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Original subtitles

AGATHA CHRISTIE PARCEIROS NO CRIME

AS BOTAS DO EMBAIXADOR

Saúde.

- Olá, Harry. - Olá, sr. Embaixador.

Prazer em vê-lo.

...o seu homem pegou na minha mala e acabou por trocar as duas.

Deve estar a confundir-me com outra pessoa.

O quê?

Mais uma vez, meus queridos, muito obrigada.

Obrigada e obrigada.

Não nos agradeça mais, srta. Lestrange.

Fizemos apenas o nosso trabalho.

Trabalho que se tornou um prazer, srta. Lestrange.

E o seu convite para a recepção na embaixada...

Foi muito gentil.

Tolinho...

contenta-se com pouco.

O meu país quis apenas agradecer-vos

por resgatarem uma das suas mais humildes cidadãs.

Caso contrário, quem sabe?

E aí vem o seu representante. Randolph, meu querido!

Apresento-lhe o homem responsável por salvar a sua pobre Virna

das garras dos raptores.

Apresento-lhe o embaixador dos EUA, o sr. Wilmott.

Este é o sr. Blunt, o famoso detective privado.

Muito prazer.

Muito gosto, sr. Blunt.

E esta é a sua assistente, srta. Robin.

...son. Robinson.

Muito prazer.

Mais uma vez, muito gosto.

Deem-me licença. Vou fazer a prova da minha coroa.

- Coroa? - De Maria da Escócia.

- Para o seu filme! - "A Moça das Urzes".

Tão triste...

E, amanhã, perco a cabeça! Imaginem só.

Pois...

"Adieu", meus amigos.

Voltaremos a encontrar-nos, tenho a certeza.

Que mulher colossal!

Temos muito orgulho em acolher srta. Lestrange

como uma das nossas cidadãs mais recentes.

E estamos-vos muito gratos por terem evitado o seu rapto.

Procuramos apenas satisfazer com a maior brevidade possível.

Seja como for, srta. Robinson, 24 horas é um recorde absoluto!

Fiquei de tal forma impressionado

que gostaria de vos falar de um outro assunto

que me chamou a atenção.

Um assunto de natureza profissional?

Não deve ser nada de importante, mas é que...

Estão livres amanhã, às 15h20?

- Sim. - Ótimo.

- Vimos ter aqui à embaixada? - Não.

Gostaria de conhecer o interior duma agência de detectives britânica.

Far-vos-ei uma visita.

Muito obrigado.

Como eu dizia, sr. Blunt, não vale a pena incomodar a Scotland Yard.

Não saí prejudicado em nada

e presumo que tenha sido um simples engano.

Seja como for, não se¡ como possa ter sucedido.

Não tem nada de criminoso. Obrigado, mas não como doces.

Gostava de esclarecer o assunto.

Não descanso enquanto não resolver esta questão.

Com certeza. Vamos recapitular.

Há uma semana, desembarcou do transatlântico "Nomadic".

Por algum motivo, a sua mala e a mala do sr. Ralph Westerham,

que tem as mesmas iniciais, foram trocadas.

Ficou com a mala do sr. Westerham e vice-versa.

O sr. Westerham deu pela troca, enviou a sua mala para a embaixada

e fez nova troca.

Exatamente, srta. Robinson. Perfeito.

As duas malas deviam ser praticamente idênticas,

e tendo gravadas as mesmas iniciais, R.W.

é perfeitamente legítimo que tenha havido uma troca.

Eu só tive consciência da troca quando fu¡ informado pelo meu criado

e o sr. Westerham, um senador por quem tenho grande admiração,

mandou buscar a sua mala e trocá-la pela minha.

- Então, não percebo... - Mas já vai perceber, sr. Blunt.

Já vai perceber.

Ontem, durante a recepção,

e pouco antes de me juntar a si e à encantadora srta. Robinson,

encontrei o Senador Westerham.

Mencionei o assunto de passagem e, para minha surpresa,

ele pareceu não saber do que eu estava a falar.

Quando lhe contei a história, negou-a categoricamente.

Não tinha trocado as malas quando desembarcou do navio

e nem sequer tinha viajado com tal mala.

- Que história tão singular. - Deveras, sr. Blunt.

Não faz qualquer sentido.

Se alguém queria roubar a minha mala,

podia tê-lo feito sem recorrer a artimanhas tão rebuscadas.

Mas nem sequer foi roubada, foi-lhe devolvida.

Por outro lado, se foi um engano,

porquê envolver o Senador Westerham?

Não tem pés nem cabeça, minha querida.

Mas, só por curiosidade, gostaria de saber o que se passou.

A sua mala estava intacta quando foi devolvida?

O meu criado diz que sim. Ele deve saber.

Posso saber o que continha?

Claro que sim, srta. Robinson.

A minha mala continha botas.

- Botas? - Sim, botas.

Não é estranho?

Quem foi levantar a outra mala?

Um dos criados de Westerham. Um homem vulgar, ao que sei.

O meu criado não desconfiou dele.

- A mala havia sido desfeita? - Que eu saiba, não.

Mas talvez queira falar com o meu criado.

sr. Richards?

- Só Richards, senhor. - Muito bem.

- Vamos sentar-nos? - Obrigado, senhor.

Queria falar-lhe da mala cheia de botas.

Sua Excelência avisou-me da sua vinda,

mas não sei em que lhe possa ser útil.

Eu sei que o sr. Wilmott ficou aborrecido com a questão,

mas não vejo porquê, não houve grande dano.

Tem a certeza, Richards?

Ao que julgo saber, não.

O homem que a veio buscar disse pertencer ao Senador Westerham,

mas posso estar enganado. - Que tipo de homem era?

De meia-idade, cabelos grisalhos.

Um homem de fino trato, muito respeitável.

Disse que era criado do Senador Westerham.

Deixou a mala do sr. Wilmott e levou a dele.

- A mala havia sido desfeita? - Qual delas?

A mala que trouxe do navio.

Mas já agora, pergunto o mesmo da outra,

a mala do sr. Wilmott.

Acha que lhe mexeram?

Creio que não. Estava tal como a fiz, no navio.

Diria que o cavalheiro, fosse ele quem fosse,

abriu a mala, percebeu a troca e voltou a fechá-la.

Não faltava nada? Nenhum artigo pequeno?

Creio que não, senhor.

Tenho quase a certeza.

E a outra mala? Já tinha começado a desfazê-la?

Na verdade, tinha acabado de a abrir

quando chegou o criado do senador. 'Unha aberto as comuns.

Olhou para dentro da mala?

Abrimo-la juntos, para que não houvesse maus enganos.

O homem disse que estava tudo em ordem,

voltou a pôr as correias e levou-a consigo.

Continha botas?

- Perdão? - A mala.

Não, senhor.

Então, o quê?

Não reparei.

Artigos de higiene pessoal, julgo eu.

Creio ter visto uma lata de sais de banho.

E não viu ninguém a rondar o camarote do seu patrão?

- Não, senhor. - Não viu nada suspeito?

Não.

Espere um pouco.

- Estou a lembrar-me de algo. - O quê?

Não deve ter nada a ver com o assunto,

mas havia uma jovem...

Sentiu-se maldisposta _ porta do camarote do sr. Wilmott.

O mar estava picado e ela parecia muito debilitada.

Levei-a para dentro para ela recuperar.

Pediu-me para chamar o médico,

por isso deixei-a lá e fu¡ à procura dele.

Quando voltei ela parecia estar bem.

A jovem disse-lhe como se chamava?

Eileen O'Hara.

Tinha estatura mediana e cabelo preto.

Tinha um ar estrangeiro.

- Pensa que ela... - Não sei o que pensar, Richards.

Essa srta. O'Hara viajava sozinha?

Creio que sim, senhor.

Não a viu mais depois de desembarcar?

Não, senhor.

Muito bem.

Por ora é tudo, Richards. Obrigado.

Por ora, senhor?

Posso querer fazer-lhe mais algumas perguntas.

Afinal, depois lembrou-se da Eileen O'Hara, não foi?

Eileen O'Hara...

Meu querido Tommy, é demasiado irlandês para ser verídico.

E o desmaio súbito... E tudo demasiado suspeito.

Deve ser uma espia alemã,

como a Alice Terry em "Mare Nostrum".

Fez tudo por amor.

Nem todos são maus, sabe?

Folgo em sabê-lo, Albert.

Acham que é muito...

Eu cá acho que é pouco.

És um bota-de-elástico, Tommy.

É a última moda e não tenho mais nada para vestir.

Não sabia que íamos sair hoje.

Eu vou, tu não.

Albert, chama-me um táxi, sim?

- Albert! - É para já.

Espera aí. O que se passa, querida?

É trabalho, Tommy.

Trabalho, trabalho, trabalho.

Desculpa, esqueci-me de te dizer.

Enquanto estavas na embaixada,

o embaixador convidou-nos para jantar no Savoy.

Ótimo.

É a minha vez de investigar sozinha.

Levaste a Virna Lestrange ao Ritz duas vezes,

já para não falar do Green Parrot.

E pensei que não gostasses de dançar. É muito cansativo.

Perdão, minha querida.

Tem de desculpar este velho por não estar à sua altura.

Ora essa, Excelência, dança divinamente.

Pensei que já tínhamos passado a fase da "Excelência".

Trate-me por Randy.

Com todo o gosto.

- Trate-me por Tuppence. - Tuppence?

- Como a vossa moeda? - Exatamente.

Que nome tão invulgar... mas encantador.

Quer mais uma taça de espumante, Tuppence?

Ótima ideia, obrigada.

Este Green Parrot tem um ambiente muito característico.

Obrigado por me ter trazido aqui, Tuppence.

Foi uma pena os seus amigos não terem podido vir.

É verdade, uma pena. Mas eu estava determinado a VII'.

Um embaixador deve saber como se divertem os britânicos.

Tive pena que o sr. Blunt não tivesse vindo.

Também ele. Mas vai gostar de saber que gostou do sítio.

É engraçado, não é?

O sr. Blunt insistiu que o trouxesse cá.

Passamos a vida aqui.

Mas deve haver clubes destes em Washington.

A cidade de Washington pode ter sítios como este,

mas tal como o resto dos EUA, também está sujeita à Lei Seca.

Não convém que um embaixador seja visto num bar ilegal.

Mesmo nada.

Seja como for, a Edith... a sra.. Wilmott

não pode beber.

Estimula em demasia a sua libido.

É a segunda sra. Wilmott, compreende?

Compreendo.

Está nos EUA?

Foi visitar a mãe no Maine.

No Maine?

Não é essa a cidade que é parecida com a Inglaterra?

O clima é muito semelhante.

Diga-me cá,

a sra. Wilmott saiu do país após o seu regresso dos EUA?

Não, fizemos a travessia juntos. Fomos duas semanas a Washington.

Ela seguiu para Maine e eu regressei sozinho.

Vai prosseguir com o interrogatório, Tuppence?

Não lhe escapa nada.

Mas devo fazer umas perguntinhas para justificar a minha presença aqui.

No que me diz respeito, não precisa de justificação.

- Pergunte à vontade. - Obrigada.

Envolveu-se com alguma mulher a bordo do navio?

Tuppence!

Excelência... Randolph...

Estou só a perguntar se foi abordado por alguém suspeito,

esse tipo de coisas... - Ninguém em especial.

Lembro-me de encontrar alguns rapazolas entusiastas.

Todas as noites, davam espetáculo no salão.

- Bebiam em demasia. - Talvez mais do que isso.

Pareciam alucinados...

como se vivessem uma experiência à parte.

Uma noite, descobriram quem eu era,

cercaram a minha mesa e recusaram-se a sair dali.

Passei a jantar no meu camarote.

- Foi só isso? - Que eu me lembre, sim.

E em relação à Eileen O'Hara?

O Richards falou-lhe nela?

Tem piada... Quase já nem me lembrava dela.

Mas não vejo como possa estar relacionada com o caso.

A verdade é que nos conhecemos por acaso.

Parece que desmaiou _ porta do meu camarote,

o Richards levou-a para dentro e foi chamar o médico.

Esquecera-me da minha charuteira e voltara para a ir buscar

quando encontrei uma jovem sentada no meu camarote.

O Richards apareceu com o médico, mas ela disse que se sentia melhor.

O Richards acompanhou-a ao seu camarote...

e foi a última vez que a vi.

Como soube o nome dela?

Faço questão de saber os nomes das pessoas com quem contacto.

Acha que ela fingiu a indisposição?

Não seria a primeira vez.

Mas acho que o sr. Blunt vai querer voltar a falar com o Richards.

- Com certeza. - Temos de ir, Excelência.

Sebastian!

Pobre rapariga... Detesto ver estas coisas.

Se a bebida tem este efeito nas jovens,

talvez a nossa Lei Seca tenha razão de existir.

Acho que ela não ingeriu apenas álcool...

George, o meu pó-de-arroz...

Pobre Randolph. Deve estar muito abalado.

E pobre Richards, não? Não tens pena dele, querida?

Sim, claro.

Ele desperdiçou a sua vida, o que é uma tragédia e um infortúnio.

Mas devia ter a consciência pesada em relação a algo.

A polícia parece achar que se deveu a um desequilíbrio mental.

Precisamente.

Resta-nos descobrir a causa e o causador desse desequilíbrio.

E por onde devemos começar, Watson?

O Watson és tu, eu sou o Holmes neste caso.

Como assim?

Eu já descobri a identidade do causador.

E quem é ele?

- Não consegues adivinhar? - Talvez, mas não me quero enganar.

Não te enganarias, querido. Isso é impossível.

Acaba lá com o mistério, Tuppence.

Se pensas que sabes quem causou o suicídio do Richards, conta-me.

Não penso, meu querido, tenho a certeza. Foste tu.

- Obrigadinho. - Desculpa, querido.

É o preço que pagamos pelas nossas indagações.

Acendeste um rastilho que devia ser muito curto.

Acaba lá com a conversa de romance policial de segunda.

O Richards não me disse nada que não tivesse dito ao embaixador.

A única informação que me deu de livre vontade, nota bem,

dizia respeito à rapariga... - Eileen O'Hara.

E achas que se lembraria dela

se o embaixador não tivesse voltado para ir buscar a charuteira

e os tivesse encontrado juntos? E que, mais cedo ou mais tarde,

o embaixador se lembraria dela e nos contaria o que se passou?

Foi ela, Tommy.

Encontra-a e descobrirás o motivo por detrás da troca das malas

e do suicídio do pobre Richards.

Muito bem, Watson.

"Watson"?

Folgo em ver as minhas suposições confirmadas.

"Quem tiver informações sobre srta. Eileen O'Hara,"

"que viajou de Nova Iorque para Southampton a bordo do "Nomadic","

"deve contactar..."

a agência de detectives Blunt, o mais depressa possível."

"28, Haleham Street."

Coloquei o anúncio ontem, depois de sair da embaixada.

Vou almoçar com a Poppy St. Albans.

Ela convidou as meninas.

Depois, talvez vá às compras. Posso chegar tarde.

Céus, que maçada.

Desculpa?

Vais ter de ficar ali sentada a ouvir as raparigas

a falar das histórias de guerra e do voluntariado.

Pode ser uma maçada para ti, mas não para mim.

Orgulhamo-nos do auxílio prestado ao Destacamento de Voluntários.

Ora, ervilhinha...

E, de vez em quando, é bom passar tempo com pessoas que nos apreciam.

Faz bom proveito das sanduíches, Tommy.

Tuppence, eu não queria...

Raios!

Eileen O'Hara.

Tinha estatura mediana e cabelo preto.

Tinha um ar estrangeiro.

Não aguento mais, Albert.

Vou passar a tarde a bater à máquina. Estou exausta.

Está bem, Tilly. Por hoje já chega.

Sinto que a minha técnica de vigilância melhora a cada dia.

Quantas vezes percebeste que te seguia?

Quatro... Cinco vezes, acho eu.

- Achas? - Cinco vezes!

Estou na minha hora de almoço, Albert.

Quantas vezes te mostraste?

Bem... estive sempre visível. Quis confundir-me com a paisagem.

- Queres ir ao cinema hoje? - Outra vez o filme de cowboys?

- Pensava que gostavas. - Nem sequer goste¡ da primeira vez.

Acho que é uma grande inovação na arte do cinema.

Os cartazes ficarão contentes por concordares com eles.

Como queres que aperfeiçoe a minha técnica com o laço?

Não sei.

Não há muito gado em Bethnal Green para poderes praticar.

Já pratiquei. Mas quero ser o melhor.

Não percebes que a minha profissão requer Inúmeras competências.

- Bolas, são duas horas! - O quê?

Encontramo-nos à porta do cinema, às 18h15.

- Por que tão cedo? - Para vermos o filme duas vezes.

Sr. Blunt?

- Não a ouvi a entrar. - Parece que não.

Ontem à noite, tive um caso difícil. Estas coisas deixam-nos de rastos.

- Não se quer sentar? - Obrigada.

Em que posso ajudá-la?

Vi o seu anúncio no jornal de hoje.

Eu também fiz a travessia a bordo do "Nomadic".

É esta a agência do Blunt metediço! Mãos ao ar ou disparo!

Esta senhora vem comigo.

Sim, minha querida. Não me conhece, mas não importa.

Não é uma intrometida como você que val dar cabo dos meus planos!

Lembro-me de a ver a bordo do "Nomadic".

Deve ter metido o nariz onde não era chamada,

mas não permitirei que conte os meus segredos ao sr. Blunt.

O sr. Blunt foi muito esperto ao colocar aquele anúncio.

Mas acontece que eu também leio os anúncios.

Foi assim que percebi o seu esquema.

Despertou a minha curiosidade. Continue.

A ousadia não lhe servirá de nada, sr. Blunt.

A partir de agora, é um homem marcado.

Esqueça esta investigação e não lhe faremos mal.

Caso contrário, que Deus tenha pena de si.

A morte chega célere para aqueles que se Intrometem nos meus planos.

Não!

Apanhei-o! Consegui apanhá-lo com o meu laço!

Tenho praticado no meu tempo livre.

Pode dar-me uma mãozinha? Ele é muito violento.

És um idiota, Albert. Porque não chamaste a polícia?

Ele podia ter-me dado um tiro!

Foi uma sorte ter escapado ileso.

Apanhei-o mesmo à justa. Se a Tilly me visse agora...

É extraordinário o que aqueles tipos conseguem fazer na pradaria.

Certo, mas não estamos na pradaria. Estamos numa cidade muito civilizada.

Muito bem, meu caro.

O que vamos fazer consigo?

Não percebo patavina do que está a dizer,

mas presumo que não seja digno dos ouvidos de uma senhora.

Não ouça o que ele diz, srta....

No meio desta confusão, até me esqueci do seu nome.

- March. - Perdão?

- Cicely March. - Compreendo.

- O que vai fazer com ele? - Posso ir chamar um agente.

Não. Vou deixá-lo ir embora.

Mas vou ter o prazer de o pontapear escada abaixo

para o ensinar a comportar-se à frente de uma senhora.

Meu caro senhor!

O senhor... magoou-o?

Espero bem que sim. Mas menos do que parece.

Entremos no meu gabinete para retomarmos a nossa conversa.

Creio que não voltarão a interromper-nos.

Seja como for, terei o meu laço à mão.

Podes guardá-lo, Albert.

Pode dizer, srta. March.

Nem sei por onde começar.

Como aquele homem horroroso disse,

eu viajei a bordo do "Nomadic".

A senhora do anúncio, srta. O'Hara, também estava a bordo.

Isso já nós sabemos,

mas desconfio que sabe algo mais sobre o que fazia a bordo do navio,

caso contrário, aquele cavalheiro não terna agido daquela maneira.

- Vou contar-lhe o que sei. - Ótimo.

O embaixador americano também seguia a bordo.

Um dia, estava a passar pelo seu camarote

quando espreitei pela vigia e vi aquela mulher.

Estava a fazer algo tão inusitado

que parei para observar.

Tinha uma bota de homem na mão

e estava a cortar as costuras com uma tesoura.

A seguir, colocou algo lá dentro.

Foi nesse momento que o embaixador apareceu

e ela reclinou-se no sofá fingindo desmaiar.

Depois apareceu o médico com outro homem e eu segui caminho.

Disse que fingiu desmaiar

porque quando a vi ela estava de perfeita saúde.

Continue.

Tenho vergonha de contar o que se passou a seguir.

Fiquei curiosa

e tinha estado a ler uns livros muito patetas.

Imaginei que tivesse colocado uma bomba ou uma agulha envenenada

na bota do sr. Wilmott.

Sei que parece um disparate, mas foi o que pensei.

Quando passei pelo camarote vazio, resolvi entrar

e examinar a bota.

Retirei um papel de dentro do forro.

Quando o tinha na minha mão,

ouvi o criado a regressar e escapuli-me para não ser apanhada.

O papel dobrado continuava na minha mão.

Examinei-o assim que cheguei ao meu camarote.

Continha apenas uns versículos da Bíblia.

- Versículos da Bíblia? - Foi o que pense¡ na altura.

Não percebi. Pensei que fosse obra de um fanático religioso.

Achei que não valia a pena voltar a colocá-lo no lugar,

por isso guardei-o e não pensei mais nele...

até ontem. - Ontem?

Usei-o para fazer um barquinho para o meu sobrinho brincar no banho.

Assim que o papel se molhou,

vi surgir um desenho muito estranho.

A água tinha revelado uma mensagem escondida.

Era uma espécie de mapa

referente à enseada de um porto.

Foi depois disso que II o seu anúncio.

Isso é muito importante.

Agora percebo tudo.

O mapa devia ter os planos de defesa de um porto importante

e foi roubado por essa mulher.

Desconfiou que estava a ser seguida e temendo ser apanhada na sua posse

pensou nesse esconderijo.

Mais tarde, apoderou-se da mala que continha a bota

e deu conta que o papel tinha desaparecido.

srta. March, trouxe o papel?

Não, está no meu estabelecimento.

Tenho um salão de beleza em Bond Street.

Represento os produtos Cyclamen, de Nova Iorque,

foi esse o motivo da minha viagem.

Achei que o papel era importante por isso guardei-o no meu cofre.

Não devíamos informar a Scotland Yard?

Sim, deveras.

Vamos lá busca-lo agora para o entregarmos à Scotland Yard?

Estou ocupado. O Bispo de Londres pediu-me para ir averiguar um caso.

É um caso curioso que envolve alguns paramentos e dois sacristães.

Nesse caso, vou sozinha.

O que eu ia dizer é que o bispo pode esperar.

Vou dar instruções ao Albert.

Receio bem...

que enquanto o papel não estiver nas mãos da Scotland Yard,

a senhora corra grande perigo.

- Acha que sim? - Tenho a certeza.

- Céus... - Vamos?

- Gosta de caminhar, srta. March? - Sim. Porquê?

Não devíamos apanhar o táxi? Sena mais rápido.

Talvez não tenha reparado,

mas o taxista recusou uma corrida mais ao fundo da rua.

Os seus inimigos estão à espreita. Ele estava à nossa espera.

Se não se importar, é melhor irmos a pé até Bond Street.

Não farão nenhuma jogada numa rua movimentada.

Muito bem.

Não me tentes desmentir, Tuppence, é a mais pura das verdades.

A tua vida é cheia e a minha é vazia.

Que disparate, Poppy. Olha só para a tua casa.

Tens tanto para manter... branco. E ainda tens de cuidar do Pongo.

Dizem que pode ser promovido na próxima dança das cadeiras.

Ouviste isso, Estelle? Que bom.

Eu não sei de nada. Ele quase não para em casa

e quando para, adormece à frente da comida.

Ontem, adormeceu em cima da entrada.

A Manners ficou fula quando Velo levantar os pratos.

Trabalha que se farta no Governo, deve poder dormir onde quiser.

Se eu adormecesse em cima de um dos pratos da Estelle,

era o fim da macacada. - Podes ter a certeza.

O problema é que estou enfadada.

Sei que estou a ser ingrata, quando eu tenho tudo isto

e sabemos que os pobres não têm nada.

Têm-se uns aos outros, Poppy.

Isso é verdade, querida. E uma grande verdade.

O ônus da nossa classe social é a solidão.

O nosso intelecto é superior.

Só pode sentir a solidão quem tem cérebro.

- Sinto falta da guerra. - Francamente, Poppy!

Não estou a falar dos combates e daqueles pobres rapazes,

mas do perigo e da emoção.

Não podes voltar a ser enfermeira só para afugentar o enfado.

Não devia haver muito perigo quando levavas generais do quartel ao Savoy.

Só para os peões e para os outros condutores.

Estás a ser injusta. Eu era uma excelente condutora.

Toda a gente dizia isso. Só porque foste destacada para os víveres...

- Não fui nada. - Foste, pois.

Por favor, meninas, não discutam!

Todos demos o nosso contributo, e acho que percebo a Poppy.

Sente falta do companheirismo.

Da sensação de lutarmos juntas contra _m inimigo comum.

Sim, isso mesmo!

Reconheço que também sinto falta disso.

- Mesmo tendo o Tommy? - Sim, Estelle.

Mesmo tendo o Tommy.

E ele sente o mesmo, o pobre querido.

Tenho sido ríspida com ele e não imagino porquê.

Não deve ser fácil estarem sempre juntos.

- Refiro-me ao trabalho. - Acho que não é isso.

Esperem um pouco, meninas...

Um recado para a sra. Beresford. Disseram que era urgente.

- O Albert esteve aqui? - Não me disse o nome.

Perguntou-me se já tinha ido ver o filme de cowboys.

- Era o Albert. - Disse que ia voltar para a agência,

mas que o recado era uma questão de vida ou morte.

Que emocionante. O que foi, Tuppence?

- Há algum problema? - Infelizmente, sim.

O Tommy corre perigo de vida.

Vou ligar à Polícia. Manners, o telefone...

Não há tempo. Tenho de ir já.

- Tens carro, Poppy? - Claro.

Mas está carregado com roupas para os pobres de Kensington.

E eu disse ao Wilkins que não precisaria dele hoje.

Nem vais precisar. Todas sabemos conduzir.

Anda daí, St. Albans! Não querias emoção?

Vais ter emoção a rodos.

E vais poder ajudar a cara-metade de uma amiga.

- Quer dizer... - Sim, querida. Vamos contigo!

Está bem, venham.

Já coloquei os óculos. Vai correr tudo bem.

Vamos a isto, meninas!

Acha que já podemos sair, sr. Blunt?

Não vi ninguém suspeito desde que entramos aqui.

- Isso foi o quê, há dez minutos? - Creio que foi há 15.

Ótimo.

Podemos partir do princípio que os conseguimos despistar.

Vamos arriscar?

Obrigado.

Queira sentar-se. Vou ver se o Rodrigo a pode atender.

Não tenho tempo a perder.

Passou por aqui alguém estranho?

Não, madame, o normal. Tivemos uma grande afluência,

mas como houve cancelamentos, conseguimos atender toda a gente.

O Rodrigo deu conta do recado?

Sim, "madame".

Excelente. Vou lá dentro com este senhor.

Informe-me se aparecer alguém estranho.

Boa ideia. A propósito, chamo-me Blunt.

Caso alguém pergunte por mim.

Mas duvido que perguntem por mim aqui.

Já tomei nota, "monsieur".

Vamos ter de passar pela sala de tratamentos

para chegarmos ao meu escritório.

Tem aqui estilos decorativos muito contrastantes, srta. March.

Sim.

Mas não posso esperar que mulheres que querem ser diferentes do que são

frequentem estabelecimentos que tenham uma decoração destas.

Não é esse o cerne da sua profissão, srta. March?

Esconder a verdade? Falo de simulação cosmética.

Gostaria de saber o que atrai uma jovem

para um negócio tão falso.

O dinheiro, sr. Blunt.

Muito dinheiro.

Demasiado para ser posto em risco

pelas investigações diletantes de um detective privado inglês.

Presumo que não seja inglesa, srta. March.

Talvez prefira que a trate por srta. O'Hara,

apesar de nós não estarmos convencidos que seja Irlandesa.

- Nós... - Perdão.

Eu não estou convencido, a minha esposa tem a certeza.

Eileen O'Hara é demasiado irlandês para ser verídico.

Foi isso que ela me disse.

Parece ser mais sagaz do que você, sr. Blunt.

Em assuntos de mulheres ninguém lhe passa a perna.

Ensinou-me a distinguir uma loura oxigenada de uma natural.

Só uma loura natural é que me consegue dar a volta.

Parece que não o consegui enganar.

Desta vez, não tem o seu empregado para o ajudar, sr. Blunt.

A carrinha está nas traseiras?

Ótimo.

O algodão não serve apenas para remover a maquilhagem.

Clorofórmio, sr. Blunt.

Não vai sentir nada assim que perder os sentidos,

e vai estar inconsciente quando for atirado ao rio.

Rodrigo, queres ser tu a administrá-lo?

Não pode entrar aí. Insisto que aguarde lá fora.

Onde está ele? Tommy, estás bem?

Estou ótimo. Administras isto ali ao nosso amigo estrangeiro?

Sustenham a respiração, meninas.

- Olá, Tommy. - Olá, Estelle.

Bom trabalho, Poppy.

TUPPence!

Achei por bem encerrar o expediente mais cedo.

Por aqui, Inspetor. É um caso de vida ou morte...

Há muito tempo que andávamos à procura daquele cavalheiro.

Bom trabalho.

Quase não a reconheci nessa figura, srta. Tuppence.

Ainda bem, Inspetor.

Não está aqui por acaso, presumo.

Claro que não. Cada jogada foi meticulosamente coordenada.

O trabalho de equipa é tudo, não concorda, Inspetor?

Com certeza.

E nada disto seria possível sem a ajuda das meninas.

- Foi como na guerra. - Na guerra?

Fomos todas voluntárias.

Conduzíamos ambulâncias, e coisas assim.

- Só a farda é que era diferente. - la perguntar-vos sobre isso...

As roupas da Poppy.

Não sei o que os pobres de Kensington fariam com vestidos de Paris.

Pensei que iriam animá-los, fazê-los esquecer as amarguras.

Seja como for, não me ficavam bem.

- Nem essa máscara, querida. - A minha está dura como uma rocha.

Vamos lá tirá-la, então. Se precisares de nós, estamos lá fora.

Vamos, meninas!

Se já não precisam de mim, vou voltar para a agência.

Surgiram assuntos na vossa ausência que requerem uma atenção preliminar.

Bom dia, Inspetor.

Aquele jovem tem a cabeça no lugar.

Agiu rapidamente assim que recebeu a chamada da sua esposa.

Disse-me que vigiava o salão há já algum tempo.

Nunca suspeitamos de nada.

Achamos que era um salão legítimo.

- E é mesmo. - Aposto que sim.

Mas não só.

É nestes casos que precisamos de ter muito cuidado.

As coisas não são sempre o que aparentam ser.

Porque haveria alguém de querer a mala do embaixador por umas horas?

Se fizer a pergunta ao contrário, obtenho a minha resposta.

E se a mala mais importante fosse a outra?

Alguém queria que o embaixador a guardasse por umas horas.

- Isso é mais esclarecedor. - Deveras.

Uma mala diplomática.

Não estaria sujeita à inspeção alfandegária.

É um caso de tráfico.

O cofre, Tuppence.

O Richards deixou escapar algo quando falei com ele.

- Quem? - Ora, o Richards.

O criado do embaixador.

O homem que você e a sua organização andavam a chantagear.

O homem que levou ao suicídio.

É curioso. Quando as pessoas estão desesperadas,

à beira do abismo, como o Richards, não conseguem ocultar a verdade...

por mais que tentem.

O Richards salientou um objeto da segunda mala, srta. March.

Isso não me saiu da cabeça.

Tuppence, vejamos se tenho razão.

Sais de banho. Tal como disse o pobre Richards.

Claro que são sais de banho. E um dos produtos com mais saída.

- Diamantes em bruto? - Talvez. Vamos já ver isso.

Sais de banho verdadeiros. Apenas carbonato de soda.

- Eu disse que eram verdadeiros. - Pois disse. E são mesmo.

Mas será que a lata só contém sais? Tuppence?

- Aqui tem. - Obrigado, Inspetor.

Pó-de-talco, srta. March?

Não me parece.

É cocaína?

Deus do céu, estão aqui umas 50 latas!

Sabíamos que havia um distribuidor nesta zona

que abastecia os jovens do West End,

mas não sabíamos onde.

Por vezes, é mais fácil trabalhar à paisana.

O sr. Blunt terá todo o gosto em explicar como descobrimos tudo.

Era claramente um caso de tráfico.

Mas tráfico de quê?

Montaram uma comédia no meu escritório.

Leram o meu anúncio e quiseram dissuadir-me de investigar,

ou então tirar-me do caminho.

Tentei ser convincente no meu papel de crédulo,

engoli a história mirabolante desta encantadora senhora

e permiti que me trouxessem aqui,

deixando instruções ao Albert sobre como agir nesta situação.

Como vê, coordenação perfeita.

Muitos parabéns.

Conseguiram desvendar mais um mistério.

- Não sei como vos agradecer... - Não agradeça, Inspetor.

Considere isto mais uma vitória do trabalho em equipa.

Trabalho em equipa.

Ressincronização por @maopequena

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