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Boa noite, senhoras e senhores.
Eu sou o Sr. Armstrong,
e vamos tocar uma velha e boa m�sica para voc�s,
um lindo n�mero: "I Cover the Waterfront".
"I Cover the Waterfront".
Quando se fala de Louis Armstrong,
fala-se dos sentimentos humanos mais profundos
e do mais alto n�vel de sofistica��o musical.
� um acontecimento raro na hist�ria da m�sica.
Ele foi escolhido para trazer
o sentimento, a mensagem e
a identidade do jazz para todos.
Trouxe-os para todos os m�sicos.
Levou-os a todo o mundo.
Ele � a personifica��o do jazz.
O s�culo vinte ainda n�o havia completado duas d�cadas quando
o primeiro disco de jazz chegou ao p�blico, em 1917.
Mas o mundo j� passara por transforma��es que ningu�m
poderia ter previsto.
E a inomin�vel carnificina da Primeira Guerra Mundial era apenas
parte dessa mudan�a.
No novo e moderno mundo, os seres humanos podiam voar.
Registros fotogr�ficos, mediante a a��o de raios X
permitiam ver, atrav�s da pele, at� os ossos.
Sigmund Freud, ouvindo seus pacientes deitados em um div� em seu consult�rio
descobriu novas maneiras de compreender a mente humana.
Pablo Picasso pintava seus modelos sob todos os pontos de vista
ao mesmo tempo.
E Albert Einstein descreveu um cont�nuo espa�o-tempo.
O jazz tornou-se a trilha sonora desse mundo moderno.
A m�sica ainda se encontrava intimamente ligada ao ragtime
met�lica e vigorosa
Os solos eram praticamente inexistentes.
Mas, quando a Primeira Guerra Mundial chegou ao fim
e a Era do Jazz teve seu in�cio para valer
a m�sica come�ou a mudar
A hist�ria do jazz tornou-se a hist�ria de duas grandes cidades americanas...
Chicago onde m�sicos negros de Nova Orleans
acharam fama e um novo p�blico, o branco.
E Nova York, onde dois bairros bem diferentes, Times Square
e Harlem, abrigaram um dedicado grupo de m�sicos
cada qual lutando para encontrar sua voz pr�pria.
Enquanto isso, em Washington D.C., Edward Kennedy Ellington, um af�vel
pianista de classe m�dia que havia largado a escola
estava come�ando a escrever suas pr�prias composi��es
e se perguntava se conseguiria ser bem-sucedido como m�sico
em horizontes mais amplos.
E em Nova Orleans, o ber�o de tudo
um adolescente tocava corneta em espeluncas, atraindo muita gente
e come�ava a transformar em arte o turbulento e quase sempre violento
mundo que girava em torno de si.
Seu nome era Louis Armstrong.
E, para muitos, sua extraordin�ria genialidade
parecia ser uma d�diva de Deus.
N�o acredito que Louis Armstrong
fosse um ser humano real.
Ainda creio que Deus o tenha enviado � Terra
como um mensageiro especial para fazer as pessoas felizes.
A m�sica � terapia.
Para mim, a m�sica sempre foi t�o intoxicante
quanto �lcool, um baseado ou qualquer droga.
Seu som pode estimular em mim
amor, felicidade, criatividade.
Acho que Armstrong foi enviado aqui
como um mensageiro de Deus para fazer as pessoas felizes.
E foi a isso que ele dedicou sua vida.
De certo modo, Armstrong �
o Bach, o Dante, o Shakespeare da m�sica americana.
Ele surge em dado ponto da sua hist�ria.
N�o no nascimento, pois ela existia h� 30 anos,
mas quando se transforma numa forma de arte.
Ele � a figura que codifica,
que assimila tudo o que houve antes
e mostra a dire��o do futuro.
SEGUNDO EPIS�DIO A D�DIVA
O trompete � um instrumento sacrificante
o mais dif�cil dos instrumentos de sopro
o que exige mais e ele o tocava
com um vigor nunca visto antes
nem depois. N�o digo que
n�o toquem mais alto do que ele.
Mas com sua for�a e vigor? Ningu�m.
Ele era tudo.
Apesar de sempre ter acreditado que havia nascido no dia 4 de julho
de 1900, Louis Armstrong, na realidade, veio ao mundo
em 4 de agosto de 1901 numa �rea t�o violenta
de Nova Orleans que era chamada de "Campo de Batalha".
Seu pai, um oper�rio diarista chamado William Armstrong
largara a fam�lia, e seus filhos raramente o viam.
Sua m�e, Mayann, tinha apenas 16 anos quando ele nasceu
e, �s vezes, se prostitu�a para manter a fam�lia.
Armstrong disse que, �s vezes, n�o sabia o que ia comer.
E que �s vezes o n�vel de pobreza
era tanto que n�o sabia o que viria a seguir.
Habituara-se ao ronco do est�mago.
Brigas com facas, armas de fogo, navalhas, esse foi o meio
no qual Louis Armstrong cresceu.
Ele viu um certo lado da vida.
Mas viu tudo desse lado da vida.
N�o o clich� sobre o qual se escreve.
Ele n�o viu esse lado segundo a
�tica de algu�m de fora, que diz:
"Que coisa terr�vel!" Viu o quadro completo.
O humor, a beleza, a sordidez, ele viu tudo.
E o entendeu.
Aos sete anos, ele foi trabalhar para os Karnoffsky
uma fam�lia de imigrantes judeus russos que entregava carv�o
�s prostitutas de Storyville.
Louis seguia junto na carro�a, tocando uma longa e fina corneta
a fim de avisar aos clientes dos Karnoffsky que eles estavam chegando.
Cabe pensar num garotinho que
percebe que algo est� errado.
N�o sabe o que �, mas logo se d� conta
de que � a cor da sua pele.
� chamado de "crioulo",
v� um homem adulto ser chamado de "rapazinho"
de forma depreciativa.
De repente, nesse meio, chegam pessoas
iguais �s que ele vira
aviltar seus conhecidos, mas que o tratam bem.
Elas o convidam para sua casa.
Tentam cuidar dele e o alimentam
Foi ent�o, com os Karnoffsky, ainda crian�a, que ele entendeu
que todos somos seres humanos.
A sra. Karnoffsky insistia que ele jantasse bem antes de voltar para casa
e Armstrong nunca se esqueceu da bondade da fam�lia.
Durante toda a sua vida, ele usaria a estrela-de-davi
e as can��es de ninar da sra. Karnoffsky lhe seriam caras.
Certo dia, Louis descobriu uma corneta bem surrada
na vitrine de uma loja de penhores e pediu
aos Karnoffsky que lhe adiantassem cinco d�lares para compr�-la.
"Ap�s sopr�-la por pouco tempo", recordou Armstrong
"eu percebi que podia tocar Home Sweet Home.
Ent�o, da� vieram os blues."
Tenho certeza de que, desde a 1a. Vez
que pegou no trompete, ele foi �timo.
Era uma dessas pessoas que possuem algo sobrenatural.
Ele tinha aquela compreens�o que vem do Criador da humanidade.
Ele sabia que era bom. Sabia mesmo.
Ele afirmava que seu talento era uma d�diva de Deus.
Dizia: "Voc� me imagina l� no C�u
com o arcanjo Gabriel? Vou mand�-lo para escanteio."
Armstrong adorava ouvir jazz.
A Kid Ory Band Mutt Carey
Bunk Johnson, Freddy Keppard
e Sidney Bechet.
Mas, de todas as bandas que Armstrong ouviu
aquela liderada pelo cornetista King Oliver
foi a que mais o tocou.
Joe Oliver era um band-leader dur�o.
Duro como ferro-gusa, descreveu um m�sico.
Ele come�ou sua carreira como trombonista e ent�o
passou para a corneta, tornando-se um dos m�sicos favoritos
em um dos clubes mais barras-pesadas da cidade
o Pete Lala's, em Storyville.
Armstrong entregava carv�o a uma prostituta que morava
ao lado de Oliver e demorava o quanto podia
somente para ouvir seu �dolo tocar.
King Oliver criava efeitos vocais como este.
Oliver era um sujeito enorme e impressionante.
Seu som era fant�stico. Ele tinha autoridade
e sabia montar uma banda.
E Oliver obviamente gostava dele.
Armstrong podia carregar seu trompete, o que era uma honra.
Oliver, de certo modo, procurava proteg�-lo.
"Eu adorava Joe Oliver", disse Louis Armstrong.
"Ele fez mais por jovens m�sicos do que qualquer um que conhe�o."
Entre um compromisso e outro, Oliver �s vezes parava na rua
e dava conselhos a Armstrong sobre como tocar.
Encontr�vamos J. Oliver ao subirmos a Rampart Street
e receb�amos uma li��o relativa a uma m�sica que
estivesse nos incomodando.
Eu dizia: "Papa Joe, como se divide isso?"
Ele parava, n�o importa aonde estivesse indo, e nos mostrava,
enquanto os outros m�sicos diziam:
"N�o d�, preciso chegar logo ao Eagle Saloon."
� por isso que todos n�s ador�vamos Joe Oliver.
Em 1918, o ano em que as tropas americanas foram para a guerra
King Oliver deixou Nova Orleans, indo para a grande Chicago
e Armstrong o substituiu, tocando corneta na sua ex-banda.
Sua reputa��o cresceu, e logo ele tamb�m tinha ofertas
de trabalho vindas de outras cidades.
Mas Armstrong n�o tinha inten��o alguma de deixar Nova Orleans.
Ele estava casado agora com uma ex-prostituta chamada Daisy.
E, al�m do mais, j� vira m�sicos demais fracassarem.
"Ningu�m me far� deixar Nova Orleans," disse ele
"a n�o ser Papa Joe".
Em 1920, aconteceu uma coisa �tima para o jazz.
Promulgaram a lei mais idiota
da hist�ria dos EUA: A Lei Seca.
De um punhado de sal�es em todo o pa�s
surgiram milhares de bares clandestinos.
Principalmente nas maiores cidades.
Em dado momento, Manhattam, em NY tinha cinco mil deles.
E, com a competi��o para atrair as pessoas, havia a m�sica.
Assim, de repente, surgiu bastante trabalho para m�sicos de jazz.
Ao mesmo tempo, a Lei Seca vinha
relaxando os costumes, produzindo o efeito contr�rio do pretendido.
Por exemplo, as mulheres n�o bebiam nos sal�es,
mas decerto bebiam nos bares clandestinos.
Assim, a "Era do Jazz" virou uma
esp�cie de s�mbolo para todo esse relaxamento,
para toda essa bebedeira, gra�as � Lei Seca
quando todos bebiam mais do que deviam
somente para desafiar uma lei imposs�vel de se fazer cumprir.
"Em meio a toda essa tumultuada efervesc�ncia, o jazz
seguiu seu curso, viajando exultante na corrente.
Entretanto, o fim da civiliza��o ainda n�o chegou.
Sendo assim, ou o jazz ser� domesticado e transformado
num sucesso art�stico, ou ent�o desaparecer� por completo
do nosso meio como for�a viva.
Mas, mesmo que venha a sumir totalmente,
ele n�o ter� existido em v�o,
pois seu registro permanecer� como um interessante documento humano
o esp�rito da era escrito na m�sica do povo."
R.W.S. Mendel, em "The Appeal Of Jazz"
Os Estados Unidos estavam agora totalmente alucinados pelo jazz.
Mas o jazz pelo qual a maioria dos americanos enlouquecia
era ainda primordialmente uma m�sica decorativa.
Fren�tico, divertido, o acompanhamento perfeito
para dan�as r�pidas e momentos apropriados.
Seria necess�ria a genialidade de m�sicos como Louis Armstrong
para ampliar sua mensagem, aprofundar sua emo��o
e transform�-lo em arte.
ABEN�OADO
A minha hist�ria � muito simples.
Sabe, � tipo: Era uma vez uma
linda dama e um simp�tico cavalheiro
que se apaixonaram e se casaram.
E Deus os aben�oou com um maravilhoso menininho.
Seguraram-no pela m�o
cuidaram dele e mimaram-no at� os 7 ou 8 anos de idade.
Ent�o, puseram seus p�s no ch�o
e, assim que o fizeram, ele saiu correndo pela porta da frente
passou pelo gramado e atravessou a rua.
E, ao chegar ao outro lado, algu�m disse:
"Ei, Edward, por aqui."
O garoto, ali�s, era eu.
Na esquina seguinte, disseram:
"Edward, � direita. Depois vire � esquerda.
N�o h� como errar." E isso vem
ocorrendo desde ent�o. Essa �
a hist�ria. � a minha biografia.
Aos 29 de abril de 1899, na Rua 1212 T
num confort�vel bairro negro de classe m�dia,
no noroeste de Washington D.C., nasceu Edward Kennedy Ellington.
Um dia ele seria exaltado como o maior de todos
os compositores americanos o mais prol�fico e menos
reconhec�vel g�nio do jazz.
Seu pai, James Edward Ellington, era mordomo
e �s vezes servia na Casa Branca.
Era um homem de poucos recursos, mas que criou sua fam�lia
disse seu filho, como se fosse um milion�rio.
Sua m�e, Daisy, era inteiramente dedicada ao filho.
E ela sempre foi a pessoa mais importante em sua vida.
"Como se eu fosse uma crian�a muito especial", recordou ele
"minha m�e dizia: Edward, voc� � aben�oado."
Eu lhe perguntei como fora sua inf�ncia
se ele era levado, se aprontava
se levava broncas, que tipo de garoto era.
Ele disse: "Fui tratado a p�o-de-l�.
Minha m�e era muito cuidadosa".
Daisy mantinha-se ao p� da cama toda vez que ele ficava doente.
A cada domingo, ela o levava duas vezes � igreja batista
da Rua 19, e cuidava para que ele tivesse li��es regulares de piano.
Meu av� deve ter demonstrado alguma
qualidade excepcional desde o in�cio aos seus pais.
E acho que sua m�e prestou aten��o de verdade.
Ela identificou algo diferente nele.
Ela iria lhe proporcionar todas as
oportunidades de usar esse algo diferente
e tirar vantagem dele.
Minha m�e comprava m�sica em folhas
n�o encadernadas e tocava-as ao piano.
E sempre me lembrarei dela tocando
"Meditations". Fazia-me chorar.
L�, naquela parede, h� um quadro da minha m�e
Foi pintado depois que ela se mudou para NY.
Daisy disse ao filho que ele n�o deveria deixar que nada o detivesse.
Fatos desagrad�veis e barreiras em potencial deveriam
simplesmente ser ignorados. Ele poderia fazer qualquer coisa que outro fizesse.
E, por ela acreditar nisso, Ellington tamb�m sempre acreditaria.
Sua professora do quarto ano ginasial,
na William L. Garrison Junior High School,
enfatizava a boa orat�ria e as boas maneiras.
"Como representantes da ra�a negra, dev�amos obter respeito
para o nosso povo", recordava Ellington.
"Eles tinham orgulho da ra�a l�. Um enorme orgulho da ra�a."
Os modos que lhe eram ensinados tinham muito
a ver com o preconceito racial.
Ensinavam-nos que os nossos modos,
nosso senso do que podemos fazer
nos permitiriam transpor o desprezo e os insultos.
Cabia sempre agirmos de um modo
superior a eles, pois, de fato, o �ramos.
Mas Ellington tamb�m estava tendo um outro tipo de educa��o.
Ele pode ter sido criado numa respeit�vel fam�lia de classe m�dia,
mas aos quatorze anos come�ou a frequentar secretamente
o sal�o de bilhar de Frank Holiday, na Rua Sete com a T,
e ia ao Gayety Burlesque Theater ap�s as aulas.
Pianistas de ragtime tornaram-se seus her�is.
Ellington passava horas debru�ado sobre o piano,
com as orelhas em p�, segundo ele.
Ele adorava tocar piano, pois as garotas pareciam
ter atra��o por pianistas, e ele era atra�do pelas garotas.
Ellington come�ou a se vestir com tamanha eleg�ncia que tanto
a fam�lia quanto os amigos passaram a cham�-lo de Duke, o duque.
E tamb�m come�ou a compor sua pr�pria m�sica.
Sua primeira pe�a chamou-se "Soda Fountain Rag".
Logo ele largou a escola e formou seu pr�prio grupo:
The Duke's Serenaders.
Sempre que ia se apresentar em um clube ou em um sal�o de dan�a,
ele mandava um amigo na frente para abrir a porta e anunciar:
"Saiam do caminho, pois a� vem o Duke."
Sua eleg�ncia e sua capacidade de autopromo��o lhe arrumaram
bastante trabalho. Ele tocava ragtime e m�sicas suaves para dan�ar em clubes,
embaixadas e nas mais elegantes festas da Washington branca.
Em janeiro de 1923, Duke Ellington, agora casado e com um filho pequeno,
comprou um ingresso na se��o segregada do Teatro Howard
para ouvir o mestre de Nova Orleans, Sidney Bechet.
Ellington nunca se esqueceu do que ouviu naquela noite.
"Vinha da alma," disse ele, "vinha tudo de dentro".
"N�o importa o que tocasse, Bechet parecia estar chamando algu�m.
Foi o meu primeiro encontro
com o estilo de Nova Orleans", recordou Ellington.
"Tratava-se de um som e uma concep��o inteiramente novos para mim."
� medida que o fervor da Era do Jazz aumentava,
a carreira de Ellington come�ava a deslanchar.
Mas ele se sentia frustrado tocando o tipo de m�sica
que a sociedade de Washington queria ouvir.
Ele ansiava por algo mais, sabia que tinha algo a dizer
e come�ou a procurar novos mundos para conquistar.
CHICAGO
Louis Armstrong foi um dos meus primeiros �dolos.
Eu o idolatrava e queria ser como ele.
E li a hist�ria de como King Oliver o havia
chamado a Chicago para tocar com ele.
Portanto, sempre que praticava,
eu o fazia com o meu trompete
apontado para fora da janela,
na esperan�a de que Louis passasse,
me escutasse e me contratasse para
tocar em sua banda. Mas Louis nunca passou
Em 8 de agosto de 1922, Louis Armstrong embarcou
no "Illinois Central", em Nova Orleans, com destino a Chicago.
Ele tinha 21 anos, estava separado da mulher
e finalmente ia se juntar ao seu �dolo, King Oliver.
A �nica pessoa que o faria deixar
Nova Orleans era King Oliver.
Assim, ao receber o telegrama de Oliver para
que o encontrasse em Chicago, sua m�e lhe fez um sandu�che,
ele pegou o trem e se foi.
Ele carregou consigo apenas o estojo com a corneta
e uma velha valise, que continha seu surrado e remendado smoking.
Sua m�e, Mayann, assegurou-se de que ele usaria ceroulas.
Ela soube que o lugar para onde ele ia era muito frio,
mesmo em pleno ver�o.
Armstrong estava se juntando aos negros que fugiam
da pobreza asfixiante e das repressivas leis segregacionistas
que continuavam a imperar no Sul do pa�s.
Desde o in�cio da Primeira Guerra Mundial,
centenas de milhares de homens e mulheres haviam embarcado
em trens em busca de trabalho e liberdade.
Isso ficou conhecido como "A Grande Migra��o",
e a maioria dos trilhos conduzia a Chicago.
Ele chega a Chicago, desce do trem
e todos come�am a dar risadinhas
quando o v�em, pois ele se parece
com um coveiro. Ele vestia um
casac�o grosso preto, um terno e seu cabelo
estava penteado para a frente.
N�o entendia os costumes da cidade.
Levou 2min para se tornar o rei da
cidade, mas isso � uma outra hist�ria.
Com Armstrong no grupo, a Creole Jazz Band
de King Oliver nunca tocou t�o bem.
Os dois homens aperfei�oaram um estilo de dueto em que
Armstrong parecia saber por instinto exatamente
o que o seu chefe iria tocar e tinha sempre o complemento perfeito.
Nada igual j� havia sido escutado em Chicago antes.
Correu de boca em boca que Joe Oliver
tinha um segundo cornetista, e que os dois estavam
fazendo breques e outras coisas.
Que eram imperd�veis.
Eu ouvia Joe Oliver e sabia como ele tocava.
Conhecia praticamente tudo o que ele fazia.
Portanto, acrescentei notas e o surpreendi.
Eu podia fazer duetos para qualquer coisa.
Fazia um dueto para isto.
E todos os m�sicos achavam �timo.
Eles tentavam, mas n�o se concentravam como n�s.
N�o conseguiam faz�-lo. A menos que
estivesse escrito. Mas nunca escrevemos nada.
Not�cias do que Oliver e Armstrong estavam fazendo no Lincoln Gardens
se espalhou por toda a cidade e logo
alguns ouvintes brancos tamb�m foram v�-los.
"Ao se abrir a porta, os trompetes de King ou de Louis
ou dos dois, eram ouvidos acima de tudo o mais.
O lugar todo chacoalhava. Mesas, cadeiras, paredes,
pessoas moviam-se com o ritmo.
Era hipnose � primeira audi��o. Armstrong parecia poder ouvir
e reproduzir ao mesmo tempo o que Oliver improvisava.
Ent�o os dois costuravam em torno um do outro como mulheres
desconfiadas falando do mesmo homem. Eddie Condon."
Um jovem e fascinado m�sico descreveu que havia tanta m�sica no ar
que, caso algu�m erguesse um instrumento, ele tocaria sozinho.
Em 5 de abril de 1923, King Oliver, Louis Armstrong
e a Creole Jazz Band embarcaram num trem
de Chicago para Richmond, Indiana, lar da Gennett Records.
Louis Armstrong iria gravar pela primeira vez.
A banda costumava tocar em volta
de um metal, e o som era gravado num disco de cera.
Mas eles n�o podiam trabalhar com
Armstrong no meio, pois ele abafava os demais.
Assim, ele tinha que ficar de 3m
a 4,5m atr�s dos outros. Punham-no
no corredor para que seu som ficasse
em equil�brio com o dos demais m�sicos.
Eles gravaram um disco, e esse
foi indubitavelmente um marco
na hist�ria do jazz. Chamava-se "Chimes Blues".
Como seu primeiro solo, designaram
a Armstrong o trio strain.
N�o lhe pediram nem queriam que improvisasse qualquer nota.
Mas ele tocou com tal virtuosismo
e intensidade r�tmica que, ao ouvi-lo,
percebe-se o futuro.
� mais empolgante do que toda a improvisa��o
que o conjunto faz em torno dele.
E aquela for�a, aquele som sagrado que ele tem...
nesse momento, sabe-se que algo est� surgindo
e que jamais ser� contido.
E apenas dois anos depois ele
entra no est�dio por conta pr�pria
e virtualmente codifica o que o jazz
seria no pr�ximo meio s�culo.
Acho que finalmente temos o que
os m�sicos chamam de "contar a sua hist�ria".
Deve-se contar uma hist�ria, dizer algo pessoal.
E � isso que se tem com Louis,
essa qualidade de um ser humano
conversando com voc�, contando
uma hist�ria coerente e fascinante.
� a� que creio estar a ess�ncia
do g�nio de Armstrong.
NOVA YORK
"Se voc� se dirigir para o norte, ao longo da Ilha de Manhattam,
atravessar o Central Park e sair na S�tima Avenida
ou na Avenida Lenox, na Rua 110,
voc� n�o poder� deixar de se surpreender
com a mudan�a brusca que se v� nos tra�os das pessoas.
No centro e na parte baixa da cidade voc� talvez note
rostos negros aqui e acol�. Mas, quando sa�mos do Central Park,
n�s os vemos por toda parte.
E � medida que subimos qualquer uma dessas duas grandes art�rias
que partem do norte, vemos mais e mais negros andando nas ruas,
olhando pelas janelas, comerciando nas lojas,
comendo nos restaurantes, saindo dos teatros,
at� que, perto da Rua 135, 90 por cento das pessoas vistas,
incluindo os guardas de tr�nsito, s�o negras.
Estamos vislumbrando o Harlem,
a metr�pole negra. James Weldon Johnson"
A Grande Migra��o continuou, e em 1920,
Nova York abrigava mais negros
do que qualquer outra cidade do norte, inclusive Chicago.
A maioria deles morava Uptown,
em um lindo bairro antigo chamado Harlem.
Era o lar da Associa��o Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor.
O quartel-general da Liga Urbana ficava no Harlem.
E tamb�m a Associa��o Universal
para o Progresso do negro, de Marcus Garvey.
O escritor James Weldon Johnson, o poeta Langston Hughes,
a escritora Zora Neale Hurston e o ativista dos direitos civis,
W. E. B. DuBois, todos moravam no Harlem.
Assim como muitos outros artistas que procuravam entender
o significado de ser negro e americano,
parte do que se chamaria a "Renascen�a do Harlem".
M�sicos de jazz tamb�m eram atra�dos ao Harlem.
Havia bastante trabalho em teatros, boates e sal�es de dan�a.
E, com o metr�, a Broadway e as gravadoras de disco
ficavam a uma pequena dist�ncia dali.
Os her�is da m�sica do Harlem eram os mestres de um deslumbrante
estilo virtuoso de piano: O stride.
"Era piano orquestral", recorda-se um de seus astros,
"com acordes expandidos, cheios, redondos,
alternados em rela��o � m�o direita."
Seus praticantes chamavam a si mesmos de "fazedores de c�cegas",
mas os apelidos que davam uns aos outros - "O Urso",
"O Besouro", "A Besta", "O Bruto" - mais pareciam coisa de guerreiros,
apropriados �s eternas guerras de piano,
chamadas "concursos de cortes", que travavam entre si.
No in�cio de 1923, Duke Ellington e dois velhos amigos,
o baterista Sonny Greer e o saxofonista Otto Hardwicke,
se mudaram para o Harlem, ansiosos para descobrir
se tinham o talento necess�rio para vencer na cidade que os m�sicos
de jazz logo chamariam de "The Big Apple".
"Para n�s", recordou Ellington, "Harlem tinha o clima
mais glamouroso do mundo. T�nhamos de ir para l�."
Seu primeiro trabalho em Nova York foi acompanhar um m�sico de vaudeville
chamado Wilbur Sweatman, que insistia que os membros
de sua banda usassem p�-de-arroz para clarear o semblante.
Quando Sweatman deixou a cidade, Ellington e seus amigos batalhavam
trabalho a todo custo, �s vezes trapaceando no bilhar
para poderem se alimentar,
mas sempre ouvindo os pianistas mestres de stride.
Willie "the Lion" Smith simpatizou com Ellington e seus amigos.
Ele dirigia Ellington para trabalhos ocasionais e o incentivava
a tentar a m�o em concursos de "corte".
No outono de 1923, Duke Ellington, Sonny Greer e Otto Hardwicke
mudaram-se para o centro para tocar no Hollywood Inn,
um clube de por�o perto de Times Square.
Eles faziam parte agora de uma banda
de seis m�sicos chamada "The Washingtonians"
especializada em m�sica suave para dan�ar.
Ela era liderada pelo tocador de banjo e pequeno empres�rio Elmore Snowden.
Quando os m�sicos descobriram que Snowden estava embolsando
mais do que a sua parte do pagamento da banda,
eles o expulsaram e fizeram de Duke Ellington o novo l�der.
"Foi no Hollywood Inn", disse Ellington,
"que a nossa m�sica adquiriu novas cores e caracter�sticas."
Ele estava absorvendo tudo: o ragtime que ouvira quando garoto em Washington;
o estilo mais sofisticado dos mestres de stride do Harlem;
e o som mais solto, embebido no blues de Nova Orleans,
de Sidney Bechet e Louis Armstrong.
Tudo isso logo se refletiria na sua m�sica.
No in�cio, ele tocava m�sica "de sociedade".
Ele faria...
Tocava com esse tipo de vibrato.
E a� ouviu a banda de King Oliver.
Tratava-se de...
Ele disse: "� isso que quero fazer.
Quero ouvir o clarinete, o trombone,
quero esse ritmo e a batida em 4/4."
Em 1924, Duke Ellington estava fazendo seu nome em Nova York.
Ele come�ara a gravar e conseguiu vender algumas can��es
para os editores de m�sica do Tin Pan Alley.
Mas continuava insatisfeito. E confessou sua infelicidade
ao amigo Will Marion Cooke, um maestro de forma��o cl�ssica
e compositor da Broadway.
Durante longas corridas de t�xi pelo Central Park,
os dois conversavam sobre m�sica.
Cooke recomendou a Ellington que ele obtivesse
uma forma��o cl�ssica em conservat�rio.
Ellington sentia que n�o tinha tempo para isso.
"Eles n�o est�o ensinando o que quero aprender", reclamou ele.
"Nesse caso", disse-lhe Cooke, "primeiro ache o caminho l�gico;
quando o achar, evite-o e deixe que seu interior se manifeste e o guie.
N�o tente ser ningu�m a n�o ser voc� mesmo."
Foi um conselho que Duke Ellington seguiria por toda a sua vida.
Duke Ellington sabia como pegar o que "poderia ser"
e transform�-lo em algo concreto.
Ele entendia o que era preciso para
transformar algo invis�vel em vis�vel.
"N�s nos encontramos pela primeira vez - o jazz e eu -
no sal�o de dan�a do Barbary Coast.
Ele guinchava e rugia para mim num palco improvisado,
em meio a um ambiente esfuma�ado de cigarro e vapores de cerveja.
E me bateu forte. Estridente? Sim.
Tosco? Indubitavelmente.
Musical? T�o certo quanto se est� vivo. Paul Whiteman"
Paul Whiteman era um violinista do Colorado,
formado em conservat�rio, que abandonou uma carreira cl�ssica
depois de ouvir uma banda de jazz certa noite em S�o Francisco.
Ele ficou totalmente pasmo.
Tinha tanta for�a, era divertido.
Ele levantou-se triste e voltou
para casa � noite flutuando.
Divertiu-se para valer.
Tendo em vista sua forma��o
- seu pai era professor de m�sica e tocava
viola numa orquestra sinf�nica -,
ele n�o pensou em tocar o jazz
daquele modo, mas em convert�-lo ao seu modo.
Whiteman estava convencido de que poderia encontrar um meio de
orquestrar o jazz, de torn�-lo ainda mais comercialmente vi�vel,
de reter seu ritmo e harmonia enquanto o deixava t�o preciso
e previs�vel quanto a m�sica cl�ssica.
Seus arranjos, disse ele, tencionavam fazer do jazz uma dama.
Ele obteve seu primeiro grande sucesso em 1920 com o disco "Whispering".
Suave, amplamente orquestrado,
ele vendeu 2 milh�es e meio de unidades,
mais de 250 vezes o que "Chimes Blues", de Oliver e Armstrong, venderia.
A orquestra de Paul Whiteman logo se tornou a mais celebrada
e imitada dos Estados Unidos, lan�ando uma nova tend�ncia
na m�sica de dan�a da sociedade.
Em 12 de fevereiro de 1924, uma multid�o apareceu
no Aeolian Hall, em Nova York, para ouvir a orquestra de Paul Whiteman
tocar o que foi anunciado como um "experimento de m�sica moderna".
O concerto inclu�a um trabalho novo em folha,
especialmente encomendado a um jovem compositor nova-iorquino,
filho de imigrantes russos, chamado George Gershwin,
que, como Duke Ellington, havia passado horas e horas
ouvindo pianistas negros no Harlem.
A m�sica de Gershwin era algo inteiramente novo,
uma pe�a cl�ssica impregnada do sentimento do jazz.
E ela se tornaria uma das composi��es mais amadas
de toda a m�sica americana: "Rhapsody in Blue".
O concerto foi um enorme sucesso. Quatro horas de m�sica elegante
e orquestral, sem sinal algum de improvisa��o.
E quase imediatamente Paul Whiteman foi apontado como o rei do jazz.
� claro que isso deixou muitos negros,
na �poca e depois, loucos da vida,
pois era �bvio demais: Paul "Homem Branco"
era o rei do jazz. Aparentemente,
o pr�prio Whiteman nunca pretendeu ser nada disso.
Um dia os cr�ticos acusariam Whiteman de diluir o jazz,
e roub�-lo dos negros americanos.
Mas Whiteman sempre reconheceu a d�vida que tinha.
Os brancos se envolveram com o jazz
n�o com o intuito de zombar dos negros
ou de avilt�-los, mas levando em conta
que era uma forma de arte
que eles queriam pegar e expressar ao seu pr�prio modo,
respeitando-a e elevando-a.
� isso que torna Whiteman importante.
Ele queria pegar aquela m�sica
com seus pr�prios termos.
Isso teria um efeito sobre todos aqueles
associados a essa m�sica, brancos ou negros.
Whiteman dava trabalho por tr�s do pano a arranjadores negros
e queria contratar m�sicos tamb�m negros para a sua orquestra.
Mas mesmo na Era do Jazz isso era imposs�vel.
No mesmo ano do triunfo de Whiteman no Aeolian Hall,
um jovem band-leader negro, chamado Fletcher Henderson,
se apresentou no principal sal�o de bailes de Nova York, o Roseland,
em Times Square, tocando apenas para brancos.
De fala macia, Henderson era filho de uma professora de piano
e um diretor de escola, e havia vindo do norte do estado de Nova York
atr�s de um diploma em Qu�mica na Universidade de Col�mbia.
Mas, quando suas economias acabaram, ele se voltou para a m�sica
e foi arrastado pela loucura do jazz.
No Roseland, ele se tornou famoso por tocar m�sica para dan�ar
com um refinamento inigualado por qualquer outro
band-leader negro desde James Reese Europe.
Havia dois reis do cen�rio das bandas em NY.
Havia o rei branco, Paul Whiteman,
que tinha os melhores m�sicos brancos do pa�s,
e havia F. Henderson, que tinha os
melhores m�sicos negros. Eles eram amigos
e se ajudavam, trocando arranjos etc.
Certa noite, Whiteman levou sua banda para ouvir a de Henderson.
E ent�o disse aos seus m�sicos que,
se Fletcher fosse branco, seria um milion�rio.
Mas, como Duke Ellington, Henderson ficou inquieto
com a m�sica de dan�a convencional que vinha tocando.
Ele estava determinado a criar um estilo s� seu.
Queria combinar a eleg�ncia de seus arranjos anteriores
com algo mais empolgante,
mais estimulante, mais espont�neo.
Fletcher Henderson come�ou a procurar um solista, um especialista em jazz,
assim o chamou, que pudesse ajud�-lo.
Ele sabia de um trompetista da banda de King Oliver, em Chicago,
de cuja genialidade outros m�sicos come�avam a falar.
Levaria um tempo, mas, quando conseguiu convencer aquele especialista
a ir para Nova York, o jazz mudaria para sempre.
PARA FAZER OS ANJOS CHORAREM
Por quase dois anos, Louis Armstrong permaneceu
na Creole Jazz Band de King Oliver.
Havia tamb�m na banda uma pianista chamada Lil Hardin.
Ela era diferente de qualquer outra mulher que Armstrong j� conhecera.
Eu sempre ouvia os m�sicos falarem
sobre o pequeno Louis e de como
ele iria ser um grande trompetista.
O pequeno Louis. E, quando o trouxeram
ao Dreamland para me conhecer,
vi que ele tinha uns 100kg.
Perguntei: "Por que o chamam de pequeno Louis,
com esse tamanh�o todo?"
N�o fiquei nada impressionada.
N�o gostei de nada nele,
do modo de vestir, do modo de falar.
Enfim, ele subiu no palanque.
E eu tocava... Sabe, as garotas
usavam ligas para segurar as meias.
Quando eu me sentava para tocar,
abaixava as meias at� a altura
das ligas abaixo do joelho.
A 1a. Coisa que Louis viu foi o meu joelho.
E como o olhava. Pensei: "� melhor
ele n�o transformar suas id�ias em palavras."
Lil Hardin era ambiciosa,
articulada e, como Armstrong, infeliz no casamento.
Apesar de sua primeira impress�o, ela acabou se apaixonando por ele.
Em 5 de fevereiro de 1924, Louis Armstrong, rec�m-divorciado
de sua primeira mulher, casou-se com Lil Hardin, em Chicago.
Lil encorajou Armstrong a seguir seu pr�prio caminho, mas ele estava
relutante em deixar o homem que ainda chamava de senhor Joe.
Ele disse que lhe devia muito e que n�o estava certo
se seria bem-sucedido por conta pr�pria.
Mas Lil persistiu: "Eu n�o quero ser casada com o segundo trompetista.
Quero que voc� seja o primeiro."
Ent�o, na primavera de 1924, Armstrong recebeu uma proposta
que n�o podia ignorar.
Fletcher Henderson queria que ele fosse para Nova York.
Como na sua chegada a Chicago, dois anos antes,
a estr�ia de Armstrong em Nova York n�o foi auspiciosa.
"O baterista Kaiser Marshall tinha um carro e nos levou
ao centro para conhecermos Louis.
Ele era grande e gordo e usava t�nis de cano longo, com presilhas.
Quando vi aquilo, pensei comigo mesmo: 'Quem diabos � esse cara?
N�o pode ser Louis Armstrong.' Don Redman."
Louis Armstrong, criado na pobreza das ruas de Nova Orleans,
n�o poderia ser mais diferente do que o seu novo e sofisticado empregador.
Mas, quase desde o in�cio, Armstrong influenciou
um em cada dois m�sicos de jazz da cidade.
Vim para NY em 1924. Foi a primeira vez
que ouvi Louis ao vivo.
Fletcher n�o tinha m�sica para ele nessa �poca.
Ele ficava l� sentado, segurando o trompete,
esperando a hora de solar.
E, quando chegava o momento, ele se
levantava e tocava feito o diabo.
O p�blico delirava.
Os solos de Armstrong transformaram a banda.
Don Redman, o arranjador de Henderson, come�ou a escrever novas pe�as
que destacavam o poderoso trompete de Armstrong
e seu senso r�tmico inigual�vel, o que o pr�prio Henderson chamava
de o "balan�o" de Nova Orleans de Armstrong.
"Certa noite, no Roseland, Armstrong come�ou a tocar 'Shanghai Shuffle'.
Acho que o fizeram tocar uns dez solos. E eu fiquei em sil�ncio,
me sentindo meio acanhado, pensando se algum dia conseguiria alcan�ar uma
pequena parte da grandeza de Armstrong. Coleman Hawkins."
Armstrong transformou a orquestra,
os m�sicos dela e, em �ltima inst�ncia,
todos os outros de NY que estavam tocando jazz,
e at� m�sicos populares.
Ele trouxe, em primeiro lugar,
uma tremenda anima��o r�tmica.
Armstrong era econ�mico. Ele tocava
poucas notas, mas cada uma contava
e representava algo. Ent�o,
igualmente importante, ele trouxe o blues.
Armstrong demonstrou que o blues
talvez fosse o maior presente musical
j� produzido nos EUA.
Ele tocava blues com tal convic��o,
sentimento e vigor que todos queriam isso.
Duke Ellington j� estava em NY.
Ele acompanhava cantores, tinha uma
pequena banda, mas lhe faltava algo.
E ele n�o sabia o que era at� ouvir Armstrong.
Suingue � tirar a nota certa no momento certo,
nem antes nem depois.
Portanto, no jazz, que � uma m�sica r�tmica,
� preciso ter o tempo e o pulso.
Ao tocar, voc� faz...
n�o pode ser...
�...
E continue assim. N�o mude.
� como a batida do cora��o.
Voc� olha o p�blico, ele entende,
come�a a acompanhar com o p�
e depois vai se levantar e suingar.
� isso que torna o jazz t�o �nico
e com tamanha grandeza.
"Ningu�m", disse um m�sico,
"sabia o que era suingar at� Louis aparecer."
A chegada de Armstrong em setembro de 1924
foi fundamental, pois ele era o mais
importante m�sico de jazz do mundo
e estava na maior cidade do pa�s,
ensinando sua banda mais importante a suingar.
Ele toca em bailes para jovens negros em Uptown
e altera carreiras como as de
Rex Stewart, G. Rogers e dos m�sicos
da se��o de saxofone de Ellington.
Russel Procoe era violinista quando
ouviu Armstrong. Ele disse: "Vou tocar
um instrumento adequado para esta m�sica."
E passou a tocar saxofone alto.
Al�m do mais, nY era o melhor lugar
para grava��es. Louis Armstrong
p�de fazer grava��es free-lance.
Ele gravou com Bessie Smith, Ma Rainey,
e o Blue Five, de Clarence Williams, com Sidney Bechet.
E os discos alcan�am um p�blico que
n�o pode ir ao Roseland ou Uptown.
O jazz se firma porque Louis veio
a NY e ensinou o mundo a suingar.
Senhoras e senhores, vamos dar uma
pequena volta na selva e queremos
que voc�s todos nos acompanhem.
Aquele tigre est� correndo muito r�pido
e v�o ser necess�rios alguns solos para alcan��-lo.
Portanto, contem comigo. Sim, senhor.
Este trompete Selmer vai escapar
de voc�s desta vez. Cuidado, rapazes, estou pronto.
Louis Armstrong inventou um novo estilo de tocar.
Ele criou o solo coerente.
Ele fundiu o som do blues com a can��o popular americana.
Armstrong estendeu o alcance do trompete.
Criou o vocabul�rio mel�dico e r�tmico a partir
do qual as big bands escreviam a m�sica.
Em �ltima inst�ncia, Armstrong
se encaixa na defini��o de um g�nio.
Acho que, em parte, por ouvir
algo que mais ningu�m ouve.
Ele ouvia ritmos, melodias e um som,
um meio de estender sua voz no trompete. Tudo muito original.
O resultado � t�o poderoso,
t�o espiritual que � o quanto basta
para fazer os anjos chorarem.
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