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Acho muito importante que o jazz seja,
primordialmente, uma m�sica para dan�ar.
Voc� se mexe ao ouvir jazz.
E ele sempre se move na dire��o
da eleg�ncia,
que � a coisa mais civilizada
que o ser humano pode fazer.
A extens�o,
elabora��o e refinamento supremo do esfor�o,
� a eleg�ncia.
� um prazer por si s�.
� o mais longe que podemos ir com a vida.
Equivale ao que Ernest Hemingway chamou de
"o suor na garrafa de vinho."
Se voc� n�o aprecia a imagem das gotas de suor
quando serve o vinho branco e o degusta,
da sua parceira, da luz do sol,
voc� perdeu alguma coisa.
"Primeiro de janeiro de 1936... Os "swingos" acham que
o swing est� marcando para sempre a evolu��o do jazz.
Com eles, o estilo � um credo, um c�digo.
� por isso que os viciados nessa m�sica parecem t�o vidrados
e deslumbrados em sua enorme aprecia��o
por esse neg�cio chamado "swing".
Mas o que � o swing? Pergunte a qualquer adepto, e ele dir�:
"Bem, o swing � como... hum..."
Ningu�m consegue definir exatamente o que �".
Abel Green. "Variety".
Em meados dos anos 30, enquanto persistia a Grande Depress�o,
o jazz chegou �s portas de se tornar a m�sica popular americana.
Tinha um nome novo agora, swing, e seu impacto foi revolucion�rio.
O swing salvou a ind�stria fonogr�fica. Em 1932, somente dez milh�es
de discos foram vendidos nos Estados Unidos.
Em 1939, esse n�mero aumentaria para cinquenta milh�es.
O swing, que havia amadurecido nos sal�es de baile do Harlem,
se tornaria a m�sica definitiva para uma gera��o inteira de americanos.
Acho que todos sentimos saudade da m�sica
que ouv�amos quando t�nhamos 14, 15, 16 anos.
Isto nunca passa, e comigo, eram as bandas de swing.
Aquela era a minha m�sica.
Ela tocou meu cora��o no come�o
e, como todo mundo, as coisas que voc�
conheceu no come�o da vida
s�o aquelas que voc� procura
quando quer um pouco de conforto.
As pessoas precisavam de m�sica dan�ante
mais do que nunca nos EUA,
porque o pa�s estava um des�nimo s�.
Acho que as pessoas precisavam da fuga
de ir ao Savoy e aos outros lugares para dan�ar.
Elas precisavam daquelas bandas.
Como ant�doto para a depress�o,
creio que o swing tenha feito
o mesmo bem que os musicais da MGM
para ajudar os EUA.
O swing deu a Hollywood seu tema musical e oferecia entretenimento,
eleg�ncia e fuga para um povo desanimado.
Ouvia-se o swing tocando em r�dios e vitrolas em todas as ruas
dos Estados Unidos, e este servia de acompanhamento
para uma variedade de empolgantes novas dan�as.
A Big Apple e a Little Peach, a Shag e a Suzy Q,
e a dan�a que come�ou tudo, a Lindy Hop,
agora chamada de "Jitterbugging".
Centenas de bandas pegaram a estrada, e os jovens acompanhavam
as carreiras dos m�sicos com o mesmo empenho com que acompanhavam
seus jogadores de beisebol favoritos.
Milh�es de americanos brancos, que nunca haviam ouvido jazz,
passaram a lotar sal�es de baile e teatros por todo o pa�s.
O Aragon, em Chicago, o Alcazar, em Baltimore
e o Ali Baba, em Oakland.
O Twilight, em Fort Dodge, Iowa, e o Moonlight, em Canton, Ohio.
O Arcadia Ballroom, em Detroit, o Paramount Theater, em Nova Iorque,
e o Palomar Ballroom, em Los Angeles,
onde Benny Goodman havia entusiasmado o p�blico com sua vers�o da m�sica
tocada pela primeira vez por Louis Armstrong,
Fletcher Henderson, Chick Webb e Duke Ellington.
O swing foi um desenvolvimento eletrizante
na cultura popular americana.
Desencadeou for�as que as pessoas desconheciam.
Havia bandas dan�antes, bandas suaves
e bandas rom�nticas, mas quando Benny Goodman
tocou para aqueles jovens no Palomar, na Calif�rnia,
foi como 20 anos depois, com o rock.
Ele tocava uma m�sica dan�ante,
executada h� anos nas comunidades negras.
Ellington j� compunha o swing havia 3 anos,
e Chick Webb e Fletcher Henderson j� o tocavam.
Aquilo varreu o pa�s e desencadeou
uma empolga��o e uma explos�o f�sica
para a qual ningu�m estava preparado.
Era a �poca da depress�o, dias dif�ceis,
e esta m�sica era puro prazer.
Puro prazer f�sico.
QUINTO EPIS�DIO SWING: PURO PRAZER
SOP�O
4 MILH�ES DE DESEMPREGADOS SER�O CONTRATADOS
OBRAS SUPERAM CARIDADE
Vamos distribuir o dinheiro r�pido porque
queremos transferir os desempregados
da caridade para a folha de pagamento.
N�o estamos s� construindo estradas,
mas tamb�m pontes e barragens.
Faremos obras p�blicas e outros projetos.
A can��o � o sino da mem�ria,
e essas eram as nossas can��es.
Faziam parte do dia a dia,
e foi isso que fez Benny transpor o espa�o,
sair do jazz e entrar na sala de estar.
Ele chegou com "Blue Skies".
Todos conheciam "Blue Skies" e Irving Berlin,
ent�o foi f�cil. Ele foi nosso eleito.
Menos de um m�s depois do sucesso inesperado de Benny Goodman
no Palomar, seus discos pularam para o terceiro, segundo e
primeiro lugares nas lojas da Calif�rnia.
Ele tinha 26 anos de idade e j� era chamado de "O Rei do Swing".
De repente, sua m�sica estava em toda a parte,
e Goodman, o filho t�mido de imigrantes judeus das favelas
de Chicago, virava �dolo dos adolescentes.
Eu era apaixonada por Benny Goodman.
Eu o achava bonit�o e adorava sua postura,
seu jeito de n�o chamar aten��o para si mesmo.
Ele era um cara "legal",
e isto quando eu tinha meus 16 ou 17 anos.
O Rei do Swing, Benny Goodman...
Eu ligava o r�dio no m�ximo
e colava o ouvido para ouvir Gene Krupa.
Minha m�e ficava doida. "O que est� fazendo?"
E eu dizia: "Quieta! Preciso ouvir isto!"
No dia 3 de mar�o de 1937, a Benny Goodman Orchestra
em Times Square. At� ent�o, eles haviam tocado em hot�is
e sal�es de baile, onde eram servidas bebidas alco�licas
e o p�blico era, na maioria, adulto.
Mas no Paramount, todos eram bem-vindos.
Pela primeira vez, estudantes do segundo grau,
que vinham comprando os discos de Benny Goodman,
teriam a oportunidade de ver seu her�i pessoalmente.
Chegara a hora, e eles sa�am do metr�
em volta de Times Square como uma turba.
A pol�cia n�o entendeu nada.
De onde eles vinham? O que queriam?
A m�sica tinha um ritmo incr�vel.
Fazia voc� sair de si mesmo,
e voc� dan�ava com quem estivesse ali.
Era divertido requebrar ao som daquele ritmo.
Os jovens come�aram a dan�ar em toda parte,
e alguns subiram no palco.
Isto gerou muita publicidade,
e Benny Goodman, que j� era um sucesso,
virou um �cone, um grande her�i da cultura popular.
Benny era um bom modelo.
Entrava parecendo um cavalheiro
e de repente, no meio de um solo,
levantava o p�, pulava,
sentava numa cadeira e ca�a para tr�s.
Ele se deixava levar pela m�sica,
e isso fascinava o p�blico
porque n�o era fingimento. Era Goodman.
Benny surgiu como uma explos�o.
Ele apareceu como um mero desconhecido.
Conhec�amos Ellington e os outros grandes nomes,
mas ele era um garoto desconhecido.
Da noite para o dia,
ele entrou na sala de estar dos americanos
trazendo o jazz pelo colarinho,
e de repente, o jazz,
que era quase uma m�sica cult,
se tornou m�sica popular americana.
Foi isto o que Goodman fez.
O jazz
n�o � uma m�sica racial.
Todo mundo toca jazz.
Sempre tocaram.
No ensino da Hist�ria do jazz,
existem bandas brancas e negras.
Mas os m�sicos n�o aprendem assim.
� uma grande mentira que nos � ensinada.
Goodman ia aprender o clarinete
com quem pudesse.
A m�sica � assim.
Voc� ouve algo de que gosta e quer tocar igual.
N�o que ele fosse "a grande esperan�a branca",
mas a maioria dos compradores de discos era branca.
Os cr�ticos, os donos das gravadoras.
Foi assim que a m�sica alcan�ou o pa�s.
Ent�o, era l�gico que o rei fosse branco.
Mas o pr�prio Benny Goodman n�o pensava assim.
SOnHAnDO
De onde voc� tirou suas id�ias?
Minhas id�ias?
Tenho milh�es de sonhos.
S� fa�o sonhar. O tempo inteiro.
Pensei que tocasse piano.
Isto n�o � piano, � sonhar.
Isto � sonhar.
Ellington uma vez definiu o jazz como
"sentimentos negros",
os sentimentos dos negros americanos,
"colocados em ritmo e melodia."
A m�sica de Ellington
representava o equivalente musical
ao esp�rito americano de afirma��o
em face � adversidade.
Era constantemente criativa,
gerava resist�ncia
e tornava poss�vel uma atitude experimental.
Desenvolvia uma propens�o experimental.
Duke Ellington nunca reclamou publicamente da coroa��o
de Benny Goodman como o Rei do Swing, ou da enorme
popularidade das novas bandas - a maioria branca -
que vieram na esteira dele.
"Jazz � m�sica," disse ele. "O swing � neg�cio."
Naquela �poca, ainda havia o desejo
de subestimar o negro a todo custo.
Duke Ellington era um homem orgulhoso
e n�o gostava das coisas que testemunhava.
Apesar de n�o ser o tipo de homem
que verbalizasse sua opini�o,
em sua m�sica, ele deixa claro
que tem muito orgulho de quem �
e do que �,
e sente que sua m�sica, a m�sica de sua ra�a,
deu uma enorme contribui��o ao mundo da m�sica.
Uma vez, um entrevistador perguntou a Ellington o que ele pensava
do fato de n�o poder se hospedar em muitos dos hot�is no quais tocava.
Ellington respondeu: "Peguei a energia necess�ria...
para franzir a testa", disse ele, "e compus um blues."
A m�sica das big bands era popular
porque vinha das entranhas do pa�s.
A m�sica popular americana florescia
e eles tinham muito material
para cantar e tocar.
Havia o r�dio, que estava crescendo
e projetava as bandas.
Havia tamb�m uma f� incr�vel no pa�s.
A matin� no Roseland Ballroom, no Cotton Club.
As pessoas ouviam isso no r�dio
e pensavam: "Isso � demais!"
O show acontecia em NY,
e quem n�o estava l� pensava: "Puxa, NY!"
Boa noite, senhoras e senhores.
De Manhattam ao Golden Gate,
mais uma estr�ia na National Broadcasting Company.
Uma das grandes atra��es era o Paramount Theater.
N�s, adolescentes de 12, 13, 14, 15 anos,
guard�vamos dinheiro e pod�amos ir ao teatro
e ouvir nossas bandas prediletas.
Dava para ouvir de longe o come�o do som
do tema da orquestra.
Era um som baixinho e vinha l� do fundo.
Depois, a banda surgia num palco elevat�rio
e aparecia tocando seu tema cl�ssico.
Era de arrepiar.
Voc� ficava arrepiado dos p�s � cabe�a.
Na esteira do incr�vel sucesso de Benny Goodman,
o som de d�zias de big bands enchia o ar, ajudando a atrair
milh�es de pessoas aos cinemas e sal�es de baile.
Algumas tocavam muito pouco jazz, dando �nfase a m�sicas pop
e destaque a cantoras atraentes, o que garantia uma boa bilheteria.
Mas todas as bandas encorajavam os americanos a levantar e dan�ar.
Havia a banda de blues de Woody Hermann e a Orquestra Casa Loma.
Bob Crosby and the Bob Cats.
Kay Kyser e seu "Col�gio e Conhecimento Musical".
As meninas do International Sweethearts of Rhythm.
E Ivory Hutton e suas Melodears.
Earl Hines tinha uma orquestra, bem como Benny Carter.
Charlie Barnet. E Jimmy Lunceford.
"Jubilee" est� no ar e traz a primeira leva
da batalha de barrelhouse, boogie woogie e blues.
Para os leigos no assunto,
a clave dupla � tintinabulada
pelo pai do downbeat, Jimmy Lunceford!
Jimmy Lunceford disse uma vez que "uma banda com boa apar�ncia,
que faz apresenta��es apuradas e parece estar gostando
de seu trabalho, ser� sempre convidada a voltar."
A orquestra de Lunceford demonstrava isso noite ap�s noite.
Ele tinha �timos solistas, mas era a incr�vel precis�o do conjunto que
levava os dan�arinos � pista onde quer que eles tocassem.
Jimmy Lunceford tinha a melhor "show band".
Os rapazes da banda eram lind�ssimos.
Tinham os ternos mais elegantes
e todos tinham uma �tima apar�ncia.
Faziam sinais com as m�os
e os vocais eram singulares.
Jogavam seus trompetes no ar
e os pegavam simultaneamente.
Jimmy tinha grande respeito pelo que fazia
e infundia o mesmo respeito em seus colegas.
Havia muitas prima-donas na banda,
mas quando se juntavam,
submergiam suas personalidades no conjunto.
Era uma banda e tanto.
Estava sempre no auge.
Apesar de ser anunciado como "o cavalheiro sentimental do swing",
n�o havia nada de sentimental em Tommy Dorsey.
Ele era briguento e beberr�o, um homem p�o-duro e autorit�rio
que formou sua pr�pria banda por n�o aguentar tocar
ao lado do irm�o, Jimmy. Mas sua banda era imensamente popular,
e por ela passaram astros do calibre de Bunny Barrigan,
Dave Tough, Buddy Rich, e um cantor magrelo de Hoboken,
Nova J�rsei, chamado Frank Sinatra.
Dorsey era um m�sico soberbo.
Era grande ao trombone.
Transformou o trombone num instrumento de canto.
Foi o 1o. A pegar um instrumento de base,
transform�-lo num instrumento de canto
e tocar melodias nele. Seu controle era soberbo.
Era um grande m�sico, mas muito subestimado.
Mais do que ningu�m, ele foi capaz
de criar uma orquestra que tinha duas almas.
Podia ser uma �tima orquestra de jazz ou de pop,
uma banda suave, que tocava melodias sentimentais,
ou uma vigorosa banda de jazz,
e sempre havia �timos solistas no conjunto.
Uma das mais populares bandas de swing da hist�ria era liderada
por outro trombonista, Glenn Miller, que preferia arranjos
controlados, muitos vocais e uma dose de representa��o.
Glenn Miller foi importante porque popularizou o swing
entre as pessoas que n�o conseguiram
se ligar a Goodman e Ellington.
Sua m�sica era rom�ntica.
Ele criou o som daquela �poca,
um som que ser� sempre associado �quela era,
o que n�o � uma contribui��o insignificante.
Nos anos seguintes, Glenn Miller e sua orquestra produziriam
uma s�rie de sucessos, entre os quais "String of Pearls",
"Little Brown Jug" e "In the Mood", que viria a ser
um dos hinos mais populares do swing.
Meu grande sonho era tocar num clube de jazz.
Mas meu pai queria que eu fosse vaqueiro.
Quando eu conduzia o gado,
meu sonho era que o �nibus da banda de B. Goodman
quisesse passar pelo gado,
mas eu n�o o deixaria passar a n�o ser que
eles me deixassem subir e tocar com eles.
Eu imaginava que, um dia, seria ouvido
por alguma banda que passasse por aqui.
COMO TOMAR UMA DROGA
Quando falamos do swing e de suas bandas,
� dif�cil dizer se devemos chamar isso de jazz ou n�o
porque grande parte das m�sicas eram comerciais.
Os jovens eram como todos os de sua idade;
tinham interesse na m�sica pop porque era a moda.
Isto � o que chamo de swing!
Os adultos adoravam o swing, mas foram os adolescentes
que o transformaram numa mania nacional.
As vendas de trompetes dobraram,
e as vendas de clarinetes, o instrumento de Artie Shaw
e Benny Goodman, triplicaram.
Havia at� um uniforme n�o-oficial; os rapazes vestiam blazers e cal�as
iguais �s de seus her�is, e as mo�as preferiam meias soquete,
sapatos de salto e saias rodadas, que se erguiam quando elas
ganhavam a pista de dan�a.
Todo l�der de banda tinha um f�-clube.
As mo�as cobriam os m�sicos mais bonitos com cartas
e n�meros de telefone.
Artie Shaw uma vez chamou os "jitterbuggers" de "idiotas"
e at� mesmo Benny Goodman, cuja apresenta��o no Paramount havia
levantado a plat�ia, confessou que o entusiasmo deles
�s vezes o assustava.
Ser l�der de uma banda naqueles dias
era como ser um m�sico de rock nos dias de hoje.
Eles eram reverenciados pela m�dia.
Eram as novas celebridades, algo novo na m�sica
e na cultura popular americana que durou quase 10 anos.
Mas o swing tinha seus cr�ticos. Blue Barron, l�der de uma
banda rom�ntica, o denunciou como "nada mais que sexo orquestrado...
um s�mbolo f�lico ao som de m�sica."
E o doutor A.A. Brill,
um conhecido psiquiatra, ficou ainda mais preocupado.
O swing representa uma regress�o
ao "tom-tom-tom" primitivo,
um som r�tmico que agrada
tanto aos selvagens quanto �s crian�as.
Age como um narc�tico
e faz as pessoas esquecerem a realidade.
Elas esquecem a Depress�o
e a perda de seus empregos. � como tomar uma droga.
Havia a sensa��o de que �ramos rebeldes,
de que faz�amos algo de que nossos pais n�o sabiam
e n�o deviam gostar muito.
O jitterbugging, � claro, fazia parte da dan�a.
Era agitado, e as meninas usavam saias curtas
e meias soquete; quando elas rodavam,
as saias levantavam um pouquinho.
N�o era nada como o que temos hoje,
mas era legal quando voc� era garoto.
HOMENS TRABALHANDO JUNTOS
Era meu primeiro ano na Universidade Gonzaga.
Eu estava no gin�sio um dia,
sentado ao piano, tocando.
Um rapaz entrou e ficou escutando.
Encostou-se ao piano, ficou escutando,
olhando para mim e sorrindo.
Parei e perguntei: "Ent�o? O que achou?"
E ele disse: "Gostei do seu toque.
� bom, mas n�o est� tocando o estilo certo.
N�o est� tocando do jeito certo."
Ele me levou para uma sala no andar de baixo
e tocou um disco de T. Wilson e B. Goodman.
Eu nunca tinha ouvido aquela m�sica antes.
Nunca tinha ouvido jazz. Nem Louis Armstrong.
N�o conhecia nada, s� discos de m�sica popular.
E, de repente, ao ouvir aquele piano,
eu disse: "Puxa vida! Espere! Quem � esse?"
E ele disse: "� Teddy Wilson,
e � assim que voc� devia tocar piano."
Um dos discos mais populares de Benny Goodman era "Body and Soul",
can��o tocada por um trio que ele s� usava em grava��es.
O pa�s inteiro conhecia o disco, mas ele nunca havia pensado em levar
o trio ao palco porque o pianista, Teddy Wilson, era negro.
Wilson era um rapaz reservado e sofisticado, filho de uma bibliotec�ria
com um professor de ingl�s do Tuskegee Institute.
Seu toque suave e sua t�cnica inata
casavam perfeitamente com o som de Benny Goodman.
Nunca houve um pianista como Teddy Wilson.
Uma das coisas que o destacam
dentre seus precursores,
Waller e Duke Ellington,
era que eles tinham um toque percussivo.
Teddy Wilson tinha um toque leve e l�rico.
Era um som primoroso.
Cada nota parecia um sino.
Era muito r�pido.
Ningu�m jamais havia feito o piano soar daquele jeito.
Em 2 compassos, voc� reconhece Teddy Wilson.
Goodman tocou com Wilson pela primeira vez numa jam session em 1934.
"Teddy e eu come�amos a tocar," diria ele, "como se estiv�ssemos
pensando com o mesmo c�rebro."
Poucas semanas depois, Goodman levou seu baterista, Gene Krupa,
e Wilson para o est�dio para gravarem juntos.
Mas quando um show foi marcado em Chicago, e a promotora, Helen Oakley,
sugeriu que Wilson fosse inclu�do no programa, Goodman relutou.
Eu disse: "Vamos levar Teddy. Ser� uma grande atra��o."
Benny disse: "N�o sou t�o tolo.
Estou me dando bem e isto vai ser minha carreira.
N�o quero estragar tudo apresentando um talento negro
no meio disso tudo. N�o gosto da id�ia."
Era a �poca da Depress�o
e a �ltima coisa que ele queria fazer
era arriscar isto e jogar tudo pela janela,
ao correr o que parecia ser um grande risco.
Helen Oakley, que sabia o qu�o profundamente Goodman havia sido
influenciado por m�sicos negros e que estava ansiosa para mostrar
que a integra��o funcionaria no palco,
finalmente o convenceu ao apostar em Wilson.
Naquela �poca, m�sicos negros e brancos
j� confraternizavam havia tempos.
Faziam jam sessions juntos at� as 3 da manh�.
Mas o que Goodman fez foi colocar
Teddy Wilson no showbiz.
Goodman nunca esqueceu a primeira apari��o p�blica do trio.
"N�s tr�s trabalhamos juntos como se tiv�ssemos nascido
para tocar daquele jeito," disse ele.
"O trio com Goodman era t�o s�lido quanto uma fam�lia," diria Wilson.
"Est�vamos todos l�, como se f�ssemos irm�os."
Benny Goodman deixou de ver motivos, fora o h�bito e o preconceito,
para n�o melhorar sua banda com a contrata��o de outros
grandes m�sicos s� por eles serem negros.
Num pequeno bar em Los Angeles, ele ouviu Lionel Hampton,
um mestre de um novo instrumento, o vibrafone.
Goodman o contratou na hora e transformou o trio num quarteto.
"Eles tocam todas as noites e fazem uma m�sica inacredit�vel.
Nem uma nota em falso. Um terminando seu solo
e voltando ao acompanhamento. Depois o outro.
Todos somando inspira��o at� o ritmo ser intenso demais para parar.
Isso � composi��o instant�nea.
E � coletiva. O mais belo exemplo de homens trabalhando juntos
para serem vistos em p�blico." Otis Ferguson. "The New Republic".
Apesar do sucesso do quarteto, foram poucos os outros l�deres
de banda brancos que ousaram seguir o exemplo de Goodman.
A m�sica podia ignorar a cor, mas o pa�s n�o.
Em 1935, Duke Ellington convidou uma desconhecida cantora de 19 anos
para aparecer num curta-metragem chamado "Symphony in Black".
Seu nome era Billie Holiday, e ela j� vinha vivendo a vida dif�cil
que retratava no filme.
Nascida como Eleonora Fagan, em 1915, ela foi criada em Baltimore.
Seus pais nunca se casaram, e ela passou a maior parte
de sua inf�ncia ansiando pelo pai ausente, Clarence Holiday,
um guitarrista que chegou a tocar com Fletcher Henderson.
O exemplo do pai a atraiu ao mundo da m�sica, mas seu jeito rude
e mulherengo de ser se espelharia em muitos dos homens pelos quais
ela se apaixonaria durante a vida inteira.
Ela foi molestada e espancada quando crian�a,
e aos doze anos de idade, trabalhava como prostituta
num bordel � beira do rio.
Ganhava alguns trocados a mais acompanhando a vitrola na sala de estar
- a m�sica de Louis Armstrong e Bessie Smith.
Aos treze anos, ela vivia em Nova lorque, onde apresentava-se
em troca de gorjetas em festas particulares e nos clubes do Harlem,
e cantava por divers�o em jam sessions.
Por fim, trocou seu nome para Billie Holiday, em homenagem ao pai ausente.
Uma noite, em 1933, ela estava cantando num clube chamado Monette's quando
o cr�tico de jazz e empres�rio John Hammond apareceu por l�.
Ele ficou encantado com sua apar�ncia...
e com o seu modo de cantar.
Apesar de seu pequeno alcance vocal, pouco acima de uma oitava,
Holiday dava a cada can��o seu toque pessoal,
em parte por cantar pouco atr�s do ritmo.
Ela fraseava as melodias da mesma maneira que os instrumentistas de jazz,
e se considerava uma musicista antes de ser cantora.
Hammond logo organizou uma s�rie de sess�es de grava��o,
lideradas por Teddy Wilson.
Benny Goodman compareceu algumas vezes.
Billie tinha uma voz estranhamente rascante.
Tinha aquele incr�vel senso de tempo;
antes e depois das notas.
Quando voc� ouve os primeiros discos,
o sentimento do blues,
que sempre sugere uma certa melancolia,
digamos, ou que sugere que a vida reserva
um golpe duro no caminho,
� perfeitamente equilibrado por este tipo de indiferen�a.
Ela � muito espirituosa.
� s� ouvir "A Fine Romance" e outras parecidas.
Ela canta com tanto entusiasmo
que parece estar se divertindo como nunca!
Holiday era muito independente.
Uma mulher que a conhecia desde a inf�ncia disse que
ela n�o dava a m�nima para nada.
Billie Holiday seria assim a vida inteira - xingando,
bebendo, brigando, buscando parceiros de ambos os sexos
e vivendo t�o � beira do abismo que seus amigos ficavam surpresos
que ela conseguisse sobreviver.
Mas em meio a tudo isto, fazia uma arte inesquec�vel,
e viria a se tornar a mais importante cantora da hist�ria do jazz.
Quando voc� escuta Billie Holiday cantar,
ouve o esp�rito de Bessie Smith
e Louis Armstrong juntos numa pessoa.
Existe o fogo da cantora de blues
e a escolha inteligente de notas
do grande m�sico de jazz.
Mas com ela, voc� tem uma profunda sensibilidade
para a condi��o humana.
Ela transmite a dor do blues.
Da vida.
Mas dentro dessa dor, existe valentia,
e � isso que atrai as pessoas.
VOC� SE LEMBRA?
"Voc� lembra como era? Talvez sim. Talvez voc� estivesse l�.
Talvez voc� estivesse em Nova lorque em meados dos anos 30,
quando havia tantas grandes bandas tocando.
Voc� podia ir ao sal�o Manhattam, do Hotel Pennsylvania,
onde Benny Goodman tocava com sua grande banda, incluindo Gene Krupa...
Talvez preferisse ir a outro sal�o de hotel, como o Palm, do Commodore,
para ouvir o swing suave de Red Norvo e Mildred Bailey...
ou o sal�o Grill, do Lexington, para apreciar Bob Crosby
e o Dixieland Bob Cats... Havia tamb�m os sal�es de baile...
o Roseland, com Woody Herman, e o Savoy, com Chick Webb."
George T. Simon. "Metronome".
O Savoy Ballroom, na Rua 140 com Avenida Lenox,
ainda era o lugar mais quente do Harlem,
e Chick Webb, que havia sido um dos primeiros l�deres de banda
a tocar o swing, ainda comandava o espet�culo.
Chick Webb � um fen�meno.
Nunca houve outro igual.
Era um an�o corcunda que sofrera um deforma��o
na espinha na inf�ncia. Um baterista brilhante.
L� estava esse homem pequenino,
sentado atr�s de uma bateria completa
que tinha que ser pregada ao palco
para evitar que a for�a que ele usava
no pedal derrubasse o bumbo.
Chick Webb foi meu primeiro her�i.
Meu pai me levou para v�-lo.
Eu devia ter uns 12 anos.
Fiquei procurando o baterista,
mas s� via um bumbo enorme,
com uma cabe�a aparecendo por cima
e dois bra�os em movimento,
tocando coisas incr�veis.
No dia 11 de maio de 1937, Benny Goodman se aventurou
no Harlem para desafiar Webb no que foi anunciado como
"A Batalha Musical do S�culo".
"Rapazes, este � o meu momento," disse Webb aos colegas,
"Quem errar uma nota n�o precisa voltar ao trabalho."
Quatro mil f�s lotaram o sal�o de baile, e a pol�cia montada
e os bombeiros tiveram que ser chamados para controlar outros
cinco mil que n�o conseguiram entrar e que se recusavam a ir para casa.
Entre os que entraram estavam norma Miller e Frankie Manning,
dan�arinos profissionais que vinham desafiando e derrotando quem quer
que os enfrentasse em concursos pelo mundo afora.
Eles haviam voltado ao Savoy para ver seu her�i medir for�as
contra seu mais famoso desafiante.
A noite em que B. Goodman enfrentou C. Webb
- Era 1938. - Foi uma noite eletrizante.
O Harlem inteiro estava l�.
O ambiente no Savoy era indescrit�vel.
L� estavam Benny Goodman, o rei do swing...
Chick Webb, o rei do swing.
O rei do swing para n�s.
C. Webb estava enfrentando B. Goodman.
Goodman era um gigante.
Chamavam-no de rei do swing na �poca.
Qualquer banda que tocasse swing comprava seus discos.
N�s conhec�amos Goodman.
Muita gente n�o se d� conta
de que muitos dos arranjos de Benny Goodman
eram iguais aos de Chick Webb.
S� quando subiam ao palco
� que dava para saber qual das bandas era a melhor.
S� quando tocavam os mesmos arranjos.
Para mim, Chick superou Benny naquela noite.
Sim, digo o mesmo.
- N�o digo isto - N�o � preconceito!
Por ser Chick Webb, ou por preconceito,
mas acho que Chick superou Benny naquela noite.
Vi os rapazes da banda de Benny Goodman...
Enquanto Chick Webb tocava,
eles ficavam sacudindo a cabe�a.
A banda de Benny Goodman foi derrotada.
Gene Krupa curvou-se em rever�ncia ao homem que o havia batido.
"Chick Webb," disse ele, "me deu uma surra."
"Ningu�m," lembrou um dos m�sicos de Goodman,
"poderia ter derrotado Chick naquela noite."
CODA
Apesar de sua incr�vel popularidade, o swing n�o cativou o cora��o
de todos os m�sicos... ou de todos os f�s do jazz.
Alguns achavam as big bands r�gidas demais, comportadas demais.
John Hammond, que havia ajudado a montar a banda de Benny Goodman,
agora achava que o swing havia se tornado comercial demais,
e que sufocava a liberdade e a express�o art�stica,
levando o jazz na dire��o errada.
Havia press�o sobre os maiores l�deres de bandas de jazz.
Nem todos sucumbiam � press�o,
mas Goodman, numa t�pica sess�o de grava��o,
fazia 2 �timos instrumentais de jazz e 2 vocais pop.
Havia sempre essa press�o para ser comercial,
para alcan�ar a plat�ia popular,
para romper a barreira de Glenn Miller.
Numa noite em 1936, John Hammond se cansou de ouvir Benny Goodman
tocar seus grandes sucessos no Congress Hotel em Chicago.
Hammond saiu, entrou no carro e ligou o r�dio, esperando ouvir
algo novo, algo diferente, algo menos previs�vel.
Ele sintonizou uma esta��o experimental
que estava transmitindo ao vivo de Kansas City.
"Era uma hora da manh�... a transmiss�o ao vivo do show
do Count Basie Band no Reno Club estava come�ando...
Eu n�o consegui acreditar no que estava ouvindo."
John Hammond tinha agora uma nova miss�o: Levar Count Basie
e o som de Kansas City para o resto do pa�s.
CONTINUA...
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