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Original subtitles

AGATHA CHRISTIE PARCEIROS NO CRIME

A FILHA DO CLÉRIGO

A senhora e o Sr. Hove gostaram do passeio pela vila?

Já reparou como a luz se apaga e depois volta outra vez?

Por acaso, não.

Ontem à noite, no nosso quarto, antes do espelho se estilhaçar,

senti um frio gélido e as luzes quase se apagaram.

Vejo que não está habituada ao gás, Sra. Hove.

Por vezes, tem algumas falhas.

Fomos dos primeiros em Manchester a ter luz eléctrica.

Manchester, Edmund, a nossa casinha...

- O nosso ninho... - As mudanças nunca são fáceis.

Vai passar pelo mesmo, minha querida, quando nos casarmos.

No campo, é uma sorte tê-lo.

Refiro-me ao gás.

A minha falecida tia gastou balúrdios para o instalar.

Devia ter esperado pela eletricidade.

Se a minha tia o tivesse feito, estaríamos a comer à luz de velas.

Sinto muito.

O trinco da janela deve ter dado de si.

Pedi ao jardineiro para o arranjar, mas é surdo como uma porta.

Céus...! Deve ter caído alguma coisa.

Deixe-me ir à frente, Monica, não vá dar-se o caso...

Dar-se o caso de quê, Norman? Não é nada.

Nada que não tenha explicação.

Edmund...

As minhas coisas! As minhas belas roupas!

Desapareceram, Bella...

O quê?

É verdade, Sra. Hove. O guarda-fatos está vazio.

Ali, vejam. Estão ali estendidas.

Mas que raio...?

Feitas em farrapos, Edmund!

É um sinal. Querem matar-nos!

Já chega, vou-me embora!

Não passo aqui nem mais uma noite. Esta casa está assombrada!

- Bella, pagámos por uma quinzena... - Fica tu!

E o resto das nossas coisas?

Mas quem...? Porquê?

Porquê?

Alguém quer que abandone a Casa Vermelha, minha querida.

Não lhe mexas!

É de vidro, Tommy.

Não queres sujar a árvore de Natal de sangue, pois não?

Talvez fosse adequado a uma agência de detectives.

- "Agência Sangrenta Blunt". - Tommy!

- Desculpa, querida. Deixei-me levar. - Porque não levas antes isto?

Vai chegar uma cliente e o Albert não está cá para a receber.

Que pena.

No vicariato, todos os natais ajudava o pai a pendurar os enfeites.

- Costumavam ser 12. - Anima-te, ainda tens 11.

- Nove. - Foste tu?

Não, o Albert. Insistiu em ajudar-me a fazer a árvore.

Estão a passar filmes do Valentino e sabes qual é a mania dele agora...

Dançar tango.

Esta semana, foi ver "Blood and Sand" todas as noites.

Entrou, pegou num enfeite, fez uma pirueta

e deixou-o escapar-se da mão como se tivesse vida própria.

Olá, senhor.

Miss Tuppence.

Trouxe o chá e umas sanduíches.

- São de peru. Excelentes. - Dei-te meia coroa.

E eu dou-lhe nove pence (moeda), señorita.

Vais passar o Natal a imitar o Sr. Valentino, Albert?

Não sei se aguento.

Peco desculpa. Mas os filmes são tão reais...

São mais emocionantes do que a vida.

Só trabalhas numa das mais famosas agências de detectives do país.

Como podes ser tão ingrato, Albert?

Não é isso.

Eu sei que o meu trabalho é muito importante,

mas quando vejo o Rudolfo Valentino a dançar o tango com a Nita Naldi...

- É tão ousado! - Precisamente.

Não vem nada a propósito.

Sonhas com sol e areia quando lá fora há chuva e neve.

Estamos na época dos espíritos que pairam no ar,

das histórias à lareira, dos fantasmas do passado...

E das previsões para o futuro.

Era o que fazíamos no vicariato, quando era mais nova.

Escrevíamos no papel o que achávamos que ia acontecer, lacrávamo-lo

e só o abríamos no Natal seguinte.

- Homessa, tanto tempo. - Era só no primeiro ano, Tommy.

Vamos fazer isso agora. Escreva algo que eu guardo até para o ano.

Vou fazer melhor ainda. Vou prever algo para breve.

Sempre tive muito jeito para estas coisas.

Prevejo que a nossa próxima cliente será...

...a filha de um clérigo.

Como é que adivinhou?

Sr. Blunt, sempre me tive na conta de uma pessoa razoável e lúcida.

Mas as circunstâncias levam-me a concluir

que a minha casa está assombrada.

Viu um fantasma, Miss Deane?

Não vi, mas ouvi.

Barulhos de coisas a partir, louças a voar pela sala,

quadros a cair, luzes que acendem e apagam...

- Um poltergeist. - Perdão?

É o nome que lhes dão. São espíritos que gostam de pregar partidas.

Porque não começa pelo princípio, Miss Deane?

É uma história tão inverosímil. Vejamos...

O meu pai era o pároco de Little Hampsley, em Subsolo.

Morreu há três anos.

Eu e a minha mãe ficámos na miséria.

Desculpe. Entre.

Creio que pediram um chá.

Sim, Albert. É para Miss Deane. E depois podes retirar-te.

Com certeza, senhor.

- Continue, Miss Deane. - Bem...

Comecei por trabalhar como preceptora,

mas a minha mãe adoeceu e ficou acamada,

o que me obrigou a ter de cuidar dela.

Vivíamos numa casa pequena, mas cara, e éramos muito pobres,

até ao dia em que a nossa sorte parecia ter mudado.

Recebemos uma carta de um advogado

a dizer-nos que uma tia do meu pai tinha falecido, deixando-me tudo.

Já tinha ouvido falar daquela tia que se tinha zangado com o meu pai

e sabia que era muito rica.

Parecia que os nossos problemas tinham acabado.

Mas as coisas não correram tão bem como esperávamos.

Herdei a Casa Vermelha, que era onde ela vivia,

mas depois de pagar uma ou duas dívidas pequenas,

ficámos outra vez sem dinheiro.

Mas julgava que a sua tia era rica.

Deveras, Sr. Blunt.

Presumo que tenha perdido o dinheiro durante a guerra,

ou talvez vivesse dos juros. Mas ainda tínhamos a casa.

É um casarão enorme.

A vila fica a um quilómetro e meio, estamos muito afastadas.

Creio que se chama Casa Vermelha por causa dos tijolos,

mas os habitantes locais contam histórias mais sinistras...

Não me parece o tipo de pessoa que dê ouvidos a boatos de aldeia.

Não, mas sinto-me...

Miss Robinson parece ter ficado impressionada com o seu relato...

- Lamento imenso... - Não tem importância.

Peça mais uma chávena ao Albert. Ele a si ouve-o, Sr. Blunt.

Sim... Vou tentar.

Dêem-me licença.

Desembuche, Miss Deane.

- É um homem? - Como é que adivinhou?

Acontece a todas. Até a mim.

Fale-me dele, Miss Deane.

- São dois, sabe... - Isso não me aconteceu.

Um rico e um pobre, e você gosta do pobre.

Não sei como sabe isso tudo...

É a lei da natureza.

Um é o Norman... o Sr. Partridge.

Estava comigo na noite em que devassaram o guarda-fatos

e rasgaram as roupas dos Hove.

É gentil, atencioso e rico.

Um bom homem. Se casasse com ele, todos os meus problemas acabariam.

- Mas é que... - Não o ama.

Fale-me daquele que ama.

O Gerald. É amoroso.

É pobre como Job, mas um engenheiro brilhante.

Viemos até cá num carro que foi construído por ele.

Talvez o consiga ver se olhar pela janela.

Compreendo a sua escolha.

Aqui está.

Diga-nos porque desconfia que há algo de errado, Miss Deane,

algo de natureza mais terrena.

Por causa das ofertas que me fizeram pela casa.

- Para a comprar? - Sim.

Antes de nos mudarmos para lá, recebi uma oferta generosa por carta.

Pouco depois de nos mudarmos,

ainda estava a encerar o chão...

Decidimos que só podíamos ficar com a casa se alugássemos quartos.

Crockett estava de folga

e eu tentava acabar a limpeza antes de chegarem hóspedes, quando...

Boa tarde. Desejo falar com a dona da casa.

Diga-lhe que estou aqui. Chamo-me Smart.

Percival Smart.

Vejo que ainda estão em decorações.

Eu sou a dona da casa, Sr. Smart. Em que posso ajudá-lo?

Miss Deane?

Disseram que a casa estava à venda e que eu estaria interessado.

É uma casa enorme, deve ser muito fria, não?

Creio que foi induzido em erro.

Estou disposto a fazer-lhe uma oferta muito generosa.

- Se investir bem o dinheiro... - Sr. Smart, a casa não está à venda.

Pretendo transformá-la numa pensão.

Os primeiros hóspedes chegam para a semana.

Os primeiros hóspedes foram dois casais.

Os Busby viram o nosso anúncio no "The Homefinder"

e o jovem casal Cockwell, recém-casados, suspeito,

ficaram a saber por amigos. Todos se deitaram muito cedo.

Eu li à minha mãe e aconcheguei-a para dormir.

Quando me preparava para levar o tabuleiro dela para baixo,

o relógio da igreja bateu a meia-noite.

Ouvi um barulho que vinha do quarto dos Cockwell,

mas nada de invulgar.

Ia a meio das escadas, quando...

- O que aconteceu? - Está tudo bem, Sr. Busby.

Todos eles se foram embora, de manhã cedo.

Não fui capaz de cobrar nada

e ainda tive de reparar os estragos.

Depois de inspecionar a cama, percebi que tinha sido serrada.

Após ter perdido mais três hóspedes em circunstâncias semelhantes,

recebi a terceira oferta pela casa.

Recebi a visita de um tal Or. O'Neill

que me disse pertencer à Sociedade de Investigação Psíquica

e ter ouvido falar de manifestações curiosas na casa,

mostrando grande interesse nela.

De tal forma, que a queria comprar para fazer uma série de experiências.

A princípio, demonstrei o meu contentamento.

Ele fez um sorriso rasgado

e o sangue gelou-me nas veias.

O que foi que viu?

Um dente de ouro!

E então?

Talvez ache um disparate, mas...

- O que foi? - Era o mesmo homem.

- Que homem? - O que já me fizera uma oferta.

O Sr. Smart!

Lembro-me muito bem quando ele me sorriu.

Tinha um dente de ouro exatamente no mesmo sítio.

Depois reparei que as suas orelhas eram iguais às do Sr. Smart.

Tinham um formato peculiar, quase sem lóbulo.

Tenho a certeza que não me enganei. Era o mesmo homem!

Esse Crockett de que falou... É o seu mordomo?

Creio que não me fiz entender. Crockett é uma mulher.

Trabalhou para a minha tia durante oito ou dez anos.

É uma senhora de meia-idade, um pouco rude, mas boa empregada.

Dá-se ares porque a irmã casou com um senhor de posição

e a Crockett está sempre a falar dum sobrinho que é um cavalheiro.

Entre.

Desculpe interromper, senhor,

mas um tal Sr. Rush pergunta por Miss Deane.

- O Gerald. - O Gerald?

O Gerald... trouxe-a até cá. Num carro que ele próprio construiu.

Compreendo.

Por ora é tudo, Miss Deane.

Lembre-se que já não precisa de ter medo.

Os brilhantes detectives da Blunt vão investigar o seu caso.

Obrigada, Sr. Blunt. Tira-me um peso de cima.

- Há apenas uma questão... - Sim?

- Os vossos honorários... - Só paga se obtivermos resultados.

Esqueça as preocupações. Já sofreu bastante.

Não é melhor pedirmos a morada a Miss Deane, Sr. Blunt?

Sim, claro. Casa Vermelha, Stourton-in-the-Marsh.

- Quando pensam chegar? - Quando menos esperar, Miss Deane.

Mas lembre-se: nunca me encontrou.

Nem a mim.

Miss Deane não me disse que esperava hóspedes no Natal.

Discuta esse assunto com a sua patroa.

Sua Senhoria fez a reserva pessoalmente.

É aqui que está e daqui não vai sair.

- Está a pensar em comprar. - Esta casa?

- Exatamente. - Mas ela não sabe...

Do poltergeist? Acho que é por isso que a quer comprar.

É uma mulher excêntrica.

Vou à estação apanhar o marido, o Sr. Beresford.

Sr. Beresford?

Pensava que fosse Lady Grassmere?

E é mesmo.

Não quer perder o título de nascença por casamento algum.

Mas é ele que tem o dinheiro.

Não se esqueça: chá Earl Grey e muita água quente.

Imediatamente.

Conta-me exatamente o que o gerente do banco te disse.

Quando a guerra eclodiu,

a tia da Monica levantou todos os bens em ouro e dinheiro

- e trouxe-os para aqui. - Para os esconder na propriedade.

- Sim, e mais alguém sabe disso. - O que explica as ofertas pela casa.

E achas que os escondeu debaixo do colchão no quarto de hóspedes?

- Claro que não, tolinha. - Então, o que queres daí?

Uma boa noite de sono.

Da última vez que a cama deu de si, a Monica Deane disse que foi serrada.

Estou só a certificar-me que não se repete.

Receio que as camas de dossel me afectem sempre.

Sempre?

Não te garanto uma noite descansada numa cama de dossel.

Usa essa tua mente fértil para encontrares o tesouro.

- És uma mulher... - Negligenciada.

Que disparate.

Saberás melhor do que eu onde uma velha senhora esconderia os bens.

- No mesmo sítio que uma nova. - Francamente, Tuppence.

Por falar em senhoras,

porque é que o nosso disfarce

implica que eu seja um plebeu enquanto tu assumes um título?

Quis aproveitar para saber como seria se tivesse casado com o Graham.

Terias muito mais em mãos se tivesses casado com o Graham Grassmere.

E, ao que me consta, muito menos também...

Tommy, não sejas mauzinho!

Parece que a filha do clérigo já regressou.

Vai ter um choque quando souber que chegámos.

Já tem 25 anos, não se assusta facilmente.

E ali está o Gerald.

Não é amoroso?

- Estão noivos, é? - Essa é a nossa missão, querido.

Compreendo.

- Temos de os ajudar, Tommy. - Vamos fazer por isso.

Teremos de nos despachar.

Quando a Crockett e o sobrinho deitarem a mão à casa,

vão virá-la do avesso até encontrarem o que procuram.

Óptimo, o chá.

Mas, Tuppence, uma senhora de idade não teria cavado buracos no quintal,

ou levantado o soalho sozinha.

E nunca confiaria em ninguém para a ajudar.

Tommy, deve ter deixado uma pista junto com os seus bens.

Anda, querida, estou faminto. Vamos surpreender a nossa anfitriã.

- Assim que aqui entrei, Miss... - Deane.

Miss Deane, claro.

Senti que vinha descansar...

Se bem que nunca usaria tal palavra para descrever uma mulher possuída,

talvez até amaldiçoada, com poderes psíquicos.

Pode deixar o chá, Crockett. Eu sirvo o resto.

Subi as suas escadas como se estivesse em transe.

E, sem saber, senti-me atraída pelo quarto que nos estava destinado.

Sinto à minha volta a presença de uma criança infeliz.

Teimosa e cheia de rancor

mas ansiando pelo descanso eterno.

Com a breca, querida!

A Sra. Patrick Campbell tem concorrência à altura!

Achei que foi soberba, mas porquê...?

Foi criada uma impressão e lançadas as sementes...

Mas não podem pensar...

Alguma vez viu o sobrinho da sua empregada?

Não...

Aposto que tem um dente de ouro.

E lóbulos muito pequenos.

- Muito bem, Miss Deane... - Monica.

O que fez aos pertences e aos vestidos da sua tia?

Era pouca coisa. Dei alguns à Crockett

e os outros entreguei a famílias necessitadas.

Mas foi tudo inspeccionado minuciosamente.

Deve ter deixado alguns documentos.

Sim, o escritório estava cheio. E tinha alguns na gaveta do quarto,

mas nada de relevante. - Deitou-os para o lixo?

Não, a minha mãe nunca gostou de deitar nada fora.

Encontrou umas receitas antigas que pretende experimentar um dia.

Óptimo.

Aquele jardineiro trabalhava aqui no tempo da sua tia?

É o velho Frank Mulberry?

Sim, é ele. Pobre velhote. Já não tem grande serventia.

Vem uma vez por semana para dar um jeito ao jardim.

Não lhe podemos pagar mais. Costumava vir três vezes por semana.

Importa-se de ir buscar os papéis da sua tia

enquanto falamos com o Sr. Mulberry?

Estendiam-se por ali até perder de vista.

Havia galos e pavões de uma ponta a outra.

De um verde nunca dantes visto.

- Galos verdes? - Arbustos. Pareciam esculturas.

Eram a minha especialidade, senhora.

Eu era um artista com a tesoura.

Agora, estas mãos só servem para pegar numa caneca de cerveja...

...quando tenho dinheiro para ela.

A velha senhora tinha sorte em contar consigo, Mulberry.

Isto foi de mal a pior, assim que ela arrefeceu.

E depois aqueles malandros deitaram-lhe fogo.

Sei os nomes deles todos.

Mas enquanto foi viva devia confiar muito em si.

Tudo o que se passava no jardim, partilhava todos os seus segredos...

Talvez.

Como aquele objecto estranho que lhe pediu para enterrar...

- Uma caixa, talvez. - Uma caixa?

- Sim, uma caixa. - Muito obrigado.

- Uma caixa, disse? - Sim.

- Não o posso ajudar. - Porquê?

Porque nunca enterrei caixa alguma.

Batatas, cenouras, cebolinho, isso era aos montões.

Mas nunca enterrei caixas. Não se dão muito bem por aqui.

Há algum problema, Miss Deane?

- Partridge. - Beresford.

A minha esposa, Lady Grassmere.

Perdão, eu é que devia ter feito as apresentações.

O Sr. Partridge é meu consultor financeiro

e um bom amigo.

O Sr. Beresford e Lady Grassmere são meus hóspedes.

Não sabia que tinha hóspedes. Vão passar aqui o Natal?

Isso está escrito nos astros, Sr. Partridge.

Lady Grassmere é estudiosa dos fenómenos psíquicos, Norman.

Céus, mais uma. Devia cobrar entradas, Monica.

Pretendemos pagar o preço de tabela pela nossa estadia, Sr. Cartridge.

Falaremos em breve para saber da sua decisão.

- Boa tarde. - Boa tarde.

O que se passa?

O Norman disse-me que o banco pretende executar o empréstimo

e que dentro de duas semanas ficaremos sem fundos.

É a falência?

E é ele a alternativa financeiramente estável ao Gerald?

Tem muito jeito para os negócios.

E muito rápido a dizer a uma rapariga que não tem alternativa.

Pediu-me em casamento. O que devo fazer?

Tenho de pensar na minha mãe e é Natal...

Tenha calma, Monica. Já não está sozinha.

E nós pretendemos resolver o seu caso.

Já reuniu todos os documentos da sua tia?

Deixei-os lá em cima, no vosso quarto.

Se eu vir algum vestido rasgado...!

O nosso poltergeist voltou a fazer das suas.

Vá chamar a Crockett, Monica!

As minhas roupas, não, Tommy!

Foram alugadas e não nos devolverão...!

A menos que uses um jarro e uma bacia, está tudo no sítio.

Vamos, Lady Grassmere.

Instale-se aqui e aguarde as vibrações.

Por aqui, Crockett.

A minha esposa está a vir a si.

Tem de ser minha!

Insisto em comprar a propriedade!

Já tem a confirmação.

Parece que arranjou comprador, Miss Deane.

Obrigada por ter chamado a sua governanta.

Muito bem, Crockett como já deve ter percebido,

eu e a minha esposa vamos comprar a Casa Vermelha.

Gostaríamos que ficasse connosco

para cuidar da casa.

Obrigada, senhor. Vou pensar no assunto.

Com certeza.

- Deseja mais alguma coisa? - Não, obrigada, Crockett.

- Vou levar o tabuleiro do chá. - Obrigada.

Miss Deane,

faça o favor de informar o outro comprador que a casa foi vendida.

- Mas... - Conheço o valor da oferta.

É um bom preço.

Ofereço-lhe cem libras acima do proposto.

O dinheiro não deve interferir com as experiências espirituais.

As forças à nossa volta pedem-me que fique a qualquer preço.

Já chega, querida. O caminho está livre.

O Sr. Beresford não respeita os sentimentos de uma artista.

Estava a começar a divertir-me.

- Eu reparei. - Vocês foram o máximo.

Mas porque chamou a Crockett tão à pressa?

- Para tirar as teimas, Miss Deane. - Monica.

Reparou como ela estava ofegante?

Isso confirma que é ela o poltergeist.

Fugiu à pressa pelas traseiras depois de partir o jarro e a bacia.

Mas as luzes a falhar, as janelas abertas e o ar frio...

Ela estava presente quando isso aconteceu.

Ainda não percebi como fez isso.

Mas quem fez isso é bastante óbvio...

É a terceira vez que inspecionas essa caixa.

Eu sei.

Afasta-te da lareira ou ainda adormeces.

Faço as coisas lentamente porque procuro tinta invisível.

É visível contra o lume.

Assim tão longe não, querido.

Já encontraste alguma coisa?

Duas facturas, três cartas banais,

uma receita para conservar batatas novas

e uma receita de queijada de limão.

- O que foi? - Comida.

Não consigo pensar com o estômago vazio.

Não almoçaste, pois não?

Quando penso na cesta magnífica que o Albert preparou,

fico grata por não...

- Mas pensa no que isso prova. - Pois, a culpa da Crockett.

Péssima comida e nada de fantasmas, uma combinação que a confirma.

- Preferia ter comido um belo jantar. - Atira-te ao trabalho.

Lê-me o que tens aí.

Uma conta, um poema sobre a Primavera,

dois recortes de jornal: "Porque Investem as Mulheres em Pérolas"

e "Homem com Quatro Esposas: Um Relato Assombroso".

- E uma receita de guisado de lebre. - Quatro esposas...

E pus isto de parte porque me pareceu estranho,

apesar de achar que não tem nada a ver com o que procuramos.

Deixa cá ver.

É uma daquelas coisas engraçadas,

um anagrama, ou charada, ou coisa parecida.

"A primeira assenta sobre brasas;"

"E é lá dentro que colocas o meu todo."

"A minha segunda é a primeira;"

"A minha terceira detesta o frio do Inverno".

Não é lá grande rima.

Não sei porque achaste estranho.

Há 50 anos, todos colecionavam estas coisas.

- Liam-nas em frente à lareira. - Não me referia aos versos.

As palavras ao fundo é que me pareceram estranhas.

Repara. "S. Lucas, 11:9."

- É uma passagem. - Eu sei. Mas não achas estranho?

Achas que uma senhora religiosa

escreveria uma passagem por baixo de uma charada?

Sim, creio que é estranho.

Sendo filha de um clérigo, não terás uma Bíblia contigo?

Por acaso até tenho. Por esta é que não esperavas.

Vejamos...

Lucas...

Capítulo 11, versículo nove.

Sete, oito, nove...

Olha para isto, Tommy!

"Procurai e achareis".

Descobrimos! Não é maravilhoso, Tommy?

Se decifrarmos o criptograma, o tesouro é nosso!

Ou melhor, da Monica.

Vamos decifrar o criptograma, ou lá como lhe chamas.

"A primeira assenta sobre brasas".

O que significa isso?

"E é lá dentro que colocas o meu todo".

É um disparate.

É bastante simples. É tudo uma questão de treino. Dá aí.

"A primeira assenta sobre brasas."

Brasas... Brasas...

- É bastante simples. - Não é da minha geração, é só isso.

Amanhã, levamos isso até à vila para a mostrarmos a uma velhota.

Decifra isso num piscar de olhos.

Porque não a mostras à mãe da Monica, ou à bruxa da Crockett?

Aposto que resolvia isto num instante.

Vamos tentar outra vez.

Há poucas coisas que possamos colocar sobre as brasas.

Água para as apagar, lenha...

...ou uma chaleira.

Deve ser um monossílabo. Que tal madeira? (= Wood)

Não se pode colocar nada dentro da madeira.

Não há monossílabos que sejam sinónimos de água,

mas deve haver monossílabos que se ponham ao lume,

semelhantes a uma chaleira.

Sertã, frigideira...

Que tal panela? (= Pan)

Ou tacho? (= Pot)

Pensa numa palavra começada por "Pan" ou "Pot" que se cozinhe.

"Pottery"? (= Cerâmica) Isso coze-se ao lume. Não dá?

Não, o resto não encaixa.

"Panquecas"? Não. Raios...!

O problema é que estou tão faminto que nem consigo pensar.

Disseste panquecas e reavivaste-me a fome.

Raios partam o jantar... Ou a falta dele.

Um pedaço minúsculo de borrego e um vegetal...

Nabo, cozinhado de acordo com uma receita antiga.

Sem batatas, cenouras, ou uma couve-de-bruxelas...

O que foi, ervilhinha?

É essa a palavra! Batata!

"A primeira assenta sobre brasas." "Pot" (= Tacho).

"E é lá dentro que colocas o meu todo."

"A minha segunda é a primeira." "A", a primeira letra do alfabeto.

"A minha terceira detesta o frio do Inverno."

Dedos dos pés frios! (= Toes)

- Pot-A-Toes (= Batatas)! - Espertinha.

Mas perdemos muito tempo em vão.

As batatas não ligam com o tesouro.

- Espera aí...! - "Conservar Batatas Novas".

"Coloque-as em latas e enterre-as no quintal."

"Até em meados do Inverno parecerão ter sido arrancadas há pouco tempo."

Tuppence, és um milagre!

E pensar que estão lá fora à espera que as vamos desenterrar!

Mas agora, não.

Teremos muito tempo amanhã.

Estou demasiado excitado para dormir!

Ainda bem...

Não percebo porque nos enganou o jardineiro, ontem.

Não o fez de propósito. Só não te respondeu corretamente.

- Como assim? - Ainda não reparaste?

As pessoas respondem sempre ao que pensam que queremos dizer.

Ele não enterrou nada fora do comum...

...enterrou batatas. Anda!

Tommy!

Parece que alguém se antecipou.

Como podiam saber?

Achas que encontraram o tesouro?

Se não encontraram é porque nunca esteve aqui.

Céus, que caras tão sisudas!

A cama era assim tão desconfortável, Sr. Blunt?

Não adivinham o que isto é.

Um bilhete do Dr. O'Neill.

Subiu a oferta em 150 libras.

Não me diga!

Deus do Céu... A campainha da mãe.

Já é tarde e ainda não lhe levei o pequeno-almoço.

Recebeu um postal de Natal. Isso vai animá-la.

Há uma réstia de esperança, Tuppence!

Voltámos à corrida. E, desta vez, pretendo ganhar!

Aí vem a segunda boa notícia do dia!

Sabes o que tens de perguntar. Vê se lhe dás a volta.

Apanha-o antes que ele veja a horta e tenha um ataque!

Sr. Mulberry, bom dia!

Mas que surpresa, julguei que só vinha uma vez por semana.

Vim só buscar uma caixa, minha senhora.

Uma caixa? Mas disse-me...

Não é uma caixa das que me perguntou ontem.

- É a caixa com a minha consoada. - Sim, claro.

- Importa-se que o acompanhe? - Claro que não.

Vou só dar uma olhadela à minha horta.

Nada se compara à ceia da consoada.

Mas, às vezes, gostava de variar os vegetais

e não comer sempre grelos com o assado.

Batatas novas! Acompanhavam o peru na perfeição.

As gentes daqui enterram-nas em latas?

Disseram-me que isso ajuda a manter a frescura.

É verdade.

A velha Sra. Deane enterrava sempre três latas no Verão.

E, por vezes, até se esquecia de as desenterrar.

Enterrava-as na horta?

Não, minha senhora.

Ali, junto ao muro.

Sr. Mulberry...

Está a apontar para o prado.

E agora, para o bosque.

Não posso cavar ali!

O que anda ela a tramar?

Já vamos ficar a saber.

Ela vai ter de contar a alguém.

Tommy!

Tommy, já descobri...

Isso foi genial, Tommy. Como é que descobriste?

A Monica disse que os cortinados Levantavam para fora.

Normalmente, com a janela aberta, o vento levantá-los-ia para dentro.

Reparei na conduta do aquecimento e somei dois mais dois.

- Brilhante. - Obrigado.

Porque fizeste o pobre Mulberry apontar em todas as direções?

Viste isso?

Não foste o único. Tenho quase a certeza disso.

Tive um mau pressentimento.

Depois de ele me dizer onde tinha enterrado as latas,

perguntei-lhe onde nascia o sol, onde se punha,

e de que ponto do céu se podiam ver os terrenos lavrados.

- Bem pensado, Tuppence. - Obrigada.

Quando pensas que podemos começar a cavar?

Só depois de anoitecer. E tenciono pedir reforços.

O Gerald pode ficar a vigiar,

com a ajuda de mais alguém...

Vigilância, Sr. Rush. É isso que estamos a fazer.

É sempre o prelúdio de um clímax excitante.

Viu o Lon Chaney em "The Blackbird"?

Interpreta um ladrão de Limehouse que se disfarça de aleijado

para espiar as casas que pretende assaltar.

Uma noite, depois de despachar um chui,

coloca o seu disfarce habitual

e vê que tem as mãos atrofiadas... para sempre!

Foi muito dramático.

Nunca me esquecerei da sua expressão...

Nunca pensei que cavar fizesse tanto barulho.

- Tommy? - O que foi?

Aqui fora, à noite,

quase dá para acreditar nas histórias que contam sobre a casa...

Tuppence!

Continua a cavar.

Se abrires o bico, és um homem morto.

Bolas!

À terceira é de vez.

Começo a pensar que andamos a caçar gambozinos.

Obrigado, Houdini.

Batatas...

Espera um pouco, Tommy. As batatas estão só por cima.

Não abanes o candeeiro!

Até que enfim!

Abra o saco, Sra. Beresford.

Tudo o que ela conseguiu levantar.

Em ouro, presumo.

Abre o outro.

Devem estar aqui 20 mil libras, no mínimo!

- Posso? - Com certeza.

Não sou grande conhecedor,

mas presumo que isso valha mais cinco mil libras!

Olha só para o tamanho das pérolas!

Por isso é que ela guardou o recorte de jornal

que dizia que as pérolas eram um bom investimento.

Não é fantástico, Tommy?

A Monica já pode casar com o seu jovem garboso

e viver feliz para sempre, tal como eu.

A sua felicidade vai acabar, "Lady Grassmere".

O disparo de uma calibre .12 não chamará a atenção de ninguém.

Passe para cá as moedas, por favor.

E as notas. Aqui, aos meus pés!

Comece a cavar, Sr. Beresford.

Cave um buraco onde caibam dois.

Ora, Lady Grassmere,

ainda tem as pérolas na mão!

Deixe-me aliviar-lhe o peso.

Bom trabalho, Albert.

Tarzan, o Homem Macaco?

Douglas Fairbanks em "The Black Pirate".

Muito bem. Chama a Polícia, sim?

Tuppence, o dinheiro.

Tuppence, se me amas, respondes-me a uma pergunta?

Não gosto dessas rasteiras, mas diz lá.

Como sabias que a Monica Deane era filha de um clérigo?

Fiz batota.

Abri a carta dela em que marcava o encontro.

Deane era o nome do sacristão do meu pai,

que tinha uma filha chamada Monica. Bastou somar dois mais dois.

És uma grande descarada.

Está a bater a meia-noite.

- Feliz Natal, Tuppence. - Feliz Natal, Tommy.

Também vai ser um feliz Natal para a Monica, e tudo porque...

Feliz Natal, Monica.

O pobre Gerald está bem?

Sim, obrigada.

O médico da Polícia disse que ele tem a cabeça muito dura.

O vosso valente Albert foi levá-lo a casa.

Está apenas um pouco abalado, mas eu também estou.

Aconteceu alguma coisa?

Estamos noivos.

Que maravilha, Monica! Parabéns!

Excelente.

Tenho ali algo para comemorarmos.

Encontrei-o na sua adega.

O bom e velho Gerald...

Imaginem, fazer o pedido depois duma traulitada daquelas.

Mostra que tem fibra.

Vá lá, Monica. Desembuche.

Já devia saber. É que...

Não foi propriamente o Gerald que fez a pergunta.

Não?

Receei que quando soubesse das minhas novas posses...

- Isso o afugentasse? - É o orgulho. Ele é muito varonil.

- Já tinha reparado. - Decidi tomar as rédeas e...

- Fez você o pedido? - Por acaso, sim.

- Foi muita ousadia? - Claro que não, foi até sensata.

As mulheres devem agarrar aquilo que querem.

Obrigada.

Aqui está. Bem gelado.

A sua mãe está a chamar, mas acho que a Crockett não atenderá tão cedo.

Vou ver o que ela quer.

Não lhe direi nada hoje, não quero que fique agitada.

Admiro aquela rapariga, sabes?

Depois do susto que apanhou

ainda teve cabeça para aceitar o pedido de casamento.

- Sem mais, nem menos. - Quem diria?

Vocês são iguais.

Filhas de clérigos...

Já devia ser capaz de reconhecer as vossas qualidades.

Imprevisíveis, leais, práticas...

- Muito determinadas. - E bonitas como poucas.

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