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Original subtitles

A RAPARIGA DINAMARQUESA

Desculpe?

Disse: n�o gostava de pintar como o seu marido?

De verdade, deve estar muito orgulhosa dele.

Est� a correr muito bem.

Sim, provavelmente � imposs�vel.

E o Rasmussen...

S� gentil. Ao menos ele aceitou ver o teu trabalho.

S� porque estava b�bado.

E tu estavas a adorar.

N�o estava.

Eu n�o diria que o Einar � o melhor pintor de paisagens da Dinamarca.

Mas...

Ele est� no top 1.

- Sil�ncio. H� pessoas a dormir. - Desculpe.

COPENHAGA, 1926

Sabes que horas s�o?

S�o horas de voltares para cama?

N�o.

Vou come�ar a trabalhar.

Gerda.

O que foi?

A tua cara...

Achas que n�o te consigo resistir?

Queres-me resistir?

N�o.

Mas quero que pe�as com modos. Para que eu n�o me sinta t�o mandona.

Gerda Wegener.

A minha vida...

A minha esposa.

Ol�, Sr. Wegner.

Einar Wegener!

N�o se preocupe com ele.

Ele s� teve olhos para uma mulher.

O meu segredo foi revelado.

Ent�o, quando me v�o dar um afilhado?

Ulla, �s ateia.

J� tentaste beber mais ovos?

- N�o. - Ent�o bebe.

Por mim.

- Estamos a tentar. - Esfor�a-te mais.

De qualquer forma...

O que fazes hoje aqui?

Pensava que tinhas terminado na semana passada.

Queria verificar a pintura do fundo para a cena da tempestade.

E dar espa�o � Gerda.

Ela est� com um t�mido.

Sabes que eu sou a pr�xima.

J� ouvi dizer.

N�o vou ser t�mida.

Imagino que n�o.

Ela vai ter que usar todas as cores comigo.

Levante a cabe�a.

Quero dizer que gostei de estar sozinho hoje.

Espero que o seu marido n�o se importe.

De forma alguma.

Percebi que com ele aqui...

ficava desconfort�vel.

N�o foi pessoal.

N�o � incomum.

� dif�cil para os homens serem olhados pelas mulheres.

As mulheres est�o acostumadas.

Mas para os homens se submeterem...

aos olhares das mulheres.

� inquietante.

Mas acho que se pode retirar algum prazer disso.

Assim que se...

renda.

Senta-te.

Boa menina.

Bom dia.

Ent�o?

Perfeita.

Quase.

Boa sorte.

S�o todos retratos?

Isso � mau?

N�o exactamente.

Este tipo de trabalho...

N�o � exactamente o meu...

Gerda, acho que n�o seria benef�cio para nenhum de n�s

mostrar estes trabalhos.

N�o tem nada haver com as suas capacidades.

Eu concordo com o Einar...

Poderia ser uma pintora de primeira classe

se encontrasse o assunto certo.

Como correu?

Bem.

Finalmente encontrei a cor para a neve.

N�o sei como consegues pintar a mesma coisa v�rias vezes.

Suponho que seja por ainda n�o estar terminada.

Gerda.

Por favor, n�o fales de mim outra vez ao Rasmussen.

Do meu trabalho cuido eu.

N�o te metas.

Gerda.

Tenho o per�odo.

Lamento.

- Lamentas? - Claro que sim.

E sabes que sim.

Ajudas-me com uma coisa?

O que quiseres.

Vais substituir a Ulla. Ela cancelou outra vez.

Podes experimentar os collants e os sapatos?

Estou t�o atrasada que n�o sei como vai estar pronto a tempo.

Fa�o.

N�o h� problema. Fa�o-o.

Est�o ali.

N�o.

Quase que rasgaste.

Est� ao contr�rio.

S�o abertos atr�s.

S�o inteligentes.

Acho que n�o v�o servir.

Bem, fazes o melhor que podes.

Agora preciso do vestido.

N�o.

Tenho que ver como fica.

N�o o vou vestir.

N�o te pedi isso.

Relaxa.

Mais cedo come�o...

Mais cedo acabo.

Ol�.

N�o te preocupes, querida.

Vamos chamar-te...

Lili.

Tanta concentra��o.

�s vezes penso que vais escapulir para dentro da pintura e desaparecer.

Para o p�ntano.

Como o papagaio do teu amigo quando eram crian�as.

O Hans.

Sim... o Hans.

Aposto que ele ainda se senta naquela rocha.

- At� morrer. - N�o.

Por acaso � negociante de arte em Paris.

Empurra quadros velhos a americanos ricos.

Ent�o n�o nos precisamos de preocupar com o Hans.

N�o... N�o nos precisamos de preocupar com ele.

N�o te queria incomodar.

N�o faz mal, j� terminei.

N�o te preocupes, n�o vou desaparecer no p�ntano.

O p�ntano est� dentro de mim.

O que foi?

Um homem n�o pode ver a mulher a despir-se.

� nova.

Muito observador.

N�o tires.

� bonita.

Posso-te emprestar.

Talvez gostasse.

H� algo que me queiras contar?

H� algo que queiras saber?

N�o.

Sou tua mulher.

Sei tudo.

Ali est�o dois.

Ambos.

N�o ao mesmo tempo.

� t�o f�cil chocar as pessoas casadas.

S� fingimos estar chocados, porque te encoraja.

Eu sei.

� por isso que v�o ser o �nico casal no meu Baile dos Artistas.

Fora de quest�o... Ela pode ir sem mim.

A Gerda? Sem um acompanhante?

Seria um esc�ndalo.

A Gerda adora um esc�ndalo.

Olha como ela se veste...

A exibir os tornozelos.

Acho que ningu�m ser� corrompido por ver os meus tornozelos.

Eu fui.

A primeira vez que nos vimos, eu estava a sair da academia...

e ela estava sentada nos degraus...

a exibir os tornozelos.

E foi ela que me convidou.

Isso � verdade?

Quando eu Ihe disse ol�, ele ficou vermelho.

Ele era t�o t�mido, ent�o eu convidei-o para sair.

E tu aceitaste.

Ela obrigou-me.

Ela parecia t�o segura.

Eu estava segura.

Ainda estou.

Por favor, j� chega.

O que ele tinha de especial?

N�o sei...

Mas fomos tomar um caf�...

E depois...

Eu beijei-o.

E foi a coisa mais estranha.

Foi como me beijar a mim.

Estes dois n�o v�o ficar mais tempo.

As pessoas solteiras s�o as mais f�ceis de chocar.

Deixa assim.

Foste mesmo corrompido pelos meus tornozelos?

Eras uma desavergonhada.

Ainda sou.

Linda.

Rapariga desavergonhada.

Acordei-te?

Desculpa.

N�o conseguia dormir.

Porqu�?

A pensar nas coisas.

Que coisas?

A pensar se fizemos um beb� ontem � noite.

O que achas?

A pensar em quando te tornaste t�o bonito.

Fui sempre bonito.

S� que tu nunca notaste.

Ol�.

Estou aqui.

Estes s�o bons, Gerda.

Achas?

Obrigada.

Tomei caf� com a Ulla. Ela falou-me do Baile dos Artistas.

N�o vou.

N�o te preocupes.

Eu disse-lhe que n�o.

Deverias ir. Irias-te divertir.

Eu divirto-me contigo.

� bom ser visto nessas coisas. Eu entendo.

� por isso que odeias.

Sinto como se estivesse a actuar.

A dar-lhes tudo do Einar Wegener.

Porque n�o lhes d�s algo diferente?

Vai como outra pessoa.

Tens algu�m em mente?

N�o.

Serias muito convincente.

Isso � ultrajante.

At� podes gostar.

Para a pr�xima tens que fazer a barba mais rente.

Fecha os olhos.

Deixa-me tentar.

O que achas?

Melhor do que eu.

Lili, eu quero desenhar-te.

Senta-te.

Ol�.

Anda c�.

Senta-te de lado. Troca a perna.

Olha para cima.

Essas m�os, relaxa.

N�o a tornes numa vadia.

A culpa � tua.

Tu entusiasmaste-a.

Menina Lili.

Est� muito atrevida.

Nem fazes ideia.

Talvez levantar a m�o.

Bom dia.

Bom dia, Tobby. Bom dia.

Ol�?

Estava a pensar onde estarias.

Est� a ficar tarde.

Temos muito tempo.

Trouxe-te isto.

S�o perfeitas.

Tens a certeza sobre esta noite?

O que foi?

Estou bonita o suficiente?

Claro que est�s.

Nunca serei t�o bonita quanto tu.

�s t�o lindo.

Querida.

Ulla.

Deixa-me apresentar.

� a Lili.

Pois �.

A prima do Einar de Vejle.

Minha querida.

Que requintada.

Vamos entrar. Vamos l�.

N�o me deixes.

Nunca.

- As pessoas est�o a olhar. - �s uma rapariga bonita.

Tens que te acostumar.

N�o faz mal.

S� te est�s a sentir auto-consciente.

Gerda.

Vai falar com eles.

Vou ficar contigo.

Vai. Eu fico bem. Vai antes que eles venham.

Est� bem.

Quem �?

� jornalista?

N�o.

Poetisa?

Conhece a hist�ria deste carvalho?

N�o.

Dizem que se comer uma bolota, pode pedir um desejo.

E transformar-se em quem quiser durante um dia.

E porque diriam isso?

Henrik Sandahl � sua disposi��o.

Lili.

Veio com algu�m, Lili?

Sim... com a minha... Com a esposa do meu primo.

Quem � o seu primo?

O pintor Einar Wegener.

Sim... Ele � bom.

Ele � melhor do que muitos acham.

� mesmo?

A maioria das pessoas acham no antiquado.

Olhe para mim. Aqui fora est� frio.

E al�m disso, sou rom�ntico.

A s�rio?

Tenho medo das sombras.

N�o quero presumir nada. Mas tenho-a observado.

E acho que � igual a mim.

Venha.

Viste o Einar? N�o o encontro.

Claro que n�o. Ele n�o est� aqui.

� diferente da maioria das raparigas.

- Isso n�o � uma frase muito original. - � verdade.

� � moda antiga.

Sou nova na cidade.

N�o. � mais que isso.

Sinto que tenho que pedir permiss�o antes de beij�-la.

Tenho que ir procurar a Gerda.

Diga-lhe que a levo a casa.

N�o, ela n�o iria gostar disso.

Lili.

O Einar vai estar � nossa espera e n�o vai gostar disso.

N�o gostaria?

N�o.

Lili.

Lili.

Lili.

N�o pediu permiss�o.

N�o podia arriscar a ouvir um n�o.

O que se passa?

Desculpe. N�o sei o que aconteceu.

Como est�s?

Ontem � noite chegaste tarde ent�o deixei-te dormir.

Como correu?

A Lili divertiu-se?

Acho melhor a Lili n�o aparecer por c� outra vez.

Est� bem.

O que aconteceu entre ti o Sandahl ontem � noite?

Nada.

N�o foi nada.

Ele sabia que eras tu?

N�o foi assim t�o simples.

Vi ele a beijar-te, Einar. Ent�o, por favor faz um esfor�o.

Ele talvez saiba que eu era... Mas eu n�o era eu mesmo.

Houve um momento em que eu era a Lili. E acho que ele viu isso.

- Percebeste? - Mas a Lili n�o existe.

- Cometemos um erro. - Eu sei.

- Est�vamos a fazer um jogo. - Eu sei que sim.

Mas ent�o...

Algo mudou.

Isto � um absurdo... Temos que parar.

Tu tens que parar, Einar.

Vou tentar.

Outra dor de cabe�a?

N�o � nada.

Queres que te traga alguma coisa?

Estou �ptimo.

Talvez devesses ir ao m�dico.

Gerda, estou �ptimo.

N�o pensei que viesses.

N�o, nem eu mesma.

Pensava que j� n�o vinhas.

Isso � absurdo.

� mesmo?

A modelo?

A prima do Einar.

A semelhan�a �...

H� outros?

Tenho uma s�rie no est�dio.

Estes s�o diferentes.

Para estes acho que talvez haja um mercado.

- Est� a aceit�-los? - Sim.

Entra.

N�o tenho muito tempo.

A Gerda foi ver o Rasmussen.

N�o gosto destas mentiras.

Ela � muito protectora.

Porque n�o lhes contas sobre n�s?

N�o podia fazer isso.

Desculpa.

N�o te quero chatear.

Anda aqui.

- N�o. - Sim.

Einar.

O qu�?

V� l�. N�o faz mal.

N�o estou a perceber.

Lili... por favor.

N�o sei o que queres.

- Eu quero-te. - N�o sei a que te referes.

- Eu quero-te. - N�o.

Lili... Lili... Espera.

Est�s bem?

N�o.

Tenho-me encontrado com o Henrik Sandahl.

- Pensava que talvez soubesses. - N�o.

Isso n�o.

Ent�o?

Est�s apaixonado pelo Sandahl?

N�o.

Eu amo-te. Gerda, s� a ti...

A Lili ela � que...

S� honesto.

Preciso que acredites em mim. �s a �nica que pode entender.

Tens que me contar quando o Henrik e a Lili...

Estiveram juntos beijaram-se?

- J� foram al�m disso? - N�o.

N�o, a Lili nunca passou disso com os homens.

Houveram outros homens?

Houve outro...

Mas foi h� muito tempo atr�s.

Foi aquele rapaz... o Hans.

Em Vejle.

Ela apaixonou-se por ele...

Ele beijou-a s� uma vez.

Mas o meu pai entrou e apanhou-os.

E bateu no Hans.

Estava t�o zangado.

N�o sei o que dizer.

O que foi?

Einar..

N�o me estou a sentir bem.

Einar, o que �?

- Einar, o que se passa? - Estou bem.

Foi consultado pelo Dr. Anderson depois de sangrar do nariz.

E que acredita que vem de dentro das contrac��es abdominais

todos os meses.

Ent�o, h� quanto tempo est� casado?

Seis anos.

- Filhos? - N�o.

Copulam regularmente?

Sim.

Talvez agora menos do que...

Desde que come�ou a vestir-se de mulher.

Sou um especialista Sr. Wegener. Talvez esteja envergonhado. Eu n�o.

Fale-me sobre a Lili.

De onde ela vem?

De dentro de mim.

Sabe que a explica��o l�gica para isso � desequil�brio qu�mico?

A s�rio?

V� para a marquesa.

Isso explicaria a dor, a confus�o com a masculinidade e a infertilidade.

Vamos esperar que seja isso, quer dizer que podemos cur�-lo.

N�o preciso de fazer isto, n�o h� nada de errado comigo.

- Isso n�o � verdade. - Isto n�o pode estar certo.

Radia��o � um milagre Sr. Wegener.

Destr�i o mal e salva o bom.

Tenho a certeza que ser� r�pido.

N�o se mexa, Sr. Wegener.

Sr. Wegener.

Como se sente esta manh�?

Magoou a Lili.

Receio que os pensamentos aberrantes do seu marido persistam.

- Tranca o seu guarda-fato? - Claro que n�o.

Sra. Wegener n�o est� a encorajar as alucina��es dele?

- Percebe que o seu marido est� demente? - N�o.

Isso n�o � verdade.

N�s confiamos em si. Viemos para que nos ajudasse.

Gerda.

Por onde andou?

Estive fora. Porqu�?

O que se passa?

Vendi os retratos da Lili.

E estou interessado em fazer uma exibi��o completa.

- Isso � fant�stico. - E h� mais.

Uma galeria em Paris quer represent�-la.

- Em Paris? - Sim, tem que ir.

Agora n�o posso viajar.

Gerda, este � o seu momento... J� esperou muito.

Estes negociantes de arte conseguem ser teimosos.

Tratado por pervers�o.

O que est�s a fazer?

Fui convidada para uma exibi��o em Paris.

- Isso � maravilhoso. - Sim.

Tenho que ir.

O Rasmussen disse que faria toda a diferen�a.

Acho que n�o posso...

Vou tratar de ti.

Mas achas que...

N�o podes fazer s� isto por mim?

O que se passa?

- Recebi uma carta do Hexler. - Ele quer-me internar.

Vai dar tudo certo connosco.

A s�rio... Eu sei disso.

S� tens que confiar em mim.

Eu confio.

O Einar tamb�m � pintor.

Exibe em Paris?

Acho que o meu trabalho � um pouco introspectivo para o gosto franc�s.

Desculpe-me... A modelo est� aqui?

N�o... Ela ficou na Dinamarca.

Esperava conhec�-la.

N�o.

Desculpa.

Pousas para mim?

Assim como est�s...

N�o fazemos isso desde a escola de arte.

O professor.

A merc� dos seus alunos.

Achavas isso excitante.

Agora n�o posso.

Desculpa.

Tenho saudades tuas.

Tenho saudades de trabalhares ao meu lado.

J� n�o me lembro da paisagem.

N�o me lembro de Vejle.

Podes ajudar-me com este fundo.

O que falta aqui?

Um lago? Uma casa de campo?!

Gerda.

Obrigada.

N�mero 16.

Ele est� a brincar connosco. Ele sabe o pre�o.

Tenho que desligar. Est� uma rapariga dinamarquesa � minha espera.

Est� bem.

Hans Axgil.

Obrigada por me receber.

Ainda n�o me agrade�a, n�o posso represent�-la.

- N�o lido com arte contempor�nea. - Claro.

Eu sei.

As cr�ticas � sua exibi��o foram espetaculares, mas...

Talvez se me deixasse falar tudo seria mais f�cil.

Ent�o quando chegou?

H� quase seis meses.

N�o sei porque o Rasmussen Ihe deu o meu contacto, mas ainda bem que deu.

Eu pedi-lhe.

Queria conhec�-lo. Juntar o nome � pessoa.

Parece-me que foi amigo de inf�ncia do meu marido.

Tem marido?

Sou casada com o Einar Wegener.

O Einar?

Lembra-se dele?

Claro que me lembro.

�ramos muito amigos. Como ele est�?

Ele disse-me que uma vez o beijou.

Eu o qu�?

Tem raz�o.

Tem raz�o, j� me lembro. Est�vamos a brincar na cozinha.

Ele estava a usar o avental da av�... Sabe como �, crian�as a brincar.

Ele ficava t�o bonito de avental... Tive que beij�-lo.

Sim, beijei o Einar.

Quando dou por mim, o pai dele est� a escorra�ar-me.

O Einar... Meu Deus.

Porque ele n�o veio hoje?

Ele n�o sabe que estou aqui.

N�o acho que ele gostasse que eu pedisse ajuda.

N�o conhecemos ningu�m aqui. E o Einar...

Ele perdeu o rumo.

Ele n�o est� a trabalhar... Precisa de algu�m que o represente.

Algu�m que o conhe�a.

Ele precisa de um amigo.

Mais logo vem c� um novo negociante. Gostaria que o conhecesses.

N�o quero um novo negociante. N�o faz sentido. N�o estou a trabalhar.

Isso pode mudar.

N�o me parece. Contento-me em ajudar-te.

� o Hans Axgil.

Vamos jantar todos �s 20h e depois voltamos para aqui ver os quadros.

Ele lembra-se de ti com muito carinho.

Foi feito � m�o e tinha-o desde os 4 anos.

O Einar ainda sente remorsos pelo teu papagaio.

O meu papagaio... N�o brinques com ele sobre isso.

N�o... � muito cruel.

Se ele vier aqui ter, talvez n�o me queira ver.

N�o...

N�o... N�o � isso.

Talvez seja melhor pedirmos sem ele.

Ele abandona-te com frequ�ncia?

Claro que n�o.

Estava a brincar.

Posso voltar noutra altura, se achas que o Einar gostasse.

A s�rio. Ele est� � tua espera.

E vai fazer-lhe bem.

Conhe�o este lugar.

� um campo em Vejle, n�o muito longe das nossas casas.

Ele pintou antes de partirmos.

Lili.

Hans.

Apresento-te a Lili Wegener.

A prima do Einar da Dinamarca.

N�o imaginas o qu�o feliz estou.

J� nos t�nhamos conhecido, em Vejle.

Mas n�o te deves lembrar.

Posso levar o teu casaco?

Claro.

Um digestivo, Hans?

De repente ficou frio.

Tenho sentido frio estes dias e n�o sei porqu�.

- Toma. - Obrigado.

Lamento que o Einar n�o possa ter vindo.

Ele disse-me que eras o seu melhor amigo em Vejle.

Sempre a planear fugir.

� verdade.

Um lugar t�o chato.

Disse-me que se sentavam...

E olhavam para o horizonte, para al�m do mar...

Para o futuro.

T�nhamos grandes sonhos.

Sim.

Eras o �nico que o deixava pintar em paz.

Disseste-Ihe que n�o fazia mal ser pintor.

Ele costumava desenhar o meu retrato.

Desenhava nas rochas � beira da estrada.

N�o sabia disso.

Queres ver mais trabalhos do Einar?

Sim.

- Temos mesmo? - Claro, Lili.

Pod�amos fazer isso noutra altura.

Quero saber mais sobre o Hans. �s casado?

- N�o. - E porque n�o?

N�o te importas, pois n�o?

Estou sozinho h� algum tempo...

E estou acostumado assim.

O casamento � algo que devemos desejar na vida.

A s�rio?

Sim, crias algu�m mais. Mais do que voc�s os dois.

Acho que seria terr�vel se...

Seria terr�vel se... D�s-me licen�a.

Lili.

Tens que ir.

Deixa-me ajudar.

Por favor.

Lamento.

- Boa noite, Lili. - Boa noite.

Acho que ele n�o percebeu... N�o achas?

N�o sei.

Acho que sa� mesmo a tempo.

Vai dormir.

Amanh� falamos mais.

Podes-me emprestar uma camisa de noite?

N�o, nunca fizemos isso.

A Lili nunca passou a noite.

N�o importa o que eu vista.

� o que eu sonho.

Os sonhos da Lili.

Um vestido novo.

E isto � para ti.

Gostas?

Sim.

� perfeito para ti.

Estamos com pouco dinheiro no momento.

Eu sei.

Mas agora que voltei, posso pousar para ti outra vez.

Funcionou da outra vez, n�o foi?

Est� bom.

Cabe�a para o alto.

N�o sabia que vinhas.

� um bom p�blico.

Ela � uma rapariga popular.

Obrigada por teres vindo.

Obrigada pelo convite, pensava que te tinhas esquecido de mim.

Estivemos ocupados.

O Einar est� aqui?

- Ele odeia estas coisas. - � uma pena.

Para ti, quero dizer.

N�o me importo.

Ele est� bem?

Est� entusiasmado...

Uma amiga nossa bailarina a Ulla vai vir, talvez a conhe�as.

Acho que n�o.

Posso levar-te a jantar?

Para celebrar, acho que algu�m deve fazer isso.

N�o, obrigada.

Gerda.

Ofendi-te?

N�o.

Gerda.

Ainda sou mulher do Einar.

Hans!

Pelo menos leve um guarda-chuva.

N�o. N�o � preciso.

A s�rio.

Se esperar, algu�m pode dar-lhe boleia.

N�o, tudo bem.

Meu Deus, est�s encharcada.

Correu bem?

Diz-me como foi.

Saberias, se estivesse l�.

Fiz jantar para n�s.

Deverias ter ido.

Para celebrar.

N�o � assim que s�o as coisas.

Faz�amos estas coisas juntos.

Eras tu e o Einar.

P�ra de fazer esse jogo est�pido.

Por favor, Gerda.

N�o penses que isto � um jogo.

Tu deverias estar l�.

Como poderia?

Olha para mim...

Nem tudo � sobre ti.

Preciso ver o Einar.

Deixa-me ajudar, por favor.

Preciso do meu marido.

Podes ir busc�-lo?

N�o posso.

Preciso de falar com o meu marido. Abra�ar o meu marido.

Preciso dele...

N�o podes ir busc�-lo?

Podes ao menos tentar?

Desculpa.

Gerda.

O que foi?

Est�s bem?

Gerda, espera... espera.

Acho que n�o te posso dar o que tu queres.

N�o sei por quanto tempo podemos continuar assim.

N�o.

Ele tem que consultar algu�m.

Sabes o que se passou com o Hexler.

Ele est� t�o magro.

Passa-se alguma coisa com ele.

Talvez s� queira ser magro.

H� um m�dico...

Ele administra uma clinica para mulheres em Dreston.

Ele tem interesse em homens como o Einar.

Que est�o confusos.

E que s�o diferentes.

Ele est� em Paris. Fala com ele.

Est�s acordado.

Como te sentes?

Anda.

Tenho que ir a um s�tio.

Onde?

Desculpa.

J� n�o sei como me segurar a ti.

Eu sei.

Eu amo-te.

E vou encontrar uma resposta.

ESTUDO CIENTIFICO DA IMORALIDADE SEXUAL

O HOMEM NORMAL E ANORMAL

Menina.

�s l�sbica?

Bom dia. Como te chamas?

Falas ingl�s?

�s rapaz ou rapariga?

Tens um pirilau ou um...?

N�o posso mais segurar os compradores, eu lamento muito.

Einar.

N�o sou bom nisto.

Lutei boxe durante um tempo.

� uma pena que n�o estavas l�.

Desculpa por n�o te ter vindo visitar ainda.

N�o faz mal.

Est�s aqui agora.

N�o podia deixar a Gerda ver-me neste estado.

Ela j� tem aturado muito.

O que se passa contigo?

N�o entendo.

Nem eu.

Mas acho que n�o seja uma coisa nova.

Desde aquele tempo em Vejle.

Desculpa.

Porqu�?

Eu era diferente.

N�o � preciso muito para ser diferente em Vejle.

Foi por isso que nos torn�mos amigos.

Todas as manh�s, prometia-me a mim mesmo,

que passaria o dia todo como Einar.

Mas ainda resta um pouco de Wegener.

Pensas nessas coisas porque est�s cansado?

�s vezes penso em matar o Einar.

Mas s� a ideia que vou matar a Lili tamb�m me faz parar.

Precisas de consultar algu�m.

- Um m�dico. - N�o.

Sim.

- N�o... os m�dicos.. - Vou-te ajudar a encontrar algu�m.

Tens que tentar.

Um caso confuso de identidade.

Vou furar buracos pequenos...

Aqui e aqui.

Receio que n�o sejam boas not�cias...

� homossexual.

N�o sei que tipo de ajuda preciso.

N�o posso continuar a viver sem saber quem eu sou.

Por favor. S� um minuto.

Esquizofr�nico.

Achas que estou demente?

O m�dico disse isso?

Eu sei que concordamos... mas...

Olha para mim...

N�o est�s demente.

Fui eu que te fiz isso?

O qu�?

�s vezes pergunto-me...

Se n�o fosse pelos quadros.

Gerda, n�o.

Ajudaste a trazer a Lili � vida.

Mas ela esteve sempre l�.

Ela estava sempre � espera.

Ela est� a deixar-te doente.

N�o sei o que fazer.

Os m�dicos n�o me podem ajudar.

Queres experimentar mais um?

Dr. Warnekros este � o Einar.

Prazer em conhec�-lo.

O que acha que explica o que tem passado Sr. Wegener?

Para falar a verdade...

Creio que sou uma mulher... Por dentro.

E eu acredito tamb�m.

Provavelmente acha que estou maluco...

Mas ent�o estamos os dois.

H� pessoas que pensam que eu sou maluco.

Mas acho que tem raz�o.

Conheci outro homem como o Einar.

Aceitei o caso dele.

Contra os meus colegas, � claro.

Eu disse-lhe que poderia oper�-lo, e torn�-lo uma mulher por completo.

Isso era o que ele queria.

Isso � mesmo poss�vel?

O que aconteceu com o homem? A opera��o foi bem sucedida?

Na manh� da 1� cirurgia ele fugiu. Estava assustado.

Eu n�o faria isso.

Talvez tenha sido inteligente.

A cirurgia nunca foi feita antes.

Professor, como � essa cirurgia?

Duas opera��es, a primeira para eliminar

os membros masculinos totalmente.

E a segunda, quando estiver saud�vel, para construir uma vagina.

Uma mudan�a irrevers�vel.

Com alto riscos de fracasso.

Infec��es... Complica��es...

� muito perigosa.

� a minha �nica esperan�a.

Parto amanh� � hora de almo�o.

Sra. Wegener.

Eu acredito que posso ajudar o seu marido.

Mas ele n�o ser� o seu marido... Quando eu terminar.

� estranho sair vestido assim.

� importante.

O Hans disse que os alem�es podem verificar os teus documentos.

Est�s quase l�.

N�o te voltarei a ver.

S� gostei de poucas pessoas na minha vida.

E tu foste duas delas.

Cuida-te.

Cuida-te.

Queria que me deixasses ir contigo.

N�o posso.

Tu amas o Einar.

E eu tenho que deix�-lo partir.

Toma, leva isto.

Ol�.

Chamo-me Lili e estou aqui para o professor Warnekros.

Lili o qu�?

Lili Elbe.

Claro. Sente-se ali.

Tenho mesmo que esperar?

� s� uma semana.

Quero que descanse e ganhe peso.

N�o podemos arriscar uma infec��o.

Para o que vamos tentar...

Preciso que seja forte.

Este n�o � o meu corpo, professor.

Por favor, leve-o.

Vai ter um beb�.

E a menina?

N�o... n�o.

Estou doente por dentro. Mas o prof. Warnekros vai-me curar.

E vai poder ter filhos depois disso?

N�o sei...

Espero que sim.

Gerda, porque n�o vais?

Ele pediu-me para n�o ir.

Ele quis-te proteger. Devias estar l�. Eu vou contigo.

Se eu for, vou sozinha.

Agora parecias o Einar.

Sou como o Einar.

O que queres que eu fa�a?

Quero que te v�s embora.

A s�rio?

N�o. Desculpa.

Ela recuperou a consci�ncia por breves momentos.

N�o Ihe dei muito morfina, � claro.

Isso � esperado.

Estou aqui.

Est� tudo bem.

Estou aqui agora.

Lili.

Come�o a melhorar quando oi�o o barulho do teu l�pis.

Sempre me desenhaste melhor do que eu era.

Mas eu tornei-me no que tu desenhaste...

Fizeste-me linda.

E agora tornas-me mais forte.

Tens tanto poder.

Dev�amos voltar para a Dinamarca?

Devemos ir para casa?

Lili.

Est�s atrasada.

E os teus comprimidos.

De duas em duas horas, e tenho que comer antes.

J� tenho alguns bolinhos na minha bolsa.

E estes...

S� se precisares.

Boa sorte.

E lembrem-se, fazer uma compra na Vonsberg

n�o � s� ir �s compras, � uma experiencia.

Morou em Paris, n�o foi?

Sim.

Diga a toda a gente. A loja � um palco. Estamos aqui para representar.

Em Paris, a mulher nunca p�e o perfume directamente nela.

Ela borrifa para o ar...

E depois passa por ele.

Experimente.

� t�o injusto, �s a mais gulosa e recebe as melhores gorjetas da loja.

Como consegues comer tanto a��car?

O truque � n�o comer mais nada.

- At� amanh�. - At� amanh�.

Lili vens?

Sabes, uma noite na semana passada.

Tive o sonho mais estranho.

Como foi?

Sonhei que te estavas a casar.

Achas que algum vez irei casar?

Quem sabe.

Tantas coisas estranhas aconteceram.

Eu quero, Gerda.

N�o foi h� muito tempo que nos casamos.

Tu e eu.

Tu e o Einar.

Eu sei que foi o Einar...

Mas Lili...

�s tu e eu.

Lili.

�s mesmo tu?

Parece-me que sim.

Ent�o o que est�s a sugerir...

Um m�dico interveio...

Para corrigir um erro da natureza.

Ele fez-te mulher.

Deus fez-me mulher.

Mas o m�dico...

Ele curou-me da doen�a que era o meu disfarce.

Uma mulher de verdade.

Vamos precisar de um novo caderno, se continuas assim.

O prof. sugeriu que eu tivesse um di�rio.

Eu achava que n�o tinha nada para escrever.

Ajuda mesmo.

Faz as coisas terem sentido.

Talvez eu devesse tentar.

Ent�o, gostas de trabalhar na loja?

Por agora, sim.

Gosto de fazer parte dela.

Nunca pensas em pintar?

Podias ser boa nisso.

Quero ser uma mulher e n�o uma pintora.

H� pessoas que conseguem ser as duas coisas.

Estou curiosa para ver o que pintarias.

�s vezes � dif�cil saber o que se passa na tua cabe�a.

N�o tomaste um desses agora mesmo?

Gerda, sei o que estou a fazer.

Vou apanhar ar.

�s vezes pergunto-me porque me deixaste

ir avante com isto se pensavas que depois tudo seria igual.

N�o deixei.

Eu prometi ao Einar que tomaria conta dele...

C�us, Gerda. O Einar est� morto. Temos que aceitar isso.

Cuidaste de mim. Mas agora eu tenho que cuidar de mim mesmo e ter uma vida minha.

E tu tens que fazer o mesmo.

Sim.

Em Londres.

� urgente?

N�o.

Diga-lhe...

que est� um dia lindo em Copenhaga.

N�o � o que pensas. O Henrik � homossexual. N�o h� nada entre n�s.

Devia ter-te contado que o tenho visto.

N�o, n�o devias.

� um amigo, Gerta. Algu�m para falar.

Porque n�o podes falar comigo.

Tomei uma decis�o. Vou voltar para Dresden para a segunda opera��o.

Isso � muito cedo.

N�o... est� na hora.

Tenho que terminar o que comecei.

N�o est�s forte o suficiente.

O professor Warnekros acha que estou.

O Warnekros? N�o te tem visto.

J� tomei a minha decis�o, Gerda.

Isso pode-te matar.

Vou na sexta-feira. Vais comigo?

N�o te vou ajudar a te magoares.

Gerda, vens?

Esta ser� mais dif�cil do que a primeira opera��o.

Entende isso?

Sim, eu entendo.

� uma cirurgia complexa.

E eu vou dormir durante todo o procedimento.

Pois vai.

E o prof. vai estar l�, quando eu acordar.

Com certeza.

Eu gostaria de um marido assim como o professor.

Talvez uma crian�a, um dia.

Como uma mulher a s�rio.

Um passo de cada vez.

Descanse um pouco. J� volto.

Ainda est�s zangada comigo?

N�o estou zangada contigo.

Estou preocupada contigo.

Ouviste o meu desejo, Gerda.

Quando mais ningu�m me ouviu,

tu ouviste.

V�. Ambas precisamos de descansar.

Vou dormir na cadeira.

N�o, devias ir para um hotel.

N�o me importo.

Fica com isto, est� frio aqui.

N�o. Fica tu com ele.

Por enquanto.

Vou ficar bem.

Sim.

- Dorme bem. - Boa noite.

Boa noite.

Quarto n� 9, por favor.

N� 9, claro.

Obrigada.

Hans.

Est� tudo bem. Vai ficar tudo bem.

Chegou a hora, Menina Elbe.

Boa sorte a todos.

O prof. Warnekros gostaria de falar consigo.

Ela perdeu muito sangue. Estamos a tentar baixar a febre.

Existe uma hip�tese que baixe sozinha...

Mas..

Tenho que ser honesto.

O progn�stico n�o � muito...

Lili?

Como est�s, Lili?

Estou...

completa.

Preocupaste-nos a todos. Sabias?

Podemos ir l� fora, Gerda?

Para o jardim?

Tens que descansar.

Por favor...

J� n�o tens que te preocupar comigo, Gerda.

� um h�bito antigo.

Sou lenta a mudar.

Como pude eu merecer tanto amor?

J� n�o h� mais nada a temer.

N�o.

Ontem � noite...

Tive o sonho mais lindo.

Sonhei que eu era um beb�, nos bra�os da minha m�e.

Ela olhou para mim...

E chamou-me Lili.

Lili.

Lili?

Lili?

N�o. Deixa.

Deixa voar.

Os di�rios de Lili Elbe foram a base do livro "Man into Woman" publicado em 1933.

A sua bravura e esp�rito pioneiro s�o inspira��o para o movimento transexual.

A Gerda continuou a pintar retratos da Lili pelo resto da sua vida.

TRADU��O E LEGENDAGEM: AlexSw Sincroniza��o: Ramiro

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