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AGATHA CHRISTIE PARCEIROS NO CRIME
A CASA DA MORTE LATENTE
Quer mais café, Lois?
Obrigada, Miss Logan.
- Mary? - Não, obrigada.
O Dennis está bastante atrasado hoje.
- Se calhar já saiu. - Sem tomar o pequeno-almoço?
Talvez tenha tido de ir ver alguém na aldeia.
Onde estará ele?
Ainda deve estar no quarto, a ressacar.
Mary!
Ele só chegou por volta das quatro.
Não o ouviu?
Não.
É estranho. Ele fez bastante barulho.
Essa observação foi despropositada, Mary.
Do barulho que ele fez ou do estado em que estava?
Ambas.
- Não o ouviu? - Não.
Nesse caso, peco desculpa. A si também, Lois.
Não é preciso.
Deve haver uma explicação simples.
Duvido.
Viram o jornal? Procurei-o por toda a parte. Nem sinal dele. É estranho.
- Está à procura disto? - Muito bem.
Já estava a pensar que uma das criadas o tinha surripiado.
Dennis, sabe muito bem que nenhuma das criadas faria uma coisa dessas.
- Estava a brincar. - Desculpe o transtorno.
Não faz mal. Já acabou de o ler?
- Já. - Óptimo.
Os resultados das corridas estão na última página.
Olá, querida.
- Arenques ou ovos mexidos, Dennis? - Nem uma coisa nem outra.
Também tem a excelente papa da Sra. Holloway.
Não quero nada, a sério. Só quero café.
- Só café? - Simples, por favor.
- Não se sente bem? - Não, estou óptimo.
- Estou um bocadinho maldisposto. - Talvez esteja a chocar uma gripe.
- Talvez. - Espero que não.
Há muitos casos de gripe por aí.
Obrigado.
Chegou isto para si, Miss Hargreaves.
Obrigada, Esther.
- Céus. - O que foi?
Bombons.
- Vejam. - Quem diria.
- Quem lhos mandou, querida? - Não tem nome.
- E não parece haver um cartão. - Que estranho.
Talvez tenha um admirador secreto.
- Dennis! - Além de mim, claro está.
Obrigada, Esther.
Sejam de quem forem, parecem deliciosos.
- Mary, prove um. - Não, obrigada.
- Insisto. - Não, a sério.
Está preocupada com a linha, Mary?
Bem... Só um.
Miss Logan?
Obrigada, querida.
- Dennis. - Não, obrigado.
- A sério? - Tenho de ir andando.
- Tenho de ir falar com... - Um homem sobre um cavalo?
Algo do género.
Guarde-me alguns.
- Esperamo-lo para o almoço, Dennis? - Porque não? Não me demoro.
Até logo.
Muito bem... Qual hei de escolher?
- Sem recheio ou com recheio? - São uma autêntica delícia.
Acho que vou escolher
com recheio.
Delicioso.
Rose...
Achas que este pó tem o tom certo?
Acho.
Todo o cuidado é pouco quando se tem o meu tom de pele.
- É lindo. - Achas?
Sim, não é mau.
É depravado e nojento.
Não estava a falar consigo.
És uma mulher pintada, rapariga.
Ouve o que te digo: Não vais singrar na vida.
O que acha, Sra. Holloway?
Não me incomodes agora, Esther. Tenho muito que fazer.
Cuidado para a jovem patroa não te apanhar
com essas pinturas de meretriz na cara.
Miss Hargreaves? Ela nem sabe que dia é hoje.
Mas o Sr. Radclyfe sabe. Ele disse que eu estava linda.
- Atrevida. - Está com ciúmes.
- Devias usar maquilhagem, Rose. - Não.
- A sério. Porque não experimentas? - Acho que não.
- Já sei. Vou emprestar-te a minha. - A sério?
- Deixa a rapariga em paz. - Não tem nada a ver com isso.
É indecente e contra a vontade de Deus.
- Estão a chamar-te, Esther. - Não sou surda.
Vou dar-te uma dica. Morde os lábios.
- O quê? - Morde os lábios. Assim.
Para quê?
Ficam mais vermelhos, mais desejáveis. Vês?
- Esther. - Está bem, está bem.
Já podem começar a rezar.
Esther.
- Tem de chamar a Polícia. - Não.
- Porquê, meu Deus? - Não creio que haja motivo.
Depois do que aconteceu?
- Dr. Burton... - Ouça-me, Miss Hargreaves.
- Lois... Não é a primeira vez. - Eu sei.
- Algo tem de ser feito. - Mas a Polícia...
Deve isso a todos. E, acima de tudo, a si.
Lamento, mas não posso.
- Não serei responsável. - Não tem de ser.
Minha querida, é minha paciente.
E uma amiga muito querida.
Talvez haja outra solução.
- Outra solução? - Sim.
Uma igualmente boa e muito mais segura.
Pensei em algo que não envolve a Polícia.
Caíste.
Não faças isso.
Tommy.
- Quem é? - Uma rapariga.
- Deixa-me ver. - Uma rapariga bastante simpática.
Aliás, parece-me uma rapariga assustadoramente simpática.
- Deixa-me ver. - Está bem.
O Albert está a dizer-lhe as tolices do costume.
A verdade é que, minha senhora,
nunca estivemos tão ocupados.
Pode dizer-se que estamos atolados de trabalho.
Pois... Temos a Scotland Yard ao telefone de minuto em minuto.
E a "Sureté" a Polícia Secreta Francesa,
não para de nos chatear.
- Céus. - O chefe anda numa roda-viva.
- Talvez seja melhor ir-me embora. - Eu não disse que era impossível.
Talvez consigamos... metê-la entre casos.
Eu ficaria imensamente agradecida.
- Ela não é má. - Não é má?
E as roupas dela são simplesmente o último grito.
Ela é perfeitamente adorável. E obviamente muito simpática.
E bonita.
E distintamente inteligente sem ser demasiado atrevida.
Os teus poderes de observação estão muito aguçados hoje.
Este caso vai exigir cuidados muito especiais.
- Palavra? - Serei sofisticado, delicado.
- Distinto. - Tudo ao mesmo tempo?
Uma coisa eu sei, Tuppence. Eu sou o Comandante do barco.
Não te esqueças disso.
Vamos mandá-la entrar.
Entre.
Miss Lois Hargreaves.
Como está, Miss Hargreaves?
Pode retirar-se, Albert.
- Apresento-lhe Miss Robinson. - Muito prazer.
Miss Robinson é a minha... assistente.
Obrigado, Albert.
- Sente-se, por favor. - Obrigada.
Saia, Albert.
Não seremos sérios nem formais.
Vai apenas contar-me tudo o que aconteceu.
Depois, discutiremos a melhor forma de a ajudar no seu... contratempo.
- É muito gentil, Sr. Blunt. - Não tem de quê.
Desculpe, mas é estrangeiro?
Não propriamente.
Mas as minhas investigações levam-me muito ao estrangeiro.
Os meus métodos são os da Sureté, a Polícia Secreta Francesa.
Muito bem...
- Chama-se Lois Hargreaves? - Sim.
Vivo numa grande casa antiga chamada Thurnly Grange.
Fica no centro da região e é extremamente isolada.
Embora a pequena aldeia de Thurnly fique lá perto.
Nunca me senti só lá.
Aliás, prefiro a vida no campo à vida na cidade.
Que sensata. Se ao menos eu...
Não interessa.
Continue, por favor, Miss Hargreaves.
Há cerca de uma semana
recebi uma caixa de bombons mandada pelo correio.
Não tinha nada que indicasse quem a tinha mandado.
Como é natural, eu ofereci-os.
Quem tinha comido os bombons ficou gravemente doente.
Palavra?
O meu médico, o Dr. Burton,
mandou analisar os bombons que sobraram.
Sr. Blunt, os bombons continham arsénico.
Não o suficiente para matar alguém, mas o suficiente para adoecerem.
Extraordinário.
O Dr. Burton ficou muito preocupado.
Foi a terceira ocorrência do género na vizinhança.
Em cada caso, escolheram uma casa grande
e as pessoas adoeceram
após terem comido os misteriosos bombons.
Parecia que alguém estava a pregar uma partida de muito mau gosto.
O Dr. Burton partilha dessa opinião?
Ele atribui as culpas à agitação socialista.
Há um ou dois descontentes na aldeia.
- Concorda com ele? - Parece-me um absurdo.
Tem razão.
Miss Hargreaves...
Porque não participou isto à Polícia?
Detesto a ideia da confusão e da publicidade.
E conheço o inspetor local.
Não o imagino a descobrir o que quer que seja.
Compreendo.
Sr. Blunt...
Miss Robinson...
Nos vossos anúncios falam muito sobre discrição.
Presumo que isso queira dizer
que não tornariam nada público sem a minha autorização.
Miss Hargreaves...
Acho que seria melhor se nos contasse tudo.
Tudo o que disser será estritamente confidencial.
Muito bem.
Tenho uma razão para não ir à Polícia.
A caixa de bombons foi mandada por alguém que vive na minha casa.
- Como sabe? - É simples.
Eu tenho um hábito, muito tolo, admito,
de desenhar uma coisa, uma espécie de gatafunho,
quando tenho um lápis na mão.
É um desenho pequeno, três peixes enlaçados.
Há tempos recebi uma encomenda de meias de seda de Londres.
Tinha estado a marcar algo no jornal naquela altura
e, sem pensar, comecei a desenhar na encomenda antes de a abrir.
Nunca mais pensei nisso.
Mas quando examinei o papel que embrulhava os bombons,
vi...
Eu...
Eu vi...
Viu o quê, Miss Hargreaves?
Isto.
- Isto é muito grave. - Eu sei.
Volto a perguntar-lhe, Miss Hargreaves,
porque não foi à Polícia?
Porque posso querer isto tudo abafado.
- De quem suspeita? - De ninguém.
Mas há algumas possibilidades.
Claro.
Por favor descreva-nos as pessoas da casa.
Primeiro tenho de vos dizer que fui criada pela minha tia Lady Radclyfe,
que era extremamente rica.
O marido fez uma grande fortuna e foi nomeado cavaleiro,
mas morreu há uns anos.
Foi nessa altura que fui viver com a minha tia Lucy.
Eu era a sua única parente viva,
além de Dennis Radclyfe, sobrinho do marido.
Sempre lhe chamei primo,
mas é claro que ele não é meu primo.
Continue.
A tia Lucy sempre disse que queria deixar a sua fortuna ao Dennis.
Era dinheiro dos Radclyfe, dizia, e devia ir para um Radclyfe.
Contudo, há uns tempos eles discutiram,
por causa de umas dívidas parvas que ele tinha contraído, creio.
Quando a minha tia morreu,
eu fiquei espantada ao saber que ela me tinha deixado tudo.
Foi um grande choque para o Dennis e eu senti-me mal por isso.
Quis dar-lhe dinheiro, mas sei que ele não teria aceitado.
Contudo, assim que fiz 21 anos,
fiz um testamento deixando tudo a ele.
Assim, se me acontecesse alguma coisa,
pelo menos o Dennis receberia a sua parte.
E quando,
se me permite a pergunta,
fez 21 anos?
Há três semanas.
Miss Hargreaves...
As pessoas da casa?
- Criadagem ou outros? - Todos.
Bem... A maioria das criadas está connosco há séculos.
Temos a Sra. Holloway, a cozinheira.
É bastante sossegada e trabalha muito.
Depois temos a Rose, a filha dela.
É muito tímida e muito reservada.
A Hannah era a criada da minha tia.
É muito velha e bastante religiosa.
A criada de sala é a Esther Quant. Não sei muito sobre ela.
Está connosco há pouco tempo, mas parece muito simpática.
Quanto a nós...
Miss Logan era a companheira da tia Lucy.
Ela dirige a casa por mim.
Depois temos o Capitão Radclyfe,
o Dennis, de quem vos falei.
E uma rapariga chamada Mary Chilcott,
que está hospedada lá em casa.
Andámos no colégio juntas.
Ela é a minha melhor amiga.
E é tudo.
Presumo que não suspeite
de ninguém em particular.
Apenas tem receio de que possa ter sido
alguém que não pertença à criadagem, digamos.
Pois.
É óbvio o que tem de ser feito.
Temos de ir ao local.
- Quando desejam ir lá? - Amanhã. Não há tempo a perder.
Só mais uma coisa, Miss Hargreaves.
Não diga nada a ninguém sobre o que nos contou.
- Prometo. - Obrigado.
Albert, acompanhe Miss Hargreaves.
Sim, Sr. Blunt.
Obrigada. Estou muito agradecida.
Até amanhã.
- Adeus. - Adeus, Sr. Blunt.
E boa viagem, Miss Hargreaves.
Bem...
- O que achas? - Não me agrada.
Sobretudo o facto de os bombons terem tão pouco arsénico.
- O que queres dizer? - Não vês?
Os outros casos na vizinhança foram apenas uma fachada,
para criar a ideia de um maníaco local.
Quando a rapariga fosse envenenada, pensariam que tinha sido ele.
Se não fosse o papel de embrulho,
ninguém saberia que os bombons foram mandados por alguém da casa.
Achas que é uma trama contra a Lois Hargreaves?
Tenho a certeza.
Lembro-me de ler sobre o testamento de Lady Radclyfe.
Aquela rapariga recebeu uma quantia astronómica de dinheiro.
O que não abona nada a favor do Dennis Radclyfe.
Ele é o que ganharia mais com a morte dela.
Ela deve amá-lo muito.
Querido, é óbvio.
É por isso que ela está decidida a não ir à Polícia.
Nesse caso, porque é que ele não casa com ela?
Não sei.
É muito mais seguro e simples do que tentar matá-la.
A menos que ele já esteja envolvido com outra pessoa.
Mostra uma perna.
Querido...
Trouxe-te o pequeno-almoço. E o jornal da manhã.
Acabado de sair da prensa.
Estou acordado há séculos.
- Estás cheio de energia. - Pois estou.
E temos uma viagem para fazer, Lembras-te?
Queres dizer que isto é uma trama para me negar o meu descanso?
- Já passa das oito, sabes? - Céus. É tão cedo.
Já te preparei o banho.
Vamos fazer-nos à estrada o mais cedo possível.
Creio que não haverá muito trânsito, mas nunca se sabe.
- Além disso, estou preocupado com... - Tommy!
O que foi?
"Um surto repentino de envenenamento por ptomaína."
"Até agora morreram."
"Miss Lois Hargreaves, a proprietária da casa,"
"e uma criada de sala, Esther Quant."
"Gravemente doente"
"está Miss Rachel Logan."
A Lois Hargreaves está morta.
Tuppence...
Aquela rapariga.
Aquela rapariga perfeitamente encantadora.
Há algo de estranho nesta casa, mesmo à luz do dia.
Não sentes?
Apenas sinto vontade de confrontar o desgraçado do Radclyfe.
Vamos.
- Deve ser a Rose Holloway. - Perdão?
Não sou jornalista nem nada do género.
Miss Hargreaves foi ter comigo ontem e pediu-me que viesse cá.
- Quem mais está em casa? - O Dr. Burton e Miss Chilcott.
É ela que está a tratar de tudo.
Gostaria de falar com o Dr. Burton imediatamente.
Obrigada.
Sigam-me, por favor.
Se fizerem o favor de esperar aqui...
Obrigado.
Que lástima.
Parece mais uma selva do que uma estufa.
É tão desagradável e deprimente.
Como se estivesse a apodrecer.
Quem cuidará dela?
Posso ajudar-vos?
- Dr. Burton? - Sim.
O meu cartão.
Sr. Blunt?
E esta é a minha assistente, Miss Robinson.
Muito prazer.
Miss Hargreaves foi falar-me ontem dos bombons envenenados.
A pedido dela, eu vim investigar.
Infelizmente, tarde de mais.
Dadas as circunstâncias, não devemos estar com reservas.
Quanto ao episódio dos bombons,
eu creio que as mortes se deram por um envenenamento por ptomaína,
de uma espécie invulgarmente virulenta.
Havia inflamação gastrointestinal e hemorragia.
Como tal, vou mandar analisar a pasta de figo.
- Pasta de figo? - Não sabia?
A causa do surto
foram as sanduíches de pasta de figo comidas ontem ao lanche.
O veneno, se for veneno, é algo potente e rápido.
- Arsénico? - Não.
Algo muito mais virulento.
Parece uma toxina vegetal potente.
Uma toxina vegetal?
- Sim. - Estou a ver.
Onde está Dennis Radclyfe?
- Lá em cima. - Quero falar com ele, já.
- Sr. Blunt... - Já.
Muito bem.
Sr. Blunt, devo dizer-lhe...
O Capitão Radclyfe morreu às cinco da manhã.
Devem ser o Sr. Blunt e Miss Robinson.
A Lois disse-me.
Podemos falar noutro sítio?
Ainda bem que estão aqui. É tudo tão horrível.
- Sentem-se, por favor. - Obrigada.
- Posso dizer-vos alguma coisa? - Sim.
A pasta de figo que comeram ontem ao lanche de onde veio?
De Londres. Comemo-la muitas vezes.
Ninguém suspeitou de nada.
Pessoalmente, não gosto do sabor.
Foi por isso que não comi nenhuma sanduíche.
Mas a Lois comeu. E Miss Logan.
E a criada de sala, a Esther Quant?
Ela deve ter surripiado algumas mais tarde.
Era uma rapariga invejosa.
Como está Miss Logan?
O Dr. Burton acha que ela vai recuperar.
Ele diz que, como ela é mais velha, o veneno surtiu menos efeito.
Mas ainda está muito fraca.
O que eu não percebo é como o Dennis...
o Capitão Radclyfe foi infectado.
- Ele não lanchou convosco? - Não, saiu.
- A que horas voltou? - Por volta das 18h45.
- Viu-o? - Vi.
Miss Chilcott...
Estava apaixonada pelo Capitão Radclyfe?
- Apaixonada por ele? - Sim, foi o que eu disse.
Por favor, Miss Chilcott isto é muito importante.
Ele era bastante
selvagem e impulsivo.
E, parece-me, nada de confiança.
Mas...?
Podia ser muito divertido às vezes.
Parecia um rapazinho.
Era muito generoso e gentil.
Obrigada.
Diga-nos uma coisa, Miss Chilcott.
O que aconteceu exatamente ontem à noite?
O Dennis tinha ido dar um passeio. Costumava fazê-lo antes do jantar.
Estava a escurecer. Eu estava na estufa.
Continua a fazer um bom trabalho?
Tenho de fazer alguma coisa para me manter ocupada.
Não é tão mau quanto isso, pois não?
- Às vezes. - É pena.
- Bebe alguma coisa? - Não, obrigada.
- Mas não se acanhe. - Esteja descansada.
Dennis...
- Quando vai dizer à Lois? - Dizer o quê?
- Sobre nós. - Não há nada para dizer, pois não?
Se o diz.
Talvez não tanto como sobre si e a criada de sala.
A Esther?
Não me diga que está com ciúmes.
- Creio que estou. - Não há necessidade disso.
Dennis, é um patife, sabia?
Não me diga.
Não quer mesmo beber nada?
Não.
Ouça, minha querida. Não se preocupe.
Vai tudo correr bem.
- Vai? - Claro que sim.
A dias felizes.
Ele foi para o quarto e, pouco tempo depois,
adoeceu.
- Obrigado, Miss Chilcott, foi... - Muito prestável.
Continuaremos a nossa conversa mais tarde.
Sim, muito obrigado.
- O que foi aquilo? - Para a cozinha, depressa!
Pare!
- Essa loiça é de ontem? - Desculpe, minha senhora.
Mas com toda esta confusão não houve tempo para...
Ouça, Rose.
Estava um copo na estufa. Lavou-o?
- Onde está? - Ali.
Obrigada. Vamos.
Continue o seu serviço, Rose.
Ainda tem algumas manchas. Que sorte.
Muito bem, querida.
Temos de pedir ao Dr. Burton que o analise depois.
Sim. Mas não vai dizer-nos quem pôs o veneno.
E agora?
A Hannah.
"E tirei o livrinho da mão do anjo e comi-o."
"A minha boca ficou doce como o mel e assim que o comi..."
Miss MacPherson?
"Que pedaços de carvão a ferver caiam sobre eles."
"Que eles sejam lançados ao fogo e ao poço,"
"para nunca mais se erguerem."
Podemos falar consigo, por favor?
Não há tempo. Não há tempo.
O tempo está a esgotar-se.
"Cairei sobre os meus inimigos e derrotá-los-ei."
"Sim."
"Nunca mais terei descanso enquanto não os tiver destruído."
Assim está escrito.
Eu sou o flagelo do Senhor.
É doida varrida.
Saiam daqui!
Chegou a hora!
Eu sou o flagelo do Senhor!
O vento sopra para onde lhe apetece!
E eu destruo!
Muito obrigado.
Céus. Há quanto tempo ela estará assim?
Não sei. Olha para isto.
Uma leitura curiosa para uma criada velha tonta, não achas?
"Matéria Médica."
"De Edward Logan."
Logan... Logan...
Logan... Achas que é um parente?
Vamos descobrir.
Sim, era um dos livros do meu pai.
Ele era um grande médico.
Foi um dos pioneiros da terapêutica do soro.
- Devia ter muito orgulho nele. - Sim.
Miss Logan...
A criada, a Hannah, é boa...
- Ela é boa da cabeça? - É.
É muito religiosa.
Mas não tem nenhum problema.
Emprestou esse livro à Hannah?
À Hannah? Não.
O Dr. Burton deu-lhe uma injeção?
Receio que ele tenha insistido.
Parece que estive muito doente.
Mas encontrámos este livro no quarto da Hannah.
É vergonhoso.
Não gosto que a criadagem mexa nas minhas coisas.
Onde devia estar o livro, Miss Logan?
Na prateleira da sala de estar ou...
- Emprestei-o à Mary. - À Mary?
Ela interessa-se muito por plantas de todos os géneros.
Está a cuidar da estufa.
Creio que fez uma ou duas experiências.
Alguns chás de ervas podem ser muito fortificantes
e bastante eficazes para as dores de cabeça.
Sou muito dada a elas. O Dennis também.
Pobre Dennis.
O pai dele era meu primo direto, sabiam?
Quanto à estufa...
Quem mais trabalha lá, além da Mary Chilcott?
A Hannah, ocasionalmente, creio eu.
Estou a ver.
Obrigado, Miss Logan. E desculpe se a cansámos.
Sim, obrigada. Descanse e fique boa num instante.
Obrigada, minha querida.
Detesto esta casa.
Esperemos que a ida a casa do Dr. Burton nos refresque as cabeças.
E as ideias.
Tantas possibilidades.
- Mas a mais óbvia está morta. - O Dennis Radclyfe?
Ele devia ter qualquer coisa
para as raparigas se apaixonarem por ele.
Quanto mais ouço, mais me convenço de que ele era um patife.
O pior de tudo é que não consigo deixar de me sentir responsável.
Sinto que podia tê-lo impedido, de algum modo.
Isso é uma tolice e é mórbido.
A Lois Hargreaves não quis ir à Polícia.
Se ela não tivesse recorrido a nós, não teria feito nada de nada.
E o resultado teria sido o mesmo.
Sim, tens razão.
Juro-te que vamos resolver este caso.
Não sei como, mas vamos resolvê-lo,
nem que seja a última coisa que façamos.
Por aquela pobre rapariga.
Não vai ser fácil.
Eu sei.
O Dr. Burton ainda está a analisar a pasta de figo.
Comunica-nos os resultados assim que puder.
Óptimo.
O que me intriga mais é o timing das mortes.
O timing?
O Dennis Radclyfe foi assassinado depois dos outros.
- Porquê? - Isso é fácil. Ele não estava lá.
Mas assim que voltou foi envenenado.
Talvez.
Não pareces muito convencida.
Apenas sinto que o timing é a chave de tudo isto.
Se ao menos eu conseguisse ter a perspectiva certa...
E se a Lois Hargreaves não fosse o alvo?
O que queres dizer?
Supõe que a morte dela foi uma fachada,
como os bombons.
E o Dennis Radclyfe foi sempre a vítima visada.
É possível?
É possível, mas não muito provável.
Estás a esquecer-te do dinheiro.
Sim, é verdade.
A fortuna da Lois é o motivo óbvio.
E o óbvio é muitas vezes o certo.
Tuppence...
Gostaste da Mary Chilcott?
Sim, acho que sim. Porquê?
Não achaste estranho que ela não estivesse mais perturbada?
Ela era a melhor amiga da Lois Hargreaves.
Mas isso abona a favor dela.
Se ela fosse a assassina, não fingiria estar perturbada,
com uma voz algo pesarosa?
Creio que sim.
Céus.
- Não avançámos muito, pois não? - Não.
Gostava de saber como era a Esther Quant.
Jovem, bonita.
E o que lhe chamou a Mary Chilcott?
Invejosa.
É óbvio que ela andava a namoriscar o Dennis Radclyfe.
Será que o interesse dela era correspondido?
Talvez nunca o saibamos.
Mas que trama diabólica esta.
Falámos e falámos
e não parecemos mais próximos de uma solução agora.
Vamos.
- Tem de ser? - Tem.
Não nos podemos esquecer de uma pessoa, a Hannah.
A Hannah?
As pessoas fazem coisas estranhas quando são fanáticas religiosas.
Deve ter avançado muito rapidamente.
Creio que sim.
Começam a murmurar trechos da Bíblia no quarto durante anos
e depois passam de repente das marcas e tornam-se violentas.
Tu viste.
- Ela não foi propriamente violenta. - Esteve lá perto.
É certo que há mais provas contra ela do que contra as outras.
No entanto...
A perspectiva não me parece bem.
Tuppence...
Não estamos a avançar.
A menos que...
Tive uma ideia.
Rose.
Pergunte à sua mãe se nos pode dispensar um minuto, sim?
À minha mãe?
- E venha com ela. - Sim, senhor.
Estaremos na estufa.
- Desculpe se a assustámos. - Não me assustaram.
- Pensava que tinham ido à aldeia. - Já voltámos.
Presumo que goste de plantas, Miss Chilcott.
Nem por isso.
E cuida de todas estas plantas?
Alguém tem de cuidar delas. Ou cresciam de todos os lados.
Sr. Blunt...
Está mais próximo de resolver este assunto horrível?
Creio que sim.
Tem a certeza de que foi mesmo um crime?
Que mais poderia ter sido?
Um caso genuíno de intoxicação alimentar.
Isso não explica a morte do Capitão Radclyfe.
- Pois não, Miss Chilcott? - Não.
- Queria falar connosco? - Queria. Isto não demora.
Não, fique, Miss Chilcott. Gostaríamos que ouvisse.
Sra. Holloway...
O que pensava da Esther Quant?
Da Esther?
Ela não esteve muito tempo connosco, por isso...
Era boa rapariga?
Então, Sra. Holloway? É uma pergunta bastante simples.
Não me cabe a mim falar dela.
E a Rose, gostava dela?
Sim.
- Não tinha ciúmes dela? - Ciúmes?
Porque é que haveria de ter?
Ela era bastante íntima do Capitão Radclyfe, não era?
Era ou não era?
O que está a insinuar, Sr. Blunt?
Que a Rose, como qualquer outra jovem nesta casa,
podia estar apaixonada pelo Capitão Radclyfe.
E pode ter ficado com uns ciúmes insuportáveis.
- Isso não é verdade. - Não é?
- Está a acusar a minha filha...? - Não estou a acusar.
Estou apenas a sugerir.
E tem de admitir que é uma possibilidade.
Então, Rose?
Eu gostava do Capitão Radclyfe.
E a Esther era um bocadinho leviana.
- Mas era só isso. - Tem a certeza?
O Capitão Radclyfe era um cavalheiro.
Estou a ver.
Devia ter vergonha de pensar uma coisa dessas.
- Que a minha Rose podia... - Parece muito perturbada.
Perturbada? Claro que estou perturbada.
A Rose é tudo o que eu tenho neste mundo.
- Faria qualquer coisa por ela. - Inclusive...
matar?
Sra. Holloway...
Se viu a sua única filha namoriscar com um patife,
não faria qualquer coisa para a proteger, inclusive matar?
- Sr. Blunt, isso é uma loucura! - Será?!
O que me diz, Sra. Holloway?
Nada.
Não digo nada.
Muito bem.
Nesse caso, é tudo, para já.
Obrigado a ambas.
Foi um pouco violento, não acha?
A morte também é violenta, Miss Chilcott, não concorda?
Mas acusá-las daquela maneira é ridículo.
Talvez. Sobretudo quando há um suspeito mais óbvio à vista.
Está a referir-se a mim?
Entre.
Um mensageiro trouxe isto. É do Dr. Burton.
Obrigado, Rose.
Espero que sejam boas notícias.
Se tiver mais algum arroubo de fantasia,
eu estarei no meu quarto.
Aquela rapariga é fria.
Não disse nada.
Foste um pouco duro com as outras, não foste?
Tinha de ser assim.
Vejamos o que o Dr. Burton tem para dizer.
"Caro Sr. Blunt, há razões para crer que o veneno usado era rícino."
Rícino?
"Uma toxabulmose vegetal"
"de uma potência tremenda."
"Por favor não divulgue isto a ninguém."
Rícino.
Sabes alguma coisa disso? Eras bastante boa nestas coisas.
Obtém-se da planta de rícino.
Nunca gostei de óleo de rícino. Agora odeio-o mais do que nunca.
O óleo é bom.
Obtém-se o rícino das sementes da planta de rícino.
Não é muito difícil de extrair.
E é bastante mortal, diz o Burton. Será que...?
Olha.
- É...? - Uma planta de rícino.
Dizes que qualquer um pode extrair o veneno?
Desde que saiba como.
- A Hannah podia tê-lo feito? - Não tem conhecimentos para tanto.
A menos que...
O livro.
Estava aberto na mesa dela e uma página estava dobrada.
Aqui está.
Vejamos.
Sim.
Bem me parecia.
Acho melhor termos outra conversa com Miss MacPherson.
Agora.
Tommy...
Deixas-me falar com ela? Só desta vez?
Está bem, Tuppence.
Serás a Comandante do barco.
Só para variar.
Onde vais?
Preciso de fazer uma pergunta a Miss Logan. Só uma.
Miss Logan?
Miss Logan?
- És tu, minha querida? - Sim.
Dormiu bem?
Tão bem como seria de esperar.
Pedimos imensa desculpa por a incomodarmos.
Não faz mal.
- Obrigada, Sr. Blunt. - Não tem de quê.
Muito bem, pode dizer.
Conseguiram descobrir alguma coisa?
Sim, pensamos que sim.
Minha querida, é demasiado bonita para ser detective.
E é tão jovem.
Por ser jovem,
trabalhei num hospital durante a guerra.
- Tempos cruéis. - Sim.
Mas ensinaram-me qualquer coisa sobre a terapêutica do soro,
sobre venenos e antídotos,
sobre como eles salvam vidas e como podem matar.
- Sr. Blunt, importa-se? - Com certeza.
É muito gentil.
Por favor, continue, minha querida.
Também sei alguma coisa sobre o rícino.
Por exemplo, quando é tomado em doses pequenas,
forma-se o anti-rícino e cria-se imunidade.
- Verdade? - Sim.
A sua descoberta levou à criação da ciência da terapêutica do soro.
- O trabalho do seu pai, aliás. - Do meu pai?
Sabia isso, Miss Logan. Sabia muito bem.
Foi por isso que se injetou sistematicamente com rícino.
- O quê?! - Largue-me a mão.
Ainda não. Foi a senhora que fez isto e não o Dr. Burton.
Ajudava o seu pai no trabalho dele
e sabia tudo sobre o rícino.
Injetou-se para criar o anti-rícino.
Foi assim que se envenenou com os outros. - Não!
Escolheu um dia em que o Dennis Radclyfe estaria fora.
Não serviria de nada ele ser envenenado ao mesmo tempo,
porque poderia morrer antes da Lois Hargreaves.
- Está louca. - O timing foi crucial, não foi?
Desde que ela morresse primeiro, ele herdaria a fortuna dela.
Mas com a morte dele o dinheiro passaria para si.
- Sr. Blunt, ajude-me! - A sua parente mais próxima!
- Não é verdade! - É, sim.
Disse-nos esta manhã que o pai dele era seu primo direto, lembra-se?
A verdade é que...
a senhora se denunciou.
Está louca, já disse!
A verdade foi falada.
A verdade do Senhor
do Todo-Poderoso.
Eis a malvada!
Vi-a ler o livro e sorrir e soube.
Encontrei o livro e a página,
mas não significavam nada para mim.
A voz do Senhor falou-me
e era boa.
Levem-na daqui! Levem-na daqui!
Ela odiava a minha patroa, sua senhoria.
Ela sempre foi uma víbora ciumenta e invejosa.
Ela odiava a minha querida Miss Lois.
Mas os maus morrerão.
O fogo do Senhor consumi-los-á!
Tommy!
O candeeiro!
Apaga o fogo com o cobertor!
Está morta?
O choque deve ter sido de mais para ela.
Sinto muito.
Nós avisaremos a Polícia.
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