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AGATHA CHRISTIE PARCEIROS NO CRIME
O CASO DA PÉROLA COR DE ROSA
Porque é que nunca acontece nada?
Essa sede de sensações banais preocupa-me.
Há seis anos, eu até jurava que se tivesse muito dinheiro
e me casasse contigo, a vida seria um mar de rosas, como dizia o outro.
- O que te satura? Eu ou o dinheiro? - Eu não diria saturar.
Como já estou habituada, não dou valor ao que tenho. É só isso.
Deverei negligenciar-te? Sair com outras mulheres, e coisas assim?
Não vale a pena. Acabavas por encontrar-me com outros homens.
O que se passa, querida?
Lembra-te dos bons tempos, Tommy.
Não devias ter saído dos Serviços Secretos.
Vê só que emoção: ouvíamos alguém a bater à porta.
- Quando abríamos, entrava um morto. - Se estiver morto, não pode entrar.
- O Daily Leader. - Perdão?
- O jornal que o patrão pediu. - Ah, sim.
Foi por pouco.
- O quê? - A edição da tarde. Era a última.
Obrigado, Albert. Podes passar de gangster ferido para mordomo inglês?
Muito bem, patrão.
Gostava que o Albert fosse menos ao cinema.
A sua imitação do Rudolph Valentino é para esquecer.
Não vais fazer as palavras-cruzadas, pois não?
Estamos a conversar.
O que aconteceu ao teu espírito de aventura?
Estás a ficar gordo...
... e acomodado. - Não estou nada!
Peneirento, abastado e acomodado.
É muito perigoso termos tudo o que queremos.
Bem, há sempre...
- ...os chapéus. - Já tens uns 40 chapéus!
- E são todos iguais. - Não é bem assim.
Têm diferenças subtis.
Ontem vi um muito bonito, na Violette's.
Se não tens mais nada que fazer senão comprar chapéus...
Isso mesmo. Se eu tivesse uma alternativa...
Quem me dera que acontecesse alguma coisa emocionante, Tommy.
Entre.
O Inspetor Marriott, da Scotland Yard.
Obrigado, Albert.
- Boa tarde, Inspetor. - É um prazer vê-los.
- A vida anda bem, Sra. Beresford? - Anda, mas não corre. É um tédio.
- Ainda não lhe contou? - Ia agora mesmo contar-lhe.
O quê?
Está tudo preparado. Se quiserem avançar...
Ias contar-me o quê?
Lê isto.
Agência Internacional de Detectives. Gerente: Theodore Blunt.
Investigações privadas. Grupo de colaboradores especializados.
Máxima discrição. Orçamentos grátis. 28 Haleham Street.
- É uma agência de detectives. - Isso é óbvio.
Não sei que interesse tens tu nisso, a não ser que me mandes seguir.
Já há muitos homens a seguir-te.
O que importa é que a agência está já há algum tempo a dar as últimas.
E pode ser comprada por tuta-e-meia. Sob nova gerência, claro.
- Então e o Sr. Theodore Blunt? - Infelizmente,
está detido, a viver à custa de Sua Majestade. E não se descose.
Estou a perceber. Pelo menos, acho que percebo.
Achei que me poderia sair bem. Experimentava durante seis meses.
O Inspetor Marriott teve a delicadeza de tratar das questões legais.
E esse processo está concluído. A agência é sua.
E tu já sabias disto!
Desde que tive a ideia.
Mistério e romantismo, não te lembras?
Meu querido Tommy!
Retiro tudo o que disse.
Não és enfadonho, acomodado e peneirento.
E muito menos gordo.
Só um bocadinho.
Ainda falta um pormenor. A agência está em nome do Blunt.
- Mas isso pode ser uma vantagem. - Caso eu não tenha sucesso?
E não só. O Sr. Blunt, de reputação duvidosa, e a sua assistente,
terão mais margem de manobra, digamos assim,
do que os respeitáveis Sr. e Sra. Beresford.
Bem, é aqui.
AGÊNCIA INTERNACIONAL DE DETECTIVES
Cá estamos.
O teu poiso é aqui, Albert. Na recepção.
É mesmo o que eu queria , Sr. B.
Tens aqui um interruptor. Quando entrar um cliente, carregas,
e só o deixas entrar quando eu também carregar.
- Está bem? - Sim, chefe.
Vamos para os nossos aposentos privados.
Traz as malas, Albert.
- É espaçoso. - Foi o que eu achei.
- Põe ao pé das prateleiras. - Leva aqui cadáveres?
- Não é bem o Ritz... - É a zona da secretária.
- Quem é ela? - És tu, meu docinho.
- O que devo fazer agora? - O que um bom moço de recados faz.
Tem aqui um fogareiro. Quer um chá?
Boa, Albert.
Já cá estamos há dias e só vêm cá maridos que desconfiam das mulheres
e mulheres que desconfiam dos maridos.
Parece que neste país só vivem mulheres de meia-idade,
cujos maridos vão para fora no fim de semana.
Podíamos incluir isso no anúncio: Nada de divórcios.
- Concordo. - Queres mais chá?
Não, senão ainda me afogo.
Ena! Foi uma remodelação completa.
- Assim sentimo-nos em casa. - Mas o que é isto?
Gostas? É a minha árvore dos disfarces.
- A tua quê? - O que te chama a atenção,
- numa mulher? - Bem...
É o chapéu, claro.
Posso vir para cá com um da Bond Street,
mas não serve se tiver de sair como tua secretária, a Miss Robinson.
- Claro. - Portanto...
A Miss Robinson.
- Gostas? - É genial.
Adoro-te, Tuppence.
Estamos aqui sem hipóteses de usar o nosso talento.
Mas não vou baixar os braços.
O anúncio não é muito cativante, pois não?
- Achas que o devíamos mudar? - Tu disseste que somos geniais.
Que tal Agência Internacional de Detectives.
Detectives Geniais Blunt. Satisfação... Não.
- Resultados garantidos. - Não está mal de todo.
- Quando é que o publicamos? - Agora mesmo.
É para já.
Espero que não estejas enganada.
Resultados garantidos é uma promessa e peras.
Nos romances policiais é fácil.
Como já têm a solução, é só espalhar as pistas.
Estava aqui a pensar...
Comecei a ter uma ideia. Ainda não a tive, mas está quase a sair.
Deixa a porta aberta, para ver se entra por aí.
Vou pedir ao Albert para entregar isto aos jornais.
- Não é preciso. Eu vou lá. - Outro chapéu não!
É muito bonito. Tinha mesmo de ser, pelo que custou...
Agência Internacional de Detectives.
Uma marcação para amanhã às 11?
Sim, penso que o Sr. Blunt arranja um espacinho.
Poderei indagar quanto à natureza do caso?
É para limpar as janelas? Venha quando quiser.
Entre.
É aqui a Agência Internacional de Detectives Blunt?
É... verdade.
Eu sei. Eu sei.
Deixa-me ver.
Vai trabalhar.
Começa a escrever!
- Deseja falar com o Sr. Blunt? - Era essa a ideia. É possível?
- De momento, estamos muito ocupados. - Estou a ver que sim.
- Não tem marcação, pois não? - Não. Devia ter?
É sempre melhor telefonar primeiro.
Pois... Bem, posso voltar noutra altura.
- Está com sorte. O chefe está livre. - Obrigado.
Faça o favor de vir por aqui.
O cavalheiro deseja falar consigo.
- Bom dia. - Bom dia.
Faça favor de entrar.
Pretende recorrer aos nossos serviços?
Queria que localizassem uma pessoa desaparecida.
Posso saber mais pormenores?
É difícil... É um assunto delicado.
- Trata-se de uma jovem. - Estou a ver...
Desapareceu de livre vontade ou há suspeitas de rapto?
Não sei. Não sei de nada.
Bem, pode começar por dizer-nos o seu nome.
O meu nome? Sim, eu chamo-me Smith.
Pode dar-me o seu nome verdadeiro?
Então não caiu na... St. Vincent.
Lawrence St. Vincent.
É curioso. Há muito poucas pessoas cujo nome verdadeiro seja Smith.
Pode dar-me uma descrição dessa jovem?
- É muito bonita. - Bonita...
- É linda de morrer. - Morrer...
Só um minuto.
Estou?
O Primeiro-ministro? Estou a ver...
Muito bem.
Dê-me licença, por favor.
- É um caso urgente. - Com certeza.
- Estavas a ouvir? - Claro!
E foste interromper? É um cliente a sério!
E bem a sério. Vê só a descrição dele:
Lawrence St. Vincent. Sobrinho e herdeiro do Conde de Cheriton.
Vês? Se o ajudarmos, ficamos conhecidos nas altas esferas.
Pois é. Mas não interrompas!
Peço imensa desculpa pela demora.
Apresento-lhe a minha secretária, a Miss Robinson.
- Como está? - Como está?
Deseja alguma coisa, Miss Robinson?
Pediu-me para vir anotar os factos,
uma vez que tinha de ir a Downing Street, passando pela Scotland Yard.
- Muito bem... - Sim,
mas o Primeiro-ministro pode esperar um pouco, não acha?
Duvido, Sr. Blunt. Ele disse que era da máxima urgência.
E o Sr. St. Vincent não se importará de falar comigo.
Não. Não, de todo.
Muito bem. Obrigado, Miss Robinson.
Peço desculpa, mas o senhor fica... muito bem entregue.
Não duvido.
Desapareceu uma senhora, portanto. Uma jovem.
Exato.
Têm de fazer alguma coisa, Miss Robinson.
Não posso deixar que lhe aconteça nada.
Pode confiar no Sr. Blunt.
Dê-me o nome dela e tudo o mais que me possa dizer.
- Chama-se Janet. - E o apelido?
Não sei. Ela trabalha na loja de chapéus da Madame Violette.
Ontem fui lá esperar que ela saísse
e fiquei a saber que ela não fora trabalhar.
- E avisou a loja? - Não. A Madame estava furibunda.
Passei por casa da Janet, mas ela não dormira lá. Ninguém sabia dela.
Entrei em pânico. Até pensei em avisar a Polícia.
- E avisou? - Não.
- O que o fez vir cá? - Isso é que é curioso.
Ela tinha-me chamado a atenção para o vosso anúncio.
Dá-me uma descrição completa?
Tem um cabelo deslumbrante.
É dourado, mas de um tom mais carregado.
É como um pôr-do-sol.
- É um pôr-do-sol. - Ruiva. E a altura?
- É altinha. E tem olhos... - A sério?
Olhos azuis.
Muito azuis.
E é uma pessoa resoluta.
Estão noivos, portanto?
Não.
Não propriamente. Nunca lhe disse nada.
Mas depois disto, peco-a em casamento assim que a vir.
Se a voltar a ver...
A mim parece-me que precisa do nosso serviço especial de 24 horas.
O que é isso?
Paga o dobro, mas usaremos todos os detectives disponíveis.
Se a senhora estiver viva, dir-lhe-emos amanhã onde está,
a esta hora.
Os vossos detectives devem ser fantásticos!
É verdade. São mesmo.
Se ligar amanhã às duas, teremos novidades para si.
- A sério? Não sei como agradecer... - Ora essa...
- Bom dia. - Agradeça por mim ao Sr. Blunt.
- O que foste fazer? - Eu?
Perdeste o juízo? Serviço especial?
Garantiste-lhe resultados para amanhã a esta hora!
Pareceu-me que soava bem. Devíamos falar disso no anúncio.
- Estás doida... - Não te preocupes.
Deixa isso com a mãe. A mãe é que sabe.
- Mas que raio de noite. - Estás com um ar...
Graças a ti.
Tenta... secar isto, Albert.
Estou feito um pinto.
- O que andaste a fazer? - Andei à procura da miúda.
Procurei-a nos hospitais, pela descrição.
- E valeu a pena? - Não descobri nada.
Ainda bem que já vieste, senão o jantar atrasava-se.
- Hoje não janto. - Porque não?
Por causa do teu serviço de 24 horas.
Se não a encontrarmos, o St. Vincent diz a toda a gente que o desiludimos.
- Ao menos bebe um copo. - Não, obrigado.
Só vim a casa trocar de meias. Tenho mais 12 hospitais para visitar.
- Eu não disse que tratava de tudo? - És muito simpática,
mas nem tu consegues encontrar aquela miúda antes das 14h de amanhã.
Já a encontrei.
- Como assim? - Não custou nada.
- Onde está ela? - No quarto de hóspedes.
Por acaso, convidei-a para ficar cá uns dias.
Espera lá... Espera lá...
É uma velha amiga.
Ela ontem ficou num hotel e veio para cá hoje de manhã,
antes de irmos para a agência.
Queres dizer... que ela esteve cá o dia todo,
enquanto eu a procurava desesperadamente?
Ela não chegou a desaparecer.
Vocês planearam isto!
Cruzei-me com ela há pouco tempo,
e ela disse-me que o St. Vincent a andava a cortejar.
Convenci-a a mostrar-lhe o anúncio e desaparecer.
- Não acredito... - É uma bela publicidade para nós.
E assim aquele idiota pede-a em casamento.
Não só ludibriaste o nosso cliente,
o nosso primeiro cliente, como ainda forçaste o desgraçado a casar-se.
Para com isso.
É disso que a família dele precisa. De sangue vermelho.
- Olá. - Olha, Tommy,
é a Janet Smith. Somos amigas desde os meus tempos de enfermeira.
Smith? É o seu nome verdadeiro?
Sim, porquê?
- Só para saber. - O Tommy não quer esta bebida.
- Fica para ti. - Obrigada, Tuppence.
Nunca vi nada tão imoral.
- Como está? - Vais ser o melhor que lhe aconteceu.
Sem dúvida. Por estranho que pareça, eu amo mesmo aquele tonto.
Ele assim deixa de ir a discotecas e leva uma vida saudável.
Anda há meses a arranjar coragem para me pedir em casamento.
Eu já não aguentava mais.
A Agência Blunt fez de Sherlock Holmes e de Cupido.
Anima-te, Tommy.
Um brinde à Agência Internacional de Detectives.
Temos um cliente, Sherlock.
É uma senhora morena. Deve ter uns 25 anos.
Traz roupa barata mas vistosa. Parece alarmada.
- É melhor pedirmos-lhe que entre. - Pois é. Vai escrever à máquina.
Pronto, podes tirar notas em estenografia.
- Como é que isso se faz? - Desenha uns rabiscos!
Esta senhora deseja falar com o Sr. Blunt.
Bom dia. Faça favor de se sentar.
Esta é a minha secretária, a Miss Robinson.
Necessita dos nossos serviços, Miss...?
- Kingston Bruce. - Muito bem.
O autocarro devia vir muito cheio.
Vim de táxi.
Refere-se a isto? Apanhei-o no chão, lá fora.
Um vizinho nosso coleciona os bilhetes.
Deveras?
Vivemos em Wimbledon. Ontem à noite,
uma convidada nossa perdeu uma pérola cor-de-rosa,
que é, ao que parece, de valor considerável.
O Sr. St. Vincent também jantou lá em casa.
O Sr. St. Vincent?
Durante o jantar, ele falou da vossa firma.
A minha mãe mandou-me vir cá, para lhe perguntar se nos pode ajudar.
Estou a ver... Ainda não avisaram a Polícia?
Seria uma parvoíce, caso aquilo tenha caído para a lareira, ou coisa assim.
Pois...
Desconfia, então, de um descuido?
As pessoas fazem uma tempestade num copo de água.
Bem, eu de momento estou ocupadíssimo.
Eu compreendo. Não o maçarei mais.
Todavia, devo conseguir passar por Wimbledon.
- Dá-me a morada? - The Laurels, Edgeworth Road.
- Ficaremos à sua espera. Bom dia. - Bom dia.
Bom dia.
- Que rapariga tão estranha. - Pois era.
- Nem sei o que pensar dela. - Não terá sido ela a roubar a joia?
Bem, cá estamos.
Deve ser uma casa de gente snob. O pai, caso haja um pai,
deve ter posto militar. A filha vive como eles,
mas isso enoja-a.
És uma romântica incurável. Levas a máquina fotográfica?
Faz assim tanta falta?
Claro. Vou fotografar pegadas, ampliar negativos e...
...essas coisas.
Se não te importas, passo de tua secretária a tua assistente.
Achas-te capaz?
É o Sr. Blunt, não é?
Chamo-me Kingston Bruce. Coronel Kingston Bruce.
Como está, Coronel? Esta é a Miss Robinson.
Sou assistente do Sr. Blunt.
Bem... Obrigado, Gladys. Sentem-se, por favor.
O que aconteceu deixou-me muito perturbado. Muito, mesmo.
Não duvido, Coronel. Está certo de que se tratou de um crime?
Não tenho dúvidas, infelizmente.
- Posso ver o local onde tudo sucedeu? - Foi aqui, Miss...
- ...Robinson. - Foi nesta sala.
A sua filha deu-nos poucos detalhes. Pode contar-nos o que aconteceu,
- exatamente? - Com certeza, Sr. Blunt.
De momento, temos uma série de pessoas cá hospedadas.
Pessoas de bem, que vêm cá passar uns serões divertidos.
Ontem à noite, depois do jantar,
voltámos todos para a sala de estar.
Estava aqui uma grande amiga nossa, a Lady Laura Barton,
filha do falecido Conde de Carrow.
Ela sentiu um certo frio.
A sua aia, a Elise, veio para cá com ela.
É francesa. É tão amiga quanto aia, na verdade.
A minha esposa também cá estava, tal como a Beatrice, a minha filha.
Ela nutre grande apreço Pelo jovem St. Vincent.
Estavam cá também dois americanos meus amigos...
Bem, são amigos de amigos meus.
O financeiro Hamilton Betts e a sua esposa Phyllis,
uma senhora encantadora.
- O jantar estava esplêndido. - Uma delícia, Margaret.
Obrigada, Lady Laura. Charles,
- o Sr. Betts gostava de jogar bridge. - Quer a desforra, portanto?
Admito que ontem as cartas favoreceram o Coronel e a Beatrice,
Mas veremos a quem elas sorriem hoje.
Só há um problema: Não chegamos para duas mesas.
Não me importo de ficar de fora.
Fico a falar com o Lawrence sobre o iate que ele pensa comprar.
Lamento, Phyl. És a única que compreende os meus lances.
Posso contar consigo como parceira, Lady Laura?
Não, obrigada, Coronel. Tenho uma ligeira dor de cabeça.
- Lamento imenso, Lady Laura. - Não é nada de preocupante.
Prefiro ficar a ver se não se importam.
Se tem a certeza...
- Beatrice? - Não quero jogar.
Não olhe para mim, Coronel. A minha massa cinzenta não dá para espadas,
trunfos e coisas assim. Nunca consegui acompanhar o jogo.
Parece que vais ser a minha parceira, querida.
- Tem de ser? - Dá o teu melhor.
- Assim é que se fala. - Obrigado, Gladys.
Importa-se de preparar a mesa das cartas?
Foi um serão normal e agradável.
Onde é que se encaixam os Betts?
Aqui entre nós,
eu espero que ele invista numa firma a cuja direção pertenço.
Convidei-os porque a Lady Laura está cá.
É importante mostrar que temos bons contactos.
Claro.
E quanto à pérola?
Pois, começou tudo de forma muito estranha.
Íamos sentar-nos, e o St. Vincent ofereceu-se para servir as bebidas.
É um prazer estar num país onde podemos beber um copo com os amigos,
sem ter medo que a Polícia apareça.
- Pensa ir aos EUA, Lawrence? - Gostava muito,
Mas vou esperar que revoguem a Lei Seca.
Há algum problema?
O fecho soltou-se, com certeza.
Eu disse-te para não brincares com isso.
- Temos de o mandar arranjar. - Mandamo-lo para um joalheiro.
Mas tem de ficar bem. Pérolas daquelas não crescem nas árvores.
É tão bonita...
Foi uma prendinha que lhe dei, quando fizemos anos de casados.
Foi um jogo muito animado.
Até gerou alguma tensão.
Jogámos durante cerca de duas horas. Duas horas e meia.
- Alguém se ausentou da sala? - Não,
- mas chegou outra visita. - Quem?
Um tal Sr. Rennie.
É conhecido da minha filha Beatrice.
É professor, mas não vou com a cara dele.
É um sujeito desagradável, um perfeito radical.
A Beatrice não o devia ter convidado, sobretudo com o St. Vincent cá.
- Calhou muito mal. - Vai mandar fazer um iate, não é?
Sim, é um bem giro.
Devo levá-lo até Bolonha, e talvez até entrar em corridas.
- Vai dirigi-lo? - Não, contrato uma tripulação.
Como é óbvio...
A classe indolente arranja sempre maneiras caras de se manter indolente.
- Não aprova, portanto. - Não, de facto.
- John... - E porque não?
Talvez não tenha reparado, mas há mais de um milhão de desempregados.
Milhares de famílias vivem sem condições,
e nem sequer podem trabalhar.
Neste contexto, viagens de barco a França e corridas de iates
parecem-me grandes imoralidades. - Não concordo.
- Não? - Não.
E as pessoas que vão construir o iate, dirigi-lo e servir-me a bordo?
Não sei navegar nem cozinhar.
Se não fosse eu, também estariam desempregados.
Os EUA ficam em vantagem.
Mas vou dar-lhe uma hipótese. Jogamos outro róber.
Bem, eu... A Lady Laura importa-se?
Não, de todo. Estou a gostar de ver.
Espero que o iate esteja pronto por altura da minha lua-de-mel.
- Lua-de-mel? - Ainda não a pedi em casamento,
Mas... - Deseja casar-se com quem?
Ninguém que o senhor conheça. Nem a Beatrice.
Mas ia gostar dela. Faz o seu género.
Talvez possam partir num cruzeiro connosco,
caso isso não traia os seus princípios.
Terminámos o róber, que nos deixou empatados, felizmente.
O Rennie já saíra. O St. Vincent despediu-se pouco depois,
e fomos todos deitar-nos.
- E quanto à pérola? - Ficou onde estava.
Ninguém se lembrou dela.
- Deram pela falta dela quando? - Quando a Gladys veio limpar a sala.
O colar e a armação ainda estavam na mesa,
mas a pérola tinha desaparecido. Ela contou-me logo o sucedido.
E o que aconteceu de seguida?
Andámos a procurá-la, e decidimos fazê-lo de novo esta manhã.
E como reagiram o Sr. e a Sra. Betts?
Como é de esperar, ela ficou perturbada.
Ele queria que eu chamasse a Polícia.
- Mas o senhor demoveu-o? - Para evitar um escândalo.
A minha mulher e a minha filha concordaram comigo.
Depois lembrámo-nos da conversa do St. Vincent sobre a sua agência,
e o seu serviço especial de 24 horas.
Pois... Não terão motivos para desconfiar da criada de sala?
A Gladys já cá trabalha há anos.
Por outro lado, a tentação... Nunca se sabe.
O Coronel disse que o jogo de bridge gerou uma certa tensão.
É verdade. Houve uma mão sem trunfo,
e uma discussão complicada quando a minha mulher teve o azar de renunciar.
Deveras?
Estou a ver a sua ideia...
Julga que ele poderá ter filado a pérola,
quando estávamos absortos no jogo, não é?
- Refere-se a quem, Coronel? - Ao Rennie! Ele não tem princípios.
Não tenho pejo em dizer-lhes que não confio nada nele.
Não o podes afirmar, Beatrice.
Não o pode negar! Quando ela saiu do carro, caiu-lhe uma colher de prata...
São o Sr. Blunt e a sua assistente, a Miss...
Robinson.
Como está, Sr. Blunt?
Espero que resolva rapidamente este assunto tão desagradável.
Farei por isso, minha senhora.
- A Lady Laura está muito perturbada. - Tem calma, querida.
O Sr. Blunt trata de tudo.
Infelizmente, terei de falar com todos os presentes.
Vês?
- Para já, alguém saiu de casa hoje? - Não. Eu não o autorizei.
Excepto a sua filha.
- Sim, excepto eu. - Mas a Beatrice...
Ela ofereceu-se para ir à sua agência.
O que se segue, Sr. Blunt?
Bem, eu...
Ia tirar umas fotografias.
Pois é, claro. Se me dão licença,
vou buscar a minha máquina especial.
- O que te parece? - Não faço a menor ideia.
- Reparaste naquilo da filha dele? - Sim.
Afinal foi ela que nos quis contratar, e não a mãe que lhe pediu.
Para sair de casa com a pérola?
Talvez. E houve outra coisa que me chamou a atenção.
Quem é que terá levado uma colher de prata?
Ele adora os russos e os alemães. Que mais se pode esperar?
Ele não tocou nela. Estive sempre a olhar para ele. Não a pode ter levado.
Beatrice!
Presumo que o senhor seja o detective privado.
O próprio. É o Sr. Betts?
Hamilton Betts. Consta-me que o senhor despacha as coisas.
A minha alcunha é despachado.
Acho bem. Senão chamo a Polícia, mesmo que o Coronel se queixe.
Posso fazer-lhe umas perguntas sobre a pérola?
- O que pretende saber? - Estava no seguro?
Infelizmente, não. Comprei-a durante a viagem. O problema é do Coronel.
- Como assim? - O roubo, se o quiser chamar assim,
ocorreu na sua propriedade. A responsabilidade é dele.
- Não pretendo ficar a perder. - Quando vale uma pérola?
Uma destas? Comprei-a em Amesterdão. Paguei em dólares.
Na vossa moeda valerá, no mínimo, entre 18 e 20 mil libras.
Não estou a ver qual será o propósito disto.
É uma invenção minha.
À primeira vista, parece uma máquina normal.
Fotografa impressões digitais, e coisas assim?
Se o ângulo da luz... e a refracção... forem devidamente calculados.
É notável.
Julgava que estávamos mais avançados que os ingleses, mas isto é espantoso.
Não é nada de especial.
Cá estão todos...
- Ainda não te vestiste, amor? - Faltou-me o ânimo.
- Quem é este senhor? - É o Sr. Blunt, o detective.
É a minha mulher, a Phyllis.
- Como está, Sr. Blunt? - Sra. Betts...
Já descobriu alguma coisa?
Vou devagarinho, mas com convicção.
E em que ponto estamos?
Estamos no seguinte ponto: ou a pérola está cá em casa...
... ou não está.
- Exato. - Se não estiver cá,
pode estar em qualquer lado,
mas se cá estiver é provável que esteja escondida algures.
E temos de a procurar. É o que eu digo.
Muito bem. O Sr. Blunt tem carta branca. Passe a casa a pente fino.
Mas assim os empregados despedem-se.
Não se preocupe. Os aposentos deles ficam para o fim.
O ladrão deve ter escondido a pérola no local menos óbvio.
Penso que já li qualquer coisa assim.
- Mas qual local? - Os aposentos da Sra. Betts.
Era muito giro, não era? Bem, estamos à espera de quê?
Comece lá a busca.
- Eu acompanho-os. - Não te metas no trabalho do perito.
- O Sr. Blunt sabe o que faz. - Não leva a máquina?
Levo, pois.
Vinha já cá buscá-la.
Há quanto tempo trabalha para a Lady Laura, Elise?
Há vários anos.
Eu sei no que está a pensar. Andam a inventar aquelas histórias...
- Histórias? - Eu gosto muito dela.
Ela é muito boa pessoa. É uma grande injustiça.
- O quê? - "Elle est une veuve".
É viúva, percebe?
O marido dela morreu na guerra.
Se calhar foi isso...
Se calhar aconteceu-lhe qualquer coisa nessa altura.
- Mas que coisa? - Ela não o pode evitar.
Pode crer que não o faz de propósito.
Quando viajamos, e ficamos em casa de outras pessoas,
desaparecem coisas. "Disparu". Nem sempre são objetos de valor.
A colher de prata!
- Ouviu falar disso? - Mas o que aconteceu, exatamente?
Da última vez que cá ficámos,
tomámos chá em casa de uns amigos do Coronel e da Madame Bruce.
Eles tinham um conjunto de colheres de prata.
A Lady Laura levava o seu regalo de pele.
Assim que chegámos a casa, caiu uma das colheres do regalo.
Eu fui devolvê-la, e expliquei-lhes que fora um acidente,
mas não acreditaram em mim. - Fez os possíveis.
Não lhe devia ter contado isto. "La pauvre..."
Acredite em mim, por favor. Desta vez é diferente.
A Milady não pode ter roubado a pérola.
Só restou isto.
Deve ter ficado destroçada.
Há por aí pérolas aos pontapés. O Hammie ficou mais ralado que eu.
- Mas foi muito cara. - Ele também ganha muito.
É só nisso que pensa: em ganhar mais. Quase nem para em casa.
Não imagina como me sinto sozinha.
Sim, presumo que se sinta.
De que tamanho era a pérola, Sra. Betts?
E era de que cor?
Combinava com estes cortinados.
- Vai tirar uma fotografia? - Se a Sra. Betts sair da frente...
- Phyllis! - Se a Phyllis sair da frente.
- E vou para onde? - Basta sair da frente.
Mostre-me.
O Sr. Blunt é tão alto!
É assim tão blunt, Sr. Blunt? (blunt=direto)
Entre.
Peço desculpa.
É a minha assistente, a Miss Robinson.
Olá. Vim só saber se precisava de ajuda.
Se calhar até precisa, querida.
Procurem lá a joia. Não vão precisar de mim.
- Interrompi alguma coisa? - Sim, graças a Deus.
- Vamos revistar o quarto? - Temos de manter as aparências.
Tu e o teu serviço de 24 horas... A joia pode estar em qualquer lado.
Ainda não descobriste nada?
Sei que o Coronel anda mal de finanças, mas não o mostra. E tu?
- Descobri umas coisinhas. - Tais como?
Não foi a cozinheira, porque ela sai às nove.
A criada de sala teve oportunidade de o fazer.
- E qual o motivo? - Só ganha 18 xelins por semana,
e ainda sustenta a mãe.
Mas acho que não foi ela.
A filha, a Beatrice, está aflita para sair de casa,
mas como não tem dinheiro, não pode fazer nada.
E o facto mais interessante:
a Lady Laura é cleptomaníaca.
- A colher de prata? - A colher de prata.
Ela fica sempre em casa de outras pessoas. Não tem um tostão,
por isso aceita convites de pessoas que ligam aos títulos nobiliárquicos.
Já ocorreram cinco ou seis roubos em várias casas,
quando ela lá vai.
Elise...
- Sr. Blunt, esta é a Elise. - Sim, claro. Como está?
Monsieur...
- Está ocupada? - Estava a limpar o quarto de banho.
Então não se importa que dêmos uma vista de olhos por aqui?
Não há problema, Elise. Vamos revistar os quartos todos.
Deixei a água a correr.
- O que foi? - Deve ter ficado emperrada.
"Voilá. C'est curieux, n'est-ce pas"?
Porque será que não abria?
- "C'est fait." - Óptimo.
Podia dar uma ajudinha à Miss Robinson?
Queria só tirar uma fotografia a esta mesa.
Mademoiselle Élise, importa-se de segurar a cortina?
Basta recolhê-la um pouco.
- É tudo, Monsieur? - Sim, obrigado.
Podia...? Obrigado.
Muito bem...
Estava aqui a pensar que a Lady Laura não ia gostar de nos ver por cá.
Não quer ir para as escadas, para nos avisar se ela aparecer?
"Certainement, Monsieur."
- Andas a tramar o quê? - Fica aqui um bocadinho.
Tenta falar com a Lady Laura, mas não a assustes.
Diz-lhe que desconfias da criada de sala.
Facas o que fizeres, não a deixes sair de casa.
Mas... Tommy.
- Onde é que vais, Tommy? - Vou à cidade.
- Não tenho tempo para explicar. - Ouve,
esqueci-me de te dizer uma coisa sobre a Beatrice.
Ela saiu de casa às nove e meia.
Não pode ter demorado duas horas e meia a chegar à agência.
- Pois não. - Onde é que terá ido antes?
Isso é muito interessante. Se quiseres, investiga,
mas não deixes a Lady Laura sair de casa.
Não demoro nada!
Anda à procura de alguma coisa?
É o Sr. Rennie, não é?
Como é que sabe?
Foi um palpite.
- Posso ajudá-lo? - Quero falar com a Beatrice.
Só um bocadinho.
Sabe que sou da agência de detectives?
Foi o que me pareceu.
Porque a Beatrice lhe disse que viríamos cá,
quando foi ter consigo, de manhã.
Sim, eu vi logo que ela tinha estado consigo.
Por que razão acha que a Miss Bruce roubou a pérola?
Estamos todos interessados em recuperar a pérola.
Lamento, mas tenho de tomar vários comprimidos com frequência.
É muito aborrecido.
- Tem tudo o que precisa, Milady? - Sim, obrigada, Elise.
- Podes sair. - Muito bem, Milady.
- Parece muito amável. - Sim,
é uma rapariga encantadora.
A minha cabeça...
Faça o favor de se sentar, Miss Robinson.
Obrigada.
- Como vai a investigação? - Bastante bem, obrigada.
Acha que posso ter sido eu?
É que eu sei que posso.
- Lady Laura... - Por favor... Isto custa-me muito.
Há já algum tempo que não controlo os meus atos.
E isso tem vindo a piorar.
Por vezes, pego nas coisas e levo-as, simplesmente.
Exato.
- Decerto já ouviu falar disso. - Sim.
É uma vergonha.
Tenho de depender da bondade dos meus amigos,
e da Elise.
Nunca dou por estas coisas acontecerem,
nem sei quando virão a acontecer.
E não tenho sentimentos de culpa,
porque não estou consciente do que faço.
Eu compreendo.
Mas nunca tinha levado um objecto tão valioso.
Não estou certa de que a senhora tenha alguma coisa a ver com isto.
É muito amável, minha querida.
- Procuraram no meu quarto? - Sim,
mas não encontrámos nada.
Acabará por aparecer, algures.
Quando isso acontecer e se estiver certa de que fui eu,
prometa-me que vem cá contar-me.
Eu então saberei o que fazer.
- Eles estão lá dentro, Tommy... - Olá, querida.
- ...a tomar chá. - Anda!
Sempre achas que foi a Lady Laura...
Que pena... Tinha esperanças de que não fosse.
Mas tenho muito para te contar sobre a Beatrice e o namorado.
- Inspetor Marriot! - Bom dia.
Parece que andam a divertir-se bastante.
Lá está você.
Alguém me explica o que se passa?
Ela não ofereceu resistência. Tem tarimba, sabe quando se deve desistir.
- E a pérola? - Parece-me que a encontraremos aqui.
É um velho truque, Sra. Beresford.
Corta-se um sabonete ao meio, faz-se um buraco no centro,
juntam-se as metades e disfarça-se o corte com água quente.
Dá-me licença?
Foi muito perspicaz, Sr. Beresford.
Mas...
Mas a Lady Laura ainda está cá. E a Beatrice. E a Gladys.
Não te cheguei a dizer? Foi a Elise.
Não sei como lhe hei de agradecer, meu caro!
- Tiro-lhe o chapéu! - Obrigado, Sr. Betts.
- Muito obrigada. - Sra. Bruce...
Não me ponha de parte. Obrigada.
Sra. Betts...
Muito obrigada. Tiraram-me um peso do coração.
Agora posso viver os dias que me restam sem vergonha.
Obrigado, Lady Laura.
Obrigado a todos.
Queria agradecer-lhe, Miss Robinson,
embora tenha suspeitado de mim desde o início.
Teve medo que o Rennie a tivesse roubado,
e o Rennie tinha medo que fosse a Beatrice. Portanto,
não podia ser nenhum de vocês.
Ele próprio lhe dirá isso.
Acabou tudo bem. Vamos para casa?
Primeiro tens de me dizer como é que desconfiaste da Elise.
Foi quando ela tentou abrir a porta da casa de banho.
Também tentei abrir a porta com sabonete nas mãos. Não dá,
a mão escorrega. Foi por isso que ela usou uma toalha.
Usou-a para abrir a porta e para limpar o sabonete.
Exato.
Para uma ladra,
nada melhor que trabalhar para uma suposta cleptomaníaca.
Céus... Todos pensavam que a pobre Lady Laura tinha roubado tanta coisa!
Se bem te lembras, eu tirei uma fotografia à Elise,
em frente à janela.
Pedi-lhe para segurar a chapa de projeção e fui para a Scotland Yard.
Eles revelaram a fotografia e retiraram as impressões digitais!
Descobriram que a Elise era uma velha amiga deles.
Porque não me contaste logo?
Porque me pareceu que a Elise estava atrás da porta, a ouvir.
E também porque...
... tu e a tua amiga Janet Smith fizeram de mim parvo.
Assim já estamos quites.
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