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O DESCANSO DO ENFORCADO
O que é isto?
A VELHA INVESTIGA
Podem escolher acreditar, membros do júri, que o prisioneiro,
ao voltar de um passeio, encontrou a Sra. McGinty enforcada
e que estava prestes a soltar a corda
quando o agente Wells surgiu na cena do crime.
Por outro lado, podem pensar que o arguido tinha intenções
de encobrir o estrangulamento manual da Sra. McGinty,
por motivos de cobiça,
numa tentativa desajeitada de fazer o seu crime parecer suicídio.
Ou a senhora pára de fazer malha
ou paro eu de julgar o caso. Como vai ser?
Ajuda-me a concentrar, Sr. Dr. Juiz.
- Mas a mim não, minha senhora. - Pois...
Muito bem.
Obrigado.
Pois...
Se o que acabei de dizer for a verdade,
o detido foi atrasado na execução do seu plano maléfico
pela resistência desesperada da vítima.
Aquelas notas espalhadas,
aquela patética rosa desfeita, arrancada do seu vestido...
Digo que foi atrasado o suficiente para a intervenção atempada
do atento agente Wells.
Isto vai dar condenação, Inspector.
- Depois pago-lhe uma cerveja, Wells. - Obrigado.
...teve todas as oportunidades de saber que a infeliz viúva
guardava as suas poupanças ali e não no banco,
e que Harold Taylor estava inclinado a obter a sua pequena fortuna.
Se os factos que vos são apresentados forem alvo de dúvidas admissíveis,
então o acusado tem direito ao benefício dessa dúvida.
Mas membros do júri,
se as provas vos deram a certeza absoluta,
de que o acusado cometeu este crime atroz,
é o vosso dever solene entregarem um veredicto de culpado.
Agora devem retirar-se e discutir o vosso veredicto.
Ainda temos tempo para aquela cerveja antes de eles voltarem, Wells.
SALA DO JÚRI
Não tenho quaisquer dúvidas de que ele é culpado.
Foi apanhado com a boca na botija pelo agente da Polícia.
O senhor detido tem alguma coisa a dizer...
Ainda não, Excelência. O júri ainda não saiu.
A hora é mais adequada para um martini seco, Johnson.
Com certeza, Excelência.
- Não querem mais chá? - Não. Vão voltar.
Membros do júri, concordaram no vosso veredicto?
Não, Sr. Dr. Juiz.
O que disse?
Não conseguimos chegar a um consenso, Excelência.
Silêncio! Não quero o meu tribunal transformado num recreio.
Sugiro que se retirem por um período mais longo.
Lamento, mas seria um desperdício de tempo, Excelência.
Estou a ver.
Muito bem. Haverá novo julgamento numa data posterior.
O júri pode sair.
Se já houve um caso resolvido á partida, era este.
Um membro do júri foi deliberadamente perverso.
Muito mais do que um, Inspector, garanto-lhe.
Sim?
Onze, para ser precisa.
Aquela mulher transformou em gozo o meu único caso de homicídio.
Não, não, Sr. Swanbridge!
Não pode virar as costas ao público.
Quero que vejam a sua expressão de surpresa.
Dê-me licença.
Só mais uma vez, Miss Rusty, por favor.
Vamos lá.
A nossa presidente.
Continuem, por favor.
Volte a tentar.
Esforce-se mais, Sr. Swanbridge.
O meu braço está a ficar muito cansado.
Algo atabalhoado por enquanto, mas estará bem para o espectáculo.
- Chá? - Não, obrigada.
Considerou -o culpado, claro.
Eles, sim. Eu, não.
Mas, Miss Marple, com certeza...
Lembra-se da peça que fizemos, "O Dilema do Inquilino"?
Inesquecível.
Lembra-se, Sr. Stringer, que a vítima nessa peça
usou uma rosa para receber o amante?
Ele é que a assassinou e o inquilino foi culpado.
Exactamente. A Sra. McGinty usava uma rosa na noite do crime.
Sim?
Terá sido para receber o inquilino,
quando não há provas de namorico entre eles?
- Não me parece. - Então usou -o para outra pessoa.
- O seu assassino, acha? - Sim.
Com licença, Sr. Stringer.
Lamento, mas ele continua a virar-se. O que posso fazer?
Teremos de o substituir.
Já sei. Pergunte ao senhor vigário se ele se importa de experimentar.
Está bem.
A vida de um homem inocente pode estar em jogo, se assim for.
O que podemos fazer?
Podemos começar a investigar mais intimamente
a vida privada da Sra. McGinty, do que a Polícia tem vindo a fazer.
Sim, mas como?
Voltando á cena do crime.
Muito bem, Sr. Vigário.
Excelente! Excelente!
Calma!
Sr. Stringer, se o plano resultar, sabe mesmo o que tem a fazer?
- Sim, acho que sim. - Para baixo! Podem vê-Io.
- Sim? - Estou a recolher...
Estou a recolher objectos para o bazar da igreja.
A senhora é cristã!
- Com certeza que sim. - E então?
Se é para a igreja, há aqui muita coisa. Entre.
Obrigada.
Tenho aqui todas as coisas dela. Soube da minha irmã?
Sim, pobre senhora.
Sempre pensei que teria um mau fim, um fim teatral.
Palavra? Pensei que ela fosse empregada de bar.
Sim, mas foi actriz.
Foi aí que ele a matou, com as mãos.
Com luvas!
No fim de contas, vai dar ao mesmo. Por aqui.
Aquela mulher estava sempre a arriscar-se.
Deixou -lhe a sua casa?
Nem teve tempo de redigir o testamento.
Pois não, parece que não.
Mas não posso condená-la, a minha própria irmã.
Sempre somos do mesmo sangue, não é verdade?
Aqui estão todas as coisas dela, nada de valioso.
Talvez também tenha comprado isto numa venda de igreja.
Jurava que estes caudas de rato eram pele de marta.
Veja este casaco. Nem morta o vestiria.
Não sei porque vestia estes trapos, se tinha todo aquele dinheiro.
Era uma desavergonhada.
Lembro-me de quando era pequena. Sempre quis ser actriz.
Actriz, imagine!
Era má, sabia? Má!
Tenho um pouco de reumatismo. Acho isto benéfico.
- Palavra? - Sim.
Tente esfregar óleo de linhaça e vinagre nas articulações.
- Faz de mim uma nova mulher. - Terei isso em consideração.
Deve ser o senhor dos seguros, para vir entregar o dinheiro...
Eles não gostam quando o imprevisto acontece.
Persistência, Sr. Stringer. Persistência, pé na porta.
- Espero que traga em dinheiro. - Trago o quê?
Não quero os mesmos problemas do que quando o meu John faleceu.
- Não percebo. - O senhor não é da seguradora?
Não. Esperava poder interessá-la em melhorar a sua mente.
Não poderia mostrar-lhe o novo "Livro Maravilha"?
Faça favor.
Entre, Sr... Entre.
REAL TEATRO DE MILCHESTER
COSGOOD PLAYERS APRESENTAM "CRIME, DISSE ELA"
"Crime, Disse Ela"...
Esta secção das aves é muito abrangente.
Tudo, desde o albatroz ao açor.
- Ao quê? - Ao açor.
"Com o seu incessante chilrear e instintos predatórios.
Tem o hábito de empalar as suas presas."
Que interessante...
Tenho uma velha lá em cima. Vou despachá-la e vamos beber chá.
Por favor, não faça isso. Não posso abusar da sua generosidade.
Meu Deus, coitado do Sr. Stringer.
E eu a confundi-Io com o homem dos seguros. É muito mais simpático.
- Acha mesmo? - Claro que sim.
Agora que penso nisso, também não parece vendedor.
- Acha que não? - Não.
- É solteiro, Sr. Stringer? - Sim.
Vê-se logo. E eu sou viúva.
Nunca teria acreditado nisso.
Como está?
- Vejo que leva o que queria. - Sim, obrigada.
Talvez o cavalheiro queira ajudar-me com isto.
- Com certeza. - Obrigada.
Deixo-lhe o livro, Sra. Thomas. Pense nele, sim?
- Então e o chá? - Um bom dia, Sra. Thomas.
Então é solteiro, Sr. Stringer.
- Não fica para tomar chá? - Não, Miss Marple.
Meu Deus, a senhora vai ficar desiludida. Para cima!
Miss Marple, garanto-lhe, não encorajei a senhora.
Isso pouca importância tem, Sr. Stringer.
Valha-me Deus, já está! Jim!
Olhe, aqui está a página da "Gazeta de Milchester"
que trouxe do quarto da Sra. McGinty.
Aqui está a página que trouxe do arquivo do jornal.
Tirei as mesmas palavras e letras e produzi isto.
"LEMBRAR SETEMBRO" 1951
UMA ROSA COM OUTRO NOME TAMBÉM CHEIRARIA
LIGAR MIL 862 ÁS 22 HORAS
Uma rosa. Uma rosa!
Milchester 862, por favor.
MILCHESTER 862
Fala Lady Cynthia Waterhouse?
Lady quê?
Não, daqui fala a Sra. Gladys Thomas.
Lamento imenso. Parece que me enganei no número.
Como pensava. 862 é o número de casa da Sra. McGinty.
Lamento, mas estou baralhado.
Este tipo de mensagem é típico de um certo género de criminoso:
O chantagista.
Sim, acho que a Sra. McGinty fazia chantagem.
- Valha-nos Deus. - Bem, pense...
Fizeram-se seis encenações de "Crime, Disse Ela"
aqui, em Milchester, na semana de 12 a 19 de Maio,
por acaso, a mesma semana deste número da Gazeta.
Aqui temos os seis programas.
Parece que a Sra. McGinty foi a todos os espectáculos.
- Porquê? - É uma excelente peça.
Sim, mas o seu principal interesse não deve ter sido a peça,
apesar de ter sido actriz.
Não, estou convencida de que ela era chantagista
e que estava a chantagear um membro desta companhia.
- Acha que o seu assassino? - Acho.
- Acho que merecemos uma cerveja. - Sim, por favor.
É o Sr. Inspector...
Pregou -me um grande susto.
Miss Marple também me pregou um enorme susto.
- Posso entrar? - Bem...
Sim.
É o Inspector Craddock, Sr. Stringer.
Que bom...
- Boa noite, Inspector. - Boa noite.
Vem por motivos sociais ou oficiais, Inspector?
Bem, digamos que um pouco de cada.
Isso coloca um problema interessante.
Em termos sociais, posso oferecer-lhe uma cerveja.
Em termos oficiais não posso, se estiver de serviço.
Eu...
Muito bem, Miss Marple, é oficial.
Então, talvez um chá. Quer sentar-se?
Obrigado, não. Isto não demora muito.
Estávamos a fazer anagramas, Inspector.
Miss Marple, o agente Wells informou -me
que a viu esta tarde em casa da falecida Sra. McGinty.
E então?
Parece que se fez passar por uma sucateira.
Sem dúvida que não.
- Fiz uma recolha para a igreja. - Ai, foi?
Se não acredita em mim, sugiro que ligue ao Sr. Vigário...
Agora!
Olhe, Miss Marple... No passado, a senhora proporcionou
alguma ajuda á Polícia, e estamos gratos,
mas, no julgamento, interferiu com o andamento da justiça.
Eu ficaria muito mais descansado, para não falar no Chefe da Polícia,
se me prometesse aqui e agora não continuar a fazê-Io.
Essa promessa, faço-lha sem problemas.
Não tenho intenções nenhumas de interferir com a justiça.
Pois...
Ainda bem.
- Então, nada mais há a dizer. - Não.
- Então, boa noite. - Boa noite.
Pois...
Talvez devêssemos ter comunicado as nossas suspeitas.
Com certeza que não.
Aquele homem acabou de nos fazer um desafio.
Sabe como são os polícias.
O mês de Setembro de 1951.
Esta referência a uma rosa.
Isto deve ter significado especial para o nosso homem ou mulher.
Suponho que sim.
A questão é que os Cosgood Players prosseguiram o seu caminho.
Li que estavam no Palace Theatre, para os lados de Halford.
Não tenho quaisquer dúvidas
que um destes actores é o assassino.
Se está mesmo convencida da sua teoria,
acho que deveríamos, de alguma forma, agir.
Agir!
Claro, porque não?
É isso que tenho de fazer.
Afinal de contas, quem não arrisca, não petisca.
OS COSGOOD PLAYERS EM "VOO NOCTURNO"
Leve as nossas malas para a YMCA, Jim.
Se for bem sucedida, depois vou buscar a minha.
Acho que devia esperar, Miss Marple.
Não, isto pode demorar algum tempo.
Adeus.
Só sei que tínhamos mais de 300 libras e agora nada temos.
Onde está? É uma questão simples.
- Para pessoas de mente simples. - Isso é meu!
De que vale isto?
Obrigada.
O Pai é muito democrático. Não se importa com quem eu case.
Podias ter dito isso de melhor forma!
Se ele não pede ninguém de berço, o Bill pode ser.
Também você podia ter dito isso de melhor forma.
Procurava o Sr. Cosgood.
Não a vi já algures?
Palavra? Onde terá sido?
- Não tenho a certeza. - Talvez noutra dimensão.
Não lhe ligue, é a nossa louca residente.
Não, foi num sonho... Ela estava consigo, George.
- Algo a ver com morte. - Por favor, Eva. Posso ajudá-la?
Tenho um encontro marcado com o Sr. Cosgood.
Deve estar no palco. É por ali.
Obrigada. Eu encontro-o, meu jovem.
Sr. Cosgood!
Sr. Cosgood!
Sr. Cos...
- A senhora é a Jane Marble? - Marple, se não se importa.
- Muito bem, ande lá com isso. - Com isso?
Tenho um espectáculo dentro de meia hora.
O que escolheu para fazer, faça!
Pois...
Atire a voz para a parte de trás do teatro. Quero ouvi-la.
Não percebo o que o senhor diz.
Quero ouvir todas as palavras!
Muito bem.
"The Shooting of Dan McGrew"...
De Robert W. Service.
"Um grupo de rapazes comemorava no salão Malamute.
"O miúdo que trata da música pos a tocar uma canção louca.
"E lá no bar...
"Num jogo a sós, estava sentado o perigoso Dan McGrew.
"E a observá-Io estava a sua amada, a senhora conhecida por Lou.
"Quando saído da noite...
"Quando saído da noite a 50 graus abaixo de zero,
"em direcção ao brilho e ao barulho,
"de lá saiu um mineiro acabado de sair das profundezas,
todo sujo e preparado para o que der e vier."
Dê-me o fundamental e chegue ao ponto alto!
Meu Deus, isso é muito difícil.
O poema é longo e tem muita coisa por trás.
Está bem, como quiser.
Bem, depois de o desconhecido ter entrado nesta pavorosa cena,
torna-se cada vez mais evidente que há um crescente antagonismo
entre ele e o Sr. McGrew.
Um antagonismo que vai acabar em absoluta tragédia.
Retomo na altura em que o mineiro,
sentado ao piano do salão, está a tocar que nem um louco?
Sim, sim, por favor.
Obrigada.
"Depois o estranho voltou -se
"e os seus olhos queimavam de uma forma muito estranha.
"Com uma camisa de camurça completamente suja, sentou -se.
"Vi-o inclinar-se.
"Depois, os seus lábios diminuíram, em jeito de riso.
"Ele falou e a sua voz era calma.
Rapazes, diz, não me conhecem e nenhum de vós quer saber..."
Sim, sim, vá direita ao assunto, por favor!
"Mas quero deixar claro e as minhas palavras são rectas.
"Aposto a minha carteira que são verdade:
"Que um de vós é um cão do inferno
"e que esse é o Dan McGrew.
"Depois baixei a cabeça e as luzes apagaram-se.
"Duas armas brilharam na escuridão
"e uma mulher gritou.
"E quando as luzes se acenderam, dois homens eram já cadáveres.
"Com um tiro e cheio de chumbo estava o perigoso Dan McGrew.
"Enquanto o homem de negro
"estava agarrado ao seio da senhora conhecida como Lou.
"Não sou tão sensato como os advogados,
"mas entre nós os dois,
"a mulher que o beijou e que lhe foi á carteira
foi a senhora conhecida por Lou."
Ainda aí está?
- Estava a brincar, claro. - A brincar? Claro que não.
Então eu não estou a brincar quando lhe digo
que se insiste em juntar-se á nossa profissão,
o mais sensato é inscrever-se já no fundo de desemprego.
Isso não será necessário. Tenho meios para viver.
- Cara senhora, não me deixou acabar. - Referiu claramente a sua opinião.
Não... Estava prestes a dizer que o seu desempenho teve mérito.
A sua escolha de material é que foi infeliz.
Sim, sem dúvida papéis de duquesas, papéis régios.
Vejo-a, com outro material, a representar que nem um anjo.
Um anjo!
Não é esse o termo para financiadores de empresas de teatro?
Que disparate...
Quis dizer que tem muito para oferecer ao teatro, Sra. Marble.
- Miss Marple! - Fico encantado por saber disso.
O matrimónio é muitas vezes a saída para o quarto de cima.
Então, está a oferecer-me emprego, Sr. Cosgood?
Bem, quanto a isso, não é bem emprego.
Estava a pensar em algo mais na linha da aprendizagem.
Não remunerado?
Bem, numa palavra, sim.
Aceito.
Esplêndido, esplêndido. Bem-vinda aos Cosgood Players.
Bem, quanto á pernoita,
prefiro viver lado a lado com os meus colegas.
Claro. Estamos no Westward Ho, na Rua Prescott.
A Sra. Harris, senhoria excelente, muito asseada.
Óptimo. Vou buscar a minha mala á YMCA. Adeus.
- Cosgood... - Bêbado outra vez!
Olhe uma coisa, George...
Não está bêbado, Sr. Cosgood. Está morto.
Envenenado.
Envenenado?
Envenenado.
Arsénico, diria eu. A autópsia vai prová-Io.
Que disparate! Ele bebia demasiado. Certo como um e um serem dois.
O senhor disse que estava em palco quando ele saiu dos camarins?
Sim, Inspector.
A cortina subirá dentro de 10 minutos e tenho de desempenhar dois papéis.
Temo que a cortina não vá subir hoje.
O público vai desfazer isto!
Vamos arriscar. Tenho perguntas a fazer.
- Perguntas? Sobre o quê? - Um homem morreu, é normal.
Que grande inconveniente!
- Qual era o camarim dele? - O número 2.
Não pode tirar o George do palco e voltar depois?
Não. Foi o número 2 que disse?
- Sabia que algo iria acontecer. - A sério, menina?
Sim, tenho pressentimentos sobre estas coisas!
Muito interessante.
Eu disse ao George, assim que vi aquela estranha mulher.
- Que estranha mulher? - A que veio ter com o Driffold.
- O Driffold? - Driffold Cosgood, Inspector: Eu.
E a senhora?
- A senhora? - A mulher estranha.
Tinha acabado de fazer-lhe a audição, quando o George interrompeu.
- A senhora está aqui agora? - Deve estar aí algures.
- Parece ter desaparecido. - Nome e descrição, sargento.
Muito bem, faz ideia de como se chama essa senhora?
Já vi isto antes.
Não foi esse, Inspector, foi este.
"Lembrar Setembro", 1951. Uma rosa com outro nome...
Miss Marple! Pedi-lhe claramente que não interferisse.
- Inspector, a estranha mulher é... - Sim, Miss Marple.
Dê-me licença.
Sargento, leve-a á esquadra, para um relato completo.
Eu logo trato dela.
Faça favor, sargento.
Sargento, de certeza que ouviu bem o que Miss Marple disse?
Sim.
Importa-se de entrar, Miss Marple?
Quase que empatávamos, sargento.
Por favor, sente-se.
Muito bem, Miss Marple, vamos supor, e supor apenas,
que a Sra. McGinty chantageava um dos actores.
Vamos dizer que foi esta a carta enviada.
Foi mesmo, Inspector.
Como estava ao lado da garrafa de uísque no camarim do George,
ela deve ter-lha enviado.
Isso passa-nos logo pela cabeça.
- Então ela estava a chantageá-Io. - Parece que sim.
Se tiver razão naquilo que diz, ele matou -a.
Aparentemente, sim.
Supomos, num tardio caso de remorsos, que ele se envenenou?
- Talvez. - Ou que alguém o envenenou?
De novo, talvez.
Inspector, posso fazer-lhe uma pergunta?
Faça favor.
Se tivesse apenas descoberto a carta no camarim da vítima
e nada mais soubesse, quais seriam as suas conclusões?
Que ele estava a ser chantageado e que tinha decidido acabar com tudo.
Pois, foi o que eu pensei.
A carta pode ter sido deixada de propósito, para pensar isso.
Miss Marple, foi um dia difícil. O que está a sugerir agora?
Estou a sugerir que o assassino da Sra. McGinty
e o de George Rowton é a mesma pessoa.
Quem matou George Rowton, ainda não sei... Mas hei-de saber.
Quanto a quem matou a Sra. McGinty, sei.
Está detido na Prisão de Milchester, A aguardar um novo julgamento,
necessário devido á teimosia de um certo membro do júri.
Ele matou -a por dinheiro.
Pois, aquelas 100 libras encontradas junto ao corpo...
Nunca pensou, Inspector,
que não eram as poupanças da Sra. McGinty, mas um pagamento?
Quem ela estava a chantagear trouxe o dinheiro, matou -a,
e, quando ouviu o inquilino, fugiu em pânico?
- Não. - Então?
Acho que, tal como a carta,
o dinheiro foi deliberadamente deixado para trás.
Para quê?
Obviamente, para que a Polícia chegasse á conclusão
que acabou por tirar.
Miss Marple...
Se fosse o senhor, examinaria as contas bancárias destas pessoas
para ver se alguma delas não levantou 100 libras,
no dia ou por volta da altura da morte da Sra. McGinty.
Investigarei as suas teorias.
Entretanto, vá para casa, para Milchester, e fique lá.
Lamento, mas isso está fora de questão.
O meu trabalho vai manter-me aqui por tempo indefinido.
O seu trabalho?
Comprometi-me com os Cosgood Players
e a minha palavra é um contrato. Passe um bom dia.
"Actor, argumentista, empresário, um homem de muitos talentos..."
Podiam ter usado uma fotografia melhor.
Diz aqui que tenho 48 anos!
Escutem só: " Lady Sheila, com medo do palco, filha adoptada
de Lorde Upward, e futura noiva do jovem Bill Hanson, disse...",
e passo a citar,
"Não altera os planos de casamento. O Pai é muito democrático."
Óptimo para o Pai, não é, Bill?
- Arthur, você é insuportável. - Rasteje para debaixo da sua pedra.
É tudo bom. Não há lixo nenhum.
- A notoriedade ajuda a bilheteira. - Também é verdade.
Já leu isto sobre si, Ralph?
"Ralph Summers, ídolo da matiné do Dia da Mãe,
agora um apreciador velho e gordo de empregadas de mesa."
Mostre cá isso!
É um brincalhão muito baixo.
Achei muita piada. E é verdade.
É uma coisa boa para uma esposa dizer.
Mas gostas de empregadas de mesa. Houve aquela em Milchester.
- Lembras-te? - Cala-te, Maureen!
- Sim, Sra. Harris? - A sua nova actriz chegou.
Cara senhora, pensei termos criado uma infeliz impressão em si,
tendo em conta o acidente de hoje.
Não... Tive de tratar de umas coisas.
Bem, mas já aqui está...
Senhoras e senhores, Miss Marple. Miss Marple, a companhia.
- Olá. - Como estão?
Há cacau no tabuleiro. A cerveja, tem de pagar.
Sim, com certeza, uma bebida antes de se ir deitar. Sente-se.
Escolha o seu veneno. Quer dizer...
Cacau, por favor, Sr. Cosgood.
Uma excelente mistura. Recomendo-a.
Já agora, a Polícia quer falar consigo.
- Sim, já falei com eles. - Já?
Obrigada.
Podíamos repor " Um Tipo de Homicídio", como tributo ao George.
Miss Marple e a Dorothy
são perfeitas para as duas irmãs maquiavélicas.
- Não posso fazer de assassina. - Não pode?
Um de nós pode. Ele ou ela já tem prática.
Que quer dizer com isso?
Alguém colocou veneno no uísque do George
e essa pessoa está nesta sala.
Deixe-se disso!
Não vou aceitar isto.
E logo em frente a uma nova colega.
Nem pensar que o George foi morto por um membro da minha companhia.
Isto tudo é obviamente um erro horripilante.
Não, está enganado.
Um de nós é assassino e a senhora também o sente, não é?
Bem, minha querida, não me cabe a mim dizê-Io.
- Parem com isso! - Bill!
Parem de falar sobre isso. Já não aguento mais!
Você sabe, não é? Sabe que fui eu.
Você, as suas insinuações e sarcasmo.
- O que quer dizer? - Vou acabar consigo!
Vou arrancar-lhe essa língua de uma vez por todas.
Bill!
Larguem-me, larguem-me!
- Ficou um pouco assustado. - Bem...
Sabe qual é o seu problema?
Gosta de fazer piadas, mas não sabe aceitá-las.
- Acho que foi de muito mau gosto. - Pois, também eu.
Lamento. Não quis perturbar ninguém a não ser ele.
Mas perturbou -me a mim.
Por amor de Deus, estou farta. Vou deitar-me.
Também estou algo cansada. Podem mostrar-me o meu quarto?
Com certeza, cara senhora.
Foi um dia difícil. Muito difícil mesmo.
Florrie! Florrie!
Estou feliz por ser uma de vós. Passem uma boa noite.
A Sra. Harris leva-a lá acima.
Vamos lá então. É o número 10, lá em cima.
Obrigada, Sr. Cosgood. Boa noite.
Não ligue áqueles jovens.
São de um pouco estranhos, mas têm o coração no sítio certo.
Com certeza que sim. Até amanhã.
Até amanhã, cara senhora.
Em breve, irá sentir-se em casa. Somos uma família feliz.
Espero que saiba o que está a fazer, caro rapaz.
Vai achar isto confortável. Ele achava.
- Ele? - O falecido, o Sr. Rowton.
O pequeno-almoço é ás 8:30. Não se pode cozinhar nos quartos.
Um xelim para o gás, se tiver frio. Dias de banho, domingos e sextas.
E não quero homens cá em cima.
Gatinho mau! O que estavas aí a fazer?
Vá, vai-te lá embora.
"LEMBRAR SETEMBRO" DE H. DRIFFOLD COSGOOD
"Lembrar Setembro"!
Eva?
Sim?
O que está a fazer?
Não conseguia dormir.
Porque haveria a Marple de querer sair tão cedo de casa?
Como quer que saiba?
Talvez seja apenas excêntrica.
Tem mesmo aspecto disso.
Porque será?
Querida, não vais ficar estranha, pois não?
A sério, consegue assombrar uma casa.
Queria que não me tivesse acordado. Agora vou começar a ficar preocupada.
Eu tentava esquecer, se fosse a si.
É mais fácil dizer do que fazer.
Onde se pode ir de lua de mel? É tudo tão antiquado.
O que acha de Moscovo?
Como pode preocupar-se com isso, depois do que aconteceu?
A vida tem de continuar, querida, com o George ou sem ele.
Estava apaixonada por ele?
Não... Já tinha acabado tudo.
Tinha mesmo?
Sim.
Odiava-o.
Não se preocupe, querida.
Eu não conto a ninguém.
Sr. Stringer! O que faz nesses trajes?
Treino, para estar em forma para qualquer emergência.
Já há alguma?
Emergências, não, mas um desenvolvimento interessante.
Pare de saltitar e venha cá.
"Lembrar Setembro".
Não é uma data, é uma peça.
E do meu novo patrão, Driffold Cosgood.
- Não vê o significado? - Não.
Então, escute, Jim. Escute-me bem.
Parece-me que a pessoa que a Sra. McGinty chantageava
deve ter tido ligação com a produção desta peça em 1951
e com a companhia do Cosgood.
O próprio autor?
- Talvez. - Como a encontrou?
- Estava em cima da minha almofada. - O quê?
Foi lá deixada deliberadamente.
Então o assassino sabe! Tem andado sempre atrás de si!
Está a brincar ao gato e ao rato consigo.
- Duas pessoas podem jogar. - Miss Marple, estou perturbado.
Não fique nervoso, Jim.
Não estou nervoso... Tenho frio.
Valha-me Deus...
Aqui tem.
Está melhor, não está? Prenda-a bem á sua volta.
Agora...
Que organização deve guardar os registos
de todas as produções teatrais profissionais?
Os censores.
Sem dúvida. O Gabinete do Lorde Camareiro em Londres.
Ficaria muito agradecida se lá fosse de imediato
e se informasse sobre a história desta peça.
Onde foi produzida em 1951, quem participou nela e tudo isso.
Pode ter sido levada á cena em muitos teatros.
Não me parece. É que eu já a li.
Muito bem, Miss Marple, vou apanhar o próximo comboio.
Boa. Vá lá á sua tarefa, que eu tenho de ir.
Quero estar á mesa quando eles descerem.
Vá já...
"LEMBRAR SETEMBRO" DE H. DRIFFOLD COSGOOD
Obrigada, Sra. Harris.
Parece que vim um pouco cedo.
Não, os outros é que estão atrasados. Não que me esteja a queixar.
Se não estiverem aqui a horas, tenho comida para seis gatos.
Bom dia, Florrie.
Bom dia.
Bom dia!
Bom dia, Sr. Cosgood.
- Então, a senhora dormiu bem? - Como uma pedra, obrigada.
Ainda bem...
Nada como dormir para recuperar da emaranhada preocupação,
como o poeta tão convenientemente referiu.
O que é isso, que acha tão envolvente?
- A sua peça, Sr. Cosgood. - O quê?
Esta não é uma peça sua?
Sim. É, sim.
- Onde encontrou isto? - No meu quarto, ontem á noite.
- Que extraordinário... - Pois.
O pobre George deve tê-la levado. Não interrompa a sua leitura.
Já acabei de a ler.
Vamos ver o que a boa Florrie tem para nos servir hoje.
O que acha?
- Do arenque? - Da peça.
Peço desculpa. A peça...
Acho-a muito interessante.
- Que gratificante. - Alguma vez foi produzida?
Não... Acabei-a recentemente.
Estou a ver.
Mas tenho grandes expectativas para ela.
É isso que o deve encorajar.
E encoraja, cara senhora. Encoraja...
Ralph!
Estive acordado a pensar. Quero fazer-lhe uma pergunta.
- Então! - Pois.
Acha que Miss Marple dava uma detective?
Não conheço detectives que sejam senhoras.
Não estou a dizer isso, mas o que acha?
Não me parece que tenha perfil.
Está enganado. É perfeita.
- Onde quer chegar? - Tive uma ideia maravilhosa!
Deixamos o teatro fechado até segunda com a publicidade a aumentar
e depois reabrimos com "Saído da Panela".
Essa velha peça!
Um policial! Já temos um nosso. Porque não encená-Io?
Pode ser uma boa ideia.
Com Miss Marple como a ilustre Penelope Brown.
Percebo a que se refere.
Sim, caramba, é brilhante!
- Conhece a peça, com certeza. - Não.
Clássica, dentro do género. Vou buscar os guiões.
Ralph, ligue para o teatro. Diga que vamos ensaiar toda a semana.
Sr. Cosgood!
Acho que não passa pela cabeça de ninguém que eu seja detective.
Ninguém mesmo, Miss Marple, excepto eu.
Sem dúvida.
E eu também.
Holofote!
Aponte-o para mim. E mantenha-o assim.
Já todos leram a peça. Deixem-me apresentá-Ios.
A cena passa-se num sujo sótão do Soho,
no coração da milha quadrada de vício de Londres.
E pior, uma figura obscura passeia-se pelo palco. É Bill.
Interpreta o papel de Sidney, assistente de Penelope Brown,
criminologista amadora, a senhora, Miss Marple.
A Sidney procura algo...
Procura, procura...
Um barulho!
Um passo nas escadas lá fora.
Eu, como pai, estou prestes a entrar com o meu filho delinquente, Stanley,
que é o Arthur.
Arthur!
A Sidney pára, e depois precipita-se para um esconderijo.
Desculpe, chefe, estava a testar.
Voltou!
Vá lá, não se ponham aí a rir!
A testar, diz ele. Onde ia eu?
Pois...
Entro com o meu filho.
Peço que conte á Polícia o que sabe sobre a morte de Rona La Plante.
Ele zomba de mim, rejeita-me.
Depois, o ponto alto da cena.
Detecto um movimento por trás da cortina no canto.
Dirijo-me até ela e desvio-a para revelar...
Sidney!
- O que quer? - Telefonema para Miss Marple.
Porque não disse logo?
Miss Marple, não é necessária nesta cena.
Obrigada.
Vamos começar a partir da minha entrada.
Bill, vai ficar aqui escondido. Arthur, entramos os dois.
Estás a viver aqui? Um filho meu...
Estou?
Sim, Sr. Stringer.
Tinha razão, Miss Marple.
"Lembrar Setembro" foi levado a cena em 1951,
uma peça experimental em Pebblestone-on-Sea.
Muito interessante, especialmente porque o autor alega
ter concluído recentemente o trabalho.
Pode ter sido por vergonha.
No Gabinete do Lorde Camareiro recordam-se dela,
porque foi apupada para fora do palco a meio do segundo acto.
Não me surpreende minimamente.
A questão é se alguém que conhecemos participou nela.
Consegui a lista completa do elenco,
e acontece que consta dela o nome de Margaret McGinty.
O quê? Palavra?
Excelente!
Diga-me, para além do Sr. Cosgood,
quem mais desta companhia esteve ligado a essa produção?
Ninguém? Tem a certeza?
Sim.
Está bem, Jim. Estava só a pensar.
Mas é possível que alguém, desde então, tenha mudado de nome.
Jim, deixe-me a lista do elenco no Westward Ho, está bem?
Obrigada. Adeus.
Miss Marple!
Lamento, se a assustei.
O Sr. Cosgood pede a sua presença no palco.
Obrigada. Estou a ir.
Isto estava nos adereços. Deve servir.
Muito bem, vamos experimentá-la.
Aqui está, cara senhora.
Estivemos a pensar num floreado para a cena em que confronta o Ralph
com a verdade sobre a morte de Rona La Plante.
Em vez de derrubar o candeeiro e conseguir fugir apenas,
o Ralph sugeriu também tentar matá-la.
- A sério? - Sim.
A ideia é derrubar o candeeiro, dar-lhe um tiro e depois fugir.
- Estou a ver. - Ele falha, claro.
Não há nada como um barulho alto para manter o público acordado.
- Acha isto preocupante? - Não, nada disso.
Ainda bem.
Pronto, vamos preparar a cena.
Ralph, vai estar aqui, a saquear a escrivaninha.
A ilustre Penelope vai entrar pela porta envidraçada... aqui.
Vá! Ás vossas posições, por favor.
Miss Marple, entre agora.
Ah!
Bem me parecia que ia encontrá-Io aqui, Faber.
- A senhora! - Sim, eu...
Fique onde está.
A violência não irá funcionar. Isto está cheio de polícias.
- Não têm por que me acusar. - Têm, sim. É que...
É que a Sra. McGinty morreu.
Enganou -se, não foi?
Enganou -se sim, cara senhora.
O que fiz eu?
- Disse: "A Sra. McGinty morreu". - Disse?
Sim, quem morreu foi a Rona La Plante.
Pois, que idiota da minha parte.
Deve ter sido de ler a sua peça, "Lembrar Setembro".
A minha peça? Não há lá ninguém com esse nome.
Que estranho...
Tenho o nome McGinty na cabeça, por alguma razão.
Já sei, foi aquela empregada de mesa assassinada em Milchester.
O julgamento foi na semana passada.
Pois, foi isso.
Posso voltar a tentar, por favor?
Sim, mas desta vez, faça como deve ser.
Darei o meu melhor.
Ás vossas posições, por favor.
Vá, Ralph, faça o que tem a fazer.
Já viu isto no vespertino?
"Polícia Confundida no Mistério do Teatro."
Não é isso, é isto.
"Grande Estreia para Caridade na Segunda-feira.
"Driffold Cosgood apresenta a sua companhia num policial.
Os lucros da primeira noite vão para o Fundo de Apoio á Polícia."
Um gesto simpático.
Até parece que ouço o Chefe a concordar consigo.
- Tem os extractos bancários? - Na sua secretária.
Alguém levantou 100 libras na altura da morte da Sra. McGinty?
- Sim. - Quem?
- O que morreu, o George Rowton. - Porque não disse logo?
Acabei de dizer.
Ora, ora... Tão simples quanto isto: Suicídio.
Miss Marple, tem uma visita.
Obrigada.
- Ali. É um homem. - Compreendo...
- Inspector! - Boa noite, Miss Marple.
Boa noite.
Não o consegui contactar na esquadra. Não fazia ideia de que viria aqui.
Com certeza que não.
A sua visita é muito inoportuna.
No ensaio de hoje, iniciei um certo estratagema
que vai obrigar o nosso assassino a agir esta noite.
Duvido muito, Miss Marple.
O nosso assassino, como disse, está morto.
Desculpe?
Veja, o extracto bancário do George Rowton.
Com a parte importante sublinhada, ou seja, um levantamento de 100 libras.
Então, isto explica tudo.
- Bem me pareceu que ia ver. - Sim, com certeza.
Admito que o motivo para o homicídio do Rowton me tinha escapado.
Ele não foi assassinado. Suicidou -se.
- Acha mesmo? - É óbvio.
A Sra. McGinty chantageou -o, tirou dinheiro do banco para pagar,
assassinou -a e deixou o dinheiro para incriminar o inquilino.
- Essa teoria é-me familiar. - O quê?
A senhora sugeriu algo do género, é verdade.
A questão é que o inquilino está inocente.
Foi o Rowton e escapou da forma mais fácil. Não aguentou a pressão.
O caso está resolvido. Vou contar ao Chefe da Polícia.
- Eu não faria isso, se fosse o senhor. - Porque não?
Acho que está enganado.
- Acha? - Sim.
Acho que o assassino tirou o dinheiro ao George para pagar á Sra. McGinty
e, por isso, tornou -se necessário ver-se livre do George depois.
Só a mente de uma mulher podia ter engendrado isso.
Pode irritá-Io, Inspector, mas nós, por vezes, temos mentes superiores.
Terá de limitar-se a aceitá-Io.
Não precisa disto?
Obrigado.
- Até amanhã, Miss Marple. - Até amanhã, Inspector.
- Boa noite. - Boa noite.
TALVEZ A VELHA JÁ SAIBA DE NÓS.
VÉ O QUARTO E VAI TER COMIGO Á COZINHA Á 1:00 DA MANHÂ
Então estavam aí!
Gostam de dormir aqui em cima, quando encontram uma cama vazia.
Vamos lá, queridos, o fígado está quentinho.
Toco para jantar dentro de 2 minutos. Vamos, queridos.
Entre.
Miss Marple, esperava apanhá-la antes de descer.
Esperava?
Sim. Acho que está na hora de termos uma conversa.
Pronto. Iniciais, por favor.
E refiro-me a si.
- Nada de homens no quarto. - Não diga disparates, rapaz.
Bem, Miss Marple, talvez possa acompanhá-la.
Acho que esta noite não vou jantar.
Estou um pouco mal disposta.
- Nada que a incapacite? - Preciso de uma noite de descanso.
- Bem, então vou deixá-la. - Obrigada.
Trate de si. Não podemos ficar sem a senhora na Segunda, pois não?
Vá, Arthur.
Minha querida, estava só...
Amêndoas amargas. Cianeto!
Oh!
Isto é trágico, absolutamente trágico.
Quando a imprensa souber disto, vamos afastar toda a gente do teatro.
Agora não temos ninguém para o papel de dona de casa.
- Não se pode ter tudo. - Mas temos de ter!
Devemo-Io á Dorothy.
A Eva... Não.
Já está a fazer de acompanhante e de filha do padre.
Sheila, faria o papel de dona de casa, se lhe arranjasse uma peruca?
O Driffy dá-me nojo. Não quer saber da pobre Dorothy.
Só quer saber da sua peça e do seu estúpido ego.
E não, não quero fazer o papel de dona de casa!
Muito bem, Miss Marple, gás de cianeto. Mas como?
- Acho que sei explicar isso. - Sem dúvida.
Deduzo, pelo seu tom, que nem sequer pensou duas vezes
em ir falar ontem com o Chefe da Polícia.
- Se souber explicar, faça favor. - Muito bem.
Agora!
E então? A minha mulher tem um.
Provavelmente não cozinha cera de velas...
Não, não cozinha.
Há um pouco, no fundo desta caçarola.
Foi isto que aconteceu.
O assassino marcou o relógio
para que o gás saísse precisamente ás 00:55,
sob esta caçarola que continha uma pequena taça de ácido em cera
e uma cápsula de cianeto.
A cera derreteu, o ácido caiu sobre a cápsula.
Resultado, a libertação imediata de gás cianeto. Mortal.
Estou a ver.
E precisamente á 1:00 hora o gás desligou -se.
Agora!
Deixando apenas uma inocente caçarola no fogão.
O que significa que quem procuramos tem conhecimento especializado.
Não.
Precisamente o mesmo método é usado na nossa peça de Segunda-feira,
"Saído da Panela".
Então pode ter sido qualquer pessoa da companhia.
Como as coisas estão, sinto-me tentado a prendê-Ios todos.
- A sério? - Sim, a sério.
O que a senhora... O que descobrimos. Olhe para o que temos.
O Cosgood.
Disse que tinha acabado de escrever o"Lembrar Setembro",
e, no entanto, sabemos que foi produzido em 1951.
E a primeira vítima, a Sra. McGinty, participou nela.
E este tipo, o Summers, sabemos que levou a Sra. McGinty a sair
quando a companhia foi a Milchester, na semana em que foi assassinada.
A mulher dele, a Maureen, sabia disto e não gostou.
Depois a rapariga assustadora, a Eva.
Teve um romance com a vítima número dois, o George Rowton,
que a pos de lado como uma...
- Uma luva gasta? - Sim.
Depois temos o jovem Arthur. A carta foi escrita na máquina dele.
E, como resultado, a vítima número três.
Há aqui uma questão.
Em 1951, os mais jovens da companhia eram apenas crianças.
Sim, tem razão.
Se aquele desempenho de "Lembrar Setembro", em 1951,
é que iniciou tudo isto, então nenhum dos jovens,
a Eva, o Bill, a Sheila e o Arthur, podia ter algo a ver com isto.
Qualquer pessoa podia ter entrado no quarto e usado a máquina.
- Ele já chegou. - O quê?
- Ele já chegou. - Pois...
- Importa-se de esperar um momento? - Esperar?
Por favor. Sargento!
Porque estava o ferro quente?
- Que está aqui a fazer? - Bem, eu...
Pediu -me para deixar a lista do elenco quando por cá passasse.
A do "Lembrar Setembro".
Estava de passagem ás 2:30 da manhã? Então...
Sim.
O Inspector teve a amabilidade de mandar um carro.
Pensou que eu podia ser bem sucedido, pois ele não conseguiu convencê-la...
- Para abandonar a minha posição. - Isto é um sítio perigoso.
- Estas pessoas são perigosas. - Só uma é que é.
- Chegou a hora de falar abertamente. - Por favor, Jim, estou a pensar.
É aqui que reside a resposta.
Driffold Cosgood, Ralph Summers, Margaret McGinty, Rose Kane.
Rose.
Rose...
Sr. Stringer, temos aqui, para além de Margaret McGinty,
uma actriz chamada Rose Kane.
Lamento, mas não percebo.
Não vê? " Uma rosa com outro nome continuaria a cheirar".
A carta da chantagem...
Sr. Stringer, amanhã vou revolver...
- Revolver? - Sim, o passado.
HOMICÍDIO NO TEATRO O ESPECTÁCULO CONTINUA
HARRIS TUMBRILL AGENTE TEATRAL
Refere-se a esta Rose Kane?
Sim.
Parece lembrar-se muito bem dela, Sr. Tumbrill.
- Qual é o seu interesse nela? - Apenas quero saber onde está.
Abandonou a profissão há já muitos anos
e a única forma...
Se é uma antiga amiga dela, lamento, mas vai receber um choque.
A coitada da Rosie foi enforcada.
- O quê? - Sim.
Uma coisa terrível... Terrível.
Quer?
Não tão perto do pequeno-almoço, obrigada. Estava a dizer...
Sim, terrível. Nunca irei esquecer.
Estreou -se numa peça algures nos arrabaldes,
um fiasco total, por falar nisso, que nem sequer acabou a noite.
Na mesma noite, acredite ou não, envenenou o marido.
- Palavra? - Sim.
Mandou a criança comprar 250 gramas de salsichas com alho
e depois tratou dele com pesticida.
Havia uma criança?
Devia ter uns 10 ou 11 anos na altura.
- Menino ou menina? - Nunca vi a criança.
Nem me lembro do nome.
Uma amiga recolheu -a uns tempos e depois po-la num orfanato.
O nome dessa amiga era McGinty?
Sim, exactamente. Maggie McGinty, loura, inconstante.
Porque é que a Rose fez isso?
- O costume, outro homem. - Quem era ele?
Ele nunca se assumiu e ela nunca disse o nome dele.
Então pode ser o amante ou a criança.
Como?
Posso levar esta fotografia como recordação?
Com certeza. Sim, com certeza.
É uma das minhas que fugiu.
Não lhe vou tomar mais tempo.
Dê-me licença.
- Evelyn! - Desculpe?
A criança. Evelyn, era esse o nome.
Evelyn.
GRANDE ESTREIA HOJE Á NOITE
OS COSGOOD PLAYERS EM "SAÍDO DA PANELA"
Não há nada como champanhe para comemorar.
Estranhamente cortês da sua parte, cara senhora.
- E que tal um brinde? - Claro...
Ao sucesso, a nós, a todos nós,
e especialmente á nossa anfiitriã. Uma vida longa, cara senhora.
Sr. Cosgood, que lindas flores.
- Quem é aquela? - O quê?
Era uma actriz, chamada Rose Kane.
Porque pergunta?
Não sei, mas algo nela significa morte.
Algo a ver com o George.
Cinco minutos, meninos e meninas. Vamos, a festa acabou.
A única coisa que têm a fazer é dizer claramente as deixas,
não batam na mobília e ficamos mais tempo em cena do que "A Ratoeira".
Vemo-nos em palco, cara senhora.
Não se esqueça, quem morre é Rona La Plante.
Bem, Driffold, esta é a grande noite.
- É, sem dúvida. Tem a arma? - Sim.
Faz alguma ideia da razão pela qual ela quer falar connosco?
Não sei. Mas algo está a preparar.
Entre.
Então, Miss Marple?
Boa noite, Inspector.
Há uma coisa que deve saber antes de ir ver a peça.
O quê?
Acho que o nosso assassino vai voltar a tentar matar-me hoje.
Voltar?
A primeira tentativa falhou.
Quem morreu foi a coitada da Dorothy.
De que está a falar?
O ferro estava quente, sabe. Queimei a minha mão.
Não, não percebo.
Quando fui ao quarto da Dorothy nessa noite,
havia roupa a enxugar.
Acho que passou a roupa depois e esqueceu -se de desligar o ferro.
Depois, a meio da noite, acordou, lembrou -se
e foi á cozinha desligá-Io.
E caiu numa armadilha que lhe estava destinada a si?
A carta foi deixada á minha porta, para me levar lá abaixo.
Vamos ficar aqui mesmo
e não vamos perder Miss Marple de vista.
Não pode fazer isso, Inspector. Não podemos colocar obstáculos.
- Não pode falar a sério! - Nunca falei mais a sério.
É que o nosso assassino montou uma armadilha para mim.
Acabei de retribuir.
- Miss Marple, trouxe... - Dê cá, Sr. Stringer.
- Obrigada. - Esperem lá. O que é isso?
Seguro de vida, Inspector.
Seguro de vida.
Iniciais ao palco, por favor. Iniciais ao palco.
Dão-me licença, cavalheiros?
Já falámos sobre isso.
Sabes que me entreguei a este estilo de vida
e não vou desistir dela.
Estás a viver aqui? Um filho meu...
Vivo onde escolhi.
Entre, Eva.
Vá, não grite.
Nem fale. Vou levá-la a um sítio onde não seremos interrompidas.
Se fizer alguma coisa, mato-a.
Agora, abra aquela porta!
Uns dois anos na prisão, o que é isso? Fará de ti um homem.
Podes pensar que a Polícia é uma cambada de tolos, Stanley.
Talvez alguns deles sejam, mas nem todos, filho, nem todos.
Se alguém tentar passar por aqui,
quero saber quem é e o que quer.
Muito bem.
A que se deve tudo isto?
Miss Marple, já cobri todos...
Sargento!
- Sheila, viu o Ralph? - Não.
- Onde está ela? - Não saiu do camarim.
Saiu, sim, seu idiota. Temos de encontrá-la.
Olhe, Pai, não podemos encurtar isto?
Espero uma visita...
...daqui a uns momentos.
Um dos teus inúteis amigos, sem dúvida.
É a rapariga com quem vou casar, se tem mesmo de saber.
Olha para mim!
Olha para mim!
O que se passa consigo?
Quero que saiba porque vai morrer.
Também quero saber isso.
A senhora matou -o. Não sei porquê, mas matou -o.
Refere-se ao George Rowton, não é?
Sim.
A menina estava apaixonada por ele.
Sim, eu amava-o e a senhora matou -o.
Não, está enganada, minha querida.
Ele foi morto por alguém chamado Evelyn Kane.
Não acredito em si.
Sei que foi a senhora. Desde o início que sinto isso.
A Eva não consegue!
É tão capaz de cometer um homicídio quanto eu.
Tinha razão, ela não conseguiria.
Uma pena. Pensei que me poupava a maçada.
- Não devia estar em palco? - E estou, Miss Marple.
E, para além disso, centenas de pessoas jurarão que estive,
escondido por trás da cortina.
É muito simples, na realidade.
Lembra-se quando o idiota do Cosgood saiu pelo alçapão?
Eu fiz o mesmo.
Dentro de precisamente 3 minutos estarei de volta ao palco na deixa,
mas a senhora, lamento dizer, não irá responder á sua.
É o Evelyn Kane, não é? O filho de Rose Kane.
Sim.
Evelyn, que nome. Mudei-o logo.
A Sra. McGinty tinha descoberto, não foi?
Quando representaram em Milchester,
ela reconheceu -o, e como ia casar com uma herdeira,
viu a oportunidade de o chantagear.
Ameaçou contar ao pai da Sheila, a menos que lhe pagasse...
E, por isso, calei-a.
- Onde conseguiu arranjar o dinheiro? - O George Rowton.
Ela queria 100 libras. Falsifiquei o nome do George num cheque.
Não podia deixá-Io descobrir, pois não?
Por isso, ambos tiveram de morrer.
Pobre Dorothy...
Era-lhe destinado a si, claro.
Queria torcer-lhe o pescoço, mas a Eva foi muito amável.
Deixou as impressões digitais nisto e eu estou em palco.
Espere!
Tomei a liberdade de pedir isto emprestado ao Sr. Summers.
Não pense que me engana com um adereço com póIvora seca.
Não é póIvora seca. Um amigo meu trouxe-me esta segurança.
Vou arriscar.
Devo avisá-Io
que venci os Campeonatos Femininos de Tiro em Bisley, em 1924.
Óptimo para si.
Meu Deus!
Pensei ouvir algo.
Saia daí!
Bill, seu estúpido...
Inspector.
Meu Deus.
Meu Deus...
Com um pouco de descanso e alguma sorte,
o médico diz que devo sair daqui dentro de uns dias.
Óptimo. Ainda bem que a pancada não provocou danos permanentes.
- Agora, se me dá licença. - Muito obrigado, Miss Marple.
Há uma coisa que penso que gostava de saber.
Como resultado do meu trabalho neste caso,
vou ser promovido a Inspector-Chefe.
Fico muito contente. Parabéns.
Pois. Obrigado, Miss Marple.
Não tem de quê, Inspector... Inspector-Chefe.
Adeus.
Perdoe-me se não posso levantar-me, cara senhora.
Eu entendo, Sr. Cosgood.
Trouxe-lhe umas revistas, para ajudar a passar o tempo.
Pois, o tempo...
Estaria aqui deitado a contemplar um futuro obscuro, a menos que...
A menos que...
Não pensou na minha peça "Lembrar Setembro"?
Não me tem saído da cabeça.
Cara senhora, tenho uma pequena confissão a fazer.
Eu é que deixei o guião no seu quarto.
Palavra?
Sim. Esperava que pudesse provocar uma impressão em si.
- E provocou. - Ainda bem.
Acho que com uma ou duas pequenas alterações no segundo acto,
tenho aqui uma peça muito boa.
Fico muito feliz por si, Sr. Cosgood.
Contudo, há um pequeno senão.
Então?
Pois. É estranho, claro, quando se trata das artes,
mas uma peça, por muito boa que seja, precisa de financiamento.
Sr. Cosgood, seja eu o que for,
definitivamente não sou anjo nenhum!
Adeus e boa sorte.
OS ACTORES DE MILCHESTER EM "HOMICÍDIO SEM FIM"
A VELHA INVESTIGA
PORTUGUESE
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