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Zulu
Durante a luta mundial contra o mal na Europa,
o swing passou a ser visto em toda a parte como s�mbolo de liberdade.
Mas, nos Estados Unidos, nos bastidores e em casas noturnas,
como o Minton's Playhouse, no Harlem, jovens m�sicos
de swing buscavam outro tipo de liberdade: novos ritmos,
harmonias originais, mais espa�o para solar.
Os l�deres eram Charlie Parker e Dizzy Gillespie.
Queriam ter seu trabalho reconhecido como arte,
n�o como puro entretenimento.
Mas, enquanto a guerra era travada, ficou proibida qualquer grava��o,
e suas inova��es continuaram escondidas da maioria dos americanos.
OITAVO EPIS�DIO
DEDICADO AO CAOS
"O jazz expressa a esperan�a de um povo livre
que anseia por uma vida melhor.
Baseia-se na individualidade, que � diametralmente oposta
aos fundamentos do Nazismo." Earl Hines.
Ao final de 1941, os alem�es haviam assolado quase toda a Europa:
Checoslov�quia, Pol�nia, B�lgica, Holanda, Dinamarca, Noruega e Fran�a.
Bombardeios devastadores amea�avam tamb�m a Gr�-Bretanha.
Mas, apesar da domina��o da Europa, os nazistas falharam
em destruir o jazz - um estilo musical que o ministro da Propaganda
Joseph Goebbels chamara um dia de "a arte dos subumanos".
O jazz florescia em por�es, um brilhante s�mbolo de resist�ncia.
Na pr�pria Alemanha, jovens f�s, chamados "swing-kids",
desafiavam a Gestapo, encontrando-se �s escondidas, ouvindo discos,
sintonizando a r�dio aliada e dan�ando.
Em 1942, os nazistas mudaram de t�tica.
Goebbels ordenou que o Minist�rio da Propaganda organizasse
sua pr�pria orquestra de swing para o r�dio.
Transmitiam programas com m�sicas americanas conhecidas,
mas com odiosas letras anti-semitas, para os aliados.
Mais uma guerra mais um lucro
mais um truque de neg�cio dos judeus
mais uma temporada mais um motivo
para se divertir
jogamos fora nossos nomes alem�es
somos os judeus americanos
voc�s s�o g�is
n�s somos os tais
nos divertimos
Para desviar a aten��o do mundo de seus crimes de guerra,
os nazistas fizeram um filme que pretendia mostrar
como eram gentis com os judeus.
O abomin�vel campo de concentra��o Terezin,
nos arredores de Praga, foi disfar�ado em vila modelo.
Seus ocupantes receberam roupas novas.
Ent�o, foram filmados assistindo � apresenta��o de m�sicos prisioneiros,
incluindo uma orquestra de jazz chamada "The Ghetto Swingers".
Quando a filmagem acabou, a recompensa dos m�sicos foi
a viagem para o campo de exterm�nio de Auschwitz,
junto com centenas de milhares de outros inocentes.
MATEM JIM CROW
H� avi�es voando sobre a terra e o mar
todos voam, menos, como eu, os negros do lugar
O tio Sam diz
seu lugar � na terra
quando voar com meu avi�o
n�o quero negros em minha guerra
"Apesar de n�o conhecer um negro que queira ver as Na��es Unidas
perderem esta guerra, conhe�o muitos que, antes do fim da guerra,
querem ver a supremacia branca tomar uma surra.
Os negros americanos est�o diante n�o s� de uma escolha,
mas de um desafio duplo: Conseguir democracia para n�s
nos EUA e ajudar a democracia a vencer a guerra
para o bem todo o mundo." A. Phillip Randolph.
Em 1941, A. Phillip Randolph, presidente da Irmandade dos
Carregadores de Carros-Leitos, amea�ou liderar uma marcha
em massa em Washington se Franklin Roosevelt n�o liberasse empregos
na ind�stria b�lica, que estivera at� ent�o fechada aos negros.
Roosevelt concordou, mas nem Randolph conseguiu convencer
o presidente a integrar brancos e negros nas for�as armadas.
Um milh�o de afro-americanos serviriam, quase meio milh�o na Europa,
em regime de completa segrega��o racial.
Os afro-americanos ficaram cada vez mais irritados com a hipocrisia
de lutar contra o �dio racial no exterior,
enquanto o mesmo era tolerado em casa.
Ningu�m se sentiu mais alienado do que os jovens m�sicos de jazz,
como Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Eles pareciam ser o alvo favorito
de policiais e soldados brancos, que n�o gostavam do fato
de eles se vestirem bem, falar uma linguagem cheia de estilo
e se portarem bem.
Os m�sicos negros come�aram a chamar um ao outro de "man" - "homem"
em parte porque sempre eram chamados de "boy" - "garoto" - pelos brancos.
Recebi minha longa carta do governo
chegou a minha hora
quando chego no ex�rcito viro Jim Crow sem demora
tio Sam diz
um acampamento para negros outro para brancos
mas, quando a guerra esquenta, lutamos no mesmo campo
se quer saber, acho a democracia ideal
s� que uma democracia sem divis�o racial
tio Sam diz
vamos viver o estilo americano
vamos nos juntar e matar o Jim Crow africano
A RUA
"no final dos anos 20 e in�cio dos 30,
escritores, poetas, colunistas de jornal e editores se juntaram
para descrever o Harlem como o para�so dos negros.
� hora de o Harlem parar de se enganar.
O Harlem nunca esteve � altura da pr�pria reputa��o.
O Harlem est�, h� anos, em p�ssimo estado.
Recusa-se a encarar a realidade. Mas parece que o engodo
n�o pode continuar." Amsterdam News.
Em 21 de abril de 1943, as portas de um dos sal�es de baile
mais populares do Harlem, o Savoy, foram trancadas por ordem judicial.
As autoridades afirmaram que militares haviam contra�do doen�as ven�reas
transmitidas por mulheres que haviam conhecido l�.
O verdadeiro motivo, segundo irados moradores do Harlem,
era que brancos e negros n�o s� tinham dan�ado juntos no Savoy,
mas ido para casa juntos depois.
"Hitler conseguiu uma vit�ria contra os negros em Nova York",
afirmou o reverendo Adam Clayton Powell Junior diante de sua congrega��o.
Segundo ele, fechar o Savoy foi o primeiro passo no caminho
da segrega��o da cidade.
Houve manifesta��es raciais por causa de emprego e moradia em todo o norte
dos Estados Unidos naquele ver�o. Em agosto, enquanto os bombardeiros
aliados castigaram as cidades alem�s,
a viol�ncia tamb�m se abateu sobre o Harlem.
Seis pessoas morreram, 700 ficaram feridas
e quase 1.500 lojas, na maioria de brancos,
foram atacadas ou destru�das.
O velho sonho de um renascimento do Harlem foi adiado mais uma vez.
O Harlem estava ganhando entre os brancos
a reputa��o de ser um lugar perigoso,
tanto que f�s de jazz hesitavam em visit�-lo de novo.
Nessa �poca, o cora��o do jazz j� havia se mudado para um quarteir�o
em West Side, na Rua 52, entre a Quinta e a Sexta Avenida.
Os m�sicos chamavam o lugar simplesmente de "The Street" - "A Rua".
A primeira coisa que as pessoas querem ver em NY
� a Est�tua da Liberdade, que todos viam mesmo
ao entrar de navio, como era o caso na �poca.
Tamb�m querem ver o Empire State.
Mas eu queria ver a Rua 52, da qual ouvira falar muito.
Havia sete boates em por�es no quarteir�o:
Jimmy Ryan's, The Onyx, The Famous Door, The Troc,
The Downbeat, The Spotlight e The Three Deuces.
Todo mundo tocava l�, e o visitante podia ouvir todo tipo
de m�sica saindo para a rua ao mesmo tempo:
Jazz tradicional de Nova Orleans, swing e at� o som experimental que Parker,
Gillespie e seus amigos haviam come�ado a fazer.
Eu era apenas um garoto.
Meu irm�o era uns 3 ou 4 anos mais velho.
Desc�amos pela rodovia West Side,
que tinha sido constru�da na �poca,
e cheg�vamos � Rua 52. Antes de ir para o hotel,
dirig�amos direto pela cidade at� a Rua 52.
Era a coisa mais linda, eletrizante.
Havia Red Allen e Higginbotham, no Kelly's Stables.
Art Tatum tocava no Three Deuces
e Count Basie, no Famous Door.
Era como estar num para�so repleto de doces.
O doce era o jazz que voc� podia ouvir sempre.
Naquela noite, pegamos 10 ou 15 d�lares
que meu pai nos deu para sair e fomos a 5 boates.
Era a melhor sensa��o que algu�m poderia ter.
Nunca vou me esquecer. Quando sentei numa boate,
ainda mais �s 3h da manh�, parecia que estava sonhando,
mas eu n�o estava dormindo.
Era como se os m�sicos tocassem para mim.
A Rua era um dos locais favoritos para soldados de licen�a.
Mas a mistura explosiva de bebida e conflito racial causava
problemas constantes. Soldados e marinheiros do Sul
ficavam indignados de ver tantos m�sicos negros bem-vestidos.
Dizzy Gillespie foi atacado uma vez simplesmente por andar
com uma mulher negra de pele clara.
No tumulto que se seguiu, ele s� escapou com vida
porque se escondeu no metr�.
A rainha n�o-oficial da Rua 52 era Billie Holiday.
"Trabalhar na Rua era como voltar para casa
todas as noites.", lembrava Holiday, "Eu estava ficando famosa.
Por isso, meus velhos amigos sabiam onde me encontrar."
Eles a adoravam, amavam.
Logo que ela entrava...
Sil�ncio total.
O caos podia imperar na boate.
Ficava um sil�ncio absoluto.
Tinha uma presen�a incr�vel, logo que aparecia. O olhar...
Voc� sabia que tinha de se calar e ouvir.
E todos se calavam. Era fant�stica.
Mas sua fama n�o diminuiu em nada a dureza
por que era conhecida desde a inf�ncia.
Quando dois marinheiros brancos b�bados enfiaram os cigarros acesos
em seu casaco de pele uma noite, ela disse que os estava esperando
l� fora, e os deixou inconscientes com os punhos.
Em 1941, ela se casou com um ex-traficante de maconha
chamado Jimmy Monroe e come�ou a fumar �pio.
Depois, ela foi morar com um trompetista bonit�o
chamado Joe Guy. Ele era viciado em hero�na.
Logo, ela tamb�m estava usando.
"Passei o resto da guerra na Rua 52.", disse Holiday,
"Eu tinha trajes de gala brancos, sapatos brancos,
e todas as noites me traziam gard�nias brancas e hero�na."
Quando sua m�e, Sadie, morreu subitamente,
Holiday sentiu-se abandonada, morrendo de medo de ficar s�.
E sua m�sica come�ou a mudar.
O modo como ela cantava qualquer m�sica,
como "My Solitude" ou outra com o mesmo sentimento...
Ela realmente sentia solid�o, fazia parte da vida dela.
E ela tinha conhecido p�ssimos homens
que n�o a trataram muito bem.
Todo o sofrimento,
como o de ter sido estuprada bem jovem,
estava dentro de Lady Day e sa�a dela
quando cantava.
Ainda ou�o os discos dela.
Quando voc� a via,
era totalmente diferente de qualquer outra pessoa
que voc� visse no palco, cantando.
O modo como vendia a m�sica, como cantava...
Qualquer um podia cantar a can��o,
mas, quando Lady Day a cantava,
ficava inteiramente diferente.
Ela conseguia fazer com que se sentisse bem.
Tamb�m conseguia fazer voc� ficar com vontade de chorar.
Podia trazer de volta momentos fant�sticos de sua vida,
mas tamb�m os momentos mais tristes.
Billie Holiday era assim.
PRECISAMOS SER LIVRES
Depois de ter assimilado o dia, voc� p�ra para descansar,
se aquieta e se prepara para dormir.
Voc� desliga a luz e p�e a cabe�a no travesseiro.
Fica na posi��o em que gosta de dormir.
A�, a id�ia por que procurou o dia todo aparece.
Voc� se levanta, pega papel, l�pis e vai escrever.
Geralmente, antes de dormir, vem outra parte.
Durante toda a guerra, Duke Ellington manteve sua incr�vel orquestra unida,
e a manteve em turn�, tocando seu estilo �nico de swing.
O pr�prio Ellington compunha incessantemente,
em trens e �nibus, em carros a toda pelas estradas, em guardanapos
de restaurantes e boates e at� no banho - aprontando
uma obra-prima atr�s da outra, m�sicas que figuram
entre as melhores da hist�ria americana.
Ele afirmava ter escrito "Solitude" em vinte minutos, encostado
em uma parede, esperando para entrar em um est�dio de grava��o;
"Black and Tan Fantasy", em um t�xi, cruzando o Central Park;
e "Mood Indigo", em 15 minutos, enquanto esperava que a m�e
acabasse de preparar o jantar.
Durante os 50 anos em que ficou na estrada, v�rios m�sicos
se apresentaram na orquestra de Ellington.
Mas nenhum deles teve permiss�o de se aproximar demais.
"Ele era um quebra-cabe�a enorme.", disse um amigo,
"Era raro algu�m pegar mais do que algumas pe�as de cada vez."
Ningu�m conhece bem Duke Ellington.
Ele reserva um certo espa�o para si mesmo.
E ele mostra grande flexibilidade e compreens�o.
� �timo ouvinte. Est� sempre ouvindo.
� muito observador.
Voc� pode n�o notar, mas ele est� observando
o modo como voc� anda, como voc� diz as coisas,
o que est� vestindo, pequenos maneirismos.
Ele sabe conquistar as pessoas.
Ele brinca, e as mulheres o adoram
porque ele � �timo na paquera.
Ele acerta no elogio, os melhores s�o assim.
Quase sempre diz a coisa certa, pois � observador.
Ele olha para a mulher e sabe se � cantora,
que tipo de trabalho tem. Por isso, a pessoa diz:
"Como sabe isso, Duke?"
Ellington mirava seu incr�vel poder de compreens�o tamb�m na dire��o
de seus homens. Cada nota que compunha devia ser tocada
por um m�sico em especial. Ele escolhia seu "elenco" para os arranjos
como um diretor teatral faria em uma pe�a.
Ele havia reunido sua orquestra de forma meticulosa.
Ela era formada de indiv�duos bem distintos.
"Dezoito man�acos", como ele disse um dia.
Cada um tinha um ponto forte e um som �nico, que Ellington
explorava com intelig�ncia.
Cada solista � um contador de hist�rias.
Tem personalidade pr�pria. Isso era uma grande novidade.
Se ele dizia que o solo seria de Bubber Miley,
sab�amos que seria diferente de um solo de Johnny Hodges.
O solo de Cootie Williams era diferente do de Arthur Whetsol.
Por isso, ele n�o comp�s um concerto para trompete...
mas "Concerto for Cootie".
Entendia o que os m�sicos podiam fazer,
a personalidade deles, e fazia deles
protagonistas da pe�a, da obra musical.
Ao longo dos anos, houve b�bados e drogados
entre os homens de Ellington, e pelo menos um cleptoman�aco,
que roubava os pertences dos outros m�sicos quase todas as noites.
V�rias vezes chegavam atrasados, e �s vezes tinham de ser
tirados da cadeia.
Alguns se recusavam a falar com um ou outro,
e at� com Ellington, por anos a fio.
Nada disso importava muito para ele, desde que tocassem bem.
"Mesmo seus f�s mais ardorosos n�o entendiam como a orquestra
podia ter um som t�o bom diante de tanta falta de disciplina.
Perguntavam-se como aquela inventividade e toda aquela
bela m�sica podiam ser produzidas enquanto os m�sicos entravam
e sa�am do palco, bocejavam, se mostravam entediados,
aparentemente desdenhando do p�blico, da m�sica, de tudo � volta deles."
Rex Stewart.
Os negros americanos n�o se disp�em a seguir ningu�m.
N�o mesmo. Por isso, h� sempre um certo caos
no mundo negro americano. Depois do fim da escravid�o,
a gente n�o queria mais ser mandado. N�o!
Se algu�m disser: "Fa�a isso ou aquilo",
ele diz: "n�o vou fazer isso s� porque voc� quer."
Mesmo que a coisa seja certa, diz: "n�o me importa, n�o fa�o.
Por que n�o fa�o?
N�o fa�o pelo mesmo motivo que Dostoievski.
� para afirmar a minha exist�ncia.
N�o vou estragar tudo.
Era incr�vel o fato de Duke Ellington
convencer esses cabe�as-duras a cooperar.
Ele fomentava brigas. Chegava para um cara e dizia:
"Fulano disse que voc� n�o toca nada."
A�, chegava para o fulano e dizia o mesmo.
Depois, compunha uma m�sica em que os dois tocassem.
Eles ficavam t�o furiosos
que ensaiavam at� cansar
para se certificarem de que um tocaria melhor que o outro.
Ao tocar, os dois tinham um performance t�o boa
que a briga ficava resolvida. Duke tinha os dois caras
se falando de novo e uma grande performance.
Nenhum membro da orquestra de Ellington tocou melhor,
ou arrumou mais confus�o, do que seu primeiro astro
do sax tenor, Ben Webster.
"Se ele tomasse uns drinques," diz o baixista Milt Hinton,
"virava um bicho." Seu apelido era "The Brute" - "o Bruto".
Eu o acompanhei � casa da m�e dele, em Kansas City.
A m�e era professora. Quando estava l�, era um lorde.
Mas bastava a gente virar a esquina,
tomar uma cerveja, e ele nocauteava 4 em um segundo.
Apesar de suas bebedeiras lend�rias e de seu temperamento agressivo,
Webster era famoso pelo tom viril e exuberante que exibia nos solos.
Uma de suas performances mais famosas era em uma m�sica r�pida
que seu patr�o havia escrito especialmente para ele, "Cottontail".
Ben Webster.
"Cottontail" � um dos melhores n�meros de jam session.
� uma m�sica cheia de swing.
Tipifica o estado de gra�a em que Ellington estava
no in�cio dos anos 40,
quando s� compunha e gravava obras-primas.
Quando as pessoas ouviram aquilo pela primeira vez,
viram que era a s�ntese da m�sica eletrizante,
energ�tica, quase libertadora que eles tocavam.
E, por isso, inspirou os dan�arinos.
Ellington estava sempre tentando sair do padr�o.
Um dos padr�es a que todos eram submetidos
era a grava��o de tr�s minutos.
Pelo fato de a m�sica das grandes orquestras
estar associada com a dan�a, n�meros pop e musicais,
as pessoas come�aram a se ver
limitadas a essas categorias.
Ele levou a m�sica al�m do padr�o dos 3 minutos.
Come�ou a explorar �reas da m�sica
que ningu�m havia tido a coragem de cultivar.
Na noite de 23 de janeiro de 1943, enquanto soldados russos lutavam
para libertar Stalingrado do dom�nio nazista,
Duke Ellington apresentou um ambicioso n�mero de 44 minutos
no Carnegie Hall. O dinheiro arrecadado na noite
iria para as v�timas russas da guerra.
Ellington ajudara a criar o swing, que ainda dominava o pa�s,
mas agora ele tentava lev�-lo al�m,
criando uma composi��o longa, em tr�s movimentos.
Ele chamou a obra de "Black, Brown and Beige"
"negro, marrom e bege", um paralelo em cores
da hist�ria do negro nos Estados Unidos.
"Black, Brown & Beige", de 1943, foi o auge desse movimento
em que se compunham obras sobre negros americanos.
Duke queria captar o sentimento dos escravos
no momento em que trabalhavam na planta��o.
A primeira parte da obra chama-se "The Work Song",
"a can��o do trabalho." Ele captou bem o sentimento.
Dava para ver e sentir tudo.
Junto com isso, havia um elemento de religiosidade.
Duke comp�s um 2o. Movimento chamado "Come Sunday",
quando domingo chegar -, a express�o de um povo,
no domingo, aliviado do trabalho e da dor.
Tinham a chance de rezar.
Descansavam sim, mas tamb�m pediam a ajuda de Deus.
"Come Sunday" era a express�o do desejo de liberdade.
A express�o chegava forte com o piston de Jaun Tizol,
o violino de Ray Nance e com Johnny Hodges
soltando a melodia que revela o fervor religioso do seu povo.
Depois, a m�sica mudava para um andamento animado,
era a emancipa��o, a alegria.
Eles se movimentavam.
Ele exprimia todos os movimentos dos negros.
Depois, a m�sica seguia para o norte, para as cidades:
Chicago, Filad�lfia, Washington, Nova York.
E mostrava todos os aspectos da vida urbana.
Ele realmente lutava pela liberdade.
As limita��es impostas aos negros ao longo de s�culos
eram realmente inaceit�veis.
Ele estava realmente gritando musicalmente:
"Precisamos ser livres!"
A plat�ia do Carnegie Hall naquela noite, que inclu�a
a primeira-dama americana Eleanor Roosevelt,
adorou "Black, Brown and Beige". O concerto rendeu milhares
de d�lares para o Aux�lio � Guerra na R�ssia.
Quando algu�m tocava com Duke Ellington,
sabia que estava com uma pessoa muito especial.
Era um compositor. Sua m�sica tinha tanta qualidade e riqueza,
que a pessoa se sentia privilegiada por toc�-la.
Era o que eu sentia.
Quando voc� entrava para aquela orquestra,
quando realmente abria aquela enorme biblioteca musical,
n�o conhecia apenas o compositor,
o l�der de orquestra, o pianista, o arranjador,
mas voc� conseguia ver o homem por tr�s da obra.
"Ellington sempre sente que encontrou um abrigo no trem.
Ele gosta de ouvir o apito, especialmente � noite,
quando o som se estica pela escurid�o, enquanto o trem acelera.
Franzindo as sobrancelhas, chap�u ca�do para tr�s, balan�ando com o movimento,
ele morde o l�pis de vez em quando e tenta compor com firmeza,
apesar do balan�o do trem. Ele cantarola, experimentando.
O Bach americano dos dias de hoje
vai trabalhar a noite toda." The New Yorker.
Ei, chefe! O que est� fazendo?
N�o � o que devemos tocar!
Pare!
� melhor eu me juntar a ele.
Louis Jordan adorava tocar jazz com a orquestra,
adorava cantar blues tamb�m.
Mas, depois que a era das grandes orquestras acabou e o bop tomou conta,
segundo ele: "Os m�sicos de jazz tocavam mais para si mesmos.
Eu queria tocar para as pessoas, n�o s� para o pessoal do jazz."
E ele fez isso, pegando os elementos mais simples e mais apraz�veis
do swing e criando um sucesso atr�s do outro.
Ele declarou: "Com a minha pequena orquestra, fiz tudo o que fizeram
com grandes orquestras. Fiz o blues pular."
Milh�es de f�s negros, que haviam seguido o jazz,
agora dan�avam ao som de outro ritmo.
Chamava-se rhythm and blues.
O jazz, para muitos, era um modo de...
Para muita gente, como Jean-Paul Sartre e Boris Vian,
para toda essa gente,
o jazz era um modo de lutar contra o conformismo,
contra o esp�rito de Vichy,
contra a atmosfera alem�.
Era um s�mbolo da resist�ncia.
N�o s� por ser m�sica americana,
mas por ter sido criada por negros
o que � importante quando se luta contra um governo racista.
Em 1943, as for�as aliadas liberaram a Sic�lia e o sul da It�lia
e os nazistas proibiram o uso da palavra "jazz"
no resto da Europa ocupada.
Como desafio, os m�sicos parisienses simplesmente trocaram o t�tulo
das m�sicas americanas e continuaram a dan�ar o swing.
"In the Mood" virou "Ambiance". "Holy Smoke" era "Joyeuse Fumee".
"Jumpin' at the Woodside" de Count Basie
se transformou em "Dansant dans la Clairi�re".
A Paris ocupada viu um crescimento do jazz como n�o via desde os anos 20.
Os rebeldes f�s franceses chamavam a si mesmos de "zazous",
inspirados pelo canto fren�tico de um de seus �dolos, Cab Calloway.
Pelo fato de n�o poderem ver artistas americanos em pessoa,
eles veneravam seus pr�prios her�is do jazz,
incluindo o mestre do viol�o, Django Reinhardt.
Reinhardt nascera em um acampamento cigano, na B�lgica.
E s� come�ou a ouvir jazz aos 20 anos de idade.
Em 1930, algu�m tocou para ele o disco
de Louis Armstrong "Dallas Blues". Ele chorou com a beleza da m�sica
e decidiu aprender a tocar aquela m�sica impressionante.
Ele aprendeu t�o r�pido que, logo, ele e o violinista Stephane Grappelly
tinham um grupo pr�prio, o quinteto do Hot Club de France.
Durante a guerra, Reinhardt se tornou a maior celebridade de Paris,
o melhor m�sico de jazz em uma cidade louca para ouvir
o estilo e sentir a liberdade que simbolizava.
A m�o esquerda dele havia sido seriamente ferida em um inc�ndio,
mas Reinhardt conseguia tocar com tanta for�a e imagina��o
que o grande violonista erudito Andres Segovia exigiu que ele lhe dissesse
onde ele podia encontrar aquela m�sica escrita.
Reinhardt respondeu rindo: "n�o pode encontr�-la, acabo de compor."
O jazz pode incorporar v�rios outros
estilos musicais.
Django usa suas ra�zes ciganas para incorporar
elementos da m�sica cigana no jazz, e cai bem.
A id�ia de combinar o som do viol�o e do violino
era muito nova na �poca.
� maravilhoso.
Acho que Django � um daqueles m�sicos...
Ele � um pouco como Charlie Parker,
d� a impress�o de que nunca tocou uma nota errada. Nunca.
ESSAS COISAS N�O PODEM ACONTECER
6 DE JUNHO DE 1944
Quando se tem um grupo de m�sicos tocando juntos...
na �poca das grandes orquestras de swing,
havia uma sensa��o de liberdade no ar.
Quando um sujeito tocava um solo,
era a express�o de sua vis�o de liberdade,
seja no trompete, no trombone, no saxofone, no piano.
Eram completamente livres,
n�o sofriam as limita��es da m�sica escrita.
Al�m disso, o improviso
e isso � meu aspecto favorito do jazz
� o que expressa os EUA, expressa a liberdade.
Por todo o mundo, o jazz � a m�sica da liberdade.
� mais importante do que o beisebol.
Dave Brubeck estava na faculdade, em Stockton, Calif�rnia,
quando os Estados Unidos entraram na guerra.
O pai dele sempre desejara que ele se interessasse pelo gado
e ajudasse a cuidar do rancho da fam�lia, mas Brubeck amava o jazz
e sonhava em fazer turn� com a orquestra de swing de Benny Goodman.
Ele se formou em 1942, entrou para o ex�rcito como atirador,
casou-se com uma colega de faculdade durante uma licen�a de tr�s dias,
e foi para a Europa no ver�o de 1944, esperando entrar direto no combate.
Acabei chegando � Europa 3 meses depois do Dia D,
felizmente, e fomos para Verdun.
Disseram:
"V�o ter de ir para o front logo, mas, esta noite,
algumas mo�as vir�o aqui entreter voc�s."
Elas eram da Cruz Vermelha. Tinham um piano no caminh�o.
A lateral do caminh�o abria e formava o palco.
Pediram no alto-falante um volunt�rio que tocasse piano.
"H� algum pianista que possa vir tocar?"
Ningu�m se mexeu. Por fim, eu levantei a m�o.
Lembro-me de estar sentado em cima do capacete,
em um lugar chamado "buraco de lama".
Eu subi e toquei. Um coronel ouviu e disse:
"Esse sujeito n�o deve ir para o front.
Queremos que ele fique para formarmos uma orquestra."
Podia haver segrega��o racial no ex�rcito americano,
mas n�o na Dave Brubeck's Wolf Pack Band.
Os homens comiam, dormiam e viviam juntos.
Compartilhavam experi�ncias que nunca mais esqueceriam.
O grupo tocava t�o perto do campo de batalha que avi�es alem�es
davam rasantes para metralh�-los - e toda a plat�ia corria para as armas
para responder ao fogo inimigo.
Durante a �ltima contra-ofensiva nazista na Segunda Guerra Mundial,
Brubeck e seus homens se perderam e acabaram entrando em territ�rio alem�o.
Levaram horas para voltar �s linhas americanas.
A Wolf Pack ficou com o Terceiro Ex�rcito de George Patton
at� o fim da guerra na Europa, no dia 8 de maio de 1945.
Durante todo o tempo, o grupo continuou racialmente integrado.
Mas, quando Dave Brubeck e a Wolf Pack voltaram para casa,
nada havia mudado nos Estados Unidos.
Quando chegamos ao Texas e fomos para o refeit�rio,
soubemos que n�o serviam negros.
Tinham de dar a volta e fazer fila na porta da cozinha.
Um deles disse que n�o comeria,
come�ou a chorar e disse: "Depois de tudo o que passei,
no primeiro dia nos EUA, nem posso comer
junto com voc�s.
Eu me pergunto por que passei por tudo aquilo."
Vi um negro pela primeira vez em viagem com meu pai
ao Rio Sacramento, na Calif�rnia.
Ele pediu ao amigo:
"Abra a camisa para Dave."
Havia uma marca no peito dele.
Meu pai disse: "Esse tipo de coisa n�o pode acontecer."
Foi por causa disso que lutei.
Sempre achei que o mundo � volta de um m�sico
influencia muito sua produ��o musical.
Com a acelera��o da tecnologia na 2a. Guerra,
com o avi�o a jato e, claro, a bomba at�mica,
a m�sica seguiu o mesmo caminho.
A m�sica come�ou a se acelerar.
Em 26 de dezembro de 1945, onze semanas depois da rendi��o do Jap�o,
Charlie Parker finalmente fez suas primeiras grava��es
usando o pr�prio nome para o selo independente Savoy Records.
Dizzy Gillespie e um novato de 19 anos chamado Miles Davis
tocavam trompete, com Gillespie atacando no piano de vez em quando.
Curly Russell estava no contrabaixo, Max Roach, na bateria.
Quatro n�meros foram gravados naquele dia: "Billie's Bounce",
"Thrivin' from a Riff", "Now's the Time"
e uma nova m�sica feita
com base nas mudan�as de acorde de "Cherokee", chamada "Koko".
"Koko" � uma das grava��es mais extraordin�rias
da hist�ria do jazz, n�o h� d�vida.
Foi a grava��o que realmente lan�ou Parker no mundo do jazz.
Antes disso, por dois anos, as grava��es ficaram proibidas.
Ningu�m podia ouvir Charlie Parker fora de NY.
Foi explosivo, repentino.
Primeiro, deve se lembrar, antes de falar
em inova��es musicais, que ele foi um choque,
como Louis Armstrong havia sido nos anos 20.
Um saxofonista se lembra: "Havia uma revolu��o em Nova York,
uma rebeli�o contra a formalidade das grandes orquestras de swing."
Outro recordou: "Era um culto, uma irmandade."
Um terceiro se manifestou: "Logo, havia os outros e havia Charlie."
E agora, pela primeira vez, o p�blico teria a chance de ouvir a m�sica dele.
O segredo de Charlie Parker foi revelado.
"Geralmente, a m�sica ecoa os sons da mem�ria,
mas n�o a m�sica que estava sendo composta ent�o.
Seus ritmos pareciam estar fora de compasso,
eram aparentemente arbitr�rios.
Seus bateristas, compenetrados e introvertidos, estavam aparentemente
dedicado ao caos.
E, no constante fluir da mem�ria,
o desejo e a experi�ncia adquiridos pela batida do jazz tradicional
e dos humores do blues pareciam sumir, como um rio que se desapega
de seu leito antigo e profundo. Agora entendemos tudo melhor.
Reconhecemos os velhos tons nos novos sons.
Mas o que agora sabemos, na �poca, estava apenas se formando."
Ralph Ellison.
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