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Original subtitles

AGATHA CHRISTIE PARCEIROS NO CRIME

O TAGARELA

Pronto.

Mas porque diabo precisamos nós de mais prateleiras?

Para a nossa coleção de clássicos policiais, claro.

Temos Sherlock Holmes, Rex Stout,

Ellery Queen, Bulldog Drummonds.

E quem é a seguir?

Edgar Wallace. Precisamos de metros e metros de prateleiras para ele.

Mas nunca tivemos um caso à Edgar Wallace.

Acabei de olhar pela janela e vi uma coisa começada por M.

- Motocicleta? - Não.

- Macaco? - Não.

- Mussolini. - Não seja tolinho.

- Estamos perto? - Não.

Está alguém em casa?

- Marriott! - Certo.

- Bom dia, Sr. e Sra. Beresford. - Bom dia.

Espero não estar a interromper nada.

- Falávamos de prateleiras... - Sm, muito interessante.

- Posso perguntar o contexto? - Para pôr livros do Edgar Wallace.

Ouvi dizer que ele escreve dois livros de cada vez,

com uma caneta em cada mão, enquanto dita um terceiro

à sua secretária. - Deveras?

Mas, como a Tuppence disse, ainda não tivemos um caso à Edgar Wallace.

- Mas que coincidência. - Onde?

Vim pedir ajuda aos brilhantes Beresford

num caso muito ao estilo de Edgar Wallace.

Espere até eu fazer a minha expressão de brilhante.

Não fiques todo inchado lá porque resolveste dois casos com muita sorte.

- Com muita perícia. - Com muita sorte.

Segundo a minha experiência, tanto é útil uma como a outra.

- Devia ter sido diplomata. - Também faz parte das minhas funções.

Então, o que dizem de me ajudarem a prender um grande bando?

E existe tal coisa?

Como, existe tal coisa?

Sempre pensei que os bandos fossem parte da imaginação dos escritores.

Sim, como os super bandidos e os mestres do crime.

É certo que super bandidos e mestres do crime não são multo comuns,

mas bandos há por aí muitos.

Então, Inspetor,

está a dizer que não consegue apanhá-los?

Bem, passa-se o seguinte...

Albert!

Nós, na Yard, achamos que este bando é um pouco cheio de fornicoques.

- Sangue azul? - Finos?

- Classe alta? - Algo do gênero, sim.

Toda a gente sabe que os meus homens são destemidos e fortes como touros

e dão maridos de primeira...

Mas acham um pouco difícil misturarem-se credivelmente

com o "hautmonde", é isso?

Com o...? Sim, podemos dizer que sim.

- Pouco sofisticados? - É mais isso.

Em que crime está esse bando envolvido?

Falsificação.

Notas bancárias. Andam por aí às centenas.

- Sem serem detectadas? - Exatamente.

Um trabalho muito artístico.

Por acaso, tem uma consigo?

Por acaso...

só por acaso, trouxe uma.

- Tem uma lupa? - Se temos uma lupa?

Mas que tipo de detectives pensa que somos?

Albert!

- A lupa. - A lupa!

- Albert, porta-te bem! - Peço desculpa.

Aquele jovem...

A maior parte do tempo é inútil, e de repente torna-se indispensável.

Caramba, parece-me verdadeira.

Deixa-me ver.

Enganava-me de certeza.

E é isso que têm feito por toda a Londres.

Mas depois de todo o trabalho que tiveram com a marca de água,

cometeram um erro muito infantil. - Qual?

Veja primeiro a falsa.

O que está escrito aí?

"O Banco de Inglaterra promete pagar ao portador a soma de uma libra."

E a nota verdadeira?

"O Banco de Inglaterra promete pagar ao portador..."

É a mesma coisa.

Experimente olhar outra vez, com atenção.

"O Banco de Inglaterra..."

Meu Deus, já vi.

- O quê? - "Eu prometo pagar ao portador..."

Deixa-me ver. "Eu prometo pagar..." Claro!

E depois a assinatura do Secretário do Tesouro.

Mas o "eu" e o "prometo" estão tão juntos

que é possível não perceber. - Exatamente.

Mas quem lê o que está escrito numa nota?

Eu espero que a senhora leia, Sra. Beresford.

O que quer que façamos, Exatamente.

Peço desculpa.

- Acho que essa nota é minha. - Perdão.

- O que quer que façamos exatamente? - Que estejamos atentos?

Não, muito mais do que isso.

A Yard só descobriu, até agora, que as notas falsas

estão a ser movimentadas a partir do West End.

- Mas não sabe por quê? - Por quem.

Nem um, nem outro.

Mas estou certo de que é alguém de um escalão social muito elevado.

Compreendo. Então, quer que nos infiltremos...

nos clubes, no jogo, que dancemos pela noite fora...

Enquanto examinamos notas e somos agredidos na cabeça...

Não, o perigo será mínimo. A alta sociedade não é violenta.

Deveras? E a Sra. Barney?

E a Madame Fahmy?

De qualquer modo, duas maçãs podres não estragam a colheita.

Nem fazem um verão.

Exatamente, minha senhora.

Mas este assunto tem outro lado.

- Outro lado...? - O outro lado do canal.

Algumas dessas notas foram passadas na França e na Alemanha.

E também na Bélgica e na Holanda.

Mas não desconfia de ninguém?

Bem, é aí que temos de ser cuidadosos, como pode perceber.

Mas, aqui entre nós, há uma pessoa que nos desperta bastante interesse.

Um tal Major Laidlaw, já ouviram falar dele?

Está envolvido nas corridas de cavalos, certo?

- Exato. - E criador de cavalos.

Acertou novamente.

O meu primo Fruity Faulkener conhece-o.

- O Capitão James Faulkener? - Esse mesmo.

Atenção, não temos nada contra o Laidlaw, na Yard,

mas desconfia-se que ele possa estar envolvido em...

transações pouco transparentes.

Corridas fraudulentas? Fugas de informação, esse tipo de coisas?

Exato. E depois há a mulher dele.

O que tem ela?

É francesa.

O outro lado do Canal...

Ela tem um séquito de admiradores e gosta muito das mesas...

apostas.

Os Laidlaw gastam muito dinheiro

e eu gostaria de saber de onde ele vem.

Acho que já a conheci...

com o Fruity.

Marguerite...

Antes de estarmos noivos. Muito bela, muito francesa.

Bem, eu nunca a conheci.

Tem agora a sua oportunidade, Sra. Beresford.

Conhece o Python Club, em Upper Brook Street?

- Não. - Eu conheço.

Foi aí que conheci a Marguerite Laidlaw.

Reparem, talvez seja coincidência,

mas muitas dessas notas falsas têm circulado no Python Club.

Ouvi dizer que esse clube é mais do que parece.

Têm um pequeno casino numa sala das traseiras,

para membros que gostam de apostar.

- Mas isso é ilegal. - Precisamente.

Estou certo de que não passa de um boato.

É gerido de modo irrepreensível. A clientela é da classe alta.

E é aí que os Laidlaw passam a maior parte das noites.

Qual é o nosso papel?

Façam com que o Fruity... o Capitão Faulkener,

os recomende como membros do clube.

Não há risco de os Laidlaw, ou os falsificadores,

perceberem que são detectives. - Certíssimo.

Temos de saber de onde vem o dinheiro.

Então, o Major Laidlaw sai de manhã com uma mala vazia

e volta à noite com a mala a abarrotar de notas falsas.

É só segui-lo e apanhamo-lo em flagrante.

Não é assim tão simples.

Acho que o meu marido estava a falar alegoricamente.

Ou metaforicamente.

Não se esqueçam da senhora.

Não é provável que o meu marido se esqueça de uma senhora.

- Ou do pai dela? - Ela tem pai?

Até as francesas têm pai.

Um tal de Monsieur Heroulade.

Ele pode ser o contacto através do Canal.

- Deixe-o conosco. - Assim o farei.

Vou transferir dinheiro para a vossa conta bancária esta tarde.

- Para as despesas. - Claro.

Para que tenham dinheiro para apostar.

E para que eu possa vestir-me adequadamente.

Claro. A Sra. Beresford terá de comprar roupa adequada para o Python.

Que tal 100 libras?

Consegue imprimi-las a tempo?

Bater bem, mas não por muito tempo.

Tuppence!

Valha-me Deus!

- Gostas? - Se gosto?

É absolutamente... espantoso.

- E a sombra? - Profunda como a noite.

- E o batom cor de cereja? - Aposto que brilha no escuro.

Querido, tu dizes as coisas mais extraordinárias para o ego.

E sem qualquer intenção oculta.

Ou gostas mais deste?

Não, o que tens vestido é uma beleza.

Visto este noutra noite.

És uma verdadeira libertina, não és?

Ainda bem que és casada com um tipo estável, sóbrio e sensato como eu.

Espera até chegarmos ao Python Club e vais ver que não serás tão sóbrio.

- O que estás a fazer? - Um "Horse's Neck".

Finalmente, temos um caso à Edgar Wallace.

- Macaqueação. - O quê?

Chama-se "macaqueação" às notas falsas.

- Pelo menos, estamos ocupados. - E vamos apanhar o Tagarela.

- O que é um Tagarela? - É um termo que eu inventei.

É o tipo que fabrica e põe as notas falsas em circulação.

Tem de tagarelar, por isso é um tagarela.

- Simples. - Prefiro burlão.

É mais sinistro.

- Tagarela é mais Edgar Wallace. - Está bem.

Então fica Tagarela.

Vamos apanhar-te!

Cá estão eles. Marguerite, venha conhecê-los.

Sempre vieste.

- Jimmy, é um prazer voltar a ver-te. - Fiquei contente por saber de ti.

Apresento-te a minha mulher, Tuppence.

Encantado.

E esta é Sra. Laidlaw. Os meus amigos, Sr. e Sra. Beresford.

- Olá. - Como está?

- Como está? - Olá novamente.

Tomam alguma coisa?

- Um "Horse's Neck". - Marguerite?

E o Tommy? O que deseja?

Também quero um "Horse's Neck".

Então também tomo um "Horse's Neck".

Esplêndido. Sentem-se.

Três "Horse's Necks" e um whisky.

Por quê toda aquela agitação?

Aquilo são as mesas de jogo. O bacará, o pôquer,

a roleta...

- Qualquer um pode jogar? - Só se conhecer os "habitués",

como eles dizem. - Não podemos ir lá apostar?

Nada mais fácil... Tommy.

Cá está. Uma bebidinha, duas bebidinhas

e uma para cair para o lado.

- À nossa. - Saúde.

Que tal um passito, Sra. Beresford?

Na pista de dança? Um "foxtrot".

Sim! Eu adoro dançar. Não é, Tommy?

- Não é, Tommy? - Desculpa, querida. O que foi?

Adoro dançar.

Vamos acabar as nossas bebidas

e invadir o santo domínio.

Certíssimo.

Muito triste...

Quero mais meia dúzia de pontos azuis.

Estas mesas são de "whits".

Pensava que estava nos EUA.

- Meia dúzia, então. - Muito bem, Sr. Ryder.

Aquele é o meu marido. Ali.

Carta, por favor.

Podiam dizer-lhe que eu tinha morrido e não deixaria de jogar.

Papá? Este é o Tommy.

- Tommy Beresford. Como está? - Como está, Sr. Beresford?

Este é o Major Laidlaw.

Com licença, papá. Vamos tentar a roleta.

O bacará não diverte, a não ser que se seja muito rico.

Setenta.

Dez libras para mim.

Santo Deus, foi soberbo. Dança divinamente.

Também não é propriamente um desajeitado.

- Posso chamar-lhe Tuppence? - Claro.

Chame-me Jimmy.

Vamos tomar outra bebida. O mesmo outra vez?

Sim, por favor. Um "Horse's Neck".

Um "Horse's Neck", Harry, e um whisky com gasosa.

É para já, Capitão Faulkener.

Caramba, o seu marido é um tipo com sorte.

Sempre achei que sim.

A dançar da maneira que a Tuppence dança...

Infelizmente, creio que ele não gosta muito de dançar.

O quê? Ele não festeja a musa Terpsícore?

Nem por isso.

Temos de retificar isso.

Ordeno-lhe que venha cá todas as noites para dançar comigo.

Fica combinado.

Combinado.

- Quanto é o estrago? - Para o Capitão,

30 xelins.

Para todos os outros, uma libra.

- Santo Deus, mas que bonitas. - Essas? São, não são?

E novinhas a estrear. Onde as arranjou?

Acabaram de sair da prensa.

Jogo, ou no meu caso, nas corridas.

- Obrigado. - Fique com o troco.

- Obrigado, Capitão. - Saúde!

Raios!

Bem, para mim já chega por hoje.

Tommy, que pena...

Eu ainda tenho de dançar mais uma ou duas vezes.

E olhe para o meu marido.

- Vemo-nos mais tarde, talvez. - lnsisto.

Até à próxima.

- Ganhaste? - Não propriamente.

Divertiste-te a dançar?

Terpsícore estava divinal.

- Como? - És um tipo de sorte, Tommy.

Obrigado.

Tuppence, que tal uma jogatina?

- Pode ser. - Vou levar-te para apostar notas de 10.

Não, isso é demais para mim.

- Para mim, uma libra de cada vez. - Como queira. Vamos então.

Divirtam-se!

- Senhor? - Um "Horse's Neck".

Sim, senhor.

- Boa noite. - Boa noite.

Os franceses são qualquer coisa, não são?

Peço desculpa?

Os franceses são qualquer coisa.

Estou a referir-me à Sra. Laidlaw, Marguerite.

A mais bela mulher que alguma vez vi.

Sim, ela é encantadora.

- Sou da América. - Pois, eu calculava.

Ryder, Nova Jersey.

Tommy Beresford, St. John's Wood.

Sou novo neste tipo de vida. Fiz fortuna há pouco tempo.

- Deveras? - Vim à Europa ver como se vive.

Em que sítios esteve, se me permite?

Na bela Paris, França.

Berlim, Viena.

- Bélgica? - Não, ainda não visitei.

- A sua bebida. - Obrigado.

Quer tomar alguma coisa?

Ainda estou a beber esta.

- Não tenho mais pequeno. - Não tem importância.

Saúde!

É uma pena que uma criatura tão encantadora

tenha problemas de dinheiro.

Jimmy, meu querido, faça-me um favor.

Claro, Marguerite, o que eu puder.

Amanhã, em Ascot, queria apostar no Pennine Prince para as 16h.

Disseram-me que ele não pode perder.

Soubesse ele que é alvo da sua aposta e nunca se atreveria.

- Vinte libras. - Certíssimo.

Dê-me essa e eu dou-lhe duas de dez.

Não posso apostar a vida com notas de dez.

- Com certeza. - Obrigada...

- Então? - É difícil de dizer.

Arranjei uma de vinte da Madame Laidlaw via Jimmy.

As minhas são de troco do bar.

- O que é isso? - Chocolate quente.

- Por quê? - Para ficares sóbrio.

- Perdão? - Para ficarmos sóbrios.

Sinto-me a nadar em "Horse's Neckness".

- Em quê? - Em "Horse's Neckness".

- "Horse's Necks". - Foi o que eu disse...

Valha-me Deus, o que é isso que trazes vestido?

- É um novo "negligé". Gostas? - Goste ou não, tu não...?

Tuppence, compraste isso com o dinheiro que o Marriott nos deu?

Ele disse que devia vestir-me a rigor.

Durante as horas de expediente, ou de vigilância,

mas a estas horas da noite...

Ajuda-me a compreender melhor tudo. Uma "habituée" de um casino ilegal,

com uma longa boquilha, ressacas...

Por quê? Não gostas?

Podes parar de ser tão feminina

enquanto eu estou a tentar ver estas notas?

- Finge que não estou cá. - Certo. Muito obrigado.

Das quatro notas... que recebi de troco no bar,

só uma é falsa.

- Podia ser qualquer pessoa. - Exatamente.

E das tuas vinte notas, quatro são falsas.

A Sra. Laidlaw recebeu-as do marido.

Que estava nas mesas.

Ele podia ter recebido as notas da caixa, ou de qualquer outro lado.

Isso não ajuda muito.

Não importa. Significa que temos de voltar ao Python Club,

assim poderei usar o outro vestido.

Tuppence...

concentra-te no seguinte:

todas as notas falsas são novas em folha,

não podem ter tocado...

passado por muitas mãos.

Bebe o teu chocolate... enquanto está quente.

- Um "Stinger". - Sim, Major.

- Um "Horse's Neck". - Sim, minha senhora.

- Foi às corridas hoje? - Sim.

- A Ascot? - Sim.

- Foi bem-sucedido? - Sim.

- O Pennine Prince venceu? - Não.

Só pergunto porque creio que a sua mulher apostou nele.

É óbvio que gosta de jogar.

- Sim. - Eu também.

- Mas não tenho grande sorte. - Ai não?

- Depois fico sem dinheiro. - Pois...

Já tenho pensado muitas vezes que pedra...

imprimir as minhas próprias notas para poder jogar o dia todo.

Suponho que, tal como todos os bons jogadores,

joga com as cartas muito perto do estômago.

Sim.

- Isto é, não mostra muito o jogo. - Não.

Odeio pedir isto, mas tem troco de uma nota de dez libras?

Eu troco a nota.

Obrigada.

Saúde!

100,110,120,130,140.

150,160,170...

180, 190, 200.

Obrigada, Jimmy, e boa sorte.

Aquela é uma bruxinha... Ela é que não mostra nada do jogo.

Amanhã à noite, tê-lo-ei de volta. Bebe alguma coisa?

Sr. Ryder, acho que devia voltar para o hotel.

Para o Carlton? Não me agrada.

- Bem, eu sei como ele é. - Como?

Pelas fotos no The Sporting & Dramatic.

"Major Laidlaw e amigos no Derby." Esse tipo de coisas...

Então, qual é a minha missão?

Vais segui-lo até Ascot na tua motocicleta.

Se ele for ao Royal Enclosure, não vais conseguir entrar lá.

- Por que não? - Precisas de um chapéu florido.

Não pode emprestar-me um?

O importante é perceber se ele faz paragens em algum lado.

Se fizer, anota tudo o que ele fizer, ou disser.

Ou se ele levar alguma coisa.

- Por exemplo...? - Uma bolsa, uma pasta...

Algo que dê para transportar notas.

Certo. Eu trato disso.

Espera!

Ele vive à saída de Baker Street

e conduz um Rolls Royce.

Vou a caminho, sócio.

Acho que aqueles filmes de gangsteres não fazem nada bem ao Albert.

- Qual é o problema? - O problema?

É esta cavilha.

- Onde? - Aqui.

Não vejo nada.

Com a sua máquina, não deve ter cavilhas destas.

Já está!

- Então, qual é a jogada? - Qual jogada? De que fala?

- Seguiu-nos o dia todo. - Não segui nada.

Vi-o do lado de fora da casa do meu patrão, esta manhã.

- Quem, eu? - Sim, você.

Porque anda a seguir-nos?

Não segui nada. Também estive nas corridas.

- É melhor pôr-se a andar. - Era o que eu ia fazer...

Se voltar a pôr-lhe os olhos em cima, catraio,

pior será para si.

"Quem pensa você que é?" Disse-lhe eu.

"Tenho tanto direito a estar aqui como você."

- Eles ameaçaram-te? - Se me ameaçaram?

Eu é que os ameacei!

- Então veio ter... - Mas viste dinheiro a mudar de mãos?

Sim, num pub fino. Primeiro, tirou um maço de notas,

deu umas quantas ao empregado e entregou o resto ao outro fulano.

E depois... depois de os teres ameaçado...

Foram diretamente para o Python Club.

- Tens a certeza? - Sim, direitinhos.

Obrigada, Albert. Foste fantástico.

Não foi nada, senhora.

Obrigado.

- O que te parece, querida? - Não sei.

Podia ser o Monsieur Heroulade a pagar uma dívida ao Major.

Sim, mas ele nunca traria notas falsas em plena luz do dia.

Claro que sabem que o Major Laidlaw é cego.

- Cego? - Como um morcego.

Não acredito.

É por isso que o francês anda sempre junto dele, a guiá-lo.

Porque não nos disseste antes?

Hoje foi a primeira vez que o vi.

Gin!

Perdi!

Perderam todos.

Então deve-me 50 libras.

- Posso juntar-me a vós? - Não.

Vou ver se me saio melhor na roleta.

- Acompanha-me? - Deixe-me pagar-lhe uma bebida.

Se me dá licença, irei ter consigo mais tarde.

Qual é o seu veneno, jovem?

De momento, não posso dizer.

Tommy! Está aqui! Veja, fartei-me de ganhar.

Já vi que sim.

Mas será seguro, andar com todo esse dinheiro à vista?

Espero que não o perca antes do fim da noite.

Quer que o troque em notas maiores?

Ai os ingleses, tão cuidadosos, tão sensatos.

E tão encantadores.

São todas falsas.

- Onde ela as arranjou? - Ganhou-as. Creio que foi na roleta.

Muito espertinha.

Estiveste sempre a dançar com o Jimmy.

O que tem isso a ver? Tanto quanto sabemos, pode ser o falsificador.

- Muito Edgar Wallace. - O Jimmy, não!

De qualquer modo, é divertido misturar negócios com prazer.

Há anos que não me divertia tanto.

Mas não devíamos estar a divertir-nos.

Devíamos andar atrás de um bando de falsificadores.

- E tu e aquela francesa irritante? - Estritamente profissional.

- Sem prazer, Tommy? - O mínimo possível.

Vejo isto como um processo de eliminação.

- O que quer isso dizer? - Se tu e eu

formos acusados de falsificação e eu não for culpada,

estou eliminada. Por isso deves ser tu.

- Eu devia ter calculado. - Pode ser qualquer um dos "habitués"

do Python Club. - "Habitués" são clientes habituais.

Isso eu sabia.

Ou se for um bando, como o Inspetor Marriott suspeita,

podem ser todos eles.

Bem, isso faz sentido. O Laidlaw, apesar de ser cego,

a mulher e o pai dela, Monsieur Heroulade,

até aquele tipo americano, Jimmy Faulkener e o barman, Harry.

E se não for um bando?

Então pode ser qualquer um deles.

Atenção, um deles pode ser o líder do bando,

mas os outros membros podem não ser "habitués".

- Sim, é uma ideia. - Uma espécie de isca.

Havia uma senhora idosa...

- Sim, nós vimos, Albert. - Pois, é verdade.

Num caso do Edgar Wallace, o criminoso seria alguém

que fingia ser outra pessoa.

"A Sineta"... um detective que, afinal, não era um detective.

- Também vimos esse, Albert. - Peço desculpa.

Se Major Laidlaw não é um major verdadeiro...

- Nem cego. - A Marguerite Laidlaw não é francesa.

O pai dela não é mesmo pai dela, ou o Jimmy...

Espera!

Só porque estas pessoas andam a passar o dinheiro,

não significa que o imprimem. - Claro que não...

- O que foi, querida? - Sente-se bem, Sra. B.?

Está a ter um dos seus palpites.

Whitehall, 1212.

Scotland Yard.

O Inspetor Marriott.

Ela tem alguma na manga.

Lembra-se do Caso da Mulher Assustada?

Inspetor? Daqui fala a Sra. Beresford.

Não, ainda não temos nada,

mas quero que me faça um favor.

Telefone para todos os hotéis importantes

e descubra se utilizaram uma grande quantia de notas falsas

para pagar contas elevadas.

Sim, vamos esperar até que nos telefone.

- Sim? - Vá lá, Sra. B. Desembuche.

Se eu estiver certa...

é demasiado perigoso para nós.

- Até já. - Vemo-nos mais logo.

Sr. Ryder... o que está a fazer?

Este maldito bengaleiro...

Não temos nada disto na Nova Jersey.

Sabe, Beresford, você tem duas cabeças.

Mas só tenho um chapéu.

Quem diria... é verdade.

Porque não experimenta este?

Caramba, estou mal.

Exagerei nas cervejas. Fizeram uma aposta comigo.

- Quem foi? - Quem acha que teria sido?

A Marguerite, claro. Só pela piada...

- E se fosse para casa? - Não tenho casa para ir.

- E o seu hotel? - O hotel não é uma casa.

E prometi encontrar-me com a Marguerite.

Depois da caça ao tesouro.

- Que caça ao tesouro? - Digo-lhe, jovem,

a aristocracia inglesa está sempre na caça ao tesouro.

- Ela levou-me no carro dela. - Onde?

Escondidas algures estavam 500 libras.

- Está a brincar comigo? - White... qualquer coisa.

- Whitehall? - Não.

- Whitechapel? - E isso mesmo.

- Encontrou lá 500 libras? - Ela encontrou, não eu.

Eu fiquei cá fora. Fico sempre de fora.

- Sabe o caminho para lá? - Claro.

O Hank Ryder não se perde com facilidade.

Então, vamos!

Cuidado com a cabeça.

- Isto é um Rolls Royce? - É um Bentley.

- Olá, querida. - Já vais, papá?

Sim. E amanhã de manhã vou para Paris.

- Os dois? - Sim.

Ganhar dinheiro para jogar aqui, madame.

Compreendo. Boa viagem.

Onde estamos?

Whitechapel.

Não me é estranho.

Parece que viramos à direita, algures... continue.

Está ali uma cabina telefônica.

- Para quem quer telefonar? - Para o Python,

para dizer à Tuppence onde estou.

- Ela fica preocupada? - Espero que sim.

- Não há sinais do seu marido? - Aparentemente, não.

- Dançamos enquanto esperamos? - Não, obrigada. Estou cansada.

- Uma bebida, então? - Por que não.

Uma taça de champanhe sabia-me bem?

- Vê aquele pub? - Sim.

É aquela rua.

E se fôssemos lá tomar um copo?

Os pubs já fecharam a esta hora.

Vire ali.

Porque estamos a fazer isto?

Ainda há aqui massa escondida?

Pode haver.

- Vamos pregar-lhes uma partida? - Possivelmente.

É ali. Encoste.

Desculpe, Jimmy. Tenho de ir.

É ali.

- Aonde vamos? - A Whitechapel.

- Por quê? - Ele só disse "gatos".

É esta. Ela entrou aqui.

- Tem a certeza? - Claro. E deixou-me cá fora.

Como sabe? São todas iguais.

Como na história do Soldado e da Princesa.

Não conheço...

Bem, a Marguerite é uma princesa, mas não é de todo um soldado.

Fizeram uma cruz na porta para mostrar qual era.

- Macacos me mordam! - Vou fazer o mesmo.

Por quê?

Para o caso de corrermos perigo.

Há por aqui muitos gatos.

O que fazemos agora? Entramos?

Com cuidado, sim.

Vem ali alguém!

Deixe-o comigo.

Boa noite, Sr. Beresford.

Willie, o Abre-Ostras.

Liguem a luz.

Calado! Ponha os braços no ar.

Apanharam-no?

Então, senhor detective,

chegou ao fim da linha.

Sr. Hank Ryder, que surpresa!

Tenho-me divertido imenso nestes últimos dias.

- Deveras? - Topei-o logo mal o vi.

Vi logo que não fazia parte da clientela do Python.

Deixei-o fazer o seu jogo durante algum tempo

e quando o fiz desconfiar da encantadora Marguerite,

disse para mim próprio,

"Está na altura de o levar lá."

Então agora estou no sítio certo?

Parece que sim. Não vou desistir do negócio por causa de metediços.

Então vai despachar-me?

Tem outra sugestão?

Eu não me fiaria na cruz que fez na porta.

Por quê?

Eu conheço esse conto de fadas.

Voltei atrás e desenhe¡ uma cruz em todas as portas.

Quando encontrarem a porta certa, e o seu cadáver

o meu bando e eu já estaremos fora do país.

- Com o Major Laidlaw e a mulher. - Esses?

Só querem saber de cavalos. Não é da mesma categoria.

Deveras?

Vá, acabemos com isto.

Pensava que era muito esperto, não é?

Estivemos sempre à sua frente.

- Muito bem, senhor. - Mesmo a tempo, Inspetor!

- Querido, estás bem? - Nunca estive melhor.

Inspetor, tinha razão quanto ao Python Club.

Apresento-lhe o Sr. Hank Ryder, os seus empregados

e equipamento.

Eu disse que o apanhava, Tagarela, e apanhei.

De que raio está a falar, "tagarela"?

Há de encontrar o termo no próximo dicionário criminal.

- Etimologia desconhecida. - Levem-nos daqui.

Muito bem, Albert.

Como conseguiste que aqueles gatos nos conduzissem até aqui?

Não só vim prevenido com giz,

mas também com um frasco de valeriana.

Que diabo é isso?

Tem um fedor terrível, mas os gatos adoram.

Eu sei. Ele disse "gatos", procuramos gatos.

Estavam junto a esta porta quando eu cheguei.

Mas não tinhas de ir buscar a Sra. B. Podia ser perigoso.

Sabia que ela não havia de querer perder esta agitação.

Tinhas razão.

Bem, muito obrigado pela vossa ajuda.

É sempre um prazer.

Tenho de admitir que foi a minha inteligente mulher

quem suspeitou do americano.

No hotel dele circulavam centenas de libras em notas falsas.

Quanto aos outros do Python, não me parecem culpados.

São intrujões, mas não são falsificadores.

Receio que isto tenha sido mais perigoso do que supus inicialmente.

Com o Jimmy Faulkener a dançar, divinamente...

E a Marguerite não sei das quantas a fazer olhinhos ao Tommy...

Bem, boa noite.

Até amanhã.

E todas aquelas bebidas...

E tu a dares-lhe toda a atenção...

Foi uma missão perigosa.

Uma missão muito perigosa.

Ressincronização por @maopequena

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