me interpretando mal.
Eu nunca questionei qualquer moral sagrada em meu livro,
apenas as lendas que foram constru�das.
Minha professora de hist�ria
acreditava cegamente nos mitos e lendas.
Freud as chamava de sonhos seculares.
� estranho.
� como se nossas sociedades levassem ao p� da letra
a Il�ada ou as hist�rias de Victor Hugo
e as aplicasse
na religi�o, pol�tica, moral, nas situa��es econ�micas e sociais
de tal forma que moldassem a nossa vida di�ria
por um per�odo da hist�ria.
Sendo assim,
o objeto de nossas cren�as,
nossas opini�es,
nossas afei��es,
nosso sofrimento e nossa felicidade
se baseasse no vazio.
O que isso tem a ver com voc�?
Um dia
eu senti como se estivesse acordando de um sonho
e eu estava sozinho, nu e desamparado,
diante do vazio de minha vida.
Para acalmar minha ansiedade eu comecei a orar
a um Deus no qual eu n�o creio.
Dora?
Dora?
Saia daqui, por favor.
Posso?
N�o olhe pra mim. Estou horr�vel.
N�o se preocupe com isso.
Qual o problema?
Tente falar a respeito. Ir� lhe fazer bem.
N�o tenho certeza.
Tente assim mesmo.
Eu tenho medo da vida.
Todas as pessoas com quem eu quero estar me evitam.
� pior quando as amo.
- Fala de seus flertes? - Tamb�m.
Sempre terminam do mesmo jeito.
Ao mesmo tempo em que os atraio
eu tamb�m os afasto.
E como isso come�a?
Sempre muito bem.
Eu me aproximo deles.
- E os seduz? - Sim.
E d� certo toda vez?
Sim, as pessoas sempre se atraem pelo que foge delas.
Voc� foge deles?
E ainda assim acaba de dizer
que sempre faz com que a amem.
Sim, mas uma vez...
Uma vez que os conquiste,
eu os rejeito e humilho.
Ent�o naturalmente eles se vingam.
Como o rapaz na escadaria?
Sim.
Eu atraio as pessoas,
mas de um jeito estranho.
De repente vejo suas afli��es,
suas enfermidades,
sua morte iminente.
Todos os homens que comecei a amar
escondiam algo de mim.
Queriam me ajudar.
Mas eu sou uma alma perdida.
Estou com medo.
N�o se preocupe.
Ningu�m conhece o futuro de ningu�m.
Eu sim.
�s vezes.
N�o o meu futuro, mas o dos outros.
Das pessoas que eu amo, infelizmente.
Olhe pra mim.
- Onde eu entro nisso tudo? - Eu n�o sei.
Vamos l�, feche seus olhos.
Dora, voc� sabia?
Eu morrerei um dia, cedo ou tarde.
Mas voc� sabe,
eu a vejo como meu anjo da guarda.
E eu preciso de voc� para o meu livro.
Ent�o, por favor,
recomponha-se e vamos voltar ao trabalho.
Diga-me uma coisa.
Voc� gastou toda a sua juventude estudando sem parar.
Como encontrou tempo para achar uma esposa?
Voc� devia ser uma beleza e tanto quando era mais jovem.
Voc� n�o sabe do que est� falando.
Minha esposa e eu �ramos muito fechados.
Eu fui devastado pela sua morte.
Somente o meu trabalho e minhas pesquisas
me ajudaram a gradualmente ressurgir.
Escreva!
A for�a de uma cren�a,
o poder de ader�ncia de uma cren�a
� o mais delirante dos comportamentos.
Reciprocamente, talvez...
Espere. Mais devagar, por favor.
"Reciprocamente, talvez..."
A for�a de uma d�vida, por mais perto da realidade que esteja,
em nada pode se unir ao sil�ncio,
o sil�ncio dos grandes m�sticos.
Mas, o que � o nada e o sil�ncio?
� a esperan�a que nos mant�m vivos desde o in�cio dos tempos.
N�o h� nada que se una ao sil�ncio, gra�as a Deus.
Pense nos desamparados e nos perseguidos.
Imagine o que aconteceria se voc� arrancasse deles sua salva��o,
a religi�o.
Eles ainda teriam o �pio.
Somente aqueles que pudessem arranj�-lo.
Em outras palavras, para escapar de nosso mis�ria
todos somos programados
desde a inf�ncia e por toda a vida
a procurar ilus�es.
Ent�o dever�amos renunciar a tudo?
Sim.
Como? N�o h� ningu�m que nos ajude.
Numa sociedade capitalista certamente n�o h�.
Mas o sofrimento ajuda.
E o cristianismo, os m�sticos hindus e budistas.
Ainda que todos eles apenas nos levem a um Deus que n�o passa de ilus�o.
Ou talvez aos segredos inomin�veis por tr�s do sil�ncio e do nada.
Onde voc� pretende chegar?
Eu s� quero ouvi-lo.
Diga-me,
voc� est� enxergando algo atr�s de mim?
E ent�o? Responda-me.
Escute,
desde que nos encontramos
eu n�o parei de me perguntar sobre voc�.
Voc� parece estranhamente envolvida
pelo sobrenatural.
J� � um progresso comparado ao que me tomava por delinquente.
O que espera agora? Magia negra?
N�o, uma explica��o do que est� acontecendo.
Pegue uma cadeira e sente-se.
- Fa�a como eu. - Diga-me,
voc� escolheu este lugar por que � onde me encontrou desmaiado?
N�o, porque debaixo do tapete est� o piso, n�o um carpete
o que impediria os movimentos da mesa.
O que eu fa�o? Concentro-me?
Fique quieto ou vai me incomodar.
Ponha suas m�os sobre a mesa. Fa�a com que os polegares se toquem.
Agora esperamos um momento.
Ent�o eu n�o preciso me concentrar? Eu n�o fa�o nada?
Voc� fica quieto.
Sim, senhora.
Pronto. Espere um pouco.
Agora retire gentilmente suas m�os da mesa.
Voc� est� fazendo isso?
N�o.
Pronto. N�o se mexa. Eu j� volto.
- H� algo errado. - Como assim?
Saia, agora!
Saia!
Diga-me,
o que voc� acha que aconteceu?
Eu n�o sei.
Foi estranho, mas c�mico ao mesmo tempo.
Vamos limpar isto.
Ent�o pegarei minha outra mesa pedestal e tentaremos de novo.
Podemos tentar de novo?
Tem certeza de que devemos depois do que aconteceu?
Eu sou um velho curioso.
E eu n�o acredito em fantasmas.
Ent�o vamos em frente.
- Ent�o eu devo...? - Fique quieto.
- Posso colocar minhas m�os assim? - Eu disse para ficar quieto.
- N�o, fique aqui comigo. - Ia apenas fechar as janelas.
Est�o fechadas.
N�o se mexa.
H� algo ou algu�m neste apartamento,
algo invis�vel que est� se aproximando.
Est� procurando voc�.
� uma mulher.
Ela est� nesta sala, bem perto.
Ela est� aqui.
Ela � uma presen�a hostil.
-Hostil? - Ela lhe trar� o mal.
Agora n�o mova um s� m�sculo at� que eu lhe fale.
Onde est� voc�, esp�rito? O que voc� deseja?
Michel?
Est� bem?
Quem � voc�?
Eu repito,
quem � voc�?
O que est� fazendo aqui e como entrou?
Voc� pode se remexer como bem quiser.
Voc� n�o me assusta.
N�o se mexa.
Por que n�o?
Este fantasma falso n�o me assusta nada.
Fico feliz em saber, mas n�o se mexa.
O que houve?
O que est� fazendo?
Comparando o esbo�o em sua mesa
com estas outras imagens de Victor Hugo.
Eu encontrei estas pinturas em um de seus grandes livros perto da porta.
Venha ver. � muito estranho.
Pode ver?
A qualidade desta � surpreendente.
Inacredit�vel.
Compare.
Veja.
Compare.
� de sua esposa?
Sim.
O que o esp�rito dela revelou para voc�?
N�o, eu n�o acho que seja assim.
Mensagens ou esbo�os pintados pelas mesas
geralmente refletem apenas o desejo de quem est� presente.
Eu juro a voc�
que eu n�o estava pensando nesta foto
quando est�vamos movendo a mesa.
Qual o problema?
Eu estava apenas deixando minha mente vagar.
Estava imaginando que aquela n�o poderia ser a alma de minha esposa
passando por voc�,
mas que voc� poderia ser, de fato, a sua reencarna��o.
Isto significaria que ela estava aqui,
viva, diante de mim.
Voc� � um velho tolo.
Quem poderia ser capaz de reviver
apenas por um momento
um passado muito feliz que desapareceu para o bem.
- Voc� gosta de livros? - Muito.
Mas eu nunca tive dinheiro para compr�-los.
Dora?
- Sim? - Voc� sabe,
nada mais poderia acontecer comigo, em nenhum momento.
Ent�o...
Eu gostaria de lhe deixar tudo o que tenho
assim como algumas outras coisinhas.
Como o qu�?
O apartamento, o mobili�rio e tudo o que h� nele.
E dinheiro, considerando que n�o tenho herdeiro.
Voc� n�o est� pensando seriamente em deixar para mim tudo o que possui?
Sim.
Voc� est� louco.
Voc� deve admitir que eu n�o tenho mais ningu�m.
Dora, entretanto,
voc� est� trabalhando para mim.
Irei abrir uma conta em seu nome no meu banco,
e depositar uma soma razo�vel nela
e pedir que lhe enviem um cart�o de d�bito.
Assim poder� usar o dinheiro como bem desejar.
De jeito nenhum.
Por que n�o? Voc� trabalha pra mim.
Eu quero permanecer livre,
para ir e vir como quiser
sem nenhum sentimento de remorso.
Voc� pode manter seu quarto,
dormir nele ou n�o,
convidar a quem quiser ou mesmo deix�-lo.
Voc� � livre.
Esta � sua casa agora.
O que deu em voc�?
Dora,
voc� n�o pode demonstrar alguma humildade e aceitar a ajuda que ofere�o?
O que est� me sugerindo � mais do que uma ajuda.
N�o, n�o �.
E da� que eu gosto de voc�, o que posso fazer?
Voc� se recusa a compreender o problema.
Tudo bem, se � assim que voc� quer.
Se o seu problema � intranspon�vel
deixe-o sobre a mesa
deixe-o, deixe-o assim,
e o tempo, o tempo, o tempo, o tempo,
ir� resolv�-lo pra voc�, voc� vai ver...
Voc� pode repetir o que acabou de dizer?
O que acabei de cantar, quer dizer?
Sim.
Se o seu problema � intranspon�vel, deixe-o sobre a mesa.
O tempo ir� resolv�-lo pra voc�.
� exatamente o que minha esposa costumava dizer
quando eu me afligia por nada.
L� vem voc� de novo! � a letra de uma can��o popular.
Talvez.
Mas � a segunda vez que voc� se parece com sua reencarna��o.
Isso est� ficando s�rio.
J� est� se tornando uma bela trag�dia.
Temo que esteja lhe causando um dano irrepar�vel.
Eu quero adot�-la.
Mas eu sou a reencarna��o de sua esposa. Seria incestuoso.
Ora vamos, ser� divertido.
Imagine que voc� seja de fato
a reencarna��o de minha mulher.
Entre mim e voc�, agora,
h� 41 anos de diferen�a
mas continuamos apaixonados como sempre fomos.
Voc� retornou a Terra ap�s a sua morte
para se juntar a mim.
N�s fomos reunidos. � uma b�n��o.
Mas eu estou prestes a morrer,
apenas para reencarnar imediatamente
para me juntar a voc� novamente.
Como um adolescente, eu estou procurando por voc�.
Eu a encontro e nos apaixonamos perdidamente.
Por�m,
voc� j� est� 26 anos mais velha do que eu,
e agora voc� deve morrer antes de mim.
N�s poder�amos continuar assim por s�culos.
Mil�nios, at�.
Ou pela eternidade. Que bela, m�tica e tr�gica hist�ria de amor.
De fato.
Voc� pode ver por si mesma onde a desilus�o leva, por bela que seja.
Onde?
Lugar nenhum.
Ela reabre velhas feridas que curamos h� muito tempo.
� por isso que eu n�o quero ouvir falar de mais nada
sobre Deus, fantasmas ou reencarna��o.
Voc� realmente � um cara estranho.
- Eu falava s�rio sobre a heran�a. - E eu que preciso partir.
Certo.
Escute.
J� � hora de jantar. Irei lev�-la a um restaurante.
Ent�o voc� pode desperdi�ar seu dinheiro?
Diga-me,
que bem me faz o dinheiro
se eu estou vivendo sozinho?
N�o!
Desde quando voc� anda atravessando ruas assim?
Desde que comecei a sair sem a minha m�e.
Certo, vamos l�!
Voc� � louco?
Voc� nunca usa a faixa de pedestres ou algo do tipo?
De vez em quando, mas � raro.
Vamos. Irei lhe pagar uma bebida.
N�o, � por minha conta. N�s combinamos.
Eu quero pagar.
Vamos?
Obrigado.
Dora?
Voc� pode vir aqui um momento?
Seja uma boa garota e fique � vontade.
Acabo de ver meu procurador.
Sem bobagens de novo.
Sim. Estou deixando tudo pra voc�.
Depois de minha morte, naturalmente.
Entretanto, se algo nos acontecer, que os c�us nos guardem,
eu posso reescrever meu testamento ou mesmo cancel�-lo.
Michel,
voc� � muito, muito gentil.
E eu me afei�oei muito a voc�, sabe disso.
Mas eu n�o posso aceitar.
- Posso lhe dizer o motivo? - Pronto.
Foi voc� quem caiu na formalidade.
Finalmente.
O que deseja me dizer?
Eu sinto como se estivesse me pagando por aliviar sua solid�o.
Estou feliz em continuar morando aqui com voc�
o tanto quanto poss�vel,
mas que seja por minha espont�nea vontade, sem recompensa.
Tudo que eu desejo � seu afeto.
Mesmo que voc� seja meu anjo da guarda,
eu n�o viverei para sempre.
Voc� realmente prefere que o Estado seja meu herdeiro ao inv�s de voc�?
Voc�,
a prov�vel reencarna��o de minha mulher, e que, al�m do mais, n�o possui nada?
Pare com isso, por favor.
Ou�a-me.
Sob tais circunst�ncias
se voc� herdar por simples vontade
ter� de pagar ao governo 60% do que receber.
Eu j� me aconselhei. Existem tr�s solu��es.
Ado��o, que leva tempo,
parceria civil, com um resultado incerto,
e casamento em plena comunh�o de bens.
Obviamente,
para n�s ser� um pretexto
mas aos olhos da lei ser� real.
Dessa forma voc� evita de pagar 60%
e ainda preserva sua liberdade.
Eu n�o quero conversar sobre isto.
Vou assistir a um filme.
Dora!
Dora?
Dora?
Dora?
Oh, perdoem-me. Eu n�o queria interromper.
Seu namorado parece legal. Posso conhec�-lo?
- Acabei de dar o fora nele. - Que pena.
Eu gostaria de ter falado com ele.
Eu e ele na cama foi s� um acaso.
Foi por isso que descartou minha proposta?
Voc� � livre, Dora.
Parece que voc� levou uma surra hoje.
Eu tenho minha pr�pria L�opoldine,
vivendo ao meu lado,
um novo estudo sobre o sobrenatural e a parapsicologia,
algo que me manter� interessado e calmo
pela grande quantidade de tempo que me resta.
Acho que chegamos ao final.
Para resumir seus pensamentos,
restam apenas tr�s op��es para o ser humano:
a f� e seu corol�rio, "Felizes aqueles cuja f� � cega",
a ci�ncia com suas quest�es sem resposta,
deixando-nos s�s diante do problema existencial,
e finalmente, o desconhecido, inomin�vel e silencioso.
Eu vou encerrar com esta cita��o aqui.
Venha ver.
"Eu passo muito bem sem Deus, seja em minha vida como na pintura.
"Mas, sofredor como sou, eu n�o passo sem algo que seja maior do que eu,
"que � a minha vida:
o poder de criar."
Sim?
Tome.
Sua c�pia do trabalho encerrado.
� muito gentil de sua parte ter me citado como coautora.
N�o estou t�o certo. Isto ir� torn�-la uma perigosa iconoclasta.
O importante � que acabou.
Eu lhe agrade�o.
Esta noite iremos celebrar com estilo.
O champanhe ir� fluir.
� voc�, que me trouxe tanto.
N�o, � voc� que me ajudou num per�odo negro de minha vida.
� n�s dois, ent�o, e ao futuro.
� n�s dois e ao futuro.
O que est� acontecendo com voc�?
H� dias voc� tem permanecido t�o feliz e despreocupado.
- Voc� me preferia um miser�vel? - Eu nunca disse isso.
Ou�a,
eu n�o poderia ser um miser�vel nem que eu quisesse.
Vejam s�, voc� continua pretensioso como sempre!
Voc� d� nos nervos!
Talvez, mas n�o h� necessidade de derramar todo o champanhe.
- Agora n�o ser� o suficiente. - Sim, ser�.
Eu vou sair pra arranjar mais um pouco.
- Eu vou com voc�. - �timo.
Podemos limpar isto mais tarde.
Por que tanto? Nunca beberemos tudo isso.
Voc� talvez n�o, mas eu irei.
Aonde vai?
- Sacar algum dinheiro. - Voc� n�o precisa disso agora.
Eu me sinto nu sem dinheiro.
Voc� pode fazer isto amanh�.
Dora?
Por favor, leve o champanhe.
Voc� pode seguir em frente e preparar tudo.
A encontrarei em dez minutos, quando tudo estiver pronto. J� nos vemos.
Passe-me seu dinheiro, seu cart�o e n�mero da senha.
� voc�!
O que aconteceu?
N�o se preocupe. Vou chamar a pol�cia e o m�dico imediatamente.
Lembre-se.
M�dicos n�o est�o em uso.
N�o diga isso. N�o diga isso.
Obrigado
pelo encantamento que voc� trouxe
nesta �ltima parte de minha vida.
Voc� tentar� publicar o nosso livro?
Legendas por Nandodijesus
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