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AGATHA CHRISTIE PARCEIROS NO CRIME
O MISTÉRIO DE SUNNINGDALE
Santo Deus.
Albert!
Sim, Sr. Beresford?
Por acaso, temos uma tesoura?
Uma tesoura?
Um instrumento de duas lâminas com pegas numa extremidade.
Funciona com alavanca.
Tem um cravo no meio.
É muito útil para cortar papel e outras coisas.
Aqui está ela.
- Obrigado, Albert. - Não tem de quê, chefe.
A Sra. Beresford não vem hoje?
Vem. Ela disse que tinha de fazer uma coisa importante primeiro.
Passa-se alguma coisa?
Não está a cortar a página dos filmes, pois não, chefe?
Creio que não.
Ainda bem. Porque tem um artigo sobre "O Rato".
Não sabia que se interessava por animais.
É um filme.
- Com o Ivor Novello. - Estou a ver.
Vão fazer uma sequela, "O Triunfo do Rato".
Fascinante.
- Gosta do Ivor Novello? - Ele tem muito talento.
Pois. Tenho de ir vê-lo.
Não ficará desapontado, chefe.
- Está alguém em casa? - Tuppence!
Ora vejam só.
Nossa, Sra. Beresford, que chapéu tão chique.
Pensava que não iam reparar.
Esperavas que não reparássemos.
Com que então, essa era a coisa importante.
Sim. Foi um pouco extravagante da minha parte,
mas encontrei uma loja nova na South Moulton Street
e não consegui resistir.
Na South Moulton Street? É um pouco cara, não é?
- Estiveram ocupados sem mim? - Estivemos, Albert?
- Está sossegado como um túmulo. - Céus.
- Estavas a ler as notícias? - Mais ou menos.
Creio que a página 17 é a que lhe interessa.
Obrigado, chefe.
A Sra. Beresford e eu vamos almoçar, Albert.
Se alguém surgir com um problema para os Brilhantes Detectives Blunt
que não possa esperar, poderá encontrar-nos...
- No Ritz? - Tenta de novo.
Naquele sítio simpático no Soho?
No nosso café local, o ABC.
Como mais poderemos suportar esse esplêndido chapéu novo?
Adeus, Albert.
Excelente.
Não podia ser melhor.
Porquê esta loucura repentina pela vida simples?
Sê paciente. Tudo se explicará.
Será que uma destas arrogantes donzelas
vai reparar em nós?
Se faz favor!
Esplêndido. Ela vem para aqui.
Mas o subconsciente dela deve estar ocupado
com presunto e ovos e bules de chá.
Sim?
Costeleta de porco, com couves- -de-bruxelas e ervilhas, por favor.
E batatas fritas.
E um café grande, pão e manteiga.
E um prato de língua.
Prato de língua, costeleta, batatas, legumes e café grande. É para já.
Não. Este senhor quer uma queijada e um copo de leite grande.
Uma queijada e um copo de leite. Mais alguma coisa?
Não, obrigada.
- Isso foi despropositado. - De modo algum.
Mas eu detesto leite.
E as queijadas são sempre amareladas e nojentas.
Se queres ser simples, mais vale fazê-lo como deve ser.
Língua fria é uma maravilha.
- Então, Tommy, o que se passa? - Não sei se te quero dizer.
Queres que volte a chamá-la e peça arroz-doce?
Não, não. Prefiro a queijada, obrigado.
Certo.
Primeiro, e falando de uma forma estritamente não oficial,
o negócio não está a correr bem de momento.
Aliás, praticamente não existe.
Sim, resumindo e concluindo, esse é o problema.
Mas eu estive a pensar.
A solução é simples e, atrevo-me a dizer, brilhante.
Estou curiosa.
Se o negócio não vem até nós, nós vamos até ao negócio.
Uma espécie de Maomé e a montanha.
- Que ideia original. - Tommy.
O que me leva ao que interessa: o Mistério de Sunningdale.
O Mistério de Sunningdale.
Este é um retrato do Capitão Anthony Sessle,
tal como apareceu no "Daily Leader".
Admira-me como é que ninguém processa os jornais às vezes.
Olha para esta fotografia. Está tão desfocada.
Vê-se que é um homem, mas mais nada.
- Isso é vaidade feminina. - Disparate. É senso comum.
Não interessa.
Quando eu disse Mistério de Sunningdale,
devia ter dito o chamado Mistério de Sunningdale.
Um enigma para a Polícia, talvez,
mas não para uma mente inteligente.
Queres dizer que já o resolveste?
Não propriamente.
Língua fria.
Queijada.
E um copo de leite.
- Vá. - De repente, fiquei sem fome.
Não, estava a falar do Capitão Sessle.
Estou a ver.
Foi há cerca de três semanas que a macabra descoberta foi feita.
Um jovem casal estava a jogar no famoso campo de golfe.
Estava uma manhã linda.
Não estava lá mais ninguém.
Céus!
Não te preocupes, Cyril. Eu ajudo-te a procurá-la.
Eles separaram-se.
Depois, passados uns minutos...
Antes da Polícia chegar, já sabiam que era o Capitão Sessle.
Ele era uma figura bem conhecida naquele meio
e usava sempre um casaco com um tom especial de azul.
O Capitão Sessle era muitas vezes visto no campo cedo, a praticar.
Primeiro, pensavam que tinha tido um ataque cardíaco.
E não teve?
O exame do médico
revelou o facto significativo de que ele tinha sido assassinado.
Foi apunhalado no coração,
com um alfinete de chapéu de senhora.
Também descobriram que estava morto há pelo menos 18 horas.
Ou seja, deve ter sido morto na tarde anterior.
Exatamente.
- É feio falares com a boca cheia. - Desculpa.
- Mas o caso mudou logo de figura. - Claro.
Quem foi a última pessoa a ver o Capitão Sessle VIVO?
Além do assassino, claro.
O seu amigo íntimo e sócio,
o Sr. Wilfred Hollaby,
da Companhia de Seguros Porco-Espinho.
O que aconteceu foi o seguinte...
O Sessle e o Hollaby estavam a fazer uma última jogada.
O Sessle parecia bem-disposto e estava em excelente forma.
De repente, quando o Sessle se aproximou do décimo sétimo "tee",
o Hollaby viu outra pessoa.
Apareceu uma mulher.
Há um caminho público que atravessa o campo. Ela deve ter ido por aí.
Era muito alta e estava vestida de castanho.
O Hollaby admirou-se ao ver o Sessle e a mulher a falarem.
Vou já!
Afastaram-se em profunda conversa.
O caminho aí sai do campo. Eles desapareceram.
Dois outros jogadores apareceram no campo.
Depois, para alívio do Hollaby, o Sessle voltou a aparecer.
Estás bem?
Claro que sim.
É melhor continuarmos.
Raios!
Mas era óbvio que o Sessle não estava bem.
Não só falhou a sua jogada,
como parecia preocupado, nervoso.
As suas jogadas eram atrozes.
Era evidente que algo tinha acontecido para o pôr fora de si.
Mas que jogada foi essa? Até uma criança teria feito melhor.
Os outros dois jogadores eram o Major Barnard e o Sr. Lecky.
Estavam a preparar-se para jogar do décimo sétimo "tee"
quando viram algo estranho a acontecer à frente deles.
O que se passará com ele?
É estranho, não é?
- O que se passa com o Sessle? - Não faço a mínima ideia.
- Nunca o vi jogar tão mal. E você? - Nunca.
Ele não se sente bem?
Parecia bem quando começámos.
Apareceu uma mulher.
Nós vimo-la. Uma criatura alta, vestida de castanho.
Parecia estar à espera dele.
Afastaram-se uns minutos.
O que será que ela queria?
Quem me dera saber.
Que nós saibamos,
eles foram as últimas pessoas a Ver o Capitão Sessle vivo.
Céus.
- Já acabaram? - Já, obrigado.
Então, Tuppence?
- Então, Tommy? - O que achas?
- Há uma Sra. Sessle? - Há.
Ela estava fora na altura, a visitar uns amigos.
- Têm filhos? - Não.
Criados?
Um casal que cuidava da casa de campo deles.
Era o dia de folga deles. Passaram-no na cidade.
Quem mais poderia ter um motivo?
Mais ninguém, pelos vistos.
- E a Polícia? - Está confusa.
O que nos leva de volta à misteriosa mulher de castanho.
- Quem era ela? - Ninguém sabe.
Não te preocupes. Só demoro meia hora.
- A fazer o quê? - As malas, claro.
- Vou precisar de mais roupas. - Roupas?
Não esperas que eu apareça num campo de golfe vestida assim.
Então, sempre vamos ser o Maomé?
Vamos ser o que tu quiseres, meu querido.
E faremos o que for preciso
para encontrar a misteriosa mulher de castanho.
Atenta no que eu digo: ela é a chave deste assassínio.
Olá, Albert. Vamos para fora.
De que estás à espera?
- Estou a pensar na Doris Evans. - Doris Evans?
Sim. Ela é baixa e tem o cabelo claro.
Não é nada como a mulher de castanho.
O que tem a Doris Evans a ver com o caso?
Tudo, ao que parece.
A Polícia acusou-a do assassínio.
- Céus. - Dizes bem.
Mas de uma coisa tenho a certeza. Estou convencido disso.
O quê?
Tu não vais fazer as malas em meia hora.
Tommy...
- Para Sunningdale é mesmo por aqui? - E.
- Mas segundo o mapa... - Não te preocupes. É um atalho.
A paisagem é mais bonita e tem menos trânsito.
- Vinha sempre por aqui antigamente. - Antigamente?
Antes de nos conhecermos.
Costumava vir muito aqui jogar golfe.
- Pobre Tommy. - Por quê?
Eu obrigue¡-te a desistir de muitas coisas?
Nada de que sinta a falta.
- Palavra? - Palavra.
- Dir-me-ias, certo? - Tu sabes que slm.
Além disso, pensa em todas as coisas maravilhosas que eu...
ganhei.
Estrada sem saída
Muito bem...
- O que sabemos da Doris Evans? - Quase nada.
Excepto que foi acusada de assassínlo.
Ela nega-o, claro, mas vai ser julgada.
Com que provas?
Circunstanciais, mas muito condenatórias.
Quando o corpo do Sessle fo¡ examinado,
alguns cabelos claros foram encontrados entre os dedos dele.
E enrolados à volta de um dos botões do casaco
estavam alguns fios de lã vermelha.
Não era muito para continuar,
mas a Polícia fo¡ muito minuciosa na busca.
Interrogatórios diligentes levaram-nos à estação de comboios.
Uma jovem de cabelo claro,
com um casaco e uma saia vermelhos,
tinha chegado na tarde do assassínio.
Desculpe.
Pode dizer-me onde posso encontrar a casa do Capitão Anthony Sessle?
Do Capitão Sessle? Claro, menina.
Fica a meio quilômetro ao fundo da estrada.
É uma casa de campo, à esquerda.
Está um pouco recuada. É fácil de ver.
Obrigada.
Duas horas depois, a rapariga voltou a aparecer na estação.
O chapéu estava mal posto e o cabelo todo despenteado.
Parecia estar num estado de grande agitação.
Estava sempre a olhar para trás, como se tivesse medo de algo.
Ou de alguém.
Por favor!
Quando parte o próximo comboio para a cidade?
Com estas provas escassas, eles conseguiram localizá-la.
Boa tarde, cavalheiro. Boa tarde, minha senhora.
Boa tarde. Queremos o vosso melhor quarto.
Com uma vista bonita, se possível.
Acho que podemos fazer-lhe a vontade, minha senhora.
Sim, estão com sorte.
A suíte do Alegre Caçador está livre.
Alegre Caçador? Que apropriado.
Olá, vista.
- Importa-se de assinar? - Com certeza.
A propósito, hoje somos Blunt ou Beresford?
- Não sei. O que achas? - Não sei.
- Escolhe tu. - Não, tu.
- É difícil. - Pois é.
- Que tal ambos? - Boa ideia.
- Pronto. - Sr. e Sra.?
- Beresford-Blunt. - Perfeito.
- Manda-nos chá ao quarto? - Com certeza, Sra...
- É para já, minha senhora. - Obrigada.
É perfeito.
Ainda bem que viemos cá. És tão esperto, Tommy.
Apenas faço o que me compete.
- Como é a vista? - Espantosa.
Absolutamente espantosa.
Querido...
Qual foi a versão da Doris Evans?
- Queres mesmo ouvi-la? - Claro.
- Agora? - Tenho de ficar a par do caso.
- Não pode esperar? - Vá lá.
Está bem.
A Doris sempre manteve o seu depoimento original.
Sim?
Mesmo sob interrogatório intenso nunca mudou.
- Tuppence, estás a ouvir? - Claro.
Já sei onde está.
Continua. Tu falas, eu desfaço as malas.
Mas vai levar séculos.
Não se fores direto ao assunto.
Está bem.
Concentra-te, Tuppence. Só vou dizer isto uma vez.
Claro.
A Doris Evans é jovem, solteira e bastante bonita.
Gosta de se divertir?
Longe disso. E dactilógrafa.
- Muito respeitável. - Exato.
O que torna o que aconteceu ainda mais inexplicável.
Uma noite, há cerca de um mês, ela foi ao cinema.
Sozinha?
- Sim. - Qual era o filme?
- Não sei. - É pena.
- Isso é relevante? - Talvez.
Fosse qual fosse o filme, ela foi ao cinema.
- Obrigada. - Não tem de quê.
Quer um?
- Desculpe? - Não caíram.
Obrigado.
Não tem de quê.
E foi tudo.
Até o filme acabar.
- Está horrível, não está? - Está.
Posso ajudá-la em alguma coisa?
Só se puder parar a chuva.
Receio que isso me ultrapasse. Porém...
Em que direção vai?
Naquela.
Eu também.
O mínimo que posso fazer é impedir que se afogue.
Seria a minha morte.
Chamo-me Sessle. Anthony Sessle.
Eu sou a Doris... Evans.
- Muito prazer. - O prazer é todo meu.
Bem...
- Faça favor. - Obrigada.
Ele parecia um perfeito cavalheiro.
Como tal, quando ele sugeriu irem a uma casa de chá
antes de ela apanhar a camioneta, a Doris aceitou logo.
Ele disse-lhe que tinha uma casa em Sunningdale.
Quando a Doris lhe perguntou se era casado, ele disse que não,
que era viúvo.
Ela gostou dele.
Ele era encantador
e tinha uns modos impecáveis.
Ele sugeriu que voltassem a encontrar-se.
A Doris não hesitou em dizer que sim.
Por isso, combinaram que ela Ina a Sunnlngdale
na sua próxima tarde de folga.
A Doris estava entusiasmada e lisonjeada.
Ela sempre gostara de homens mais velhos.
Por isso, na quarta-feira seguinte, a Doris chegou.
Depressa encontrou a casa.
Mas a visita acabou por ser diferente do que ela esperava.
Olá.
É você.
Não estava à minha espera?
Claro que estava.
É melhor entrar.
Tem fome?
Tenho.
Então, vamos comer.
- Passa-se alguma coisa? - Não. É que...
O que foi?
Há algum sítio onde eu possa pôr o casaco?
Ponha-o num sítio qualquer.
Por favor, sente-se.
Isto é um pouco afastado.
Sim.
É o dia de folga dos criados.
Por isso, estamos sozinhos.
Gosta de presunto?
Mais ou menos.
Isso é bom.
Muito bom.
- Deve ter sido um choque para ela. - É o que ela diz.
Não foi nada do que imaginou. Pobre Doris.
E ele a fingir que não era casado.
E depois?
O Sessle continuou a portar-se de modo estranho.
Tanto que a Doris começou a desejar não ter ido.
Não me admira.
Mas porque é que ela apareceu na estação naquele estado?
- Isso foi depois. Não me apresses. - Desculpa.
Estou a contar a história como a Doris insiste que aconteceu.
E estás a contá-la muito bem.
Obrigado.
Eles terminaram a refeição.
Depois, o Sessle sugeriu que fossem dar um passeio.
- Tuppence? - Estou aqui.
- O que estás a fazer? - A arrumar as minhas coisas.
- Precisas de ajuda? - Não. Achas que sou um bebé?
Vá, continua.
Estás mesmo a ouvir-me?
- Não sou surda. - Escuta, querida...
Fica onde estás e continua a falar. Eu estou a ouvir cada palavrinha.
O Capitão Sessle sugeriu que fossem dar um passeio...
Saíram de casa e foram pelo caminho nas traseiras.
Este levava ao campo de golfe.
O Sessle estava silencioso. Camlnhava rapidamente.
A Doris tinha dificuldade em acompanhá-lo.
Iam a descer o campo, em direção ao décimo sétimo "tee".
Fim da linha.
Não vamos mais longe.
Não percebo.
É o fim.
- De que está a falar? - Vão apanhar-me.
Estão quase a apanhar-me.
Fui um tolo em pensar o contrário.
De que serve tentar esconder-me?
- Pare. - Estou arrumado, percebe?
Estou perdido. Não adianta continuar. Já não lhes posso escapar.
Pare! Está a assustar-me!
Mas não irei sozinho. Nunca sozinho.
- Você vem comigo. - Pare.
Vão apanhar-me. Slm, vão apanhar-me.
Mas eu enganei-os até agora. E vou enganá-los até ao fim.
Uma bala é para si e a outra é para mim.
Só encontrarão os nossos corpos,
lado a lado na morte.
Esta é a versão que a Dons Evans conta
e que nunca foi mudada.
Ela nega veementemente
que o tenha atacado com um alfinete de chapéu em legítima defesa.
Embora, dadas as circunstâncias,
isso fosse algo natural, creio eu.
E assim está o caso, de momento.
E a arma?
Desculpa?
Perguntei pela arma.
Segundo essa versão, o Sessle apontou-lhe uma arma.
É verdade.
Sim, encontraram uma arma no dia seguinte
no meio de uns arbustos junto ao corpo.
- Não tinha sido disparada. - Estou a ver.
- Isso confirmaria a versão dela. - Talvez.
Mesmo que acreditemos nela, o que é bastante complicado,
quem matou o Capitão Sessle?
Terá sido a outra mulher?
A mulher de castanho que o perturbou tanto?
Até agora ninguém explicou a relação dela com o caso.
Tens razão.
Quem era ela?
Uma residente local? Ou terá vindo de Londres?
Se veio, terá vindo de automóvel ou de comboio?
- O que se passa? - Estava a pensar.
Se ela veio de automóvel, pode ter ficado aqui.
- Isso é bastante improvável. - Talvez.
Mas é uma ideia horrível.
Uma coisa é certa. Ela não era a Dons Evans.
A Doris é baixa e loura e tinha acabado de chegar à estação.
A mulher? A mulher do Sessle?
A Sra. Sessle também é baixa.
E o Hollaby conhece-a bem, Lembras-te?
Ele tê-la-ia reconhecido assnm que ela aparecesse no campo.
Embora outra prova tenha vindo a lume.
A Companhia de Seguros Porco-Espinho,
a empresa do Hollaby e do Sessle,
está em liquidação.
As contas revelam
que, durante anos, houve um arrojado desvio de fundos.
- Desfalque. - Exato.
Nem o Hollaby nem o filho deste sabiam o que se passava.
Filho?
O filho do Hollaby também trabalhava na empresa.
Agora estão praticamente arruinados.
Estou a ver. Então, o caso está no seguinte ponto.
O Capitão Sessle estava à beira da descoberta e da ruína.
O suicídio pareceria uma solução natural.
Um homem não se apunhala com um alfinete de chapéu.
Eu sei. É aí que está a confusão.
Estou sempre a voltar à mulher de castanho.
- Achas que ela o matou? - Não sei.
De uma coisa tenho a certeza: não foi ela.
A Doris Evans? Porque tens tanta certeza?
Olha para ela. Tem cabelo curto.
Só uma mulher em vinte usa alfinetes de chapéu,
com cabelo comprido ou curto.
E os chapéus assentam bem. Não tinhas reparado?
Ela pode ter guardado um.
Meu querido, nós não os guardamos como recordações.
Porque é que ela ia trazer um alfinete de chapéu para Sunningdale?
Tens razão.
Não tem lógica.
Não bate certo.
Nesse caso, deve ter sido a outra, a mulher de castanho.
Quisera ela não fosse tão alta. Assim, podia ser a mulher dele.
Suspeito sempre das mulheres que estão fora na altura
e não podiam ter nada a ver com aquilo.
Se ela encontrou o marido a namoriscar com uma rapariga,
teria sido natural para ela atacá-lo com um alfinete de chapéu.
Estou a ver que tenho de ter cuidado.
Estava a brincar.
Santo Deus.
- Esqueci-me de uma coisa. - O quê?
Já é tarde e ainda não jantámos.
Deves estar esfomeada.
Tommy...
lmportas-te se, para variar, não jantássemos esta noite?
Acho que posso tentar aguentar.
É que eu não tenho muito apetite.
Agora que falas nisso, eu também não.
Mas também não tenho muito sono.
- Eu também não. - Que coisa.
Vamos tentar pensar numa coisa para fazermos.
Vamos.
Que tipo de homem era o Capitão Sessle? Fazes alguma ideia?
Muito respeitável, aparentemente,
um pilar da comunidade e essas coisas todas.
É por isso que isto é tão estranho.
O assassínio é uma coisa estranha.
Não estou a falar do assassínio. Qualquer um é capaz disso.
Até tu e eu.
Estou a falar daquilo com a Doris. E isso que me intriga.
Meter-se com ela daquela maneira. Porque é que o fez?
Porque é que ela o fez?
Talvez ele tivesse uma vida secreta.
O original hipócrita.
Não, não me parece.
Que género de pessoas seriam os Sessle?
O que dizem as pessoas sobre eles?
Que eu saiba, eles eram muito populares.
Pertenciam às comissões locais, faziam caridade...
- Eram felizes? - Parece que se adoravam.
Ele era um ex-militar, de um bom regimento.
Herdou um bom dinheiro e retirou-se mais cedo.
Vieram para cá
e ele meteu-se nos seguros com os Hollaby.
A Companhia de Seguros Porco-Espinho.
Ele parecia ser o último homem do mundo
de quem se poderia suspeitar ser um trapaceiro.
Como tu disseste,
isto não bate certo.
Vamos.
Vamos.
- Não tens fome, querida? - Tenho.
Então, ataca.
De certeza absoluta que o Sessle era o trapacelro?
Quem mais podia ter desfalcado o dinheiro?
Os Hollaby.
- Eles dizem que estão arruinados. - Isso é o que eles dizem.
Talvez o tenham escondido num banco com outro nome.
- Tuppence. - Algures.
Supõe que eles andavam a investir o dinheiro
e o Sessle não sabia.
Supõe que eles perderam o dinheiro todo. Acontece.
Seria conveniente para eles que o Sessle morresse quando morreu.
Estás a acusar este cavalheiro respeitável
de assassinar o seu amigo íntimo e sócio?
Por que não?
Porque, minha querida esposa, pareces estar a esquecer-te
de que o Sessle se separou do Hollaby
à vista do Barnard e do Lecky.
E o Hollaby passou o resto da tarde a receber amigos em sua casa.
- Que chatice. - Dizes bem.
- E ainda temos o alfinete. - Que se dane o alfinete.
Pareces convencido
de que o alfinete prova que o crime fo¡ cometido por uma mulher.
- E não prova? - Não.
Os homens são impossíveis. São muito antiquados.
- Não têm imaginação. - Então?
Demoram séculos a livrarem-se de ideias tolas e preconcebidas.
Por exemplo?
Os alfinetes de chapéu e os ganchos de cabelo
são associados ao sexo feminino e são sempre armas das mulheres.
- Parece-me lógico. - Mas tão desprovido de imaginação.
Eu não uso um alfinete de chapéu ou um gancho há quatro anos.
Pois não.
É verdade.
- Então, achas que...? - Foi um homem que matou o Sessle.
O alfinete de chapéu foi usado para parecer que tinha sido uma mulher.
Tommy, tu jogas golfe e conheces o campo de Sunningdale.
Estiveste lá muitas vezes.
Não como um detective à procura de pistas,
mas como uma pessoa vulgar a fazer...
- A fazer...? - Uma jogada.
Tuppence, estás a dizer...?
Tu sabes o que faz um homem ficar fora de si.
Querido, não vais acabar o pequeno-almoço?
Não, não tenho tempo.
- Bom dia. - Bom dia, cavalheiro.
Importa-se de pôr isto no automóvel, por favor?
- Obrigado. - Eu é que agradeço.
- Desculpa a demora. - Não te preocupes.
Valeu a pena.
Acho que seria melhor eu levar uns tacos.
Ninguém vai reparar.
Vamos ver se percebemos isto bem.
Nós somos o Barnard e o Lecky, que vão para o décimo sexto "tee".
O Hollaby e o Sessle estão ali em cima.
Distinguimos perfeitamente o casaco azul do Sessle.
Muito bem...
O que vemos exatamente?
Oe repente, quando o Sessle se aproximou do décimo sétimo "tee"...
Ela era muito alta e estava vestida de castanho.
Há algo que não está bem.
Porque é que eles não a viram antes?
Quem? O Barnard e o Lecky?
Ela não veio do campo feminino. Eles tê-la-iam visto.
E é estranho que não a tenham visto no caminho antes.
Espera lá.
Anda.
Tommy?
Bem me parecia.
Muito bem.
Não percebo.
Não vês?
Esta cabana não se vê do campo.
Qualquer um podia ter esperado aqui até chegar o momento certo.
E depois aparecia, como ela fez.
Sim.
Perfeito.
Para quê?
Para alguém mudar o seu aspecto.
Diz-me uma coisa...
Seria muito difícil um homem parecer uma mulher
e depois voltar a ser um homem?
Depende.
Só teria de parecer uma mulher de longe.
Estou a ver tudo, Tuppence.
Acho que sei como foi feito.
Um minuto e meio lá fora...
- O que foi? - Depressa.
Foi isso que o Hollaby viu.
Não uma mulher de castanho,
mas um homem vestido de mulher.
Era por isso que ela era tão alta.
Ela e o Sessle afastaram-se.
Eles desapareceram e foi aí que aconteceu.
O assassínio?
Podemos deixar um corpo ali e ficaria escondido até de manhã.
- Mas alguém ouviria alguma coisa. - O quê?
A morte deve ter sido instantânea.
Já vi homens morrerem assim na guerra.
Não choram nem gritam.
Soltam apenas um gorgolejo ou um gemido.
Ou uma tosse estranha.
Imagina.
O Sessle dirige-se ao décimo sétimo "tee".
A mulher aparece.
Vou já!
O que se passa aqui? Não vou...
O homem tira o casaco azul do corpo
e volta à cabana para se livrar do seu disfarce.
A partir deste momento,
o Barnard e o Lecky nunca veem a cara do Sessle.
Apenas veem o casaco azul que conhecem tão bem.
Nunca duvidam que é o Sessle.
Mas ele não joga como o Sessle.
Todos disseram que ele jogava como um homem diferente.
Claro. Ele era um homem diferente.
Não foi o Sessle que se meteu com a Doris no cinema
e a convidou para vir cá.
Não foi o Sessle que a trouxe ao campo e a assustou de morte.
Foi um homem que dlzla chamar-se Sessle.
A Doris Evans só foi presa daí a quinze dias.
Ela nunca viu o corpo.
Se o tivesse visto,
ela teria destruído uma trama cuidadosamente planeada.
Foi tudo uma fachada.
Alguns cabelos dela e uns fios do casaco dela, lembras-te?
Ela foi atraída aqui deliberadamente
e habilidosamente tramada.
Claro.
Deve ter sido depois da Doris ter fugido.
O assassino voltou à cabana para despir o casaco azul,
livrar-se do disfarce
e voltar a vestir o casaco azul no corpo do Sessle.
Espera.
- Há uma coisa que não bate certo. - O quê?
- O Hollaby. - O Hollaby?
Admito que o Barnard e o Lecky não conseguiam ver se era o Sessle.
Mas o homem que estava a jogar com ele tinha de lhe ver a cara.
Minha querida, a questão é essa.
O Hollaby sabia. Tu própria adivinhaste.
E, se tivermos razão,
o Hollaby e o filho são os autores do desfalque.
Eles planearam tudo juntos.
A mulher de castanho era o Hollaby Jr.,
que voltou ao campo como Capitão Sessle.
Estás bem?
Claro que sim.
É melhor continuarmos.
Raios!
Quando ele deixou o pai,
foi direto para a casa para esperar pela Doris.
Então, o filho do Hollaby é o assassino.
Sim.
Ele tem a mesma idade do Sessle e a mesma altura.
Ele sabia que a casa estaria vazia.
Estava numa situação privilegiada para obter uma cópia da chave.
E nunca temeu um interrogatório. Para quê?
Ninguém pensou perguntar ao filho do Hollaby
o que estava a fazer naquela tarde.
Ou o que andava a tramar.
Então, a Doris Evans conheceu o Hollaby Jr.
A fingir que era o Sessle.
Se ela tivesse visto uma fotografia dele num jornal,
a qualidade é tão má que ela nunca o teria reconhecido.
Exatamente.
Finalmente, tudo bate certo.
Primeira paragem, Scotland Yard.
Os Brilhantes Detectives Blunt têm de receber os louros que merecem.
Depois vamos para casa comer e passar uma noite sossegados.
- Não concordas? - Sim.
Tuppence, não vamos passar outra noite num clube noturno
ou a ver uma peça teatral maçadora.
- Não. - Então?
Estava só a pensar se não poderíamos parar,
no caminho para casa, claro...
Sim?
...naquela lojinha na South Moulton Street que eu encontrei.
- Não te importas, pois não? - Importar-me?
Tu mereces.
Querido...
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