All language subtitles for Ken Burns Jazz - Ep10 - A Masterpiece By Midnight

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Original subtitles

O bebop era uma m�sica brilhante, por�m exigente

complicada, r�pida e furiosa.

Melodias familiares e sons conjuntos n�o faziam parte dela.

Tudo dependia da inspira��o

da habilidade e da sofistica��o musical do solista...

Alguns ouvintes ficavam sinceramente espantados

M�sicos mais jovens continuavam venerando

Charlie Parker e Dizzy Gillespie

mas alguns tamb�m come�aram a buscar formas...

de manter firmes as inova��es do bebop

enquanto restauravam o equil�brio entre os solistas e o grupo.

"O p�blico pode ser fortalecido", dizia o pianista,

arranjador e compositor John Lewis,

"se fortalecermos a nossa obra com estrutura."

EPIS�DIO DEZ

EPIS�DIO DEZ IRRESIST�VEL

no outono de 1949, um fluxo constante de m�sicos

formava fila em frente a um pr�dio pr�ximo a uma lavanderia chinesa

na Rua 55 Oeste, na cidade de Nova York

no seu por�o ficava o apartamento de um quarto de Gil Evans

um brilhante arranjador free-lance.

A porta dele ficava aberta vinte e quatro horas por dia

e entre os homens que passavam por l� para uma jam session

estavam alguns dos mais talentosos jazzistas

como Gerry Mulligan

Lee Konitz

e John Lewis.

O maior parceiro de Evans era o jovem trompetista Miles Davis

um inovador impaciente e incans�vel

que, nos vinte e cinco anos seguintes

for�aria continuamente as fronteiras do jazz.

Ele nasceu no leste de St. Louis, em Illinois, em 1926

filho de um conhecido dentista e fazendeiro.

O Dr. Davis criou o filho no tipo de isolamento confort�vel

que pouqu�ssimos jazzistas conheceram:

Uma bela casa em um bairro de brancos

uma cozinheira uma empregada e uma fazenda de cento e vinte hectares

com cavalos para montar.

Na inf�ncia, Davis era pequeno e t�mido.

E t�o bonito que os colegas o chamavam de "lindinho"...

s� para que ficasse com vergonha.

Para ser aceito, ele adotou uma aspereza exacerbada

que jamais abandonaria.

Ele come�ou a tocar trompete aos treze anos de idade.

Aos 18, j� era bom o bastante para tocar com

Charlie Parker e Dizzy Gillespie

quando os dois passaram por St. Louis.

Quando ouviu Charlie Parker pela primeira vez, Miles Davis disse:

"Eu decidi na mesma hora que deveria deixar St. Louis

para ir morar em Nova York".

E, em pouco tempo, se viu tocando regularmente com seu �dolo.

Miles tinha 19 anos quando come�ou

a trabalhar com Charlie Parker

e tinha o emprego que todo trompetista almejava:

Tocar na banda de Parker.

E ele era diferente.

A maioria dos m�sicos s�rios

reconheceu de imediato que ele tinha

um lirismo maravilhoso, incomum e tocava como ningu�m.

Por�m, ele teve de criar um estilo,

porque n�o tinha o virtuosismo de Dizzy Gillespie

Ent�o, come�ou a criar um estilo

mais baseado em timbre e melodia.

Tocar pouqu�ssimas notas, mas as notas certas.

Criou uma no��o de clima.

Davis tinha apenas vinte e tr�s anos em 1949

quando come�ou a frequentar o apartamento de Gill Evans.

Ele queria encontrar uma nova vitrine para o estilo distinto e introspectivo

que estava desenvolvendo.

Bem, Miles tinha de encontrar um som

um estilo que contivessem a delicadeza de sua natureza

Ele mantinha a aspereza cortante l� dentro.

Sua m�sica n�o era chorosa nem fraca

Por�m, tinha uma nova delicadeza.

Um sentimento que faz o romance aflorar

e o transmite �s pessoas.

� um som bastante delicado para ser de um homem

Lester Young, antes dele, era assim.

Miles tem uma vulnerabilidade

e n�o teme partilh�-la com quem o ouve.

Quando ele permitiu que ela permeasse seu som

a m�sica se tornou irresist�vel.

Davis e Evans formaram um grupo n�o-convencional de nove integrantes

que continha tuba e trompa.

Eles fizeram apenas duas apresenta��es

no entanto, uma grande gravadora a Capitol Records,

os convidou para entrar em est�dio e gravar v�rios dos seus arranjos.

A Capitol acabou lan�ando a m�sica deles em um LP chamado:

"Birth of the Cool".

"Bird e Diz eram �timos, mas n�o eram doces", recordou Davis.

"N�s mex�amos com o ouvido das pessoas de forma mais gentil,

deixamos a m�sica mais popular."

O "Birth of the Cool eram v�rios m�sicos reunidos.

Um estilo suave, por�m intenso.

S�o os melhores encontros que h�

Uma suavidade intensa.

Uma intensidade suave, por�m constante

Intensidade constante � igual a �xtase.

E o dif�cil � sustentar esta intensidade.

Era um tipo de som penetrante.

Era penetrante e suave ao mesmo tempo.

E o que me tocou foi a solid�o da condi��o humana.

Por alguma raz�o, eu achava que os negros

captavam muito bem em sua m�sica

essa solid�o da condi��o humana

n�o importa o quanto voc� anseie pela comunidade,

no final das contas, h� a solid�o, inescap�vel.

Para mim, este � o melhor jazz

quando se ouve um solista

principalmente em uma m�sica lenta ou uma balada

Para mim, o melhor jazz sempre foi assim.

Assim como Sidney Bechet e Charlie Parker,

Miles Davis tamb�m foi para Paris, em 1949

"A viagem mudou para sempre a forma como eu enxergava as coisas",

recordou Davis.

"Foi em Paris que eu compreendi que nem todos os brancos s�o iguais."

Ele conheceu Picasso, frequentou Caf�s com Jean-Paul Sartre

teve um romance breve e impetuoso com Juliette Greco.

"Eu jamais tinha me sentido assim na vida", ele comentou.

"Era a liberdade de ser tratado como um ser humano

como uma pessoa importante."

Mas tal sentimento n�o durou muito tempo.

Acho que os dem�nios de Miles come�aram em 1949

quando ele foi � Fran�a

e foi tratado com muita realeza.

Quando voltou, foi tratado como qualquer negro

um rapazinho de cor.

Ningu�m sabia ao certo quais eram os dem�nios dele.

Ele cresceu em um mundo cuidadosamente isolado

aprendendo que era uma criatura privilegiada.

Ao mesmo tempo, voc� aprende que � muito fr�gil.

E que isso pode ser tirado de voc� a qualquer instante.

Mas voc� � um pr�ncipe ou uma princesa neste mundo.

Acho que a combina��o de intitular e...

de intolerar...

os ataques de intoler�ncia e o preconceito de castas

libertaram algo muito venenoso.

E tamb�m uma necessidade de se construir

uma imagem dram�tica do que seria um negro de rua.

Sendo brilhante, e sendo Miles Davis

ele o fez de forma convincente, por�m mort�fera.

Algumas semanas depois de voltar da Europa

incapaz de se livrar da sensa��o de que seu lugar era em Paris

e n�o conseguindo encontrar trabalho,

Miles Davis tamb�m se voltou �s drogas.

Primeiro, cheirou hero�na.

Depois, passou a injet�-la nas veias.

Para sustentar seu v�cio, ou como ele dizia "para alimentar a besta",

ele roubou de amigos, penhorou sua trompa e chegou a se tornar cafet�o.

Davis foi preso por porte de drogas em Los Angeles

mas conseguiu se livrar da acusa��o

Foi quando seu pai desesperado para que ele largasse o v�cio

mandou prend�-lo, na esperan�a de que ele se internasse em um hospital

para ser tratado.

Davis se recusou, xingou seu pai e voltou para as drogas.

Da mesma forma que Charlie Parker,

ele estava ganhando a reputa��o de pessoa n�o confi�vel.

"As pessoas come�avam a me olhar de outra maneira,

como seu eu fosse sujo ou algo parecido", disse ele.

"Olhavam para mim com pena e horror.

E ningu�m me olhava desse jeito antes."

Aqui est�o eles. Este � Charlie Parker

Obrigado.

E o famoso Dizzy Gillespie

Em 1952, Charlie Parker e Dizzy Gillespie

que ainda adoravam tocar juntos, receberam pr�mios

da Revista Downbeat no novo meio de comunica��o, que era a televis�o.

O melhor saxofonista contralto de 1951.

Parab�ns.

Obrigado.

Diz, isto � para voc�, da Downbeat

por ser um dos maiores trompetistas.

Parab�ns, Diz, digo, Dizzy.

Estou sendo meio informal.

Voc�s t�m mais alguma coisa a dizer?

Earl, dizem que a m�sica fala mais alto que palavras

Preferimos dar nossa opini�o assim.

Acho que ningu�m vai se importar, se quiserem.

Durante a transmiss�o ao vivo, o semblante de Parker

permaneceu impassivo.

Seus olhos ferozes e o movimento dos dedos nas teclas

eram os �nicos sinais externos do esfor�o exigido

para obter uma m�sica t�o brilhante.

A influ�ncia do bebop parecia estar em toda parte

alterando o jazz de maneira que nem mesmo Parker e Gillespie

poderiam ter imaginado.

Bud Powell, um dos m�sicos mais influentes da era

levou todas as complexidades do bebop para o teclado do piano.

Certo pianista disse que Powell superava at� mesmo Bird e Dizzy.

O bebop, em princ�pio, parecia imposs�vel de cantar;

entretanto, Ella Fitzgerald, que come�ou sua carreira

gravando baladas populares, se envolveu por inteiro.

Ela disse: " Os m�sicos do bebop t�m mais a dizer do que qualquer outro

m�sico atual." E os m�sicos de bebop a adoravam tamb�m.

O pianista John Lewis tamb�m amava a m�sica de Charlie Parker

mas detestava a influ�ncia prejudicial de sua libertinagem

e do uso de drogas.

Em 1952, ele e outros antigos membros da big band de bebop

de Dizzy Gillespie formaram um grupo

...o Modern Jazz Quartet.

O quarteto ensaiava meticulosamente,

costumava vestir smoking no palco

se recusava a brincar com o p�blico,

preferia uma casa de shows silenciosa aos estridentes nightclubs.

"Muita gente pensa que os jazzistas s�o drogados"

disse o m�sico Milt Jackson.

"Mas n�s provamos que n�o � o caso."

Assim como o seu �dolo, Duke Ellington,

John Lewis insistia parar que sua m�sica fosse apresentada

sempre, com dignidade.

"Eu sou um negro americano", disse ele.

"Tenho orgulho disso e quero ressaltar esta posi��o."

Como descreveria o jazz?

Bem, h� todo tipo de defini��es.

Mas, basicamente, o som � este.

Louis Armstrong!

Para muitos m�sicos do bebop, a m�sica de Louis Armstrong

parecia irremediavelmente defasada.

Nossa, � isso mesmo, Louis.

Eu tenho um pedido.

Quero ouvir "Whippenpoof Song".

Quer ouvir uma das vers�es antigas de Birdland?

Quero.

O pr�prio Dizzy Gillespie chegou a dizer que ele era coisa do passado.

Mas o bebop tinha seus cr�ticos tamb�m, e Louis Armstrong

em uma famosa participa��o no Hollywood Bowl

zombou da boina t�pica de Gillespie e da nova m�sica

O bebop e a rea��o que ele causava abriram uma enorme divis�o no jazz

politizando a m�sica como nunca.

Tommy Dorsey denunciou Dizzy Gillespie e Charlie Parker

como "comunistas musicais".

Sidney Bechet disse que o bebop j� estava t�o morto

quanto Abraham Lincoln.

Roy Eldridge foi mais pr�tico e, talvez, mais honesto.

Ele disse: "Os m�sicos do bebop s�o bons

no entanto fecham mais casas do que abrem."

Meus amados s�ditos, trago-lhes not�cias terr�veis.

Terr�veis!

De agora em diante, a m�sica oficial

de Squarsedale � o bebop!

E com voc�s, Sherwood Trio!

Isso realmente me irrita.

Bem, falando-se em Monk

ele � o meu m�sico favorito.

Ele � o mais antigo e sagaz s�bio do mundo.

Mas parece que tem cinco anos.

Tem uma mente musical superior

em organiza��o e l�gica, � um matem�tico

Como todos os m�sicos de bebop,

qualquer jazzista, na minha opini�o

os solos de Monk s�o os mais l�gicos.

Obras-primas. Extremamente consistentes.

Um grande compositor que usava chap�us engra�ados.

Monk tinha muita perspic�cia.

Sua m�sica � engra�ada, mas extremamente sincopada.

Thelonious Monk, o professor de chap�u

que fazia coisas esquisitas ao piano.

Ele � capaz de tirar das teclas

coisas estranhas, depois olha para o que fez e diz: "Est� bom."

Ele aproveita tremendamente

sua capacidade, e n�o hesita em dividi-la com voc�.

Nenhum homem t�o misterioso jamais tocou jazz

como Thelonious Sphere Monk

E poucos criaram m�sica mais memor�vel

nascido na Carolina do Norte em 1917

ele foi criado no West Side de Nova York

infiltrou na m�sica gospel

como o acompanhante adolescente de um evangelista itinerante.

Em 1941, ele tinha se tornado o pianista principal

da Minton's Playhouse

na �poca em que o bebop estava nascendo.

Thelonious Monk � um dos pianistas de jazz

que chegaram e encontraram as brechas

no meio da escala diat�nica,

que � a base da m�sica ocidental.

Para mim, Thelonious Monk se aprofundou nisso

e conseguiu transmitir

os menores intervalos existentes.

Ele era um grande homem reticente

que tocava com dedos esticados em um estilo percussivo �nico.

Os dedos eram t�o esticados, nunca dobravam.

Estava acostumada com pianistas de belas m�os curvas

mas Thelonious fazia assim

e esperava um instante para tocar a nota.

Eu dizia: "Nossa! Ser� que vai conseguir?"

E nunca era uma continuidade musical fluindo

e sim um dedilhar. Ele imaginava:

"Vou tocar aquela."

E eu ficava sentada e dizia:

"No que vai dar? O que ser�..."

E sempre dava certo. Sempre acertava a nota.

No in�cio, os ouvintes ocasionais percebiam as excentricidades de Monk.

Ele tinha sua pr�pria maneira de se vestir.

Ele costumava passar dias sem falar com ningu�m.

Ele usava os cotovelos para tocar notas de vez em quando

e algumas vezes se levantava no meio da m�sica para dan�ar

em um �xtase aparente.

Cegos pelos seus modos esquisitos e desconcertados

pelos novos sons que fazia,

muitos cr�ticos n�o conseguiram ouvir os ecos

dos m�sicos que ele mais admirava:

O mestre do Harlem, James P. Johnson, e sua maior influ�ncia...

Duke Ellington

Os cr�ticos podem ser realmente obtusos.

Eles dizem que querem ouvir novidades,

mas elas os incomodam por n�o as poderem categorizar.

E Monk era muito criticado na...

"Downbeat"e em outros jornais de jazz.

Prejudicava o trabalho dele.

Ele e Ellington s�o os maiores compositores

individuais que o jazz j� teve.

Se Thelonious Monk tivesse uma personalidade diferente

a capacidade de organizar e conseguisse

manter a organiza��o da mesma forma que

Duke Ellington conseguia,

teria sido bem mais famoso e sua m�sica, bem mais conhecida.

Ele raramente tocava a m�sica de Qualquer outra pessoa

e explicava que estava determinado a criar uma demanda pr�pria.

Com o passar dos anos, muitas de suas melodias se tornaram padr�o como:

"52nd Street Theme"

"Straight No Chaser"

e "Round Midnight".

Um cl�ssico de Monk seria "Epistrophy."

Ent�o, ele chega � segunda parte, e faz...

� o Monk, profundamente arraigado no blues.

Sentimental. Ele gostava muito de...

Semitons.

Ele d� e, depois, tira.

Depois, leva voc� at� o extremo.

Deixa um espa�o.

D� a voc� de outra forma.

E volta ao tema original.

S�o os dois semitons.

O mesmo semitom.

� dif�cil descrever realmente,

porque Monk � l�gico, belo e muito puro.

Em 1951, a pol�cia de Nova York encontrou narc�ticos em um carro

estacionado no qual ele e o pianista Bud Powell estavam sentados.

As drogas pertenciam a Powell

e, quando Monk se recusou a testemunhar contra o pr�prio amigo,

foi-lhe negada permiss�o para tocar em casas de espet�culos.

Ele n�o poderia se apresentar em nenhuma casa de Nova York

em que servissem bebidas alco�licas.

Ele foi, de certa forma, banido,

tanto pela pol�cia, por n�o ter permiss�o

quanto pelos cr�ticos. Os m�sicos sabiam

como ele era bom, mas isso n�o adiantava.

Monk se recusou a pensar em sair de Nova York.

Tamb�m n�o queria um emprego durante o dia

Ele ficou em casa, em seu movimentado apartamento

durante seis longos anos, debru�ado sobre o teclado,

trabalhando na m�sica que era a sua obsess�o

Por fim, a Riverside Records lan�ou um disco dele

tocando composi��es pr�prias.

Desta vez, o cr�tico Nat Hentoff fez um coment�rio entusi�stico

na revista "Downbeat".

Quando, finalmente, Monk conseguiu uma nova permiss�o

para se apresentar, levou um quarteto a uma casa de East Village

chamada Five Spot.

Grandes p�blicos o seguiram, subitamente ansiosos

para ouvir o homem que os cr�ticos um dia desprezaram.

Os m�sicos formavam duas ou tr�s fileiras no bar.

Nunca fui a Chicago ver Louis Armstrong

tocar com o Hot Five, mas devia ser compar�vel a isto.

Era simplesmente hilariante.

Voc� nunca sabia o que ia acontecer,

mas sabia que, o que fosse jamais aconteceria de novo,

e voc� se lembraria o resto da vida.

Monk n�o tinha mudado nada.

Ele continuava entrando em longos per�odos de sil�ncio

continuava dan�ando no palco

continuava tocando melodias t�o intrincadas

que um saxofonista recordou certa vez

que, quando os m�sicos se perdiam, era como cair em um po�o

de elevador vazio.

N�o importava mais.

Depois de quinze anos de obscuridade,

Thelonious Monk era, enfim considerado um gigante do jazz.

Sem d�vida, minha m�sica favorita de Billie Holiday

� "Autumn in New York."

Quando a ou�o cant�-la, quase choro.

� a vers�o mais linda de "Autumn in New York."

Que j� ouvi na vida.

"Disse � minha esposa: quando eu morrer, quero que a toque."

A vers�o dela � simplesmente linda.

Da mesma forma que Thelonious Monk,

Billie Holiday perdeu a permiss�o para se apresentar

por causa de uma pris�o por narc�ticos.

A maior parte dos anos 50, ela ficou impedida de cantar

nas casas da cidade de Nova York.

Entretanto, ela podia cantar em outras cidades e em palcos de shows.

Seu p�blico aumentou

e, ano ap�s ano, mesmo na era do bebop

os cr�ticos a aclamaram como a maior vocalista de jazz.

Ela se esfor�ava e dava tudo de si.

Ela come�ava com a m�o, com aquele dedo.

Quando cantava uma balada, voc� acompanhava

quase como se n�o tivesse de gui�-la,

s� fazia algo ao fundo que achasse que ela iria gostar.

Se ela gostasse, se viraria e sorriria para voc�.

Ela se virava e sorria para mim, e aquilo me fazia sentir bem.

"Lady Day gostou."

A voz dela havia diminu�do,

mas n�o a ponto de impedi-la de cantar.

Ela tinha vivido de sua voz e a experimentado tanto,

que, �quela altura, suas limita��es acabaram

por torn�-la o maior tipo de virtuose.

Centenas de milhares de americanos se mudaram para a Calif�rnia

depois da guerra,

ansiosos por come�ar uma vida nova

em uma nova terra de oportunidades.

Eles tamb�m encontrariam uma nova varia��o do jazz.

N�o muito tempo depois de o saxofonista bar�tono Gerry Mulligan

tocar as sessions de "Birth of the Cool" com Miles Davis,

ele conseguiu tocar regularmente �s noites de segunda-feira no Haig

um pequeno nightclub na Wilshire Boulevard, Los Angeles.

Ele formou um quarteto com Chet Baker no trompete,

Chico Hamilton na bateria e Bob Whitlock no baixo.

A banda era t�o serena que parecia o Oceano Pac�fico.

As ondas, o ar varrendo a Costa Oeste,

e os jovens adoravam.

Tornou-se muito popular nos campi.

A revista "Time" fez uma mat�ria a respeito

e surgiu o movimento "Cool Jazz", "West Coast Jazz."

O mais conhecido grupo da Costa Oeste

era o quarteto liderado por Dave Brubeck.

Ele j� tinha liderado uma banda no ex�rcito durante a 2� Guerra Mundial

depois voltou para a escola, para estudar m�sica

com o compositor franc�s Darius Milhaud.

Darius Milhaud disse:

"Viaje pelo mundo e mantenha os ouvidos abertos.

Use tudo o que ouvir de outras culturas,

traduza para o idioma do jazz."

Quando fui � Turquia e ouvi os m�sicos

tocando este ritmo,

perguntei que ritmo era.

Um-dois, um-dois, um-dois, um-dois-tr�s.

Antes de eu terminar o compasso, eles fazem...

Tocam 9/8, improvisando, como um blues americano

E pensei: "Nossa! Um grupo improvisando em 9?

Por que n�o aprendo tamb�m?"

A carreira de Brubeck por muito pouco n�o terminou em 1951

quando ele feriu gravemente o pesco�o em um acidente de mergulho.

A partir daquele momento, ele teve de mudar o estilo do seu teclado

usando acordes em bloco, em vez de passagens de uma nota s�.

Tal estilo seria complementado com perfei��o pelo desempenho

do saxofonista contralto Paul Desmond

leve, l�rico e rom�ntico.

Como o pr�prio Desmond disse...

era como o som de um martini seco.

Paul fazia um som ador�vel no contralto.

Por exemplo, ele estava apaixonado por Audrey Hepburn,

n�o que nada tivesse acontecido.

Mas a m�sica dele era como quando ela aparecia na tela.

Havia leveza, por�m subst�ncia ao fundo.

Realmente muito l�rica.

Um homem tornava o outro melhor.

Eu queria fazer um �lbum chamado "Time Out."

Passar�amos por v�rias marcas de tempo

que n�o eram usadas no jazz, como...

Um-dois, um-dois, um-dois-tr�s,

um-dois, um-dois,. Um-dois, um-dois-tr�s

Pedi a Paul que fizesse algo em cinco.

No ensaio seguinte, Desmond

acrescentou diversas melodias originais.

Eu olhei para ele e disse:

"Paul, se pegar o primeiro tema", que era...

"e come�ar pela segunda parte, em vez de..."

"Vamos us�-la primeiro,

repeti-la e usar o primeiro tema como nova 2a. Parte."

E assim nasceu "Take Five."

Quando Brubeck lan�ou o �lbum "Time Out"

vendeu mais de um milh�o de c�pias, um feito jamais conquistado

por qualquer outro LP de jazz at� ent�o.

F�s negros e brancos seguiam o quarteto de Brubeck.

Foi considerado o grupo favorito dos leitores do "Pittsburgh Courier".

E Brubeck nunca esqueceu que, quando Willie the Lion Smith

ouviu um de seus discos sem que lhe dissessem quem estava tocando,

ele disse: "Ele toca como a origem do blues".

Ningu�m entendeu melhor que o pr�prio Dave Brubeck

o quanto devia a gera��es mais antigas de m�sicos negros.

Em novembro de 1954, ele estava em uma turn� com Duke Ellington

um homem a quem considerava o maior dos compositores americanos

al�m de amigo -

Quando a foto de Brubeck apareceu na capa da revista "Time".

Bateram � porta do meu quarto de hotel �s 7 da manh�.

Era Duke, e ele disse:

"Dave, est� na capa da "Time".

Eu fiquei arrasado, porque queria sair na capa

depois de Duke, e n�o antes,

pois estavam fazendo mat�rias sobre n�s dois.

A pior coisa que poderia me acontecer seria

sair na capa antes de Duke.

E ele me entregou a revista: "Tome."

O FUTURO N�O-VIVIDO

"Charlie Parker morreu lentamente, como um homem se desmembrando

com uma l�mina cega em um palco iluminado

Seu p�blico reagiu como se ele estivesse fazendo o mesmo que

saxofonistas que grasnam e rolam no ch�o.

No final, ele n�o tinha mais privacidade.

Seus momentos mais tr�gicos foram privados de signific�ncia humana."

Ralph Ellison.

Se voc� vai morrer aos 34 anos

certamente n�o sabe que vai morrer nessa idade

pode achar que chegar� aos 70 anos como diz a B�blia.

Ent�o, o final da carreira de Bird

n�o � s� o fim de um curto trajeto

� uma an�lise do futuro n�o vivido.

Ele fica determinado a criar uma nova revela��o

na m�sica com a magnitude de seu sucesso com o bebop.

Ele est� nessa busca, e vai bem.

De repente, puxam o tapete sob seus p�s.

Em mar�o de 1954, Charlie Parker estava tocando

no Oasis Club em Hollywood.

Estava temporariamente sem usar drogas; no entanto, estava inchado

cronicamente confuso.

A sa�de estava prejudicada devido �s enormes quantidades de bebida

alco�lica que ele andava consumindo.

Ent�o, ele recebeu um telegrama de Chan, de Nova York.

Pree, a filha deles de dois anos de idade, tinha morrido de pneumonia.

Desde que Pree nasceu, estava sempre doente.

Nenhum m�dico descobria por qu�.

Eu fui a um cardiologista infantil

e ele descobriu que ela tinha uma falha no cora��o

Isso foi antes de operar o cora��o.

Na noite em que recebeu a not�cia, Parker enviou quatro telegramas

de Los Angeles para Chan,

um mais incoerente que o outro.

"Minha querida,

a morte de minha filha me surpreendeu mais que a voc�.

N�o encerre os procedimentos para o enterro at� eu chegar.

Serei o primeiro a entrar em nossa capela.

Perdoe-me por n�o estar ao seu lado no hospital.

Com amor, seu marido, Charlie Parker."

"Minha querida, pelo amor de Deus,

mantenha-se calma. Charlie Parker."

"Chan, socorro. Charlie Parker."

"Minha filha est� morta. Eu sei.

Estarei a� o mais r�pido poss�vel.

Meu nome � Bird.

� muito bom estar aqui.

As pessoas t�m sido muito boas comigo.

Eu irei imediatamente.

Fique calma.

Deixe que eu seja o primeiro a chegar perto de voc�.

Sou seu marido.

Com amor, Charlie Parker."

Foi terr�vel receber aqueles telegramas.

Eu estava em estado de choque.

Estavam me dando tranquilizantes.

Eu n�o largava o roup�o que ela usou para ir para o hospital

e, a cada hora, chegava um novo telegrama!

Foi horr�vel para mim. Horr�vel.

Sei que Bird n�o se deu conta.

Estava passando pelo pr�prio inferno.

Ele conseguiu passar pelo enterro, mas j� n�o conseguia mais se conter.

Um compromisso com uma se��o de. Cordas em Birdland

terminou em desastre, quando ele bebeu demais

e tentou despedir a banda

Em vez disso, o gerente o despediu.

Ele foi para casa e brigou com Chan. Tentou se matar engolindo iodo.

M�dicos de uma ambul�ncia o salvaram.

O problema com a bebida ficou pior.

Ele come�ou a andar de metr� a noite inteira.

Ele parecia assustado. Em estado de p�nico, como ele dizia.

Suspeitava at� de seus admiradores.

Ele comentou com um amigo: "Eles s� vieram para ver

o viciado mais famoso do mundo."

Certa noite, ele foi at� um bar em Nova York,

onde seu velho amigo Dizzy Gillespie estava vendo uma banda.

Parker estava amarrotado, gordo e desorientado.

Ele ficou repetindo: "Por que n�o me salva, Diz?

Por que n�o me salva?"

"Eu n�o sabia o que fazer", recordou- se Dizzy Gillespie.

"Eu n�o sabia o que dizer."

Parker cambaleou de volta para a rua.

Tenho certeza de que v�rias vezes

ele tentou se recompor, mas a bebida n�o ajudava.

Eu tinha alugado um saxofone e o usado.

Uma noite, eu estava entrando em um t�xi

tinha bebido muito e Bird estava me ajudando

a entrar com outras pessoas.

Ele disse: "Me deixe segurar isto."

Pegou o saxofone. Claro que, 2 ou 3 dias depois,

quando o vi, n�o o tinha mais.

Estava em uma loja de penhora.

Fiquei um pouco bravo com ele.

Eu ia tocar no Open Door naquele domingo,

e ele apareceu para me ver tocar.

Eu me recordo daquela noite.

Ele se ofereceu para me deixar em casa depois

e eu disse: "N�o precisa. Eu pego um t�xi."

Porque eu ainda estava bravo com ele.

No dia 9 de mar�o de 1955, Parker deveria pegar o trem para Boston

para uma apresenta��o.

No caminho, ele parou no Hotel Stanhope, na Quinta Avenida.

Era a casa de sua amiga, a Baronesa Pannonica de Koenigswarter

membro da fam�lia Rothschild e uma generosa incentivadora do jazz.

Parker estava claramente doente, e ela chamou um m�dico.

Ela chamou um m�dico, e ele disse:

"Este homem precisa ser internado."

Bird se recusou a ir para o hospital.

Acho que ele se entregou.

O cora��o dele se entregou.

Acho que a vida foi pesada demais para ele.

Parker concordou em ficar com a Baronesa at� se sentir melhor.

Tr�s dias depois, no s�bado,

Charlie Parker apareceu no programa de variedades Dorsey Brothers.

Ele sempre gostou do saxofone de Jimmy Dorsey.

O primeiro a se apresentar foi um malabarista.

Parker riu, ficou sufocado...

e tombou.

Quando o m�dico chegou l�, ele j� estava morto.

A causa oficial da morte foi pneumonia,

complicada pela cirrose hep�tica.

Mas ele tinha simplesmente se extinguido.

O legista estimou sua idade entre cinquenta e cinco e sessenta anos.

Na verdade, ele tinha apenas trinta e quatro.

Eu comprei um "New York Post,"

sentei no �nibus e rodei v�rios quarteir�es

antes de abri-lo.

Quando abri o jornal e olhei,

vi a mat�ria que dizia que Bird estava morto

que tinha falecido na casa da Baronesa.

Foi terr�vel, sabe? Foi, sim. Foi terr�vel.

Eu me senti especialmente mal, porque

o tinha visto duas ou tr�s noites antes

no Open Door,

e estava bravo por causa do saxofone.

Perdi a chance de ter mais um momento com ele.

Todos ficaram arrasados quando Bird morreu.

Eu n�o fui ao enterro.

Simplesmente, n�o consegui.

N�o conseguia participar daquilo.

Quando Parker foi enterrado em sua cidade natal, Kansas City

a m�e dele ordenou que n�o se tocasse jazz durante o servi�o f�nebre

�quela altura, os mais �vidos Seguidores dele j� tinham coberto

muros de Greenwich Village com a frase

"Bird vive".

Acho que o verdadeiro legado de Charlie Parker

� a humanidade incorrupta de sua m�sica,

por isso ela continua viva.

Pode analis�-la o quanto quiser

mas s�o a beleza, a perfei��o, a recusa em fazer concess�es

que nos comovem,

e v�o continuar comovendo.

Sugar Ray Robinson, campe�o de boxe na categoria de peso m�dio

era o her�i de Miles Davis

Davis admirava a eleg�ncia com que ele despachava os advers�rios,

admirava as roupas de Robinson, sua bela apar�ncia,

e as mulheres, que sempre pareciam se jogar em seus bra�os.

"Quando ele entrava no ringue". Recorda-se Davis,

"jamais sorria

era puramente neg�cios."

Inspirado na seriedade de Robinson por seu of�cio,

e cansado da vida que o seu v�cio o obrigava a levar

Davis resolveu deixar as drogas em 1954.

Como todos, decidiu faz�-lo sozinho.

Ele tinha acabado de sair de um compromisso com Max Roach

em Hollywood, pegou um �nibus e cruzou metade do continente

at� a fazenda de seu pai no Leste de St. Louis.

Seu pai disse que a �nica coisa que poderia fazer por ele

era oferecer seu amor.

Ele disse: "O resto voc� deve conseguir sozinho."

Davis conseguiu.

Ele se mudou para um apartamento de dois quartos no segundo andar

da casa de h�spedes do pai e trancou a porta

Durante sete dias, quando o desejo pelas drogas urgia,

ele n�o comeu nem bebeu, tremendo de frio

e lutando para n�o berrar com a dor que torturava suas juntas.

"Ent�o", lembrou-se ele, "um dia, tudo acabou.

Sem mais nem menos.

Eu sa� para sentir o ar limpo e doce da casa de meu pai.

Quando ele me viu, tinha um enorme sorriso no rosto.

N�s nos abra�amos e choramos."

"Tudo em que eu pensava" recordou-se Miles Davis,

"era tocar m�sica e recuperar todo o tempo

que eu tinha perdido".

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