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AGATHA CHRISTIE PARCEIROS NO CRIME
O CASO DA SENHORA DESAPARECIDA
Agarra-a.
Eu disse para a agarrares.
Ela vai ser difícil.
- São sempre difíceis no começo. - Mas não por muito tempo.
Mantém-na quieta, Muldoon!
Receio que o Sr. Blunt esteja muito ocupado de momento.
É a Scotland Yard. Fizeram asneira outra vez.
Eu espero.
Não creio que o vá receber.
Importa-se de me dar o seu nome?
Gabriel Stavansson.
Peço desculpa?
Stavansson. Gabriel Stavansson.
Desculpe. Importa-se de repetir?
Stavansson!
Stavansson?
O explorador.
- É melhor ires buscá-lo. - Certo.
Quero que diga ao Sr....
Este cavalheiro quer falar consigo, Sr. Blunt.
Tenho de estar no Duke's às onze.
Mas acho que lhe posso dispensar uns momentos.
- O que digo a Sua Senhoria? - A Sua Senhoria?
Ao Duque. Ele vai ficar nervoso.
Diga-lhe...
...que a tiara da Duquesa será encontrada no viveiro dos peixes.
O macaco de estimação dela foi, sem dúvida, o culpado.
Nenhum dos criados tem culpa.
O macaco. No viveiro dos peixes.
- Muito bem, Sr. Blunt. - Faça favor.
Obrigado, Albert.
A minha secretária particular, a Srta. Robinson.
- Muito prazer. - Srta. Robinson.
Muito bem. Talvez agora me queira dizer ao que vem.
Eu...
Além do facto de ser urgente, de ter vindo de táxi
de ter regressado recentemente do Ártico
ou talvez do Antártico, eu não sei nada.
Mas isto é espantoso.
Pensava que os detectives só faziam isso nos livros.
O seu assistente nem sequer lhe deu o meu nome.
Não foi nada de especial.
Os raios do sol da meia-noite no Círculo Ártico
contêm
certas propriedades e têm uma ação particular
sobre a pele.
Vou escrever uma pequena monografia sobre o assunto em breve.
Mas estou a divagar.
Talvez seja melhor dizer-me o que o trouxe até mim
num tal estado de nervosismo, Sr. Stavansson.
- Para começar, Sr. Plant... - Blunt.
Eu chamo-me Gabriel Stavansson.
- Sim, claro, o famoso... - Explorador.
Exato, Srta. Robinson.
- Regressou recentemente do... - Polo Norte, creio eu.
Exatamente.
Cheguei à Inglaterra há apenas três dias.
Um amigo que estava em águas do norte trouxe-me no seu iate.
Caso contrário, eu só teria chegado daqui a quinze dias.
Compreendo.
- Devo dizer-lhe, Sr. Plant... - Blunt.
...que, antes de ter partido nesta minha última expedição há dois anos,
eu tive a sorte de ficar noivo...
- Parabéns. -...da Sra. Maurice Leigh-Gordon.
A Sra. Leigh-Gordon era, antes de casar...?
A distinta Hermione Crane, segunda filha de Lorde Lanchester.
Incrível.
O seu primeiro marido foi morto durante a guerra.
Exatamente.
Sr. Plant,
estou bastante impressionado.
A Srta. Robinson tem a minha total confiança.
Não lhe escondo nada, como pode ver.
Continue, por favor.
Quando a Hermione e eu ficamos noivos,
eu propus, claro está, desistir da expedição.
Mas ela não quis saber disso. Deus a abençoe.
Ela é a mulher certa para ser a esposa de um explorador.
Esta é a Hermione.
Parece encantadora, Sr. Stavansson.
Tem uns olhos lindos.
Se alguma coisa lhe aconteceu...
- O meu primeiro pensamento foi vê-la. - É natural.
Enviei um telegrama de Southampton e vim para cá no primeiro comboio.
Ela tem vivido com uma tia, Lady Susan Clonray, em Pont Street.
É claro que fui logo lá.
Mas a Hermy não estava lá.
Que desilusão.
Sim.
Ela disse que a Hermy estava a visitar uns amigos em Northumberland.
E pareceu muito admirada por me ver.
Presumo que só o esperassem
daqui a quinze dias, Sr. Stavansson.
Eu sei.
Mas quando eu pedi o endereço da Hermy,
Lady Susan começou a gaguejar
e disse que ela podia estar em dois ou três sítios diferentes.
Ela não sabia onde, nem quando.
Devo dizer-lhe, Sr. Blunt,
que ela levantou tantos problemas que eu fiquei bastante aborrecido.
Presumo que não esteja de bem com Lady Susan.
- De bem? - Sim.
Não.
Ela e eu nunca nos demos bem.
Ela é uma daquelas
mulheres gordas.
- Mulheres gordas? - Sim. O senhor sabe.
Com papada, dedos que parecem salsichas...
Detesto mulheres gordas. Sempre detestei.
A moda concorda consigo, Sr. Stavansson, mas...
Todos têm os seus ódios de estimação.
O meu é a gaita-de-foles. Não suporto aquilo.
Não estou a dizer que Lady Susan não possa ser encantadora.
Mas nunca gostei dela, nem ela de mim.
Não saí de Pont Street
até obter os nomes dos amigos que acolheram a Hermy, segundo ela.
Depois, apanhei o comboio-correio para o norte.
Vejo que é um homem de ação, Sr. Stavansson.
Isto atingiu-me como uma bomba, Sr. Plant.
Blunt.
Nenhuma daquelas pessoas tinha visto a Hermy.
Das três casas que visitei, só uma tinha estado à espera dela
e ela tinha cancelado a visita por telegrama.
Então, Lady Susan...
Cometeu um erro crucial.
Ou contou-me um chorrilho de mentiras.
- Já foi vê-la novamente? - Ainda não.
Quando vinha no comboio vi o vosso anúncio.
Pensei falar convosco primeiro.
Qual é a sua opinião, Sr. Plant? O que me aconselha a fazer?
Discutimos isso a caminho de Pont Street?
- Tencionam acompanhar-me? - Claro.
Temos de ver essa senhora encantadora, mas algo avantajada.
A Hermione não estava em Northumberland?
- Que extraordinário. - Nem sequer a esperavam.
Céus.
Isto é muito estranho.
Lady Susan, onde mais pensa que a Hermione poderá ter ido?
Bem, ela pode...
Dizem que são amigos da minha sobrinha?
Sim. Conhecemo-la há séculos.
Ela nunca falou de vós.
- Temos estado no estrangeiro. - Compreendo.
Suponho que partilhe os gostos do Sr. Stavansson.
Santo Deus, não. Não há nada como uma mulher cheia.
Lady Susan, a Hermione pode ter ido...?
Para qualquer sítio.
Ela não é uma criança, sabe?
- E tem muitos amigos. - Como por exemplo?
Por exemplo...
É muito difícil de dizer.
- Ela deixou algum endereço? - Não.
- Não, não deixou. - Mas disse-me...
Não me lembro do que lhe disse, Sr. Stavansson.
Apareceu aqui daquela maneira e armou um tal alarido.
- Alarido? - E agora volta cá e...
E interroga-me na minha própria sala de estar.
- Ouça lá... - Lady Susan tem razão.
Deve haver uma explicação simples e natural.
Como ela diz, a Hermione não é uma criança tola.
Ela é uma mulher independente
que sempre esteve habituada a fazer os seus próprios planos.
Imagino que, neste momento, ela esteja a concretizar uma ideia.
Exato, Srta. Robinson. Era o que eu ia dizer.
Isto não me agrada. Agrada-me cada vez menos.
Suponho que podíamos avisar a polícia.
A polícia?
Não, Sr. Blunt. Essa é uma péssima ideia.
Apenas pensei que...
A publicidade. O escândalo.
Porque haveria escândalo, Lady Susan?
Eu... eu...
Sim, John. O que se passa?
Chegou um telegrama, minha senhora.
Obrigada. Importa-se, minha querida?
Obrigada.
Aqui está.
O que se passa?
Tem aqui a sua resposta, Sr. Stavansson.
"Mudei de ideias.
Vou para Monte Carlo durante uma semana.
Hermy."
- Estou perdido. - Talvez, Sr. Stavansson.
Mas a Hermione, como vê, não está.
- De onde foi enviado? - Posso?
- De Maldon? - Maklon?
Maldon, Sussex.
De manhã cedo.
Lady Susan...
Parece que fiz figura de parvo.
Somos o que o Senhor fez de nós, Sr. Stavansson.
Obrigada, minha querida.
Agora o John acompanha-vos à porta.
Bom dia, Srta. Robinson. Sr. Blunt.
- Bom dia. - Foi um prazer conhecer-vos.
Bom dia, Lady Susan.
Vá com eles, John.
Telefonista, está aí?
Maldon 219.
Quero falar com o Dr. Horriston na Quinta.
Ela tem uma figura divinal.
Um pouco escanzelada de mais para o meu gosto.
O que achas disto tudo?
A explicação óbvia é que a Hermy, como ele gosta de lhe chamar,
tem medo de vê-lo e pôs-se a andar.
O que significa que Lady Susan pode estar a defendê-la.
Devo dizer que ela parecia muito nervosa.
- A velhota estava estranha. - Também achei.
- A Hermy terá outro homem? - Talvez.
Não gostaria de sugerir isso a um sujeito como o Stavansson.
- Ele é um sujeito possante. - E apaixonado.
Capaz de qualquer coisa.
Estás a dizer que suspeitas dele?
Nesta fase, suspeito de qualquer um.
Talvez seja melhor irmos já para Maldon.
Porque é que ela disse que foi para Northumberland
e depois que ia para Monte Carlo
quando, na realidade, se foi enterrar num sítio minúsculo em Sussex?
- E se ela não queria ir? - O que queres dizer?
E se ela foi para lá contra a sua vontade?
Lembra-te. Não podes mostrar pena.
- Qual é o plano? - Separarmo-nos, acho eu.
Vou tentar naquela loja.
Certo.
E eu vou à Cock & Sparrow.
- Boa sorte, Tommy. - Boa sorte, minha querida.
- Muito bom dia. - Bom dia.
- Tem postais? - Estão mesmo aí.
Pois estão.
- Há casas grandes por estas bandas? - Não.
Além da Quinta, claro.
Quinta? O que é isso?
É uma espécie de hospital.
- Para doenças nervosas, dizem. - Doenças nervosas?
É um sítio sinistro.
Está cheio de malucos com nomes estrangeiros.
Nomes estrangeiros?
Este telegrama tinha de estar lá esta manhã, mas não percebo nada.
Posso ajudar?
"Reserva cancelada."
"Surgiu um imprevisto."
- Parece-me claro. - Já viu o nome?
Mosgovskensky.
Percebe o que quero dizer? Que raio de nome é esse?
A quem pertence a Quinta?
Ao Dr. Horriston.
Dr. Horriston?
Pode dizer-me como ele é?
Tommy, acho que encontrei.
- A Quinta. - Sim. Ouvi falar nela agora.
- A Sra. Leigh-Gordon estará lá? - Não sei.
Viste o homem que saiu daqui no automóvel azul?
Com um ar antipático? Vi.
É o Horriston, o dono da Quinta.
- Temos de investigá-lo. - Não é preciso.
- Eu conheço o Horriston. - Conhece-o?
Sim. Conheci-o há uns anos.
A minha amiga, a Poppy St. Albans, sofreu bastante nas mãos dele.
Ele era um médico genuíno e depois tornou-se um charlatão.
Fez experiências com glândulas de tatu.
- Glândulas de tatu? - Sim.
Tentou injetar as pessoas com elas ou com algo igualmente nojento.
É um charlatão sem escrúpulos.
Para a Quinta?
Sim, para a Quinta.
- Temos de aumentar a dose. - Pode ser perigoso.
- Que alternativa temos? - Acho que a minha análise...
Está lá fora um sujeito que quer falar consigo, Doutor.
- Um tal Sr. Beresford. - Beresford?
- Não conheço nenhum Beresford. - Ele disse que é urgente.
- Quer que eu...? - Não.
Muito bem. Manda-o entrar.
Acompanhe-me.
- O Sr. Beresford. - Tommy Beresford.
Dr. Horriston, presumo.
- A minha sócia, a Dra. Kleber. - Muito prazer.
Irma Kleber. Estive no Instituto Schatzengruber em Genebra.
Que bom.
É muito amável em receber-me, Dr. Horriston.
O que os meus leitores gostariam de saber...
Os seus leitores?
O seu homem não lhe disse? Sou do "Daily Reporter".
Estamos a escrever um artigo sobre a cura de doenças nervosas e...
- Desculpe. Eu não dou entrevistas. - Mas decerto...
Isto é uma instituição privada. Saia imediatamente.
- Mas eu vim de tão longe... - Muldoon!
Acompanha o Sr. Beresford à saída, Muldoon.
Não me pode dispensar só cinco minutos? Não é sempre que...
Não.
Fora.
O meu editor vai ficar bastante chateado.
Pois.
Bem...
Está certo.
A propósito, como está a minha amiga, a Sra. Leigh-Gordon?
- O quê? - Ela está internada aqui, creio eu.
Não está aqui ninguém com esse nome.
- Mas ela... - Ninguém.
Que estranho, porque eu teria jurado...
Adeusinho.
Obrigado!
Olá, querida.
Ele está a mentir. Ela está lá, eu sei.
Aquela mulher corre um grande perigo. Eu sinto-o.
Quem me dera ter ido contigo.
Desculpa, minha querida, mas eu não podia arriscar.
O Horriston podia ter-se lembrado de ti.
O que fazemos agora?
Voltamos para Londres e dizemos ao Stavansson que falhamos?
- Isso não é uma boa ideia. - Pois não.
Então, temos de voltar àquela casa.
Mas eles já me viram.
Só resta uma alternativa.
Tuppence, não podes. Proíbo-te.
Tommy, não me vai acontecer nada.
E se o Horriston te reconhecer?
Impossível. Ele conheceu-me, lembras-te?
Mas desta vez
ele vai conhecer outra pessoa.
A Sra. Vera Mosgovskensky.
Sra. Mosgovskensky, é uma honra.
Claro.
- É o Dr. Horriston? - Sou.
- A Dra. Kleber. - Irma Kleber, estive no Instituto...
Ela está a ser sua amante?
Sra. Mosgovskensky, a Dra. Kleber é minha sócia.
Será...?
Por favor.
Agradeço-me.
Está com cara espantada, Doutor.
A verdade, Sra. Mosgovskensky,
é que, quando recebi o seu telegrama ontem,
eu julgue¡ que tinha cancelado a reserva.
Estou a mudar de ideias.
- É um privilégio dos artistas, não? - Sim, mas...
A minha suíte não está pronta?
Não, Sra. Mosgovskensky. Quero dizer, sim.
Então, o que não está a perceber?
- Desculpe, eu... - Eu vou repetir.
Depois da Companhia de Bailado Imperial,
eu juntei-me à companhia de Diaghilev.
Já faz sete anos.
Mas vou deixá-lo. Ele não presta. Ele é charlatão.
- Concorda perfeitamente? - Sim.
Por isso, estou a formar a minha companhia de bailado.
A Companhia de Bailado Mosgovskensky.
Mas está a exigir muito trabalho, muitas aflições de cabeça.
- Dores de cabeça. - É a mesma coisa.
Por isso, antes de começar a minha nova carreira resplandecente,
eu estou a precisar de muito repouso,
de sossego, de calma.
Quanto tempo tenciona ficar conosco, Sra. Mosgovskensky?
Vai recrutar a sua companhia na Inglaterra ou no estrangeiro?
Eu estar a fazer um juramento.
Não falo mais a língua do meu adorado país enquanto os bolcheviques,
os malditos bolcheviques,
não forem expulsos do solo sagrado da Rússia.
Tem razão, Sra. Mosgovskensky.
- Lembre-se disso, por favor. - Com certeza.
Desculpe, mas não nos conhecemos?
Impossível. Se me tivesse conhecido, não me teria esquecido.
- A sua cara é-me familiar. - Familiar?
Eu sou familiar de milhares, de dezenas de milhares, Doutor.
Peço desculpa. Claro.
Agora vou ver a minha suíte.
- Há um bar?
Receio que não sejam permitidas bebidas alcoólicas.
Não, não.
Estava a falar do barra, para treinar,
para exercitar as minhas "penas".
Sim. Vamos mandar instalar uma.
Espero bastante bem que sim.
Dra. Kleber, importa-se de levar a Sra. Mosgovskensky à sua...
...suíte?
Acompanhe-me, minha senhora.
Estou completamente deliciada.
Minha senhora.
Deliciada.
O seu quarto é ali, Sra. Mosgovskensky.
O que será que está aqui?
O quarto de outra paciente.
- Há muitas? - Como pode ver.
Na Rússia só os camponeses dormem tão próximo.
Espero que não venham incomodar-me.
Ninguém a vai incomodar.
- O que foi aquilo?
Acho que estou a ouvir uns barulhos.
Garanto-lhe, Sra. Mosgovskensky,
que aqui vai dormir como se estivesse num túmulo.
Se fizer o favor...
Espero que se sinta confortável.
É suficiente.
A ceia ser-lhe-á trazida aqui mais tarde.
Ótimo. Com um pouco de champanhe e caviar tudo fica suportável.
Antes de se deitar, não se esqueça de beber isto.
O que é, por favor?
É apenas uma infusão leve para a ajudar a dormir bem.
Dormir bem? Eu sempre durmo bem.
Lembro-me que o Grão-Duque Dimitri me disse:
"Verushka, Verushka, como consegue dormir numa altura destas?"?
Meu pobre Dimitri.
Lembro-me quando os bolcheviques lhe invadiram o palácio
e o encontraram a flutuar.
- A flutuar? - Na banheira.
O que lhe estão a fazer é uma coisa horrível.
Não se esqueça de beber isto.
- Precisa de mais alguma coisa? - Nada. De nada.
- Pode ir. - Boa noite, minha senhora.
É com o jornalista que estou mais preocupado.
Como é que ele descobriu que estávamos aqui?
Algum boato na aldeia, talvez?
Ele diz ser amigo da mulher Leigh-Gordon.
Isso é muito grave.
- Vou aumentar a dose. - Mas o risco, Doutor.
Não me interessa.
- Está decidido? - Estou.
O que está a fazer aqui?
- O que disse? - Boa tarde, chefe.
Para que quer isso?
Para esta rosa, chefe.
- E para o jasmim. - O jasmim?
Sim.
Fica todo emaranhado, chefe.
Ameaça sufocar a casa com uma profusão desenfreada.
Não é um pouco tarde para tratar do jardim?
As forças da natureza não esperam pelo homem nem pelo animal.
Desapareça. Pode fazer isso de manhã.
- Isso é uma ordem, chefe? - Sim.
É uma ordem.
Agora desapareça. Vá para casa.
Fique tão confortável e tão sossegado
como uma doninha na sua toca
ou um sapo no seu buraco, chefe.
Está fora do seu quarto, Sra. Mosgovskensky.
Eu saber isso.
Este não é o seu quarto.
Eu saber isso também.
Qual é o motivo para esta expedição à noite?
Estou perturbada. Estou agitada.
Perturbada?
Eu não estar habituada a colchão de madeira.
Compreendo.
O meu corpo magnífico protesta. Por isso, eu passeio.
- Só isso? - Não é suficiente?
Pois bem.
De manhã o seu colchão será mudado, minha senhora.
- Por hoje, terá de aguentá-lo. - Aguento sempre.
- É o destino do artista, não? - Não sei dizer.
Bebeu a sua infusão para dormir?
- Ainda não. - Então, beba.
E todos os seus problemas desaparecerão.
Faça favor.
Diga-me, Dra. Kleber,
possui um chute?
Um chute?
Um chute, assim.
Não, Sra. Mosgovskensky, não possuo um chute.
Que estranho.
A senhora lembra-me um cossaco que conheci.
Boa noite, minha senhora.
Boas noites.
Calma, minha querida.
Tommy! Que disfarce é esse?
Não julgaste que te ia deixar sozinha neste covil, pois não?
Querido...
- Estás horrível. - Estou?
Pensava que me estava a sair bem. E arranjei um sotaque espantoso.
Ouve. Temos de ordenar...
A Dra. Kleber apanhou-me em falso...
Ela quis tentar obrigar-me a beber uma mistura nojenta,
mas eu deitei-a no vaso.
Tommy, este sítio é muito pior do que nós pensávamos.
Conseguiste descobrir alguma coisa sobre a Sra. Leigh-Gordon?
Acho que a trancaram.
Santo Deus. Pobre criatura.
Consegui esgueirar-me para o corredor
e ouvi um barulho vindo de um dos quartos.
Parecia uma mulher a gemer ou algo do gênero.
Tentei abrir a portar, mas estava fechada.
Tommy, o que vamos fazer?
Bem... Podemos sempre ir à polícia.
Mas não temos provas suficientes.
Deitarmos tudo a perder agora seria horrível.
- Sim. - Tommy...
Desculpa, minha querida.
Obrigada.
Se ao menos conseguíssemos entrar naquele quarto.
- Está fechado, dizes tu? - Sim.
- Não sei onde está a chave. - Espera.
- É deste lado do corredor? - Não, do outro.
Que chatice.
Podia tentar usar a escada.
Esquece.
Vamos ter de forçar a porta.
- Tuppence. - Desculpa, querido.
- Ou arrombá-la. - Não conseguiria.
Há sempre alguém de vigia.
A Dra. Kleber ou aquele horrível Muldoon.
Nesse caso, terei de pensar em algo absolutamente genial
que faça com que não haja ninguém por perto, ou será tarde demais.
- Tommy. - O que foi?
- Querida, tiveste uma ideia? - Acho que...
Acho que sim.
Talvez resulte.
Tommy.
Vou ter de ser muito corajosa.
Segue-me.
- Tenho de ficar aqui. - Hoje, não.
- O Dr. Horriston disse... - As ordens mudaram.
Precisamos de ti noutro lado.
Ela não nos vai causar problemas.
Anda.
Eu sei que estão admiradas por eu vos ter chamado aqui.
Não há razão para alarme.
Estou autorizado a anunciar-vos que, entre as nossas hóspedes,
está a distinta bailarina russa, a Sra. Vera Mosgovskensky.
A Sra. Mosgovskensky informou-me
que tem todo o prazer em nos entreter e deliciar
com uma exibição da sua arte.
Sim, ela vai dançar para nós.
A Sra. Mosgovskensky.
Meus amigos, meus queridos amigos.
Esta manhã vou dançar para vós alguns maravilhosos "enxertos"...
Desculpem, quis dizer excertos
do imortal bailado "Lac des Cygnes",
"O Lago dos Cisnes".
Foi escrito, como sabem, pelo meu grande compatriota,
o gênio imenso Pyotr Tchaikowsky.
Ele era um grande, grande compositor.
Mas também um homem muito trágico.
Lembro-me de uma vez em Yakutsk...
Mas jurei não mais falar disso.
É a música dele que interessa, não?
Muito bem...
Vou começar com o meu primeiro solo sensacional.
Como Odette, a rainha dos cisnes brancos,
vou levar alegria ao coração de todos no teatro.
E do teatro para o mundo.
Agradeço-vos.
Mas primeiro...
Tenho de vos pôr completamente a par da história.
Se não souberem a história do bailado,
não vão apreciar a minha arte inacreditável.
É verdade? Sim.
Têm de imaginar para vós
uma pequena aldeia no campo.
Depois de uma abertura linda,
o pano sobe para revelar meninas e meninos da aldeia
a brincarem alegremente uns com os outros.
Sim, eles estão muito contentes.
E porquê?
Porque o belo príncipe chegou.
E o nome do belo príncipe
é Príncipe Encantado.
E ele chegou para os desportos campestres.
E toda a gente na aldeia está desejosa de o ver
e aos seus belos companheiros.
Ele aproxima-se da casa...
Mas o que é isto?
Ele atingiu-a. Sim, meus amigos.
A bela rainha dos cisnes brancos caiu no chão.
Uma seta cruel da besta do Príncipe Encantado
penetrou no seu peito magnífico.
Nos terríveis estertores da agonia da morte,
ela executa uma dança delicada.
Mas têm de saber que a Odette não é a única rainha dos cisnes linda.
Claro que não. Há outra. E o nome dela é Odile.
Mas ela é um cisne negro
e a missão dela é má.
E porquê, meus amigos?
Vou dizer-vos.
Porque ela está sob a influência maligna do Feiticeiro Malvado.
E o coração dele é negro.
O Feiticeiro Malvado
chama-se
Abanazarov.
E ele está a tentar escravizar o belo príncipe.
Sra. Leigh-Gordon?
Hermy?
O que fará o belo príncipe?
Ele acredita sinceramente que está a dançar com a Odette,
a bela rainha dos cisnes brancos.
Ela voa graciosamente.
Mas a realidade é bastante diferente.
Não é a Odette, mas a Odile,
a rainha dos cisnes negros disfarçada.
Céus, que grande confusão.
Por favor!
Por favor ouçam com atenção, por favor!
Peço a vossa atenção!
Vou chegar agora à parte mais importante da história.
Quando o segredo do Feiticeiro Malvado
vai ser revelado.
Sra. Leigh-Gordon?
E, assim, eles ficam unidos
num final feliz de partir o coração.
Todo o teatro chora lágrimas de felicidade.
O Feiticeiro Malvado
casa com a avó do Príncipe Encantado.
Os cisnes voam.
E o Príncipe e a sua amada Odette... Ou será a Odile?
Ou será a Odette nesta altura? Não sei. Não é importante.
O Príncipe e a sua amada Odette
afundam-se
nas águas banhadas pelo luar do lago mágico.
O pano
cai.
É lindo.
Não é?
- Sra. Mosgovskensky... - Não está a perceber.
- Quer que conte história outra vez? - Não, não.
Decerto que todos a achamos muito esclarecedora.
Têm perguntas para fazer?
Sobre a minha infância em San Petersburgo, talvez?
Sra. Mosgovskensky, estamos à espera que dance!
Isso é natural.
Sempre, sempre imploram que eu dance.
Então, por amor de Deus, comece!
Por favor, sente-se.
Estou pronta para a grande entrada.
- Não. - O que foi agora?
As minhas "achas"? Onde estão as minhas "achas"?
As suas achas?
Como pode a linda rainha dos cisnes brancos voar sem as suas "achas"?
Estou a lembrar-me. Estão no meu quarto.
Muldoon...
Não, não se incomode. Eu vou num instantinho.
Todos...
Todos devem esperar com fervorosa antecipação.
- Sra. Mosgovskensky... - Ninguém...
Mas ninguém mesmo deve sair desta sala.
- Tuppence! - Tommy!
- Encontraste-a? - Sim. Anda.
- Mas onde está ela? - Cá em cima.
Não a podemos deixar aqui.
Explico-te depois.
Anda!
Parem!
Não.
Depressa.
Espera.
Muldoon!
- Estás bem, querida?! - Estou!
Anda!
- Tommy, não posso mais. - Vá lá, querida, arranja forças.
Belo truque, não? Depressa.
Fracassamos.
- Estás bem? - Mais ou menos.
O tornozelo dói-me como tudo.
Tommy, tu foste maravilhoso.
Tu também estiveste muito bem.
- Para onde, para a polícia? - Não.
- Vamos avisar o Stavansson? - Não.
- Mas a Sra. Leigh-Gordon... - Ela não precisa de nós.
- Queres dizer que está morta? - Não temos essa sorte.
Não, ela está a emagrecer.
- O quê? - A emagrecer.
Ela está a emagrecer.
Tu sabes.
- Está a perder peso. - A perder peso?
Lembras-te de o Stavansson dizer que detestava mulheres gordas?
Nos dois dias em que esteve fora, a sua Hermy esteve a engordar.
Ela entrou em pânico quando soube que ele ia voltar
e correu a fazer este novo tratamento do Horriston.
Consiste numas injeções.
Ele faz um grande secretismo disso e cobra bem.
O Stavansson voltou quinze dias mais cedo.
E ela estava só a começar o tratamento.
Não me digas.
Lady Susan tentou protegê-la e o Stavansson ficou desconfiado.
Viemos cá fazer figura de parvos.
Já para não falar que fomos maltratados pelo pessoal.
E eu...
Eu sou culpada da pior farsa de todas.
E, pior ainda,
estraguei uma camisola ótima.
Pelo menos, o Stavansson val ficar feliz.
Não te atrevas a mencionar isto a ninguém.
Está bem.
Afinal de contas,
nós não saímos propriamente bem deste caso.
Consegui parecer o Velho Marinheiro.
- Tommy... - Sim?
Tu estás... esquisito.
Então?
Desculpa.
Prometo que nunca mais falo no assunto.
Ótimo.
Ressincronização por @maopequena
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