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Original subtitles

Na primavera de 1944,

os nazistas assistem a uma apresenta��o incomum

do Requi�m de Verdi.

O coro e o maestro s�o todos prisioneiros

do campo de concentra��o de Terezin.

Os prisioneiros de Terezin

canalizam a mais sombria experi�ncia humana

para uma explos�o de arte e m�sica,

e usariam isso para desafiar os nazistas.

Fazer uma apresenta��o n�o era divers�o.

Era uma luta pela vida.

Era algo que nos fortalecia.

� a raz�o pela qual chamamos isso

de resist�ncia cultural.

Isso nos deu resist�ncia contra o nosso destino.

Tent�vamos alcan�ar algo maior que n�s mesmos.

E esperemos estar cantando para Deus,

e que Deus n�o possa deixar de nos escutar.

Agora, um novo coro traz o R�quiem de volta a Terezin

e traz � vida a hist�ria dessa rebeli�o art�stica.

Aqui estavam eles, cercados hora a hora

pelo que h� de pior no homem,

e aqueles prisioneiros judeus

e as pessoas criativas daqui

estavam determinadas a lembrar a todos

o que h� de melhor no homem.

E eu trouxe Verdi para c�

porque quero garantir a essas pessoas que as ouvi.

Agora temos que contar...

Temos que contar �s pessoas

das sepulturas n�o identificadas

que nos as ouvimos.

LEMBRANDO O HOLOCAUSTO

LEMBRANDO O HOLOCAUSTO R�QUIEM DESAFIADOR

R�QUIEM DESAFIADOR

Em uma pequena cidade da Rep�blica Tcheca,

um armaz�m est� sendo preparado

para um novo despertar.

Amanh�, um maestro americano

encenar� uma apresenta��o especial,

um tributo a um coro de prisioneiros

e a outro maestro, Rafael Schachter,

que os liderou em uma rebeli�o extraordin�ria.

Esta � a primeira vez

que a hist�ria de Schachter e seu coral

e a conex�o dela com o campo de concentra��o

do gueto de Terezin vem ao lugar onde nasceu.

Ela pertence a este lugar.

Neste mesmo ch�o, aquelas pessoas andaram

e viveram como prisioneiras.

Dentro destes muros,

um campo de prisioneiros judeus

ficou cara a cara com seus captores nazistas

e se defendeu com m�sica, apresentando

uma das mais dif�ceis composi��es para coro

do mundo, a Missa de R�quiem de Giuseppe Verdi.

Por mais de 10 anos, o maestro Murry Sidlin

sonhou em trazer aqui o seu pr�prio coro...

Muito obrigado.

Para reacender o esp�rito deles.

Desde que eu soube o que aconteceu aqui

e sobre a extraordin�ria declara��o art�stica

que Schachter e seu coro decidiram que fariam,

pensei que a coisa certa seria

n�o apenas homenage�-lo, mas todos os que cantaram

e todos os que escutaram,

e redespertar todas essas paredes

com os sons de Verdi,

que n�o eram ouvidos aqui h� muito e muito tempo.

2 dias para a apresenta��o

Obrigado.

Pode continuar agora, por favor.

Certo, agora precisamos do F�. Pronto.

A hist�ria deste R�quiem Desafiador

come�a � medida que chega ao fim

a vida judia na Tchecoslov�quia.

Praga, 1941.

O m�sico Rafael Schachter prepara-se para uma viagem.

Para onde vai... Ele n�o faz ideia.

O imp�rio nazista de Hitler engoliu a cidade,

uma das mais vibrantes capitais culturais

da Europa.

Os nazistas esmagam a comunidade criativa

da cidade e Schachter e seus colegas

artistas judeus se veem exclu�dos,

marcados como forasteiros.

Come�ou com n�s tendo que usar a estrela.

Quem fosse visto sem ela,

seria punido com a deporta��o.

Meu pai foi expulso do escrit�rio dele

dias ap�s a invas�o alem�,

sem pens�o ou qualquer compensa��o

para sustentar a fam�lia.

E todos os ativos financeiros foram congelados,

inacess�veis aos judeus.

Aos 29 anos, Rafael Schachter

se estabelecera em Praga

como pianista e maestro talentoso.

Mas, sob os nazistas,

os judeus s�o banidos das artes,

expulsos das escolas e confinados aos seus lares

por um toque de recolher noturno.

Roubado da arte e da renda dele,

Schachter se esfor�a para ganhar a vida

como professor de piano.

Ele foi meu professor de m�sica

desde que eu tinha uns 8 anos.

Supunha-se que ele me ensinaria

a tocar piano.

Ele n�o podia fazer de mim uma musicista,

mas apresentou-me ao mundo da m�sica.

Os famosos teatros e salas de concerto da cidade

ca�ram em sil�ncio.

E em novembro de 1941,

os nazistas cerraram as cortinas

para a vida judia em Praga.

Come�ou-se a filtrar not�cias de que faziam listas

de fam�lias judias

e de que elas seriam mandadas para algum lugar.

Havia minha m�e, meu irm�o, minha irm� e eu.

E todos ganhamos um n�mero de transporte.

S-204, 205,

206 e eu, 716.

E pensei que era como se a m�o do destino

tivesse me tocado.

S�o m�s not�cias.

Os nazistas for�am todas as fam�lias judias

a empacotar as vidas delas

e as limitam a 50 kg de bagagem.

110 libras selecionadas de uma vida inteira.

Rafael Schachter pega as coisas

que d�o sentido � vida dele:

as ferramentas da profiss�o dele,

partituras de piano,

incluindo a Missa de R�quiem de Giuseppe Verdi.

�s 5:00 de uma manh� de novembro,

Schachter e centenas de judeus tchecos

embarcam no primeiro trem para o desconhecido.

Quando chegamos � esta��o,

fomos cercados pelas SS com rifles

e a partir daquele momento �ramos prisioneiros.

Chegamos � esta��o e j� havia muita gente,

e idosos e crian�as chorando,

sendo empurrados para um trem.

E l� fomos n�s.

Nem imagin�vamos para onde �amos.

O trem os leva a apenas 65 km a oeste de Praga,

para uma antiga fortaleza

transformada em um novo campo

de prisioneiros judeus, Theresienstadt.

Terezin.

A cidade foi selecionada pelo homem encarregado

de arrebanhar os judeus da Europa,

o tenente-coronel nazista Adolf Eichmann.

Com apenas 1,5 km quadrados de �rea

e confinada por um muro alto,

a velha fortaleza serviria como um curral j� pronto

para os judeus tchecos.

At� mesmo os alicerces do s�culo XVIII da cidade

s�o assustadoramente prof�ticos,

constru�dos em forma de uma estrela de 6 pontas.

Milhares de fam�lias s�o levadas

para o novo gueto judeu.

O trem parava em um lugarejo

chamado Bolshevize, e de l� caminh�vamos

por estradas rurais que pareciam sem fim,

dois a dois, com toda a nossa bagagem.

A esta��o ferrovi�ria ficava a 3 km de dist�ncia.

T�nhamos que carregar

os 50 kg de bagagem permitidos.

E caminh�vamos os 3 km para entrar

por um dos port�es para o desconhecido total.

Ordenavam-nos, "Raus, depressa, depressa",

porque os alem�es queriam sempre

que fiz�ssemos tudo depressa.

Por mais r�pido que fiz�ssemos,

nunca era r�pido o bastante.

E ent�o entr�vamos todos pelos port�es.

Eu sabia que a vida jamais seria a mesma.

Os guardas nazistas despojavam

os rec�m-chegados de dinheiro e valores

e de qualquer apar�ncia de vida normal.

As crian�as eram arrancadas dos pais,

maridos e mulheres separados em beliches

para homens e para mulheres.

Os barrac�es empoeirados da fortaleza

logo ficam abarrotados do ch�o aos s�t�os

com prisioneiros judeus.

Rafael Schachter abre um espa�o para ele

entre as vigas de uma antiga casa.

Tudo era organizado.

Cada parte da vida em Terezin era organizada:

como construir os beliches de tr�s andares...

O espa�o de cada um media exatamente 1,6 m.

No in�cio, viv�amos em um sal�o imenso,

onde havia, creio, umas 400 pessoas

em um c�modo.

Minha m�e ficou em um barrac�o diferente,

e minha irm� tamb�m,

e n�o pod�amos visit�-las.

Por v�rias semanas,

minha m�e e eu n�o soubemos onde meu pai estava.

e ele n�o soube onde n�s est�vamos.

No dia seguinte � chegada dele,

Rafael Schachter foi designado

para uma equipe de constru��o,

for�ado a trabalhar at� 100 horas por semana.

Outros prisioneiros trabalhavam em f�bricas,

costurando uniformes para os soldados alem�es.

Artistas judeus eram convocados

para produzir propaganda nazista.

Mas � noite, com suprimentos roubados,

eles arriscavam a vida para registrar secretamente

os horrores � volta deles.

No momento em que se abria os olhos,

a luta come�ava.

Claro, a luta pelas necessidades triviais

do dia a dia: lavar-se, ir �s latrinas...

Converteram-nos de pessoas normais

em prisioneiros.

O slogan alem�o no campo �:

"O trabalho liberta"...

Mas a recusa a trabalhar

significa encarceramento brutal

na pequena fortaleza pr�xima,

onde os prisioneiros s�o torturados e executados.

Para todos os outros em Terezin,

a fome constante � em si uma tortura.

Claro que n�o havia comida.

N�o havia mais que uma x�cara assim,

e era s� uma esp�cie de bocados aguados,

ou o que fosse, mas a comida que engol�amos

nunca era suficiente.

Aqueles de n�s que trabalahavam na cozinha

pod�amos ter um pouquinho mais de comida

al�m de apenas uma batata e uma concha de sopa.

Mas lembro-me de que, quando a distribu�amos,

os velhos ficavam na fila por horas

e, se era sopa, eles vinham com um pratinho

e diziam: "Tire do fundo, por favor",

para que viesse algo,

um peda�o de batata, talvez,

ou um pouco de algo.

Ent�o para eles era um verdadeiro sofrimento.

Cercado pela mis�ria, Rafael Schachter percebe

que o que os libertar� n�o ser� o trabalho,

mas a m�sica.

Ele descobre um velho piano no por�o de um barrac�o

e resolve se arriscar.

O primeiro recruta dele � o cozinheiro de 21 anos

que partilha com ele o espa�o no s�t�o,

Edgar Krasa.

Ele avaliou imediatamente

que uma mentalidade de pris�o

poderia se instalar, ent�o nos encorajou

depois de terminado o trabalho designado,

a ir ao por�o e cantar,

come�ando com can��es populares tchecas.

� noite, ap�s longos dias de trabalho,

Schachter come�a a fazer reuni�es musicais secretas.

Ele toca profundamente o orgulho tcheco,

animando seus companheiros prisioneiros

com uma apresenta��o da �pera c�mica de Smetana,

"A Noiva Vendida".

Esquecemos quem somos, esquecemos o ambiente.

Era como se eu estivesse em um teatro em Praga.

e n�o importava onde era.

Essa hora e meia encurtava o tempo que t�nhamos

para pensar no nosso novo estilo de vida

e fazia mais ainda.

No dia seguinte, no trabalho,

j� ocup�vamos nossas mentes

ansiando pela noite para cantar novamente.

Carregar aquelas can��es que todos conhec�amos,

n�s as traz�amos nas nossas mentes

e isso era parte do mecanismo

para nos ajudar a suportar.

Rafael Schachter abrira um ref�gio

para seus colegas prisioneiros com m�sica.

Eles n�o t�m ideia do qu�o importante

isso se tornar�.

1 dia para a apresenta��o

Certo. Vamos nos acomodar, por favor, para come�ar.

E fiquem de p� quando o piano tocar.

Certo? Falamos sobre isso. Obrigado.

�timo. Certo. Vamos come�ar do in�cio, por favor.

Tudo bem?

O apito do trem pode ser mais alto

e um pouco antes, por favor?

Todos temos um poderoso armaz�m emocional,

e n�o temos necessariamente a linguagem

para alcan�ar a for�a dos nossos sentimentos.

Quando a linguagem comum n�o consegue mais

sequer chegar perto do que estamos sentindo,

e a� que a arte come�a.

Dentro dos muros de Terezin,

Schachter e seus colegas prisioneiros

desencadeiam um dil�vio de cria��o art�stica.

M�sicos encenam concertos

dos compositores judeus presos

Viktor Ullmann e Gideon Klein.

Pavel Haas e Hans Kraza

escrevem novas composi��es musicais.

Dramaturgos montam novas produ��es,

criando cen�rios e figurinos

com quaisquer materiais que conseguem encontrar.

Terezin irrompe em um florescente centro cultural,

uma academia de prisioneiros.

A chegada daqueles artistas

dispostos a devotar o talento deles

em benef�cio deles e dos prisioneiros

fez toda a diferen�a.

Dar-nos aquele lampejo de esperan�a

na negra monotonia sem esperan�a do campo

dia ap�s dia.

Desde o in�cio,

tudo com que viv�amos em Terezin era a no��o

de que em mais 2 meses a guerra terminaria,

fechariam o port�o e ir�amos para casa.

Ent�o, nesse meio tempo,

naturalmente houve um surto de energia para as artes,

o que � bastante normal.

Se as pessoas t�m a liberdade roubada,

elas querem ser criativas.

E elas foram.

Os artistas de Terezin

se esfor�am para encontrar humor

atrav�s da s�tira da vida sob os nazistas,

�s vezes perigosamente for�ando o limite.

Uma pe�a, "O �ltimo Ciclista",

zomba da tirania do Terceiro Reich,

retratando uma sociedade perversa

empenhada em matar n�o judeus,

mas pessoas que andavam de bicicleta.

Havia os gerentes judeus

que sempre iam ao ensaio geral,

e eles foram ver "O �ltimo Ciclista"

e disseram: "N�o podemos ter isso, de jeito nenhum".

"Lamentamos, mas isso causar� muitos problemas."

"N�o queremos criar mais problemas

do que j� temos."

"N�o, ela n�o ser� encenada."

Os prisioneiros de Terezin enfrentavam fome incessante

para alimentar um anseio art�stico mais profundo.

Para necessidades espirituais,

voltavam-se para a f� deles.

Rabinos internados no campo

transformam um c�modo escondido

em uma sinagoga secreta.

Os rabinos estavam felizes.

Nunca tantas pessoas haviam ido voluntariamente

aos serm�es deles.

Todos queriam ir, porque lhes lembrava

a vida no lar, quando se assistia a concertos

e a outras atividades culturais,

e sobrava menos tempo para pensar na vida atual.

Acad�micos de todas as disciplinas

d�o palestras para plat�ias lotadas

sobre Ci�ncia, Religi�o, Psicologia...

Em certo sentido, era como ir � universidade.

Eu tinha basicamente aquela idade.

Quando cheguei aqui, eu tinha 18 anos.

E �amos a palestras sobre Hist�ria da Arte.

Lembro-me de ir a palestras sobre F�sica.

Eram experi�ncias que eu n�o tivera antes, ent�o...

N�o se pode chamar isso de normalidade,

mas era algo muito diferente.

Havia an�ncios, havia programas,

ent�o toda noite podia-se de fato

fazer parte daquela vida.

A vida art�stica em Terezin.

Por toda a Europa ocupada pelos alem�es,

judeus eram arrebanhados em guetos,

proibidos de se reunir, tocar instrumentos musicais

ou de aventurar a sair � noite.

Mas dentro dos muros de Terezin, os prisioneiros

encontram uma estranha liberdade art�stica

Os alem�es sabiam muito bem

que est�vamos destinados � morte,

e que o sorriso seria apagado de nossos rostos,

ent�o eles pensavam, "Deixe-os tocar m�sica,

deixe-os fazer teatro, deixe-os dan�ar."

Ent�o dan��vamos sob os pat�bulos.

Trens chegam a cada poucos dias,

trazendo milhares de novos prisioneiros

para o gueto superlotado.

Na pequena fortaleza, judeus

e prisioneiros pol�ticos s�o brutalmente espancados,

torturados at� a morte ou executados.

600 prisioneiros s�o amontoados

em um �nico c�modo com dois banheiros,

pouca comida e a implac�vel propaga��o de doen�as.

Dia sim, dia n�o, ou a cada 3 dias,

outro milhar chegava.

Eles vinham, fam�lias inteiras.

Viver assim em condi��es de superlota��o

� muito dif�cil.

Havia pulgas o tempo todo, pulgas e percevejos.

E, claro, t�nhamos fome o tempo todo.

Nunca havia comida suficiente.

Em setembro de 1942,

a cidade constru�da para 6 mil pessoas

est� explodindo com quase 60 mil prisioneiros judeus

de lugares t�o distantes quanto Holanda e Dinamarca.

Na Alemanha,

os nazistas vendem pacotes de aposentadoria

para judeus idosos, prometendo su�tes luxuosas

em um condom�nio � beira de um lago,

antes de bot�-los em trens para Terezin.

Eles vinham da Alemanha achando

que estavam indo para uma est�ncia termal.

Que cuidariam deles, que viveriam em um hotel.

Traziam malas com trajes de noite,

e luvas compridas, chap�us com penas e tudo o mais,

e, claro, morriam 200 dessas pessoas por dia.

O tifo devasta o gueto superlotado.

Em um s� ano, quase metade da popula��o morrer�.

Corpos se empilham em tal quantidade,

que os nazistas ordenam aos prisioneiros

que construam um cremat�rio,

onde, contra a lei religiosa dos judeus,

eles s�o for�ados a incinerar seus mortos.

Os velhos morriam como moscas.

E via-se os transportes de cad�veres o tempo todo.

A morte era um conceito com o qual aprendemos a viver.

A morte era onipresente, estava em toda a parte.

Em setembro de 1942,

a Solu��o Final de Hitler

est� matando judeus aos milh�es.

Pela Europa oriental, cidades inteiras,

homens, mulheres e crian�as,

s�o levadas para os campos

e massacradas com metralhadoras.

Na Pol�nia ocupada pelos alem�os,

o campo de exterm�nio de Auschwitz

est� matando tanta gente,

que ordenaram a constru��o de mais duas c�maras de g�s

e 46 fornos adicionais.

Os prisioneiros de Terezin nem imaginavam os horrores

fora dos muros da cidade deles.

Mas em janeiro de 1943,

um novo medo toma conta do gueto:

transportes para o leste.

Era como a espada de D�mocles

sobre nossas cabe�as.

Era o �nico medo.

Transporte para o leste era a a amea�a.

Ningu�m sabia para onde e quando,

e ningu�m sabia quando chegaria a pr�pria vez.

O estranho � que n�o sab�amos

para onde os transportes iam.

A palavra "Auschwitz",

n�o a conhec�amos, n�o a ouv�amos.

Era desconhecida.

Em um toque s�dico,

a escolha dos nomes que estariam na lista

foi delegada pelos nazistas ao l�deres judeus do campo,

o Conselho de Anci�os.

Era uma responsabilidade asquerosa

para os funcion�rios da comunidade jud�ica

ter que escolher pessoas que eles n�o conheciam,

simplesmente juntar mil pessoas e despach�-las.

Eles provavelmente deviam saber

para onde iam aqueles transportes,

mas era a vida deles em jogo.

E isso nunca transpirou. Nunca.

Em pouco tempo,

tantos trens est�o saindo de Terezin,

que os nazistas ordenam aos prisioneiros

que coloquem trilhos no gueto,

construindo a sua pr�pria ferrovia para o abismo.

Durante 6 dias, mil nomes por dia

s�o sorteados em uma loteria horr�vel...

Prisioneiros carregados em vag�es de gado

e enviados para o leste,

para um destino que ningu�m ousa imaginar.

N�o sab�amos que havia campos de exterm�nio.

Que havia campos muito, muito piores que Terezin.

Mas, no entanto,

sentimos algo desconhecido,

e, na nossa situa��o, sendo prisioneiros,

saber algo desconhecido

� um sentimento terr�vel.

� medida que o medo cai sobre o gueto,

Rafael Schachter se volta para um dos poucos bens

que ele trouxe de Praga:

a partitura da Missa de R�quiem

de Giuseppe Verdi.

Com uma das mais poderosas obras para coral do mundo,

ele poderia transformar a arte dele em uma arma.

Na mente dele, ele a transformou de "missa pelos mortos"

para "missa pelos nazistas mortos".

E ele queria contar a eles

sobre a chegada do dia da ira,

e o juiz supremo sentado em julgamento,

e que nenhum pecador escaparia.

E n�o podia dizer isso a eles em alem�o,

ent�o ele pensou que, se pudesse cantar em latim,

ele talvez possa se safar disso.

O texto em latim de Verdi

descreve a vingan�a irada

e o julgamento sagrado.

O plano de Schachter

de usar a ardente missa cat�lica

para denunciar os alem�es

provoca indigna��o em todo o gueto.

O Conselho de Anci�os Judeus

come�ou a receber vibra��es dos rabinos

e sionistas. "Est� brincando?"

"Fazer o R�quiem de Verdi, uma grande obra cat�lica?"

"Voc� s� pode estar brincando!"

Ent�o eles chamam Schachter e dizem,

"Est� tentando desculpar-se por ser judeu?"

"� assim que isso ser� interpretado."

"As pessoas come�am a esbravejar,

a ficar turbulentas. E sabe

como resolver�o isso?"

"Primeiro, matar�o voc�."

"Deportar�o o coro inteiro."

"E acabar�o, acabar�o

com todas as atividades noturnas."

"E a culpa ser� sua."

Ele criou uma tempestade no gueto.

De fato, todos se opunham,

pois como um judeu com cantores judeus

em um gueto judeu, por que escolher

um missa cat�lica, quando h� obras de Handel

com temas judeus que n�o podem ser tocadas

em lugar algum da Europa ocupada?

Este � o lugar, o �nico lugar.

N�o sei o que ele respondeu a eles, mas ele persistiu.

Quando nos permitiram entrar

para o grupo especial de pessoas

escolhidas para o R�quiem de Verdi,

nada mais t�nhamos em nossos cora��es

al�m de gratid�o por Rafi.

Almej�vamos agrad�-lo.

E se algu�m tivesse entrado,

alguns nazistas com algumas armas,

e tivesse dito, "Parem imediatamente

e saiam deste pr�dio, ou matarei todos",

n�o teria havido um que deixasse o pr�dio.

No por�o de um barrac�o de um campo de concentra��o

Rafael Schachter come�a a miss�o da vida dele:

montar uma das composi��es mais exigentes do mundo

com um coro amador de prisioneiros

aprendendo nota por nota, em latim.

Eu jamais ouvira um r�quiem na minha vida.

Eu n�o tinha ideia

da espl�ndida, maravilhosa m�sica.

Tamb�m n�o sabia mais que duas palavras em latim.

E Rafi garantiu que traduziria exatamente

para o tcheco o significado das palavras.

E Rafi nos disse, "O mais importante

� como se sentem ao cantar isto."

Desde o in�cio, Schachter deixa claro

que este R�quiem n�o � apenas

mais uma apresenta��o.

Ele deveria ser uma declara��o,

a maior e talvez a �ltima que eles fariam juntos.

Tinha que ser perfeito.

Ele era um sujeito �timo

com quem se relacionar socialmente,

mas no que dizia respeito aos ensaios,

ele era implac�vel.

N�o pod�amos nos mexer, nem virar a cabe�a,

n�o se podia fazer nada, exceto olh�-lo

diretamente nos olhos.

� uma das pe�as para coro mais exigentes,

exigente n�o apenas musicalmente,

mas emocionalmente, e deve haver precis�o.

Deve haver uma compreens�o do texto.

E se voc� l� o texto como se fosse um prisioneiro,

ele tem um significado totalmente diferente.

Que isso � uma provoca��o!

E, de repente, o "Libera Me",

que significa literalmente "Livrai-me, Senhor!",

torna-se "Libertai-me, Senhor!"

O "Libera Me" era "libertai-nos daqui".

Era como uma ora��o

que superava a fome e as dores ocasionais.

Estava-se ali naquele por�o

e era-se uma pessoa diferente.

N�o tenho certeza

se eu tinha dificuldade em ouvir,

mas acho que meu est�mago parava de roncar

quando eu cantava.

Acho que quando se � mais uma alma que uma pessoa,

n�o creio que a alma tenha que ser alimentada

por nada mais al�m de m�sica celestial.

A alma n�o precisa de mais nada.

Certo. Temos bastante espa�o aqui

e h� lugar ali atr�s.

S� tenham cuidado com esta po�a aqui.

Hoje, o local de ensaio de Rafael Schacter

se enche mais uma vez,

enquanto Murry traz seu coro

antes da apresenta��o desta tarde.

Certo. Aten��o, por favor!

Este �, para mim, um momento muito religioso.

Ap�s muitas horas por dia de trabalho escravo,

aquelas pessoas eram compelidas a vir

para este lugar frio, �nido e sem ar

e ensaiar o R�quiem de Verdi.

Mas uma das coisas mais importantes

que podemos fazer � mais uma vez

cantar esta m�sica para essas paredes

que a ouviram e a absorveram h� anos

e desde ent�o n�o a ouviram mais.

Tudo isto � para dizer

n�o apenas aos sobreviventes,

mas �queles que n�o sobreviveram,

que eles foram ouvidos...

E n�s assim os honramos.

Ent�o vejamos se agora conseguimos cantar isto.

Um si bemol novamente, por favor.

"Libera Me", de Giuseppe Verdi.

Estamos aqui em Terezin neste momento

na primeira semana de mar�o

e est� bastante frio.

E eles entram em um por�o escuro, �mido e frio,

virtualmente toda noite,

porque querem cantar o R�quiem de Verdi.

Conseguem imaginar?

Mal podemos esperar para sair deste lugar

e nos aquecer.

Eles n�o podem se aquecer.

Rafi disse, "Cantaremos isto

em mem�ria de Verdi e em gratid�o por ele,

e voc�s podem sentir, em seus cora��es,

gratid�o por algu�m que tenham amado e perdido."

"Um parente, um amigo,

o que quer que sintam quando tem a parte triste."

"Apenas certifiquem-se

de que esteja se tornando um de voc�s."

Na primeira vez em que viemos,

ela n�o sabia onde estava.

N�o, agora sei onde estou. Ali � Hamburger

e aquele � o port�o para o barrac�o onde vivi.

Essa parte do Hamburger era onde a ferrovia terminava.

Quando os transportes chegavam,

eram recebidos pelos alem�es,

que imediatamente inspecionavam as bagagens

e confiscavam as melhores roupas

e melhores sapatos para enviar � Alemanha.

N�o me lembro de ter ouvido p�ssaros.

N�o me lembro de ter visto grama.

Era sempre mon�tono e lamacento e feio.

646?

Quem tem o solo de trompete 646?

ENSAIO FINAL - Certo.

N�o ouvi. N�o ouvi.

Toque, por favor...

Verdi, Verdi...

Vamos l�. 641.

Obrigado. E 1, 2...

Tenores, suavemente!

N�o cantem gritando.

Obrigado.

Meu filho mais novo,

que tem o nome de Rafi,

chegou para mim e disse,

"Queremos homenagear nosso pai

e Rafi Schachter cantando em Terezin."

E me contou que o irm�o e ele

queriam fazer uma surpresa para o pai deles.

E eu disse, "Bem, descubram se podem,

antes de fazermos alguma coisa."

Ent�o ele telefonou para Murry Sidlin

e conversou sobre o assunto com ele

e quando descobriu que eles poderiam,

ele disse, "Vamos cantar."

De in�cio, queriam fazer segredo

e me surpreender.

Contaram � minha esposa

e ela...

Preocupa-se o tempo todo comigo. N�o sei por que.

N�o h� nada com que se preocupar,

preocupa-se porque n�o h� com que se preocupar.

Na nossa idade, eu n�o queria grandes supresas.

N�o sei, talvez eu seja tola.

Ent�o uma vez eles vieram jantar

e Rafi e Danny trouxeram a partitura deles

e a mostraram a ele

e naquela ocasi�o, disseram a ele,

"Vamos cantar o R�quiem."

�, essa � a outra.

E, na verdade, nunca ouvi meu pai cantando.

1, 2, 3...

Lacrimosa dies illa

Qua resurget ex favilla

Judicandus homo.

"Lacrimosa", de Giuseppe Verdi

� emocional, mas estou muito feliz com isso.

E aguardo ansiosa pela apresenta��o

e pela bela m�sica

e estaremos todos juntos, e isso � �timo.

Eles n�o conseguiram. N�s sobrevivemos.

Em setembro de 1943,

o coro de Schachter ainda n�o dominava o R�quiem,

mas o Conselho de Anci�os anuncia que em 5 de setembro

os transportes ser�o retomados.

O coro de Schachter poderia em breve ser destro�ado.

Os ensaios passaram depressa.

Em 7 semanas...

Em 7 semanas, soube-se

que os transportes seriam retomados.

E ent�o os cantores queriam que ele fizesse

uma apresenta��o, mas ele n�o fez.

porque ela n�o estava conforme o padr�o dele.

Mas quando se soube que em 6 de setembro

5 mil pessoas partiriam,

ele n�o p�de recusar.

Schachter teme que o coro e ele pr�prio

sejam despachados em alguns dias.

Ent�o, com um coro de 150 prisioneiros

e um �nico piano,

Schachter conduz a 1� apresenta��o deles

do R�quiem de Verdi.

Foi extraordin�rio e ainda n�o compreendi.

Havia apenas um piano, mas, para mim,

era como se toda a orquestra tocasse.

E aquilo fez com que nos sent�ssimos humanos.

Naquelas duas horas, �ramos levados de volta

ao belo mundo que uma vez fora nosso.

O mundo das can��es e da melodia

que se est� escutando

e a mensagem que nos era transmitida pelos cantores.

Aquelas eram horas de pura alegria.

Tanto quanto se pode chamar "alegria" no campo.

Este sal�o tornou-se os muros protetores

de algo bom,

algo significativo,

algo curativo

e algo que mostrava a todos

que estivesse ouvindo de fato

que Rafi tinha levado todos n�s,

cantores e audi�ncia,

para um outro mundo.

Este n�o era o mundo com os nazistas,

este era o nosso mundo.

A 1� apresenta��o � uma revela��o,

para Schachter, para os cantores dele,

para os companheiros prisioneiros na audi�ncia,

o pr�prio som da esperan�a.

Eles ficaram perplexos, totalmente perplexos,

n�o podiam acreditar no que Rafi fizera,

com aquelas pessoas, n�s, l� de p�

sem um peda�o de papel, sem coisa alguma,

mas com todas as letras e a m�sica decoradas.

Para muitos no coro e na audi�ncia,

o R�quiem de Verdi

seria a �ltima m�sica que ouviriam.

Na manh� seguinte, 5 mil prisioneiros

s�o levados para os transportes.

Rafael Schachter v� mais da metade do coro

ser levado embora em vag�es de gado.

Era um transporte especial...

Em setembro de 1943...

5 mil judeus de Terezin...

Para Auschwitz.

N�o sab�amos, gra�as a Deus,

pelo menos eu n�o sabia, sobre Auschwitz.

Era chamado de "reassentamento".

E nenhum de n�s sabia sobre as c�maras de g�s.

N�s imagin�vamos, "N�o � muito bom aqui,

mas ao menos sabemos o quanto � ruim."

"Se formos para outro lugar,

talvez l� haja mais comida, talvez seja melhor,

mas n�o serei volunt�rio para coisa alguma."

Ao longo dos pr�ximos 6 meses,

Schachter recruta novos cantores

e refaz o seu coro.

Eles cantar�o o R�quiem

para os companheiros prisioneiros 15 vezes,

constantemente refor�ando o coro e o esp�rito deles,

� medida que os colegas cantores s�o levados

pelos transportes.

Quer fossem membros do coro,

quer fossem pessoas que viviam no nosso c�modo

no barrac�o,

lament�vamos por eles terem que partir

e por perdermos outro amigo.

Mas todos viviam com essa preocupa��o.

Isso era pior que a fome e tudo o mais.

O press�gio n�o era nada bom,

porque os transportes partiam para o leste.

Por aquela �poca, houve um fugitivo de Auschwitz,

Siegfried Lederer,

que foi para Theresienstadt.

Estava escondido l� no por�o.

E ele disse: "� morte garantida."

Ent�o, aqueles que duvidavam,

o que h� nesse "leste",

ouviram de uma testemunha em primeira m�o.

Fora de Terezin,

a m�quina da morte nazista

opera agora 6 campos da morte,

um sistema impiedosamente eficiente

com o prop�sito de apagar o povo judeu.

Enquanto os judeus da Europa desaparecem,

os nazistas concebem um artif�cio c�nico

para esconder os verdadeiros horrores

do Terceiro Reich

por tr�s da fachada art�stica de Terezin.

Primavera, 1944.

Ap�s viverem 2 anos como prisioneiros,

os internos de Terezin recebem ordens

para fazer uma reforma no campo.

Paredes e pavimentos s�o esfregados,

jardins s�o plantados,

e vitrines falsas s�o enchidas com bens

da pr�pria bagagem dos prisioneiros.

Minha m�e deveria fazer cartazes com tinta a �leo

que tinham uma seta e diziam:

"PARA A BIBLIOTECA"...

FILME NAZISTA ENCENADO

"PARA A CAFETERIA"...

"PARA O PARQUE INFANTIL"

Ela n�o tinha ideia de aonde isso levaria.

Isso foi usado em Terezin para a Comiss�o ver

que t�nhamos uma cafeteria, um banco,

um parque infantil, t�nhamos tudo!

Os nazistas completam o embelezamento

enxugando as multid�es.

Quase 8 mil pessoas, �rf�os, idosos, doentes,

qualquer um que n�o se encaixe,

s�o despachados para morrer em Auschwitz.

Em 23 de junho,

os Nazistas convidam uma delega��o

da Cruz Vermelha Internacional

para uma visita ao que os alem�es chamam

"uma cidade judia autogovernada".

A inspe��o � organizada pelo tenente coronel nazista

Adolf Eichmann...

E coreografada at� o �ltimo detalhe.

Nada, nada escapou ao planejamento.

Nenhum canto foi omitido

para tornar tudo convincente.

FILME NAZISTA ENCENADO

Escolheram prisioneiros que sabiam jogar futebol.

FILME NAZISTA ENCENADO

Ent�o eles jogaram futebol e a comiss�o passou por l�

e at� marcaram um gol.

O cen�rio foi planejado com perfei��o.

Os nazistas completam a farsa

filmando a cidade reformada

para um filme de propaganda.

"Theresienstadt"

"O F�hrer d� uma cidade aos judeus"

FILME NAZISTA ENCENADO

For�am um prisioneiro judeu,

um conhecido ator chamado Kurt Gerron,

a dirigir o filme.

Uma vis�o distorcida para o mundo

de Terezin como uma aldeia de fantasia judaica.

"No terreno da velha fortaleza,

as pessoas aproveitam alegremente

as horas de lazer ao sol."

O ponto alto da inspe��o da Cruz Vermelha

ser� uma apresenta��o do R�quiem de Verdi.

As c�meras deles capturam a �nica foto de Schachter

e seu diminu�do coral ensaiando.

A ordem veio do comandante do campo.

Ele queria a apresenta��o

para o pessoal da Cruz Vermelha su��a.

e para os figur�es que vieram de Berlim

para apertar a m�o deles por um bom relat�rio.

Os transportes reduziram o coro de Schachter

para 60 pessoas,

menos da metade do tamanho original.

Mas agora eles teriam a oportunidade

com que Schachter sonhara:

arriscar tudo e confrontar os nazistas cara a cara,

e cantar para eles o que n�o ousavam dizer.

Schachter tinha um grande dilema.

Ele era perfeccionista.

Ele n�o gostava da composi��o do coro,

mas era um tremendo desafio

ter os alem�es bem ali na frente dele

e dizer na cara deles...

"Dia da Ira"

"O dia da ira,

esse dia dissolver� o mundo em cinzas"

"Qu�o imenso ser� o terror,

quando o Juiz vier"

"Quem esmagar� tudo completamente"

Se os alem�es tivessem sabido

o que estava se desenrolando...

Se eles tivessem sabido

que Rafael estava tentando dizer a eles

que eles tamb�m seriam julgados

um dia desses pelos crimes

que cometeram contra a Humanidade,

eles teriam punido para valer os artistas.

Sem Rafi, n�o teria acontecido,

e provamos, sem sombra de d�vida,

que sim, eles tinham os nossos corpos,

sim, n�o temos mais nomes, temos n�meros,

mas eles n�o t�m a nossa alma,

a nossa mente, o nosso ser,

nosso... O que somos n�o nos pode ser tirado,

tamb�m n�o ser� tirado

no momento em que nos matarem.

"Dia da Ira", mesmo como ouvinte,

sente-se que � poderosa.

Ela representa uma amea�a

da qual alegremente participar�amos

como vingan�a pelo que foi feito conosco.

"O que quer que esteja escondido, ser� revelado"

"E nada permanecer� n�o vingado"

"n�o vingado"

N�o houve aplausos, mas estou certo

de que os su��os ficaram impressionados.

E os alem�os estavam cientes

de que cant�vamos o nosso pr�prio r�quiem,

porque sabiam o que tinham em mente

para n�s, ao passo que n�s n�o sab�amos.

Rafael Schachter e seus 60 cantores

entregaram a mensagem deles

na cara dos seus captores.

Agora eles se apegam � possibilidade

de que a Cruz Vermelha a ouvir�.

Temos todos uma esperan�a muito profunda

que algumas das pessoas,

os representantes da Cruz Vermelha,

fa�am uma pergunta inquisitiva.

Porque foi uma cidadezinha lindamente pitoresca,

o que mostraram a eles.

Ent�o esper�vamos mesmo

que eles n�o ca�ssem como patinhos.

Que dissessem, "Certo, agora vamos ver este lado."

Ou "Vamos perguntar a algu�m algo sobre isto."

N�o creio que algum interno

teria ousado dizer a verdade.

Mas eles poderiam t�-la visto, se tivessem sa�do

do caminho planejado para eles.

Mas eles nunca o fizeram.

Acho que queriam acreditar no que viam.

Pensei que, com o que est�vamos cantando,

pud�ssemos dizer, "Deixem-me passar,

quero mostrar algo a eles."

Dizer a eles, "Entrem em tal casa."

"Veem esses portais? Passem por qualquer um deles."

"Voc�s ficar�o surpresos

com o que encontrar�o l� dentro."

Mas n�o havia como fazer isso.

Ent�o eles voltaram para a Su��a

e disseram que os judeus est�o muito bem.

Eles apresentam �peras engra�adas

e �peras para crian�as.

E as crian�as brincam em belos balan�os

e cavalos de balan�o.

E � tarde, elas cochilam na grama...

E quando acordam, ganham p�o com manteiga.

Essas s�o crian�as que nunca viram manteiga,

exceto naquele dia.

Engodo n�o � a palavra certa.

Deve haver uma palavra pior para aquilo.

Se algu�m tivesse vindo duas semanas depois,

n�o havia mais nada.

At� a casa das crian�as estava vazia,

com os carrinhos de beb�.

Crian�as pequenas, de 3 a 6 ou 8 anos...

Estava vazia, n�o havia mais crian�as.

Os balan�os se foram,

os cercadinhos se foram,

os cavalos de balan�o se foram

e as crian�as se foram.

Todas para as c�maras de g�s.

O que aqueles crian�as fizeram para algu�m?

A apresenta��o para a Cruz Vermelha

seria a �ltima do coro.

Pouco tempo depois da delega��o deixar Terezin,

os transportes para o leste foram retomados.

Ap�s a visita da Cruz Vermelha Internacional,

todos foram deportados.

19 mil em 5 semanas,

e eu sabia que minha vez chegaria muito em breve.

Em 15 de outubro de 1944,

o transporte � anunciado.

Quase todo o coro ser� mandado para o leste.

Desta vez, o nome de Rafael Schachter

tamb�m est� na lista.

A maioria dos artistas, pintores e m�sicos

foram no transporte, assim como eu.

Por que foram todos juntos,

ningu�m sabe.

Acho que queriam ter

as pessoas que foram importantes em Terezin

fora de Terezin para ser mortas.

Na manh� seguinte, Schachter e seu coro

s�o amontoados em vag�es de gado

e transportados para o inferno de Auschwitz.

E ent�o fomos empurrados para vag�es de gado

e eles estavam completamente lotados,

mal se podia respirar.

As pessoas n�o se moviam,

elas n�o falavam muito.

Todos pensavam, "Para onde vamos?"

O que h� pela nossa frente?

Ent�o eis Rafael Schachter com uma lata de sardinhas

e ele me diz, "Zdenka, aqui est� o meu prato,

aqui est� o p�o, e aqui est�o as sardinhas.

e esta ser� a minha �ltima ceia."

E ent�o, ele sabia.

Quando da chegada em Auschwitz,

a maioria do coro e dos m�sicos

� mandada direto para a morte.

E com eles, a riqueza cultural de toda uma na��o.

Eu de fato sinto fortemente

que aquela seria a pr�xima gera��o

de grandes compositores tchecos, todos exterminados

em 17 de outubro de 1944.

Em um dia, em um instante,

numa c�mara de g�s em Auschwitz,

aquela pr�xima gera��o de compositores tchecos...

Morta.

Fomos para Auschwitz

em um transporte com 1.500 homens.

Na rampa de Auschwitz para Birkenau,

que era o campo de exterm�nio,

vi Rafael Schachter pela �ltima vez.

Rafael Schachter sobreviveria a Auschwitz

e a mais tr�s campos de concentra��o.

Em mar�o de 1945,

ele morre em uma Marcha da Morte.

Um m�s mais tarde,

a liberta��o chega � Tchecoslov�quia.

Em 4 anos, mais de 140 mil pessoas

foram prisioneiras em Terezin.

33.430 pessoas morreram

dentro dos muros do gueto.

88 mil foram mandadas

para os campos da morte.

15 mil delas eram crian�as.

O TRABALHO LIBERTA

Creio que a grande li��o de Theresienstadt foi,

antes de mais nada, ver os altos e baixos.

O pior do homem e o melhor.

Na m�sica, na interpreta��o,

na reg�ncia, na composi��o,

Se j� vivi no ambiente mais culto e cultural,

foi em Terezin, entre aquelas pessoas.

Lembrem-se daquela �poca,

o que n�s est�vamos passando,

e que algu�m desejou nos ajudar,

e esse algu�m foi Rafael Schachter e os cantores.

Rafael Schachter teve uma influ�ncia...

Uma influ�ncia ben�fica

em milhares de pessoas que devem agradecer a ele

por dar a elas uma recorda��o suport�vel

de Terezin.

N�o sou tanto uma sobrevivente

do Holocausto quanto uma...

Voc� sabe, uma sobrevivente do R�quiem.

Eu n�o apenas sobrevivi ao R�quiem;

eu o recebi como um presente

para carregar comigo por toda a minha vida.

Dedicado a todos os prisioneiros

de Terezin 1941-1945

Tradu��o e sincronia: BethRockefeller

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