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AGATHA CHRISTIE PARCEIROS NO CRIME
ENGANAR O REI
Jornal! Jornal!
Valha-me Deus!
Leiam as notícias!
Mas porque diabo te contratámos?
Porque estou sempre a postos quando é preciso.
O seu Daily Leader, Sr. Beresford.
- Tenha um bom dia, Miss Tuppence. - Bom dia, Albert.
Sra. Beresford...
Pareces um pouco atabalhoada, querida...
Tinha pensado em fazer kedgeree,
seguido de doce com colheradas de creme espesso de leite e ovos.
Céus! Isto parece a escola! Estamos assim tão desesperados?
Há pelo menos três semanas que não há nem um crimezinho.
Uma agência de detetives é para "detetar"
e não para ficarmos sentados a ler o Daily Leader.
Ou a fazer kedgeree e doces,
de leite e ovos ou seja do que for.
- Entretanto, temos de animar. - Ai temos?
Em que estavas a pensar?
Acho que está na altura de voltarmos a sair para dançar.
Minha querida mulher, minha preciosa assistente, estou a ficar velho.
- Pobrezinho... - A tua compaixão é comovente.
E tu tens dois pelos brancos nas sobrancelhas.
Não és muito perspicaz. Tenho 2 pelos brancos na sobrancelha direita.
- Esquerda. - No espelho é na direita.
Mas danças tão bem, meu querido Tommy.
Cuidado com a graxa, Tuppence.
- Quando eu era uma rapariguinha... - Que memória tão boa!
... levaram-me a pensar que os homens, particularmente os maridos,
gostavam de beber, dançar, passar as noites fora de casa...
Deram-te uma educação muito estranha.
E que apenas uma mulher particularmente bela e inteligente
conseguiria mantê-lo em casa.
- Aí tens. - O quê?
Tu és uma mulher particularmente bela e inteligente,
por isso fico em casa e vou para a cama às 22:30.
Talvez gostasses de ter um cãozinho para te trazer os chinelos.
- Boa ideia. - Para ser sincera, Tommy...
Eu sabia que havia um motivo secreto...
Quero ir ao Baile das Três Artes.
Ao Baile das Três Artes não!
Mas é para a caridade, querido.
Que, segundo a minha educação, começa em casa.
Neste caso, é um lar para indigentes.
- Nesse caso, reserva-me um quarto. - Certo. Então vamos.
Pensa, Tuppence, pensa, o Baile das Três Artes,
traje a rigor, champanhe tépido, a batalha dos aperitivos...
Não é só por prazer que quero ir,
fiquei intrigada com um anúncio.
Vai à página dos anúncios pessoais do Daily Leader.
"Oui, mon capitain".
A oitava caixa na segunda coluna, o que diz?
Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito.
"Devo ir três copas,"
"12 vazas... Ás de Espadas."
"Necessário enganar o Rei."
O que achas disso?
Um modo muito dispendioso de aprender bridge, não te parece?
Sabes, às vezes acho que finges ser tonto de propósito. Ou és mesmo?
É uma espécie de mensagem codificada.
Muito bem.
Calculo que o Três de Copas seja o Baile das Três Artes...
- Óbvio. - Muito obrigado.
É amanhã. 12 vazas pode significar 12 horas.
- Meia-noite. - Claro que é meia-noite, palerma.
Um baile de caridade nunca é à hora de almoço.
Ás de Espadas...
Não é a espelunca numa cave onde fomos quando éramos recém-casados?
Exatamente.
Onde havia um rato que não parava de correr em círculos?
Não me atrevi a olhar.
Com cabinas tapadas?
Na altura, não te incomodou.
Mas o que tem o Ás de Espadas a ver com o Baile das Três Artes?
É onde vão muitos foliões ao final da noite para comerem bacon com ovos
ou torradas com queijo.
- Ou kedgeree... - Muito espirituoso.
- Tudo em traje formal. - Claro. E a maioria de máscara.
Medonho.
Então, o Três de Copas é Baile das Três Artes,
Doze vazas é meia-noite.
Ás de Espadas é o Ás de Espadas.
- Absolutamente brilhante. - Mas o que significa,
"necessário enganar o Rei"?
É isso que eu queria descobrir. Somos detetives, temos de treinar.
Mas se é amanhã, onde vamos arranjar os fatos a esta hora?
Já os tenho.
Nem devia ter perguntado. De que são?
Sherlock Holmes e Dr. Watson.
Não está mal.
Vou ficar muito bem com chapéu de caçador
um cachimbo apertado entre os meus viris maxilares,
um estojo de violino e uma seringa hipodérmica à volta do pescoço.
- Admite. - Admito o quê?
Estás a adorar.
Que grande maçada. Sou um marido entediado,
arrastado contra a própria vontade e cheio de calor com esta roupa.
Mas danças divinamente.
Isso é porque te amo.
Tommy, é tão bom sair contigo.
E sabes isso, não sabes?
- Vamos para casa, Sherlock. - Que horas são?
Um quarto para a meia-noite.
O Ás de Espadas!
Que agradável. Continua a ser um antro de perversidade.
Olá, meus caros. Sentem-se.
Bacon com ovos ou torradas com queijo?
Torradas com queijo, por favor.
Eu quero bacon com ovos.
- Café, chá ou limonada? - Café, por favor.
- Gin? - Perdão?
O café é gin, querida, servido em canecas, não vá a Polícia aparecer.
- O que é o chá? - Whisky.
- E o que é a limonada? - Limonada, para quem não bebe.
- Limonada, por favor. - Para mim também. Basta de bebida.
Um bacon com ovos, uma torrada com queijo e duas limonadas. Sai já.
Quem serão as nossas pessoas? Columbina e Pierrot?
A cigana e navio de guerra?
Eu diria que é mais um barquinho.
Olha para aquilo!
- É uma bonita máscara. - Bastante.
E está acompanhada pelo senhor vestido de jornal,
cortesia de Alice no País das Maravilhas.
Eu vi-o no baile.
- Mas é o Daily Leader! - Onde?
Vá lá, Tommy, anima-te.
Eu queria dizer que o jornal que ele traz vestido é o Daily Leader.
Não é soberbo? É só escândalos à nossa volta.
É uma espelunca infernal.
- E aquela ninfa? - Onde?
A que entrou com o francês cómico.
Pode ser... mas pode ser qualquer pessoa.
- Aonde achas que ele vai? - Talvez vá apressar as bebidas.
E espero que a nossa comida não demore, estou faminto.
- Façamos o seguinte... - O quê?
Vamos parar de investigar, estamos a divertir-nos tanto...
- Porque ficaste séria de repente? - Não sei, tive um pressentimento.
Sobre o quê?
- O vosso pedido. - Entre.
Uma torrada com queijo, bacon com ovos
- e duas limonadas. Bom apetite. - Obrigado.
Sinto que algo se passa na cabina do lado. Primeiro um grito,
depois uma gargalhada, duas coisas que não combinam.
E depois o homem que saiu, com um ar de indiferença...
- Sozinho. - Sim... porquê?
Não sei. Vamos dar uma espreitadela.
Depressa, Tommy. Ela ainda está viva.
Vê se há aí um médico e chama a Polícia.
Não toques no cabo da faca.
Eu tenho cuidado.
Minha querida... diga-me quem fez isto.
Foi...
...o Bingo.
Bingo?
Sim...
Foi o Bingo...
Acho que está morta.
É melhor deixarmos tudo como está até a Polícia chegar.
Tenho muita pena que nos encontremos nestas circunstâncias.
Ainda bem que veio, Inspetor.
Ainda não conseguimos saber quem é a pobre senhora.
Não tem qualquer identificação, exceto o fato,
e as lojas de máscaras não estão abertas a estas horas da noite.
Então, Doutor?
Morreu de um ferimento que penetrou o tecido cardíaco.
Na sua opinião, poderia ter sido autoinfligido?
É possível, mas não é muito provável.
Sra. Beresford, o que a fez ir àquela cabina em particular?
O Tommy e eu... Vou começar pelo princípio.
Viemos do Baile das Três Artes,
pouco depois de nos sentarmos na nossa cabina, ouvi um grito de mulher.
- Que espécie de grito? - É difícil definir.
Pode ter sido um grito de surpresa.
- Ou de dor? - Possivelmente.
- Seguido de uma gargalhada de homem. - E não pensámos mais nisso.
Até eu ter tido um pressentimento de que algo se passava.
O homem que estava mascarado de jornal,
- tinha uma máscara? - Sim.
Então presumo que não o reconheceriam.
- Receio que não... Tommy? - Não, só o fato.
E a gargalhada.
Tínhamo-lo visto anteriormente, no baile.
Sim, Sargento Halliday?
Uma das gerentes disto diz que o cliente vestido de jornal
esteve aqui pouquíssimo tempo.
- Aposto que sim. - E não pediu nada.
- Mas quem é a falecida? - Pensei que sabia.
Não tinha identificação.
Não, mas a foto dela aparece em todas as colunas sociais,
no Tatler, nesse tipo de publicações.
Mas não na Gazeta da Polícia, creio eu.
Quem é ela, afinal?
Lady Vere Merivale,
reconhecê-la-ia em qualquer lado.
- Mesmo morta? - Sim.
Certíssimo.
Não há razão para os manter aqui mais tempo, Sr. e Sra. Beresford.
- Obrigada. - Ainda preciso do Doutor.
Sargento, ligue para a esquadra e descubra o marido...
Que é...?
- Sir Arthur Merivale. - Sir Arthur Merivale.
- Certo, Inspetor. - Por aqui, Doutor.
Querida,
- tens a certeza que ela disse aquilo? - Sim.
- "Foi o Bingo". - Anda, vamos embora daqui.
É quase dia.
Desculpa, querido.
Desculpa?
Porquê?
Por ter-te arrastado para o Baile
e para o Ás de Espadas.
Não podias adivinhar o que ia acontecer.
Não, mas estava intrigada, é o meu ponto fraco.
E o teu ponto forte.
Mas o que te fez suspeitar de que algo se passava na cabina do lado?
Acho que foi a gargalhada.
Soou-me cavernosa.
E logo a seguir ao grito da mulher.
Isso.
Simples, meu caro Watson.
Sra. Beresford.
Lamento fazê-la levantar tão cedo depois de ontem à noite.
Não tem importância, Inspetor.
Esta é a Sra. Beresford, Sir Arthur.
Como lhe disse, ela encontrou a sua mulher no Ás de Espadas ontem.
- Sir Arthur Merivale. - Bom dia, Sra. Beresford.
- Os meus sentimentos, Sir Arthur. - Obrigado.
Ainda não acredito que o Capitão Hale pudesse magoar a Vere,
fosse como fosse, quanto mais...
O Sir Arthur é muito difícil de convencer.
O Bingo Hale é um dos meus melhores amigos.
Andámos juntos em Eton e em Cambridge.
Ele praticamente vive connosco.
Deve ter-se enganado.
Receio que não, Sr. Arthur.
A sua mulher disse, "Foi o Bingo".
E eu disse, "Bingo?" e ela respondeu, "Sim, foi o Bingo."
- Está a ver? - É incrível.
Que motivo poderia ele ter?
Bem, se o que eu ouvi é verdade...
Já sei o que pensa, Inspetor Marriott,
pensa que o Hale era amante da minha mulher.
Possivelmente é apenas um rumor, eu sei.
Nós os três somos inseparáveis há anos.
Aonde foi ele, depois do Ás de Espadas?
Foi detido em casa de Sir Arthur esta manhã.
Ontem fui para casa sozinho, depois do Baile,
o meu motorista pode confirmar.
- Já o fez, Sir Arthur. - Exatamente.
O Bingo disse que ia àquele clube,
não me recordo o nome. Foi o que disse que ia fazer.
Se me permite, alguém sabia que Lady Merivale ia lá estar?
Eu não sabia e não compreendo.
Pelo que sabia, ela ainda estava na casa de campo na Cornualha.
Isto não é muito agradável de dizer, Sir Arthur.
Acho que o Capitão Hale tem dado muita atenção
a uma certa jovem americana, ultimamente...
Para mim é novidade. E os cavalheiros não discutem os seus casos entre si.
Se a Lady Merivale tivesse ficado com ciúmes
e tivesse ameaçado terminar a relação...
Está a dizer disparates, Inspetor.
Não vale a pena supor isto ou aquilo,
precisamos de provas.
O que estava a fazer lá, Sra. Beresford?
Exatamente o mesmo que todos os outros,
fui comer qualquer coisa depois do Baile das Três Artes.
- Não havia outra razão? - Por acaso, sim.
No dia anterior, tinha lido uma estranha mensagem
nos anúncios pessoais do Daily Leader.
- Dirigida a quem? - Não dizia.
- De quem era? - Também não dizia.
- Ainda tem o jornal? - Por acaso tenho.
Não... Está no escritório, mas eu lembro-me.
Pode dizer-nos?
Dizia, "Devo ir Três Copas, 12 vazas... Ás de Espadas.
"Necessário enganar o Rei."
É uma senhora muito inteligente, Sra. Beresford.
O que achou disso?
Três Copas, Baile das Três Artes. Doze vazas, meia-noite.
O Ás de Espadas é óbvio, mas "enganar o Rei" não conseguimos decifrar.
Quem escreveu isso não joga bridge, com certeza.
Parece que foi publicado para chamar a atenção de Lady Merivale.
Lê o Daily Leader, Sir Arthur?
É raro. A minha mulher lê.
Lia...
Prefiro o Morning Post.
Talvez a Lady Merivale e o Capitão Hale
já tivessem decidido encontrar-se no Baile.
Desculpe, Sir Arthur, sei que não tenho nada a ver com isso,
mas quando decidiu ir ao Baile das Três Artes?
Ao Baile...? Deixe-me pensar. Ontem foi quinta.
O Bingo disse-me na segunda que iria,
ele participa em muitos eventos de caridade,
e eu disse que ia arranjar uma máscara e também iria.
- Ele comentou a sua decisão? - Que eu me lembre, não.
Talvez tenha dito algo do género, "Muito bem." Não me recordo.
Isso pode explicar a frase, "necessário enganar o Rei".
Para avisar Lady Merivale que o senhor também estaria no Baile.
Isso não me parece nada do Bingo.
- E o senhor foi de...? - Eu? O diabo.
Era a única máscara que ainda havia na loja. Sabe como é.
Sim, acho que o vi.
Eu não estou a ver muito bem.
Uma capa vermelha longa, uma máscara,
luvas vermelhas, uma espécie de capuz para parecer chamas
e uma cauda em forma de tridente na parte de trás da capa.
Mas não um punhal.
Claro que não, por favor, não diga disparates.
Tenho um homicídio para resolver, Sir Arthur.
Claro, peço desculpa.
Como é natural, estou muito perturbado.
Mas infelizmente não posso ajudá-lo.
Obrigado por ter ouvido o que a Sra. Beresford tinha a dizer.
Não foi nada.
Mas, mesmo assim, não acredito.
Só mais uma coisa, Sir Arthur.
Encontrámos um fragmento de papel na mão de Lady Merivale.
A Sra. Beresford deve ter reparado.
Não, não reparei.
- Mas eu estava muito chocada. - Com certeza.
O que pode provar esse fragmento de papel?
Um homem vestido de jornal ataca uma mulher.
A mulher, para se defender,
agarra-o e rasga um pedaço do seu fato.
Estou a ver... continue.
Os meus homens já foram buscar o fato do Capitão Hale a sua casa.
Se tiver um rasgão
que se adapte ao pedaço de jornal encontrado na sua mulher
o caso ficará encerrado.
Isso não vai acontecer.
Eu conheço o Bingo Hale.
Pode ter razão, Sir Arthur.
Mais uma vez peco desculpa por incomodar, Sr. Beresford,
mas era inevitável. - Com certeza.
- Bom dia. - Bom dia.
Não precisa de nos acompanhar.
Tommy, não devias ter feito isso.
Porque não?
Acabámos por não comer o nosso bacon com ovos ontem à noite.
- E a limonada. - Sim.
Mas o café pareceu-me mais adequado para a manhã.
- Ouviste tudo? - Quase tudo.
Para mim, foi o Bingo Hale.
Só se as teorias do Marriott estiverem corretas.
Por exemplo, ele disse, "se o que ouvi está correto..."
Estás a falar de o Capitão Hale ser amante de Lady Merivale?
Sim. Onde achas que ele ouviu isso?
Pelos criados da casa?
É preciso ser estúpido para ter um caso com a mulher do melhor amigo.
Eu diria que é muito banal.
Ai sim?
E quem é o teu melhor amigo?
- És tu, minha querida. - A sério...
Estou a falar a sério.
Pelo menos, não na casa do melhor amigo.
No local? Não sei, querida, nunca me aconteceu... ainda.
Bem, o Marriott parece convencido de que foi o Capitão Hale,
por isso o caso termina aqui para nós.
É melhor irmos para o escritório,
veremos o que o novo dia tem para nos oferecer.
Pois. Ainda assim...
- O que foi? - Algo está errado,
mas não faço ideia o que seja.
Sabes muito bem como és.
São Paulo há de aparecer-te sob uma luz...
Come.
Sim, mas o que disse ele, Albert?
Se eu não contar à minha maneira, vou enganar-me, Sr. B.
Sim, Albert, era um homem baixo, cerca de 50 anos...
Eu disse que era para o baixo.
Algures entre um anão e um gigante.
- Exatamente, Sr. B. - Ele disse o nome?
Deu-me um cartão de cigarros.
- Um cartão de cigarros? - Acho que era. Ainda nem vi bem.
- Isso é um cartão-de-visita. - Isso mesmo.
"Hugh E. Telling. Advogado da Verity, Bilton e Hackett. Lincoln Inn Fields."
E disse que agradecia que o contactasse.
Pareceu-te genuíno?
- Como, Sra. B.? - Que impressão tiveste dele?
- Bem, ele era para o baixo... - Sim, já disseste isso.
Bem vestido, camisa branca, calças às riscas, casaco preto,
chapéu de coco, guarda-chuva. - E a cor das meias?
Pretas, com uma seta. Sapatos pretos.
- Pronto, já chega. - Disseram-me que fosse observador.
Pois, claro. Ligaremos ao senhor mais tarde.
- Mais uma coisa. - Sim.
Disse que representava o Capitão Hill.
- De certeza que não disse Hale? - É isso, Hale.
O número está no cartão?
Raios!
Holborn, 1592.
Como ouviu falar de nós?
O Inspetor Marriott disse ao meu advogado, Dr. Telling,
que seriam chamados a tribunal como testemunhas.
- Já demos um depoimento. - Não temos mais nada a acrescentar.
O Inspetor também disse que tem uma agência de detetives
e que é muito competente. - Foi muito generoso da parte dele.
Por isso pedi ao meu advogado que lhes pedisse para me visitarem.
- Sim, pois... - Obviamente,
pagarei o vosso preço, seja qual for,
independentemente do que me acontecer.
- Não tem nada a ver com dinheiro. - São os resultados que nos importam.
Então, Capitão Hale, o que acha que podemos fazer por si?
Tudo o que a Polícia disse até agora é verdade.
Não está a falar a sério.
Exceto numa coisa.
Não matei a Vere.
Mas esteve no Baile das Três Artes?
- Mascarado de jornal? - Sim.
Com um fato feito de cópias do Daily Leader.
Não sei, a empregada do Merivale é que mo arranjou.
- Porquê? - Como, "porquê"?
Porquê esse fato em particular?
Ela disse que gostava muito da Alice no País das Maravilhas
e que era uma boa ideia. E eu concordei.
Depois foi ao Ás de Espadas.
- Não. - Mas nós vimo-lo lá.
Na cabina ao lado da nossa.
- Não. - Sabia que a Lady Merivale
iria lá estar? - Sim, isso foi combinado.
Na coluna dos anúncios pessoais do Daily Leader?
Sim, fui eu que pus o anúncio.
Então a sua relação com ela era um facto?
Sim, eu...
...eu venerava-a.
Porque não foi ao Ás de Espadas, tal como foi combinado?
Alguém me entregou um bilhete no Baile.
- De quem? - Calculei que fosse da Vere.
O que dizia?
Para eu não falar com ela no Baile nem ir ao Ás de Espadas
porque o Arthur estava desconfiado.
O que aconteceu ao bilhete?
O bilhete?
O bilhete que lhe deram?
Não sei, devo tê-lo deitado fora.
Reconheceu a caligrafia?
Não pensei nisso.
Além disso, não escrevíamos um ao outro.
É verdade, Capitão Hale,
que andava a dar muita atenção a outra senhora?
- Uma americana rica? - Não é verdade.
Conhecia-a, éramos amigos,
mas esse rumor surgiu nas colunas de mexericos dos jornais.
- Lady Merivale ficou perturbada? - Um pouco,
mas estávamos muito apaixonados e esperávamos casar um dia.
Sir Arthur sabia disso?
Não.
Éramos muito discretos.
Mas não tínhamos decidido ainda como lidar com a situação.
Mas vimo-lo a falar com Lady Merivale e a entrar numa cabina com ela.
Não era eu.
- A não ser... - A não ser...?
...que estivesse tão bêbedo ou louco
que a tivesse matado sem saber o que estava a fazer.
- Mostraram-lhe o punhal? - Sim.
Já o tinha visto?
- Eu disse ao Inspetor que não. - Mas já o tinha visto...
Sim...
... é meu. - Seu?
Sim, pertencia ao meu pai que serviu na índia.
Suponho que esta é uma pergunta tola,
mas como foi ele parar ao Ás de Espadas?
Sinceramente, não faço ideia.
- Onde o tinha guardado? - Nos meus aposentos em Jermyn St.
Era aí que se encontrava com Lady Merivale?
Capitão Hale, não sei se podemos ajudá-lo,
mas for favor seja sincero connosco.
Tudo o que disser é na mais estrita confidencialidade.
Peço desculpa.
Sim, encontrávamo-nos lá com muita frequência.
Lady Merivale chegou a ir lá sozinha?
Ela tinha as chaves.
- Então podia ter tirado o punhal. - Sim, creio que sim.
Se não foi ao Ás de Espadas,
onde esteve?
Para começar, fiquei muito perturbado com o bilhete da Vere,
por isso fui dançar. - Com quem?
Bem... Lamento,
mas nessa altura já tinha bebido muito e fui dançar com...
Bem, não tenho a certeza. Ainda tinham as máscaras.
A que horas saiu do Baile?
Depois da última dança... Que horas seriam?
- Os coches acabavam à uma. - Então era uma.
Depois voltou para a casa do Sir Arthur?
Sim.
- Diretamente? - Não, fui com...
... mais três pessoas à Corner House.
- Qual? - A da Strand.
Conhecia as pessoas?
Não sei... acabámos por ir lá parar.
- Estava um pouco embriagado? - Sim.
- Mais do que um pouco? - Sim.
- Borracho? - Mais ou menos.
Estava perturbado pelo bilhete da Vere... e intrigado.
Assim tanto que poderia ter ido ao Ás de Espadas, afinal?
Mas a Vere já estaria morta a essa hora, certo?
Quando o prenderam, não lhe disseram a hora da morte?
Não, eu estava na Corner House na Strand.
Não podia...
- Mas não há testemunhas, Capitão. - Não.
- Ainda estava mascarado? - Sim.
Se puséssemos um anúncio à procura de quem tivesse visto
um homem vestido de jornal na Corner House da Strand...
Não adianta. Eu tinha um impermeável por cima.
Mas precisamos de um álibi.
Quando voltou para casa de Sir Arthur, ele ainda estava a pé?
Não, mas deixou um bilhete a dizer que nos veríamos ao pequeno-almoço.
- Quando chegou a Polícia? - Não sei, estava a dormir.
E quando tirou o seu fato,
reparou que faltava um pedaço num dos cantos?
Para ser franco,
eu não estava em condições para me despir nem para nada.
Sabe que a Polícia ficou com o seu fato?
Calculo que sim, mas não faço ideia o que isso pode provar.
Bem, Capitão Hale, vamos embora e vamos pensar no caso.
Se tivermos alguma ideia, contactaremos o seu advogado.
E se se lembrar de algo, por mais insignificante que seja,
não hesite em falar connosco.
Obrigado. Foi muito decente da vossa parte terem vindo.
Adeus.
Adeus.
Não se esqueçam, eu amava-a.
Não podia tê-la matado.
Aqui está o chá.
Alguém ligou enquanto estivemos fora?
Uma chamada, Sra. B. Um homem que disse que passava por cá.
- Não sabes quem era? - Claro que sei.
Então, quem era?
Aquele polícia que acha que se comportam de maneira suspeita.
O teu sentido de humor há de ser a nossa morte, Albert.
Ou a tua.
- Quando disse que vinha? - Agora.
- Dizemos-lhe do Capitão Hale? - Aposto que ele sabe.
O Inspetor Marriott, da Scotland Yard.
- Que anda ele a fazer? - Gostava de fazer o papel de mordomo.
O culpado é sempre o mordomo.
Mas é um rapaz esperto. Quando soube que vinha, trouxe mais uma chávena.
- Ótimo, mesmo o que eu preciso. - Faça favor.
Achei que gostariam de saber os últimos desenvolvimentos.
Claro que sim.
A propósito, o que acharam do Capitão?
Achámos que era muito frontal.
- Sim, é um patife plausível. - Porque diz isso?
Bem, nunca vi um caso tão inequívoco.
Isto é, o punhal era dele.
Como soube?
A empregada da limpeza do apartamento dele reconheceu-o.
Tem andado muito ocupado.
É por isso que nos chamam os "ocupadinhos".
É melhor despachar logo estes assuntos, não acha?
De manhã, já terá confessado.
- Então não serei testemunha. - Não será necessário.
Ele não vai confessar.
O que o faz pensar isso?
Ele sabe que não o fez.
A Tuppence e eu sabemos um pouco sobre aquele homem.
Ele há de confessar quando eu lhe mostrar o pedaço de jornal
rasgado do fato. Ajusta-se perfeitamente.
- Perfeitamente? - Perfeitamente.
É do Daily Leader de terça-feira.
Trouxe-vos uma fotografia das provas.
- Achei que iriam gostar de ver. - Obrigada.
Esta é do fato do Capitão Hale.
Esta é um grande plano do rasgão.
E esta é do pedaço de jornal
que encontrámos na mão de Lady Merivale.
É um caso perfeitamente claro, não diriam?
Sim, à superfície parece.
Como, à superfície?
Pode estar a faltar uma peça do puzzle.
Então diga-me, quando e se a encontrar.
- Obrigado pelo chá. - De nada.
Eu vou dando notícias, se as houver.
- Obrigado. - Adeus, Sra. Beresford.
Tuppence?
- O Inspetor. - Sim, desculpe. Adeus.
Adeusinho.
Albert.
Vem aqui, Tommy.
O que são estas marcas ao longo do topo?
- Ali. - Costuras.
A unir os diferentes jornais.
E estas três estrelas aqui?
Mesmo antes do rasgão?
Alguns jornais têm marcas especiais nas diferentes edições ou dias.
Porquê?
Não posso divulgar a fonte da minha informação.
- Queres dizer que não sabes. - Há alturas, Tuppence,
em que acho que não somos muito compatíveis.
Disseram-me que a edição matutina do The Times tinha _ma coroa,
especialmente para o Palácio de Buckingham.
Sim e, por vezes, o jornal coloca umas pintas nos cabeçalhos a negro.
Tens razão, querido. Olha.
- Ali. - Foi isso que eu disse.
- Albert! - O que estás a preparar?
- Chamaram-me? - Preciso que vás arranjar cópias
do Daily Leader da semana passada.
- Onde posso encontrá-las? - Nas agências noticiosas.
- Eles livram-se dos jornais antigos. - Eles o quê?
- Livram-se deles, deitam-nos fora. - Então vai a Fleet Street,
apanha um táxi. - E trago-os para cá?
- Claro que sim, tolinho. - Vou a caminho.
Estarei certo ao pensar que tiveste um palpite?
- O pilim? - Perdão?
O cacau, a massa para o táxi.
Porque não disseste "dinheiro", Albert?
Obrigado.
Porque achas que o Inspetor insistiu tanto que era um caso inequívoco?
- Presunção, suponho. - Não me parece.
Acho que ele está a tentar que metamos o bedelho.
- O bedelho? - Para ficarmos desconfiados.
- "Pour quoi"? - Os talhantes percebem de carne.
- Sentes-te bem, querida? - Os merceeiros sabem de legumes.
E os pescadores sabem de peixe.
Os detetives da Scotland Yard devem saber tudo sobre crimes.
- Na minha modesta opinião... - Modesta?
A experiência do Inspetor diz-lhe que o Cap. Hale não é criminoso.
Apesar disso, todos os factos estão contra ele.
Como último recurso, está a tentar deixar-nos irritados
e espera que nos lembremos de algum pormenor importante
que nos dê uma nova perspetiva. - Exatamente.
Porque não poderia ser suicídio?
- Depois do que ela te disse? - Pensa de outra maneira.
Foi o Bingo, as traições dele, o seu comportamento,
o facto de ele não tomar uma decisão que a levaram a isso.
É possível, sobretudo se ele andava metido com uma americana.
E ela matou-se à frente do Capitão Hale
num gesto de despeito.
Não há fúria como a da mulher desprezada.
Roubou o punhal dos aposentos do Hale...
Naturalmente, ele negaria ter ido ao Ás de Espadas.
E pronto, temos um suicídio.
- Não acredito muito e tu? - Não.
- Mas há mais uma coisa... - O quê?
O bilhete de Lady Merivale que alguém lhe entregou.
Ele disse que o deitou fora.
Sim, mas quem lho entregou?
Deve ter sido um paquete.
Mas se o Capitão Hale estava mascarado,
como sabia o paquete a quem devia entregar o bilhete?
Bem pensado, querida.
Supõe que alguém deu o bilhete ao paquete e disse,
"Entregue isto ao cavalheiro vestido de jornal."
Então aquele homem, ou mulher,
sabia quem era a pessoa mascarada de jornal.
Brilhante!
- Sou um tonto. - Não tens de nos dizer isso.
- Eu guardei os jornais, - Mas para quê?
- Para o meu gato. - Ele sabe ler?
Não perguntes. Muito bem, Albert.
Então, vou-me embora.
E o dinheiro do táxi?
Qual dinheiro do táxi?
Não apanhei nenhum táxi.
Desculpa, Albert, mas isso não é honesto e vais ter de ir...
Obrigado. Vou-me embora então. Até amanhã.
Albert, um momento!
Maldito rapaz!
- O que estás a fazer, Sherlock? - Não é simples, caro Watson,
mas olha para isto.
- Isto é de terça-feira. - Terça? Isso foi...
Terça, dois dias antes do Baile das Três Artes.
O que vês?
Aqui estão duas estrelas e um hieroglífico na esquerda.
E duas pintas brancas no "T" do "The".
Sem dúvida.
Aqui está o Daily Leader de quarta-feira, o que vês?
Três estrelas à esquerda, sem hieroglífico
e uma pinta branca no "T" do "The".
Estou certo de que tens razão.
- Mas não vês? - Claro que sim...
- Não. - Olha para isto.
A foto do pedaço rasgado do jornal.
Combina perfeitamente,
mas não é o mesmo jornal.
Um é de terça
e o rasgado é de quarta.
Tens razão.
O Capitão Hale deve ter percebido que tinha um pedaço do fato rasgado,
mas não sabia que tinha sido Lady Merivale...
Não, não bate certo.
Acho que devíamos voltar a falar com Sir Arthur.
Meu querido, tens sempre boas ideias.
Pedimos desculpa por tê-lo feito vir até aqui.
Mas descobrimos algo que achamos que deve saber.
Sim?
Sabemos o quão ansioso está para ilibar o seu amigo.
Estava, mas tive de me render perante a irrefutabilidade das provas.
O que diria se lhe disséssemos que temos uma prova
que irá ilibar totalmente o Capitão Hale?
Ficaria contentíssimo.
E se tivéssemos encontrado uma rapariga que esteve com o Cap. Hale,
na Corner House da Strand, ontem à noite?
Soberbo!
Soberbo! Eu sabia que tinha de haver um erro.
Pobre Vere, deve ter-se suicidado.
Dificilmente.
Está a esquecer-se do outro homem.
Qual outro homem?
O que vimos a sair da cabina ao lado da nossa.
Não estou a compreender.
Dizem que havia duas pessoas mascaradas de jornal no Baile?
Não, no Baile não.
Receio estar demasiado confuso
e não posso perder mais tempo...
Posso contar-lhe a minha teoria?
Quando o tal segundo homem viu uma oportunidade,
pediu ao paquete que entregasse um bilhete ao Capitão Hale.
O bilhete dizia que não falasse com determinada senhora,
mas a tal senhora nada sabia do assunto.
O bilhete não tinha sido seguramente escrito por Lady Vale,
daí ela ter ido para o Ás de Espadas para ver o Capitão Hale.
Quando o segundo homem viu Lady Merivale partir, seguiu-a
e apanhou um táxi para o Ás de Espadas.
Que horas são?
- Um quarto para a meia-noite. - Meia-noite...?
O Ás de Espadas!
O carro está ali, querida.
Durante a viagem, despiu o fato de diabo
e vestiu outro fato.
Um homem mascarado de jornal.
Tudo muito astuciosamente planeado pelo segundo homem.
Que agradável. Continua a ser um antro de perversidade.
Entretanto, no Ás de Espadas,
Lady Merivale interrogava-se sobre o paradeiro do Capitão.
O homem tinha descoberto que Lady Merivale era infiel
e tinha conseguido roubar o punhal dos aposentos do Capitão Hale.
Espere aqui, sim?
Lady Merivale entrou para dentro da cabina,
feliz, pensando estar com o seu amante.
Estende-lhe os braços,
ele abraça-a e beija-a.
Durante o beijo,
ele apunhala-a.
Ela grita.
Ele ri-se...
...e deixa o Ás de Espadas.
- Aonde achas que ele vai? - Oxalá vá apressar as bebidas.
Até agora, tinha sido um homicídio relativamente simples.
Albert Hall, por favor.
Mas, a caminho de casa, repara que um pedaço de papel do seu fato
fora rasgado por Lady Merivale.
Isso traria grandes dificuldades,
a não ser que...
...que o outro homem vivesse na mesma casa.
Felizmente para ele...
...vivia.
Isto tornou tudo muito simples.
Fez uma réplica exata do rasgão no fato do Capitão Hale.
Queimou o seu próprio fato
e preparou-se para desempenhar o papel do amigo leal.
O que acha, Sir Arthur?
Uma imaginação muito fértil de uma encantadora senhora
que, provavelmente, lê demasiados romances de cordel.
Acha?
E um marido que é dominado pela mulher.
Não vejo como alguém poderá levar essa conversa a sério.
Reconheceria essa gargalhada em qualquer lado.
Também eu.
Ouvi-o pela última vez no Ás de Espadas.
E o senhor está ligeiramente enganado a nosso respeito.
"Agência Internacional de Detetives".
Então foi por isso que o Marriott me trouxe cá. Uma armadilha.
É muito astuta, Sra. Beresford.
Porquê ralar-se com uma mulher infiel que teve aquilo que merecia?
Tuppence!
Para trás!
Parem-no!
Vou lá abaixo ver...
Pobre diabo...
Se ele gostava da mulher.
Se gostava dela? É possível.
Mas ele estava desesperado por dinheiro.
Lady Merivale tinha uma grande fortuna que ele teria herdado.
Mas se ela fugisse com o jovem Hale, ele nunca veria um tostão.
- Foi esse o motivo? - Foi.
É claro que, desde o início,
senti que Sir Arthur não era boa rês e que o jovem Hale era decente.
Foi muito inteligente, Inspetor.
Na Yard, sabemos muito bem quem é quem.
Mas é incómodo quando temos de nos confrontar com os factos.
Pois, deve ser.
Bem, vou-me embora.
É melhor dar um cálice de brandy à sua mulher, Sr. Beresford.
Ela parece um pouco, como se diz... abananada.
- Pescadores... - Talhantes...
Detetives.
Eu tinha razão, querido, não?
Como sempre, meu amor.
Sim...
O Marriott jogou com o nosso temperamento.
Um movimento ousado.
Acabou por jogar a carta errada
e pescou o Hale.
Mesmo assim, perdeu o Rei.
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